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José Lopes: portas sempre abertas aos pobres

aureliano, 13.04.24

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Neste dia 13 de abril de 2024 celebramos o 2º ano de Páscoa definitiva de meu pai, José Lopes de Lima. Ele viveu uma vida configurada a Cristo crucificado e ressuscitado. Como registra seu primeiro livrinho que, aliás, lhe trouxe grande alegria: “Lutas e vitórias de uma vida”.

Ainda esses dias estava escutando meus irmãos, mais novos e mais velhos, relatando histórias do papai: estava sempre de portas abertas acolhendo visitas, andarilhos, pessoas pobres e sofredoras. Sempre com as portas da casa e do coração abertas para recebê-los, sem nenhum receio, preconceito ou constrangimento.

Nós mesmos ficávamos com medo das pessoas que chegavam, pois eram um tanto estranhas para nós. Mas ele não tinha receio. Acolhia, oferecia o que tinha para matar a fome, deixava que dormissem lá em casa. Sem receio nenhum.

Papai sempre confiou na Providência divina. Poderia afirmar que papai não era ingênuo, era confiante em Deus. Ele entregava tudo, absolutamente tudo nas mãos de Deus. Suas últimas palavras registradas por um irmão (Gabriel) foram: “Estamos todos juntos nas mãos de Deus”.

Ele nunca se preocupou com os filhos que o visitavam e partiam em viagem de retorno. Não procurava saber onde estavam, se tinham chegado bem etc. Certa vez, perguntado sobre isso, respondeu: “Meus filhos estão nas mãos de Deus. Mesmo se acontecer algum acidente ou tragédia, não me preocupo: estão nas mãos de Deus”.

Mas voltando ao assunto das “portas abertas”, lá em casa, para quem quer que chegasse, veio-me à memória, nesses dias de celebração pascal, a consideração das “portas fechadas” onde se encontravam os discípulos de Jesus. Eles estavam com as portas fechadas por medo. Jesus entra, mesmo estando as portas fechadas, e tira-lhes o medo com o dom da paz, do perdão e do Espírito Santo. Jesus ressuscitado lhes dá novo vigor, encoraja-lhes o coração, enche sua vida de alegria em meio às dores e angústias que experimentavam pela morte trágica de Jesus, o mestre em quem sempre confiaram.

Usando, pois, a metáfora da porta, estava me recordando que o papai nunca manteve nada trancado, escondido, fechado. Quarto, pastas e cadernos, lugar de guardar o dinheiro (o pouco que tinha), gavetas, guarda-roupas (celular e computador nos últimos anos de vida). Tudo lá em casa era aberto. Não havia segredo. Ainda me lembro que, quando era criança, havia uma latinha empretecida pelo tempo, sem tampa, sobre uma tábua/prateleira, acima do banco da cozinha, onde ele guardava o dinheiro (quando tinha).

A casa de meu pai tinha as portas abertas. Ele não tinha medo de nada nem de ninguém. Não era valente. Era confiante. Seu refúgio e rocha firme era o Senhor: “O Senhor é minha rocha e minha fortaleza, quem me liberta é o meu Deus. Nele me abrigo, meu rochedo, meu escudo e minha força salvadora, minha torre forte e meu refúgio” (Sl 18,3).

E a Mãe, Maria, sua companheira inseparável. Quando era criança, quantas vezes o ouvia rezar o “Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria”, de São Bernardo, enquanto fazia o café da manhã, no fogão a lenha. Quando não tinha pó de café, era água doce de rapadura. Não desesperava, não desanimava. Seguia seu caminho.

O pouco que possuía “não era seu”. Como nos lembra Atos dos Apóstolos: “Ninguém considerava exclusivamente seu o que possuía, mas tudo entre eles era comum” (At 4,32). Ficava zangado quando alguém tomava uma ferramenta emprestada e não devolvia ou devolvia quebrada. Mas não deixava de emprestar. E nunca deixou de ajudar com alimento a quem precisava.

Agora, um detalhe curioso é que as pessoas que às vezes pediam hospedagem lá em casa eram bem pobres e por vezes, com alguma deficiência mental. E o papai recebia esse povo como a qualquer outro. Sem cerimônia nem enfeite. A pessoa partilhava de nossa vida: da pobreza, das pulgas (que não faltavam), da comida (simples: abóbora, feijão, arroz, angu, ovo frito - quando tinha, pois carne era coisa raríssima nos tempos idos), das roupas de cama. Não tinha nada de especial senão aquele jeito de receber as pessoas com a porta aberta, o coração aberto e a casa aberta.

Quando dizemos que o papai fez a Páscoa definitiva significa que ele viveu uma vida pascal, como ressuscitado, de pé, com as portas abertas, sem medo de testemunhar o amor de Deus, cuidando dos pequenos e sofredores como Jesus ensinou. Não pode fazer páscoa definitiva quem não vive a vida de Jesus.

E a mamãe? Tadinha. Estava por ali. Nunca se opôs que papai realizasse o gesto samaritano. Como ela nunca foi proativa devido aos limites que lhe impunham a enfermidade, dava o apoio que lhe era possível. Quando estava de bom humor e “seu anjo da guarda combinava com o da visita”, “cerrava um papo”. Senão, ficava no quarto, quietinha.

Viver como ressuscitado é viver de portas abertas, em espírito de acolhida a pessoas que nem sempre correspondem ao nosso afeto. Viver como ressuscitado é viver a amizade social alargando nossa tenda a fim de que outros possam aí se abrigar da chuva e do sol, das intempéries da vida. É abrir o coração para doar um pouco de afeto, de atenção, de cuidados para com os pequenos e sofredores.

Papai foi um homem que nos ensinou com sua vida o desprendimento, a partilha, a solidariedade, o espírito de oração, a não discriminação, a não fazer distinção de pessoas. Qualquer um que chegasse lá em casa tinha o mesmo tratamento, a mesma acolhida.

Pe. Anchieta, o irmão mais velho, que fora adolescente para o seminário, sempre levava visitas lá em casa. As coisas que tinham na casa eram sempre as mesmas para todos. E cada um chegava e se ajeitava. Ninguém tinha privilégio. Nem os filhos. Papai estabeleceu um regime igualitário para os filhos e visitantes.

Papai foi um homem honesto. Viveu pobremente, morreu sem ter nada de próprio. O pouco que herdara de seus pais, distribuíra com os filhos. Tomou prejuízo em serviço e negócios. Mas nunca prejudicou a ninguém. E um pequeno recurso que deixou na poupança, já dissera à Maria Marta, irmã mais velha que zelava por e pela mamãe: “É para os cuidados para com a Juracy”. E assim foi feito. Deu para cuidar muito bem da mamãe durante os quase dois anos que ela sobrevivera a ele. Todas as despesas foram pagas, inclusive os funerais, com aquele dinheirinho abençoado. Graças a Deus.

E essa atitude de estar com as portas abertas aos sofredores que pediam comida ou hospedagem marcou nosso coração. Na ocasião a gente não entendia, mas hoje fazemos a leitura de como ele vivia o evangelho: “Cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25,40). Papai tinha um coração compadecido pelos pobres.

E assim o ele nos ensinava a viver. Seus exemplos ecoam em nossa vida, em nossos corações. Um adágio latino reza assim: “Verba volant. Exempla trahunt”. (As palavras voam. Os exemplos arrastam). Papai era de poucas palavras. Ia à nossa frente. E nós tentando ir atrás dele. E ele atrás de Jesus. Uma vida pascal na terra. Plenificada na eternidade.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Uma vida que fascina e atrai

aureliano, 12.04.24

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3º Domingo da Páscoa [14 de abril de 2024]

[Lc 24,35-48]

Crer na ressurreição de Jesus não é algo fácil, que acontece de um dia para outro. Quando se diz ‘crer na’, quer-se dizer “entregar-se confiante” a Cristo e assumir uma postura de vida cada vez mais parecida com a de Jesus. Isso é que é ‘ter fé’. Não é crer na narrativa do evangelho como um fato jornalístico, histórico, literário etc. Mas crer que esse acontecimento muda minha história, nossa história. Abre-nos um novo horizonte de vida e de compreensão da realidade. Um acontecimento que, vivido, constrói um mundo mais humano e justo.

A comunidade estava assustada, perdida, sem saber o que fazer. Dois discípulos chegam e começam a contar a experiência que tiveram: “O que tinha acontecido no caminho, e como tinham reconhecido Jesus ao partir o pão”.

O próprio Jesus se manifesta a eles com o dom da paz. Mas ainda pensavam que fosse um fantasma. Porém Jesus continua insistindo, comendo do peixe, mostrando-lhes as mãos e os pés. Ou seja, quer lhes dizer que é ele mesmo, o mesmo que havia caminhado com eles pela Palestina e que tinha sido pregado na cruz.

Somente depois de lhes explicar as Escrituras é que “abriu a inteligência deles” (Lc 24,45). As Escrituras aquecem o coração e iluminam a mente. No caminho de Emaús, Jesus explicava-lhes as Escrituras. Depois disseram: “Não ardia o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?” (Lc 24, 32). A tristeza não lhes fechou o coração, pois havia neles um sincero desejo de seguimento. É importante alimentar o bom desejo no coração: é porta de entrada para Deus.

Não podemos perder de vista aqui a menção ao “caminho”. É um conceito que lembra a itinerância durante a qual o ser humano vai aprendendo a caminhar, a entender o sentido da vida, vai amadurecendo sua experiência de fé. É lugar também de encruzilhadas, de curvas, de tropeços etc. É lugar de riscos, de ameaças, de tentações, de seduções, de decisões. A ‘Resposta’ (que é Jesus) se aproxima, entra na conversa, anima, ilumina a mente e ajuda a enxergar. É preciso estar atento aos ‘sinais’ de Deus no caminho.

Ninguém nasce pronto. Ninguém está acabado, mas faz processo de aprendizado, de discipulado, de experiência de Deus. Por isso os discípulos estavam ainda com medo e perturbados. Ainda estavam a caminho. Estavam na itinerância da fé.

Assim acontece conosco. No princípio nasce um desejo. Depois esse desejo começa a amadurecer na simplicidade e na humildade. E perguntamos com os discípulos: ‘Será verdade um mistério tão grande?’. É algo que está muito acima de nós, é infinitamente maior do que nós. Por isso mesmo nos toma, nos envolve, nos fascina, nos encanta, nos atrai.

Então nos tornamos discípulos missionários. É Jesus que nos faz “testemunhas de tudo isso”. A iniciativa é dele. A resposta é nossa. Se nos deixamos instruir por ele, se nos deixamos perdoar por ele, se nos deixamos converter, a força dele faz de nós discípulos missionários do Reino que ele deixou no meio de nós.

Nossa fraqueza não será mais obstáculo para a ação dele em nós. Ele fará de nós instrumentos de conversão e salvação da humanidade. Nosso povo não quer saber de mestres, de palavras, de ensinamentos vazios, mas de testemunho. É preciso mostrar ao mundo nossa alegria de crer em Jesus, nossa firmeza em seu ensinamento, nossa vida coerente com o que dizemos crer, nosso olhar de misericórdia sobre o pobre e indefeso. O mundo quer e precisa de testemunhas mais do que de mestres. Dizia o Papa São Paulo VI: “Por força deste testemunho sem palavras, estes cristãos fazem aflorar no coração daqueles que os vêem viver, perguntas indeclináveis: Por que é que eles são assim? Por que é que eles vivem daquela maneira? O que é – ou quem é – que os inspira? Por que é que eles estão conosco?  (EN, 21). Nosso modo de viver deve encantar e atrair as pessoas para Cristo.

Nota importante: A expressão “era preciso” do evangelho de hoje e presente em muitos outros textos evangélicos, precisa ser bem entendida. Muitos pensam tratar-se de um destino, uma predeterminação do Pai de que Jesus tinha de morrer violentamente. Um determinismo absoluto como se Deus fosse um masoquista que tem prazer em ver a pessoa sofrer. Isso dá margem a uma ideia errônea de Deus e negaria a liberdade em Jesus. Trata-se de um modo de compreender a história da salvação. Jesus compreende como um apelo à obediência ao plano de Deus ao qual ele quer manter-se fiel até o fim: “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). Essa fidelidade lhe acarretou o sofrimento, a perseguição, a morte.

A essa vontade salvífica de Deus está submetida também a comunidade dos discípulos. Eles também enfrentarão sofrimento e morte por causa da fé comprometida com o Reino inaugurado por Jesus. O que conta aqui é que o Pai é o garante da realização da salvação, por isso não abandona seu Filho na morte, mas o ressuscita. O mesmo faz com todos aqueles que vivem como ele viveu. Isso é ressurreição!

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NOSSAS EUCARISTIAS E SUAS CONSEQUÊNCIAS

Foi no “partir o pão” que eles reconheceram o Senhor. A esse propósito é oportuno recordar uma exortação de São João Crisóstomo a respeito das consequências da Eucaristia na vida do discípulo de Jesus:

“De que serve ornar de vasos de ouro a mesa do Cristo, se ele mesmo morre de fome? Começa por alimentá-lo quando está faminto, e então poderás decorar sua mesa com o supérfluo. Dize-me: se, vendo alguém privado do sustento indispensável, o deixasses em jejum e fosses enfeitar sua mesa com vasos de ouro, achas que ele te seria agradecido? Ou não ficaria indignado? Ou ainda, se vendo-o vestido de andrajos e trêmulo de frio, o deixasses sem roupa para erigir-lhe monumentos de ouro, pretendendo assim honrá-lo, não diria ele que estarias zombando dele com a mais refinada ironia?

Confessa a ti mesmo que ages assim com o Cristo, quando ele é peregrino, estrangeiro e está sem abrigo, e tu, em lugar de recebê-lo, decoras os pavimentos, as paredes e os capitéis das colunas. Suspendes candelabros com correntes de prata, e quando ele está acorrentado, não vais consolá-lo. Não digo isto para reprovar esses ornamentos, mas afirmo que é necessário fazer uma coisa sem omitir a outra; ou melhor, que se deve começar por esta, isto é, por socorrer o pobre”.

Esta exortação do “Boca de Ouro” do século IV em Antioquia/Constantinopla deveria retumbar naquelas realidades de nossas comunidades que promovem leilões, bingos, festas, quermesses e dízimo em função preponderantemente de construções, obras e reformas, ou mesmo para ornamentos e materiais litúrgicos de preços exorbitantes, reservando-se, por vezes, uma migalha para ações sociais e missionárias. A postura e as homilias de Crisóstomo deveriam ser retomadas em nossas paróquias e comunidades!

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

A comunidade brota e se alimenta do Ressuscitado

aureliano, 05.04.24

2º Domingo da Páscoa - B - 08 de abril.jpg

2º Domingo da Páscoa [07 de abril de 2024]

 [Jo 20,19-31]

O evangelho narra a aparição de Jesus aos Apóstolos no dia da Páscoa, primeiro dia da semana, e o episódio de Tomé oito dias depois. Por isso, ao primeiro dia da semana, chamamos Domingo: o dia do Senhor. É o dia da Ressurreição de Jesus, dia da Criação, dia do descanso do Homem/Mulher criados por Deus à sua imagem. Dia em que a comunidade cristã se reúne para dar graças ao Pai na celebração eucarística.

O relato mostra a identidade entre aquele que ressuscitou e o que foi crucificado. Por isso o Ressuscitado mostra a Tomé as marcas da paixão. Tomé representa a comunidade que duvida e que depois acredita. Aqueles que devem crer no testemunho dos apóstolos. Se no início a comunidade é acometida pelo medo, agora é tomada pelo novo vigor e alegria de crer no Cristo ressuscitado, presente em seu meio.

“Bem-aventurados os que crerem sem terem visto”. Em vez de provas palpáveis, nos é transmitido o testemunho escrito das testemunhas oculares de tudo quanto Jesus fez e ensinou. Vivemos num mundo em que se exigem provas para se acreditar. Muitos correm atrás de “milagres”. Se para acreditar precisamos de provas, de sinais do céu, restar-nos-ia acreditar em quê? Nossa fé não vem de provas palpáveis, mas das “testemunhas designadas por Deus” (At 10, 41). Nós acreditamos naquelas realidades que elas acreditaram e no-las anunciaram. Sabemos que seremos felizes se crermos sem ter visto.

Acreditamos na comunidade que os Apóstolos fundaram a partir da fé na ressurreição. É nesta comunidade que somos iniciados na fé, no discipulado. “A fé e o tesouro da mensagem evangélica são realidades que não se recebem pessoalmente, mas através da comunidade. A iniciação cristã pressupõe uma comunidade de fé” (Dom A. Possamai). Não é possível ser cristão sem estar inserido numa comunidade de fé. Nossa fé não é privada, mas apostólica e eclesial. “Para ser fiel a Cristo não basta orar e celebrar; é preciso fazer o que ele fez: repartir a vida com os irmãos. Crer não é somente aceitar verdades. É agir segundo a verdade do ser discípulo e seguidor de Cristo” (Pe. J. Konings).

Mais. Enquanto Tomé não fizera o encontro com o Senhor Ressuscitado tocando-lhe a chaga, não acreditara naquele a quem seguira por anos. O texto não diz que Tomé tocou a chaga do Mestre, mas permite perceber que ele a vira: “Estende tua mão e põe-na no meu lado... Porque viste, creste...” (Jo 20,27.29). Concluímos que, somente aquele que “tocar” a chaga do Ressuscitado poderá fazer uma profissão de fé que brota de dentro, isto é, verdadeira e comprometida. E que “chaga” é esta? Os pobres, preferidos do Senhor com quem ele se identifica: “Cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25,40). Em outras palavras: quem diz crer em Jesus Ressuscitado e não o reconhece (“toca”) nos pobres e sofredores, mostra uma fé cristã imatura e inadequada. E se Tomé representa a comunidade cristã, o que foi dito vale para a comunidade que se diz cristã, mas não “toca” os pobres.

A propósito ainda de Tomé, esta figura controvertida do evangelho de João, podemos afirmar que suas dúvidas e objeções transformaram-se em bênçãos para nós. Quando na Ceia Jesus afirmou: “Para onde eu vou, vós já conheceis o caminho”, Tomé responde: “Senhor, não sabemos para onde vais; como podemos conhecer o caminho?” Esta objeção de Tomé arrancou de Jesus uma das mais sublimes palavras do evangelho: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,4-6). São Gregório Magno, a propósito de Tomé, escreveu em uma de suas homilias: “A incredulidade de Tomé foi para nós mais útil do que a fé dos discípulos que haviam acreditado”. Suas dúvidas beneficiaram a fé na ressurreição.

Mais um pouquinho de Tomé. O Mestre, naquele encontro com seu apóstolo “incrédulo”, faz com que eleve seu nível de fé. Restabelecido pela presença do Ressuscitado, Tomé pronuncia aquelas palavras que ainda nenhum apóstolo atrevera a dizer, ao menos que se tenha registrado nos Evangelhos, a respeito de Jesus: “Meu Senhor e meu Deus”.

Peçamos ao Senhor que nos ajude na nossa pouca fé para que as sombras da dúvida, as incertezas e mesmo a perseguição ou o fracasso não nos dominem impedindo de levar a alegria da boa nova àqueles que jazem no desencanto, na desesperança, no isolamento. A experiência do encontro com o Ressuscitado deu novo vigor à comunidade para que pudesse continuar a missão de Jesus. E, já que não podemos “tocar” ou “ver” as chagas do Ressuscitado, Ele, como fizera ao leproso que lhe suplicara: “Senhor, se queres podes curar-me”, ao que responde: “Quero; fica curado!” (cf. Mt 8,2-3), toque e cure nossas chagas, incontestavelmente diversas das suas, pois produzidas pelo pecado ou pela nossa própria condição humana. Que a Eucaristia que celebramos, encontro com o Ressuscitado, nos liberte do medo, nos encha de alegria e de ardor para partilharmos com os mais necessitados o pão, a palavra, o afeto, a acolhida, a solidariedade, o perdão.

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UM ENCONTRO QUE TRANSFORMA

O evangelho deste domingo nos convida a lançar um olhar sobre nossas assembleias dominicais: como celebramos e que sentido continua tendo o domingo para nós cristãos? As celebrações não precisam ser teatrais nem shows para “atrair” as pessoas. Nem se destinam a isso! Precisamos de celebrações que ajudem os fiéis a fazer uma verdadeira experiência de Deus. E o domingo, o dia do Senhor, dia do descanso, dia da Criação, dia da Ressurreição, precisa recuperar seu sentido na vida do cristão.

Vivemos um tempo de crise sem precedentes na história da Igreja. Também a trajetória política e econômica de nosso País nos desencanta e entristece. Se não nos voltarmos para Jesus Cristo, realizando um encontro profundo com ele, um encontro capaz de renovar nossas estruturas mentais, de romper as dobras de nosso coração, não se manterá viva na história a memória de Jesus Ressuscitado. Pois há motivos de sobra para nos desacorçoarmos e desistirmos de nossa missão profética na história. Assim a Igreja ficaria omissa na sua missão de continuadora e atualizadora, pela força do Espírito Santo, dos gestos e palavras de Jesus.

O encontro com Jesus ressuscitado transformou a vida dos discípulos. E Tomé foi movido por aquela alegria contagiante de seus companheiros que lhe disseram: “Vimos o Senhor!” Embora tenha, inicialmente, relutado a crer, a fé dos seus irmãos o motivou a continuar dentro da comunidade. E Jesus lhe confirma a fé.

Tomé duvidou. O relato tem duas intenções: primeiro, quer mostrar que fora da comunidade é muito difícil de se crer e se salvar; segundo, esse relato quer dizer que é preciso crer no testemunho dos discípulos. Não é preciso ver para crer. Confirma o que ocorreu ao discípulo que Jesus amava: viu o túmulo vazio e creu (cf. Jo 20,8). Sem ter visto o Senhor ressuscitado, acreditou. Quem ama, crê. Isso veio desfazer uma mentalidade crescente, na época, que todos os que quisessem aderir à fé cristã precisavam “ver” o Ressuscitado. De ora em diante se confirmou: “Bem-aventurados os que creram sem terem visto”.

Ainda um elemento que não pode ser esquecido no relato de hoje é o dom da Paz que Jesus dá aos discípulos e o dom do Perdão, grande presente pascal. A alegria da comunidade é experimentar, em meio ao medo da perseguição das autoridades judaicas, a paz que brota do coração amoroso de Cristo. E Jesus, sabendo das fraquezas humanas e dos pecados que daí provinham, oferece a “segunda tábua de salvação”, o sacramento da Reconciliação: “Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados”.

Mais do que nunca é urgente reafirmar nossa fé no Ressuscitado e na sua presença em nosso meio. Não se trata de pregar, de falar, de tentar convencer com afirmações doutrinais apenas, num proselitismo fanático. Isso vale muito pouco para o mundo em que vivemos. É preciso fazer experiência de um encontro verdadeiro. É notável quando uma comunidade está verdadeiramente imbuída do espírito de Jesus Ressuscitado. Ela procura viver como Jesus viveu: sabe escutar, tem sensibilidade, está atenta ao mais sofrido e necessitado. Não se rege por normas e leis, mas pela misericórdia. Não tem medo de enfrentar dificuldades e perseguições por causa de Cristo e em defesa dos pequenos e sofredores. Essa comunidade não se deixa levar pelo medo nem pela mania de grandeza nem pela ganância do dinheiro, do poder e da competição. Ela manifesta, no seu agir, o agir de Cristo. A comunidade se torna um espaço em que se experimenta a presença viva do Ressuscitado.

Sem a força do Cristo ressuscitado continuaremos com medo e de portas fechadas. Se não buscamos nele a força e orientação de como lidar com os desafios atuais, não conseguiremos alimentar a esperança daqueles que ainda permanecem em nossas comunidades e, muito menos, atingiremos os ‘de fora’.

A paz, o perdão e a alegria são frutos da ressurreição. Quando participamos das celebrações e atividades de nossas comunidades precisamos voltar para casa mais animados, mais apaixonados por Jesus Cristo, mais confiantes, mais seguros de que estamos no caminho certo, mais vibrantes em nossa fé, mais dispostos a colaborar e em construir fraternidade. Se isso não estiver acontecendo, precisamos rever nossas celebrações, nossas comunidades e nossa vida.

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LUZ QUE DISSIPA AS TREVAS E AFASTA O MEDO

“Era noite e as portas estavam fechadas por medo”. Não nos pode passar despercebida essa realidade vivida pelos discípulos logo após a tragédia do Calvário. Para eles não havia luz: era noite. Não tinham horizonte. Não podiam vislumbrar novas possibilidades. Aquele em quem depositaram sua confiança “fracassara na cruz”.

As portas estavam fechadas. A missão lhes era impossível. Não tinham coragem de sair.  Portas fechadas para que ninguém entrasse. Também ninguém podia se beneficiar da ação deles, pois se prenderam dentro da casa. Quem está de portas fechadas não sai nem permite alguém entrar. Uma espécie de morte: sem presença, sem oxigenação, sem vida. No Apocalipse temos aquelas provocadoras palavras: “Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele” (Ap 3,20). Comunidade cristã, discípulo de Jesus não combina com porta fechada. Aliás, o Papa Francisco tem alertado para nossos templos católicos com portas fechadas: “A Igreja é chamada a ser sempre a casa aberta do Pai. Um dos sinais concretos dessa abertura é ter, por todo lado, igrejas com portas abertas” (EG, 47).

E o medo? Realidade terrível! Esse sentimento paralisa as pessoas. Impede que se façam boas ações. Muitas vezes reduz a pessoa dentro de seu eu, tornando-a ensimesmada. O medroso não arrisca. Mantém a porta fechada. Investe em sua própria segurança, por vezes em detrimento dos demais. O medo não permite amar. Impede de amar o mundo como Jesus amou. Não lhe confere o ‘sopro’ da vida e da esperança.

Eis que Jesus entra na casa. Para ele não há noite nem portas fechadas nem, muito menos, medo. Ele vem libertar os discípulos desses males que emperram a missão que lhes confiara. Não lhes impõe as mãos nem lhes dá a bênção, como sói fazer aos doentes. Jesus sopra sobre eles o sopro da força que vence o medo e lhes comunica a esperança. O sopro santo que tira o pecado e os envia em missão. As portas então se abrem, o medo se dissipa, pois a Luz venceu a escuridão que os envolvia.

É Jesus ressuscitado que salva a Igreja. É ele que vence o medo que nos envolve e paralisa. É ele que abre as portas do egoísmo e da indiferença. É ele que dá a esperança. Na força dele realizamos a missão. Cremos que ele continua vivo em nosso meio. Conhecedor de nossa fragilidade, ele continua a nos dizer: “Recebei o Espírito Santo”.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

No sepulcro vazio há lampejos de esperança

aureliano, 30.03.24

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Páscoa do Senhor [31 de março de 2024]

[Mc 16,1-8; Jo 20,1-9]

O Senhor ressuscitou em verdade (cf Lc 24, 34). A Igreja celebra a ressurreição do Senhor no primeiro dia da semana, o domingo. Domingo vem de dominus, senhor. Ele dominou a morte e o pecado. Por isso é Senhor. Ele exerce o senhorio sobre nós. Não de dominação, mas de cuidado, libertação e salvação. Ele é mais forte do que o mal que nos ameaça e, por vezes, domina.

O evangelho diz que Maria Madalena foi ao túmulo “quando ainda estava escuro”. Essa escuridão simboliza as sombras (angústias) vividas pelos discípulos após a morte de Jesus. Era como se todo o sonho tivesse acabado. Não sabiam o que fazer. Estavam na escuridão.

Ao relatar que a “pedra já fora removida”, o autor quer dizer que é o próprio Deus quem remove as pedras do caminho, quem ressuscita os mortos, quem agiu na vida de Jesus. É o chamado “passivo divino”: tudo é ação da graça de Deus.

O jovem vestido de branco dentro do túmulo significa a manifestação divina. Por isso o espanto. É a consequência da fé pascal que tomava o coração da comunidade dos discípulos e discípulas pela experiência da ressurreição do Senhor.

As mulheres são protagonistas em ir ao túmulo - os discípulos haviam fugido. E recebem a missão de “anunciar aos discípulos e a Pedro” que Jesus se manifestaria a eles na Galiléia. Não na Judéia, onde Jesus encontrara dificuldade de acolhida da Boa Nova, mas na Galiléia onde havia iniciado sua missão evangelizadora.

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O testemunho da ressurreição inclui dois elementos: o sepulcro vazio e a aparição do Ressuscitado. O sepulcro vazio constitui um sinal negativo. Só fala ao “discípulo que ele amava”: “Ele viu e acreditou”. Ou seja, os sinais falam quando o coração está aquecido pelo amor. É preciso ser amigo de Jesus para compreender seus sinais. Já a aparição do Ressuscitado acontece no caminho de Emaús (Lc 24), aos discípulos desejosos de ver o Senhor e auscultar sua Palavra. No gesto da partilha do pão seus olhos se abrem e eles o reconhecem. Em seguida assumem a missão: “Naquela mesma hora, levantaram-se e voltaram para Jerusalém” (Lc 24, 33).

A escuridão da madrugada e o túmulo vazio nos dizem que por vezes ficamos confusos diante da maldade humana, diante de tantos abusos do poder, de tanta violência e morte, de tanta corrupção que desencanta e desestimula o poder do voto nas eleições, diante do sofrimento sem fim dos refugiados de guerras e conflitos armados. Somos levados a perguntar: “Deus, onde estás?”. Mas a experiência de fé nos diz que na morte (‘túmulo vazio’, ‘noite’) há sinais de vida; na escuridão há lampejos de luz. Para isso é preciso ser “amigo de Jesus” (discípulo amado), ou seja, ser próximo dele, conviver com ele, reclinar-se sobre seu peito (cf. Jo 13,25).

Esse tempo pascal nos convida a assumir a vida nova que Jesus Ressuscitado veio nos trazer sendo uma presença de luz, de testemunho vivo contra toda maldade junto àqueles que o Pai colocou no nosso caminho. Talvez mesmo a nos perguntar: eu acredito mesmo na ressurreição de Jesus? Que mudança/transformação tem se dado dentro de mim a partir da fé na ressurreição? Em que essa fé no Ressuscitado me atinge?

Ressurreição é ser testemunha da esperança numa sociedade materialista e desumana, onde o túmulo está vazio e as sombras da morte parecem prevalecer. Páscoa é continuar afirmando com a vida: “Ele vive e está no meio de nós!”.

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A MORTE FOI VENCIDA PELO AUTOR DA VIDA

Pedro e Madalena representam a comunidade que ainda duvidava da ressurreição de Jesus. Estavam em busca de provas e elementos que dessem sentido à vida deles, uma vez que, aquele em quem confiavam, morrera na cruz.

Quando o evangelho menciona “o primeiro dia da semana”, remete o leitor à Criação do mundo, narrada no livro do Gênesis, para mostrar que a Ressurreição de Jesus é a Nova Criação. O fiel cristão, batizado, entra numa vida nova, na Nova Criação de Deus. O mundo velho passou. Agora, é tudo novo. Uma vida que deve ser parecida com a de Jesus. Adão não pode ser referência de vida.

A “madrugada” lembra o alvorecer que desfaz as trevas da morte. Agora a vida brilhou no horizonte. A madrugada, embora traga em si o sinal do dia, possui também uma penumbra que impede de enxergar com clareza. É o que acontecia com Maria Madalena: “ainda estava escuro”. A comunidade ainda estava temerosa.

A “pedra removida” e o “túmulo vazio” são sinais de que algo novo aconteceu. É um sinal negativo da ressurreição. Esses sinais indicavam que Jesus não estava ali, porém não garantiam sua ressurreição.  A “pedra removida” significa que a morte foi vencida. O túmulo não é o último lugar do ser humano. Em Cristo ressuscitado, o ser humano vence também a morte e entra na vida que não tem fim, a vida eterna que já começa aqui, a partir da vida vivida em Deus, à semelhança de Cristo.

O “túmulo vazio” não é prova da ressurreição. A fé na ressurreição não vem da visão, mas da experiência de fé. As “aparições” de Jesus ressuscitado é que consolidam a fé dos discípulos. É o dado da fé. Uma realidade que transcende a razão. Não contradiz a razão, mas está para além da compreensão puramente racional. Por isso Santo Agostinho dirá: “Credo ut intelligam”: creio para compreender. Nós cremos pelo testemunho de fé da comunidade. A fé nos é transmitida. Cremos a partir da experiência que outros fizeram. Fazendo nós também essa experiência, transmitimo-la àqueles que a buscam. Porém, tudo é ação da Graça de Deus.

Pedro e o “outro discípulo” vão correndo ao túmulo. O “discípulo amado” chega primeiro que Pedro. Quem ama tem pressa. Ele “viu, e acreditou”. É o amor que faz reconhecer na ausência (túmulo vazio), a presença gloriosa do Cristo ressuscitado. Agora os discípulos entendem o que significa “ressuscitar dos mortos”. Agora eles vêem, não com os olhos humanos, mas com os olhos da fé. Agora estão iluminados pelo sopro do Espírito Divino que animou Jesus.

Nenhum evangelista se atreveu a narrar a ressurreição de Jesus. Não é um fato “histórico” propriamente dito, como tantos outros que acontecem no mundo e que podemos constatar e verificar, empiricamente. É um “fato real”, que aconteceu realmente. Para nós cristãos, é o fato mais importante e decisivo que já aconteceu na história da humanidade. Um acontecimento que traz sentido novo à vida humana, que fundamenta a verdadeira esperança, que traz sentido para uma das realidades mais angustiantes do ser humano: a morte. Esta não tem mais a última palavra. A pedra que fechava o túmulo foi retirada. A ressurreição é um convite, em última instância, a crer que Deus não abandona aqueles que o amaram até o fim, que tiveram a coragem de viver e de morrer por Ele.

O núcleo central da ressurreição de Jesus é o encontro que os discípulos fizeram com ele, agora cheio de vida, a transmitir-lhes o perdão e a paz. Daqui brota a missão: transmitir, comunicar aos outros essa experiência nova e fundante de suas vidas. Não se trata de transmitir uma doutrina, mas de despertar nos novos discípulos o desejo de aprender a viver a partir de Jesus e se comprometer a segui-lo fielmente. Ressuscitados com Cristo, buscamos “as coisas do alto”, temos o nosso “coração no alto”. A consagração batismal fez de nós novas criaturas. Incorporados a Cristo, enxertados n’Ele, queremos viver “por Cristo, com Cristo e em Cristo” para a glória de Deus Pai. É um modo de vida que transforma a pessoa, a comunidade e a sociedade. Transbordamento de uma alegria que não cabe dentro de nós: é comunicada aos outros. Não nos conformamos mais com injustiça, com mentira, com violência, com traição, com desrespeito, com maldade de toda sorte. Nossa vida se torna profetismo, esperança, inconformismo, saída, cuidado, encontro vivificador.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

Juracy de Moura: uma interpretação

aureliano, 29.03.24

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Juracy: 30º dia de páscoa definitiva: 29/03/24 - Sexta-feira Santa

Mamãe foi uma figura excêntrica. Muitas vezes falava e agia por códigos. Precisava ser interpretada por alguém que a conhecia melhor. Acho que agora podemos compreender um pouco mais dessa mulher que passou pelo mundo de uma forma bem diferente do comum dos mortais.

Jovem como as outras, aprendeu as primeiras letras com aquele que seria seu esposo prestimoso mais tarde. Numa escola municipal rural do município de Guiricema, ela e alguns irmãos frequentavam a escolinha rural que tinha como mestre José Lopes de Lima. Juracy, provavelmente do grupo de alunos mais velhos, com 14 anos, foi aprendendo com o rigoroso José, não as primeiras letras, pois estas já aprendera em casa, mas a ler e a escrever e também  a imprescindível  aritmética.

Com o passar dos tempos, a aluna foi se apaixonando pelo professor. E começou a amá-lo. E mandava bilhetes. E insistia. Até que o professor, homem reservado e discreto, resolveu ver de perto o que acontecia no coração da Juracy. Procurou o Sr. Aurélio de Moura, piedoso pai da Juracy, e lha pediu em casamento.

Sabia o José Lopes muito bem que se casaria com uma moça epiléptica. Estava consciente de que deveria ser para ela uma espécie de pai. E o foi realmente.

Mamãe tinha certa dependência do papai. Ele é quem resolvia as coisas. Ele é quem tinha a palavra final, que trabalhava fora, que comprava, que vendia, que educava os filhos, que fazia o chá para curar as enfermidades, que levava o filho ou a esposa ao farmacêutico ou ao médico. Ele é quem quase sempre cozinhava e lavava as roupas. Era a pedra angular da casa. Sem ele era tudo muito difícil.

Mamãe estava por ali. Às vezes limpava a casa. Às vezes fazia comida e café. Às vezes dava um corretivo em algum filho travesso ou que “mexia com seus nervos”.

Mas a mamãe sempre rezava. Sua companhia era a oração. Alegrava-lhe o coração quando era convidada para ir à igreja, para a oração, sobretudo a oração do terço. Rezava pelas famílias, rezava pela Igreja, rezava pelos filhos, pelas “almas do purgatório”, pelos doentes, pela paz do mundo e conversão dos pecadores.

Mas o apelo principal destas minhas considerações é uma cartinha, talvez a única de que temos registro, que mamãe escrevera a um de seus filhos, o Eduardo. Nesta carta se esconde e se desvela o coração da mamãe. Alguns filhos estão surpresos, até duvidando se foi deveras ela mesma a autora. Uma das irmãs, a Coraciana, interveio ao descrente: “Você não conhece a letra dela? Até pelos dizeres dá pra saber”.

A seguir podemos ler a cartinha original. Em seguida faço algumas interpretações numa tentativa de ler a alma da mamãe.

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Alguns elementos que, a meu juízo, desvelam o coração da mamãe:

  1. Sentimentos: Com as palavras ‘querido filho’, ‘amor’ e ‘saudades’, mamãe manifesta seu afeto, raramente expresso no cotidiano para com os filhos. Revela um coração marcado pela dor de ver o filho distante e o desejo de que ele volte. Sente falta de sua presença. Sentimento maternal dificilmente manifestado no cotidiano da vida, mas guardado no coração: não o esquece e o ama.
  2. Espiritualidade: Como a vida espiritual e religiosa ocupava seu coração! Atribui a Deus e a Nossa Senhora sua saúde, a "cada dia melhor". Lembra-se do filho principalmente nos momentos orantes. Deseja um futuro bom ao filho, não somente para esta vida, mas também para a eternidade. Salvação do corpo e da alma. Desejo que o filho viva em Deus. Sentimento de pertença a Deus.
  3. Ideias conexas: Religa seu desejo de escrever motivado pela correspondência que já havia recebido. Conecta a cartinha com a anterior que lhe moveu na alma o desejo de escrever. Parece mostrar que suas ideias não são desconexas como sempre acreditamos. Ela tinha um modo próprio de fazer as ligações dos fatos. Certamente seu sofrimento aumentava quando não conseguia nos fazer entender sua lógica de compreensão e expressão das ideias e sentimentos. Muitas vezes se refugiava sozinha no quarto, possivelmente numa solidão sofrida.
  4. Sentido de família: Expresso do início ao fim da cartinha. Quando manifesta seu amor de mãe, a invocação de filho, a referência ao marido: “ajudante com seu pai”. Anseio para que o filho esteja por perto. Zezé, ‘o pedreiro’, como ela sempre dizia, manifestando um certo orgulho pela profissão do marido, provedor da família.
  5. Trabalho: Mamãe não pede dinheiro. Aliás nunca pediu a ninguém nem administrou. Papai era seu provedor. Qualquer necessidade era com o ‘Zé Lopes’. Ela menciona o trabalho e as ocupações do marido. Papai tem muito serviço e o filho poderia trabalhar com ele. E, com isso, ficaria perto dela também.

Até aqui uma breve e rasa consideração sobre a mamãe a partir dessa cartinha que concentra muito do que vivemos com ela ao longo de seus quase 85 anos.

Coraciana e Izabel, filhas mais jovens, testemunharam muitas vezes mamãe debruçada na janela da casa - aquelas janelas e portais antigos de madeira - olhando para o horizonte que lhe era bem pequeno, mas imenso no coração, derramando lágrimas nos olhos. Perguntada sobre o porquê das lágrimas, sussurrava: “saudade dos filhos que moram longe, uai!”

Mamãe era de poucas palavras. Gostava de alguns ditados: “Em boca fechada, não entra mosquito”.  “Poucas palavras e bem acertadas”. “Bater na cangalha para o burro entender”. E ela nos ia ensinando de um modo diferente. Seu método educativo era diferente, não porém contraditório ao método do papai. Era complementar. Ela nos ensinava muito pelos gestos e atitudes.

Maria Marta, filha mais velha, que a acompanhou a vida inteira, particularmente nos seus últimos anos e dias de vida, dizia: “Mamãe sempre nos educava e ensinava. Pedia pra fazer os serviços de casa e vistoriava. Se não estivesse de acordo, pedia pra refazer. Ensinou-nos a rezar e a ser devotos de Nossa Senhora. Ela repreendia e corrigia os filhos que às vezes xingavam e falavam palavrões”.

Ensinava o respeito ao papai. “Vou contar ao seu pai quando ele chegar”. E relatava as estripulias dos pequenos e grandes.

Um ensinamento que não sai mesmo do nosso coração era seu espírito de oração. Mamãe foi uma mulher orante. Essa marca ela deixou em nosso coração. Sobretudo a devoção a Nossa Senhora. Na véspera de sua partida pegou a mão da Maria Marta, beijou, olhou para ela com um olhar morteiro e disse: “Nossa Senhora das Graças, rogai por nós”. Depois rezou duas Ave Marias. Não prosseguiu porque a filha lhe disse que já era suficiente, devido à sua dificuldade em rezar com respiração curta.

Sua vida foi transfigurante. De uma mulher brava, por vezes quase violenta, intempestiva, a uma mulher doce, serena, suave, que se deixou cuidar sem resistência. Deus transforma a pessoa. A graça de Deus não falta a quem nEle confia. Papai sempre nos ensinou esse tipo de fé confiante.

Uma mulher acometida por uma enfermidade (epilepsia) que a deixava angustiada, depressiva, com o sentimento de abandono e descaso. Sua vida relida à luz da força da Graça de Deus que atuou no seu coração mostra uma mulher que pronunciava palavras de bênção para todas as pessoas: “Deus abençoe!”. “Vai com Deus e Nossa Senhora!”. “Muito agradecida pela sua caridade!”. “Deus lhe pague!”. E por aí se vão as palavras da Juracy de Moura, sobretudo nos anos finais de sua vida.

Mamãe deixou-nos esse legado belíssimo de driblar os infortúnios e desconfortos da vida enferma com uma confiança inquebrantável no Coração de Jesus e em Nossa Senhora. A oração constituiu seu porto seguro nas horas de dor, de angústia e de incerteza.

Nos instantes finais de sua partida para a eternidade, João Vianei, um dos filhos, rezou: “Vai, mamãe, vai em paz, encontrar o ‘Cabeça Branca’ (assim costumava se referir ao papai) na eternidade. Vamos ficar órfãos de pai e mãe, mas agradeço infinitamente ao Bom Deus ter concedido ser concebido no seio dessa santa mulher, nem sempre compreendida. Que Nossa Senhora interceda junto a seu Filho pela nossa mãe neste momento difícil que se encontra e dê forças para todos nós neste momento de dor e separação. Em nome do Pai e do Filho e Espírito Santo. Amém”.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Teresina, 29 de março de 2024

*Foto: Maria Marta, filha mais velha, confeccionando o vestido branco que mamãe havia pedido em forma de código e que minha irmã interpretou ser o vestido com que ela gostaria de ser sepultada. Na noite em que mamãe agonizava no hospital, Maria Marta correu pra máquina e pedia: "Mãe, espere eu terminar o vestido branco que a senhora pediu". Vestido pronto e vida encerrada para este mundo: mamãe foi transfigurada pelo Pai e transportada nos ombros do Bom Pastor para a felicidade que não conhece ocaso. (Ao lado: eu e a mamãe em 21/09/2022).

U’a morte que faz viver!

aureliano, 28.03.24

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Sexta-feira Santa [29 de março de 2024]

[Jo 18,1 – 19,42]

Incluindo a Quinta-feira à noite, a Sexta-feira Santa é o primeiro dia do Tríduo Pascal. Dia de jejum como sinal sacramental da participação no sacrifício de Cristo. Também é um gesto de solidariedade com as vítimas da fome e da miséria. Hoje é o único dia do ano em que não se celebra a Eucaristia, absolutamente. Faz-se a celebração solene da Liturgia da Palavra, à tarde, com adoração do Cristo na cruz e distribuição da comunhão eucarística, as Santas Reservas.  Não é o dia de luto da Igreja, mas de amorosa contemplação da oferta de Cristo na cruz pela humanidade. Essa contemplação tem um caráter de ressurreição, uma vez que a morte de Cristo é inseparável de sua ressurreição. Por isso chamada de beata passio, santa e feliz paixão.

De algum modo a Sexta-feira Santa se prolonga no Sábado. Dia em que a Igreja se coloca em silêncio orante. Celebra o repouso de Cristo no sepulcro, depois da vitória na cruz. É a experiência da morte humana pela qual Cristo passou. É a esperança da vitória de Cristo sobre a sombra da morte: “O Filho do homem... deve... ser levado à morte e ressurgir ao terceiro dia” (Lc 9,22).

Este tempo não é de morte, mas de vida germinal; é noite que aponta à aurora; são as noites escuras da vida que desembocam na alegria da alvorada. É tempo de esperança. “A esperança não decepciona porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5).

O Mistério Pascal constitui o núcleo central da fé cristã. A morte e a ressurreição de Jesus de Nazaré e a consequente efusão do Espírito sobre toda a Criação trouxe vida nova para toda a humanidade. Um triunfo paradoxal: morte que trouxe vida!

A celebração litúrgica da tarde não tem ritos iniciais: começa com a oração-coleta. Os atos litúrgicos constam de quatro partes: Liturgia da Palavra, Preces Universais, Adoração de Cristo na Cruz, Distribuição da Comunhão Eucarística (Santas Reservas da missa de Quinta-feira Santa).

MEDITANDO O EVANGELHO:

Os relatos da Paixão do Senhor segundo João trazem alguns elementos significativos que são ressaltados a seguir:

“Sou eu” (Jo 18,5): Essas palavras proferidas por Jesus fizeram com que os soldados caíssem por terra. Querem mostrar a liberdade com que Jesus caminha para a morte: “Ninguém tira a minha vida porque eu a dou livremente” (Jo 10,18).

“Embainha a tua espada” (Jo 18,11): Jesus é o Príncipe da Paz. Não admite combater violência com violência. Ademais, ele veio para cumprir a vontade do Pai. Nenhuma força humana deve ser empecilho para que ele leve adiante a missão que o Pai lhe confiou. Combater a violência em nosso País e no mundo afora por meio de ação violenta e repressão não pode ser o caminho da paz e da harmonia que todos desejam. A indústria de armamento e de guerra, a posse e o porte de arma de fogo por civis são um atentado contra o Evangelho da Paz. Dizer que “conhece a verdade” do Evangelho e matar ou mandar matar é uma contradição inconcebível.

“Se falei bem, por que me bates?” (Jo 18,23): Este quadro da Paixão merece longa contemplação. Diante da resposta objetiva e verdadeira de Jesus ao Sumo Sacerdote, um guarda desfecha-lhe uma bofetada. A atitude de Jesus deixa sem resposta qualquer ação violenta. Uma cena que revela o altíssimo grau de serenidade de Jesus diante dos perseguidores e sua ternura para com os violentos. “Não resistais ao homem mau; antes, àquele que lhe fere a face direita oferece-lhe também a esquerda” (Mt  5,39).

“Meu reino não é deste mundo” (Jo 18,36): Jesus se coloca majestosamente em sua paixão diante dos poderosos que brigam e matam pela conquista e resguardo do poder. Ele não reina pela força, pelo exército, pela violência. Ao entrar em Jerusalém montado num jumentinho e não num cavalo, quis mostrar a que veio: promover a paz na simplicidade, na humildade, no serviço. Conquista e reina nos corações daqueles que assumem em sua própria vida o que ele ensinou. Ele não domina, mas conquista, atrai.

“Não terias poder algum sobre mim se não te fosse dado do alto” (Jo 19,11): Essa resposta de Jesus a Pilatos mostra que toda autoridade e poder vêm de Deus. Ora, sendo Deus o Autor e Criador de todas as coisas, não se pode compreender nem aceitar que alguém faça uso do poder ou autoridade em benefício próprio. Todo poder deve ser exercido em vista do bem de todos. É o poder-serviço ensinado por Jesus aos seus discípulos: “Sabeis que os governadores das nações as tiranizam e os grandes as dominam. Entre vós não deverá ser assim. Ao contrário, aquele que quiser tornar-se grande entre vós, seja aquele que serve, e o que quiser ser o primeiro dentre vós, seja o vosso servo” (Mt 20,26-27). Infelizmente, as forças políticas, econômicas e, por vezes, as religiosas, caminham na contramão do Evangelho: busca do poder pelo poder. O serviço generoso e desinteressado anda longe, apagado.

“Repartiram entre si minhas roupas” (Jo 19,24): Notamos nesta passagem que Jesus não possuía nada. A única coisa que trazia consigo, sua veste, torna-se objeto de disputa. No que tange aos pobres, de quem os ricaços arrancam o manto e a carne, calha bem a advertência da Escritura: “Se tomares o manto do teu próximo em penhor, tu lho restituirás antes do pôr-do-sol. Porque é com ele que se cobre, é a veste do seu corpo: em que deitaria? Se clamar a mim, eu ouvirei, porque sou compassivo” (Êx 22,25-26).

“Mulher, eis aí o teu filho” (Jo 19,26): Aqui, conforme a tradição da Igreja, Jesus nos dá Maria, sua mãe, por nossa Mãe. Ele nos assume como irmãos, não nos deixa órfãos. Dá-nos o que tem de mais precioso: sua Mãe. O discípulo amado, isto é, aquele que vive no amor de Deus, tem Maria por sua Mãe. Nesta cena do evangelho se consuma o que fora iniciado nas bodas de Caná: “Minha hora ainda não chegou” (Jo 2,4). A Hora de Jesus é a Cruz. A mulher, Maria, simboliza a comunidade salva na entrega de Jesus, o Noivo, na Cruz.

“Tenho sede” (Jo 19,28): Este clamor de Jesus na cruz nos remete ao relato de seu encontro com a samaritana no poço de Jacó (cf. Jo 4, 1-42). “Dá-me de beber” disse ele àquela mulher. Jesus tem sede de salvar, de perdoar, de se doar. E, ao mesmo tempo, ele é a água que sacia nossa sede: “Quem beber da água que eu lhe darei, nunca mais terá sede” (Jo 4,14).

“Está consumado” (Jo 19,30): Foram as últimas palavras de Jesus. Ele consumou a missão que o Pai lhe confiara. Não recuou, não desistiu, não se intimidou frente às ameaças, não se deixou levar pelos encantos enganosos da fama e do poder. Com ele e por ele, Paulo pode dizer mais tarde: “Quanto a mim, já fui oferecido em libação, e chegou o tempo da minha partida. Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé” (2Tm 4,6-7). Oxalá cada um de nós possa dizer com serenidade de consciência tais palavras como prece ao Pai na hora derradeira da vida!

“Entregou o espírito” (Jo 19,30b): Esta palavra do evangelho tem o sentido da entrega de sua vida ao Pai, mas também da entrega do Espírito Santo à Igreja, àqueles que continuam sua missão no mundo. Um Pentecostes! É no Espírito de Jesus que a Igreja deve caminhar: oferecer-se em oblação pela vida e pela paz no mundo. Podemos fazer a memória de Estêvão, protomártir da fé cristã, que também ‘entregou o espírito’: “Senhor Jesus, recebe meu espírito”. Confirmando que nele agia o mesmo Espírito que agiu em Jesus, ainda perdoa seus algozes antes de morrer: “Senhor, não lhes leves em conta este pecado” (At 7,59-60).

Hoje é dia de silêncio, de recolhimento, de contemplação. É a maior prova do amor de Jesus por nós: entregar sua vida na cruz. Com a Igreja rezamos: “Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos porque pela vossa santa cruz remistes o mundo”. E proclamamos na liturgia da tarde: “Eis o lenho da cruz do qual pendeu a salvação do mundo. Vinde adoremos!”.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

Amou-nos até o fim - Amor sem medida!

aureliano, 26.03.24

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Ceia do Senhor - Quinta-feira Santa [28 de março de 2024]

[Jo 13,1-15]

Neste primeiro dia do Tríduo Pascal celebramos a instituição da Eucaristia, memorial da morte e ressurreição do Senhor, que se desdobra em dois aspectos: a instituição do Sacerdócio Ministerial e o Serviço Fraterno da Caridade.

Perpassando o evangelho de João, notamos que não há referências aos gestos rituais de Jesus sobre o pão e o vinho como o fazem os outros evangelistas. O discurso de Jesus sobre a Eucaristia está no capítulo 6° de seu evangelho.

No discurso de despedida, João salienta o gesto de Jesus ao lavar os pés de seus discípulos. Não pede que seu gesto seja reproduzido ritualmente, mas que devemos “fazer como ele fez”. Ou seja, devemos refazer em nossas relações o que Jesus fez naquele gesto simbólico: amor gratuito que torna presente o “sacramento” do amor de Cristo por todos nós. O “lava-pés” deve ser o modo de proceder, o estilo de vida da comunidade dos seguidores de Jesus: “Dei-vos o exemplo para que façais a mesma coisa que eu fiz” (Jo 15,15).

O SACRAMENTO DO AMOR

A Eucaristia, memorial do sacrifício de Jesus, é o sacramento do Corpo e Sangue de Cristo que nos é dado como alimento: “Todas as vezes, de fato, que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, estareis proclamando a morte do Senhor até que ele venha” (1Cor 11,26). Esta presença real-sacramental do Senhor ressuscitado no pão e no vinho se estende também, de algum modo, aos irmãos. Por isto não se pode conceber a comunhão eucarística sem referência aos irmãos. Particularmente aos mais pobres e necessitados. E Paulo alerta: “Quando, pois, vos reunis, o que fazeis não é comer a Ceia do Senhor; cada um se apressa em comer a sua própria ceia; e, enquanto um passa fome, o outro fica embriagado” (1Cor 11,20).

A Campanha da Fraternidade de 2023 propôs uma reflexão que toca diretamente a Eucaristia: Fraternidade Fome. Não se pode celebrar bem a Eucaristia se se abandona as pessoas que passam necessidade à sua própria sorte. “São João Crisóstomo, na sabedoria de quem escuta a Palavra de Deus e entende a coerência à qual ela convida, chamava a atenção: ‘Muitos cristãos saem da igreja e contemplam fileiras de pobres que formam como muralhas em ambos os lados e passam longe, sem se comover, como se vissem colunas e não corpos humanos. Apertam o passo como se vissem estátuas sem alma em lugar de homens que respiram. E, depois de tamanha desumanidade, se atrevem a levantar as mãos ao céu e pedir a Deus misericórdia e perdão pelos seus pecados’” (Texto-Base, 148).

Se a Eucaristia que celebramos não nos move a gestos eucarísticos de partilha, de respeito, de cuidados, de acolhida a cada irmão e irmã, não estamos celebrando a Memória de Jesus. A Eucaristia se efetiva em nossos gestos e atitudes de misericórdia para com nossos irmãos e irmãs. “Queres honrar o Corpo de Cristo? Então não o desprezes nos seus membros, isto é, nos pobres que não têm o que vestir, nem o honres no templo com vestes de seda, enquanto o abandonas lá fora ao frio e à nudez. Aquele que disse: ‘Isto é o meu corpo’ (Mt 26,26), e o realizou ao dizê-lo, é o mesmo que disse: ‘Porque tive fome não me destes de comer’(Mt 25,42); e também: ‘Sempre que deixastes de fazer isto a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer’ (Mt 25,45). (...) Que proveito resulta de a mesa de Cristo estar coberta de taças de outro, se ele morre de fome na pessoa dos pobres? Sacia primeiro o faminto, e depois adornarás o seu altar com o que sobrar. Fazes um cálice de outro e não dás ‘um copo de água fresca’? (Mt 10,42). (...) Por conseguinte, enquanto adornas a casa do Senhor, não deixes o teu irmão na miséria, pois ele é um templo e de todos  o mais precioso’” ( São João Crisóstomo, in Texto-Base, 149).

SACERDÓCIO MINISTERIAL

Os gestos que Jesus realiza de “levantar-se”, “tirar o manto”, “vestir o avental”, “lavar os pés” revelam como devem ser as relações na comunidade: não de poder, mas de serviço. Portanto, o sacerdócio ministerial, para ser coerente com o dom recebido, deve ter como inspiração os gestos de Jesus no ‘Lava-pés’.

Quem preside à comunidade, preside também a Eucaristia. Reúne a comunidade para a oração, para a escuta da Palavra, para o serviço aos pobres, distribui as tarefas e partilha os bens ofertados. Assim proclama o Concílio Vaticano II sobre a missão do sacerdote: “De coração, feitos modelos para o rebanho, presidam e sirvam de tal modo sua comunidade local, que esta dignamente possa ser chamada com aquele nome pelo qual só e todo o Povo de Deus é distinguido, a saber: Igreja de Deus” (LG, 28).

Neste dia, na Missa Crismal, o presbitério renova as promessas sacerdotais diante do Bispo. Uma destas promessas revela claramente a missão do padre. Ela reza assim: “Quereis ser fiéis distribuidores dos mistérios de Deus pela missão de ensinar, pela sagrada Eucaristia e demais celebrações litúrgicas, seguindo o Cristo Cabeça e Pastor, não levados pela ambição dos bens materiais, mas apenas pelo amor aos seres humanos?”

CENA SIMBÓLICA

Vamos contemplar os gestos de Jesus e sua relação com nossa vida:

- vestir o avental: revestir-se de simplicidade, de ternura, de presença, de serviço desinteressado.

- tirar o manto: arrancar tudo que impede o serviço; a prontidão, a disponibilidade.

- levantar-se da mesa: estar à mesa é muito bom. Mas há sempre uma situação que nos espera, um ambiente carente, um serviço urgente. Levantar-se da mesa e sentar-se à mesa é uma dinâmica constante em nossa vida. Movimentos de partida e de chegada.

- levantou-se da mesa: não se pode servir permanecendo no comodismo. Algo precisa ser feito. O Senhor “precisa” de mim, como precisou do jumentinho: “O Senhor precisa dele”.

- ficar de pé: é a atitude que tomamos quando ouvimos o evangelho na celebração. Significa prontidão para deslocar-se, para sair em qualquer direção. Prontidão para viver a Boa Nova do Reino de Deus. Estar à mesa é sinal de fraternidade, mas é preciso saber a hora certa de se levantar e sair para servir.

- tirou o manto: é abrir mão do poder. Algo que brota de dentro. O manto impede a liberdade dos movimentos. Ele traz a aparência de poder. Há “mantos” que prendem e amarram. O Senhor trocou o manto pelo avental. Quais são meus “mantos”? Costumo colocar o avental?

- colocou água na bacia...: Jesus não faz serviço pela metade. Não tem receio de se inclinar até o chão para lavar os pés dos seus discípulos. Não faz distinção de ninguém. Lava os pés de todos.

- depois, voltou à mesa: retomou o manto, mas não tirou o avental. Ele quer mostrar que seu discípulo deve ser sempre servidor. Não se pode tirar o avental do serviço. Qualquer posto ou cargo ou ministério que se ocupar deve estar ali, sob o manto do poder, o avental do serviço. Então deve ser poder-serviço. Todo exercício de poder sem a dimensão do serviço (avental) está fadado a oprimir, a se corromper, a sacrificar vidas.

Vê-se, pois, que a Eucaristia foi instituída para formar um só Corpo. O corpo sacramental de Cristo no pão consagrado deve transformar o comungante no Corpo eclesial. O Espírito Santo transforma o pão e o vinho no Corpo e Sangue de Cristo, para que a assembleia celebrante e comungante se transforme no Corpo do Senhor, a Igreja. Provém daí a expressão clássica: a Eucaristia faz a Igreja e a Igreja faz a Eucaristia. Isto tem consequências profundas em nossa vida. A comunhão eucarística nos compromete com os membros (do corpo) que sofrem, que passam fome, que pecam, que estão afastados, que experimentam o abandono, que padecem por causa de nossas omissões e covardias. O senhor deu-nos o exemplo para que façamos o mesmo que ele fez: amou-nos até o fim! Um amor sem medida!

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Enxergar e socorrer Cristo nos pobres

aureliano, 22.03.24

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Domingo de Ramos [24 de março de 2024]

 [Mc 11,1-10 (Ramos) e Mc 14,1 – 15,47 (Paixão)]

Estamos entrando na Semana Santa! Esta Semana passou a ser celebrada com a intenção de rememorar a Paixão do Senhor. Na Idade Média ela tomou corpo e fôlego, sobretudo pela tentativa de reviver o episódio da Paixão do Senhor descrita pelos evangelistas. Esta semana era até chamada de Semana Dolorosa, pelo fato de se dramatizarem os sofrimentos de Cristo.

Parece simples, mas o conhecimento desse dado histórico é interessante porque pode nos ajudar a entender o porquê das vias sacras e outras representações da paixão do Senhor. Ressaltando que as dramatizações e representações dos quadros da Paixão do Senhor constituíam-se em uma forma de evangelização dos fiéis, uma vez que pouquíssimas pessoas tinham acesso à alfabetização. Quase todo mundo não sabia nem ler nem escrever.

Mas é preciso estarmos atentos para não nos perdermos nos folclores e dramatizações, mas adentrarmos mais profundamente no Mistério profundo da entrega de Jesus, manifestação do amor do Pai, e nos atermos ao mistério fundante de nossa fé cristã, a Ressurreição do Senhor.

Este domingo se chama, na verdade, Domingo da Paixão nos Ramos. Jesus entra triunfante em Jerusalém para sofrer a Paixão. Portanto, celebramos dois acontecimentos: a aclamação de Jesus como o “Bendito que vem em nome do Senhor” e a contemplação de sua Paixão. É o único domingo do ano que a Igreja celebra a Paixão propriamente dita de Jesus, proclamando no Evangelho os relatos da Paixão.

Algumas considerações: Jesus pediu aos discípulos para buscar um jumentinho. Deviam dizer aos interrogantes: “O Senhor precisa dele”. O Senhor quer também precisar de nós. Somos os “jumentinhos” do Senhor. Nós temos nos colocado à disposição dele?

Ainda mais: as pessoas espalhavam roupas e ramos pelo caminho aclamando a Jesus. E nós? Aplaudimos Jesus passando pela Cruz até à sua Ressurreição? Temos dado algo de nós para Jesus passar? Notamos que ele passa diante de nós no irmão que sofre?

Nesta semana a Igreja nos convida a contemplar Jesus que oferece sua vida como dom ao Pai. Ele não vai à cruz porque gosta de sofrer ou porque quer morrer. Jesus não é nenhum suicida nem sado-masoquista! A paixão e sofrimento por que passa é consequência de sua fidelidade ao Pai. A contemplação de Cristo na cruz deveria nos levar a agradecer ao Pai por nos ter dado Jesus como Salvador. O Pai olha para seu Filho, vítima da maldade humana, como a olhar para todos aqueles que são injustiçados, vitimados por uma sociedade que sacrifica os menores. Quem é que sofre mais em consequência do mau atendimento do SUS, da falta de médicos e medicamentos? Quem é que morre em consequência de desvio de verbas, da propina, da corrupção sistematizada, dos jogos políticos para se ganharem e venderem cargos?

Jesus continua passando pelas nossas ruas e praças. Às vezes aplaudimos Jesus em uma celebração ou culto e o insultamos no rosto do catador de material reciclável, do embriagado, do prostituído, do faminto e invisibilizado! Por vezes nos silenciamos diante da maldade perpetrada contra os sobrantes da sociedade. Atribui-se a Martin Luther King uma frase de valor inquestionável: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”. O silencio pode esconder cumplicidade no crime e na maldade. Isso é muito grave! Precisamos de um sério exame de consciência nesta Semana Santa na busca de um caminho de manifestação da bondade do Pai em nossas ações cotidianas. Fecundar a sociedade estéril, porque individualista e narcisista, com uma atitude de quem serve: “Eu vim para servir” (Mt 20,28).

E, nas trilhas da superação da violência, queremos nos lembrar de que somos todos irmãos (cf. Mt 23,8). Portanto ninguém tem o direito de tirar a vida de ninguém; ninguém pode morrer à míngua; ninguém pode sofrer violência seja de qualquer natureza; ninguém pode ser abandonado à sua própria sorte; ninguém pode ser discriminado por motivos de raça, religião, de orientação sexual ou condição social.

Portanto, a celebração de entrada de Jesus em Jerusalém deve valorizar não tanto os ramos, mas o mistério expresso pela procissão que proclama a realeza messiânica de Cristo. Uma vida entregue livremente para que toda violência e maldade fossem eliminadas da face da terra. Eis a nossa missão.

*Lembramos que hoje é o Dia Nacional da Coleta da Solidariedade. A Igreja espera e conta com a participação de todos fiéis com esse gesto de compromisso com as incontáveis vítimas da violência e outras formas de destruição da vida que campeiam ao redor de nós. Esse gesto fraterno e solidário é uma demonstração de nosso desejo de conversão quaresmal, de volta para Deus presente nos irmãos e irmãs sofredores para aliviar um pouco de seus sofrimentos.

“O resultado integral das coletas realizadas nas celebrações do Domingo de Ramos, coleta da solidariedade, com ou sem envelope, deve ser encaminhado à respectiva Diocese. Do total arrecadado pela Coleta da Solidariedade, a Diocese deve enviar 40% ao Fundo Nacional de Solidariedade (FNS), gerenciado pela CNBB. A outra parte, 60%, permanece nas dioceses para atender projetos locais, pelos respectivos Fundos Diocesanos de Solidariedade (FDS)” (Texto-Base, p. 78). Nosso Arcebispo, Dom Juarez Marques, em reunião com o clero essa semana, exortava a motivar a coleta e enviá-la quanto antes, pois já tem gente na fila de espera em busca de socorro.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

São José, homem Justo

aureliano, 19.03.24

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São José, Esposo da Virgem Maria [19 de março de 2024]

[Mt 1,16-25]

Celebre a José a corte celeste,

Prossiga o louvor o povo cristão:

Só ele merece à Virgem se unir

Em casta união.

Ao ver sua Esposa em Mãe transformar-se,

José quer deixar Maria em segredo.

Um anjo aparece: “É obra de Deus!”

Afasta-lhe o medo. (Oficio de Vésperas).

A Igreja celebra São José em dois dias no ano: 19 de março e 1º de maio. No dia 19 de março, São José é celebrado como patrono da Igreja Universal; já no dia 1º de maio, dia do Trabalho, São José é honrado como Operário, o carpinteiro de Nazaré.

Em 1870 São José foi declarado o patrono da Igreja católica. E em 1955 o Papa Pio XII honrou o Dia do Trabalho (1º de maio) com a invocação: São José, operário. A devoção a São José sempre existiu. Já o culto litúrgico veio mais tarde lá no fim do século XV. É um dos santos mais populares. Ainda hoje o nome José é dado com muita frequência pelos pais aos seus filhos. Também há milhares de comunidades, igrejas, praças e cidades em homenagem a São José.

Há alguns traços marcantes na vida de São José que o Evangelho registrou e que vale a pena destacar. Podem nos ajudar em nossa vida cotidiana.

O Justo: “José, seu marido, era justo e, não querendo denunciá-la, resolveu abandonar Maria, em segredo” (Mt 1,19). A alcunha de ‘justo’ na cultura judaica quer significar fiel observante do Ensinamento de Deus; pessoa cheia de Deus e que busca fazer-lhe sempre a vontade. Aquele que foge do pecado e busca fazer sempre o bem. Aquele que dá a cada um o que lhe pertence, sobretudo “a Deus o que é de Deus”. José é justo, não pelo fato de buscar separar-se de Maria, mas porque procura e reconhece em todas as coisas a vontade de Deus.  Abriu mão de seus projetos pessoais para abraçar a missão que o Pai lhe pedira. É justo porque não quer ver Maria, mulher que ele admirava e em quem confiava, ser exposta a situação de penúria. É justo porque, como homem de Deus, percebe que há uma realidade de mistério no acontecimento com Maria, e ele respeita e se coloca reverente.

Pai adotivo: Este título é um dos mais significativos. José não foi o pai carnal de Jesus. “A origem de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, estava prometida em casamento a José, e, antes de viverem juntos, ela ficou grávida pela ação do Espírito Santo” (Mt 1,18). A presença de José na genealogia do rei Davi garante a Jesus a linhagem real segundo o relato de Mateus: “Jacó foi pai de José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado Cristo” (Mt 1,16). Este ministério dá a José o lugar de Deus Pai. Leonardo Boff diz que José é a “personificação de Deus Pai”. Exatamente por ter assumido a missão de cuidador, de zelador, de nutrício do Filho de Deus. José assume um filho que não é seu. Ele abraça a missão com todas as consequências. Interessante notar que, em nossa vida, surgem situações que nos colocam desafios semelhantes. De repente precisamos enfrentar ou assumir u’a missão que nunca imaginávamos. Mas se abraçamos como dom e missão vindos do Pai, será fonte de graça para toda a comunidade.

Carpinteiro: “Não é ele o filho do carpinteiro?” (Mt 13,55). Numa situação de incompreensão por parte de seus conterrâneos e correligionários – “De onde lhe vem essa sabedoria e esses milagres?” (Mt 13,54) –, Jesus é chamado, em tom de desprezo, filho do carpinteiro. Neste relato José aparece como um trabalhador. Empenhava-se em trabalho duro para sustentar a família. Não vivia como sanguessuga, nem como agiota ou como quotista em empresas e bolsas de valores, nem como explorador do trabalho e suor alheios. Seu pão era conquista de esforço cotidiano. Patrono, por isso, dos trabalhadores e trabalhadoras que lutam bravamente para ganhar “o pão com suor do rosto” (Gn 3,19).

Homem do silêncio fecundo: “Enquanto José pensava nisso, eis que um anjo do Senhor apareceu-lhe, em sonho...” (Mt 1,20). Este relato mostra José como um homem orante e contemplativo. Não se precipita. Procura entender o que Deus quer. Os evangelhos não registraram nenhuma palavra de José. Isso mostra que ele era um homem discreto, silente, contemplativo. A profundidade de uma pessoa, muitas vezes, se mede pela sua capacidade de ouvir, de silenciar-se, contemplativamente.

Esposo e Pai: Os evangelhos narram a solicitude de José para com sua família. Diante da ameaça do famigerado Herodes, instruído pelo Senhor, foge para o Egito: “Ele se levantou, tomou o menino e sua mãe, durante a noite, e partiu para o Egito” (Mt 2,14). Não descuidava dos compromissos religiosos: “Seus pais iam todos os anos a Jerusalém para a festa da Páscoa” (Lc 2,41). E não perdia de vista o filho que lhe foi confiado: “Ele ficou em Jerusalém sem que seus pais o notassem. Pensando que estivesse na caravana, andaram o caminho de um dia, e puseram-se a procurá-lo entre parentes e conhecidos. E não o encontrando, voltaram a Jerusalém à sua procura” (Lc 2,43-45). Lucas resume numa frase a vida da Sagrada Família em Nazaré: Jesus lhes era submisso e ia crescendo em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens. (Lc 2,51-52).

O sonhador: José teve quatro sonhos segundo Mt 1,20; 2,13; 2,19; 2,22. Mostra que foi um homem sempre aberto à vontade de Deus. Uma vida sintonizada com o Senhor. Este o encontrava sempre aberto à sua Palavra. Ainda mais: a missão que o Senhor lhe confiava não era fácil. Sempre em defesa da vida de Jesus e de Maria, mulher e filho. Somente lhe dava as indicativas. O restante era por conta dele. Acolher um filho que não era seu, mas de quem deveria cuidar. Não deixar que os perseguidores e perversos tirassem sua vida. Defendê-los da fome, do frio, do sol e da chuva, dos perigos das matas e desertos. Buscar trabalho e comida para sobrevivência. Uma vida totalmente doada, eucarística, entregue. O Senhor revelava, José cumpria. E pronto!

O relato do evangelho de hoje sugere que Deus faz coisas novas. Onde sua iniciativa é acolhida com a boa vontade das pessoas justas, caso de Maria e José, a Graça atua de modo exuberante.

Maria, virgem que se torna mãe sem intervenção do varão, representa em sua virgindade toda a humanidade disposta a receber a maravilhosa intervenção divina dando-nos uma nova vida. Graças à cooperação de Maria, a realidade de Deus desceu até nós em Jesus. A liturgia católica celebra hoje em tom solene a lembrança, o exemplo de vida, a intercessão daquele que está na passagem do Antigo para o Novo Testamento: José, o justo.

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José, homem que amou Maria de verdade. Seu amor guardou e protegeu Maria e Jesus. Um amor que brotou do coração do Pai e que foi cultivado em seu coração.

José é um homem discreto. Os evangelhos não trazem nenhum registro de alguma palavra sua. Um homem que soube abrir mão de seus sonhos e projetos pessoais para cumprir o que o Senhor lhe pedira. Deu uma resposta de fé à semelhança de Abraão. Aceitou ser pai de quem não era seu filho, mas filho de Deus e de Maria. E cumpriu com fidelidade sua missão.

Homem justo que não quis difamar Maria com quem tinha um contrato de casamento. Acolhe Maria em sua casa como esposa. Não coloca condições prévias. Confia nas palavras do Anjo. Hoje São José se apresenta como homem que nos ajuda a respeitar as mulheres e a combater todo tipo de violência contra as mulheres, muitas vezes vítimas do machismo e misoginia impregnados no coração da sociedade marcada pelo preconceito e hipocrisia.

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Para celebrar os 150 anos da proclamação de São José como Patrono Universal da Igreja Católica pelo Beato Pio IX, o Papa Francisco quis compartilhar conosco “algumas reflexões pessoais sobre esta figura extraordinária, tão próxima da condição humana de cada um de nós. (...) ... no meio da crise que nos afeta, as nossas vidas são tecidas e sustentadas por pessoas comuns (habitualmente esquecidas), que não aparecem nas manchetes dos jornais e revistas, nem nas grandes passarelas do último espetáculo” (Carta Apostólica Patris Corde, p. 02). Desse modo, o Papa Francisco dedicou o ano de 2020/21 a São José. Seu desejo é que “todos possam encontrar em São José – o homem que passou despercebido, o homem da presença cotidiana discreta e escondida – um intercessor, um amparo e um guia nos momentos de dificuldade. São José lembra-nos que todos aqueles que estão, aparentemente, escondidos ou em segundo plano, têm um protagonismo sem paralelo na história da salvação. A todos eles dirijo uma palavra de reconhecimento e gratidão” (Idem, p. 02).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

Perder a vida para gerar novas vidas

aureliano, 15.03.24

5º Domingo da Quaresma - B - 17 de março.webp

5º Domingo da Quaresma [17 de março de 2024]

 [Jo 12,20-33]

Porque Jesus fizera Lázaro reviver, houve uma corrida das multidões a ele: “Eis que todo mundo se põe a segui-lo” (Jo 12, 19), gerando dor-de-cotovelo entre os fariseus. E dentro da multidão, vieram os ‘gregos’. Disseram a Filipe: “Queremos ver Jesus”. No finalzinho do relato de hoje encontramos novamente Jesus “atraindo” as pessoas: “Quando for elevado da terra, atrairei todos a mim”. Jesus tinha uma força que atraía a pessoas. Era a força de sua fidelidade ao Pai e plenitude do Espírito Santo. - Cá pra nós: nosso modo de viver está atraindo, conquistando as pessoas para a verdade, a paz e o bem?

É bom refletir aqui sobre a intencionalidade destes estrangeiros. O que de fato os movia? Era apenas curiosidade? Ou eles queriam mesmo conhecer Jesus para assumir um novo modo de viver a partir do encontro com Jesus? Parece que sim, pois não entram no Templo, mas buscam conhecer Jesus. - Nossas buscas religiosas, nossas idas ao templo, nossas leituras espirituais e rezas tem como objetivo satisfazer curiosidades, atender conveniências, ou nutrir o desejo de nos identificarmos com Jesus? Elas alimentam nossa intimidade com o Senhor?

Independentemente da intenção daqueles gregos, representantes das comunidades fundadas fora do judaísmo, Jesus mostra claramente aos seus seguidores que o caminho da vida que ele veio ensinar não é fácil. É preciso morrer para produzir frutos. É preciso perder a vida para ganhá-la: “Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem faz pouca conta de sua vida neste mundo, conservá-la-á para a vida eterna”. Jesus nos ensina que o sofrimento e a morte, a partir de então, encontra um sentido: conversão, vida nova, ressurreição.

Quem se apega ao dinheiro, ao poder, ao prazer, ao ter cada vez mais, aos seus desejos egoístas, está matando a semente de vida que Deus colocou em seu coração. A semente que não morre, fica só, sem vida, estéril. Jesus produziu muito fruto porque entregou sua vida. “Atraiu” todos a si porque deixou-se elevar da terra numa cruz. Entregou-se pela salvação de todos. Na Igreja encontramos inúmeros homens e mulheres que tiveram (e têm) a coragem de enfrentar a perseguição, a exclusão, o exílio, a fome, o cárcere, a morte em defesa da vida: Dom Oscar Romero, Irmã Dorothy, Chico Mendes, Dom Luciano, Madre Teresa de Calcutá, Santa Dulce dos Pobres, Pe. Júlio Maria e tantos outros santos anônimos que conhecemos. –  Como tenho entregado minha vida? Que experiências tenho feito que denotam uma vida eucarística, isto é, de oferenda pelo bem das pessoas?

Outro elemento do relato evangélico que merece destaque é a atitude de Jesus que mostra sua humanidade profunda: “Agora sinto-me angustiado. E que direi? ‘Pai, livra-me desta hora!’? Mas foi precisamente para esta hora que eu vim”. Jesus não usa máscaras. Fala de suas dores e angústias. Coloca-se frágil diante do Pai, face ao sofrimento e à morte iminente. Pede até para que o Pai o livre “dessa hora”. Jesus nos ensina a sermos mais autênticos, verdadeiros, humanizados. Convida-nos a assumir nossos fracassos e fraquezas; a arrancar nossas máscaras. Não adianta fazer-se de forte, de bonachão, de independente, de santo. Precisamos reconhecer nossas fraquezas e fragilidades, nossa total dependência do Pai para perseverarmos no caminho do bem, da vida, da paz. Ninguém caminha sozinho. E ninguém está livre das angústias da vida. Elas podem ser ressignificadas na fé, na vida e seguimento de Jesus.

Do evangelho de hoje deve ficar para nós um comprometimento maior com Jesus Cristo, um encantamento maior por sua pessoa, uma coragem mais forte para fazer morrer em nós o egoísmo e o fechamento a fim de produzirmos muitos frutos. Só atrai gente para Cristo quem tem coragem de morrer por ele, de deixar-se levantar na cruz por ele. Isto é, quem tem coragem de pautar sua vida pelo evangelho, de colocar a vida e o ensinamento de Jesus como parâmetros para suas escolhas e atitudes cotidianas. A partir de Jesus a morte não tem mais a última palavra. Não há necessidade de temer a morte. A morte em Cristo é possibilidade de novas vidas.

Campanha da Fraternidade 2024: “Deus nos fez a todos seus filhos e filhas. Somos todos irmãos e irmãs! Sua eterna criatividade fez-nos únicos. Portanto, diferentes. Contudo, nossas diferenças no ser, no pensar e no agir não nos podem dividir ou separar. Nossas diferenças são riquezas, oportunidades de crescimento, encaixes de comunhão! Por meio do diálogo, construamos harmonia entre nós, sejamos construtores da cultura do encontro” (TB, 133).

                Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN