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aurelius

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A comunidade cristã nasce e vive da fé

aureliano, 18.01.19

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2º Domingo do Tempo Comum [20 de janeiro de 2019]

[Jo 2,1-11]

Estamos no Tempo Comum da liturgia da Igreja. Esse tempo é caracterizado pelo cotidiano, que não deve ser menosprezado, mas alimentado pela contemplação dos mistérios da vida de Cristo. A cor verde recorda a esperança que deve alimentar o cristão, e o pinheiro, árvore forte, recorda ao cristão que deve ser forte e perseverante em meio às intempéries da vida.

O evangelho desse 2º domingo do Tempo Comum vem como que coroar todo o mistério natalino que acabamos de celebrar. É o início da vida pública de Jesus.

“Este foi o início dos sinais de Jesus. Ele o realizou em Caná da Galileia e manifestou a sua glória, e seus discípulos creram nele”. Este versículo é vital para a interpretação deste “Sinal” realizado por Jesus O acontecimento de Caná da Galileia foi decisivo para que os discípulos acreditassem em Jesus.

Notem que João não chama de milagre, mas de sinal. O que Jesus realizou era um “sinal’ (o primeiro dos sete que João narrará ao longo do evangelho) de sua messianidade já anteriormente reconhecida: Cordeiro de Deus (Jo 1,29.36), Messias (Jo 1,41), aquele sobre quem escreveu Moisés e os profetas (Jo 1,45), Filho de Deus e Rei de Israel (Jo 1,49). É uma confirmação para os discípulos de tudo aquilo que fora dito a seu respeito.

“Seus discípulos creram nele”. Para o seguimento de Jesus era imprescindível a fé. Esta leva a agir segundo as palavras e as atitudes de Cristo. Aquele que crê empenha-se sempre na prática da justiça e da fraternidade, da concórdia e da paz, do cuidado e defesa da vida. O agir daquele que crê assume contornos novos. Quem crê assume as atitudes de Jesus: “Vivo, mas não sou mais eu, é Cristo que vive em mim. Pois a minha vida presente na carne, vivo-a pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20).

Tratando-se de Igreja, a fé é vital para que haja renovação na vida pessoal, eclesial, social e comunitária. Bento XVI, na Carta Apostólica Porta Fidei afirma: “A renovação da Igreja realiza-se também através do testemunho prestado pela vida dos crentes: de fato, os cristãos são chamados a fazer brilhar, com sua própria vida no mundo, a Palavra de verdade que o Senhor Jesus nos deixou” (nº 6).

No relato, João fala que Jesus fez um “sinal”: transformou a água em vinho numa festa de casamento. Aqui se faz necessário certo nível de abstração para que nosso espírito adentre no que o texto quer dizer. Ele não está falando de casamento, simplesmente. Este relato precisa ser interpretado à luz da intencionalidade de João ao escrever seu evangelho: o noivo é Jesus, a água e as jarras são a Lei, o vinho novo é a presença inovadora da vida e do ensinamento de Jesus, Maria é a comunidade eclesial etc. Enfim, todos os elementos deste relato estão carregados de sentido e significados para despertarem e gerarem a fé nos discípulos.

A ‘glória’ e a ‘hora’ de que fala Jesus se concretizarão mais tarde em sua morte na cruz.: “Agora o Filho do Homem é glorificado, e Deus foi glorificado por ele” (Jo 13,31). E na oração ao Pai, antes da paixão, diz: “Pai, é chegada a hora, glorifica o teu Filho, a fim de que o teu Filho te glorifique” (Jo 17,1).

A propósito da expressão “mulher”, entendemos que Jesus tencionava falar da Igreja. Maria sua mãe é ícone dessa Igreja sonhada que ele sonhou. Na cruz ele volta à expressão, cumprindo a sua “hora”: “Vendo assim sua mãe, e perto dela o discípulo que ele amava, Jesus disse à sua mãe: ‘Mulher, eis aí o teu filho’. A seguir disse ao discípulo: ‘Eis a tua mãe’” (Jo 19,26-27). Maria, a mulher atenta à falta de vinho na festa, estava presente ao pé da cruz. Ali é feita mãe dos crentes. Maria é bendita porque é a mulher que acreditou (cf. Lc 1,45).

A liturgia da Palavra de hoje nos leva a pensar e a rezar um pouco mais nossa vida de fé. Sem entrar na ‘festa de casamento’ que o Pai nos preparou em seu Filho não é possível uma dinâmica de fé que nos faça pensar e agir de modo novo, vibrante, entusiasmado, transformador.

Aquele vinho novo que deve ser ‘bebido’ por nós, significa também todos nós, Igreja de Jesus. Não podemos continuar como água engarrafada, parada, represada, sem sentido. Deixemos o Pai nos transformar em vinho novo, para levar alegria e alento a tantas pessoas desiludidas, sem voz e sem vez. Há muita gente sem alegria, sem esperança, sem sentido de vida. Se experimentamos o vinho novo, que é a própria vida de Jesus, seremos sua extensão na história.

A ordem que a Mãe de Jesus nos transmite com seu agir discreto e oportuno é clara: “Fazei tudo o que ele vos disser”.

Um pensamento do Pe. Pagola poderá ajudar-nos a entender melhor o ‘vinho novo’ trazido por Jesus e tão necessário à sociedade em que vivemos:

 “Estas bodas anônimas nas quais os esposos não têm rosto nem voz própria, é figura da antiga aliança judia. Nestas bodas falta um elemento indispensável. Falta o vinho, sinal da alegria e símbolo do amor, como cantava o Cântico dos Cânticos.            

É uma situação triste que só se transformará pelo ‘vinho’ novo trazido por Jesus. Um ‘vinho’ que só o saboreia quem crê no amor gratuito de Deus Pai e vive animado pelo espírito de verdadeira fraternidade.

Vivemos numa sociedade em que, cada vez mais, se enfraquece a raiz cristã do amor fraterno desinteressado. Com frequência o amor se reduz a uma troca mútua, prazerosa e útil, em que as pessoas buscam somente seu próprio interesse. No entanto se pensa, talvez, que é melhor amar que não amar. Porém, na prática, muitos estariam de acordo com aquele princípio anticristão de S. Freud: ‘Se amo alguém, é preciso que este o mereça por alguma razão” (Pe. José Antônio Pagola).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN