Seriam 70 anos de casados

“Até que a morte nos separe”. Assim prometeram José Lopes e Juracy de Moura, no dia 30 de julho de 1955, na igreja-matriz Nossa Senhora da Encarnação, em Guiricema/MG. No dia 13 de abril de 2022 a morte do papai os separou desta vida terrena. Mamãe ainda viveu por quase dois anos. No dia 29 de fevereiro de 2024 ela também se foi.
O fato é que, se estivessem vivos, fariam, no dia 30 de julho deste ano, 70 anos de casados. Uma vida de “lutas e vitórias”, de “dores e alegrias”, para rememorar os livrinhos que o papai escrevera, já octogenário, uma espécie de autobiografia.
Nós, os filhos, sabemos melhor do que os de fora, sobre essas dores e alegrias. Particularmente os filhos mais velhos. Mas quem saberia aquilatar mesmo as pelejas desses quase 70 anos, vividos lado a lado, seriam os dois velhos. Eles viveram tempos e momentos dolorosos. Muitos deles compartilhados, ainda que involuntariamente, pela força da convivência e sobrevivência familiar, com os filhos.
As enfermidades da mamãe e do papai. As enfermidades e perda de filhos. O preconceito sofrido por conta da doença da mamãe e da vida pobre e humilde de nossa casa. O desprezo e chacota por conta das práticas religiosas. A alimentação pouca e frugal. O milho no paiol: na rapa. A lata de gordura: vazia. A “mistura” que não tinha, ou na frugalidade de um porquinho ou galinha que, raramente, ia pra panela. Arroz e feijão: no fundo do saco. Às vezes com gorgulhos.
Mas nunca faltou o alimento! “A vasilha de farinha não se esvaziou e a jarra de azeite não se acabou” (1Rs 17,16). Comemos canjiquinha com feijão, mingau de fubá com angu, arroz com canjiquinha ou mingau de fubá, um ovinho vez por outra etc. Mas ninguém passou fome. Deus foi sempre providente.
Mamãe, em surtos mentais e convulsões epilépticas frequentes por ocasião das numerosas gravidezes (13 filhos). E não somente nas gestações, mas também em outros “outonos” da vida. Quando, a certa altura da vida, ela começou a fazer um tratamento mais sistemático, sua saúde começou a se estabilizar. Mas as sequelas persistiram até o findar de sua existência na terra.
Por quase 67 anos, papai esteve ali, com uma fidelidade abraâmica, ao lado da mamãe e de todos nós. Certamente, por várias vezes, su’alma silente era transpassada pela aflição, a angústia, a dor. Mas nunca manifestou descontentamento, desespero. Sua vida se resumia em trabalhar para sustentar a família e em rezar para sustentar a fé. Igreja, trabalho e lar: o trinômio que constituiu a vida de meus pais.
A Igreja aqui significa toda sua dimensão de fé, de oração, de participação na vida eclesial. Não deixavam de participar da missa. Não passavam um dia sem rezar o terço. Ainda que meu pai cochilasse, cansado da faina do dia, e o rosário lhe caísse das mãos. Dava o horário de ir para a missa, dizia a quem estivesse em casa: “Podem ficar à vontade. Vou pra missa”. - Era o “rezador” do córrego. Celebrava a Palavra. Homem que estudava, rezava e tinha facilidade para dizer uma palavra boa, oportuna.
O trabalho significa a honestidade de ambos na sustentação da casa. Papai nunca deu prejuízo a ninguém. Nunca recebeu propina. Nunca subornou ninguém nem deixou de pagar suas contas. Nunca recebeu dinheiro suspeito, ilícito. Jamais! Inversamente a isso, buscava ajudar a todos que lhe pedissem auxílio, alimento, um pouco de arroz, de feijão, de fubá. Dividia o pouco que tinha com quem precisasse. - Era o “aplicador de injeção” nos doentes da redondeza. Um “enfermeiro”. Curava muitas de nossas doenças com chás caseiros. A única herdeira desse dom é a Maria Marta: tem a sabedoria de ajudar a curar a pessoas.
O “lar” significa os cuidados do papai com os filhos e com a mamãe. Sua correção ao filho desobediente ou insubordinado era certeira. Não se omitia na educação dos filhos. Todo empenho para que estudassem os primeiros anos. Chamava para o trabalho no roçado, fizesse sol ou chuva. Não maltratava nem exigia demais: mas levava os filhos para o serviço. Cuidava da mamãe como “filha primogênita”, na expressão do Felipe, nosso irmão. Quando ela exagerava na correção de algum filho, ele lhe chamava a atenção: “Juracy, quando você for corrigir os filhos, não o faça com cabo de vassoura, mas primeiro com a palavra e, se preciso for, com a vara. Senão você machuca e gera revolta nos meninos”. E tinha todo zelo para com a mamãe na sua enfermidade. Quando chegava a casa, vindo do trabalho, e não tinha comida pronta, ele ia, sereno, para o fogão a lenha, acender o fogo, preparar uma comida bem frugal: arroz, feijão, angu, abóbora ou equivalente. Levava o prato de comida para a mamãe: “Aqui, Juracy! Coma!” Mamãe jantava satisfeita e feliz. - Era o homem do lar, da casa, pai e mãe: mais de uma vez me lembro de tê-lo visto descendo o morro para a mina d’água, com a bacia enorme de metal nos braços. Estava indo lavar nossas poucas e mulambentas roupas!
Uma vida simples, despojada de bens materiais e de reconhecimento social. Uma vida pobre mesmo. Mas a riqueza da graça de Deus nunca nos faltou. Os valores da vida de Nazaré estavam ali presentes. “Faltava tudo, mas a gente nem ligava. O importante não faltava: seu sorriso, seu olhar” (Pe. Zezinho).
Oremos: Papai e Mamãe, estamos certos de que vocês estão na vida plenificada em Cristo, no céu! “Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos, pois nunca mais haverá morte, nem luto, nem clamor, e nem dor haverá mais” (Ap 21,4). Vocês sabem de nossas buscas e anseios e também de nossas limitações e fracassos. Peçam a Deus e a Nossa Senhora por nós. Muito obrigado pela vida doada generosamente a todos nós.
Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN



