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aurelius

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Ai de vós, os ricos!

aureliano, 26.09.25

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26º Domingo do Tempo Comum [28 de setembro de 2025]

[Lc 16, 19-31]

Lucas continua insistindo na justiça e honestidade em relação ao uso dos bens. O Evangelho de hoje dá continuidade ao texto do último domingo: administrar os bens com bom senso e justiça, sabendo que não são nossos, mas de Deus. Devem ser bem administrados por nós. Não somos donos do dinheiro e daquilo que dispomos. Eles são dons de Deus e devem ser disponibilizados em benefício nosso e dos outros, particularmente, dos pobres.

A divisão da sociedade entre ricos e pobres não é de hoje. Alguns são donos de grandes fortunas e levam uma vida na abundância e desperdício. Enquanto uma multidão leva uma vida miserável, fruto, muitas vezes, da concentração de renda e lucro nas mãos de uns poucos. Quando a saúde, a moradia, a educação, o saneamento básico, a segurança, o transporte público etc não são cuidados, a gente já sabe quem sofre as consequências: milhões de pobres e deserdados do acesso aos bens da criação.

Notamos na parábola de hoje, muito conhecida e que, por vezes, causa certa comoção: “Que rico nojento, ambicioso! Merece a morte!” Mas, e nós? Como lidamos com os pobres? Há muita gente passando necessidade em nosso meio! Há muita corrupção favorecida por nós quando nos omitimos: quantas pessoas vendem o voto sem nenhum escrúpulo! Quantas pessoas vivem atrás de benefícios pessoais, indiferentes ao pobre que mora bem perto de sua casa! Quanta maldade presenciamos, e fazemos de conta que não vemos!

O rico do evangelho não foi condenado por ser rico, mas por ser indiferente, insensível. É esta a grande doença que está matando a humanidade! O sofrimento do outro não me diz respeito, não me comove, não mexe com meu coração. Neste sentido podemos dizer também que há pessoas pobres de bens materiais que são maldosas, indiferentes, perversas. Porém é sabido que a riqueza cega o coração e mata o sentimento de solidariedade.

Diante dessa realidade toda, o grande e principal apelo de Deus para nós é a conversão. Nossa mentalidade deve se conformar com o jeito e sentimentos de Jesus: “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa mente” (Rm 12,2). Jesus é nossa esperança, salvação e modelo de vida. Precisamos olhar para ele. Essa atitude nova que brota do encontro com Jesus se manifesta através do novo jeito de lidarmos com as coisas e as pessoas. “Tende em vós o mesmo sentimento de Cristo Jesus” (Fl 2,5).

O risco é entendermos esse Evangelho como um apelo a darmos esmola a pobres que encontramos pela rua ou que batem à nossa porta para desencargo de consciência ou mesmo por medo da condenação eterna. A palavra esmola significa justiça. O caminho é sermos justos com nossa família, com nossos vizinhos, com a comunidade, nas relações de trabalho e de comércio. Ser justo é viver de acordo com o ensinamento de Deus. É empenhar-se para que as relações humanas sejam mais próximas daquilo que Deus sonhou para a humanidade.

A justa preocupação de cada um em ter uma casa, um emprego, saúde, educação, uma vida de qualidade para si e para os seus deve se ampliar no desejo de que todos tenham acesso a essas mesmas condições. O que desejamos para nós devemos querer para os outros, e nos empenharmos para que todos o tenham.

O Evangelho é uma força de conversão para todos, pobres e ricos, a ser feita imediatamente. É uma força profética que denuncia toda ordem injusta e revelação das causas profundas da injustiça humana. Não adianta esperar que venha alguém dos mortos para nos dizer o que devemos fazer. Jesus já o disse. Resta-nos assumir essa causa, a causa do Reino de Deus.

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VESTUÁRIO E FESTAS

O evangelho deste domingo nos convida a repensar posturas em relação a vestes e festas. Já notaram como as festas ocupam os tempos vagos de muita gente? E não sobra tempo para mais nada. Uma folguinha... e já vem um passeio, um churrasco, uma cerveja, uma ida à casa de campo, à praia etc. Tudo isso é muito bom e necessário, mas na medida do evangelho.

Já perceberam que há pessoas que vivem uma situação tal de enfermidade própria ou de outro que nunca tiveram condições de fazer um passeio? A dona Maria que tem um filho com deficiência e que vive por conta dele: nunca teve condições de fazer um passeio despreocupada! E assim, há inúmeras situações que conhecemos bem. A gente precisa refletir sobre isso...

Outra coisa que domina o coração da gente é a preocupação excessiva com o vestuário. Os lançamentos de grifes caras levam a um consumismo cada vez maior. Há uma preocupação excessiva em se vestir de tal ou tal maneira, vestir tal ou tal grife porque senão vão dizer isso e aquilo. Uma preocupação excessiva com a imagem de si. Sinal de vazio interior.

Bem. O evangelho de hoje relata que o rico tinha uma única preocupação: vestir-se de púrpura e linho fino e banquetear-se com os amigos. Isso, diariamente! É exatamente essa preocupação com festas e vestuários, isto é, com exterioridades, que o deixou cego diante do pobre que lhe pedia um pão e alargou o fosso que o separava do ‘Seio de Abraão’.

Na primeira leitura (Am 6,1a.4-7) o profeta adverte: "Ai... dos que dormem em camas de marfim, deitam-se em almofadas, comendo cordeiros do rebanho e novilhos do seu gado; os que cantam aos som das harpas... os que bebem vinho em taças...  e não se preocupam com a ruína de José". Fazer festas e banquetes, gastanças sem medida e não se incomodar com o sofrimento dos pobres! Uma realidade que está bem perto de nós!

Compete-nos visitar o histórico de quem elegemos no último pleito, e refletir sobre aqueles que estão a pedir o sufrágio nas urnas no próximo ano.  Muitos deles fazem viagens, festas, jantares com nosso dinheiro sem o menor escrúpulo. E os pobres abandonados à sua própria sorte! Não há insulto maior aos pobres do que o luxo desenfreado e vergonhoso dos ricos.

Será que não precisaríamos de rever nosso modo de lidar com o vestuário, com as festas e com a busca de reconhecimento social para que enxerguemos os pobres e enfermos que precisam de nós?

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

Cuidado com o Dinheiro!

aureliano, 19.09.25

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25º Domingo do Tempo Comum [21 de setembro de 2025]

[Lc 16,1-13]

Certo dia alguém me abordou pedindo uma explicação para a seguinte passagem do evangelho: “Usai o dinheiro injusto para fazer amigos, pois, quando acabar, eles vos receberão nas moradas eternas” (Lc 16,9). O que significa “dinheiro injusto”? É, de fato, um texto que impõe uma reflexão maior.

No tempo de Jesus, os pobres que moravam nas cidades usavam moedas para compra e venda, mas de estanho e de cobre. Com Herodes, começaram a circular moedas de ouro e prata. Portanto tinham um valor maior. Davam mais segurança. Para entender, pois, o que o texto quer dizer, é preciso ir à raiz da palavra que foi traduzida como “dinheiro”. O termo usado no tempo de Jesus era mammona. Vem da raiz aman que significa, em aramaico, confiar, apoiar-se. Era algo em que o indivíduo colocava sua confiança.

Enfim, o que Jesus quis dizer com “dinheiro injusto”? Parece que Jesus não conheceu “dinheiro limpo”. Podemos concluir que Jesus considerava sempre o dinheiro como algo injusto. As relações comerciais de seu tempo eram profundamente injustas, sobretudo a partir do Império Romano e também das autoridades do Templo de Jerusalém. Então o “dinheiro” se tornara um ídolo, ocupando o lugar de Deus. Quanto mais moedas de ouro e prata tanto mais rico e autossuficiente.

Jesus então oferece uma saída: “Fazer amigos com o dinheiro injusto”. Ou seja, empenhar-se sempre na partilha, no não-acúmulo para não cair na idolatria. Se o dinheiro era “sujo”, recomenda “lavá-lo” na distribuição e cuidado com os pobres. O dinheiro é fonte de intriga e divisão. É preciso, pois, trabalhar para que favoreça a amizade e a comunhão, a igualdade e a fraternidade.

Vale deixar aqui a palavra de São Basílio, a respeito do uso do acúmulo e riqueza: “Não és acaso um ladrão, tu que te apossas das riquezas cuja gestão recebeste?... Ao faminto pertence o pão que conservas; ao homem nu, o manto que manténs guardado; ao descalço, os sapatos que estão se estragando em tua casa; ao necessitado, o dinheiro que escondeste. Cometes assim tantas injustiças quantos são aqueles a quem poderias dar”.

E o que dizer da “teologia da prosperidade” que assola nosso povo religioso? – Aquele “assalto” para vender ou comprar bênçãos e milagres! Uma verdadeira afronta ao evangelho! Um pecado que “brada aos céus e pede a Deus vingança”! Pergunto de novo: qual é a origem e qual é a destinação do dinheiro que entra no meu bolso?

Para continuar a reflexão nesses tempos sombrios e dolorosos de gente poderosa que optou pelo dinheiro injusto e pela maldade, vejamos: “Ouvi isto, vós que maltratais os humildes e causais a prostração dos pobres da terra; vós que andais dizendo: ‘Quando passará a lua nova, para vendermos bem a mercadoria? E o sábado, para darmos pronta saída ao trigo, para diminuir medidas, aumentar pesos, e adulterar balanças, dominar os pobres com dinheiro e os humildes com um par de sandálias, e para pôr à venda o refugo do trigo?’ Por causa da soberba de Jacó, jurou o Senhor: ‘Nunca mais esquecerei o que eles fizeram’” (Amós 8,4-7). - Você tem amigos pobres?

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O uso do dinheiro injusto

Em Lc 15, 1-32 (24º domingo do Tempo Comum) notamos dois filhos com perspectivas diferentes na administração dos bens. O filho mais novo pegou sua herança, antes de o pai morrer, e ‘queimou’ tudo. O filho mais velho não teve coragem de pedir um ‘cabrito’ para comer com seus amigos. Só trabalhava. O pai da parábola mostra que o ser humano está acima de qualquer valor monetário. O que importa mesmo é construir relações de perdão, de partilha, de fraternidade para que a vida possa brotar com mais exuberância.

No evangelho deste domingo, Jesus conta a parábola conhecida como do ‘administrador infiel’. Esse título, porém, pode prejudicar uma sadia interpretação da parábola. Jesus não quer acentuar a desonestidade da administração, mas a habilidade que o discípulo do Reino deve ter na administração do que lhe for confiado: tudo deve ser gerido e conduzido com vistas ao Reino de Deus.

É preciso notar que o administrador estava ‘dissipando os bens’ do patrão. Por isso ele foi demitido. Aquele fato de baixar a conta dos devedores está ligado ao costume daquele tempo de se permitir aos administradores emprestarem os bens do patrão e ganhar uma comissão com isso. Esse administrador do evangelho estava abrindo mão desse benefício com vistas a ser recebido nas casas daqueles beneficiados. Fez um jogo de favores. Por isso foi elogiado pelo patrão.

Tudo o que temos e somos são dons de Deus que devem ser administrados de acordo com o projeto do Pai. E a primeira tarefa é nos considerarmos administradores e não donos. Os bens não são nossos. Os filhos não são nossos. Os dons não são nossos. Tudo é do Pai! A consagração batismal nos remete a essa realidade: tudo que somos e temos foi consagrado ao Pai.

Tendemos a viver em função do ter e do poder. Pensamos valer pelo que temos. Há pessoas que buscam acumular cada vez mais dinheiro, vivendo, por vezes, uma vida miserável. Outras gastam demais. Gastam o que não têm. Vivem endividadas porque sentem necessidade de comprar e de exibir uma realidade que não são. Há ainda outras que passam a vida em função de acúmulo de poder e riqueza, em busca de fama e sucesso, reconhecimento social e aplausos. Quanto mais buscam essas coisas efêmeras, mais cresce o vazio interior.

Em relação aos bens públicos então, é uma lástima! Há pessoas que não sentem nenhum escrúpulo em esbanjar as coisas públicas: combustível, veículos, energia, água, aparelhos e outros mais. Desperdiçam, usam e abusam do erário público sem nenhum constrangimento.  Um absurdo de gastos desnecessários nos órgãos públicos! Como se desperdiça, como se gasta, como se desvia o dinheiro público! E as propinas e sonegações? Nem se fale! Cada um querendo tirar mais proveito do que o outro.

E quando se trata de funcionalismo público?! Resguardadas as honrosas exceções, há funcionários (parlamento e judiciário também são funcionalismo público) que não trabalham! Passam o tempo todo batendo papo, falando mal dos outros, articulando meios de tirar proveito de situação etc. Sem mencionar funcionários fantasmas. Uma tristeza! O relato do evangelho de hoje quer lembrar a todos que o salário deve ser justo, e conquistado com honestidade. E que os bens públicos devem ser geridos com honestidade em favor dos mais pobres.

Jesus nos ensina a pensar e a viver de modo mais solidário a administração dos bens públicos e privados. Eles devem ser colocados a serviço de todos. Eles são para todos. Inclusive para aqueles que virão depois de nós! A Amazônia não pertence aos ricos nem ao Estado. Ela é um bem para a humanidade. Precisa ser preservada, zelada, cuidada. As águas e as florestas não são patrimônio privado: são bens da natureza que precisam ser cuidados, resguardados e geridos com equidade para o bem de todos.

Ao invés de abraçarmos a lógica da desonestidade, da mentira, da hipocrisia, deveríamos hoje nos perguntar: como estamos administrando os recursos que Deus nos deu? Como lidamos com os bens públicos que não são ‘nossos’, mas de todos? Quem ocupa mesmo o centro de minha vida, que orienta minha história e decisões: o Deus de Jesus ou Dinheiro iníquo?

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

Crucificado: braços abertos que nos abraçam

aureliano, 10.09.25

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Exaltação da Santa Cruz [14 de setembro de 2025]

[Jo 3,13-17]

Esta festa é celebrada pela Igreja desde tempos remotos (século IV). A Igreja Oriental celebra-a com a mesma solenidade da Páscoa. Tamanho o significado desta celebração! E, por isso mesmo, seria bom conhecermos um pouquinho da história.

O imperador Constantino mandara construir duas basílicas: uma sobre o Gólgota, onde Jesus fora crucificado, e outra sobre o Sepulcro do Cristo Ressuscitado. E a dedicação destas igrejas se realizou no dia 13 de setembro de 335. No dia seguinte, 14 de setembro, o bispo de Jerusalém levantou uma relíquia da Santa Cruz apresentando-a ao povo para veneração. Daí deriva o nome de ‘Exaltação da Santa Cruz’. Porém, todos sabemos bem que a veneração litúrgica da Cruz se dá na Sexta-Feira Santa.

Com esses elementos da história podemos entender por que se coloca a cruz junto ao altar para a celebração da Eucaristia. Somos remetidos ao fato de Moisés ter levantado a Serpente de bronze no deserto. Aqueles que olhavam para este símbolo sagrado ficavam curados das mordeduras das serpentes (cf. Nm 21,4-9). Agora, porém, temos o Cristo, levantado da terra para atrair todos a si e curá-los de todo pecado (Jo 12,32).

O uso da cruz sacralizou todos os cantos da terra. Mesmo nas repartições públicas seu uso tornou-se obrigatório. O que parece-me questionável, pois Cristo não pode ser testemunha nem muito menos abençoar os crimes e fraudes sórdidos  que, com frequência, se realizam nesses espaços. A cruz é um símbolo que nos remete ao ensinamento de Jesus: amar até o fim (Jo 13,1). Ainda assim, é muito bom que tenhamos a cruz em nossa casa. Há muitos católicos que estão trocando o símbolo do Crucificado por decorações paganizadas ou desprovidas de sentido que não levam a lugar nenhum, ou mesmo desviam do caminho do Divino Mestre.

Deve-se levar em conta, também, a sociedade presentista e hedonista em que vivemos. Como falar em cruz numa sociedade que busca, apaixonadamente, o conforto, o comodismo, o máximo de bem-estar? Que sentido tem a fé cristã, a cruz para essa cultura? Será que não seremos interpretados como alguém que exalta o sofrimento, a dor, como masoquistas doentes?

Escrevendo aos Coríntios, Paulo menciona sua fraqueza e fragilidade associadas e fortalecidas, paradoxalmente, pela cruz de Cristo: “Pois não quis saber outra coisa entre vós a não ser Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado” (1Cor 2,2).

Certamente não é o sofrimento, a dor que nos salvam. O que nos salva é o amor de Deus manifestado em Jesus de Nazaré que entregou sua vida por nós. Sua Encarnação, sua descida até nós nos trouxe a salvação. O rebaixamento de Cristo não está em ter-se tornado um de nós, assumindo nossa carne mortal, mas em ter-se feito servo obediente: “Ele, existindo na forma divina, não se apegou ao ser igual a Deus, mas despojou-se assumindo a forma de escravo e tornando-se semelhante ao ser humano... fazendo-se obediente até à morte” (Fl 2,6.8). Essa forma de vida assumida por Jesus é que tornou-se salvadora da humanidade. Então saímos de cena, do centro, e cedemos o lugar a Jesus.

O relato do evangelho de hoje está no contexto do diálogo com Nicodemos. Jesus faz uma catequese batismal. Ele pertence ao âmbito de Deus. É o Filho de Deus. Levantado da terra torna-se um sinal da salvação, do amor de Deus, como a Serpente de bronze levantada por Moisés no deserto. A salvação não vem de baixo, do ser humano, mas do alto, da Graça de Deus. O dom da vida de Jesus na cruz é sinal do amor de Deus por nós. Sua entrega manifesta a glória de Deus, deixa transparecer o ser de Deus que é amor (1Jo 4,8-9).

Para o cristão a cruz deve ser um sinal de salvação, de seguimento e fidelidade a Jesus. “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (Mt 16,24). A partir do Cristo Crucificado o mundo não tem mais o mesmo significado: “Quanto a mim, não aconteça gloriar-me senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, por quem o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” (Gl 6,14). O sentido do mundo está marcado agora pela cruz de Cristo, vida doada em amor até o fim: “Sabendo Jesus que a sua hora tinha chegado, a hora de passar deste mundo para o Pai, ele, que amara os seus que estavam no mundo, amou-os até o extremo” (Jo 13,1).

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Acompanhemos, atentamente, essa reflexão contemplativa de Pe. Pagola:

“Nesses braços estendidos que já não podem mais abraçar os meninos e nessas mãos que já não podem mais acariciar os leprosos nem abençoar os enfermos, nós, cristãos, contemplamos a Deus com seus braços abertos para acolher, abraçar e sustentar nossas pobres vidas, marcadas por tantos sofrimentos.

Nesse rosto apagado pela morte, nesses olhos que já não podem olhar com ternura as prostitutas, nessa boca que já não pode gritar sua indignação pelas vítimas de tantos abusos e injustiças, nesses lábios que não podem pronunciar seu perdão aos pecadores, Deus nos está revelando, como em nenhum outro gesto, seu amor insondável à Humanidade.

Por isso, ser fiel ao Crucificado não é buscar cruzes e sofrimentos, mas viver como ele em uma atitude de entrega e solidariedade, aceitando, se é necessário, a crucificação e os males que nos podem vir como consequência. Esta fidelidade ao Crucificado não é dolorida, mas esperançosa. A uma vida ‘crucificada’, vivida com o mesmo espírito de amor com que viveu Jesus, somente se lhe espera a ressurreição” (Pe. José Antônio Pagola).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Que significa "carregar a cruz"?

aureliano, 06.09.25

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23º Domingo do Tempo Comum [07 de setembro de 2025]

[Lc 14, 25-33]

No caminho para Jerusalém não há meio termo. Para seguir a Jesus é preciso tomada de decisão radical. Não é suficiente acompanhar as multidões. Fé cristã não é imbuir-se de uma ideia, não é adesão a uma ideologia, mas trata-se de adesão e seguimento a uma pessoa concreta: Jesus de Nazaré. Não podemos perder de vista aquelas palavras iluminadas do Papa Emérito Bento XVI: “No início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo”.

No caminho de adesão a Cristo, todos os dias devemos reafirmar nossa opção por Ele que nos amou e por nós se entregou. Não se pode servir a dois senhores (cf. Mt 6,24). A renúncia aos apegos familiares e a tomada da cruz de cada dia são elementos constitutivos da vida cristã e não somente para as pessoas que assumem a Vida Consagrada. Porém vamos tentar compreender melhor o que isso significa.

Ser cristão é uma Graça de Deus. Mas também é uma opção por Cristo, opção radical, renovada todos os dias. O Reino anunciado por Jesus precisa ser prioridade na vida do cristão. As relações familiares devem também estar a serviço deste Reino. Sempre que houver intervenção da família contrariando os interesses do Reino, é necessário refazer o caminho e re-optar, voltar ao primeiro amor (cf. Ap 2,4). Na vida cristã, o “investimento” tem que ser total. A fé cristã não comporta meias-medidas. A prioridade do cristão que assumiu uma vida familiar não são os filhos, a mulher, o marido ou os pais, mas o Reino de Deus. Em outras palavras, aqueles valores e princípios vividos e propostos por Jesus devem ser a bússola da vida familiar.

A renúncia traz como consequência a cruz. E o que significa carregar a cruz? Aqui precisamos nos deter um pouquinho, pois há equívocos no entendimento dessa palavra de Jesus. Alguns entendem “carregar a cruz” como fazer duras penitências, jejuns, buscar sofrimentos e padecimentos. Outra compreensão muito comum é interpretar a cruz como aceitação das dores e intempéries da vida. Na medida que a pessoa acolhe pacientemente as dificuldades inerentes à vida humana, tais como desencontros, fracassos, doenças, incompreensões, enfretamentos de situações injustas, a acolhida e socorro aos que sofrem etc, está levando a cruz com Jesus.

Bem. O que dissemos até agora é uma possibilidade de interpretação, talvez a mais comum. Porém, para dizer de modo estritamente cristão e evangélico, “carregar a cruz” ainda não é isso. É mais. Muito embora se possa captar no sofrimento cotidiano um conteúdo cristão quando abraçado em Cristo.

Para se entender o que significa “carregar a cruz” precisamos fazer uma viagem histórico-teológica. O que foi “carregar a cruz” para Jesus? Segundo o costume romano, “aquele que carregava a cruz era um condenado por algum crime considerado grave cujo título era levado ao pescoço e atravessava a cidade levando o instrumento de sua execução. Desse modo era mostrado como culpado para toda a sociedade, era excluído, considerado indigno de continuar vivendo entre os seus” (Pe. J. A. Pagola). Foi o que aconteceu a Jesus.

Então “carregar a cruz” significa perfazer o caminho que fez Jesus: “sofrer, com coragem, as rejeições, perseguições, condenações, humilhações infligidas pela sociedade e pelos próprios amigos e familiares, provocadas por causa da fidelidade a Deus e ao Evangelho” (Pe. J. Antônio Pagola). Esse é o caminho de Jesus. Por isso pressupõe opção clara e decisão firme.

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FÉ VERDADEIRA COMPROMETE A PESSOA

O Evangelho de Lucas descreve Jesus caminhando para Jerusalém. Lá seria o lugar da sua morte, mas também, o marco da comunidade cristã de onde partiria para o mundo, anunciando que aquele que morreu crucificado, ressuscitou, está vivo no meio da comunidade.

O discípulo de Jesus deve também percorrer esse caminho porque “o discípulo não é maior do que o mestre” (cf. Mt 10,24-25). E assim como Jesus enfrentou a cruz por causa de sua fidelidade ao Pai, o discípulo também deve fazer os devidos cortes na vida para chegar à ressurreição, colocando Deus como o absoluto de sua vida.

Quando lançamos um olhar para a proposta de Jesus e nos deparamos com uma sociedade em que se faz do cristianismo um ‘supermercado da fé’ e um jogo eleitoreiro, é preciso identificar aí uma contradição. Não é possível crer em Jesus e não se comprometer com o caminho que ele fez. Se por um lado Jesus propõe sair de si em total desprendimento, fazendo-se dom para os outros, por outro, faz muito sucesso a proposta enganadora e sedutora de uma fé que busca responder às necessidades imediatas, resolver problemas, construindo um deus à própria imagem e semelhança. Ou mesmo fazer-se passar por religioso, transformando a fé religiosa em palanque para conquistar votos nas urnas.

É preciso voltar nosso olhar para a proposta de Jesus: “odiar (desapegar-se) pai e mãe, mulher, filhos, irmãos e irmãs e até a própria vida”, “carregar a própria cruz” e “ir atrás de Jesus”. É uma opção que supõe renúncias, riscos e caminho a ser percorrido.

“Odiar pai e mãe” não pode ser entendido como ‘querer mal’; é um hebraísmo que significa desapego total. Em outras palavras: os afetos familiares não podem ser preferidos à proposta de Jesus (cf. Lc 9,57.62). O Reino que Jesus veio anunciar deve ocupar o primeiro lugar na vida do discípulo. Inclusive o casamento, a vida familiar só tem sentido na dinâmica do Reino de Deus. Casar-se, constituir família em busca apenas de bem-estar, para enriquecimento material, para gozar a vida, não faz sentido para o discípulo de Jesus. A vida afetiva na família deve ser também um instrumento e sinal do Reino de Deus. Este deve ocupar o primeiro lugar. Não deixar-se escravizar por nada: nem pelos bens nem pelos parentes nem por qualquer outra coisa. “É para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5,1).

Partindo dessa compreensão do texto bíblico podemos afirmar que crer em Jesus é encarar o desafio de amar sem medida, até o fim, porque ele nos “amou até o fim” (cf. Jo 13,1). Não dá para começar a construção e abandonar a empreitada. É preciso continuar.

Seguir Jesus, ser seu discípulo requer comprometimento pessoal. Não podemos nos deixar manipular por gente má e perversa que se serve da religião para oprimir e dominar. É preciso que, como Jesus, o discípulo se comprometa pessoalmente com sua fé e abrace as consequências desse seu comprometimento. “Qualquer de vós, que não renunciar a tudo o que possui, não pode ser meu discípulo”.

*Estamos no mês da Bíblia. Quem sabe você poderia fortalecer ainda mais seu amor à Palavra de Deus, fazendo a leitura orante, participando com mais entusiasmo dos grupos de reflexão e círculos bíblicos, alimentando nos seus filhos, na sua família o amor e o encantamento pela Palavra de Deus?! Hoje há muita facilidade de se acompanhar a liturgia diária pela internet. Antes de ir para o trabalho, poderia dar uma lida no evangelho do dia, no salmo... Ou mesmo fazer o compromisso de ler a Carta aos Romanos, livro proposto pela Igreja para nossa meditação esse ano. São 16 capítulos que trazem importantes esclarecimentos sobre a salvação, a fé, o batismo, a vida cristã no meio a uma sociedade sem sentido e sem rumo. Vamos nessa?

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN