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aurelius

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O seguimento a Jesus nos reconfigura

aureliano, 26.02.21

2º Domingo da Quaresma [28 de fevereiro de 2021]

 [Mc 9,2-10]

O finalzinho do capítulo 8 de Marcos relata as exigências do seguimento de Jesus: “Se alguém quer vir em meu seguimento, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”. Em seguida traz o relato da Transfiguração como a convidar o discípulo a dar uma ‘espiadinha’ no céu. É Jesus revelando sua glória a seus discípulos para que confiassem nele: é o Filho de Deus, Salvador.

No último domingo (1º da quaresma), acompanhamos Jesus, levado pelo Espírito ao deserto, sendo tentado pelo adversário do projeto salvífico e libertador do Pai. Na força do mesmo Espírito Jesus venceu o tentador. Aquele tempo de preparação para a sua missão foi árduo. Mas Jesus não se deixou abater. Venceu a tentação que queria desviá-lo da vontade do Pai.

Hoje Jesus sobe a montanha. Se no deserto ele passou pela tentação, aqui ele faz um encontro com o Pai. O Deserto é lugar da prova, da tentação: ouve-se a voz de Satanás. A Montanha é lugar do encontro com o Senhor: ouve-se a voz de Deus. Essa realidade nos remete à doutrina dos “dois caminhos” de que falava a Lei de Moisés: “Eu te proponho a vida ou a morte, a bênção ou a maldição. Escolhe, pois, a vida para que vivas” (cf. Dt 30, 15-20). E também aquela divisão interna que há dentro de nós e que fazia Paulo exclamar: “Querer o bem está ao meu alcance, não, porém, o praticá-lo. Com efeito, não faço o bem que eu quero, mas pratico o mal que não quero” (cf. Rm 7, 14-20).

Na montanha Moisés e Elias se encontraram com Deus e receberam d’Ele as instruções para a sua missão. Por isso o evangelista apresenta essas duas figuras memoráveis do Primeiro Testamento. Moisés representa a Lei e a libertação do povo das mãos do Faraó. Elias representa o profetismo, pois libertou o povo da idolatria que oprimia Israel. Jesus aparece na cena como alguém superior a Moisés e Elias. As roupas brilhantes, o fato de eles estarem conversando com ele, tudo mostra Jesus como centro do relato. Isso significa que Jesus está para além dessas figuras proeminentes do passado: é o “Filho amado do Pai”.

Pedro gostou daquela amostragem do paraíso. Queria ficar por ali. “É bom ficarmos aqui. Façamos três tendas”. Representa o discípulo acomodado, que quer experimentar a Páscoa sem passar pela Sexta-feira da Paixão. Que quer fugir dos embates cotidianos, da luta cotidiana pelo Reino. Quer glória sem cruz. Não quer “descer” a montanha para a missão.

A voz do Pai identifica seu filho: “Este é o meu Filho amado. Escutai o que ele diz!”. É ele que veio oferecer sua vida pela salvação da humanidade. O Pai o entrega, como Abraão outrora entregou seu filho Isaac (cf. Gn 22, primeira leitura da missa de hoje). “Deus, com efeito, amou tanto o mundo que deu o seu Filho, o seu Único, para que todo homem que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16). No batismo o Pai se dirige ao próprio filho: “Tu és o meu Filho bem amado” (Mc 1, 11). Aqui o Pai apresenta seu filho ao mundo: “Este é o meu Filho amado”. Aquele que fora consagrado e confirmado no batismo e no deserto, deve ser acreditado, seguido, ouvido. Por isso a insistência: “Escutai-o”. É preciso prestar atenção, ouvir com ouvido de discípulo, a cada manhã (cf. Is 50, 4-5; 55, 3).

“Olhando em volta, não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus com eles”. Isto é, os discípulos não têm outro mestre (nem Moisés nem Elias), a não ser Jesus: “Um só é o vosso mestre” (Mt 23, 10).

O relato da transfiguração do Senhor, na liturgia quaresmal, quer ajudar o discípulo de Jesus a firmar-se na fé n’Aquele que será contemplado sem figura de homem na cruz, reconhecendo-o como o Filho de Deus, cheio da beleza divina, por alguns momentos oculta no véu da carne, mas que será manifestada na glória do Pai.

O discípulo deve também, por sua vez, rezar sua própria transfiguração em Cristo. E trabalhar para que os rostos desfigurados pela dor e sofrimento produzidos por uma sociedade que exclui, discrimina, escraviza e mata, que se pauta pela competição e que valoriza a pessoa pelo que tem e não pelo que é, sejam reconfigurados ao rosto do Cristo transfigurado. Na medida em que ajudamos os irmãos sofredores a minimizarem sua dor, estamos transfigurando seu rosto no Cristo ressuscitado.

O dar-se de Cristo pela salvação do mundo, mistério que celebramos em cada Eucaristia, nos move a sair do nosso egoísmo na direção de uma entrega mais generosa e gratuita, tornando mais visíveis os frutos da Eucaristia: fraternidade, simplicidade, alegria, generosidade, solidariedade, partilha, perdão.

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Campanha da Fraternidade 2021:

Ao ultrapassar 250.000 mortes provocadas pela covid-19, num alto grau de contaminação, e constatando-se negacionismo, intolerância, ódio e indiferença por parte daqueles a quem foi atribuído o ministério do serviço político aos mais necessitados através dos recursos do Estado, resta-nos ainda, associados à nossa indignação, rezar com o Cardeal José Tolentino:

Livra-nos deste vírus e de todos os outros.

Livra-nos, Senhor, deste vírus, mas também de todos os outros que se escondem dentro dele.

Livra-nos do vírus do pânico disseminado, que em vez de construir sabedoria nos atira desamparados para o labirinto da angústia.

Livra-nos do vírus do desânimo que nos retira a fortaleza de alma com que melhor se enfrentam as horas difíceis.

Livra-nos do vírus do pessimismo, pois não nos deixa ver que, se não pudermos abrir a porta, temos ainda possibilidade de abrir janelas.

Livra-nos do vírus do isolamento interior que desagrega, pois o mundo continua a ser uma comunidade viva.

Livra-nos do vírus do individualismo que faz crescer as muralhas, mas explode em nosso redor todas as pontes.

Livra-nos do vírus da comunicação vazia em doses massivas, pois essa se sobrepõe à verdade das palavras que nos chegam do silêncio.

Livra-nos do vírus da impotência, pois uma das coisas mais urgentes a aprender é o poder da nossa vulnerabilidade.

Livra-nos, Senhor, do vírus das noites sem fim, pois não deixas de recordar que Tu Mesmo nos colocaste como sentinelas da aurora (Texto-Base da CFE 2021, p. 66).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Que significa “tomar a cruz”?

aureliano, 29.08.20

22º Domingo do TC - A - 30 de agosto.jpg

22º Domingo do Tempo Comum [30 de agosto de 2020]

[Mt 16,21-27]

Estamos no capítulo 16 de Mateus, exatamente no momento posterior à profissão de fé de Pedro: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Se antes era “bem-aventurado” (“Bem-aventurado és tu, Simão, filho de Jonas...”), agora Pedro é cognominado de “satanás”: “Afasta-te de mim, Satanás! Tu me serves de pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas as dos homens” (Mt 16,23). Essa contradição no texto de Mateus sugere algumas possíveis interpretações: revela que Pedro proclamava o Messias Salvador pela força do Espírito, sem compreender ainda o que dizia; também pode ser algo revelador da fragilidade de Pedro, que não conseguiu manter-se firme diante da cruz; pode ainda expressar uma exaltação da instituição eclesial pela comunidade, tardiamente; segundo alguns autores, parece demonstrar a dificuldade que a Igreja tinha, representada na pessoa de Pedro, em assumir a cruz, a perseguição por causa do Evangelho.

Bem. Para além das questões exegéticas, muito embora importantes para fiel interpretação do texto, queremos que o relato que proclamamos hoje seja uma luz para nossa vida cristã. E um fato, sem dúvida, norteador do episódio de hoje é a cruz.

A cruz era o instrumento de suplício que os romanos aplicavam aos revoltosos contra o regime imperial. Era o pior castigo que uma pessoa podia receber: afixados à cruz, nus, à beira do caminho para que todos pudessem ver e se intimidar, deixados por lá até à morte. Muitos eram devorados pelas aves de rapina. A crucifixão, segundo o historiador Flávio Josefo, era um horror.

Quando Jesus fala da cruz como projeto de vida, ele não quer dizer com isso que gosta de ver seu discípulo sofrer; muito menos que ele mesmo quer sofrer. Seria uma insanidade! Jesus não é sado-masoquista, nem paranoia. Quer apenas dizer que o projeto do Pai que ele veio anunciar e realizar não visa ao sucesso, à realização pessoal apenas, mas implica rejeição, perseguição, dor e morte produzidas pela ganância de poder e de ter que pervade a sociedade. Em outras palavras, o seguimento de Jesus implica cruz por ser um projeto de vida num mundo imbuído de um projeto de morte. “Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la, mas quem perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la”. Deus não quer ‘sacrificar’ as pessoas (isso já o faz a sociedade idolátrica), mas quer testemunhas de seu projeto: mostrar que Deus ama a humanidade e quer que todos vivam esse amor.

Por vezes confundimos a cruz com qualquer desgraça que acontece na vida ou mal-estar produzido pelo nosso próprio pecado. Jesus não está falando desse tipo de sofrimento. Tomar a cruz aqui significa assumir nossa profissão de fé, encarnar na vida as palavras e atitudes de Jesus. Seria um erro confessar a Jesus “Filho do Deus vivo” e negá-lo na vida cotidiana.

Tomar a cruz é assumir a atitude cristã de doar-se, de deixar-se seduzir pelo amor de Jesus (cf. Jr 20,7), assumindo uma atitude de combate ao consumismo, à ambição, à destruição da mãe Terra, à violência contra as crianças, adolescentes e jovens, à violência e desrespeito às mulheres, ao desprezo e desrespeito para com os idosos.

Tomar a cruz é assumir na própria vida os sentimentos de Jesus. Olhar as pessoas com o olhar de Jesus, acolhendo as diferenças, aceitando com serenidade as críticas, enfrentando e vencendo os preconceitos, tendo coragem de andar na contramão da história por causa de Jesus. É estar atento àqueles que passam por dificuldades e colocar-se ao lado deles. “Ele (Jesus) sempre se mostrou cheio de misericórdia pelos pequenos e pobres, pelos doentes e pecadores, colocando-se ao lado dos perseguidos e marginalizados” (Prefácio da Oração Eucarística VI - D).

Tomar a cruz é assumir posturas e projetos que defendem a vida contra os projetos de morte. É renovar nossa maneira de ver e de julgar; renovar nossa mentalidade, deixando de pensar e de viver a lógica do mundo enquanto é injusto, ganancioso, mentiroso, perverso e enganador, para fazer a vontade de Deus (cf. Rm 12,2).

Assumir a cruz de cada dia é o nosso culto espiritual (cf. Rm 12,1). Numa nova mentalidade, pensar como Deus e não como os homens (Mt 16,23).     Isso é tarefa para todos os dias da vida!

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Alegrem-se: a morte foi vencida!

aureliano, 11.04.20

Domingo de Páscoa - 12 de abril.jpg

Páscoa do Senhor [12 de abril de 2020]

[Jo 20,1-9; Mt 28,1-10]

Pedro e Madalena representam, aqui, a comunidade que ainda duvidava da ressurreição de Jesus. Estavam em busca de provas e elementos que dessem sentido à vida deles, uma vez que, aquele em quem confiavam, morrera na cruz.

Quando o evangelho menciona “o primeiro dia da semana”, remete o leitor à criação do mundo, narrada no livro do Gênesis, para mostrar que a Ressurreição de Jesus é a Nova Criação. O fiel cristão, batizado, entra numa vida nova, na Nova Criação de Deus. O mundo velho passou. Agora, é tudo novo.

A “madrugada” lembra o alvorecer que desfaz as trevas da morte. Agora a vida brilhou no horizonte. A madrugada, embora traga em si o sinal do dia, possui também uma penumbra que impede de enxergar com clareza. É o que acontecia com Maria Madalena: “ainda estava escuro”. A comunidade ainda estava temerosa.

A “pedra removida” e o “túmulo vazio” são sinais de que algo novo aconteceu. É um sinal negativo da ressurreição. Esses sinais indicavam que Jesus não estava ali, porém não garantiam sua ressurreição.  A “pedra removida” significa que a morte foi vencida. O túmulo não é o último lugar do ser humano. Este, pelo Cristo ressuscitado, vence também a morte e entra na vida que não tem fim, a vida eterna que já começara aqui, a partir da vida vivida em Deus, à semelhança de Cristo.

O “túmulo vazio” não é prova da ressurreição. A fé na ressurreição não vem da visão, mas da experiência de fé. As “aparições” de Jesus ressuscitado é que vão consolidar a fé dos discípulos. É o dado da fé. Uma realidade que transcende a razão. Não contradiz a razão, mas está para além da compreensão puramente racional. Por isso Santo Agostinho dirá: “Credo ut intelligam”: creio para compreender. Nós cremos pelo testemunho de fé da comunidade. A fé nos é transmitida. Cremos a partir da experiência que outros fizeram. Fazendo nós também essa experiência, transmitimo-la àqueles que a buscam. Porém, tudo é ação da Graça de Deus.

Pedro e o “outro discípulo” vão correndo ao túmulo. O “discípulo amado” chega primeiro que Pedro. Quem ama tem pressa. Ele “viu, e acreditou”. É o amor que faz reconhecer na ausência (túmulo vazio) a presença gloriosa do Cristo ressuscitado. Agora os discípulos entendem o que significa “ressuscitar dos mortos”. Agora eles vêem, não com os olhos humanos, mas com os olhos da fé. Agora estão iluminados pelo sopro do Espírito Divino que animou Jesus.

Nenhum evangelista se atreveu a narrar a ressurreição de Jesus. Não é um fato “histórico” propriamente dito, como tantos outros que acontecem no mundo e que podemos constatar e verificar, empiricamente. É um “fato real”, que aconteceu realmente. Para nós cristãos, é o fato mais importante e decisivo que já aconteceu na história da humanidade. Um acontecimento que traz sentido novo à vida humana, que fundamenta a verdadeira esperança, que traz sentido para uma das realidades mais angustiantes do ser humano: a morte. Esta não tem mais a última palavra. A pedra que fechava o túmulo foi retirada. A ressurreição é um convite, em última instância, a crer que Deus não abandona aqueles que o amaram até o fim, que tiveram a coragem de viver e de morrer por Ele.

O núcleo central da ressurreição de Jesus é o encontro que os discípulos fizeram com ele, agora cheio de vida, a transmitir-lhes o perdão e a paz. Daqui brota a missão: transmitir, comunicar aos outros essa experiência nova e fundante de suas vidas. Não se trata de transmitir uma doutrina, mas despertar nos novos discípulos o desejo de aprender a viver a partir de Jesus e se comprometer a segui-lo fielmente.

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ELE VIVE PARA ALÉM DA MORTE

O Senhor ressuscitou em verdade (cf Lc 24, 34). A Igreja celebra a ressurreição do Senhor no primeiro dia da semana, o domingo. Domingo vem de dominus, senhor. Ele dominou a morte e o pecado. Por isso é Senhor. Ele exerce o senhorio sobre nós.

O evangelho diz que Maria Madalena foi ao túmulo “quando ainda estava escuro”. Essa escuridão simboliza as sombras (angústias) vividas pelos discípulos após a morte de Jesus. Era como se todo o sonho tivesse acabado. Não sabiam o que fazer. Estavam na escuridão.

O testemunho da ressurreição inclui dois elementos: o sepulcro vazio e a aparição do Ressuscitado. O sepulcro vazio constitui um sinal negativo. Só fala ao “discípulo que ele amava”: “Ele viu e acreditou”. Ou seja, os sinais falam quando o coração está aquecido pelo amor. É preciso ser amigo de Jesus para compreender seus sinais. Já a aparição do Ressuscitado acontece no caminho de Emaús (Lc 24), aos discípulos desejosos de ver o Senhor e auscultar sua Palavra. No gesto da partilha do pão seus olhos se abrem e eles o reconhecem. Em seguida assumem a missão: “Naquela mesma hora, levantaram-se e voltaram para Jerusalém” (Lc 24, 33).

A escuridão da madrugada e o túmulo vazio nos dizem que por vezes ficamos confusos diante da maldade humana, diante de tantos abusos do poder, de tanta violência e morte, de tanta corrupção que desencanta e desestimula o poder do voto nas eleições, diante do sofrimento sem fim dos refugiados de guerras civis, diante das vítimas desassistidas do covid-19; e somos levados a perguntar: “Deus, onde estás?”. Mas a experiência de fé nos diz que na morte (‘túmulo vazio’, ‘noite’) há sinais de vida; na escuridão há lampejos de luz. Para isso é preciso ser “amigo de Jesus” (discípulo amado), ou seja, ser próximo dele, conviver com ele, reclinar-se sobre seu peito (cf. Jo 13,25).

Esse tempo pascal nos convida a assumir a vida nova que Jesus Ressuscitado veio nos trazer sendo uma presença de luz, de testemunho vivo contra toda maldade junto àqueles que o Pai colocou no nosso caminho.

Ressurreição é luta contra o tráfico de seres humanos, contra as injustiças sociais, contra a prostituição e abuso de crianças e adolescentes. É dizer não ao desrespeito aos povos indígenas, ao mundo das drogas, à indiferença ecológica. Ressurreição é se contrapor, ainda que à semelhança de alguém que ‘clama no deserto’, a esse mar de corrupção e mentiras, ganância e deslealdade que pervadem nossa sociedade brasileira; é dizer não aos desmandos de quem se julga no direito de retirar o pão da mesa dos trabalhadores pobres, das mulheres sofridas, das crianças sem amparo, negando-lhes o salário mínimo do benefício da Previdência Social. Páscoa é libertação de tudo o que oprime, maltrata e fere.

Ressurreição é ser testemunha da esperança numa sociedade materialista e desumana, onde o túmulo está vazio e as sombras da morte parecem prevalecer. Páscoa é continuar afirmando com a vida: “Ele vive e está no meio de nós!”. O obscuridade e o desalento trazidos pelo coronavírus não são o fim. O Senhor está vivo e caminha conosco. Como aos discípulos de Emaús, ele abre nossos olhos para enxergarmos o mundo com um novo olhar: “Então seus olhos se abriram e eles o reconheceram” (Lc 24,31).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

U’a morte que trouxe a vida!

aureliano, 09.04.20

Sexta-feira santa - 10 de abril.jpg

Sexta-feira Santa [10 de abril de 2020]

[Jo 18,1 – 19,42]

Incluindo a Quinta-feira à noite, a Sexta-feira Santa é o primeiro dia do Tríduo Pascal. Dia de jejum como sinal sacramental da participação no sacrifício de Cristo. Também é um gesto de solidariedade com as vítimas da fome e da miséria. Hoje é o único dia do ano em que não se celebra a Eucaristia, absolutamente. Faz-se a celebração solene da Liturgia da Palavra, à tarde, com adoração do Cristo na cruz e distribuição da comunhão.  Não é o dia de luto da Igreja, mas de amorosa contemplação da oferta de Cristo na cruz pela humanidade. Essa contemplação tem um caráter de ressurreição, uma vez que a morte de Cristo é inseparável de sua ressurreição. Por isso chamada de beata passio, santa e feliz paixão.

De algum modo a Sexta-feira Santa se prolonga no Sábado. Dia em que a Igreja se coloca em silêncio orante. Celebra o repouso de Cristo no sepulcro, depois da vitória na cruz. É a experiência da morte humana pela qual Cristo passou. É a esperança da vitória de Cristo sobre a sombra da morte: “O Filho do homem... deve... ser levado à morte e ressurgir ao terceiro dia” (Lc 9,22).

Este tempo não é de morte, mas de vida germinal; é noite que aponta à aurora; são as noites escuras da vida que desembocam na alegria da alvorada. É tempo de esperança. “A esperança não decepciona porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5).

O Mistério Pascal constitui o núcleo central da fé cristã. A morte e a ressurreição de Jesus de Nazaré e a consequente efusão do Espírito sobre toda a Criação trouxe vida nova para toda a humanidade. Um triunfo paradoxal: morte que trouxe vida!

A celebração litúrgica da tarde não tem ritos iniciais: começa com a oração-coleta. Os atos litúrgicos constam de quatro partes: Liturgia da Palavra, Preces Universais, Adoração de Cristo na Cruz, Distribuição da Comunhão Eucarística (Santas Reservas da missa de Quinta-feira Santa).

MEDITANDO O EVANGELHO:

Os relatos da Paixão do Senhor segundo João trazem alguns elementos significativos que gostaria de ressaltar:

“Sou eu” (Jo 18,5): Essas palavras proferidas por Jesus fizeram com que os soldados caíssem por terra. Querem mostrar a liberdade com que Jesus caminha para a morte: “Ninguém tira a minha vida porque eu a dou livremente” (Jo 10,18).

“Embainha a tua espada” (Jo 18,11): Jesus é o Príncipe da Paz. Não admite combater violência com violência. Ademais, ele veio para cumprir a vontade do Pai. Nenhuma força humana deve ser empecilho para que ele leve adiante a missão que o Pai lhe confiou. Combater a violência em nosso País por meio de ação violenta e repressão não pode ser o caminho da paz e da harmonia que todos desejam. A indústria da armamento e da guerra, a posse e o porte de arma de fogo por civis são um atentado contra o Evangelho da Paz. Dizer que “conhece a verdade” do Evangelho e mandar matar é uma contradição inconcebível.

“Se falei bem, por que me bates?” (Jo 18,23): Este quadro da Paixão merece longa contemplação. Diante da resposta objetiva e verdadeira de Jesus ao Sumo Sacerdote, um guarda desfecha-lhe uma bofetada. A atitude de Jesus deixa sem resposta qualquer ação violenta. Uma cena que revela o altíssimo grau de serenidade de Jesus diante dos perseguidores e sua ternura para com os violentos. “Não resistais ao homem mau; antes, àquele que lhe fere a face direita oferece-lhe também a esquerda” (Mt  5,39).

“Meu reino não é deste mundo” (Jo 18,36): Jesus se coloca majestosamente em sua paixão diante dos poderosos que brigam e matam pela conquista e resguardo do poder. Ele não reina pela força, pelo exército, pela violência. Ao entrar em Jerusalém montado num jumentinho e não num cavalo, quis mostrar a que veio: promover a paz na simplicidade, na humildade, no serviço. Conquista e reina nos corações daqueles que assumem em sua própria vida o que ele ensinou. Ele não domina, mas conquista, atrai.

“Não terias poder algum sobre mim se não te fosse dado do alto” (Jo 19,11): Essa resposta de Jesus a Pilatos mostra que toda autoridade e poder vêm de Deus. Ora, sendo Deus o Autor e Criador de todas as coisas, não se pode compreender nem aceitar que alguém faça uso do poder ou autoridade em benefício próprio. Todo poder deve ser exercido em vista do bem de todos. É o poder-serviço ensinado por Jesus aos seus discípulos: “Sabeis que os governadores das nações as tiranizam e os grandes as dominam. Entre vós não deverá ser assim. Ao contrário, aquele que quiser tornar-se grande entre vós, seja aquele que serve, e o que quiser ser o primeiro dentre vós, seja o vosso servo” (Mt 20,26-27). Infelizmente, as forças políticas, econômicas e, por vezes, as religiosas, caminham na contramão do Evangelho: busca do poder pelo poder.

“Repartiram entre si minhas roupas” (Jo 19,24): Notamos nesta passagem que Jesus não possuía nada. A única coisa que trazia consigo, sua veste, torna-se objeto de disputa. No que tange aos pobres de quem os ricaços arrancam o manto e a carne, calha bem a advertência da Escritura: “Se tomares o manto do teu próximo em penhor, tu lho restituirás antes do pôr-do-sol. Porque é com ele que se cobre, é a veste do seu corpo: em que deitaria? Se clamar a mim, eu ouvirei, porque sou compassivo” (Êx 22,25-26).

“Mulher, eis aí o teu filho” (Jo 19,26): Aqui, conforme a tradição da Igreja, Jesus nos dá Maria, sua mãe, por nossa Mãe. Ele nos assume como irmãos, não nos deixa órfãos. Dá-nos o que tem de mais precioso: sua Mãe. O discípulo amado, isto é, aquele que vive no amor de Deus, tem Maria por sua Mãe. Nesta cena do evangelho se consuma o que fora iniciado nas bodas de Caná: “Minha hora ainda não chegou” (Jo 2,4). A Hora de Jesus é a Cruz. A mulher, Maria, simboliza a comunidade salva na entrega de Jesus, o Noivo, na Cruz.

“Tenho sede” (Jo 19,28): Este clamor de Jesus na cruz nos remete ao relato de seu encontro com a samaritana no poço de Jacó (cf. Jo 4, 1-42). “Dá-me de beber” disse ele àquela mulher. Jesus tem sede de salvar, de perdoar, de se doar. E, ao mesmo tempo, ele é a água que sacia nossa sede: “Quem beber da água que eu lhe darei, nunca mais terá sede” (Jo 4,14).

“Está consumado” (Jo 19,30): Foram as últimas palavras de Jesus. Ele consumou a missão que o Pai lhe confiara. Não recuou, não desistiu, não se intimidou frente às ameaças, não se deixou levar pelos encantos enganosos da fama e do poder. Com ele e por ele, Paulo pode dizer mais tarde: “Quanto a mim, já fui oferecido em libação, e chegou o tempo da minha partida. Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé” (2Tm 4,6-7). Oxalá cada um de nós possa dizer com serenidade de consciência tais palavras como prece ao Pai na hora derradeira da vida!

“Entregou o espírito” (Jo 19,30b): Essa palavra do evangelho tem o sentido da entrega de sua vida ao Pai, mas também da entrega do Espírito Santo à Igreja, àqueles que continuam sua missão no mundo. Um Pentecostes! É no Espírito de Jesus que a Igreja deve caminhar: oferecer-se em oblação pela vida e pela paz no mundo. Podemos fazer a memória de Estêvão, protomártir da fé cristã, que também ‘entregou o espírito’: “Senhor Jesus, recebe meu espírito”. Confirmando que nele agia o mesmo Espírito que agiu em Jesus, ainda perdoa seus algozes antes de morrer: “Senhor, não lhes leves em conta este pecado” (At 7,59-60).

Hoje é dia de silêncio, de recolhimento, de contemplação. É a maior prova do amor de Jesus por nós: entregar sua vida na cruz. Com a Igreja rezamos: “Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos porque pela vossa santa cruz remistes o mundo”. E proclamamos na liturgia da tarde: “Eis o lenho da cruz do qual pendeu a salvação do mundo. Vinde adoremos!”.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Cristo se oferece livremente e por amor

aureliano, 03.04.20

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Domingo de Ramos [05 de abril de 2020]

[Mt 21,1-11;26,14 – 27,66]

Estamos entrando na Semana Santa! Esta Semana passou a ser celebrada com a intenção de rememorar a Paixão do Senhor. Na Idade Média ela tomou corpo e fôlego, sobretudo pela tentativa de reviver o episódio da Paixão do Senhor descrito pelos evangelistas. Esta semana era até chamada de Semana Dolorosa, pelo fato de se dramatizarem os sofrimentos de Cristo.

Parece simples, mas o conhecimento desse dado histórico é interessante porque pode nos ajudar a entender o porquê das vias sacras e outras representações da Paixão do Senhor. Ficaremos então atentos para não nos perdermos nos folclores e dramatizações, mas adentrarmos mais profundamente no Mistério profundo da entrega de Jesus, manifestação do amor do Pai, e nos atermos ao Mistério fundante de nossa fé cristã, a Ressurreição do Senhor, vitorioso sobre o pecado e a morte.

Este domingo se chama, na verdade, Domingo da Paixão nos Ramos. Jesus entra triunfante em Jerusalém para sofrer a Paixão. Portanto celebramos dois acontecimentos: a aclamação de Jesus como o “Bendito que vem em nome do Senhor”, e a contemplação de sua Paixão. É o único domingo do ano em que a Igreja celebra a Paixão propriamente dita de Jesus, proclamando no Evangelho os relatos da Paixão.

Jesus pediu aos discípulos para buscar um jumentinho. Deviam dizer aos interrogantes: “O Senhor precisa dele”. O Senhor quer também precisar de nós. Somos os “jumentinhos” do Senhor. Nós temos nos colocado à disposição dele? Ou costumamos “empacar”, buscando nossos próprios interesses egoístas?

Ainda mais: as pessoas espalhavam roupas e ramos pelo caminho aclamando a Jesus. Poucos dias depois pediam sua crucifixão. E nós: estamos com Jesus somente no sucesso e na saúde? Ou também quando ele sofre rejeição, maus tratos, perseguições? Temos dado algo de nós para Jesus que passa diante de nós nos pobres e sofredores?

Algumas considerações:

No Crucificado vemos, não somente um inocente condenado, mas nele, nós cristãos, contemplamos todas as vítimas do preconceito, da maldade e da injustiça de todos os tempos. Na cruz com Jesus estão as vítimas da fome, as crianças abandonadas e exploradas, as mulheres vítimas de maus tratos e feminicídio, os explorados por nosso bem-estar, os quilombolas e indígenas invadidos e despejados, os esquecidos por nossa Igreja, os espoliados pela cultura da corrupção descarada e pela ganância do acúmulo, os enganados pelas mentiras e desonestidade.

Esse Deus crucificado não é o Deus controlador, que está em busca de honra e glória. Não! É o Deus paciente e humilde que respeita a liberdade de seus filhos e lhes quer sempre o bem, a felicidade e a alegria. Não é um Deus vingativo, justiceiro. Mas um Deus que manifesta sempre o perdão e a misericórdia.

Nós cristãos continuamos a celebrar o Deus crucificado porque vemos nele o Deus “louco” de amor por todos nós. Ele é a força que sustenta nossa esperança e nossa luta pela justiça e pela paz. Acreditamos que Deus não passa ao largo de nossas lágrimas, sofrimentos, lutas e fracassos. Ele está no calvário de nossa existência. A cruz erguida entre as nossas cruzes nos lembra que Deus sofre conosco.

Nesta semana a Igreja nos convida a contemplar Jesus que oferece sua vida como dom ao Pai. Ele não vai à cruz porque gosta de sofrer ou porque quer morrer. Jesus não é nenhum suicida! A paixão e sofrimento por que passa são consequências de sua fidelidade ao Pai. A contemplação de Cristo na cruz deveria nos levar a agradecer ao Pai por nos ter dado Jesus como Salvador. O Pai olha para seu Filho, vítima da maldade humana, como a olhar para todos aqueles que são injustiçados, vitimados por uma sociedade que sacrifica os que não dão lucro.

Jesus continua passando pelas nossas ruas e praças. Por vezes aplaudimos Jesus em uma celebração ou culto, depois o insultamos no rosto do desvalido! Isso é muito grave! Precisamos de um sério exame de consciência nesta Semana Santa.

Portanto, a celebração da entrada de Jesus em Jerusalém deve valorizar não tanto os ramos, mas o mistério expresso pela procissão que proclama a realeza messiânica de Cristo.

Campanha da Fraternidade: “Todos somos filhos do mesmo Deus que faz chover sobre maus e bons (Mt 5,45). Onde, portanto, está o erro quando o senhor da vinha paga por igual a trabalhadores que cumpriram jornadas diferentes (Mt 20,1-11)? Terá o Senhor Jesus errado na parábola, ou estaremos nós marcados por um conceito incompleto de justiça que não enxergamos a amplitude de um coração que é, ao mesmo tempo, justo e misericordioso? Em Jesus, justiça e misericórdia, não se contrapõem. Ao contrário, complementam-se, ampliam-se, levando-nos a tangenciar a eternidade. O Dono da vinha paga por igual, não porque os trabalhadores renderam por igual, mas porque todos são humanos e, por isso, são iguais. A justa misericórdia, ou a misericordiosa justiça de Deus, ultrapassa qualquer situação para ver a pessoa que ali está e  dela cuidar, principalmente quando não merece. “Dificilmente alguém morrerá por um justo; por uma pessoa boa, talvez alguém ouse morrer. Deus, contudo, prova o seu amor para conosco, pelo fato de que Cristo morreu por nós, quando ainda éramos pecadores” (Rm 5,7-8)" (Texto-Base, 104).

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JESUS SE ENTREGA POR NÓS

A Igreja é a comunidade pascal, nascida do “lado aberto” de Cristo, do Coração amoroso de Jesus que se entregou por nós. Ele passou da morte à vida e fundou a Igreja para que seja sempre arauto da vida nova que ele veio trazer.

A quaresma é um tempo marcadamente batismal. É um mergulho nas fontes batismais com tudo o que o batismo significa para o cristão. A espiritualidade quaresmal não se baseia somente numa postura interior e individual, mas também externa e comunitária em quatro aspectos: abominação do pecado como ofensa a Deus; conseqüências sociais do pecado; parte da Igreja na ação penitencial; oração pelos pecadores.

A Semana Santa, chamada também a “Grande Semana”, desenvolveu-se sobretudo a partir da historicização dos sofrimentos de Cristo em Jerusalém. Com isso entraram na prática celebrativa elementos devocionais que, de alguma forma, buscam reviver os acontecimentos da paixão descritos pelos evangelistas e pelos evangelhos apócrifos. Essas representações, por um lado permitem atentar para cada episódio da paixão do Senhor, por outro, pode prejudicar a unidade do mistério pascal. Em outras palavras: destacando os aspectos do sofrimento provocando certa emoção, pode-se afastar de seu aspecto salvífico na vitória sobre a morte com a ressurreição.

No intuito de enfatizar o aspecto salvífico da paixão do Senhor, queremos lembrar as principais celebrações desta semana, com destaque para o Tríduo Pascal, centro e cume da liturgia da Igreja.

Domingo de Ramos: Comemoração do Cristo Senhor que entra em Jerusalém para cumprir plenamente seu mistério pascal. A procissão dos ramos (memória da entrada de Jesus em Jerusalém) expressa a realeza messiânica de Cristo. É o único domingo do ano que celebra o mistério da morte do Senhor com a proclamação do relato da paixão. Jesus entra triunfalmente em Jerusalém para aí consumar sua páscoa de morte e ressurreição.

Quinta-feira Santa: É a conclusão da quaresma. Duas celebrações marcam esse dia: a missa do Crisma e a Instituição da Eucaristia (já no Tríduo Pascal). A missa do Crisma com a bênção do óleo dos enfermos, dos catecúmenos e, principalmente do sagrado crisma, é a oportunidade de reunir o presbitério em torno de seu Bispo e fazer da celebração uma festa do sacerdócio ministerial, através da renovação das promessas sacerdotais. O ministério presbiteral está intimamente ligado à eucaristia da qual o presbítero deve ser expressão.

Tríduo Pascal: Tem início com a missa da Ceia do Senhor, cujo ápice é a Vigília Pascal e cujo término se dá na tarde (Vésperas) do domingo da ressurreição.

Missa da Ceia do Senhor: É feita à noite com tom festivo. Os textos bíblicos realçam o fato de que Cristo nos deu sua páscoa no rito da ceia que exige, por parte da Igreja, o vínculo indissolúvel entre o serviço e a caridade fraterna: “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). O lava-pés deve ser visto neste contexto, e não como mera representação do gesto de Jesus. No fim da celebração eucarística, as Sagradas Espécies (as partículas consagradas para a distribuição aos fiéis na Sexta-feira Santa) são conduzidas para um lugar previamente preparado. Faz-se a adoração ao Santíssimo até por volta de meia-noite. Não se trata de sepulcro para Jesus, mas de solene exposição e adoração ao Senhor vencedor da morte.

Sexta-feira Santa: Incluindo a Quinta à noite, é o primeiro dia do Tríduo. Dia de jejum como sinal sacramental da participação no sacrifício de Cristo. Também é um gesto de solidariedade com as vítimas da fome e da miséria. Não se celebra a eucaristia nesse dia. Faz-se a celebração solene da Liturgia da Palavra, à tarde, com adoração do Cristo na cruz e distribuição da comunhão.  Não é o dia de luto da Igreja, mas de amorosa contemplação da oferta de Cristo na cruz pela humanidade. Essa contemplação tem um caráter de ressurreição, uma vez que a morte de Cristo é inseparável de sua ressurreição. Por isso chamada de beata passio, santa e feliz paixão.

Sábado santo (dia): Nesse dia a Igreja se coloca em silêncio orante. Celebra o repouso de Cristo no sepulcro, depois da vitória na cruz. É a experiência da morte humana pela qual Cristo passou. É a esperança da vitória de Cristo sobre a sombra da morte: “O Filho do homem... deve... ser levado à morte e ressurgir ao terceiro dia”(Lc 9,22).

Sábado santo (noite): Celebração da “Mãe de todas as noites”, na expressão de Agostinho. A Vigília Pascal se caracteriza pelo sentido batismal que desemboca na celebração eucarística. Temos nesta noite a bênção do fogo novo e do círio com o canto do precônio (louvação) pascal, a liturgia da Palavra (nove leituras), liturgia batismal e liturgia eucarística. É a celebração da “noite iluminada”, da “noite vencida pelo dia”, demonstrando que a graça brotou da morte de Cristo. A passagem das trevas para a luz exprime a realidade do mistério da páscoa em Cristo e em nós.

Nosso desejo é que cada um, nesta semana de graça e de vida para a Igreja, se coloque naquela postura do Servo Sofredor, aberto à graça do Pai para colaborar na construção de um mundo mais de Deus: “O Senhor Deus me deu uma língua de discípulo para que eu soubesse trazer ao cansado uma palavra de conforto. De manhã ele desperta o meu ouvido para que eu ouça como os discípulos” (Is 50,4).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

O Reinado que brota da cruz para a reconciliação

aureliano, 22.11.19

Solenidade de Jesus Cristo Rei - 24 de novembro -

Solenidade de Cristo Rei do Universo [24 de novembro de 2019]

[Lc 23,35-43]

A festa de Cristo Rei foi instituída pelo Papa Pio XI em 1925. Com que intenção? Para que os fiéis reconheçam Jesus como Senhor e Rei da história e que, somente nele, se pode construir e viver a paz e a justiça neste mundo.

Os últimos acontecimentos que temos vivido no Brasil e no mundo são sinais de que não é possível construir a paz, a fraternidade, a justiça, a defesa da vida sem os valores do evangelho proclamados por Jesus. A ganância do ter e a sede de poder invadiram o coração dos governantes, legisladores e juízes. A confusão está instalada. Sem volta ao evangelho é impossível reconstruir a paz e a harmonia na história. O poder de governar não pode ser colocado em benefício próprio, mas em favor de todos, particularmente dos mais vulneráveis. É um poder-serviço (cf. Mt 20,26). Neste sentido, o Reinado de Jesus se constitui modelo.

A imagem que temos de rei é de alguém com coroa de ouro, cercado de guardas e militares, sentado num trono, morando num palácio etc. Essa imagem, construída pelas experiências históricas que conhecemos, não ajuda a entendermos a solenidade de hoje.

Precisamos voltar ao evangelho. A cena é da paixão. Jesus está condenado, preso, na cruz. Zombam dele. “Havia uma inscrição acima dele: ‘Este é o Rei dos judeus’”. Isso foi escrito a modo de ironia para com Jesus. Mas converte-se numa grande verdade. Ele é realmente Rei, mas o seu reino “não é deste mundo”, disse a Pilatos. O trono de Cristo é a cruz, sua coroa é formada de espinhos e seu reino se concretiza na oferta de toda a sua vida ao Pai.

Para entender a realeza de Jesus é preciso recorrer à compreensão de rei que Deus queria para o seu povo, como evoca o Antigo Testamento. Aquele que seria o “lugar-tenente de Deus” para assegurar a paz e a justiça: “És tu que apascentarás o meu povo Israel e és tu quem serás o chefe de Israel” (2Sm 5,2). Mas a história mostra que quase sempre o coração do rei se desviava da aliança de Deus. Isso trazia muito sofrimento para toda a população.

Jesus inaugura um reino diferente. Seu reinado se inicia na cruz e dele participa quem faz um caminho de conversão: o filho pródigo, Zaqueu, a pecadora, o publicano, o próprio companheiro de cruz: o ladrão arrependido.  O reino de Jesus, para Lucas, é o reino da reconciliação do ser humano com Deus. O bom ladrão não faz apenas um pedido, uma oração, mas também uma confissão de fé em Jesus como Rei: “Jesus, lembra-te de mim, quando vieres com teu reino”. A conversão brota da experiência de fé.

A promessa de Jesus ao suplicante nos garante quem é Jesus e o caminho que devemos trilhar: “Em verdade, eu te digo: hoje estarás comigo no Paraíso”. Jesus reconcilia com o Pai aqueles que acreditam nele. E a cruz é o centro dessa reconciliação, ato supremo do serviço de Jesus a seus irmãos.

A morte de Cristo na cruz é um gesto divino de amor que produz a conversão para a superação do ódio e da divisão. Desta morte todos participamos bem como de sua ressurreição e de seu reinado. Ele é a Cabeça e nós, Igreja, seu Corpo. Vinculados a ele pela consagração batismal somos também reis com ele. Isso não significa nos prevalecermos sobre os outros, mas trilharmos um caminho de conversão, expressa no serviço aos demais e na procura constante do Senhor, que nos entregou sua vida.

Cristo é rei pela cruz. Isso não entra facilmente na nossa cabeça infectada pela idéia capitalista do prestígio, da ambição e do poder. Quem pensa que a festa de Cristo Rei é a reafirmação da instituição eclesiástica está desviando a Igreja do caminho de Jesus. É preciso tirar de nossa cabeça a mentalidade do prestígio e do poder. O reinado de Cristo chega ao nosso mundo por meio de pequenos gestos, escondidos, ignorados, relegados ao esquecimento, tal como a morte de Jesus na cruz.

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*Dia dos cristãos leigos e leigas

É oportuno recordar a Missão dos cristãos leigos/as:

  • Uma presença e a atuação como “verdadeiros sujeitos eclesiais” (DAp. n. 497), como “sal, luz e fermento” na Igreja e na sociedade.
  • Formar-se para os ministérios leigos de coordenação e animação de comunidades, pastorais e movimentos.
  • Fortalecer a articulação das redes de comunidades (Doc. 100 da CNBB).
  • Trabalhar e empenhar-se por uma Igreja sempre mais sinodal, participativa.
  • Promover mecanismos de participação popular para o fortalecimento do controle social e da gestão participativa (Conselhos de Direitos, Grupos de Acompanhamento ao Legislativo, Iniciativas Populares, Audiências, Referendos, Plebiscitos, entre outros).
  • Nossos Bispos propõem que as pequenas comunidades missionárias devem partir do senso de fé, dos carismas, dos ministérios e do serviço cristão à sociedade. São espaços propícios para o crescimento espiritual, por meio da partilha da experiência de fé e da fidelidade a Jesus Cristo e a seu Evangelho. “Uma fé autêntica – que nunca é cômoda nem individualista – comporta sempre um profundo desejo de mudar o mundo, transmitir valores, deixar a terra um pouco melhor depois da nossa passagem por ela” (EG, 183). Toda comunidade cristã é esencialmente missionária, “Igreja em saída” (cf. Diretrizes Gerais CNBB 2019-2022, n. 36).

Súplica: Nós vos pedimos, ó Pai, que os batizados atuem como sal da terra e luz do mundo: na família, no trabalho, na política e na economia, nas ciências e nas artes, na educação, na cultura e nos meios de comunicação; na cidade, no campo e em todo o planeta, nossa “Casa Comum”. Amém.

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*Dia da Consciência Negra

No último dia 20 de novembro, celebramos o dia da Consciência Negra. A data homenageia Zumbi dos Palmares, um líder que defendeu a raça negra contra a escravatura e que morreu no dia 20 de novembro de 1695 enquanto defendia sua comunidade que lutava pelos direitos de seu povo. Seria muito importante que trabalhássemos em nosso coração, com nossos filhos e netos o respeito, amabilidade, a quebra do preconceito. Este se manifesta em piadas, brincadeiras, discriminações. As estatísticas mostram que o negro é ainda altamente discriminado. Que o racismo está muito vivo em nosso meio. E, ultimamente, parece ter crescido em forma de violência e morte. A fé cristã não admite distinção de pessoas: “Todos vós que fostes batizados em Cristo, vos vestistes de Cristo. Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher, pois todos vós sois um só em Cristo Jesus” (Gl 3,27-28).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Crer em Jesus: dom e tarefa

aureliano, 22.06.19

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12º Domingo do Tempo Comum [23 de junho de 2019]

[Lc 9,18-24]

O terceiro evangelho (Lucas) narra uma grande caminhada de Jesus para Jerusalém. Em breve (13º domingo) a liturgia vai trazer o início desta caminhada. Para realizarem o discipulado, seus seguidores devem reconhecer sua identidade como o Messias, Filho de Deus, e colocarem-se corajosos e confiantes em seu seguimento até à cruz.

No relato de deste domingo notamos três aspectos que compõem este texto: 1º) Após a oração, um diálogo messiânico com os discípulos. 2º) A predição da paixão. 3º) Um convite ao seguimento radical.

Em primeiro lugar notamos que, no evangelho de Lucas, Jesus sempre toma as decisões depois de um encontro profundo e amoroso com o Pai. Ao perguntar seus discípulos sobre a compreensão que tinham dele, ele o fez depois de um momento orante. Essa relação de intimidade de Jesus com o Pai nos ajuda a perceber a necessidade que temos de realizar, com frequência, esse encontro. Particularmente nos momentos decisivos de nossa história. Sem ele nossa vida cai no vazio, na falta de sentido, e no desvio do cumprimento da vontade do Pai.

Depois, notamos nesse diálogo, uma confusão na compreensão da identidade de Jesus. Nos relatos dos domingos anteriores (Lc 7,11-17; 7,36 – 8,3) vimos a busca de identificar Jesus com “o Profeta”: “Um grande profeta apareceu no meio de nós”, e ainda: “Se este homem fosse um profeta, saberia...”. Hoje o relato diz que alguns identificavam Jesus com “algum dos antigos profetas que ressuscitou”. Por aí se vê, claramente, o desejo de encontrarem aquele “Profeta” prometido (Dt 18,15).

Para nossa alegria Pedro reconhece em Jesus de Nazaré o “Cristo de Deus”. Ele é mais do que um profeta. Nele o Pai se revela, mostrando ao mundo sua bondade e ternura.

Nossa grande dificuldade é a de assumir Jesus de Nazaré como nosso Senhor. Dizer que acreditamos nele e que recorremos a ele nas necessidades é fácil. Mas será que ele é mesmo o centro de nossas celebrações, reuniões, decisões, escolhas? Nossa vida, nossas atitudes revelam o rosto de Jesus?

Em segundo lugar, lemos no evangelho a predição da paixão do Senhor. Os discípulos ainda não tinham entendido a missão de Jesus. Concebiam a Jesus como um líder político que iria livrar a Palestina das garras do poder romano. Jesus quer mostrar-lhes que será rejeitado por parte da liderança político-religiosa do Israel de então. Sua fidelidade incondicional ao Pai vai custar-lhe alto preço. Mas está disposto a enfrentar o sofrimento e a morte para resgatar a humanidade do poder do mal. Encara livremente a realidade de cruz. Há dentro de nós convicções firmes de fé a ponto de enfrentarmos os esquemas de mentira e de maldade pela defesa da verdade, da justiça, da paz? Estamos dispostos a abraçar a cruz com Jesus?

O terceiro elemento do relato de hoje está associado ao segundo: a dimensão da cruz. O discípulo de Jesus não estará isento da cruz. Não há como colocar-se no seguimento de Jesus sem disposição de deixar para trás um modo de vida egoísta, ganancioso, acomodado. Podemos até chamar a Jesus de Mestre. Mas isso não fará nenhum sentido se não nos comportarmos como discípulos seus. O discipulado cristão exige um despojamento constante e uma perseverante atitude de conversão cotidiana: “Tomar a cruz a cada dia”.

Papa Francisco fala do significado e marca da cruz na vida do cristão: “Ninguém pode tocar a Cruz de Jesus sem deixar algo de si mesmo nela e sem trazer algo da Cruz de Jesus para sua própria vida”. E, mais adiante, traz um ensinamento muito interessante: “A Cruz de Cristo também nos convida a deixar-nos contagiar por este amor; ensina-nos, pois, a olhar sempre para o outro com misericórdia e amor, sobretudo quem sofre, quem tem necessidade de ajuda, quem espera uma palavra, um gesto; ensina-nos a sair de nós mesmos para ir ao encontro destas pessoas e lhes estender a mão. Tantos rostos acompanharam Jesus no seu caminho até a Cruz: Pilatos, o Cireneu, Maria, as mulheres... Também nós diante dos demais podemos ser como Pilatos que não teve a coragem de ir contra a corrente para salvar a vida de Jesus, lavando-se as mãos. Queridos amigos, a Cruz de Cristo nos ensina a ser como o Cireneu, que ajuda Jesus levar aquele madeiro pesado, como Maria e as outras mulheres, que não tiveram medo de acompanhar Jesus até o final, com amor, com ternura. E você como é? Como Pilatos, como o Cireneu, como Maria?” (JMJ, 26 de janeiro de 2013).

A confissão de fé em Jesus Salvador pressupõe adesão da mente e do coração. Não valem apenas palavras. Não basta dizer-se cristão. É preciso sê-lo. Ser cristão é Graça e Tarefa: dom de Deus que nos acolheu e adotou como filhos e filhas. Esse dom pede de nós resposta diária comprometida, vital. “Confessamo-lo abertamente como Deus e Senhor nosso, mas às vezes Ele não significa quase nada nas atitudes que inspiram nossa vida. Por isso, é bom ouvir sinceramente sua pergunta: ‘E vós, quem dizeis que eu sou?’ Na realidade, quem é Jesus para nós? Que lugar ele ocupa em nossa vida diária?” (Pe. Antônio Pagola, O caminho aberto por Jesus, p. 150).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

As consequências da fé cristã

aureliano, 14.09.18

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24º Domingo do Tempo Comum [16 de setembro 2018]

   [Mc 8,27-35]

O texto do evangelho para esse final de semana reflete um divisor de águas na vida de Jesus. O autor sagrado escreve de tal maneira que mostra, até aqui, que Jesus é o Messias libertador. As curas que realiza indicam a sua missão: proclamar o Reinado de Deus. O desfecho é o reconhecimento de que Jesus é o Filho de Deus. Porém não pode ser revelado como tal, pois a comunidade ainda não está preparada para entender a que veio e o que o espera pela frente. Na segunda parte do evangelho (Mc 8,31ss), Marcos desenvolve a sorte que esperava Jesus e, consequentemente, seu discípulo: a cruz. Não veio para triunfos e glórias humanas, mas para entregar sua vida ao Pai pela salvação da humanidade. Na conclusão da segunda parte encontramos a profissão de fé do centurião: “Verdadeiramente este homem era o Filho de Deus” (Mc 15,39).

Na primeira parte do evangelho de hoje notamos Jesus fazendo uma espécie de ‘enquete’ a respeito da opinião que tinham dele. As respostas foram variadas. De qualquer forma entendiam que Jesus era uma pessoa que se poderia identificar com personagens significativos da história precedente de Israel. Os discípulos, porém tinham uma compreensão mais apurada de Jesus. Embora Pedro, em nome do grupo, confesse: “Tu és o Messias”, ainda não tinha plena noção do alcance dessas palavras. É que a fé em Jesus incide na vida do crente: o discípulo de Jesus deve procurar conformar sua vida com a do Mestre.

Ao proibir que se publique aquela profissão de fé, Jesus pretende preservar o chamado “segredo messiânico”. É uma característica do Evangelho de Marcos. A população (judaica) da época esperava um Messias com poder político para libertá-los do poder opressor dos romanos. De modo que a compreensão correta da pessoa e missão de Jesus se daria somente depois de sua morte. Na ressurreição os discípulos verão que o Pai está com ele.

Quando Jesus começa a orientar e prevenir seus discípulos sobre o que o esperava, Pedro parece não ter escutado as palavras: “ressuscitar depois de três dias”. Parecia ter aquela ideia que está muito presente no povo de modo geral: “Não se pode perder o voto... Então, deve-se votar em quem tem mais chances de ganhar”. Estar ao lado de um Messias derrotado, crucificado, jamais! Jesus então lhe diz com firmeza: “Vai para trás de mim, Satanás!”. Ou seja, coloque-se atrás de mim, no meu seguimento, carregando sua cruz, como discípulo! Ao chamá-lo de ‘satanás’, Jesus quer dizer que ele se coloca como um Adversário do projeto do Pai. Um opositor do caminho que Jesus deve trilhar. Suas ideias estão na contramão do querer do Pai.

Entenda-se bem: o Pai não queria que seu Filho sofresse na cruz. Deus não é sado-masoquista. O texto quer evidenciar que o Filho devia levar às últimas consequências o projeto da salvação da humanidade que o Pai lhe confiara. Se esse caminho passaria pela rejeição e pela cruz, então o Filho deveria enfrentar também isso. A grande prova de que o Pai não queria a destruição de seu Filho e aprovava a sua vida foi a Ressurreição: o mal e a morte não prevalecem! O Filho saiu vencedor!

A grande lição para nós: Para ser discípulo de Jesus é preciso segui-lo no caminho da cruz, isto é, da entrega, do amor generoso, da oferta da vida, da contestação de uma sociedade baseada no lucro, na fama, no sucesso, no consumismo, no poder, na posse de bens. Assumir uma vida de partilha, de solidariedade com os pobres, de serviço generoso. Uma cruz geradora de vida nova. Não basta dizer que acreditamos em Jesus. Palavras voam (Verba volant). Uma existência impregnada pelo Mistério de Cristo é que se torna indicativo de que acreditamos n’Ele. Para compreendermos o mistério de Cristo precisamos entrar nele. Não se trata de colocar o Mistério dentro de nossa cabeça (com-preender). Isso seria tentativa de reduzi-lo à pura racionalidade. Mas é preciso en-tender, isto é, mergulhar dentro dele. Numa expressão teologicamente mais adequada: deixar-nos tomar por ele. Só então o compreenderemos.

Algumas considerações: Não poucas vezes nossa catequese insiste em ritos, em fórmulas, em práticas ultrapassadas de piedade, em determinadas obrigações legais, em doutrinação, em dinâmicas vazias. E trabalha pouco o mais importante: o seguimento de Jesus. Nossa identidade cristã deve ser construída à volta de Jesus. Ser cristão é bem mais do que ser batizado, crismado, casado na igreja, frequentador de missa. É bem mais do que organizar a festa do santo padroeiro da paróquia, ou se dar bem com o padre, ou assumir um ‘cargo’ na comunidade. Ser cristão é seguir Jesus no caminho do amor, da oferta da vida, como os santos: São Maximiliano kolbe, Pe. Júlio Maria, Madre Teresa de Calcutá, São Francisco de Assis etc. O cristão é aquele que faz de Jesus a referência fundamental de sua vida. Ser cristão é renunciar a si mesmo e tomar a mesma cruz de Jesus a cada dia.

Renunciar a si mesmo é não permitir que o egoísmo, o orgulho, o comodismo, o consumismo, a ganância de ter sempre mais, a autossuficiência, a mentira dominem nossa vida. O seguidor de Jesus não vive fechado no seu cantinho, a olhar para si mesmo, indiferente aos dramas que se passam à sua volta, insensível às necessidades dos irmãos, alheio às lutas, reivindicações e lágrimas dos sofredores. O seguidor de Jesus vive para Deus, na solidariedade, na partilha e no serviço aos irmãos. Ao ver a notícia de que no Brasil há cinco milhões de pessoas passando fome e treze milhões de desempregados, se sensibiliza, se mexe, deixa-se tocar. Isso significa “tomar a cruz” e “seguir a Jesus”.

Nossa fé, no dizer de Tiago (Tg 2,14-18), precisa ser comprovada pela nossa prática de vida. De que adianta dizer que temos fé, que praticamos a religião, se nossas atitudes não correspondem àquilo que professamos na igreja? “Tu, mostra-me a tua fé sem as obras, que eu te mostrarei a minha fé pelas obras!”. Não são as obras que nos garantem a salvação, pois esta é dom, é graça de Deus para nós. Mas as obras garantem que nós acolhemos a salvação que Deus nos deu. Elas mostram que somos gratos pela salvação e que somos colaboradores de Deus para que outras pessoas experimentem também esse dom maravilhoso que o Pai nos deu em Jesus Cristo.

Em síntese: renunciarmos aos projetos que se opõem ao Reinado de Deus; acolhermos de coração os sofrimentos que podem advir do fato de assumirmos a causa de Jesus.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

“Está consumado”

aureliano, 30.03.18

Sexta-feira santa - 30 de março.jpg

Sexta-feira Santa [30 de março de 2018]

[Jo 18,1 – 19,42]

Incluindo a Quinta-feira à noite, a Sexta-feira Santa é o primeiro dia do Tríduo Pascal. Dia de jejum como sinal sacramental da participação no sacrifício de Cristo. Também é um gesto de solidariedade com as vítimas da fome e da miséria. Hoje é o único dia do ano em que não se celebra a Eucaristia, absolutamente. Faz-se a celebração solene da Liturgia da Palavra, à tarde, com adoração do Cristo na cruz e distribuição da comunhão.  Não é o dia de luto da Igreja, mas de amorosa contemplação da oferta de Cristo na cruz pela humanidade. Essa contemplação tem um caráter de ressurreição, uma vez que a morte de Cristo é inseparável de sua ressurreição. Por isso chamada de beata passio, santa e feliz paixão.

De algum modo a Sexta-feira Santa se prolonga no Sábado. Dia em que a Igreja se coloca em silêncio orante. Celebra o repouso de Cristo no sepulcro, depois da vitória na cruz. É a experiência da morte humana pela qual Cristo passou. É a esperança da vitória de Cristo sobre a sombra da morte: “O Filho do homem... deve... ser levado à morte e ressurgir ao terceiro dia” (Lc 9,22).

Este tempo não é de morte, mas de vida germinal; é noite que aponta à aurora; são as noites escuras da vida que desembocam na alegria da alvorada. É tempo de esperança. “A esperança não decepciona porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5).

O Mistério Pascal constitui o núcleo central da fé cristã. A morte e a ressurreição de Jesus de Nazaré e a consequente efusão do Espírito sobre toda a Criação trouxe vida nova para toda a humanidade. Um triunfo paradoxal: morte que trouxe vida!

A celebração litúrgica da tarde não tem ritos iniciais: começa com a oração-coleta. Os atos litúrgicos constam de quatro partes: Liturgia da Palavra, Preces Universais, Adoração de Cristo na Cruz, Distribuição da Comunhão Eucarística (Santas Reservas da missa de Quinta-feira Santa).

Meditando o evangelho:

Os relatos da Paixão do Senhor segundo João trazem alguns elementos significativos que gostaria de ressaltar:

“Sou eu” (Jo 18,5): Essas palavras proferidas por Jesus fez com que os soldados caíssem por terra. Querem mostrar a liberdade com que Jesus caminha para a morte: “Ninguém tira a minha vida porque eu a dou livremente” (Jo 10,18).

“Embainha a tua espada” (Jo 18,11): Jesus é o Príncipe da Paz. Não admite combater violência com violência. Ademais, ele veio para cumprir a vontade do Pai. Nenhuma força humana deve ser empecilho para que ele leve adiante a missão que o Pai lhe confiou. Combater a violência em nosso País por meio de ação violenta e repressão não pode ser o caminho da paz e da harmonia que todos desejam.

“Se falei bem, por que me bates?” (Jo 18,23): Este quadro da Paixão merece longa contemplação. Diante da resposta objetiva e verdadeira de Jesus ao Sumo Sacerdote, um guarda desfecha-lhe uma bofetada. A atitude de Jesus deixa sem resposta qualquer ação violenta. Uma cena que revela o altíssimo grau de serenidade de Jesus diante dos perseguidores e sua ternura para com os violentos. “Não resistais ao homem mau; antes, àquele que lhe fere a face direita oferece-lhe também a esquerda” (Mt  5,39).

“Meu reino não é deste mundo” (Jo 18,36): Jesus se coloca majestosamente em sua paixão diante dos poderosos que brigam e matam pela conquista e resguardo do poder. Ele não reina pela força, pelo exército, pela violência. Ao entrar em Jerusalém montado num jumentinho e não num cavalo, quis mostrar a que veio: promover a paz na simplicidade, na humildade, no serviço. Conquista e reina nos corações daqueles que assumem em sua própria vida o que ele ensinou. Ele não domina, mas conquista, atrai.

“Não terias poder algum sobre mim se não te fosse dado do alto” (Jo 19,11): Essa resposta de Jesus a Pilatos mostra que toda autoridade e poder vêm de Deus. Ora, sendo Deus o Autor e Criador de todas as coisas, não se pode compreender nem aceitar que alguém faça uso do poder ou autoridade em benefício próprio. Todo poder deve ser exercido em vista do bem de todos. É o poder-serviço ensinado por Jesus aos seus discípulos: “Sabeis que os governadores das nações as tiranizam e os grandes as dominam. Entre vós não deverá ser assim. Ao contrário, aquele que quiser tornar-se grande entre vós, seja aquele que serve, e o que quiser ser o primeiro dentre vós, seja o vosso servo” (Mt 20,26-27). Infelizmente, as forças políticas, econômicas e, por vezes, as religiosas, caminham na contramão do Evangelho: busca do poder pelo poder.

“Repartiram entre si minhas roupas” (Jo 19,24): Notamos nesta passagem que Jesus não possuía nada. A única coisa que trazia consigo, sua veste, torna-se objeto de disputa. No que tange aos pobres de quem os ricaços arrancam o manto e a carne, calha bem a advertência da Escritura: “Se tomares o manto do teu próximo em penhor, tu lho restituirás antes do pôr-do-sol. Porque é com ele que se cobre, é a veste do seu corpo: em que deitaria? Se clamar a mim, eu ouvirei, porque sou compassivo” (Êx 22,25-26).

“Mulher, eis aí o teu filho” (Jo 19,26): Aqui, conforme a tradição da Igreja, Jesus nos dá Maria, sua mãe, por nossa Mãe. Ele nos assume como irmãos, não nos deixa órfãos. Dá-nos o que tem de mais precioso: sua Mãe. O discípulo amado, isto é, aquele que vive no amor de Deus, tem Maria por sua Mãe. Nesta cena do evangelho se consuma o que fora iniciado nas bodas de Caná: “Minha hora ainda não chegou” (Jo 2,4). A Hora de Jesus é a Cruz. A mulher, Maria, simboliza a comunidade salva na entrega de Jesus, o Noivo, na Cruz.

“Tenho sede” (Jo 19,28): Este clamor de Jesus na cruz nos remete ao relato de seu encontro com a samaritana no poço de Jacó (cf. Jo 4, 1-42). “Dá-me de beber” disse ele àquela mulher. Jesus tem sede de salvar, de perdoar, de se doar. E, ao mesmo tempo, ele é a água que sacia nossa sede: “Quem beber da água que eu lhe darei, nunca mais terá sede” (Jo 4,14).

“Está consumado” (Jo 19,30a): Foram as últimas palavras de Jesus. Ele consumou a missão que o Pai lhe confiara. Não recuou, não desistiu, não se intimidou frente às ameaças, não se deixou levar pelos encantos enganosos da fama e do poder. Com ele e por ele, Paulo pode dizer mais tarde: “Quanto a mim, já fui oferecido em libação, e chegou o tempo da minha partida. Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé” (2Tm 4,6-7). Oxalá cada um de nós possa dizer com serenidade de consciência tais palavras como prece ao Pai na hora derradeira da vida!

“Entregou o espírito” (Jo 19,30b): Essa palavra do evangelho tem o sentido da entrega de sua vida ao Pai, mas também da entrega do Espírito Santo à Igreja, àqueles que continuam sua missão no mundo. Um Pentecostes. É no Espírito de Jesus que a Igreja deve caminhar: oferecer-se em oblação pela vida e pela paz no mundo. Podemos fazer a memória de Estêvão, protomártir da fé cristã, que também ‘entregou o espírito’: “Senhor Jesus, recebe meu espírito”. Confirmando que nele agia o mesmo Espírito que agiu em Jesus, ainda perdoa seus algozes antes de morrer: “Senhor, não lhes leves em conta este pecado” (At 7,59-60).

Hoje é dia de silêncio, de recolhimento, de contemplação. É a maior prova do amor de Jesus por nós: entregar sua vida na cruz. Com a Igreja rezamos: “Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos porque pela vossa santa cruz remistes o mundo”. E proclamamos na liturgia da tarde: “Eis o lenho da cruz do qual pendeu a salvação do mundo. Vinde adoremos!”.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Em Jesus, passamos das trevas à luz

aureliano, 09.03.18

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4º Domingo da Quaresma [11 de março de 2018]

 [Jo 3,14-21]

O contexto do evangelho de hoje é a conversa de Jesus com Nicodemos, um homem estranho, embora notável entre os judeus, que entra em cena de repente, e desaparece de repente. A resposta de Jesus a ele e o contexto da liturgia quaresmal – preparação para o batismo e vida batismal – nos ajuda a entender o que significa o batismo: “Ninguém, a não ser que nasça da água e do Espírito, pode entrar no Reino de Deus” (Jo 3,5).

É interessante notar, em primeiro lugar, o fato de Nicodemos ter procurado Jesus “de noite”.  Nicodemos representa o discípulo que começa a sair das trevas para entrar na luz, por isso procura Jesus “de noite”, isto é, nas trevas dos conflitos e desafios da vida. E Nicodemos realiza o encontro desejado. Por isso não entra mais em cena, pois encontrou aquele a quem buscava. E Jesus continua seu discurso mostrando que é preciso deixar as trevas e se aproximar da luz.

Crer num homem crucificado, abandonado, considerado maldito por Deus não é algo simples. Nós estamos acostumados com cruzes por todo canto. Inclusive nas salas de órgãos públicos brasileiros vemos o crucificado presenciando cada atitude que traz pavor e vergonha aos cristãos e não-cristãos honestos e sérios. Porém raramente paramos para refletir sobre o significado deste objeto sagrado. Referindo-se à cruz, diz o Papa Francisco: “A cruz não é um ornamento, que nós devemos meter sempre nas igrejas sobre o altar. Não é um símbolo que nos distingue dos outros. A Cruz é o mistério, o mistério do amor de Deus, que se humilha a si próprio, faz-se um nada, faz-se pecado. O perdão que nos dá Deus são as chagas do seu Filho na Cruz, erguido na Cruz. Que Ele nos atraia para Si e que nós nos deixemos curar”.

“... Assim, é necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna” (Jo 3, 15). Aquele que veio “como Luz” está crucificado! Suas mãos não podem mais tocar os leprosos. Seus braços não podem abraçar as crianças. Seus olhos estão impedidos de olhar, com ternura, para os pecadores e as prostitutas. Seus ouvidos não ouvem mais o grito do cego de Jericó ou clamor da Cananéia. Um homem de dores, pendurado num madeiro, vítima da maldade, para eliminar, para sempre, do coração humano, toda maldade e violência.

Jesus mostra, no relato de hoje, a face amorosa do Pai que “não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e viva”. Não veio para condenar, mas para salvar. Corremos o risco de anunciar Deus como um juiz implacável, irado contra a humanidade. Por vezes assumimos o posto de juiz de vivos e de mortos. Sentamos na cadeira de juiz enquanto Jesus deitou-se numa cruz. Colocou-se do lado dos injustiçados e condenados, desde o seu nascimento, quando não encontrou lugar na hospedaria. Nos últimos dias circularam nas redes sociais graves, agudas e injustas acusações contra a CNBB, o encontro das CEBs e a Campanha da Fraternidade. Não consegui perceber naquelas acusações afrontosas nenhum respaldo no Evangelho, nas atitudes de Jesus. Nossa Igreja Latinoamericana precisa continuar a percorrer o caminho de fidelidade ao Evangelho, custe o que custar. Pois o Senhor “sempre se mostrou cheio de misericórdia pelos pequenos e pobres, pelos doentes e pecadores, colocando-se ao lado dos perseguidos e marginalizados” (Prefácio da Oração Eucarística VI-D).

“Quem nele crê não é condenado”. Crer em Jesus é assumir seu modo de viver. É arcar com as conseqüências da fé cristã. Fé é dom de Deus. Salvação é graça. “É pela graça que fostes salvos mediante a fé. E isso não vem de vós; é dom de Deus! Não vem das obras para que ninguém se orgulhe” (Ef 2,8). Pe. Konings diz que “não fomos salvos pelas obras, mas para as obras”. Ou seja, as obras encarnam nossa fé. Tiago diz que “a fé sem obras é morta” (Tg 2,26). Nosso relacionamento com Deus não é comercial (nem doutrinal, como querem alguns), mas vivencial. Precisamos nos conscientizar de que nossa relação com Deus se deve dar na gratuidade e não como compra e venda ou na mera observância formal de uma doutrina.

A salvação depende também da acolhida do ser humano. Deus não salva ninguém à força. Nesse sentido a salvação é dom e tarefa, graça e liberdade. Há pessoas que rejeitam a salvação, que se recusam a aproximar-se da luz, exatamente para que suas ações más não sejam conhecidas. “Quem pratica o mal odeia a luz e não se aproxima da luz, para que suas ações não sejam denunciadas”. A vida de Jesus, que é luz, mostra por onde anda aquele que dele se aproxima.  Quem “pratica a verdade”, ou seja, quem procura viver como Jesus, na justiça, na honestidade, na solidariedade, no serviço generoso aos irmãos, “aproxima-se da luz para que se manifeste que suas ações são realizadas em Deus”.

Um respeitado teólogo jesuíta, Mário de França Miranda, diz o seguinte a propósito da inculturação da fé: “A iniciativa salvífica de Deus só chega a sua meta quando é livremente acolhida pelo ser humano na fé. Só temos propriamente revelação ou Palavra de Deus no interior de uma resposta de fé, ela mesma fruto da ação de Deus em nós. Portanto, o acolhimento na fé é parte constitutiva da revelação; sem ela os eventos salvíficos seriam meros fatos históricos, a Palavra de Deus seria palavra humana e a pessoa de Jesus Cristo nos seria desconhecida, como o foi para os fariseus de seu tempo” (A reforma de Francisco, p. 64).

Aproximando-nos da Luz, que é Jesus, somos aquecidos, iluminados, transformados por ele. Tornamo-nos mais parecidos com ele. Então nossa presença junto à família, à comunidade, àqueles que Deus colocou no nosso caminho será uma presença de luz. “Brilhe vossa luz diante dos homens para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a Deus Pai” (cf Mt 5,16). Essa luz não é autógena, fruto de esforço pessoal, mas luz que foi infundida por Deus em nós no batismo e, uma vez acolhida, deve ser levada aos outros.

Campanha da Fraternidade 2018: “O Brasil é um país perigoso para quem atua em favor da igualdade de direitos. O estudo intitulado Vidas em luta: criminalização e violência contra defensoras e defensores de direitos humanos no Brasil, divulgado em julho de 2017, revela que pelo menos 66 defensores dos direitos humanos foram assassinados no Brasil em 2016. As regiões Norte e Nordeste concentram a maior parte dos casos, e os conflitos por terra são a principal causa da morte dos ativistas” (Texto-Base, n. 55).

“Ao inviabilizar a formação dos mais pobres para a autonomia de pensamento, restringir os horizontes do interesse pelo exercício da cidadania, limitar as possibilidades de participação ativa na política, o Estado, outras instituições brasileiras e os segmentos sociais das elites contribuem para a continuidade de relações sociais pautadas na exclusão, no autoritarismo e na violência” (Texto-Base, n. 57).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN