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aurelius

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Vistamos a armadura da luz

aureliano, 28.11.25

1º Domingo do Advento [30 de novembro de 2025]

[Mt 24,37-44]

Estamos no Advento! Tempo litúrgico conhecido como preparação para o Natal. Mas na verdade é um tempo de celebrar a vinda do Senhor. Ele veio uma primeira vez historicamente, na Palestina. Ele virá uma segunda vez em sua glória para “julgar os vivos e os mortos”. E ele continua vindo no presente da Igreja, que deve se empenhar para ser sinal de sua presença no mundo.

O comércio se vale deste momento para vender, comprar, ganhar dinheiro. É preciso, porém, ter cuidado para não fazer deste tempo uma ocasião de festas sem aquela preocupação basilar de que falam as leituras da liturgia deste domingo: “Deixemos as obras das trevas e vistamos a armadura da luz... andemos decentemente; não em orgias e bebedeiras, nem em devassidão e libertinagem, nem em rixas e ciúmes” (Rm 13,12-13). E ainda: “Ficai preparados, porque o Filho do Homem virá numa hora que não pensais” (Mt 24,44).

Não quero, com isso, negar a importância da festa, do encontro familiar, do descanso, da dança, da música, das alegrias ao redor da mesa. O que deve, porém, caracterizar nossas festas é a dimensão cristã destas festividades. Não perder o sentimento de solidariedade: não esbanjar, desperdiçar; não fechar o coração ao pobre e necessitado; buscar a reconciliação, o perdão, a celebração, a partilha. São elementos que cristianizam nossas festas natalinas.

O Evangelho fala de três situações que mostram a importância de estarmos preparados. No episódio bíblico do dilúvio ninguém se interessou pela arca que Noé preparava. É uma advertência para estarmos conscientes de que o fim é inevitável. É preciso ouvir e ver os sinais de Deus manifestos nos gestos das pessoas. Sobre a narrativa em que as mulheres e os homens estão trabalhando (cf. Mt 24,40-41), é interessante notar que as pessoas estavam fazendo as mesmas atividades, no entanto “uma será tirada e outra será deixada”. Jesus quer dizer que o importante não é o que se está fazendo, mas o modo como cada um age no seu cotidiano. O cristão faz o mesmo que todos fazem, mas com o diferencial de fazê-lo à maneira de Jesus. Não há necessidade de ações heróicas, mirabolantes, de propósitos impossíveis de serem cumpridos. O que o Senhor quer é que nossas atitudes sejam regadas de fraternidade, de sinceridade, de compreensão, de perdão, de ajuda mútua, de solidariedade, de verdade.

Finalmente o ladrão, que sempre surpreende. Para não ser pego de surpresa é preciso vigiar, estar acordado, atento, alerta. Não podemos estar dormindo, mas viver em estado desperto à luz do Dia de Cristo, para que ele nos possa encontrar dispostos para a vida de incansável caridade que ele nos ensinou: “Tudo o que fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25, 40).

Esta vigilância de que fala o evangelho deve ser carregada de esperança. Então não se pode compreender uma espera vigilante que descarta aqueles que estão ao meu lado precisando de minha colaboração. O Papa Francisco chama-nos a atenção: "Não podemos dormir tranquilos enquanto houver crianças que morrem de fome e idosos que não têm assistência médica" (17/08/2013). Então a vigilância que Jesus pede deve ser inquieta. Não basta rezar, ir à Igreja, pedir isso ou aquilo a Deus. É preciso assumir uma atitude de fiel discípulo de Jesus.

Meu pensamento e minhas ações estão voltados para Deus e seu projeto ou voltados para meus projetos egoístas? Isso é que decide a sorte de cada um no juízo de Deus.

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“NÃO PEGARÃO EM ARMAS”

“Ele há de julgar as nações e arguir numerosos povos; estes transformarão suas espadas em arados e suas lanças em foices: não pegarão em armas contra os outros e não mais travarão combate. Vinde, todos da casa de Jacó, e deixemo-nos guiar pela luz do Senhor” (Is 2,4-5).

O texto está tratando de uma situação vivida por Israel e provocada por governantes que fazem alianças perigosas com reis de nações vizinhas. Depositam assim a confiança nas forças humanas e não em Deus. O abandono de Deus e a confiança nas próprias forças colocam em risco toda a comunidade israelita.

O profeta intervém alertando sobre a necessidade de se voltar para Deus e depositar nele a confiança e a esperança. Sobretudo de não pensar que vencerão pela força do exército e das armas. O capítulo VII de Isaías aprofunda essa temática: “Se não o crerdes não vos mantereis firmes” (Is 7,9).

Quero aqui, mais uma vez, chamar a atenção a respeito de projetos propulsores de violência como o da posse e porte de armas de fogo e de outras ações violentas defendidas por pessoas que se dizem cristãs. Esse relato da Escritura convida a transformar as armas de guerra em instrumento de produção de alimento: espadas em arados e lanças em foices. “A guerra é sempre uma derrota - Nada se perde com a paz” (Papa Leão XIV).

Como é que alguém que se diz temente a Deus e que cita a Sagrada Escritura como verdade revelada por Deus, pode defender a matança, a eliminação do ser humano? Está faltando em nossa Igreja e nos cristãos de modo geral, uma volta para Deus, um processo de conversão do coração. O caminho do combate à violência deve passar pelos valores do Evangelho. Jesus deve ser a meta, o horizonte, o foco, a mira do cristão.

“A essas palavras, um dos guardas, que ali se achavam, deu uma bofetada em Jesus, dizendo: ‘Assim respondes ao Sumo Sacerdote?’. Respondeu Jesus: ‘Se falei mal, testemunha sobre o mal; mas, se falei bem, por que me bates?’”(Jo 18, 22-23). A contemplação dessa cena da Paixão do Senhor pode nos ajudar a aprender do Mestre de Nazaré a atitude de reconciliação e de paz já recomendada pelo profeta: “Eles não pegarão mais em armas uns contra os outros” (Is 2,4).

Como estamos nos preparando para celebrar o Natal do Senhor, o Príncipe da Paz? Com pensamentos de paz, de reconciliação, de perdão? Ou de guerra, de ódio, de vingança, de destruição?

Deixo com o Papa Francisco a palavra final:

“Com a convicção de que é possível e necessário um mundo sem armas nucleares, peço aos líderes políticos para não se esquecerem de que as mesmas não nos defendem das ameaças à segurança nacional e internacional do nosso tempo.

Um dos anseios mais profundos do coração humano é o desejo de paz e estabilidade. A posse de armas nucleares e outras armas de destruição de massa não é a melhor resposta a este desejo; antes, parecem pô-lo continuamente à prova. O nosso mundo vive a dicotomia perversa de querer defender e garantir a estabilidade e a paz com base numa falsa segurança sustentada por uma mentalidade de medo e desconfiança, que acaba por envenenar as relações entre os povos e impedir a possibilidade de qualquer diálogo.

No mundo atual, onde milhões de crianças e famílias vivem em condições desumanas, o dinheiro gasto e as fortunas obtidas no fabrico, modernização, manutenção e venda de armas, cada vez mais destrutivas, são um atentado contínuo que brada ao céu.

Em 1963, o Papa São João XXIII, na Encíclica Pacem in terris, solicitando também a proibição das armas atômicas (cf. n. 112), afirmou que «a verdadeira paz entre os povos não se baseia em tal equilíbrio [em armamentos], mas sim e exclusivamente na confiança mútua» (n. 113).

Oxalá a oração, a busca incansável de promover acordos, a insistência no diálogo sejam as «armas» em que deponhamos a nossa confiança e também a fonte de inspiração dos esforços para construir um mundo de justiça e solidariedade que forneça reais garantias para a paz.

Peço-vos para nos unirmos em oração diária pela conversão das consciências e pelo triunfo duma cultura da vida, da reconciliação e da fraternidade; uma fraternidade que saiba reconhecer e garantir as diferenças na busca dum destino comum” (Excertos do discurso do Papa Francisco no Japão, em 24 de novembro de 2019).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

A Cruz é o trono de Jesus

aureliano, 21.11.25

Solenidade de Jesus Cristo Rei - 24 de novembro -

Solenidade de Cristo Rei do Universo [23 de novembro de 2025]

[Lc 23,35-43]

A festa de Cristo Rei foi instituída pelo Papa Pio XI em 1925. Com que intenção? Para que os fiéis reconheçam Jesus como Senhor e Rei da história e que, somente nele, se pode construir e viver a paz e a justiça neste mundo.

Os últimos acontecimentos que temos vivido no Brasil e no mundo são sinais de que não é possível construir a paz, a fraternidade, a justiça, a defesa da vida sem os valores do evangelho proclamados por Jesus. A ganância do ter e a sede de poder invadiram o coração dos governantes, legisladores, líderes sociais e juízes. Cada julga poder resolver os problemas do seu jeito. Sem volta ao evangelho é impossível reconstruir a paz e a harmonia na história. O poder de governar não pode ser colocado em benefício próprio, mas em favor de todos, particularmente dos mais vulneráveis. É um poder-serviço (cf. Mt 20,26). Neste sentido, o Reinado de Jesus se constitui modelo.

A imagem que temos de rei é de alguém com coroa de ouro, cercado de guardas e militares, sentado num trono, morando num palácio, cercado de todos os privilégios. Essa imagem, construída pelas experiências históricas que conhecemos não ajuda a entendermos a solenidade de hoje.

Precisamos voltar ao evangelho. A cena é da paixão. Jesus está condenado, preso, na cruz. Zombam dele. “Havia uma inscrição acima dele: ‘este é o Rei dos judeus’”. Isso foi escrito a modo de ironia para com Jesus. Mas converte-se numa grande verdade. Ele é realmente Rei, mas o seu reino “não é deste mundo”, disse a Pilatos. O trono de Cristo é a cruz, sua coroa é formada de espinhos e seu reino se concretiza na oferta de toda a sua vida ao Pai.

Para entender a realeza de Jesus é preciso recorrer à compreensão de rei que Deus queria para o seu povo, como evoca o Antigo Testamento. Aquele que seria o “lugar-tenente de Deus” para assegurar a paz e a justiça: “És tu que apascentarás o meu povo Israel e és tu quem serás o chefe de Israel” (2Sm 5,2). Mas a história mostra que quase sempre o coração do rei se desviava da aliança de Deus. Isso trazia muito sofrimento para toda a população.

Jesus inaugura um reino diferente. Seu reinado se inicia na cruz e dele participa quem faz um caminho de conversão: o filho pródigo, Zaqueu, a pecadora, o publicano, o próprio companheiro de cruz: o ladrão arrependido.  O reino de Jesus, para Lucas, é o reino da reconciliação do ser humano com Deus. O bom ladrão não faz apenas um pedido, uma oração, mas também uma confissão de fé em Jesus como Rei: “Jesus, lembra-te de mim, quando vieres com teu reino”. A conversão brota da experiência de fé.

A promessa de Jesus ao suplicante nos garante quem é Jesus e o caminho que devemos trilhar: “Em verdade, eu te digo: hoje estarás comigo no Paraíso”. Jesus reconcilia com o Pai aqueles que acreditam nele. E a cruz é o centro dessa reconciliação, ato supremo do serviço de Jesus a seus irmãos.

A morte de Cristo na cruz é um gesto divino de amor que produz a conversão para a superação do ódio e da divisão. Desta morte todos participamos bem como de sua ressurreição e de seu reinado. Ele é a Cabeça e nós, Igreja, seu Corpo. Vinculados a ele pela consagração batismal somos também reis com ele. Isso não significa nos prevalecermos sobre os outros, mas trilharmos um caminho de conversão, expressa no serviço aos demais e na procura constante do Senhor, que nos entregou sua vida.

Cristo é rei pela cruz. Isso não entra facilmente na nossa cabeça infectada pela ideia capitalista do prestígio, da ambição, do sucesso e do poder. Quem pensa que a festa de Cristo Rei é a reafirmação da instituição eclesiástica está desviando a Igreja do caminho de Jesus. É preciso tirar de nossa cabeça a mentalidade do prestígio e do poder. O reinado de Cristo chega ao nosso mundo por meio de pequenos gestos, escondidos, ignorados, relegados ao esquecimento, tal como a morte de Jesus na cruz.

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*Dia dos cristãos leigos e leigas

É oportuno recordar a Missão dos cristãos leigos/as:

  • Uma presença e a atuação como “verdadeiros sujeitos eclesiais” (DAp. n. 497), como “sal, luz e fermento” na Igreja e na sociedade.
  • Formar-se para os ministérios leigos de coordenação e animação de comunidades, pastorais e movimentos.
  • Fortalecer a articulação das redes de comunidades (Doc. 100 da CNBB).
  • Trabalhar e empenhar-se por uma Igreja sempre mais sinodal, participativa.
  • Promover mecanismos de participação popular para o fortalecimento do controle social e da gestão participativa (Conselhos de Direitos, Grupos de Acompanhamento ao Legislativo, Iniciativas Populares, Audiências, Referendos, Plebiscitos, entre outros).
  • Nossos Bispos propõem que as pequenas comunidades missionárias devem partir do senso de fé, dos carismas, dos ministérios e do serviço cristão à sociedade. São espaços propícios para o crescimento espiritual, por meio da partilha da experiência de fé e da fidelidade a Jesus Cristo e a seu Evangelho. “Uma fé autêntica – que nunca é cômoda nem individualista – comporta sempre um profundo desejo de mudar o mundo, transmitir valores, deixar a terra um pouco melhor depois da nossa passagem por ela” (EG, 183). Toda comunidade cristã é esencialmente missionária, “Igreja em saída” (cf. Diretrizes Gerais CNBB 2019-2023, n. 36).

Oração: Nós vos pedimos, ó Pai, que os batizados atuem como sal da terra e luz do mundo: na família, no trabalho, na política e na economia, nas ciências e nas artes, na educação, na cultura e nos meios de comunicação; na cidade, no campo e em todo o planeta, nossa “Casa Comum”. Amém.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

"Cuidado para não serdes enganados!"

aureliano, 14.11.25

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33º Domingo do Tempo Comum [16 de novembro de 2025]

[Lc 21,5-19]

O chamado “discurso escatológico” de Jesus não tem como propósito assustar os discípulos, fazer-lhes medo, mas infundir-lhes confiança nas outras palavras de Jesus. É como se dissessem: ‘O Senhor não os enganou. Aquilo que predissera, aconteceu’. A perseguição aos seus seguidores acontece: “O discípulo não é maior do que o mestre”.

A intervenção de Deus na história, na pessoa de Jesus de Nazaré, introduz a novidade de que a salvação é para todos. Jerusalém é condenada porque traiu sua missão. Em vez de ser sinal da salvação de Deus para todos os povos, fechou-se no seu particularismo, apodrecendo sem gerar vida. A fidelidade de Deus é traída pela infidelidade de um povo escolhido. Sendo a salvação o encontro de duas fidelidades, Jerusalém não corresponde. Jesus, o Filho Amado, permanece fiel e garante a salvação a todos.

Embora esteja garantida a salvação, permanece, porém a incompletude enquanto depende da resposta de cada ser humano. É uma promessa que espera ser completada. É um dom que supõe conquista. A fidelidade de cada um deve encontrar eco na fidelidade de Jesus ao Pai.

Deus salva o indivíduo na comunidade. A Igreja tem, pois, a missão de quebrar as barreiras que dividem a humanidade. A divisão, a ganância, o egoísmo, a mentira, o preconceito, o fechamento são atitudes pecaminosas que bloqueiam a salvação.

As obras suntuosas, as pessoas famosas, as beldades, a fama, o sucesso passarão. Só não passará o amor de Deus testemunhado pela firmeza e fidelidade daqueles que são apaixonados pelo Reino e têm a coragem de entregar a vida em defesa da vida. “Quem procurar ganhar sua vida, vai perdê-la, e quem a perder vai conservá-la” [Lc 17,33].

A propósito da segunda leitura de hoje: “Quem não quer trabalhar também não há de comer” [2Ts 3,10], é bom entender que Paulo diz para o cristão não ficar parado. É preciso agir, fazer alguma coisa, não esperar que as coisas caiam do céu. Um mundo novo é construído a partir do empenho de cada um. Quem pensa que basta ir à igreja para se salvar está traindo o projeto de Jesus. É preciso “trabalhar” a salvação e a libertação de si próprio, do mundo e da história (cf. Fl 2,12-16). Cada um dentro de suas possibilidades e dons. É preciso ser firme até o fim!

Gostaria ainda de chamar a atenção do leitor para duas realidades assinaladas pelo evangelho de hoje:

A primeira é a chamada de Jesus para que o discípulo não se deixe enganar. Já notaram que a enganação e a mentira correm soltas em nosso meio? É gente vendendo “gato por lebre”, é gente enganando o povo em nome de Deus, é gente prometendo mundos e fundos para ganhar um cargo no poder, é gente vendendo a pílula da felicidade; vendem até “terreno na lua”! Enfim, há quem venda e há quem compre; há quem engane e há os que se deixam enganar. Há carência de reflexão, de ponderação, de objetivos claros e definidos. Num momento de crise de sentido, há muita religiosidade: os espertalhões e charlatões se aproveitam das buscas e desesperos do ser humano para “vender seu peixe” e enganar os incautos e ingênuos. Cuidado!

A segunda realidade apontada por Jesus é a necessidade da perseverança: “É pela perseverança que mantereis vossas vidas”. O termo grego que traduz perseverança (hypomonê) pode traduzir também paciência. É imprescindível a paciência para se conseguir a preservação da vida e se alcançar a salvação. Paciência não é um mero gesto de suportar uma palavra que desagrade ou aguentar um desaforo. Mas é uma atitude de vida que nos coloca diante de Deus e da vida com serenidade, fidelidade, alegria mesmo em meio a sofrimentos, perseguição e incompreensão. Quero dizer que é uma virtude que precisamos cultivar, pois sem ela nossa salvação corre risco. Os encantos enganosos da vida, a fama, o sucesso, as honrarias, o dinheiro, nada disso nos poderá tirar do centro vital no qual o Senhor nos colocou com sua morte e ressurreição.

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CRISE: DECISÃO NUM JUÍZO

Vivemos tempos de crise. Crise econômica, crise política, crise religiosa, crise eclesiástica, crise familiar, crise existencial etc. A crise é uma oportunidade de crescimento. O termo crise significa encruzilhada. Mais precisamente, crise vem do grego krisis, krínein que significa a decisão num juízo. Assim, diante de uma situação que apresenta várias facetas e que pede que se escolha uma delas, há que se tomar a decisão. Então gera-se a crise que pede um critério de escolha ou julgamento para se decidir por isto ou por aquilo. Os termos crisol, critério, crítica tem sua raiz na palavra crise. É sempre algo que pede um desembaraço, um aprimoramento, um acrisolamento.

Pois bem. O evangelho deste domingo coloca uma situação de crise. Aliás, a vida e as palavras de Jesus (a fé cristã) colocam o discípulo em constante crise. Todos os dias o discípulo precisa decidir por sua continuidade ou não no seguimento a Jesus. Pode ser que em dado momento as condições sejam mais ou menos favoráveis. Mas nunca há “paz” para o cristão: é permanente “guerra” contra as forças do mal dentro e fora de si mesmo (cf. Mt 10,34). O autor de Jó já dizia: “A vida do homem sobre a terra é uma guerra” (Jó 7,1).

“Atenção para não serdes enganados, pois muitos virão em meu nome dizendo: ‘Sou eu!’ e ainda: ‘O tempo está próximo!’ Não os sigais!” (Lc 21,8). Uma clara situação de crise. Pois há propostas diferentes, encruzilhadas. Qual a atitude do cristão? “Não os sigais!”. Esta palavra de Jesus precisa estar sempre presente dentro de nós. Não seguir aquelas pessoas que nos separam de Jesus Cristo, único fundamento de nossa fé. Qualquer pessoa ou situação que nos afasta de Jesus precisa ser rechaçada. As tentações são muitas. Por vezes se apresentam com aspecto encantador, até divinizado. Mas precisamos voltar ao evangelho. Como Jesus agia? Quais eram suas opções? A quem ele seguia e em quem confiava?

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AS LÁGRIMAS DO CRISTÃO

Outro elemento que precisa ser ressaltado: Jesus chorou sobre a cidade. Lucas relata o choro profético de Jesus: “E como estivesse perto, viu a cidade e chorou sobre ela” (Lc 19,41). Uma atitude de Jesus que deve ser contemplada. Não foi um choro de ira, de lamento vazio, mas um choro de profeta. Lamenta a cidade que não acolheu a visita de Deus. Lamenta um sistema político-religioso que explora os pobres. Solidariza-se com os explorados por um sistema que deveria estar a serviço da vida, mas que optou por sacrificar os pobres.

Por que Jesus chora sobre uma cidade? Chorar pela morte do amigo Lázaro é compreensível. Mas chorar sobre uma cidade é algo inusitado. Jerusalém, porém, não chora. Por quê? A cidade vai bem. Os negócios vão bem. Tudo estava bem harmonizado com a presença dos soldados romanos mantendo a “Paz” e a ordem. O Templo, espaço religioso que constituía o centro dos interesses na cidade era frequentado e cercado de cuidados. Porém não se prestava mais para o seu objetivo primeiro: o encontro com Deus. Era mantido para manutenção do status quo da aristocracia sacerdotal judaica. Não era mais Casa de Oração.

E Jerusalém não era mais a cidade da Paz. Tem a paz romana imposta pela espada. Tem a paz dos comerciantes que precisam de paz para fazer bons negócios. Tem a paz religiosa imposta pelos sacerdotes do templo. Por isso Jesus chora. Aquele que veio trazer a paz foi rejeitado. A cidade vivia uma paz mascarada. Jesus veio trazer uma paz/shalom, um estado de vida, de bem-estar e de prosperidade que engloba toda a comunidade. Os poderosos não choram. Os fracos choram. O Profeta da compaixão chora!

O saudoso Papa Francisco, em diversas ocasiões, falava da importância das lágrimas nos olhos do cristão: 

  1. “Também nos fará bem pedir a graça das lágrimas, para este mundo que não reconhece o caminho da paz. Peçamos a conversão do coração“.
  2. “Certas realidades da vida só podem ser vistas com os olhos limpos pelas lágrimas“.
  3. “Quantas lágrimas são derramadas a cada instante no mundo; uma diferente da outra; e, juntas, elas formam como um oceano de desolação, que invoca piedade, compaixão, consolação“.
  4. “Se Deus chorou, eu também posso chorar, sabendo que sou compreendido. O pranto de Jesus é o antídoto contra a indiferença pelo sofrimento dos meus irmãos. Aquele choro ensina a tornar minha a dor dos outros, a ser participante do infortúnio e do sofrimento de todos os que vivem nas situações mais dolorosas“.
  5. “Se vocês não aprenderem a chorar, vocês não poderão ser bons cristãos. E isto é um desafio“.

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No dia 20 de novembro celebramos o dia da Consciência Negra. A data homenageia Zumbi dos Palmares, um líder que defendeu a raça negra contra a escravatura e que morreu no dia 20 de novembro de 1695 enquanto defendia sua comunidade que lutava pelos direitos de seu povo. Seria muito importante que trabalhássemos em nosso coração, com nossos filhos e netos o respeito, amabilidade, a quebra do preconceito. Este se manifesta em piadas, brincadeiras, discriminações. As estatísticas mostram que o negro é ainda altamente discriminado. Que o racismo está muito vivo em nosso meio. E, ultimamente, parece ter crescido em forma de violência e morte. A fé cristã não admite distinção de pessoas: “Todos vós que fostes batizados em Cristo, vos vestistes de Cristo. Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não homem nem mulher, pois todos vós sois um só em Cristo Jesus” (Gl 3,27-28).

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IX DIA MUNDIAL DOS POBRES

Celebramos, neste dia 16 de novembro, o Dia Mundial dos Pobres. É uma excelente oportunidade que nos deu o Papa Francisco, ao instituir esse dia, para repensarmos nossas relações com bens e com os pobres.

“Tu és a minha esperança, ó Senhor Deus” (Sl 71,5). Com estas palavras, o Papa Leão convida a Igreja a celebrar a IX Jornada Mundial dos Pobres de 2025. Sem a virtude da esperança certamente nossas palavras e ações poderão cair no vazio. E diante das dificuldades poderemos desanimar de prosseguir o caminha da cruz no encalço de Jesus. O Papa nos convida a olhar com a lente do Evangelho para os pobres e estender-lhes a mão. É missão da Igreja.

“Os pobres não são um passatempo para a Igreja, mas sim os irmãos e irmãs mais amados, porque cada um deles, com a sua existência e também com as palavras e a sabedoria que trazem consigo, levam-nos a tocar com as mãos a verdade do Evangelho. Por isso, o Dia Mundial dos Pobres pretende recordar às nossas comunidades que os pobres estão no centro de toda a ação pastoral. Não só na sua dimensão caritativa, mas igualmente naquilo que a Igreja celebra e anuncia. Através das suas vozes, das suas histórias, dos seus rostos, Deus assumiu a sua pobreza para nos tornar ricos. Todas as formas de pobreza, sem excluir nenhuma, são um apelo a viver concretamente o Evangelho e a oferecer sinais eficazes de esperança” (Mensagem para a IX Jornada Mundial dos Pobres).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

O templo, o culto e a vida

aureliano, 07.11.25

Dedicação da Basílica do Latrão

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[09 de novembro de 2025]

 [Jo 2,13-22]

A basílica de Latrão foi a primeira catedral do mundo cristão. Igreja catedral é a igreja do bispo do lugar. Vem de cátedra, cadeira presidencial. Ali o bispo preside a Eucaristia e preside a comunidade que lhe foi confiada como Igreja Particular ou Diocese. A igreja dedicada a São João do Latrão foi, durante muito tempo, a igreja do bispo de Roma, o Papa. No dizer de Santo Inácio de Antioquia o Papa recebeu o ministério de “presidir a assembléia universal da caridade”.

Bem. A festa de hoje tem o propósito de alimentar a unidade da Igreja, mostrando que as catedrais do mundo inteiro, bem como toda igreja em que a comunidade cristã católica se reúne, está em comunhão com toda a Igreja. Aqui está uma das razões pelas quais se menciona o nome do papa e do bispo na celebração eucarística: comunhão de fé espírito de unidade.

É importante ressaltar que celebramos não o templo de pedras, mas o templo do Espírito. Na carta de Pedro temos a expressão “pedras vivas” (1Pd 2,5), referindo-se à Igreja desejada por Jesus. Paulo diz que essa Igreja oferece um “sacrifício espiritual” (Rm 12,1; 1Pd 2,5) (isto é, promovido pelo Espírito Santo), que é a prática de vida cristã. O alicerce é o próprio Cristo (1Pd 2,4).

Assim entramos no evangelho da festa que celebramos. Ele nos ajuda a entender mais o sentido da Igreja. Jesus sobe a Jerusalém por ocasião de uma romaria pascal. Lá ele expulsa do templo vendedores e animais do sacrifício. Que Jesus quer dizer quando realiza este gesto profético?

Em primeiro lugar ele expulsa o culto do templo. Ou seja, aquele modo de se realizar o culto não era do agrado do Pai. O que se fazia ali era uma exploração dos pequenos e pobres em nome da religião. A casta sacerdotal e os aristocratas do templo de Jerusalém valiam-se das grandes festas religiosos para explorar os fiéis. Os saduceus engordavam o gado nos latifúndios próximos da cidade para vendê-los aos peregrinos por ocasião das festas religiosas. E para aqueles que não podiam pagar por um novilho, havia os pombos. Por isso diz o evangelho que Jesus disse aos vendedores de pombas: “Tirai isso daqui. Não façais da casa de meu Pai um mercado”. Jesus estava indignado com a exploração dos pobres.

O templo construído por mãos humanas dará lugar ao Templo vivo, o próprio Jesus. Ele é o verdadeiro Templo, lugar onde Deus habita. Será destruído por morte violenta, mas se reerguerá do túmulo, ressuscitará. O Pai não deixa seu Filho na sombra da morte. Em Jesus todos nós nos tornamos templos vivos do Espírito Santo: “Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1Cor 3,16).

Então a relação com Deus toma novo rumo. A fé não pode ser algo separado de nossa vida, distante, desligada de nosso cotidiano. O ser humano deve receber um novo olhar, novo tratamento. Já não basta mais dizer que cumprimos nosso dever religioso quando fomos à igreja, fizemos nossa oração, acendemos uma vela, escutamos a Sagrada Escritura. Não é possível, a partir de Jesus Cristo, nos contentarmos com uma prática externa de religião, com um rito religioso desligado da vda. Não é o templo, o culto vazio, o sacrifício que interessa a Deus, mas a vida. O culto que prestamos a Deus, o “culto espiritual” (cf. Rm 12,1-2), o “sacrifício de louvor” (Hb 13,15-16) é nosso “modus vivendi” (nosso modo de viver). Nosso esforço cotidiano de corresponder ao dom da salvação que o Senhor nos concedeu em Jesus.

Essa visão mercadológica da fé que se propaga nas mídias não tem nada a ver com o evangelho. Esse ‘toma lá, dá cá’ com Deus, essa insistência insana de que Deus ajuda a alguns “que têm fé” e abandona a outros “que não têm fé”, é uma aberração ao evangelho. É uma negação de tudo o que Jesus ensinou. Na verdade são meios de manipulação e dominação religiosa das pessoas de boa fé. Um pecado mortal por parte dos “abusadores” e “manipuladores”.

A festa de hoje nos convida a revermos nossa compreensão de Igreja. Igreja não é templo de pedras. Igreja é a comunidade cristã que celebra o Mistério Pascal da vida, morte e ressurreição de Jesus e procura transformar essa celebração em atitudes no seu cotidiano, vivendo e construindo fraternidade, vencendo os preconceitos, respeitando todas as pessoas, lutando contra as “injustiças que ferem e que matam”, lutando contra o egoísmo, fonte de muitos males, vigiando para que a ganância não tome conta do coração da gente. É isso aí.

Atenção: Há uma mentalidade bastante difusa de que basta acreditar em Deus ou em Jesus, prescindindo-se da Igreja, de comunidade de fé. Talvez seja fruto de alguma decepção ou ideologia narcisista, gerando assim os “desigrejados”. Parece não ser o caminho apontado pro Jesus. O divino Mestre constituiu um grupo, uma Igreja. É o povo convocado por Deus para celebrar e viver unido, junto, construindo fraternidade. As dificuldades nas relações nos ajudam na purificação de nossa mente e coração marcados pelo egoísmo e individualismo. É preciso buscar a vida de fraternidade, de comunhão, de diálogo. A igreja-templo é sinal, é analogia do povo convocado e reunido por Deus para ouvir e viver sua Palavra que liberta e salva.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN