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aurelius

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Tornar retos os caminhos tortuosos

aureliano, 07.12.18

2º Domingo do Advento - C.jpg

2º Domingo do Advento [09 de dezembro de 2018]

[Lc 3,1-6]

Este 2º domingo do Advento nos convida a entrar na dinâmica da conversão. João Batista, figura profética que sintetiza o Primeiro Testamento e introduz o Segundo como a “voz que clama no deserto: preparai os caminhos do Senhor”, citando o profeta Isaías. Esse caminho de conversão para o perdão deve ser trilhado por todos. Por isso Lucas situa João Batista na história política da Palestina de então. Ao mencionar os mandatários da época, quer lembrá-los que a salvação veio também para eles. Para serem salvos precisam “tornar retos os caminhos tortuosos”. A pregação de João atinge a todos, tanto aqueles que ocupam cargos políticos como religiosos.

A Palavra de Deus não foi dirigida nem às autoridades do palácio romano nem tampouco aos sacerdotes e mestres do Templo de Jerusalém. Mas a um homem que habita no deserto. Lugar teológico na Sagrada Escritura para indicar o “espaço” de encontro com Deus. A aridez do deserto ajuda o homem/mulher de Deus a sair de si mesmo, do próprio comodismo, das próprias seguranças, para colocar sua vida totalmente nas mãos do Pai. A caminhada do povo de Israel pelo deserto rumo à Terra Prometida (cf. Êx 14ss.) revela bem o significado do deserto na vida daquele que caminha com Deus. Aí não é possível acumular bens. Nem cultivar um jardim para tempos ociosos, nem cuidar de um bichinho de estimação, nem guardar muita provisão para o ano, nem fazer muita previsão de futuro brilhante, de sucesso, de poder político e econômico. Uma vida vivida na Providência. Uma vida despojada, entregue, à mercê dos riscos, dos desafios, das tentações, da ação divina. Lugar da manifestação da Palavra.

A busca frenética pelo bem-estar social e econômico, o fechamento às necessidades do próximo, o frenesi de tirar vantagem de tudo e de todos são indicadores de uma sociedade que caminha para a autodestruição, para a morte. A experiência do Deserto ajuda a pessoa a procurar o “único necessário” que Jesus recomendava à Marta (cf. Lc 10,38-42) e que dá o verdadeiro sentido à vida. Uma vida “em deserto” ajuda a encontrar o sentido profundo da existência humana.

João, o homem do Deserto, pregava “um batismo de conversão para o perdão dos pecados”. João é um “ex-cêntrico”, ou seja, seu centro está fora. Não se coloca no centro das atenções. Não chama a atenção sobre si mesmo. Não se anuncia a si mesmo. Seu “coração está em Deus”, como aclamamos no invitatório do prefácio da Oração Eucarística. O encontro com o Senhor no deserto faz do Batista um homem que coloca a promessa de Deus no centro da vida e da história: “E todas as pessoas verão a salvação de Deus”. Para tanto é preciso de conversão.

A salvação de Deus é dom e tarefa. É chamado e resposta. É proposta e acolhida. Deus não salva ninguém à força. “Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo” (Ap 3,20). Por isso o texto diz que João anunciava “um batismo de conversão para o perdão dos pecados”. O perdão é dom de Deus. Mas precisa ser buscado, acolhido. O sinal de que queremos o perdão de Deus se traduz nas atitudes cotidianas de conversão.

Nesse tempo do Advento a Igreja nos convida a lançar um olhar lá no mais profundo de nosso ser. O que precisa ser mudado aí? Aquele ressentimento contra alguém; aquele desejo de possuir e/ou de tomar o que é do outro; aquela mentira ou calúnia ou fofoca que prejudica alguém; aquela palavra que ofende e faz derramar lágrimas; aquela preguiça ou comodismo em participar da vida da comunidade; aquela negligência em visitar ou cuidar de alguém que está doente; aquele espírito de ganância que leva à desonestidade no trabalho, que faz ganhar um dinheiro injustamente: chegar atrasado ao trabalho, “morcegar”, enrolar no serviço, “arranjar” atestados, falsificar documento, fraudar a empresa, fraudar a previdência social e prejudicar o funcionário não pagando um justo salário, ou não assinando sua carteira, ou então forçando-o a trabalhar doente e/ou para além do tempo de dever; submeter o meio ambiente e a natureza a agrotóxicos e maus tratos escorropichando-lhes as forças (Teresa Cristina, ministra da Agricultura do próximo governo, é cognominada musa do veneno por ter empenhado suas forças na aprovação do Projeto de Lei que flexibilizou a lei do agrotóxico no Brasil!); entrar em jogatina e/ou bebedeira;  trair a mulher, o marido, os filhos, os pais... Enfim, são muitos caminhos tortuosos que precisam ser “endireitados”. Somente assim todas as pessoas “verão” a salvação de Deus. Do contrário a salvação de Deus continuará “velada”, coberta pelo véu do nosso pecado e da nossa injustiça: “Com efeito, a cólera de Deus se revela do alto do céu contra toda impiedade e toda injustiça dos homens que mantêm a verdade cativa da injustiça” (Rm 1,18).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

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