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aurelius

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A coerência de vida: não basta dizer

aureliano, 30.09.23

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26º Domingo do Tempo Comum [1º de outubro de 2023]

[Mt 21,28-32]

Neste e nos dois domingos subsequentes temos três parábolas de Mateus mostrando o que acontece àqueles que, embora conhecendo, rejeitam a graça de Deus. É próprio da liturgia, na aproximação do final do ano litúrgico, acentuar os temas da conversão e da graça, mostrando, com clareza, o final escatológico pelo qual deve passar todo ser humano. Quando o justo se desvia do caminho de Deus, ele se perde. Porém, quando o malvado se converte, ele se salva.

Na parábola de hoje não está em jogo a mudança de postura - ambos mudaram -, mas o objeto da adesão: a vontade do pai. Estamos acostumados a dizer “sim, senhor” a tudo. Há uma tendência dentro de nós em buscar sempre agradar para resolvermos nossa situação ou para não experimentarmos os dissabores por vezes provocados pela atitude coerente e verdadeira. Se atende a meus interesses, se me for vantajoso, faço o que o Evangelho propõe ou a Igreja pede, mas se exigir de mim esforço, conversão, mudança de mentalidade, então procuro dar o ‘jeitinho brasileiro’. Em outras palavras: costumamos dizer “sim”, mas fazemos o que queremos ou o que mais nos convém.

Jesus conta esta parábola aos chefes da religião: liderança religiosa. Estes eram peritos em explicá-la aos outros, em dizer o que Deus queria. Cuidavam do templo, das sinagogas, dos livros sagrados. Mas não viviam o que ensinavam. Uma religião de fachada. Ter a bíblia nas mãos, falar sobre a fé para os outros, frequentar o templo são atitudes muito comuns em nosso meio. Mas encontrar quem vive uma vida coerente com a fé professada é bastante raro. Parece que o problema do mundo não está na descrença, pois ‘crentes’ os há aos milhões. Parece mesmo que o problema é a falta de coerência de vida. Que sentido tem pronunciar com os lábios minha fé em Jesus se minha vida não expressa esforço em segui-lo? Corremos o risco de transformar a fé em ‘religião semanal’. Ou seja, nos cercamos de atos religiosos em casa ou no templo, mas não permitimos que Deus penetre e perpasse nossa vida, nossa família, nossas decisões, nossos negócios, nosso trabalho etc. É uma triste constatação, mas o que mais vemos por aí é uma religiosidade de conveniência: ser de uma outra religião enquanto atende aos próprios interesses.

As contundentes palavras de Jesus: “as prostitutas e os publicanos vos precederão no Reino de Deus” nos fazem pensar mais seriamente sobre nossa vida quando nos julgamos “bons” e “justos”. Os que estão à margem, aqueles que não contam, acolhem a Jesus, ao passo que as elites o rejeitam. Há mulheres que se prostituem para ganhar o pão de cada dia e dar de comer a seus filhos. E os “bons” compram seus ‘serviços’. Há ‘publicanos’ que subornam e sonegam porque há “bons” que usam seus serviços ou lhes favorecem a pilantragem. Há corruptos porque existem aqueles que se deixam corromper. Algum dia as meretrizes e os publicanos poderão descobrir que há outro caminho para viverem com dignidade e honestidade sua vida, se forem ajudados pelos que buscam fazer a vontade do Pai.

Percebemos pela parábola que os “bons” precisam de conversão para entrar no Reino. Aos pecadores talvez seja mais fácil fazer um caminho de conversão: não tem mesmo nada a perder nem de que se envergonhar. Aos “bons”, acostumados aos primeiros lugares, certamente custa muito deixar seu posto de “justos” para assumir um caminho de humildade, de simplicidade, de discipulado.

Não adianta ter o rótulo de justo dizendo que vai à missa, que recebe os sacramentos, que está em dia com os mandamentos de Deus e as leis da Igreja. Estar de bem com Deus não é direito adquirido. É preciso fazer a vontade de Deus, viver como Deus quer. A vida que agrada a Deus não se contabiliza por uma somatória de práticas e ritos realizados, mas a integração fé e vida. Ou seja: o sim da fé deve ser o sim da vida. A confissão dos lábios deve tornar-se ação e gestos das mãos. O “sim” e o “não” não passam pela observância externa das leis, mas através da vida. A verdade do ser humano se descobre por suas obras. É aí que ele se dá a conhecer. É pelos frutos que se conhece a árvore.

O futuro do ser humano, da família, da criação depende de como cada um responde e executa o apelo: “Filho, vai trabalhar hoje na vinha”. O cristão de verdade é reconhecido pelos seus atos e não pelas suas intenções. A salvação consiste em entrar no dinamismo do seguimento a Jesus, numa vida nova em Deus, num permanente “vestir-se da nova humanidade” (Ef 4,24), na acolhida cotidiana do Dom de Deus em nossa vida, acolhida que se concretiza no empenho pela vida dos pequenos e sofredores.

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*Hoje a Igreja celebra Santa Teresinha do Menino Jesus. Nasceu em Alençon (França) em 1873 e morreu no ano de 1897. Santa Teresinha não só descobriu que no coração da Igreja sua vocação era o amor, como também sabia que o seu coração – e o de todos nós – foi feito para amar. Nascida de família modesta e temente a Deus, seus pais (Luís e Zélia) tiveram oito filhos antes da caçula Teresa: quatro morreram com pouca idade, restando em vida as quatro irmãs da santa (Maria, Paulina, Leônia e Celina). Teresinha entrou com 15 anos no Mosteiro das Carmelitas em Lisieux, com a autorização do Papa Leão XIII. Sua vida se passou na humildade, simplicidade e confiança plena em Deus.

Todos os gestos e sacrifícios, do menor ao maior, oferecia a Deus pela salvação das almas e na intenção da Igreja. Ensinou um lindo e possível caminho de santidade: infância espiritual: colocar-se como criança nas mãos do Pai.

O mais profundo desejo do coração de Teresinha era ter sido missionária “desde a criação do mundo até a consumação dos séculos”. Sua vida nos deixou como proposta, selada na autobiografia “História de uma alma” e, como intercessora dos missionários sacerdotes e pecadores que não conheciam a Jesus, continua ainda hoje, vivendo o Céu, fazendo o bem aos da terra.

Morreu de tuberculose, com apenas 24 anos, no dia 30 de outubro de 1897. Queria tanto bem à humanidade, que dizia com frequência: “Quero passar o meu céu fazendo o bem sobre a terra”. É a padroeira principal das missões, pois era esse o desejo de seu coração: ser missionária, rezar pelos missionários.

**Estamos também iniciando o Mês das Missões. Na mensagem para o Dia Mundial das Missões deste ano de 2023, o Papa Francisco nos exorta a deixar que a Palavra dele faça “arder nosso coração”, que o “Pão partido” abra nossos olhos e que coloquemos nossos “pés a caminho”, como outrora os discípulos de Emaús que foram encantados pela presença do Senhor Ressuscitado. “Depois de abrirem os olhos, reconhecendo Jesus na fração do pão, os discípulos partiram sem demora e voltaram para Jerusalém (cf. Lc 24, 33). Esse sair apressado, para partilhar com os outros a alegria do encontro com o Senhor, mostra que “a alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Aqueles que se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria” (Exort. ap. Evangelii gaudium, 1). Não é possível encontrar verdadeiramente Jesus Ressuscitado sem ser inflamado pelo desejo de contar a todos. Por isso, o primeiro e principal recurso para a missão são aqueles que reconheceram o Cristo ressuscitado nas Escrituras e na Eucaristia, e que trazem o Seu fogo no coração e a Sua luz no olhar. Eles podem dar testemunho da vida que não morre jamais, mesmo nas situações mais difíceis e nos momentos mais sombrios” (Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial das Missões 2023).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

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