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aurelius

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A paciência de Deus

aureliano, 22.07.17

joio e trigo.jpg

16º Domingo do Tempo Comum [23 de julho de 2017]

[Mt 13,24-43]

Continuamos no capítulo 13 de Mateus no qual Jesus conta uma série de parábolas do Reino. No domingo passado pudemos rezar a parábola do semeador na qual Jesus mostra a variedade de terreno e a força da semente que é a Palavra de Deus. A grande tentação é negar-se a prestar ouvido ao que Deus pede de nós: “quem tiver ouvidos, ouça” (Mt 13,9); é negar-se a olhar para Jesus (cf. Hb 12,2) e manter os olhos fixos em si mesmo, alimentando um narcisismo perverso.

Hoje a liturgia traz a narrativa de várias parábolas: do joio e do trigo > deixar crescer juntos entregando a responsabilidade da seleção para Deus; da semente de mostarda > um Reino revestido de humildade, sem grandeza, mas que revela sua força por isso mesmo; do fermento > a força de Deus escondida, porém transformadora.

A parábola do joio e do trigo adverte nossa falta de paciência, de longanimidade (grandeza de alma) diante das fraquezas e pecados alheios. Buscamos resultados imediatos, números, mudança segundo nossos critérios, muitas vezes legalistas e exigentes demais. Ainda mais: quantas vezes nos arvoramos em juízes implacáveis das pessoas! Jesus quer que demos sempre uma nova oportunidade ao ser humano que erra.

As atitudes devem ser avaliadas e julgadas, mas a pessoa deve ser sempre respeitada. Ninguém conhece perfeitamente os recônditos do coração humano. Isso é prerrogativa divina. Por isso, somente a Deus compete o juízo definitivo.

Quando Mateus escreve este texto, provavelmente quer mostrar uma realidade da comunidade que aguardava a vinda de Jesus (Parusia) para muito em breve. Por isso exorta à paciência. Hoje o que impacienta pode ser o ativismo, o imediatismo e mesmo o radicalismo de pessoas até muito engajadas na comunidade, mas que sufocam e matam a semente no coração dos outros.

Penso que a grande lição do evangelho de hoje para nós e nossas comunidades é a de termos mais paciência com as dificuldades dos irmãos, respeitando seus passos, acolhendo suas diferenças. Muitas vezes alguém que poderia crescer muito na comunidade, acaba por minguar-se por falta de incentivo, de apoio, de perdão, de respeito, de tempo. É preciso dar força ao trigo para que não seja sufocado pelo joio.

Importa, mais do que nunca, acolher a grandeza de Deus que está muito além de nossos pobres e mesquinhos juízos sobre a salvação dada por Deus a todas as pessoas. A nós compete colaborar com o Pai na obra da salvação. Julgar, selecionar, recompensar, punir etc é atributo de Deus. Quando nos deixamos conduzir pelo Espírito de Deus, assumindo o jeito de viver de Jesus, seu projeto vai se realizando no mundo.

Devemos nos colocar sempre como colaboradores de Deus espalhando a semente do bem no mundo e tendo uma atitude que sempre incomode o reino de morte.

 

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O REINO DE DEUS É FEITO DE MISERICÓRDIA, DE SIMPLICIDADE E DE FORÇA INTERIOR

A primeira parábola quer nos ajudar a entender a misericórdia de Deus. A pessoa deve ter sempre mais uma chance, uma oportunidade. O Pai dá sempre tempo para a conversão (cf. Lc 15: parábolas da misericórdia). Isso significa também que não nos podemos escandalizar diante de uma Igreja medíocre, pecadora, longe do ideal evangélico. Feita de santos e pecadores e mergulhada no mundo, ela corre sempre o risco de se contaminar pela maldade. Por isso precisamos mudar nossa ideia de Deus: de um deus violento, intolerante, ciumento, mesquinho, avarento a um Deus misericordioso, compassivo, paciente e justo. É o Deus revelado por Jesus.

A segunda parábola lembra-nos a dimensão da simplicidade do Reino de Deus. Dá uma ideia de amplidão, de crescimento, de espaço a partir da pequenez evangélica. A pequenez da semente vem mostrar que a força do Reino não está na aparência, na exterioridade, mas no conteúdo. O Reino de Deus anunciado por Jesus cresce e se expande pela força que vem do Alto.

A terceira parábola nos remete à força interior do Reino de Deus. O fermento age sem ser visto. A gente não vê o fermento no bolo ou no pão. Sabemos que está ali e agiu pelo gosto gostoso. O verdadeiro sabor da vida cristã não vem de fora: de ritos, de shows, de ativismo etc. A força que transforma o ser humano, o mundo, a história vem de Deus. Uma vida alimentada pela mística, pela espiritualidade, pela oração é que vai produzir frutos que transformam o mundo.

Essas parábolas não nos deixam esquecer que o Reino é de Deus. Não somos nós os protagonistas da transformação da história. É Deus que age e transforma as pessoas. Nós somos instrumentos, muitas vezes, desajeitados em suas mãos. Às vezes fazemos bem, às vezes fazemos mal; às vezes ajudamos, às vezes atrapalhamos. O importante é colocar-se sempre aberto e disponível para colaborar na obra da salvação da humanidade. O resto é por conta do Pai.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Salvação: proposta de Deus e abertura humana

aureliano, 27.05.16

9º Domingo do Tempo Comum [29 de maio de 2016]

[Lc 7,1-10]

Os escritos lucanos enfatizam o universalismo da salvação. Seu evangelho é escrito para os gregos que se convertiam à fé cristã. E ele mesmo é proveniente do mundo helenístico. O relato do evangelho de hoje mostra claramente que Jesus veio para todas as pessoas. A salvação de Deus não se circunscreve ao povo de Israel, mas ela acontece para todo aquele que abre seu coração ao amor de Deus manifestado na pessoa de Jesus de Nazaré.

Este oficial romano, comandante de um pelotão de cem soldados (centurião), havia dado mostras de que não era como tantos outros comandantes que embrenhavam pelo caminho do mal. O evangelho fala que ele tinha um empregado doente a quem ele amava muito. Aqui vamos percebendo seu sentimento de compaixão. Não se tratava de um filho, por quem é natural um desvelo redobrado. Mas o fato de um comandante se preocupar com um empregado a ponto de procurar Jesus para curá-lo, ajuda a concluir que o coração desse homem parecia ser mesmo generoso.

Também os próprios judeus enviados pelo centurião dão mostras de que ele era um homem bom: “O oficial merece que lhe faças este favor, porque ele estima o nosso povo. Ele até nos construiu uma sinagoga”. Embora a Palestina estivesse sob o domínio romano, parece que este homem não se enquadrava no esquema daquela dominação insana. Tudo isso vai indicando um caminho trilhado em direção ao bem, à abertura à salvação.

O ponto culminante que mostra a humildade e a fé daquele homem foi sua atitude diante de Jesus: “Mandou alguns amigos lhe dizerem: ‘Senhor não te incomodes, pois não sou digno de que entres em minha casa... mas ordena com a tua palavra, e o meu empregado ficará curado’”. Esta atitude mereceu o grande elogio de Jesus: “Eu vos declaro que nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé”.

A grande mensagem deste evangelho para nós hoje é a de reconhecermos que Deus tem várias formas de salvar as pessoas. Os caminhos são muitos. A salvação não está numa única instituição religiosa, como se fosse possível possuir o monopólio da salvação. Jesus é o único caminho que conduz ao Pai. Porém as formas de encontrar esse caminho podem ser diversificadas.

Não podemos nos esquecer dos gestos de bondade do oficial do evangelho que o predispunham para abraçar a fé. Se a pessoa permanece com o coração fechado à prática do bem, fica muito mais difícil realizar um encontro salvífico com o Senhor.

É bom atinarmos para duas situações cruciais que atingem, em cheio, nossa sociedade: Por um lado existem aqueles que pensam que fora do catolicismo não há salvação. Por outro, há aqueles pensam que a salvação está na combinação de várias crenças (sincretismo). Nenhuma dessas atitudes está dentro do universalismo da salvação. Deus salva aqueles que se abrem à sua proposta de salvação mediante um coração sincero e autêntico na situação e caminho em que cada um se encontra. Porém, cremos que Deus se manifestou na pessoa de Jesus Cristo para ser conhecido de maneira única. Quem tem a felicidade de conhecer Jesus Cristo tem a missão de ajudar os outros a fazer esse caminho de encontro com Ele.

Precisamos pensar e rezar um pouco mais nossa vida cristã. Por vezes ficamos acomodados em uma “vidinha de igreja”, julgando-nos salvos, sem preocupação com as necessidades dos outros, sem assumir na vida atitudes de bondade e de honestidade, como daquele oficial. Vivendo assim corremos o risco de ouvirmos de Jesus aquelas terríveis palavras: “Não vos conheço”. E diremos nós: “Mas, Senhor, não foi em teu nome que profetizamos? Em teu nome expulsamos os demônios? Em teu nome que fizemos numerosos milagres?” E ele nos dirá: “Afastai-vos de mim, vós que cometeis a iniquidade” (cf. Mt 7,22-23). Estejamos, então, atentos à admoestação do Mestre de Nazaré: “Nem todo aquele que me diz ‘Senhor, Senhor!’ entrará no Reino dos céus. Mas o que faz a vontade do Pai que está no céu” (Mt 7,21).

Aquelas palavras que revelam a humildade e fé do Centurião, continuam sendo proferidas pela comunidade cristã antes de participar do Banquete Eucarístico: “Senhor, eu não sou digno que entreis em minha morada, mas dizei uma só palavra e serei salvo”. Ninguém é digno de comungar. Ninguém está inteiramente preparado para comungar. Participamos da comunhão pela misericórdia de Deus. É Ele que nos salva. É Ele que nos purifica. É a bondade dEle que nos dá condição de entrar em comunhão com Ele pelo Pão consagrado. Tudo é graça! Tudo é misericórdia! A nós compete o empenho de fidelidade, de coerência, de comprometimento cotidiano com o Senhor que se entrega por nós.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN