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aurelius

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Papai ajudou a promover a paz

aureliano, 19.11.22

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Neste dia 20 de novembro, se vivo estivesse, faria 92 anos. Mas não estou aqui para lamentar a morte de meu pai. Não tenho motivos para isso. José Lopes de Lima foi uma grande bênção de Deus para todos nós. Sendo assim não me resta senão agradecer eternamente a Deus pelo dom que foi a vida do papai.

“Alegrei-me quando me disseram: ‘Vamos à casa do Senhor’. Nossos passos já se detêm às tuas portas, Jerusalém”. O romeiro que caminha para a Cidade Santa, Jerusalém, sente chegar à meta de sua viagem física e espiritual. A “cidade da paz” é sua meta e destino. O encontro com o Senhor na Cidade Santa, no Templo, enche o coração do israelita de alegria e de vigor para retornar ao seu cotidiano.

Um salmo recheado de desejo de paz. O shalom hebraico refere-se a uma paz que traz dentro de si um sentido mais profundo do que simplesmente um sentimento interior ou uma saudação.

Shalom significa comunhão com o Criador, inteireza da vida, segurança e confiança em Deus, sentimento de harmonia com os demais irmãos e irmãs e com a natureza. Quer significar uma realidade que engloba a vida e suas circunstâncias.

Quando Jesus ressuscitado se manifesta aos seus discípulos, a primeira palavra que lhes diz é shalom: “A paz esteja convosco” (Jo 20,19). Essa saudação parece querer manifestar o grande desejo de Jesus que seus discípulos vivam em paz. Por isso lhes dá esse primeiro dom a ressurreição: o shalom.

Essa tentativa de fundamentação da palavra shalom que aparece muitas vezes na Sagrada Escritura, inclusive na recomendação sobre como Aarão deveria abençoar o povo: “O Senhor mostre para ti a sua face e te conceda a paz” (Nm 6,26), é para reafirmar que meu pai foi um homem de paz, promotor da paz, um “juiz de paz”. Por várias vezes ele dizia: “Minha felicidade é ver meus onze filhos em paz uns com os outros”. Portanto ele nos ensinou que devemos buscar a paz, viver em paz, promover a paz, ir ao seu encalço enquanto ela se deixa encontrar.

Houve um período da vida que meu pai viveu conflitos bastante dolorosos com pessoas de seu entorno. Teve certamente seus arroubos de ira e de fúria, o que não lhe era comum. Mas passada a emoção, buscava a paz e a concórdia. Nunca soube que ele tivesse inimigos. Certamente havia algum desafeto por discordar de suas palavras e atitudes firmes e contundentes em relação à fé e aos costumes. Mas nada que desabonasse seu caráter e sua honra de homem pacífico, honesto, de fé e trabalhador.

Ao trazer esse tema em homenagem aos 92 anos de meu pai, tenho o intento de convocar para a paz. Deixarmos para trás o clima de ódio e de vingança instalado no nosso País e no mundo. Busquemos o diálogo, o respeito, a luta pelas causas nobres da vida: meio ambiente, pão em todas as mesas, combate à miséria e à fome, fortalecimento do SUS para mais saúde, tolerância ao diferente, empenho no diálogo e combate a todo autoritarismo, transparência nas contas públicas e privadas, cuidado e respeito aos idosos e crianças.

São grandes temas que devem iluminar e fortalecer nossas relações particulares na família, no trabalho, no lazer. Ainda me lembro de quando o papai, com bastante frequência, chegava a casa, já à noitinha, cansado do trabalho, querendo comer alguma coisa e descansar... Porém só encontrava o fogão a lenha frio e as panelas vazias. Saía o pobre homem a procurar alguma lenha no terreiro, acender o fogo e preparar alguma coisa para comer. Comida pronta, o primeiro prato era para a mamãe. Levava ao quarto: “Aqui, Neguinha do Zezé, a jantinha pra você”. Às vezes a mamãe se mostrava agradecida. Mas na maioria das vezes nem agradecia. Não por ser ingrata, mas porque a saúde mental nem sempre lhe permitia esses gestos e palavras. Papai continuava o mesmo. Isso não o abalava. Era um homem místico.

A construção da paz é exigente. Ela é fruto da justiça (Is 32,17). E a justiça de Deus é misericordiosa, transbordante, muito além de nossas mesquinhas medidas. A saída de si, a superação dos egoísmos, a busca do perdão, a reconciliação, a tolerância são atitudes imprescindíveis na construção de um mundo de paz.

Meu saudoso pai, trago viva na memória sua presença, muitas vezes silente, pensativa, concentrada. Por vezes alegre, vibrante, entusiasmada, eufórica. Lembro-me sempre de sua presença orante, séria, compenetrada. Totalmente dedicado à nossa família e às demais pessoas que faziam parte de seu convívio ou solicitavam seus préstimos.

Não quero me esquecer de que o senhor nos ensinou a respeitar, a ajudar, a ter responsabilidade, a caminhar na presença de Deus, a visitar o Santíssimo Sacramento, a amar a Igreja, a honrar Nossa Senhora, a ler e ouvir a Palavra de Deus, a fazer em tudo a vontade de Deus, a dizer sempre a verdade, a ser honestos, a amar e ajudar os pobres, a não defraudar nem extorquir ninguém, a preferir ficar no prejuízo a prejudicar alguém, a abrir as portas da casa aos pobres e sofredores. Foi isso e muito mais que o senhor nos ensinou. É isso que quero guardar no coração. É isso que venho agradecer ao Pai do céu que nos brindou com um pai tão bom aqui na terra!

Certamente o senhor cantou aquele salmo no momento de sua partida para a Casa do Pai: “Alegrei-me quando me disseram: ‘Vamos à casa do Senhor!’". Porque, pai, o senhor cumpriu sua missão nesse mundo.

Pajuçara/Maracanaú/CE, 19 de novembro de 2022

Às vésperas da Solenidade de Cristo Rei do Universo.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

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