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aurelius

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Reino de Justiça, de Verdade e de Paz

aureliano, 23.11.18

Jesus Cristo Rei - 25 de novembro.jpg

Cristo, Rei do Universo [25 de novembro de 2018]

[Jo 18,33-37]

O contexto do relato evangélico deste domingo é o da Paixão. Jesus está diante de Pilatos, representante político do Imperador romano. Um reino deste mundo que se confronta com um Reino que “não é deste mundo”.

É importante distinguir e entender a expressão de Jesus: “O meu reino não é deste mundo”. Pode dar a impressão de que Jesus está contrapondo o mundo criado por Deus, este lugar maravilhoso onde moramos, com um reino que virá depois, distante, para além da morte.

Na verdade o Reino de Deus já está aqui, neste mundo. ‘Jam et nondum’ (já e ainda não). Jesus já instaurou o Reino que o Pai lhe confiou com sua vida, morte e ressurreição. Quando vemos pessoas que se doam, que empenham suas vidas pela fraternidade e pela justiça como Ir. Doroth, como Dom Casaldáliga, como Santo Oscar Romero, como Ir. Dulce, como Pe. Júlio Maria, como Dom Luciano e Dom Helder Câmara e tantas outras, notamos aí a manifestação do Reino de Deus. A defesa da vida plena para todos!

Por outro lado, percebemos que o Reino ainda não se manifesta quando o pecado prevalece nas situações como a do mensalão, do petrolão, do fascismo, do autoritarismo, do desrespeito às minorías, do preconceito, das propinas sem conta e todas as situações de oportunismos agregadas a fatos como estes. Quando os negros são discriminados e as comunidades quilombolas ameaçadas; quando os índios são dizimados e suas terras invadidas; quando a Igreja pactua com os poderosos e influentes perversos da sociedade; quando se mente, se engana, se mata, se rouba em nome de Deus; quando a fome dizima pessoas, comunidades e famílias. Quando a morte ceifa a vida de tantos jovens envolvidos no tráfico de drogas e de seres humanos; quando a violência campeia em nossas ruas, praças e famílias.

O Reino de Deus se manisfesta na vivência da verdade proclamada por Jesus: “Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz”. Essa afirmação de Jesus define seu caminho profético: quer sempre viver a verdade, ainda que isso lhe custe a vida. Qual verdade? A verdade de um Deus que quer um mundo mais humano para todos.

Há um versículo de João muito proclamado no meio neopentecostal e que considero muito importante, mas muito mal interpretado no meu modo de ver: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8,32). A dificuldade está em que se esquece do versículo 31: “Se permanecerdes na minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos”. Ora, para ser livre pela verdade do evangelho é preciso “permanecer” e “ser discípulo”. Há um pessoalzinho que vive repetindo de boca cheia: “Conhecereis a verdade…”, mas cuja vida está muito longe do evangelho e, consquentemente, do discipulado. Costumam ser muito mais amigos do dinheiro e do poder do que de Jesus. Não sei que liberdade é essa! Comportam-se como escravos do poder e do dinheiro!

Quando Jesus dicorre sobre a verdade ele fala com autoridade. Sem autoritarismos: ao contrário do que se experimenta nos meios em que se visam ao poder, ao sucesso e à fama. Sem dogmatismos, ao contrario do que acontece em muitas de nossas comunidades religiosas. Não impõe a verdade, pois não se considera seu  guardião, mas testemunha. Ou seja, sua vida manifesta a verdade de Deus. Ele é a verdade: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Jesus converte-se assim em “voz dos sem voz, e voz contra os que têm demasiada voz” (Jon Sobrino).

Esconder a verdade é o maior pressuposto de quem vive em função dos poderes financeiros e políticos que dominam o mundo. A verdade não pode aparecer. Mentem de cara limpa. Matam, destroem, escravizam para que a verdade não se manifeste. Aqui, sim, cabe não nos esquecermos das palavras do próprio Jesus: “A verdade vos libertará” (Jo 8,32). A mentira aprisiona, escraviza. Somente uma vida vivida na verdade torna livre o ser humano.

Queremos, pois, fazer um caminho de verdade, de liberdade, de reconhecimento do Reino de Deus que se manifesta nas nossas atitudes diárias. Isso implica colocar-nos “diante de Pilatos”, ou seja, faz-nos confrontrar com um poder de mentira e de morte, com um reino que visa à dominação deste mundo. Em outras palavras, não ser deste mundo, ser da verdade nos configura a Cristo crucificado e ressuscitado.

Para refletir: Permito que Jesus exerça sua realeza na minha vida, na vida de minha comunidade, através da abertura à sua Palavra, à sua vontade, ao seu perdão, ao seu amor, e pela solidariedade com tantos que sofrem e procuram um sentido para a sua vida?

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*Dia dos cristãos leigos e leigas

Ao establecer o ano de 2018 como o Ano Nacional do Laicato, a CNBB  teve a intenção de despertar maior consciência do serviço e ministerio dos cristãos leigos e leigas na Igreja e na sociedade. Será que conseguimos alargar horizontes? Vamos conferir:

  • Estimular a presença e a atuação dos cristãos leigos e leigas, “verdadeiros sujeitos eclesiais” (DAp. n. 497), como “sal, luz e fermento” na Igreja e na sociedade.
  • Criar programas de formação de ministérios leigos de coordenação e animação de comunidades, pastorais e movimentos.
  • Fortalecer a articulação das redes de comunidades (Doc. 100 da CNBB).
  • Promover mecanismos de participação popular para o fortalecimento do controle social e da gestão participativa (Conselhos de Direitos, Grupos de Acompanhamento ao Legislativo, Iniciativas Populares, Audiências, Referendos, Plebiscitos, entre outros).

Rezemos com a Igreja: Nós vos pedimos, ó Pai, que os batizados atuem como sal da terra e luz do mundo: na família, no trabalho, na política, e na economia, nas ciências e nas artes, na educação, na cultura e nos meios de comunicação; na cidade, no campo e em todo o planeta, nossa “casa comum”. Amém.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN