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aurelius

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Imaculada pela graça do Pai

aureliano, 05.12.22

Imaculada Conceição Pajuçara 2022.jpg

Imaculada Conceição de Nossa Senhora [08 de dezembro de 2022]

[Lc 1,26-38]

O dogma da Imaculada Conceição de Nossa Senhora foi proclamado por Pio IX, em 1854. Porém, bem antes de ser proclamada Imaculada pela Igreja, Maria, Mãe de Jesus, já era cultuada como aquela na qual jamais morou o pecado, o egoísmo, o fechamento em si mesma, o non serviam (não servirei) de Satanás (cf. Mt 4,10-11). A comunidade cristã sempre acreditou que Maria é toda santa, toda de Deus.

Há alguns mal-entendidos acerca de Maria. Há gente que julga Maria tão santa a ponto de acreditar que a Mãe de Jesus não tinha dúvidas, crises, dificuldades. Como se para ela tudo fosse fácil. Como se vivesse uma vida mágica, cercada de anjos que não deixavam acontecer-lhe nada de humano. Quando queria alguma coisa era só ‘estalar o dedo’, fazer ‘abracadabra’. E daí as perguntas: Se Maria era toda santa, sem pecado, sua vida teve algum mérito? Foi mais fácil para ela servir a Deus do que para nós, pobres pecadores? Maria sentia essas forças negativas, desejos perversos que nos assaltam?

Bem. É preciso entender o que significa para a Igreja reconhecer Maria como Imaculada. Precisamos ter em conta de que nós, cristãos, fomos marcados pela Graça salvadora de Cristo. A segunda leitura da liturgia de hoje diz: “Antes da criação do mundo, Deus nos escolheu em Cristo, para sermos, diante dele, santos e imaculados” (Ef 1,4). Toda pessoa já nasce com essa “benção” de Deus. Significa que o Pai nos criou em Cristo para a felicidade.

Porém, ninguém nasce pronto. A gente sabe que toda pessoa experimenta, em maior ou menor grau, situações de desencontro desde o seio materno: amor e desamor, acolhida e rejeição, afeto e violência. Mas a fé nos diz que somos fruto do amor generoso do Pai e entramos num projeto de vida e de alegria, de bondade, de acolhida. Experimentamos, contudo, que há algo errado na história que não nos permite realizar plenamente esse projeto do Pai. É o “Mistério do Mal” (Mysterium iniquitatis - 2Ts 2,7). Está espalhado no mundo e dentro de toda pessoa. A Tradição deu-lhe o nome de “Pecado Original”. Ou, com mais propriedade: “pecado original originado”.

Porém, o Filho de Deus veio trazer para a humanidade a “Graça Original” (cf. Rm 3,24). Ela nos recria e salva, pois é mais forte do que o pecado original. E a fé da Igreja nos diz que Maria, foi preservada desse “Pecado Original”. Ou seja, o Pai, em atenção aos méritos da salvação trazida por Cristo, preservou sua Mãe deste Mal. Ele quis preparar para si um seio, uma vida que não fosse contaminada pelo mal, pelo pecado. Assim ela nasceu mais integrada do que nós, com mais capacidade de ser livre e de acolher a proposta do Pai. Esse fato, porém, não lhe tira o esforço de ter que peregrinar na fé, de passar por dificuldades e crises, como todo ser humano. Mas, diferentemente de nós, Maria trilha um caminho sempre positivo, sem se desviar do caminho de Deus. Esse ‘privilégio’ não faz de Maria uma pessoa orgulhosa, vaidosa, arrogante. De jeito nenhum. Pelo contrário: livre interiormente, ela tem mais condições de desenvolver as qualidades humanas recebidas de Deus. Coloca-se mais aberta, mais inteira ao que o Senhor quer dela. Coloca-se como serva: “Eis aqui a serva do Senhor”. E reconhece que tudo que acontece em sua vida é dom do Pai: “O Senhor fez em mim maravilhas” (Lc 1,49).

A solenidade de hoje nos diz que Maria foi preservada da culpa original em vista dos méritos do Filho de Deus que ela iria trazer em seu seio. Foi fiel ao projeto do Pai. Correspondeu generosamente ao dom recebido do Pai. Também nós, pecadores, marcados pelo egoísmo e desejo de poder, queremos corresponder ao dom da Graça batismal que arrancou de nós as raízes do mal, mas não tirou de nós a tendência para o pecado: concupiscência. Se mesmo Maria teve de se esforçar para ser fiel ao projeto amoroso do Pai, muito mais nós devemos nos esforçar todos os dias para fazermos um caminho de fidelidade ao Pai e ao evangelho que seu Filho nos deixou.

“Obrigado, Senhor, por nos teres dado Maria Imaculada. Olhando para ela, sentimos a alegria de ver uma da nossa raça, humana e limitada como nós, mas transbordante de Graça. Olha, Senhor, pela humanidade manchada pela violência, pelo consumismo, pela pobreza, pela falta de sentido para viver. Dá-nos a graça de integrar os nossos desejos, pulsões, tendências e afetos. Liberta nossa liberdade. Acolhe a cada um de nós, santos e pecadores, e faze-nos humildes servidores da Boa Nova, como Maria. Amém.” (Afonso Murad, em Com Maria, rumo ao Novo Milênio).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN