Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

aurelius

aurelius

Entre aclamações e insultos

aureliano, 09.04.22

domingo de ramos.jpg

Domingo de Ramos [10 de abril de 2022]

[Lc 9,28-40 (Ramos); Lc 22,14 – 23,56 (Paixão)]

Estamos entrando na Semana Santa! Esta Semana passou a ser celebrada com a intenção de rememorar a Paixão do Senhor. Na Idade Média ela tomou corpo e fôlego, sobretudo pela tentativa de reviver o episódio da Paixão do Senhor descrito pelos evangelistas. Esta semana era até chamada de Semana Dolorosa, pelo fato de se dramatizarem os sofrimentos de Cristo.

Parece simples, mas o conhecimento desse dado histórico é interessante porque pode nos ajudar a entender o porquê das vias sacras e outras representações da Paixão do Senhor. Fiquemos então atentos para não nos perdermos nos folclores e dramatizações, mas adentrarmos misticamente no Mistério profundo da livre entrega de Jesus por nós (cf. Jo,10,18), manifestação do amor do Pai, e nos atermos ao Mistério fundante de nossa fé cristã, a Ressurreição do Senhor, vitorioso sobre o pecado e a morte.

RAMOS

Este domingo se chama, na verdade, Domingo de Ramos da Paixão do Senhor. Jesus entra triunfante em Jerusalém para sofrer a Paixão. Portanto, celebramos dois acontecimentos: a aclamação de Jesus como o “Bendito que vem em nome do Senhor”, e a contemplação de sua Paixão. É o único domingo do ano em que a Igreja celebra a Paixão propriamente dita de Jesus, proclamando no Evangelho os relatos da Paixão.

Jesus pediu aos discípulos para buscar um jumentinho. Deviam dizer aos interrogantes: “O Senhor precisa dele”. O Senhor quer também precisar de nós. Somos os “jumentinhos” do Senhor. Nós temos nos colocado à disposição dele? Ou costumamos “empacar”? – Refletindo sob outro aspecto: fazemos dos outros nossos jumentos, nossos escravos? Há falta de respeito, de fraternidade? Levo junto os fardos da vida ou jogo o peso sobre os ombros dos outros?

A PAIXÃO DO SENHOR

No Crucificado vemos, não somente um inocente condenado, mas nele, nós cristãos, contemplamos todas as vítimas do preconceito, da maldade e da injustiça de todos os tempos. Na cruz com Jesus estão as vítimas da fome, as crianças abandonadas e exploradas, as mulheres maltratadas, os explorados à custa de nosso bem-estar, os esquecidos por nossa Igreja, os espoliados pela cultura da corrupção descarada, os espancados e mortos pela truculência de alguns que, por terem uma arma na mão ou o poder de decidir, se julgam donos da vida alheia.

Esse Deus crucificado não é o Deus controlador, que está em busca de honra e glória. Não! É o Deus paciente e humilde que respeita a liberdade de seus filhos e lhes quer sempre o bem, a felicidade e a alegria. Não é um Deus vingativo, justiceiro. Mas um Deus que manifesta sempre o perdão e a misericórdia.

Nós cristãos continuamos a celebrar o Deus crucificado porque vemos nele o Deus “louco” de amor por todos nós. Ele é a força que sustenta nossa esperança e nossa luta pela justiça e pela paz. Acreditamos que Deus não passa ao largo de nossas lágrimas, sofrimentos, lutas e fracassos. Ele está no calvário de nossa existência. A cruz erguida entre as nossas cruzes nos lembra que Deus sofre conosco.

SEMANA SANTA

Nesta semana a Igreja nos convida a contemplar Jesus que oferece sua vida como dom ao Pai. Ele não vai à cruz porque gosta de sofrer ou porque quer morrer. Jesus não é suicida nem sado-masoquista! A paixão e sofrimento por que passa são consequências de sua fidelidade ao Pai. Seu amor e paixão pelo bem da humanidade o levam à cruz. A contemplação de Cristo crucificado deveria nos levar a agradecer ao Pai por nos ter dado Jesus como Salvador. O Pai olha para seu Filho, vítima da maldade humana, como a olhar para todos aqueles que são injustiçados, vitimados por uma sociedade que sacrifica os jovens, os idosos, os doentes, as mulheres e as crianças, todos vítimas indefesas dos detentores do poder político e econômico.

Jesus continua passando pelas nossas ruas e praças. Por vezes aplaudimos Jesus em uma celebração ou culto, depois o insultamos no rosto do desvalido! Isso é muito grave! Precisamos de um sério exame de consciência nesta Semana Santa!

Portanto, a celebração da entrada de Jesus em Jerusalém deve valorizar não tanto os ramos, mas o mistério expresso pela procissão que proclama a realeza messiânica de Cristo.

CAMPANHA DA FRATERNIDADE

Hoje é dia da coleta nacional da Campanha da Fraternidade! Trago aqui uma palavra do Papa Francisco que nos ajuda na sintonia e comunhão com nossa Igreja do Brasil.

“É nocivo e ideológico o erro das pessoas que vivem suspeitando do compromisso social dos outros, considerando-o algo de superficial, mundano, secularizado, imanentista, comunista, populista; ou então relativizam-no, como se houvesse outras coisas mais importantes, como se interessasse apenas uma determinada ética ou um arrazoado que eles defendem. A defesa do inocente nascituro, por exemplo, deve ser clara, firme e apaixonada, porque neste caso está em jogo a dignidade da vida humana, sempre sagrada, e exige-o o amor por toda pessoa, independentemente do seu desenvolvimento. Mas igualmente sagrada é a vida dos pobres que já nasceram e se debatem na miséria, no abandono, na exclusão, no tráfico de pessoas, na eutanásia encoberta de doentes e idosos privados de cuidados, nas novas formas de escravatura e em todas as formas de descarte. Não podemos propor um ideal de santidade que ignore a injustiça deste mundo,  onde alguns festejam, gastam folgadamente e reduzem a sua vida às novidades do consumo, ao mesmo tempo que outros se limitam a olhar de fora enquanto a sua vida passa e termina miseravelmente(Gaudete et Exsultate, n.101).

Seu gesto solidário de cristão católico, demonstra sua participação efetiva nas ações da Igreja e de outras organizações sociais, a quem parte dessa coleta poderá chegar, beneficiando os excluídos do “bolo” que deve ser de todos.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN