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aurelius

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Corpo doado, Sangue derramado por nós

aureliano, 02.06.21

Corpus Christi - 03 de junho 2021.jpg

Santíssimo Sacramento do Corpo e Sangue de Cristo

[03 de junho de 2021]

[Mc 14, 12-16.25-26]

Essa perícope do evangelho encontra-se nos relatos de Marcos sobre a Paixão de Jesus. A expressão bíblica que ouvimos em toda celebração eucarística - “Sangue da Aliança” - remete-nos à entrega de Jesus por nós. A Aliança no Antigo Testamento foi selada com o sangue de touros e carneiros. A “Nova e Eterna Aliança” foi selada na vida de Jesus entregue ao Pai por nós. Aliança como compromisso recíproco: Deus nos ama e nos orienta no caminho. Nós nos comprometemos em corresponder ao seu amor por nós, trilhando os caminhos de seus ensinamentos. Sobretudo colocando nossos passos nos passos de Jesus.

Jesus, na celebração da Ceia Pascal, antecipa os acontecimentos pelos quais em breve passaria. O “corpo dado” significa sua presença atuante no mundo; seu “sangue derramado” significa sua morte violenta como sacrifício da Aliança (cf. Ex 24,3-8). A consequência disso para nossa vida é que, cada um de nós deve dizer: “Eis meu corpo e meu sangue”, isto é, minha vida doada para o bem da humanidade, para que todos tenham mais vida”. É a vivência da Aliança de Deus conosco. É a Eucaristia vivida.

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A Eucaristia é o memorial da morte e ressurreição de Jesus. Fazer memória significa não somente lembrar, mas celebrar e mergulhar no mistério de Cristo. É nos colocarmos dentro de toda a vida de Jesus de Nazaré, o Filho de Deus que, vindo a esse mundo, entregou sua vida por nós. Por isso, na celebração da Eucaristia nós devemos nos empenhar para fazer com que “a mente, o coração concorde com a voz, com as palavras”, no dizer de São Gregório.

Se celebramos a entrega de Cristo, não estamos fazendo um show. Então a missa não é show, promoção pessoal do padre e seja lá de quem for. Nossa atitude deve ser de compenetração, de humildade, de escuta atenta, de acolhimento, de exame de consciência. Isso nos tem recomendado insistentemente o Papa Francisco.

No decorrer da História a missa teve várias conotações. Serviu para coroar papas e reis, para agradecer vitórias de guerra, para enfeitar festas e agradar monarcas e senhores poderosos. Os músicos transformaram partes da missa em concertos belíssimos. Outros faziam da missa sua devoção particular. Ainda hoje, em vários lugares, é quase uma “exigência” para falecidos: “missa de corpo presente”, “missa de sétimo dia” etc. É claro que tem sua importância, mas ocorre que muitos pedem esse tipo de celebração para “salvar o falecido”, sem se envolver pessoalmente com a comunidade de fé. Uma espécie de superstição.

O Concílio Vaticano II recuperou o sentido originário da Eucaristia: Memorial da Morte e Ressurreição do Senhor. Quando a comunidade se reúne para celebrar a Eucaristia, ela traz sua vida, suas dores e alegrias e coloca no Coração de Cristo, para que ele, verdadeiro Celebrante, ofereça ao Pai.

Ao participarmos da Eucaristia estamos nos comprometendo a ser “um só Corpo”. A comunhão no Corpo e Sangue de Cristo nos compromete com Ele. A entrega de Cristo que celebramos pede, exige de nós o gesto de entrega, de doação, de comprometimento com Cristo pela reconstrução da História segundo os critérios do Reino de Deus. Não pode ser verdadeira “comunhão” a busca de um intimismo egoísta que não abre nossos olhos para “ver as necessidades e os sofrimentos de nossos irmãos e irmãos”, inspirando “palavras ações para confortar os desanimados e oprimidos, os doentes e marginalizados”.

Nesse dia que celebramos a solenidade do Santíssimo Sacramento do Corpo e Sangue do Senhor, somos instados a olhar para o Cristo que se doa, que se entrega, que salva, que enfrenta a morte para que tenhamos vida. Essa contemplação deve nos levar a dar mais um passo em direção a uma vida mais comprometida. Não adianta adorar o Cristo no altar e desprezá-lo no pobre. De pouco vale celebrar a Eucaristia, participar de uma adoração, e depois falar mal dos outros, negar o salário justo, sonegar impostos e dívidas, enganar os outros, ser desonesto nos negócios e no trabalho, levantar bandeiras que defendem a discriminação, a violência, o preconceito, o desrespeito, o armamento, o desmatamento.

A Eucaristia, “fonte e ápice de toda a vida cristã”, deve ocupar o centro de nossa espiritualidade, de nossa oração, de nossas escolhas e decisões. Se Cristo decidiu firmemente enfrentar a morte pela nossa salvação, também nós, seus discípulos, precisamos nos dispor a esse caminho. Pois “o discípulo não é maior do que o mestre”.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

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