Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

aurelius

aurelius

O banquete da alegria e as consequências da recusa

aureliano, 09.10.20

28º Domingo do TC - A - 11 de outubro.jpg

28º Domingo do Tempo Comum [11 de outubro de 2020]

[Mt 22,1-14]

Estamos na terceira parábola em que Jesus manifesta a rejeição de sua pessoa como Graça libertadora e salvadora para a humanidade. Não se pode perder de vista que Jesus contou essas parábolas (dos dois filhos, dos vinhateiros homicidas e esta, do banquete recusado) para os sumos sacerdotes e anciãos. Eles eram os chefes do povo, ocupavam postos de comando no sinédrio, órgão de direção do Judaísmo, sediado em Jerusalém.

Temos, no relato de hoje, dois elementos significativos: 1º. Os primeiros convidados rejeitaram o convite. Foram substituídos por outros, chamados de toda parte. 2º. É preciso observar as condições para participar do banquete. Aquele que não traz o traje de festa é eliminado.

Em primeiro lugar, é bom considerar que os primeiros convidados para a festa que o Pai preparou era o povo de Israel. Mas eles não se importaram. Julgaram-se satisfeitos com o que tinham. Além disso, maltrataram os mensageiros do rei, isto é, os profetas e os apóstolos. Por isso foram convidados todos os que quisessem vir. O banquete estava aberto para todas as pessoas. Mesmo assim, porém, era preciso trajar a veste nupcial.

Os primeiros convidados são todos aqueles que foram batizados e que deveriam viver plenamente seu batismo. Todos são convocados a se fazerem ponte a partir da fonte do banquete da eucaristia. A Igreja é a Assembleia dos convocados. A questão é saber quem está acolhendo o pedido. Pode ocorrer de cada um se preocupar com “suas coisas”: o negócio, o jogo, o shopping, o bar, o sítio, o filme, o dinheiro, o gozo, a reza descomprometida etc. E o convite de Deus? Podemos perceber que recusam o convite não apenas os chefes de Israel, mas todos os que são incapazes de sair de si e de ir ao encontro dos outros. Uma fé vivida sem comprometimento com a causa do Evangelho é uma recusa disfarçada ao convite ao banquete.

A parábola deixa claro que o Pai oferece o banquete para todos. Esse banquete é a vida nova que seu Filho veio trazer. Todos são convidados. Alguns inventam milhões de desculpas. Mas o convite está feito. Esse fato toca nossa vida no que ela tem de mais profundo: nossa liberdade diante do bem e do mal, da abertura e do fechamento, do sim e do não, do sair de si e do autocentramento. Em última instância, somos responsáveis pelas escolhas que fazemos.

Ainda mais: mesmo sabendo que seu convite poderia ser recusado, o Pai insiste. Se não vêm estes, ele convida aqueles. Deus quer que todos participem de sua glória, de sua alegria, de sua felicidade. Ele não criou o mundo, as coisas, o homem como um fim em si mesmo, mas para que tudo possa ser compartilhado, repartido, numa perfeita convivialidade e comensalidade. Por isso não podemos aceitar inertes que os bens da criação sejam dominados, vendidos, usurpados, espoliados, restritos a alguns poucos. Não! Deus não quer isso. A recusa ao convite ao banquete é o grande pecado que leva a pessoa viver em torno de si mesma e de suas coisas. O egoísmo que assassina, que rouba, que corrompe, que gera fome, que produz guerra, que dissemina o ódio, que destrói, que faz derramar lágrimas e sangue.

Em segundo lugar é preciso considerar as condições para participar do banquete. É o traje exigido para entrar na festa. Quem não se decide a assumir a fé em Jesus Cristo com as consequências que dela advêm não pode entrar para o banquete. A veste de que fala o texto é a justiça do Reino, o amor fraterno, o compromisso com os pequeninos do Reino. Não basta aceitar o convite, ou seja, dizer que acredita em Jesus Cristo, participar de umas tantas pastorais ou movimentos, fazer essa e aquela oração, se não se “veste a camisa”, se não se assume como próprio o compromisso de continuar a missão de Jesus: sendo justo, verdadeiro, comprometido, terno, afetuoso, compassivo, tolerante, manso, generoso, desapegado etc. Em outras palavras: não basta fazer o bem; é preciso ser bom.

Quanto ao juízo condenatório do texto: “Amarrai os pés e as mãos desse homem e jogai-o fora, na escuridão! Aí haverá choro e ranger de dentes”, é um gênero literário dito escatológico. É um recurso de linguagem, comum em alguns escritos do Primeiro e do Segundo Testamentos, que pretende mostrar que se deve assumir com seriedade e responsabilidade a fé em Deus. Viver a vida cristã coerentemente. À primeira vista pode causar medo, e mesmo, mostrar um Deus um tanto violento, ou mesmo vingativo. Sabemos que esse não é o Deus que Jesus revelou. A parábola não tem como foco essa mensagem. O que importa no texto é não se prender a esse tipo de literatura, mas lançar o olhar sobre a alegria de participar do banquete que o Senhor preparou para todas as pessoas e se comprometer missionariamente com o convite que Ele faz para que os que estão de fora entrem para a festa. Quer salvar a todos, mas tem um zelo preferencial pelos pequenos e marginalizados.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

1 comentário

Comentar post