Oração Jejum e Esmola para a conversão

Quarta-feira de Cinzas [14 de fevereiro de 2018]
[Mt 6,1-6.16-18]
Não nos é dado saber com certeza data e local precisos do surgimento da Quaresma na vida litúrgica da Igreja. O que sabemos é que ela foi se formando progressivamente. Estava entranhada na consciência dos cristãos a necessidade de dedicar um tempo em preparação à celebração da Páscoa do Senhor. As primeiras alusões a um período pré-pascal estão registradas lá pelo século IV. Consta também que, na Quinta-Feira Santa, acontecia a reconciliação dos pecadores; e que na Vigília Pascal se realizavam os batizados dos catecúmenos (aqueles que estavam preparados para o batismo). Esses dois costumes, vividos desde a antiguidade da fé cristã, vem mostrar que esse tempo nos remete à renovação das promessas batismais ou preparação para o batismo e a práticas penitenciais que nos levem a uma conversão profunda do coração.
A propósito desse elemento da história, o Concílio Vaticano II recomenda: “Tanto na liturgia quanto na catequese litúrgica, esclareça-se melhor a dupla índole quaresmal, que, principalmente pela lembrança ou preparação do batismo e pela penitência, fazendo os fiéis ouvirem com mais frequência a palavra de Deus e entregarem-se à oração, os dispõe à celebração do Mistério Pascal. Por isso, utilizem-se com mais abundância os elementos batismais próprios da liturgia quaresmal; segundo as circunstâncias, restaurem-se certos elementos da tradição anterior. Diga-se o mesmo dos elementos penitenciais” (SC 109).
É bom entender que a Quaresma não é um tempo de práticas penitenciais ultrapassadas, mas é um tempo de experiência de um Deus que está vivo no nosso meio e quer que todos vivam: “Eu vim para que todos tenham vida” (Jo 10,10). Um tempo em que somos chamados a participar dos sofrimentos de Cristo para participarmos também de sua glória (cf. Rm 8,17). O acento não está, portanto, nas práticas de penitência, mas na graça santificadora do Senhor que nos convida todos os dias à conversão.
Por possuir um caráter fundamentalmente batismal, a Quaresma nos convida a entrar numa dinâmica de permanente conversão para nos mantermos no caminho encetado pelo batismo. Mortos com Cristo, ressuscitamos com ele para uma vida nova. Quem ressuscitou com Cristo busca as “coisas do alto”. Compromete-se com a vida de todas as pessoas, particularmente com aqueles que não contam, que não são visíveis aos olhos da sociedade, os “sobrantes”.
As três práticas propostas pela Igreja, com raiz na tradição judaica são a oração, o jejum e a esmola. Elas nos ajudam no processo de conversão.
O JEJUM quer nos ajudar a deixar de lado o consumismo proposto por uma sociedade governada por ricos e poderosos que querem ganhar sempre mais à custa dos pobres. Querem arrancar o pouco que o pobre tem. Neste tempo é bom a gente aprender a viver com pouco, a reaproveitar as coisas, a levar uma vida mais simples, mais sóbria. Não se trata de passar necessidade ou fome, pois não é isso que Deus quer. Mas a gente pode viver de modo mais simples sem entrar no modismo da sociedade consumista que mata e exclui. Mais do que jejuar, talvez fosse muito proveitoso evitar o desperdício, cuidar melhor de jogar o lixo na lixeira, manter limpo os espaços públicos; cuidar das fontes e rios; usar a água tratada com mais consciência, como dom do Pai; reutilizar lixo e água; tomar conhecimento dos biomas de nosso País e cuidar deles; preocupar-se e solidarizar-se com quem passa necessidade; superar toda forma de violência; ser mais terno e comedido nas palavras; evitar ofender, maldizer; ser mais paciente no trânsito; tomar as dores e defender aqueles que sofrem violência etc. Trata-se de um ‘esvaziar-se’ para encher-se dos sentimentos de Jesus; encher-se da bondade de Deus.
A ESMOLA quer despertar-nos para a solidariedade com os mais pobres. Uma conversão que nos torne capazes de partilhar com os outros os bens e os dons que temos. Que nos mobilize pelas causas justas, em favor dos menores, sem voz nem vez. É a luta contra a ganância que faz tantas vítimas em nosso meio. A esmola nos tira de nós mesmos e nos remete em direção dos irmãos pelo gesto da partilha solidária. Não se trata apenas de darmos algo de nós, mas darmo-nos a nós mesmos. A visita a um doente, idoso, pobre é um bom gesto que ajuda no processo de conversão. É a oferta do tempo que temos para nós e que doamos a alguém.
A ORAÇÃO nos coloca numa profunda comunhão com o Pai. Sem uma vida orientada pela oração não podemos construir um mundo de acordo com o sonho de Deus. E a oração verdadeira é aquela que nos coloca em sintonia com o querer de Deus, que nos move em direção aos pobres e sofredores. Ele veio “para que todos tenham vida”. Aproveitar esse tempo para reforçar a leitura orante da bíblia. Rezar todos os dias algum texto bíblico! Oramos não porque Deus desconhece nossas necessidades, mas porque queremos nos entregar a Ele e descobrir a melhor forma de servi-lo nos irmãos. A Leitura Orante ilumina nosso caminho, nossa vida. Oramos para nos colocarmos na presença de Deus gratuitamente, generosamente. Talvez fosse bom redistribuir o tempo despendido às redes sociais: não deixar que os bate-papos da internet roubem o tempo da oração.
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A Campanha da Fraternidade desse ano tem como tema a “Fraternidade e a superação da violência”, e o lema é: “Vós sois todos irmãos”. Vou reproduzir o relato de uma “experiência de superação” que está no Texto-Base da CF. Experiência inspiradora, iluminadora e questionadora.
“Voluntário na Fundação Casa, em Franco da Rocha/SP, lá faço visitas periódicas. Em uma dessas, observando um rosto entristecido, aproximei-me e, como de costume, perguntei àquele jovem qual era o seu nome e de qual cidade era. Ao ouvir de I.R.P. que estava sem visita e que seu pai não podia vir visitá-lo, imaginei de onde vinha sua tristeza e dor, então disse a ele: ‘Confie em Deus, as coisas vão melhorar’.
Ao final daquela visita, procurei a equipe técnica para ser o facilitador da visita da família daquele jovem e, assim, fui até uma cidade do interior para buscar o pai e a irmã de I.R.P. Ao entrar naquela casa com poucos móveis e sem luz, pois os fios e instalações elétricas haviam sido arrancados por I.R.P. e seu pai, para fazerem uso de crack, senti estar mais próximo de minha missão e, a partir daquela visita, meu vínculo com aquele jovem cresceu muito.
Naquela ocasião, a Pastoral do Menor havia lançado a campanha Dê oportunidade, e ao sentir que meu coração ‘ardia’, pensei: ‘esta é a minha oportunidade’. Então procurei novamente a equipe técnica e, mesmo acreditando ser loucura um jovem privado de liberdade sair para trabalhar e ao final do dia retornar ao centro de internação, fiz a proposta para I.R.P. trabalhar comigo em uma oficina mecânica de minha propriedade.
O desafio não era só meu, era também da Fundação, do judiciário e da minha família, já que moro onde trabalho. Eu ainda ficava pensando ‘naqueles’ jornalistas que comumente usam o chavão: ‘tá com dó, leva pra casa’.
Tudo aprovado, então me preparo para receber o novo funcionário em seu primeiro dia de trabalho. Ele chegou no transporte da Fundação e acompanhado por um funcionário. Para meu espanto estava algemado, símbolo bastante negativo para um recomeço, mas me mantive firme. Na verdade, minhas mãos tremiam um pouco e as deles tremiam muito, enquanto as algemas eram tiradas. Ele disse que estava emocionado e nervoso e, sinceramente, eu também estava.
Entreguei o uniforme de trabalho a ele e mostrei a oficina. Quando o vi de uniforme e trabalhando, tive um sentimento indescritível. A essa altura, eu já conhecia toda a contextualização do I.R.P. E sabia o quanto ele tinha sido agredido para também se tornar agressor.
Depois de algumas conversas com a equipe técnica e com o judiciário, o desafio das algemas foi superado e I.R.P. deixou de vir trabalhar algemado. As conquistas eram gradativas e com elas I.R.P. ia adquirindo autonomia. Assim, ele passou a buscar peças, acompanhar serviços e pagar contas.
Ao completar a maioridade conclui-se o período de internação da Fundação, contudo, achamos que ele deveria ficar mais um período trabalhando e estudando. Por essa razão, com a ajuda de algumas pessoas, alugamos e conseguimos a mobília para uma casa pequena e assim ele pode permanecer por mais um tempo conosco. Hoje, I.R.P. vive em sua cidade, está casado, trabalhando e estudando”. - Sandro Cardoso – Pastoral do Menor, Diocese de Bragança Paulista. (Texto-Base, n. 2.2).
Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN
