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aurelius

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O Espírito Santo perdoa e perfuma

aureliano, 17.05.24

Pentecostes 2020 - 31 de maio.jpg

Solenidade de Pentecostes [19 de maio de 2024]

[Jo 20,19-23] 

UM POUCO DE HISTÓRIA

Inicialmente celebrada pelos israelitas, Pentecostes era a comemoração da colheita dos primeiros frutos do trigo. Porque marcava o 50º dia depois do início da colheita, era, por esse motivo, chamada de Pentecostes. (Confira Ex 23, 14-17; 34, 22; Lv 23,15-21; Dt 16, 9-12). É a festa da colheita. Portanto, tempo de muita alegria e fartura.       

A narrativa de At 2, 1-11 mostra a importância que ganhou na Igreja esta festa. Fazendo uso de um recurso literário, Lucas faz o Pentecostes cristão coincidir com o Pentecostes judaico. O Espírito se manifesta confirmando a missão que os discípulos haviam recebido do Mestre. Pentecostes marca o nascimento da Igreja. É a celebração dos frutos do Ressuscitado: o perdão e a paz que brotam de seu Coração bondoso, superando o egoísmo e a maldade do coração humano.

A MENSAGEM DO EVANGELHO

No próprio dia da Páscoa Jesus vem entregar o Dom do Espírito Santo aos seus discípulos. Este Dom garante a continuação da missão de Jesus no mundo. A missão de dar a paz e de tirar o pecado do mundo: “A paz esteja convosco” (Jo 20, 19); “Aqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados” (Jo 20, 23). É o próprio Jesus agindo por meio de sua Igreja.

“As portas estavam fechadas por medo dos judeus”: Esse relato nos faz pensar no medo que tomava conta dos discípulos antes de serem revestidos do Dom do Pai. Como o medo nos paralisa, nos fecha em nós mesmos, nos impede de servir! O medo é um sentimento que precisa ser assumido e trabalhado em nós. Quando agimos movidos pelo medo fazemos muito mal a nós e aos outros. Medo de assumir um trabalho na comunidade; medo de arriscar; medo de assumir a própria vida; medo de romper com relações que escravizam e destroem a própria vida e a vida dos outros; medo de falar e de viver a verdade; medo movido pela preocupação excessiva com a própria imagem: o que vão pensar ou dizer? Medo de chamar para conversar sobre dificuldades interrrelacionais. Medo da doença, medo da morte, medo de ser abandonado, desprezado, ridicularizado. É preciso vencer o medo! O medo fecha a porta para Deus e para os irmãos! “No mundo tereis tribulações, mas tende coragem: eu venci o mundo!” (Jo 16,33).

Mas há o outro lado da moeda: aqueles que querem impor-se aos outros, causar pânico, intimidar os outros, gritar, esbravejar, calar a boca. Quantas pessoas encontram prazer em provocar medo, em dominar! Querem se impor pela força física, pela pressão psicológica, pelo cargo que exercem, pelas ameaças que fazem, pelo poder financeiro. Há muitas pessoas que sofrem terrivelmente debaixo de gente perversa, dominadora, satânica. Há gente que domina os outros até mesmo servindo-se da religião ou da boa-fé da pessoa. Crianças, mulheres, idosos, pobres, pessoas vulneráveis e indefesas são as principais vítimas dos dominadores e controladores. Um pecado que brada aos céus e pede a Deus vingança! Jesus nunca se impôs aos outros, nunca ameaçou ninguém. Pelo contrário, sempre mostrou-se afável, acolhedor, doador do perdão e da paz.

“Como o Pai me enviou também eu vos envio”. Palavra de Jesus aos discípulos antes de comunicar-lhes do Dom do Espírito Santo. É um elemento essencial na missão. O Pai enviou o Filho para comunicar seu amor ao mundo. Agora o Filho envia aqueles que ele escolheu e consagrou com essa mesma missão: o Pai nos ama e quer salvar a todos. Quer comunicar-nos o perdão e a paz. A Igreja é a mensageira e portadora dessa Boa Nova.

ABRIR O CORAÇÃO PARA A MISSÃO

Ao longo de seu ministério Jesus havia prometido o Espírito Santo aos seus discípulos para auxiliá-los na tarefa que lhes confiaria. Ele teria a missão de inspirá-los, fortalecê-los, lembrar-lhes o que lhes havia ensinado. Desde então lhes restava plantar, pois o Pai garantiria a colheita.

Compete a nós abrir o coração para a ação do Espírito Santo em nossa vida a fim de que nossa vida e nossas comunidades se renovem. Aquele vigor concedido aos primeiros discípulos continua sendo dado a quem se abre à sua ação libertadora. Deixemos o Espírito agir em nós, pois sem a sua força a Igreja fica estéril e confusa, sem ternura e sem missão.

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A FORÇA DO ALTO PERDOA E ANIMA

A festa de Pentecostes tem sua história na comunidade israelita. Inicialmente era o agradecimento a Deus pelos frutos da terra. Uma festa agrícola. Posteriormente foi associada à entrega da Lei no Sinai, tornado-se assim a festa da Aliança de Deus com seu povo.

No cristianismo, Pentecostes celebra a manifestação pública da Igreja. Embora, segundo João, o Espírito Santo seja dado no dia da Páscoa, na Ressurreição, a comunidade lucana a coloca cinquenta dias depois da Páscoa, para evocar e celebrar a manifestação pública da Igreja. Em forma de “línguas de fogo” para dizer do testemunho e da palavra dos discípulos de Jesus manifestando a ação de Deus na pessoa de Jesus de Nazaré. No Sinai foi entregue a Lei a Moisés, escrita em tábuas de pedra. Aqui celebramos a Lei derramada nos nossos corações.

 O evangelho deste domingo mostra a comunidade dos discípulos acuada, medrosa. Os discípulos não tinham iniciativa nem coragem de anunciar a experiência que haviam feito de Jesus. Aquele em quem haviam depositado a esperança frustrou-lhes as expectativas: morrera na cruz como um malfeitor. Porém, a divina “Ruah” do alto, aquele Sopro vital os encheu de novo ânimo, de coragem. Começam então a anunciar, com todo ardor e entusiasmo, aquela realidade que haviam experimentado: a vida de Jesus e a vida em Jesus é o caminho para se viver de maneira justa, alegre e mais feliz.

Soprou sobre eles e disse...”. Esta passagem nos faz lembrar aquele sopro vital que o Criador fez penetrar no homem formado da argila: “Ele insuflou nas suas narinas o hálito da vida, e o homem se tornou um ser vivo” (Gn 2,7). Ou mesmo aquele Sopro de vida de que fala o profeta Ezequiel: “Porei meu sopro em vós para que vivais” (Ez 37,14). Somos cristãos leigos de barro, padres de barro, bispos de barro. É o Sopro Santo de Deus que nos comunica vida. Jesus comunica a nova vida que ele veio trazer do Pai: o Espírito Santificador que nos inspira, nos ilumina, nos fortalece para darmos testemunho da ressurreição do Senhor.

É interessante notar que o Espírito Santo não desceu somente sobre os “Onze”. Ele veio sobre todos que estavam no Cenáculo. Ali havia muitas outras pessoas além dos Apóstolos. O Espírito de Jesus penetra no coração daquelas pessoas e lhes dá novo vigor, novo sentido de vida. Sem o Espírito Santo a vida fica sem sentido, vazia, deslocada daquele centro vital para o qual o Pai nos criou. Desfocada, a vida começa a perder o sentido e o pecado encontra guarida dentro de nós. É a destruição de nossa vida. A alegria dá lugar à tristeza, a paz cede a brigas e intrigas, a partilha perde terreno para o egoísmo, o perdão é substituído pelo desejo de vingança, a fraternidade é suplantada pela dominação e coisificação das pessoas, a fé perde para a dúvida e o ceticismo.  Quando Jesus sopra sobre os discípulos e lhes dá o Espírito Santo com o poder de perdoar os pecados, ele quer mostrar que a missão da Igreja, pela força do Espírito Santo, deve ser a de tirar o pecado do mundo.

O pecado, segundo Pe. Antônio Pagola, é a “força de gravidade que nos impede de ir a Deus”. Muito mais do que culpa, é peso, escravidão. Mais do que falar de perdão, é preciso, pois, falar de libertação. Por isso chamamos a Jesus de Salvador. Nota-se, pois, uma vez mais, que o Evangelho não é um ligeiro verniz que se passa no ser humano, mas é tomá-lo a partir do seu ser mais profundo, assim como é, e tornar possível sua volta para Deus. Este é o primeiro fruto do Espírito de Jesus: a libertação. Este é o Espírito, o Espírito do Filho, o Espírito dos filhos, aquele que nos resgata da escravidão da terra e nos abre o horizonte luminoso de filhos.

Esse Espírito traz e atualiza a novidade de Cristo: “Sem o Espírito Santo, Deus está distante; o Cristo permanece no passado; o evangelho, uma letra morta; a Igreja, uma simples organização; a autoridade, um poder; a missão, uma propaganda; o culto, um arcaísmo; e a ação moral, uma ação de escravos. Mas no Espírito Santo o cosmos é enobrecido pela geração do Reino, o Cristo ressuscitado está presente, o evangelho se faz força do Reino, a Igreja realiza a comunhão trinitária, a autoridade se transforma em serviço, a liturgia é memorial e antecipação, a ação humana se deifica” (Atenágoras I, Patriarca de Constantinopla).

Todos nós sentimos dificuldades. Todos sentimos a fraqueza na fé, a fragilidade da existência, a força do pecado em nós. Por vezes o mal parece prevalecer. O bem fica apagado. Fazemos o bem, nos empenhamos na construção de um mundo melhor, mas parece que nossa luta é em vão. Então peçamos ao Espírito Santo que, como aos discípulos e discípulas no Cenáculo, nos encha de seu amor, de sua luz, de sua força.

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Celebrar Pentecostes é fazer memória da vida de Jesus. No início de sua missão ele foi ungido pelo Espírito Santo para anunciar a Boa Nova aos pobres (cf. Lc 4, 16-21). Durante toda a vida foi conduzido pelo Espírito Santo. Suas ações e palavras eram iluminadas e orientadas pelo Espírito Santo.

Quando na cruz Jesus “entrega o espírito” (cf. Jo 19,30) significa, não que ele morre, mas que ele derrama sobre a humanidade o Espírito que sempre o animou. A morte de Jesus na cruz e seu Coração traspassado são como o vaso de alabastro quebrado pela mulher na unção de Betânia e que perfuma toda a casa (cf. Jo 12,3-8). “Jesus é o frasco que se quebrou e se espalhou pelo mundo inteiro. Quando dizemos ‘vinde Espírito Santo’ não olhamos para o céu ou para o nada, mas olhamos para a cruz de Cristo e pedimos: ‘vinde Espírito Santo, perfuma esse mundo que precisa tanto de ti’” (Ir. Aíla Pinheiro, comentando as Catequeses Mistagógicas dos Padres da Igreja).

Nossa vida cristã deve ser inundada por esse Espírito de Jesus que nos torna parecidos com ele, nos configura a ele. Nossas ações já não são mais das trevas, mas da luz. Movidos pelo Espírito Santo produzimos os frutos que dele procedem: “caridade, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, lealdade, mansidão, continência” (Gl 5,22-23).

Rezemos: Vem Espírito Santo e liberta-nos do pecado, fortalece nossa pequenez, dá-nos tua força contra o mal. Não nos deixes desanimar, desistir de caminhar na direção do bem. Mais do que fazer o bem, ajuda-nos a ser bons, justos, solidários, fraternos. Enche-nos de tua bondade, de tua sabedoria para reproduzirmos em nossa vida as ações de Jesus que “passou pelo mundo fazendo o bem”. Faze que nossa vida manifeste a todos o amor do Pai, prefigurado em Jesus de Nazaré. Amém.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

A missão do discípulo de Jesus

aureliano, 11.05.24

Ascensção do Senhor - A - 24 de maio.jpg

Domingo da Ascensão do Senhor [12 de maio de 2024]

[Mc 16,15-20]

 Este relato evangélico é um acréscimo posterior, de autor desconhecido. Mas ele nos ajuda a perceber que Jesus, ao se manifestar aos discípulos não tem o intuito de, simplesmente, consolá-los, mas de conferir-lhes a missão de levar a Boa Nova a outros povos. Seus discípulos se tornam ponto de referência do juízo de Deus: será salvo quem aceita o Evangelho, isto é, o testemunho que os apóstolos darão do que se realizou em Jesus de Nazaré.

Para ajudar a compreender o que celebramos hoje, proponho refletir sobre três realidades: a Ascensão do Senhor; o Dial Mundial das Comunicações Sociais, e a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. E ainda uma palavra sobre a mães em seu dia, e uma memória de Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento. Vamos lá!

A Ascensão do Senhor: Celebrar a solenidade da Ascensão é levar o ser humano a pensar no seu destino de homem novo, renascido pelo batismo para uma vida nova. A ascensão de Cristo é a nossa ascensão. O Cristo que sobe para junto do Pai permanece junto de nós na força do Espírito Santo. E confia-nos a missão de ser seus continuadores. Se queremos participar com ele da vida eterna precisamos, como ele e com ele, realizar a tarefa de construirmos uma sociedade nova.

Na missão nos é dado realizar os “sinais” de vida:

  1. Expulsar demônios: é combater o poder do mal que prejudica a vida. A vida de muitas pessoas ficou melhor pelo fato de terem entrado na comunidade e de terem começado a viver a Boa Nova da presença de Deus em sua vida. Precisamos trabalhar com a força do Espírito Santo contra as forças do mal que acometem as pessoas. Expulsar os demônios da exploração, da mentira, do consumismo, da dominação, do orgulho, da falsidade, da inveja, da disseminação do ódio e da vingança, da ambição, da corrupção, do comodismo, da omissão.
  2. Falar novas línguas: é começar a comunicar-se com os outros de maneira nova. Às vezes, encontramos uma pessoa que nunca vimos antes, mas parece que já nos conhecemos há muito tempo. É porque falamos a mesma língua, a língua do amor. Aquela palavra que conforta, que encoraja, que anima. Fazer com que prevaleça essa linguagem, que todos entendem. A linguagem do amor não se resume em palavras, mas em gestos, atitudes de vida.
  3. Vencer o veneno: há muita coisa que envenena a convivência. Muita fofoca que estraga o relacionamento entre as pessoas. Quem vive a presença de Deus dá a volta por cima e consegue não ser molestado por este veneno terrível. Há muita coisa envenenada que quer tirar nossa alegria, nossa fé; que quer nos impedir de servir melhor as pessoas, ou mesmo de fazermos das pessoas objeto de jogo, de prazer, de dominação. Peçamos ao Senhor que nos livre desse veneno.
  4. Curar os doentes: em todo canto onde aparece uma consciência mais clara e viva da presença de Deus aparece também um cuidado especial para com as pessoas excluídas e marginalizadas, sobretudo para com os doentes. Aquilo que mais favorece a cura é a pessoa sentir-se acolhida e amada. Nossa sociedade está doente: falta amor, carinho, acolhida. Vamos tornar nossa comunidade mais acolhedora. Olhemos com mais carinho aqueles que não podem vir à igreja, os doentes e idosos. Tanta gente esperando uma presença/visita, uma mensagem de esperança, uma oração que pode curar e confortar!

Celebrar a Ascensão do Senhor é viver com o coração no céu e com os pés na terra. É andar sempre com passos firmes e solidários. É ter a capacidade de perceber a presença do Ressuscitado no irmão que sofre, na comunidade reunida, na vida que refloresce.

Nossa prática é capaz de revelar o rosto de Jesus?  Dois elementos mostram nossa semelhança ao Mestre: o serviço prestado aos sofredores e a proteção divina. O Senhor glorioso não deixa de dar sua força aos que se empenham pelo anúncio de seu Reino. Jesus nos envia para sermos testemunhas de seu evangelho. Os sinais que acompanham o anúncio do evangelho devem continuar gerando admiração e alegria. São os ‘milagres’ descritos por Marcos: pessoas que conseguem livrar-se dos vícios, do fascínio do lucro e da vaidade; comunidades que não se fundam na competição, mas na comunhão; o empenho em abolir as fronteiras humanas da discórdia, da divisão e discriminação; a vivência do matrimônio ou da virgindade em fidelidade evangélica.

Acreditamos a partir do testemunho de fé da comunidade. Não tivemos contato com o Jesus histórico, mas com o evangelho. É importante ler, rezar, estudar os evangelhos: sozinho, através da leitura orante, em pequenos grupos, em comunidade. Somente assim poderemos superar a crise da descrença e da indiferença em que vivemos, hoje. Sendo nós mesmos evangelho vivo. Lembrados do lema de São Carlos de Foucauld: “Gritar o Evangelho com a vida”.

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O Dia Mundial das Comunicações Sociais deste ano tem como tema: “Inteligência artificial e sabedoria do coração: para uma comunicação plenamente humana”. O Santo Padre nos convida a repensar a comunicação para ajudar as pessoas a se encontrarem como irmãos e irmãs para ajuda mútua. O fenômeno da Inteligência Artificial deve ser levado em conta como uma realidade nova da técnica e da ciência que pode construir pontes bem como levantar muros.

Transcrevo dois parágrafos em que o Papa mostra a importância de se compreender bem e de se fazer bom uso da inteligência artificial. Para que se ande em direção segura o Papa alerta para a importância de se ter um coração sábio:

“Neste tempo que corre o risco de ser rico em técnica e pobre em humanidade, a nossa reflexão só pode partir do coração humano. Somente dotando-nos dum olhar espiritual, apenas recuperando uma sabedoria do coração é que poderemos ler e interpretar a novidade do nosso tempo e descobrir o caminho para uma comunicação plenamente humana. O coração, entendido biblicamente como sede da liberdade e das decisões mais importantes da vida, é símbolo de integridade e de unidade, mas evoca também os afetos, os desejos, os sonhos, e sobretudo é o lugar interior do encontro com Deus. Por isso a sabedoria do coração é a virtude que nos permite combinar o todo com as partes, as decisões com as suas consequências, as grandezas com as fragilidades, o passado com o futuro, o eu com o nós.

Esta sabedoria do coração deixa-se encontrar por quem a busca e deixa-se ver a quem a ama; antecipa-se a quem a deseja e vai à procura de quem é digno dela (cf. Sab 6, 12-16). Está com quem aceita conselho (cf. Pr 13, 10), com quem tem um coração dócil, um coração que escuta (cf. 1 Re 3, 9). É um dom do Espírito Santo, que permite ver as coisas com os olhos de Deus, compreender as interligações, as situações, os acontecimentos e descobrir o seu sentido. Sem esta sabedoria, a existência torna-se insípida, pois é precisamente a sabedoria que dá gosto à vida: a sua raiz latina sapere associa-a ao sabor” (Mensagem do Papa Francisco para o 58º Dia das Comunicações Sociais).

Nesse dia seria bom examinar como está nossa comunicação. A começar dentro de nossa casa. Estamos nos entendendo? Paramos para escutar? Comunicamos nossas idas e vindas? Como temos nos comunicado com nossos filhos? Somos verdadeiros, transparentes? A melhor comunicação ainda é a corporal/existencial. A tecnologia ajuda, mas não substitui nossa relação verdadeira. - Ainda mais: Por onde ‘navego’ nas redes sociais? Que tipo de comunicação e relacionamento estabeleço no Instagram, Facebook, Watt Zap e outros? As Redes Sociais são um importante instrumento de comunicação, de informação, de formação e de evangelização. Mas é preciso utilizá-las a partir da sabedoria do Evangelho que gera a “sabedoria do coração”.

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Gostaria de lembrar um acontecimento fundante na Igreja e para a Igreja: A Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos: 12 a 19 de maio de 2024. Com o tema: “Amarás o Senhor teu Deus… e ao teu próximo como a ti mesmo” (Lc 10, 27), o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs promove a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos com o intuito de alimentar e manter no coração dos fiéis cristãos o firme desejo expresso por Jesus para que todos nos mantenhamos unidos a ele e uns aos outros para que o Pai seja glorificado em nossa vida.

“Os cristãos são chamados a agir como Cristo, amando como o Bom Samaritano, mostrando misericórdia e compaixão para com os necessitados, independentemente da sua identidade religiosa, étnica ou social. Não são as identidades compartilhadas que devem nos levar a ajudar o outro, mas o amor ao nosso “próximo”. Entretanto, a visão de amor ao próximo que Jesus nos apresenta está sendo ameaçada no mundo atual. As guerras em muitas regiões, os desequilíbrios nas relações internacionais e as desigualdades geradas pelos ajustes estruturais impostos pelas potências ocidentais ou por outras forças externas inibem a nossa capacidade de amar como Cristo amou. É aprendendo a amar uns aos outros, independentemente das nossas diferenças, que os cristãos podem se tornar próximos como o samaritano do Evangelho” (https://www.cnbb.org.br/semana-de-oracao-pela-unidade-dos-cristaos-2024/).

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Celebramos hoje o Dia das Mães. Seria bom nos lembrarmos neste dia das mães sofredoras. Há mães que não experimentam alegrias neste dia. Talvez experimentem ainda uma dor maior. Que tal fazermos uma oração, enviarmos uma mensagem a alguma mãe sofrida? Mais do que festanças, comilanças e bebedeiras, precisamos caminhar na direção de maior solidariedade! Hoje é dia nos solidarizarmos com as vítimas das tempestades no Rio Grande do Sul. Há muitas mães e filhos passando por dores, desalentos e desesperança. Seria bom uma prece, um minuto de silêncio, uma memória afetiva, um pouco de moderação nas festas em respeito e solidariedade a esses nossos irmãos e irmãs.

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13 de maio: Vamos celebrar, no próximo dia 13, a festa de Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento. É a padroeira de nossa Congregação Sacramentina. A devoção a Maria com esse título começou em 1868, com São Julião Eymard, fundador dos Sacramentinos da Adoração Perpétua. Pe. Júlio Maria, Fundador da Congregação dos Missionários Sacramentinos de Nossa Senhora, divulgou muito essa devoção. Dizia que “a Eucaristia é o prolongamento da Encarnação”. Com isso ele queria dizer que, aquele Jesus nascido de Maria, Filho de Deus, continua na Eucaristia alimentando e animando a missão da Igreja. São João Paulo II vai dizer, mais tarde, que (embora os textos da Escritura não mencionem explicitamente) a Virgem Maria “não podia deixar de estar presente, nas celebrações eucarísticas, no meio dos fiéis da primeira geração cristã, que eram assíduos à ‘fração do pão’ (At 2,47)” (EE, 53). Maria foi uma mulher eucaristizante. Sejamos também nós, a exemplo de Maria, pessoas eucaristizadas e eucaristizantes, trabalhando para um mundo mais humano, mais fraterno, para que todos tenham acesso aos bens da Criação. Uma eucaristia que ajude a diminuir a distância entre ricos e pobres. Uma eucaristia que se empenhe para que não falte o pão na mesa dos pobres. Uma eucaristia que não nos deixe acomodados num “mundanismo espiritual” estéril e sacrílego. Nenhuma família sem casa. Nenhuma família sem terra. Nenhuma família sem trabalho. Nenhuma família sem pão!

TPe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Amar como Jesus amou

aureliano, 03.05.24

6º Domingo da Páscoa - B - 06 de maio.jpg

6º Domingo da Páscoa [05 de maio de 2024]

[Jo 15,9-17]    

Falar em amor nesses nossos tempos tornou-se difícil e ambíguo porque esse conceito tomou várias conotações. De modo geral equivale a relações afetivo-sexuais. Daí a expressão tão corriqueira que a ‘galera’ toda entende: “fazer amor”, que equivale a “fazer sexo”.

O evangelho de hoje nos ajuda a perceber a profundidade do sentido da palavra amor. “Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei. Permanecei no meu amor” (Jo 15,9). Jesus fez a experiência do amor do Pai. O que ele viveu foi expressão de seu amor ao Pai e por nós. Ele não nos amou porque somos amáveis. Mas ele nos tornou amáveis por seu amor. Seu amor nos tornou seus amigos em vez de servos: “Já não vos chamo servos, (...) mas vos chamo amigos porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai” (Jo 15, 15).

O amor que Jesus viveu e ensinou é um amor de doação, desinteressado. Ama pelo outro e não por si mesmo. É como aquela mulher que ama seu marido, mesmo que não tenha lá muitas qualidades, mas porque ela o escolheu como marido. Ou porque tem uma motivação maior, mais sublime: ser sinal da Aliança do Pai com a humanidade. Ou mesmo pelo cuidado e amor para com os filhos etc. Outra imagem também é a de Ricardo Pinheiro, rapaz que morreu na tragédia no Largo do Paissandu, São Paulo, em 2018: antes de se salvar pela corda oferecida pelo Corpo de Bombeiros estava ajudando a resgatar vizinhos. Em uma das vezes foi visto carregando quatro crianças. Mas acabou sendo consumido pelo desabamento do prédio. Também o exemplo da professora Helley de Abreu, da creche incendiada em Janaúba, norte de Minas, em outubro de 2017. Salvou muitas crianças. Terminou vítima de sua própria doação.

Então o amor não significa antes de tudo que nós amamos a Deus, mas que Deus nos amou primeiro dando seu Filho por nós (cf. 1Jo 4,10). É um amor de gratuidade, sem limites. Ele nos amou até o fim (cf. Jo 13,1). Amar é iniciativa de Deus. Para que permaneçamos no amor precisamos de estabelecer uma intimidade profunda com Ele para que seu amor esteja em nós e não desanimemos de amar como Ele nos amou.

É interessante notar ainda que o mandamento do amor ao próximo já estava na Lei Antiga: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19,18). Que novidade então Jesus introduziu? A novidade do mandamento de Jesus está no “como eu vos amei”. Esse “como ele nos amou” é que torna esse mandamento diferenciado, significativo, cristão. É ter a coragem de sair de si e de dar a vida. É amar na gratuidade, sem esperar nada em troca. Ainda mesmo o céu como recompensa! Se Deus não tivesse nada a nos dar, continuaríamos a fazer o bem!

Podemos falar então de um amor como dom e de um amor como missão. O amor como dom é a entrega generosa, gratuita de Deus por nós em Jesus. Já o amor como missão é nossa capacidade de amar, fundada no amor primeiro, o de Jesus. Ele nos dá a missão de fazer multiplicar seu amor no mundo. “Nisto meu Pai é glorificado: que deis muitos frutos e vos torneis meus discípulos” (Jo 15,8).

A dinâmica do amor de Deus também não é geral: amar todo mundo indistintamente, como uma massa informe. Não! Ele ama a todos e a cada um individualmente. Tem uma amizade criadora e íntima para cada um que acolhe seu amor manifestado em Jesus.

O amor por vezes deve enfrentar as potências da morte. O amor defende a vida ameaçada, enfrenta perseguição, suporta desaforo, humilhação e maledicência por causa da justiça, da vida e da paz. Essa dimensão do amor deve ser levada em conta para não pensarmos que o amor é somente uma atitude de benevolência passiva para com alguém. Às vezes precisamos enfrentar perseguição e morte. Jesus dizia: “Se o mundo vos odeia, sabei que primeiro odiou a mim” (Jo 15,18).

No amor de Jesus não há manipulação, dominação ou submissão. É um amor que liberta, que dá autonomia, confiança. Quando Jesus nos envia a produzir frutos não é uma carga pesada que ele coloca em nossos ombros, mas é participação na missão que Ele recebeu do Pai. É comunhão com Jesus e com os irmãos. Onde há comunhão, solidariedade, doação o peso fica mais leve.

Quando Jesus diz “permanecei no meu amor” ele não fala de permanecer em uma religião, mas no seu amor. Significa que, ser cristão não é questão de doutrina, mas de amor. O fundamental da fé cristã é não se desviar do amor. É “guardar seus mandamentos”. O seu mandamento é o amor fraterno. Esse mandamento não pode ser um peso, mas fonte de alegria.

Quando falta o verdadeiro amor, caímos no vazio, na falta de sentido para a vida, na tristeza. Jesus veio preencher nosso vazio de sentido com a alegria verdadeira gerada pelo amor sem medida. É o amor que gera alegria. Sem amor cultiva-se um cristianismo triste, ressentido, pesado, insuportável.

Por vezes em nossas comunidades cristãs sobra tristeza. O peso das normas e leis, da falta de acolhida, da incompreensão, do desejo e busca de poder e de dominação dentro da comunidade, do preconceito e desprezo aos mais pobres e pequenos deixa um rastro de dor, de tristeza, de desencanto. Sente-se também a falta de convicção na fé. É a convicção que nos leva a reproduzir na vida o modo de vida de Jesus, o seu mandamento: “Amai-vos uns aos outros”.

Vamos tornar mais leves nossas relações através de uma fé mais convicta, de um seguimento mais radical a Jesus, de uma atenção e compreensão a cada um na sua necessidade e dificuldade. “Para que a minha alegria esteja em vós”. A fé cristã precisa trazer mais alegria ao mundo e à vida das pessoas, começando pela nossa família, pelos companheiros de trabalho, pelas nossas comunidades.

                Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Deixar-se podar pelo Pai

aureliano, 26.04.24

5º Domingo da Páscoa - B - 02 de maio.jpg

5º Domingo da Páscoa [28 de abril de 2024]

[Jo 15,1-8]       

A alegoria da vinha como o Povo de Deus aparece já no Antigo Testamento: “A vinha do Senhor dos Exércitos é a casa de Israel. Deles esperava o direito, mas o que produziram foi a transgressão” (Is 5, 7). E ainda: “Eu te plantara como uma vinha excelente, toda de cepas legítimas. Como te transformaste para mim em ramos degenerados de uma vinha bastarda?” (Jr 2, 21). Israel, qual vinha de agricultor zeloso, era cuidado por Deus com todo carinho, porém os frutos eram pouco generosos. A infidelidade, a idolatria, impedia a ação de Deus na vida do seu povo.

No relato de hoje Jesus se apresenta como “videira verdadeira” (no domingo passado apresentava-se como bom Pastor). O Pai é o agricultor. Vários cuidados são empregados para que produza frutos: poda dos galhos “bons”; corte e queima dos ramos secos; permanecer ligado ao tronco; produzir frutos.

O essencial deste relato é o “permanecer”. Este verbo aparece oito vezes nestes poucos versículos. Percebemos aí a importância da ligação com Jesus. Sem uma vida de encontro profundo com Cristo ressuscitado que faça com que a vida de Cristo corra em nossas veias, não haverá produção abundante de frutos. Galho seco agarrado ao tronco não serve para nada. Rama de uva cheia de folhas, mas sem nenhuma uva, não serve para nada. As palavras do Mestre devem “permanecer” em nós. Vida de oração é manter-se “plugado” a Jesus na busca permanente da vontade do Pai. É vida de permanente comunhão e intimidade com Deus.

As palavras de Jesus: “Sem mim nada podeis fazer”, nos remete a uma realidade que vivemos hoje de desconhecimento da pessoa de Jesus e do desejo prometéico incutido no coração e na mente humana de autossuficiência e de autorreferencialidade. O ser humano caminha para o caos levado pelo desejo da absoluta autonomia e independência. Julga-se o senhor de tudo e de todos. Prescinde cada vez mais da experiência de fé e de fraternidade. As crises morais, existenciais, hídricas (sic!), étnicas, culturais, econômicas que vivemos estão profundamente vinculadas à autossuficiência humana. Sem a referência a Jesus e aos valores vividos e ensinados por ele, não é possível uma transformação social que perdure.

Ainda mais. O tronco é Jesus. Nós somos os ramos. Ninguém pode ter a petulância de se colocar como tronco: dono da verdade, dono do poder, dono das pessoas, dono do dinheiro, dono das decisões, dono da comunidade. O ensinamento de Jesus quer incutir em nós a igualdade na comunidade. Todos somos ramos. Cuidado com o poder (da hierarquia e da política, do mercado e do dinheiro) que por vezes seca os ramos ou se enche de folhagem inútil! É preciso levar os ramos a se ligarem profundamente ao Tronco para que produzam frutos.

Sem cultivo da intimidade com Jesus Cristo, colocando-o como centro de nossa vida e de nossas decisões, corremos o risco de reduzir nossa fé a um folclore, a um ritualismo vazio, a uma relação comercial com uma realidade sagrada que denominamos deus. Então nos tornaremos galho seco ou ramo enfeitado, mas vazio daquilo que é essencial: frutos, uva doce, atitude que dê sabor à vida dos outros. Enganamos os outros, exploramos sem escrúpulo, azedamos a vida daqueles que nos circundam e machucamos aqueles que nos buscam.

Os frutos que devem ser produzidos são claros: crer em Jesus e amar uns aos outros (cf. 1Jo 3, 23). É o resultado do permanecer em Deus que, consequentemente, produz frutos.

As podas que o Pai faz são integrantes do processo de cultivo e produção. Elas ajudam a produzir. Por isso precisamos estar abertos a outras possibilidades: abertura ao novo, diálogo, correção fraterna, abrir mão das próprias idéias, conviver com diferenças, ser mais tolerante, superar preconceito de raça, religião, condição social ou orientação sexual. As podas não são necessariamente provação vazia, perseguição inócua; elas são graça de Deus para produzirmos frutos. É deixar o Pai arrancar de nós aqueles excessos que nos impedem de ser melhores.

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Quando Jesus chama seu Pai de “agricultor”, ele derruba essa imagem que insistem em incutir em nós de um Deus todo poderoso e distante, juiz implacável, alguém que nos ameaça constantemente. Agricultor: aquele que cuida do campo, das plantas, que cultiva a terra. Ele nos deu seu filho Jesus como “verdadeira videira”. Quem quiser produzir frutos bons precisa permanecer nessa videira e deixar-se cultivar, limpar, podar pelo Pai/Agricultor.

Os ramos devem produzir frutos. Do contrário precisam ser cortados. Não adianta estar grudado na videira e permanecer seco, sem vida, sem fruto. O ramo seco é retirado. Os ramos verdes são limpos, podados para produzir ainda mais.

O Pai/Agricultor nos limpa e faz produzir frutos com que instrumento? A Palavra de seu filho Jesus. Ela é viva e eficaz. A palavra de Jesus mexe com a vida da gente. Ela nos incomoda e desacomoda. Ela nos tira de nós mesmos, de nosso egoísmo e fechamento. Ela nos purifica dos desejos de grandeza, de um coração ganancioso, da busca de ser mais do que outros.

Somos todos ramos. Não tem ninguém mais do que ninguém. Seja cristão leigo, seja padre, seja bispo, todos somos ramos. Jesus é o tronco. O que mais importa é estarmos plugados nele. Esse verbo “permanecer” que aparece várias vezes nesse capítulo 15 de João insiste em nos dizer que o mais importante na vida cristã é permanecer em Jesus. A grande luta de todos nós deve ser a de permanecer em Jesus. Não buscarmos nas coisas e nas pessoas razões para vivermos. Jesus é o sentido e orientação absolutos de nossa vida. “Sem mim nada podeis fazer”.

Oração: Pai, ajuda-nos a reconhecer nossa pequenez, nossos excessos, nossa infidelidade. Faze com que tua vida penetre cada vez mais em nós para que não sejamos ramos secos, desligados de ti e dos irmãos, nem ramagem formosa, mas improdutiva. Enche-nos de teu amor e de tua vida. Amém.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Importa dar a vida por mais vida

aureliano, 19.04.24

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4º Domingo da Páscoa [21 de abril de 2024]

[Jo 10,11-18] 

O quarto domingo da Páscoa sempre traz o tema do Bom Pastor. A comunidade de Israel estava habituada a lidar com a imagem de pastor porque era um povo de pastores de ovelhas e cabras. Um grande pastor que se tornou ícone para a comunidade israelita foi Davi. De simples pastor do rebanho de seu pai, tornou-se rei de Israel e Judá. Ainda jovem salvou o rebanho de seu pai enfrentando o leão, arriscando sua própria vida (cf. 1Sm 17,34-37).

Houve outros líderes da comunidade, além de Davi, que foram pastores como Moisés e Saul. Com o passar do tempo os chefes de Israel eram tidos como pastores. Mas a maioria portava-se como mercenária. Os profetas levantaram a voz contra estes tais: “Ai dos pastores de Israel que apascentam a si mesmos! Não é o rebanho que eles devem apascentar? Comeis as partes gordas, vos vestis com a lã, sacrificando os animais cevados; mas o rebanho, não o apascentais” (Ez 34, 2-3).

Num tempo em que começaram a haver desentendimentos nas primeiras comunidades cristãs acerca da compreensão de liderança, o relato de hoje quer mostrar que Jesus não é ‘um’ pastor, mas ele é ‘o’ Pastor. Os olhares e os corações devem se voltar para ele. A liderança religiosa deve se inspirar nele, permitir que ele, Jesus, pastoreie as comunidades.

Jesus é o Bom Pastor. Ele tem coragem de dar a vida “livremente”. Ele é a “porta” do curral: não prende, não fecha. Ele veio libertar das garras dos lobos e mercenários. Ele enfrenta o lobo, cura as feridas, protege as ovelhas tornando-as autônomas e protagonistas. Enfrenta a morte “para que todos tenham vida”.

Algumas considerações:

  1. O mercenário não se interessa pelas ovelhas, pois busca seu próprio interesse. Há mercenários na política e na religião que continuam confundindo e explorando os pobres e simples, enganando com promessas de solução fácil. Só enganam e exploram os incautos. É preciso ter cuidado!
  2. Hoje é o dia das Pastorais da Igreja. Estas são um modo de Jesus pastorear seu rebanho. Um modo de servir às várias necessidades das comunidades. Pastoral do batismo, da liturgia, da catequese, da criança, das vocações, da mulher marginalizada, do menor, dos encarcerados etc. Não se trata de uma mera organização. Trata-se de um modo de serviço, a partir de Jesus, dentro da Igreja, às várias necessidades das pessoas. É importante assumir esse serviço como um ‘lavar os pés’. Jamais como meio de autopromoção, de desfile dentro do templo nos corredores e presbitérios a cata de aplausos e reconhecimento. Há pessoas na liderança da comunidade (padres e leigos) que vivem buscando vantagens, lucros, em constante competição, atrás de benesses sociais e financeiras. Contemplemos os gestos do Bom Pastor...
  3. Há muitas formas de ser pastor: pastores devem ser os pais, os professores, os chefes de órgãos públicos. Como você está exercendo seu serviço? Suas atitudes se aproximam mais das de Jesus ou das atitudes do mercenário? Qual é o grau de seu interesse pela pessoa humana? De que modo você manifesta isso?
  4. Ovelhas ou protagonistas? Em tempos de aprofundamento e vivência do laicato na Igreja, uma pergunta se faz necessária e oportuna: como anda o protagonismo do cristão leigo em contraposição à submissão da ovelha? Os pastores enfrentam o grande desafio de conhecer e compreender a nova situação do leigo. Para isso precisam conhecer os verdadeiros anseios que estão no coração de todas as pessoas tanto rurais como urbanas. Devem conhecer suas angústias, seus desejos e frustrações. Já as ovelhas: que se decidam a ser protagonistas de suas vidas, para que a decisão de seguir o Bom Pastor não seja apenas um ato de acompanhamento da massa, mas a  decisão livre e corajosa de construir o Reino de Deus junto ao Bom Pastor, para um mundo mais justo, fraterno e acolhedor.
  5. Reforçando essa ideia do pastoreio, gostaria de enfatizar ainda o seguinte: Jesus é o “bom Pastor” porque ele “dá a vida”. Não pode vir em primeiro lugar a ideia de que pastor é o organizador, o controlador, o coordenador, o mantenedor da ordem, o zelador da doutrina e das normas litúrgicas. A partir de Jesus, deve vir em primeiro lugar a disposição de “dar a vida” para aliviar o sofrimento e transmitir a alegria de viver. Não foi isso que Jesus fez? Então pastor/pastora é todo aquele/a que está disposto a sair de si, a doar a vida, a cuidar dos sofredores, a aliviar a dor, a acolher, a curar as feridas, a carregar nos ombros, a zelar pelas ovelhas mais sofridas e abandonadas. É em consequência disso e para o maior bem do rebanho que ele vai se preocupar com a doutrina e o ensinamento. Jesus é o “bom pastor” não por saber governar e guiar melhor do que os outros, mas porque “amou até o fim”, porque foi capaz de empenhar a sua vida pelo rebanho.

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É oportuno também, neste dia do Bom Pastor, refletir sobre a Mensagem da CNBB ao Povo Brasileiro por ocasião da 61ª Assembleia em Aparecida. Eles são nossos Pastores.

“O passado recente nos ensina que a busca de soluções para o Brasil passa necessariamente pelo diálogo e pelo entendimento. Muito do que superamos deveu-se à articulação entre agentes lúcidos e cidadãos compromissados com a vida, a democracia e o país. As instituições brasileiras e a sociedade civil são fundamentais nesse processo. Os três poderes da República são instados a viver o que preconiza a Constituição. Independência e harmonia não são opções de momento, são deveres permanentes e irrenunciáveis.

Na sociedade do diálogo, a paz é um imperativo. O primeiro dom do Ressuscitado foi de que a paz estivesse no nosso meio (cf. João 20,21). Papa Francisco recorda que a paz, por ação da força “mansa e santa” dos que creem, deve ser buscada como forma de “se opor ao ódio da guerra” (Papa Francisco, 1º. de janeiro de 2024). Desejamos paz para os inúmeros países em guerra, cujas consequências são milhares de mortes e milhões de deslocados e refugiados. Os gastos militares em 2023 foram os mais altos desde a Segunda Guerra Mundial, enquanto a fome cresceu e alcança parcela significativa da população mundial” (Mensagem dos Bispos Católicos ao Povo Brasileiro).

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Nesse Domingo a Igreja é convidada a rezar pelas vocações. Há vários anos que o Papa escreve uma mensagem motivando a oração pelas vocações. Na mensagem para este ano Francisco recomenda a gratidão, a esperança e a oração. Agradecer pelos que dizem um sim generoso cotidianamente, incansavelmente: na família ou na vida consagrada. Alimentarmos a esperança que nos ilumina e inspira nas incertezas e escuridão da vida. E rezarmos pelas vocações, pedindo ao Senhor da messe que desperte em nossos jovens o desejo de seguir a Jesus, de se deixar fascinar por ele.

“Este Dia proporciona-nos sempre uma boa ocasião para recordar, com gratidão, diante do Senhor o compromisso fiel, quotidiano e muitas vezes escondido daqueles que abraçaram uma vocação que envolve toda a sua vida. Penso nas mães e nos pais que não olham primeiro para si mesmos, nem seguem a tendência dum estilo superficial, mas organizam a sua existência cuidando das relações com amor e gratuidade, abrindo-se ao dom da vida e pondo-se ao serviço dos filhos e seu crescimento. Penso em todos aqueles que realizam, dedicadamente e em espírito de colaboração, o seu trabalho; naqueles que, em diferentes campos e de vários modos, se empenham por construir um mundo mais justo, uma economia mais solidária, uma política mais equitativa, uma sociedade mais humana, isto é, em todos os homens e mulheres de boa vontade que se dedicam ao bem comum. Penso nas pessoas consagradas, que oferecem a sua existência ao Senhor quer no silêncio da oração quer na atividade apostólica, às vezes na linha de vanguarda e sem poupar energias, servindo com criatividade o seu carisma e colocando-o à disposição de quantos encontram. E penso naqueles que acolheram a chamada ao sacerdócio ordenado, se dedicam ao anúncio do Evangelho, repartem a sua vida – juntamente com o Pão Eucarístico – pelos irmãos, semeiam esperança e mostram a todos a beleza do Reino de Deus. (Mensagem do Papa Francisco para o 61º Dia Mundial de Oração pelas Vocações).

Refletindo: Você reza pelas vocações? O que você faz para que mais pessoas tenham a coragem de dar seu sim generoso ao chamado do Pai para um serviço específico na Igreja como padre, religioso, religiosa? Precisamos pedir ao Pai que “envie trabalhadores para a messe”. E, junto à oração, incentivar e apoiar aqueles que se dispõem a entrar nesse caminho.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

José Lopes: portas sempre abertas aos pobres

aureliano, 13.04.24

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Neste dia 13 de abril de 2024 celebramos o 2º ano de Páscoa definitiva de meu pai, José Lopes de Lima. Ele viveu uma vida configurada a Cristo crucificado e ressuscitado. Como registra seu primeiro livrinho que, aliás, lhe trouxe grande alegria: “Lutas e vitórias de uma vida”.

Ainda esses dias estava escutando meus irmãos, mais novos e mais velhos, relatando histórias do papai: estava sempre de portas abertas acolhendo visitas, andarilhos, pessoas pobres e sofredoras. Sempre com as portas da casa e do coração abertas para recebê-los, sem nenhum receio, preconceito ou constrangimento.

Nós mesmos ficávamos com medo das pessoas que chegavam, pois eram um tanto estranhas para nós. Mas ele não tinha receio. Acolhia, oferecia o que tinha para matar a fome, deixava que dormissem lá em casa. Sem receio nenhum.

Papai sempre confiou na Providência divina. Poderia afirmar que papai não era ingênuo, era confiante em Deus. Ele entregava tudo, absolutamente tudo nas mãos de Deus. Suas últimas palavras registradas por um irmão (Gabriel) foram: “Estamos todos juntos nas mãos de Deus”.

Ele nunca se preocupou com os filhos que o visitavam e partiam em viagem de retorno. Não procurava saber onde estavam, se tinham chegado bem etc. Certa vez, perguntado sobre isso, respondeu: “Meus filhos estão nas mãos de Deus. Mesmo se acontecer algum acidente ou tragédia, não me preocupo: estão nas mãos de Deus”.

Mas voltando ao assunto das “portas abertas”, lá em casa, para quem quer que chegasse, veio-me à memória, nesses dias de celebração pascal, a consideração das “portas fechadas” onde se encontravam os discípulos de Jesus. Eles estavam com as portas fechadas por medo. Jesus entra, mesmo estando as portas fechadas, e tira-lhes o medo com o dom da paz, do perdão e do Espírito Santo. Jesus ressuscitado lhes dá novo vigor, encoraja-lhes o coração, enche sua vida de alegria em meio às dores e angústias que experimentavam pela morte trágica de Jesus, o mestre em quem sempre confiaram.

Usando, pois, a metáfora da porta, estava me recordando que o papai nunca manteve nada trancado, escondido, fechado. Quarto, pastas e cadernos, lugar de guardar o dinheiro (o pouco que tinha), gavetas, guarda-roupas (celular e computador nos últimos anos de vida). Tudo lá em casa era aberto. Não havia segredo. Ainda me lembro que, quando era criança, havia uma latinha empretecida pelo tempo, sem tampa, sobre uma tábua/prateleira, acima do banco da cozinha, onde ele guardava o dinheiro (quando tinha).

A casa de meu pai tinha as portas abertas. Ele não tinha medo de nada nem de ninguém. Não era valente. Era confiante. Seu refúgio e rocha firme era o Senhor: “O Senhor é minha rocha e minha fortaleza, quem me liberta é o meu Deus. Nele me abrigo, meu rochedo, meu escudo e minha força salvadora, minha torre forte e meu refúgio” (Sl 18,3).

E a Mãe, Maria, sua companheira inseparável. Quando era criança, quantas vezes o ouvia rezar o “Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria”, de São Bernardo, enquanto fazia o café da manhã, no fogão a lenha. Quando não tinha pó de café, era água doce de rapadura. Não desesperava, não desanimava. Seguia seu caminho.

O pouco que possuía “não era seu”. Como nos lembra Atos dos Apóstolos: “Ninguém considerava exclusivamente seu o que possuía, mas tudo entre eles era comum” (At 4,32). Ficava zangado quando alguém tomava uma ferramenta emprestada e não devolvia ou devolvia quebrada. Mas não deixava de emprestar. E nunca deixou de ajudar com alimento a quem precisava.

Agora, um detalhe curioso é que as pessoas que às vezes pediam hospedagem lá em casa eram bem pobres e por vezes, com alguma deficiência mental. E o papai recebia esse povo como a qualquer outro. Sem cerimônia nem enfeite. A pessoa partilhava de nossa vida: da pobreza, das pulgas (que não faltavam), da comida (simples: abóbora, feijão, arroz, angu, ovo frito - quando tinha, pois carne era coisa raríssima nos tempos idos), das roupas de cama. Não tinha nada de especial senão aquele jeito de receber as pessoas com a porta aberta, o coração aberto e a casa aberta.

Quando dizemos que o papai fez a Páscoa definitiva significa que ele viveu uma vida pascal, como ressuscitado, de pé, com as portas abertas, sem medo de testemunhar o amor de Deus, cuidando dos pequenos e sofredores como Jesus ensinou. Não pode fazer páscoa definitiva quem não vive a vida de Jesus.

E a mamãe? Tadinha. Estava por ali. Nunca se opôs que papai realizasse o gesto samaritano. Como ela nunca foi proativa devido aos limites que lhe impunham a enfermidade, dava o apoio que lhe era possível. Quando estava de bom humor e “seu anjo da guarda combinava com o da visita”, “cerrava um papo”. Senão, ficava no quarto, quietinha.

Viver como ressuscitado é viver de portas abertas, em espírito de acolhida a pessoas que nem sempre correspondem ao nosso afeto. Viver como ressuscitado é viver a amizade social alargando nossa tenda a fim de que outros possam aí se abrigar da chuva e do sol, das intempéries da vida. É abrir o coração para doar um pouco de afeto, de atenção, de cuidados para com os pequenos e sofredores.

Papai foi um homem que nos ensinou com sua vida o desprendimento, a partilha, a solidariedade, o espírito de oração, a não discriminação, a não fazer distinção de pessoas. Qualquer um que chegasse lá em casa tinha o mesmo tratamento, a mesma acolhida.

Pe. Anchieta, o irmão mais velho, que fora adolescente para o seminário, sempre levava visitas lá em casa. As coisas que tinham na casa eram sempre as mesmas para todos. E cada um chegava e se ajeitava. Ninguém tinha privilégio. Nem os filhos. Papai estabeleceu um regime igualitário para os filhos e visitantes.

Papai foi um homem honesto. Viveu pobremente, morreu sem ter nada de próprio. O pouco que herdara de seus pais, distribuíra com os filhos. Tomou prejuízo em serviço e negócios. Mas nunca prejudicou a ninguém. E um pequeno recurso que deixou na poupança, já dissera à Maria Marta, irmã mais velha que zelava por e pela mamãe: “É para os cuidados para com a Juracy”. E assim foi feito. Deu para cuidar muito bem da mamãe durante os quase dois anos que ela sobrevivera a ele. Todas as despesas foram pagas, inclusive os funerais, com aquele dinheirinho abençoado. Graças a Deus.

E essa atitude de estar com as portas abertas aos sofredores que pediam comida ou hospedagem marcou nosso coração. Na ocasião a gente não entendia, mas hoje fazemos a leitura de como ele vivia o evangelho: “Cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25,40). Papai tinha um coração compadecido pelos pobres.

E assim o ele nos ensinava a viver. Seus exemplos ecoam em nossa vida, em nossos corações. Um adágio latino reza assim: “Verba volant. Exempla trahunt”. (As palavras voam. Os exemplos arrastam). Papai era de poucas palavras. Ia à nossa frente. E nós tentando ir atrás dele. E ele atrás de Jesus. Uma vida pascal na terra. Plenificada na eternidade.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Uma vida que fascina e atrai

aureliano, 12.04.24

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3º Domingo da Páscoa [14 de abril de 2024]

[Lc 24,35-48]

Crer na ressurreição de Jesus não é algo fácil, que acontece de um dia para outro. Quando se diz ‘crer na’, quer-se dizer “entregar-se confiante” a Cristo e assumir uma postura de vida cada vez mais parecida com a de Jesus. Isso é que é ‘ter fé’. Não é crer na narrativa do evangelho como um fato jornalístico, histórico, literário etc. Mas crer que esse acontecimento muda minha história, nossa história. Abre-nos um novo horizonte de vida e de compreensão da realidade. Um acontecimento que, vivido, constrói um mundo mais humano e justo.

A comunidade estava assustada, perdida, sem saber o que fazer. Dois discípulos chegam e começam a contar a experiência que tiveram: “O que tinha acontecido no caminho, e como tinham reconhecido Jesus ao partir o pão”.

O próprio Jesus se manifesta a eles com o dom da paz. Mas ainda pensavam que fosse um fantasma. Porém Jesus continua insistindo, comendo do peixe, mostrando-lhes as mãos e os pés. Ou seja, quer lhes dizer que é ele mesmo, o mesmo que havia caminhado com eles pela Palestina e que tinha sido pregado na cruz.

Somente depois de lhes explicar as Escrituras é que “abriu a inteligência deles” (Lc 24,45). As Escrituras aquecem o coração e iluminam a mente. No caminho de Emaús, Jesus explicava-lhes as Escrituras. Depois disseram: “Não ardia o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?” (Lc 24, 32). A tristeza não lhes fechou o coração, pois havia neles um sincero desejo de seguimento. É importante alimentar o bom desejo no coração: é porta de entrada para Deus.

Não podemos perder de vista aqui a menção ao “caminho”. É um conceito que lembra a itinerância durante a qual o ser humano vai aprendendo a caminhar, a entender o sentido da vida, vai amadurecendo sua experiência de fé. É lugar também de encruzilhadas, de curvas, de tropeços etc. É lugar de riscos, de ameaças, de tentações, de seduções, de decisões. A ‘Resposta’ (que é Jesus) se aproxima, entra na conversa, anima, ilumina a mente e ajuda a enxergar. É preciso estar atento aos ‘sinais’ de Deus no caminho.

Ninguém nasce pronto. Ninguém está acabado, mas faz processo de aprendizado, de discipulado, de experiência de Deus. Por isso os discípulos estavam ainda com medo e perturbados. Ainda estavam a caminho. Estavam na itinerância da fé.

Assim acontece conosco. No princípio nasce um desejo. Depois esse desejo começa a amadurecer na simplicidade e na humildade. E perguntamos com os discípulos: ‘Será verdade um mistério tão grande?’. É algo que está muito acima de nós, é infinitamente maior do que nós. Por isso mesmo nos toma, nos envolve, nos fascina, nos encanta, nos atrai.

Então nos tornamos discípulos missionários. É Jesus que nos faz “testemunhas de tudo isso”. A iniciativa é dele. A resposta é nossa. Se nos deixamos instruir por ele, se nos deixamos perdoar por ele, se nos deixamos converter, a força dele faz de nós discípulos missionários do Reino que ele deixou no meio de nós.

Nossa fraqueza não será mais obstáculo para a ação dele em nós. Ele fará de nós instrumentos de conversão e salvação da humanidade. Nosso povo não quer saber de mestres, de palavras, de ensinamentos vazios, mas de testemunho. É preciso mostrar ao mundo nossa alegria de crer em Jesus, nossa firmeza em seu ensinamento, nossa vida coerente com o que dizemos crer, nosso olhar de misericórdia sobre o pobre e indefeso. O mundo quer e precisa de testemunhas mais do que de mestres. Dizia o Papa São Paulo VI: “Por força deste testemunho sem palavras, estes cristãos fazem aflorar no coração daqueles que os vêem viver, perguntas indeclináveis: Por que é que eles são assim? Por que é que eles vivem daquela maneira? O que é – ou quem é – que os inspira? Por que é que eles estão conosco?  (EN, 21). Nosso modo de viver deve encantar e atrair as pessoas para Cristo.

Nota importante: A expressão “era preciso” do evangelho de hoje e presente em muitos outros textos evangélicos, precisa ser bem entendida. Muitos pensam tratar-se de um destino, uma predeterminação do Pai de que Jesus tinha de morrer violentamente. Um determinismo absoluto como se Deus fosse um masoquista que tem prazer em ver a pessoa sofrer. Isso dá margem a uma ideia errônea de Deus e negaria a liberdade em Jesus. Trata-se de um modo de compreender a história da salvação. Jesus compreende como um apelo à obediência ao plano de Deus ao qual ele quer manter-se fiel até o fim: “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). Essa fidelidade lhe acarretou o sofrimento, a perseguição, a morte.

A essa vontade salvífica de Deus está submetida também a comunidade dos discípulos. Eles também enfrentarão sofrimento e morte por causa da fé comprometida com o Reino inaugurado por Jesus. O que conta aqui é que o Pai é o garante da realização da salvação, por isso não abandona seu Filho na morte, mas o ressuscita. O mesmo faz com todos aqueles que vivem como ele viveu. Isso é ressurreição!

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NOSSAS EUCARISTIAS E SUAS CONSEQUÊNCIAS

Foi no “partir o pão” que eles reconheceram o Senhor. A esse propósito é oportuno recordar uma exortação de São João Crisóstomo a respeito das consequências da Eucaristia na vida do discípulo de Jesus:

“De que serve ornar de vasos de ouro a mesa do Cristo, se ele mesmo morre de fome? Começa por alimentá-lo quando está faminto, e então poderás decorar sua mesa com o supérfluo. Dize-me: se, vendo alguém privado do sustento indispensável, o deixasses em jejum e fosses enfeitar sua mesa com vasos de ouro, achas que ele te seria agradecido? Ou não ficaria indignado? Ou ainda, se vendo-o vestido de andrajos e trêmulo de frio, o deixasses sem roupa para erigir-lhe monumentos de ouro, pretendendo assim honrá-lo, não diria ele que estarias zombando dele com a mais refinada ironia?

Confessa a ti mesmo que ages assim com o Cristo, quando ele é peregrino, estrangeiro e está sem abrigo, e tu, em lugar de recebê-lo, decoras os pavimentos, as paredes e os capitéis das colunas. Suspendes candelabros com correntes de prata, e quando ele está acorrentado, não vais consolá-lo. Não digo isto para reprovar esses ornamentos, mas afirmo que é necessário fazer uma coisa sem omitir a outra; ou melhor, que se deve começar por esta, isto é, por socorrer o pobre”.

Esta exortação do “Boca de Ouro” do século IV em Antioquia/Constantinopla deveria retumbar naquelas realidades de nossas comunidades que promovem leilões, bingos, festas, quermesses e dízimo em função preponderantemente de construções, obras e reformas, ou mesmo para ornamentos e materiais litúrgicos de preços exorbitantes, reservando-se, por vezes, uma migalha para ações sociais e missionárias. A postura e as homilias de Crisóstomo deveriam ser retomadas em nossas paróquias e comunidades!

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

A comunidade brota e se alimenta do Ressuscitado

aureliano, 05.04.24

2º Domingo da Páscoa - B - 08 de abril.jpg

2º Domingo da Páscoa [07 de abril de 2024]

 [Jo 20,19-31]

O evangelho narra a aparição de Jesus aos Apóstolos no dia da Páscoa, primeiro dia da semana, e o episódio de Tomé oito dias depois. Por isso, ao primeiro dia da semana, chamamos Domingo: o dia do Senhor. É o dia da Ressurreição de Jesus, dia da Criação, dia do descanso do Homem/Mulher criados por Deus à sua imagem. Dia em que a comunidade cristã se reúne para dar graças ao Pai na celebração eucarística.

O relato mostra a identidade entre aquele que ressuscitou e o que foi crucificado. Por isso o Ressuscitado mostra a Tomé as marcas da paixão. Tomé representa a comunidade que duvida e que depois acredita. Aqueles que devem crer no testemunho dos apóstolos. Se no início a comunidade é acometida pelo medo, agora é tomada pelo novo vigor e alegria de crer no Cristo ressuscitado, presente em seu meio.

“Bem-aventurados os que crerem sem terem visto”. Em vez de provas palpáveis, nos é transmitido o testemunho escrito das testemunhas oculares de tudo quanto Jesus fez e ensinou. Vivemos num mundo em que se exigem provas para se acreditar. Muitos correm atrás de “milagres”. Se para acreditar precisamos de provas, de sinais do céu, restar-nos-ia acreditar em quê? Nossa fé não vem de provas palpáveis, mas das “testemunhas designadas por Deus” (At 10, 41). Nós acreditamos naquelas realidades que elas acreditaram e no-las anunciaram. Sabemos que seremos felizes se crermos sem ter visto.

Acreditamos na comunidade que os Apóstolos fundaram a partir da fé na ressurreição. É nesta comunidade que somos iniciados na fé, no discipulado. “A fé e o tesouro da mensagem evangélica são realidades que não se recebem pessoalmente, mas através da comunidade. A iniciação cristã pressupõe uma comunidade de fé” (Dom A. Possamai). Não é possível ser cristão sem estar inserido numa comunidade de fé. Nossa fé não é privada, mas apostólica e eclesial. “Para ser fiel a Cristo não basta orar e celebrar; é preciso fazer o que ele fez: repartir a vida com os irmãos. Crer não é somente aceitar verdades. É agir segundo a verdade do ser discípulo e seguidor de Cristo” (Pe. J. Konings).

Mais. Enquanto Tomé não fizera o encontro com o Senhor Ressuscitado tocando-lhe a chaga, não acreditara naquele a quem seguira por anos. O texto não diz que Tomé tocou a chaga do Mestre, mas permite perceber que ele a vira: “Estende tua mão e põe-na no meu lado... Porque viste, creste...” (Jo 20,27.29). Concluímos que, somente aquele que “tocar” a chaga do Ressuscitado poderá fazer uma profissão de fé que brota de dentro, isto é, verdadeira e comprometida. E que “chaga” é esta? Os pobres, preferidos do Senhor com quem ele se identifica: “Cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25,40). Em outras palavras: quem diz crer em Jesus Ressuscitado e não o reconhece (“toca”) nos pobres e sofredores, mostra uma fé cristã imatura e inadequada. E se Tomé representa a comunidade cristã, o que foi dito vale para a comunidade que se diz cristã, mas não “toca” os pobres.

A propósito ainda de Tomé, esta figura controvertida do evangelho de João, podemos afirmar que suas dúvidas e objeções transformaram-se em bênçãos para nós. Quando na Ceia Jesus afirmou: “Para onde eu vou, vós já conheceis o caminho”, Tomé responde: “Senhor, não sabemos para onde vais; como podemos conhecer o caminho?” Esta objeção de Tomé arrancou de Jesus uma das mais sublimes palavras do evangelho: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,4-6). São Gregório Magno, a propósito de Tomé, escreveu em uma de suas homilias: “A incredulidade de Tomé foi para nós mais útil do que a fé dos discípulos que haviam acreditado”. Suas dúvidas beneficiaram a fé na ressurreição.

Mais um pouquinho de Tomé. O Mestre, naquele encontro com seu apóstolo “incrédulo”, faz com que eleve seu nível de fé. Restabelecido pela presença do Ressuscitado, Tomé pronuncia aquelas palavras que ainda nenhum apóstolo atrevera a dizer, ao menos que se tenha registrado nos Evangelhos, a respeito de Jesus: “Meu Senhor e meu Deus”.

Peçamos ao Senhor que nos ajude na nossa pouca fé para que as sombras da dúvida, as incertezas e mesmo a perseguição ou o fracasso não nos dominem impedindo de levar a alegria da boa nova àqueles que jazem no desencanto, na desesperança, no isolamento. A experiência do encontro com o Ressuscitado deu novo vigor à comunidade para que pudesse continuar a missão de Jesus. E, já que não podemos “tocar” ou “ver” as chagas do Ressuscitado, Ele, como fizera ao leproso que lhe suplicara: “Senhor, se queres podes curar-me”, ao que responde: “Quero; fica curado!” (cf. Mt 8,2-3), toque e cure nossas chagas, incontestavelmente diversas das suas, pois produzidas pelo pecado ou pela nossa própria condição humana. Que a Eucaristia que celebramos, encontro com o Ressuscitado, nos liberte do medo, nos encha de alegria e de ardor para partilharmos com os mais necessitados o pão, a palavra, o afeto, a acolhida, a solidariedade, o perdão.

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UM ENCONTRO QUE TRANSFORMA

O evangelho deste domingo nos convida a lançar um olhar sobre nossas assembleias dominicais: como celebramos e que sentido continua tendo o domingo para nós cristãos? As celebrações não precisam ser teatrais nem shows para “atrair” as pessoas. Nem se destinam a isso! Precisamos de celebrações que ajudem os fiéis a fazer uma verdadeira experiência de Deus. E o domingo, o dia do Senhor, dia do descanso, dia da Criação, dia da Ressurreição, precisa recuperar seu sentido na vida do cristão.

Vivemos um tempo de crise sem precedentes na história da Igreja. Também a trajetória política e econômica de nosso País nos desencanta e entristece. Se não nos voltarmos para Jesus Cristo, realizando um encontro profundo com ele, um encontro capaz de renovar nossas estruturas mentais, de romper as dobras de nosso coração, não se manterá viva na história a memória de Jesus Ressuscitado. Pois há motivos de sobra para nos desacorçoarmos e desistirmos de nossa missão profética na história. Assim a Igreja ficaria omissa na sua missão de continuadora e atualizadora, pela força do Espírito Santo, dos gestos e palavras de Jesus.

O encontro com Jesus ressuscitado transformou a vida dos discípulos. E Tomé foi movido por aquela alegria contagiante de seus companheiros que lhe disseram: “Vimos o Senhor!” Embora tenha, inicialmente, relutado a crer, a fé dos seus irmãos o motivou a continuar dentro da comunidade. E Jesus lhe confirma a fé.

Tomé duvidou. O relato tem duas intenções: primeiro, quer mostrar que fora da comunidade é muito difícil de se crer e se salvar; segundo, esse relato quer dizer que é preciso crer no testemunho dos discípulos. Não é preciso ver para crer. Confirma o que ocorreu ao discípulo que Jesus amava: viu o túmulo vazio e creu (cf. Jo 20,8). Sem ter visto o Senhor ressuscitado, acreditou. Quem ama, crê. Isso veio desfazer uma mentalidade crescente, na época, que todos os que quisessem aderir à fé cristã precisavam “ver” o Ressuscitado. De ora em diante se confirmou: “Bem-aventurados os que creram sem terem visto”.

Ainda um elemento que não pode ser esquecido no relato de hoje é o dom da Paz que Jesus dá aos discípulos e o dom do Perdão, grande presente pascal. A alegria da comunidade é experimentar, em meio ao medo da perseguição das autoridades judaicas, a paz que brota do coração amoroso de Cristo. E Jesus, sabendo das fraquezas humanas e dos pecados que daí provinham, oferece a “segunda tábua de salvação”, o sacramento da Reconciliação: “Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados”.

Mais do que nunca é urgente reafirmar nossa fé no Ressuscitado e na sua presença em nosso meio. Não se trata de pregar, de falar, de tentar convencer com afirmações doutrinais apenas, num proselitismo fanático. Isso vale muito pouco para o mundo em que vivemos. É preciso fazer experiência de um encontro verdadeiro. É notável quando uma comunidade está verdadeiramente imbuída do espírito de Jesus Ressuscitado. Ela procura viver como Jesus viveu: sabe escutar, tem sensibilidade, está atenta ao mais sofrido e necessitado. Não se rege por normas e leis, mas pela misericórdia. Não tem medo de enfrentar dificuldades e perseguições por causa de Cristo e em defesa dos pequenos e sofredores. Essa comunidade não se deixa levar pelo medo nem pela mania de grandeza nem pela ganância do dinheiro, do poder e da competição. Ela manifesta, no seu agir, o agir de Cristo. A comunidade se torna um espaço em que se experimenta a presença viva do Ressuscitado.

Sem a força do Cristo ressuscitado continuaremos com medo e de portas fechadas. Se não buscamos nele a força e orientação de como lidar com os desafios atuais, não conseguiremos alimentar a esperança daqueles que ainda permanecem em nossas comunidades e, muito menos, atingiremos os ‘de fora’.

A paz, o perdão e a alegria são frutos da ressurreição. Quando participamos das celebrações e atividades de nossas comunidades precisamos voltar para casa mais animados, mais apaixonados por Jesus Cristo, mais confiantes, mais seguros de que estamos no caminho certo, mais vibrantes em nossa fé, mais dispostos a colaborar e em construir fraternidade. Se isso não estiver acontecendo, precisamos rever nossas celebrações, nossas comunidades e nossa vida.

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LUZ QUE DISSIPA AS TREVAS E AFASTA O MEDO

“Era noite e as portas estavam fechadas por medo”. Não nos pode passar despercebida essa realidade vivida pelos discípulos logo após a tragédia do Calvário. Para eles não havia luz: era noite. Não tinham horizonte. Não podiam vislumbrar novas possibilidades. Aquele em quem depositaram sua confiança “fracassara na cruz”.

As portas estavam fechadas. A missão lhes era impossível. Não tinham coragem de sair.  Portas fechadas para que ninguém entrasse. Também ninguém podia se beneficiar da ação deles, pois se prenderam dentro da casa. Quem está de portas fechadas não sai nem permite alguém entrar. Uma espécie de morte: sem presença, sem oxigenação, sem vida. No Apocalipse temos aquelas provocadoras palavras: “Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele” (Ap 3,20). Comunidade cristã, discípulo de Jesus não combina com porta fechada. Aliás, o Papa Francisco tem alertado para nossos templos católicos com portas fechadas: “A Igreja é chamada a ser sempre a casa aberta do Pai. Um dos sinais concretos dessa abertura é ter, por todo lado, igrejas com portas abertas” (EG, 47).

E o medo? Realidade terrível! Esse sentimento paralisa as pessoas. Impede que se façam boas ações. Muitas vezes reduz a pessoa dentro de seu eu, tornando-a ensimesmada. O medroso não arrisca. Mantém a porta fechada. Investe em sua própria segurança, por vezes em detrimento dos demais. O medo não permite amar. Impede de amar o mundo como Jesus amou. Não lhe confere o ‘sopro’ da vida e da esperança.

Eis que Jesus entra na casa. Para ele não há noite nem portas fechadas nem, muito menos, medo. Ele vem libertar os discípulos desses males que emperram a missão que lhes confiara. Não lhes impõe as mãos nem lhes dá a bênção, como sói fazer aos doentes. Jesus sopra sobre eles o sopro da força que vence o medo e lhes comunica a esperança. O sopro santo que tira o pecado e os envia em missão. As portas então se abrem, o medo se dissipa, pois a Luz venceu a escuridão que os envolvia.

É Jesus ressuscitado que salva a Igreja. É ele que vence o medo que nos envolve e paralisa. É ele que abre as portas do egoísmo e da indiferença. É ele que dá a esperança. Na força dele realizamos a missão. Cremos que ele continua vivo em nosso meio. Conhecedor de nossa fragilidade, ele continua a nos dizer: “Recebei o Espírito Santo”.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

No sepulcro vazio há lampejos de esperança

aureliano, 30.03.24

Domingo da Ressurreição - 09 de abril.jpg

Páscoa do Senhor [31 de março de 2024]

[Mc 16,1-8; Jo 20,1-9]

O Senhor ressuscitou em verdade (cf Lc 24, 34). A Igreja celebra a ressurreição do Senhor no primeiro dia da semana, o domingo. Domingo vem de dominus, senhor. Ele dominou a morte e o pecado. Por isso é Senhor. Ele exerce o senhorio sobre nós. Não de dominação, mas de cuidado, libertação e salvação. Ele é mais forte do que o mal que nos ameaça e, por vezes, domina.

O evangelho diz que Maria Madalena foi ao túmulo “quando ainda estava escuro”. Essa escuridão simboliza as sombras (angústias) vividas pelos discípulos após a morte de Jesus. Era como se todo o sonho tivesse acabado. Não sabiam o que fazer. Estavam na escuridão.

Ao relatar que a “pedra já fora removida”, o autor quer dizer que é o próprio Deus quem remove as pedras do caminho, quem ressuscita os mortos, quem agiu na vida de Jesus. É o chamado “passivo divino”: tudo é ação da graça de Deus.

O jovem vestido de branco dentro do túmulo significa a manifestação divina. Por isso o espanto. É a consequência da fé pascal que tomava o coração da comunidade dos discípulos e discípulas pela experiência da ressurreição do Senhor.

As mulheres são protagonistas em ir ao túmulo - os discípulos haviam fugido. E recebem a missão de “anunciar aos discípulos e a Pedro” que Jesus se manifestaria a eles na Galiléia. Não na Judéia, onde Jesus encontrara dificuldade de acolhida da Boa Nova, mas na Galiléia onde havia iniciado sua missão evangelizadora.

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O testemunho da ressurreição inclui dois elementos: o sepulcro vazio e a aparição do Ressuscitado. O sepulcro vazio constitui um sinal negativo. Só fala ao “discípulo que ele amava”: “Ele viu e acreditou”. Ou seja, os sinais falam quando o coração está aquecido pelo amor. É preciso ser amigo de Jesus para compreender seus sinais. Já a aparição do Ressuscitado acontece no caminho de Emaús (Lc 24), aos discípulos desejosos de ver o Senhor e auscultar sua Palavra. No gesto da partilha do pão seus olhos se abrem e eles o reconhecem. Em seguida assumem a missão: “Naquela mesma hora, levantaram-se e voltaram para Jerusalém” (Lc 24, 33).

A escuridão da madrugada e o túmulo vazio nos dizem que por vezes ficamos confusos diante da maldade humana, diante de tantos abusos do poder, de tanta violência e morte, de tanta corrupção que desencanta e desestimula o poder do voto nas eleições, diante do sofrimento sem fim dos refugiados de guerras e conflitos armados. Somos levados a perguntar: “Deus, onde estás?”. Mas a experiência de fé nos diz que na morte (‘túmulo vazio’, ‘noite’) há sinais de vida; na escuridão há lampejos de luz. Para isso é preciso ser “amigo de Jesus” (discípulo amado), ou seja, ser próximo dele, conviver com ele, reclinar-se sobre seu peito (cf. Jo 13,25).

Esse tempo pascal nos convida a assumir a vida nova que Jesus Ressuscitado veio nos trazer sendo uma presença de luz, de testemunho vivo contra toda maldade junto àqueles que o Pai colocou no nosso caminho. Talvez mesmo a nos perguntar: eu acredito mesmo na ressurreição de Jesus? Que mudança/transformação tem se dado dentro de mim a partir da fé na ressurreição? Em que essa fé no Ressuscitado me atinge?

Ressurreição é ser testemunha da esperança numa sociedade materialista e desumana, onde o túmulo está vazio e as sombras da morte parecem prevalecer. Páscoa é continuar afirmando com a vida: “Ele vive e está no meio de nós!”.

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A MORTE FOI VENCIDA PELO AUTOR DA VIDA

Pedro e Madalena representam a comunidade que ainda duvidava da ressurreição de Jesus. Estavam em busca de provas e elementos que dessem sentido à vida deles, uma vez que, aquele em quem confiavam, morrera na cruz.

Quando o evangelho menciona “o primeiro dia da semana”, remete o leitor à Criação do mundo, narrada no livro do Gênesis, para mostrar que a Ressurreição de Jesus é a Nova Criação. O fiel cristão, batizado, entra numa vida nova, na Nova Criação de Deus. O mundo velho passou. Agora, é tudo novo. Uma vida que deve ser parecida com a de Jesus. Adão não pode ser referência de vida.

A “madrugada” lembra o alvorecer que desfaz as trevas da morte. Agora a vida brilhou no horizonte. A madrugada, embora traga em si o sinal do dia, possui também uma penumbra que impede de enxergar com clareza. É o que acontecia com Maria Madalena: “ainda estava escuro”. A comunidade ainda estava temerosa.

A “pedra removida” e o “túmulo vazio” são sinais de que algo novo aconteceu. É um sinal negativo da ressurreição. Esses sinais indicavam que Jesus não estava ali, porém não garantiam sua ressurreição.  A “pedra removida” significa que a morte foi vencida. O túmulo não é o último lugar do ser humano. Em Cristo ressuscitado, o ser humano vence também a morte e entra na vida que não tem fim, a vida eterna que já começa aqui, a partir da vida vivida em Deus, à semelhança de Cristo.

O “túmulo vazio” não é prova da ressurreição. A fé na ressurreição não vem da visão, mas da experiência de fé. As “aparições” de Jesus ressuscitado é que consolidam a fé dos discípulos. É o dado da fé. Uma realidade que transcende a razão. Não contradiz a razão, mas está para além da compreensão puramente racional. Por isso Santo Agostinho dirá: “Credo ut intelligam”: creio para compreender. Nós cremos pelo testemunho de fé da comunidade. A fé nos é transmitida. Cremos a partir da experiência que outros fizeram. Fazendo nós também essa experiência, transmitimo-la àqueles que a buscam. Porém, tudo é ação da Graça de Deus.

Pedro e o “outro discípulo” vão correndo ao túmulo. O “discípulo amado” chega primeiro que Pedro. Quem ama tem pressa. Ele “viu, e acreditou”. É o amor que faz reconhecer na ausência (túmulo vazio), a presença gloriosa do Cristo ressuscitado. Agora os discípulos entendem o que significa “ressuscitar dos mortos”. Agora eles vêem, não com os olhos humanos, mas com os olhos da fé. Agora estão iluminados pelo sopro do Espírito Divino que animou Jesus.

Nenhum evangelista se atreveu a narrar a ressurreição de Jesus. Não é um fato “histórico” propriamente dito, como tantos outros que acontecem no mundo e que podemos constatar e verificar, empiricamente. É um “fato real”, que aconteceu realmente. Para nós cristãos, é o fato mais importante e decisivo que já aconteceu na história da humanidade. Um acontecimento que traz sentido novo à vida humana, que fundamenta a verdadeira esperança, que traz sentido para uma das realidades mais angustiantes do ser humano: a morte. Esta não tem mais a última palavra. A pedra que fechava o túmulo foi retirada. A ressurreição é um convite, em última instância, a crer que Deus não abandona aqueles que o amaram até o fim, que tiveram a coragem de viver e de morrer por Ele.

O núcleo central da ressurreição de Jesus é o encontro que os discípulos fizeram com ele, agora cheio de vida, a transmitir-lhes o perdão e a paz. Daqui brota a missão: transmitir, comunicar aos outros essa experiência nova e fundante de suas vidas. Não se trata de transmitir uma doutrina, mas de despertar nos novos discípulos o desejo de aprender a viver a partir de Jesus e se comprometer a segui-lo fielmente. Ressuscitados com Cristo, buscamos “as coisas do alto”, temos o nosso “coração no alto”. A consagração batismal fez de nós novas criaturas. Incorporados a Cristo, enxertados n’Ele, queremos viver “por Cristo, com Cristo e em Cristo” para a glória de Deus Pai. É um modo de vida que transforma a pessoa, a comunidade e a sociedade. Transbordamento de uma alegria que não cabe dentro de nós: é comunicada aos outros. Não nos conformamos mais com injustiça, com mentira, com violência, com traição, com desrespeito, com maldade de toda sorte. Nossa vida se torna profetismo, esperança, inconformismo, saída, cuidado, encontro vivificador.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

Juracy de Moura: uma interpretação

aureliano, 29.03.24

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Juracy: 30º dia de páscoa definitiva: 29/03/24 - Sexta-feira Santa

Mamãe foi uma figura excêntrica. Muitas vezes falava e agia por códigos. Precisava ser interpretada por alguém que a conhecia melhor. Acho que agora podemos compreender um pouco mais dessa mulher que passou pelo mundo de uma forma bem diferente do comum dos mortais.

Jovem como as outras, aprendeu as primeiras letras com aquele que seria seu esposo prestimoso mais tarde. Numa escola municipal rural do município de Guiricema, ela e alguns irmãos frequentavam a escolinha rural que tinha como mestre José Lopes de Lima. Juracy, provavelmente do grupo de alunos mais velhos, com 14 anos, foi aprendendo com o rigoroso José, não as primeiras letras, pois estas já aprendera em casa, mas a ler e a escrever e também  a imprescindível  aritmética.

Com o passar dos tempos, a aluna foi se apaixonando pelo professor. E começou a amá-lo. E mandava bilhetes. E insistia. Até que o professor, homem reservado e discreto, resolveu ver de perto o que acontecia no coração da Juracy. Procurou o Sr. Aurélio de Moura, piedoso pai da Juracy, e lha pediu em casamento.

Sabia o José Lopes muito bem que se casaria com uma moça epiléptica. Estava consciente de que deveria ser para ela uma espécie de pai. E o foi realmente.

Mamãe tinha certa dependência do papai. Ele é quem resolvia as coisas. Ele é quem tinha a palavra final, que trabalhava fora, que comprava, que vendia, que educava os filhos, que fazia o chá para curar as enfermidades, que levava o filho ou a esposa ao farmacêutico ou ao médico. Ele é quem quase sempre cozinhava e lavava as roupas. Era a pedra angular da casa. Sem ele era tudo muito difícil.

Mamãe estava por ali. Às vezes limpava a casa. Às vezes fazia comida e café. Às vezes dava um corretivo em algum filho travesso ou que “mexia com seus nervos”.

Mas a mamãe sempre rezava. Sua companhia era a oração. Alegrava-lhe o coração quando era convidada para ir à igreja, para a oração, sobretudo a oração do terço. Rezava pelas famílias, rezava pela Igreja, rezava pelos filhos, pelas “almas do purgatório”, pelos doentes, pela paz do mundo e conversão dos pecadores.

Mas o apelo principal destas minhas considerações é uma cartinha, talvez a única de que temos registro, que mamãe escrevera a um de seus filhos, o Eduardo. Nesta carta se esconde e se desvela o coração da mamãe. Alguns filhos estão surpresos, até duvidando se foi deveras ela mesma a autora. Uma das irmãs, a Coraciana, interveio ao descrente: “Você não conhece a letra dela? Até pelos dizeres dá pra saber”.

A seguir podemos ler a cartinha original. Em seguida faço algumas interpretações numa tentativa de ler a alma da mamãe.

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Alguns elementos que, a meu juízo, desvelam o coração da mamãe:

  1. Sentimentos: Com as palavras ‘querido filho’, ‘amor’ e ‘saudades’, mamãe manifesta seu afeto, raramente expresso no cotidiano para com os filhos. Revela um coração marcado pela dor de ver o filho distante e o desejo de que ele volte. Sente falta de sua presença. Sentimento maternal dificilmente manifestado no cotidiano da vida, mas guardado no coração: não o esquece e o ama.
  2. Espiritualidade: Como a vida espiritual e religiosa ocupava seu coração! Atribui a Deus e a Nossa Senhora sua saúde, a "cada dia melhor". Lembra-se do filho principalmente nos momentos orantes. Deseja um futuro bom ao filho, não somente para esta vida, mas também para a eternidade. Salvação do corpo e da alma. Desejo que o filho viva em Deus. Sentimento de pertença a Deus.
  3. Ideias conexas: Religa seu desejo de escrever motivado pela correspondência que já havia recebido. Conecta a cartinha com a anterior que lhe moveu na alma o desejo de escrever. Parece mostrar que suas ideias não são desconexas como sempre acreditamos. Ela tinha um modo próprio de fazer as ligações dos fatos. Certamente seu sofrimento aumentava quando não conseguia nos fazer entender sua lógica de compreensão e expressão das ideias e sentimentos. Muitas vezes se refugiava sozinha no quarto, possivelmente numa solidão sofrida.
  4. Sentido de família: Expresso do início ao fim da cartinha. Quando manifesta seu amor de mãe, a invocação de filho, a referência ao marido: “ajudante com seu pai”. Anseio para que o filho esteja por perto. Zezé, ‘o pedreiro’, como ela sempre dizia, manifestando um certo orgulho pela profissão do marido, provedor da família.
  5. Trabalho: Mamãe não pede dinheiro. Aliás nunca pediu a ninguém nem administrou. Papai era seu provedor. Qualquer necessidade era com o ‘Zé Lopes’. Ela menciona o trabalho e as ocupações do marido. Papai tem muito serviço e o filho poderia trabalhar com ele. E, com isso, ficaria perto dela também.

Até aqui uma breve e rasa consideração sobre a mamãe a partir dessa cartinha que concentra muito do que vivemos com ela ao longo de seus quase 85 anos.

Coraciana e Izabel, filhas mais jovens, testemunharam muitas vezes mamãe debruçada na janela da casa - aquelas janelas e portais antigos de madeira - olhando para o horizonte que lhe era bem pequeno, mas imenso no coração, derramando lágrimas nos olhos. Perguntada sobre o porquê das lágrimas, sussurrava: “saudade dos filhos que moram longe, uai!”

Mamãe era de poucas palavras. Gostava de alguns ditados: “Em boca fechada, não entra mosquito”.  “Poucas palavras e bem acertadas”. “Bater na cangalha para o burro entender”. E ela nos ia ensinando de um modo diferente. Seu método educativo era diferente, não porém contraditório ao método do papai. Era complementar. Ela nos ensinava muito pelos gestos e atitudes.

Maria Marta, filha mais velha, que a acompanhou a vida inteira, particularmente nos seus últimos anos e dias de vida, dizia: “Mamãe sempre nos educava e ensinava. Pedia pra fazer os serviços de casa e vistoriava. Se não estivesse de acordo, pedia pra refazer. Ensinou-nos a rezar e a ser devotos de Nossa Senhora. Ela repreendia e corrigia os filhos que às vezes xingavam e falavam palavrões”.

Ensinava o respeito ao papai. “Vou contar ao seu pai quando ele chegar”. E relatava as estripulias dos pequenos e grandes.

Um ensinamento que não sai mesmo do nosso coração era seu espírito de oração. Mamãe foi uma mulher orante. Essa marca ela deixou em nosso coração. Sobretudo a devoção a Nossa Senhora. Na véspera de sua partida pegou a mão da Maria Marta, beijou, olhou para ela com um olhar morteiro e disse: “Nossa Senhora das Graças, rogai por nós”. Depois rezou duas Ave Marias. Não prosseguiu porque a filha lhe disse que já era suficiente, devido à sua dificuldade em rezar com respiração curta.

Sua vida foi transfigurante. De uma mulher brava, por vezes quase violenta, intempestiva, a uma mulher doce, serena, suave, que se deixou cuidar sem resistência. Deus transforma a pessoa. A graça de Deus não falta a quem nEle confia. Papai sempre nos ensinou esse tipo de fé confiante.

Uma mulher acometida por uma enfermidade (epilepsia) que a deixava angustiada, depressiva, com o sentimento de abandono e descaso. Sua vida relida à luz da força da Graça de Deus que atuou no seu coração mostra uma mulher que pronunciava palavras de bênção para todas as pessoas: “Deus abençoe!”. “Vai com Deus e Nossa Senhora!”. “Muito agradecida pela sua caridade!”. “Deus lhe pague!”. E por aí se vão as palavras da Juracy de Moura, sobretudo nos anos finais de sua vida.

Mamãe deixou-nos esse legado belíssimo de driblar os infortúnios e desconfortos da vida enferma com uma confiança inquebrantável no Coração de Jesus e em Nossa Senhora. A oração constituiu seu porto seguro nas horas de dor, de angústia e de incerteza.

Nos instantes finais de sua partida para a eternidade, João Vianei, um dos filhos, rezou: “Vai, mamãe, vai em paz, encontrar o ‘Cabeça Branca’ (assim costumava se referir ao papai) na eternidade. Vamos ficar órfãos de pai e mãe, mas agradeço infinitamente ao Bom Deus ter concedido ser concebido no seio dessa santa mulher, nem sempre compreendida. Que Nossa Senhora interceda junto a seu Filho pela nossa mãe neste momento difícil que se encontra e dê forças para todos nós neste momento de dor e separação. Em nome do Pai e do Filho e Espírito Santo. Amém”.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Teresina, 29 de março de 2024

*Foto: Maria Marta, filha mais velha, confeccionando o vestido branco que mamãe havia pedido em forma de código e que minha irmã interpretou ser o vestido com que ela gostaria de ser sepultada. Na noite em que mamãe agonizava no hospital, Maria Marta correu pra máquina e pedia: "Mãe, espere eu terminar o vestido branco que a senhora pediu". Vestido pronto e vida encerrada para este mundo: mamãe foi transfigurada pelo Pai e transportada nos ombros do Bom Pastor para a felicidade que não conhece ocaso. (Ao lado: eu e a mamãe em 21/09/2022).