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A vigilância cristã

aureliano, 06.11.20

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32º Domingo do Tempo Comum [08 de novembro de 2020]

[Mt 25,1-13]

Os capítulos 24 e 25 de Mateus estão inseridos no Discurso Escatológico de Jesus. Eles precedem imediatamente os relatos da Paixão do Senhor. Escatologia refere-se às realidades últimas, ao fim, às coisas pelas quais o ser humano deve passar no final de sua vida, às realidades que nos ultrapassam e nos inserem no Mistério de Deus.

O tema da vigilância cristã é recorrente nos escritos do Novo Testamento. Jesus convida à constante vigilância diante do fim iminente: “Aquele dia virá como um ladrão” (cf. Mt 24,42-44). Paulo se refere a ela diversas vezes: “Não durmamos, a exemplo dos outros, mas vigiemos e sejamos sóbrios” (1Ts 5,6). Parece que o desejo de Deus é que o cristão viva em estado permanente de atalaia. Pois a qualquer momento pode ser chamado para o “encontro com o Senhor”. As primeiras comunidades cristãs esperavam a vinda do Senhor como iminente. Alguns até começaram a parar de trabalhar; mas receberam a reprimenda de Paulo: “Quem não quer trabalhar também não há de comer” (2Ts 3,10).

O capitulo 25 de Mateus traz três relatos que sugerem o fim, a vigilância diante da vinda inesperada do Senhor. O relato de hoje, intitulado “Parábola das dez virgens”, nos remete ao rito das festas de casamentos na tradição judaica. Trata-se de prover o azeite suficiente para manter a lâmpada acesa a noite toda. Que isso significa?

O óleo pode ser uma alegoria para falar do fervor espiritual, do serviço generoso ao próximo, da prática das Obras de Misericórdia: (corporais) dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, vestir os nus, dar pousada os peregrinos, assistir os enfermos, visitar os presos, enterrar os mortos; (espirituais) dar bom conselho, ensinar os ignorantes, corrigir os que erram, consolar os aflitos, perdoar as injúrias, sofrer com paciência as fraquezas do próximo, rogar a Deus pelos vivos e defuntos.

A parábola nos convida à adesão irrestrita ao Senhor enquanto peregrinamos neste mundo. Há necessidade de um esforço cotidiano de fidelidade, de vivência do evangelho, de seguimento a Jesus.

A sensatez ou insensatez, a prudência e a tolice são realidades que estão próximas de nós. É insensatez, é tolice ir à igreja, ouvir a Palavra, fazer oração, mas viver de tal maneira que essa realidade celebrada, cultuada não me diz nada, não me move à conversão, não me faz mais humano. Prudente e sensato é aquele que ouve a Palavra de Deus e procura colocá-la em sua vida: sendo mais proativo no trabalho procurando ganhar o seu dinheiro com honestidade, sendo verdadeiro e zeloso com a família e nos negócios, perdoando e compreendendo as fraquezas alheias, assumindo sua vida, seus atos com responsabilidade e verdade etc. Isso é esperar pelo Senhor com a lâmpada acesa, com provisão de óleo.

Note-se ainda que Jesus não faz juízo de valor, ou seja, ele não afirma ser pecado o fato de as virgens insensatas não se proverem de óleo suficiente. Ele fala de tolice, de imprudência, de insensatez. Interpretando a provisão de óleo como esperança, Jesus quer dizer que não ter óleo é não ter esperança. E isso é uma loucura, uma insensatez. Não é possível viver sem esperança. É a esperança que nos acalenta e sustenta nos embates e contradições da vida.

Não foi por causa de um cochilo que as “virgens insensatas” ficaram excluídas da festa. De jeito nenhum. Pois as prudentes também cochilaram. Mas ouviram aquele terrível “não vos conheço” por viverem distraídas, descomprometidas, despreocupadas com a “vinda do noivo”. O que está em jogo é a vigilância que faz com que se proveja o óleo. Não basta um mero “assistir ao culto”, cantar um hino religioso, acender uma vela, rezar um salmo, andar com a bíblia debaixo do braço ou tê-la sobre nossa mesa. A vida deve estar comprometida com a causa que Jesus defendia. A vida de Jesus deve ser o horizonte permanente inspirador de nossa vida.

Ainda um elemento desse relato que pode, a princípio, causar certa estranheza é o fato de as virgens prudentes não terem repartido o óleo com as insensatas. O evangelho não nos pede que repartamos o que temos com quem não tem? – Confrontando este texto com outros da Sagrada Escritura, podemos notar que a Graça de Deus, significada por esse óleo, ou mesmo as obras de caridade, são dons de Deus em caráter pessoal. Não nos pertencem.

Ilustram bem esse pensamento as palavras de Santo Agostinho a propósito do perdão das ofensas: “Donde vem aquilo que dás, não é dele? Se desses do que é teu, seria liberalidade; quando dás do que é dele, é devolução. ‘Que tens que não recebeste?’ (1Cor 4,7)” (Ofício das Leituras, 33º DTC). Tudo é dom do Pai!

 O Senhor distribui a cada um seus dons e graças. E cada pessoa, por sua vez, deve dar uma resposta livre, consciente, pessoal e generosa. Em outras palavras, não posso repartir aquilo que não é meu, não é minha propriedade. Em última instância, cada um é responsável em responder sim ou não ao amor de Deus. Viver vigilante deve ser decisão de cada um. A responsabilidade também é individual.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

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