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aurelius

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O culto deve brotar do bom coração

aureliano, 27.08.21

22º Domingo do TC - B - 29 de agosto.jpg

22º Domingo do Tempo Comum [29 de agosto de 2021]

   [Mc 7,1-8.14-15.21-23]

Neste domingo estamos de volta ao evangelho de Marcos.  No relato de hoje vemos um confronto entre Jesus e os escribas e fariseus. Aqueles (os escribas), provenientes de Jerusalém, eram os entendidos da Escritura; estes (os fariseus), uma espécie de irmandade que se caracterizava pela observância rigorosa da Lei. Jesus afirma que aquelas tradições que guardavam e exigiam que se guardassem não eram divinas, mas humanas, inventadas pelos que estão longe de Deus, embora se julguem próximos dele. O contexto é da discussão entre cristãos provindos do judaísmo que insistiam na necessidade da observância da Lei de Moisés e os cristãos provindos do helenismo que não tinham o costume de tais práticas. Marcos quer dizer que, com a presença de Jesus, o que voga agora é a Lei do Espírito: “É para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5,1).

Os povos antigos e, dentre estes, os judeus, tinham muita dificuldade de lidar com as situações de doenças graves e de morte, pois eram realidades que eles não podiam compreender nem dominar. Por isso criavam uma série de leis e normas que os distanciavam e, de algum modo, os “imunizavam” deste desconforto. Explica-se, então, a exigência de os judeus lavarem as mãos antes das refeições: ficarem puros para a relação com o divino.

As palavras de Jesus lembrando a profecia de Isaías: “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim”, são critério para repensarmos nossa relação com Deus. É uma denúncia de determinadas atitudes que parecem cristãs e católicas, mas que trazem no seu bojo uma grande hipocrisia. Não basta colocar uma “capa” cristã para a oração, e continuar com um coração impuro, perverso, rancoroso, desonesto, insensível, distante de Deus. “Não adianta ir à Igreja rezar e fazer tudo errado” já dizia o poeta cantor.

“O que torna impuro o homem não é o que entra nele vindo de fora, mas o que sai de seu interior. Pois é de dentro do coração humano que saem as más intenções, imoralidades, roubos, assassínios, adultérios, ambições desmedidas, maldades, fraudes, devassidão, inveja, calúnia, orgulho, falta de juízo”. Com essas palavras Jesus traz uma liberdade muito grande para os pobres. Antes viviam preocupados com a observância das leis sem conta e quase não podiam viver. Agora estão livres desta preocupação. Jesus vem libertar o ser humano de leis externas e coloca no seu coração a Lei do Espírito, do Amor. Ama e faze o que quiseres. Se calares, calarás com amor; se gritares, gritarás com amor; se corrigires, corrigirás com amor; se perdoares, perdoarás com amor. Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa senão o amor serão os teus frutos” (Santo Agostinho).

Volto aqui à citação que Marcos faz do profeta Isaías: “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim” (Is 29,13). É a queixa de Deus. O que caracteriza toda religião é prestar culto a Deus. Acontece, porém que, de modo geral, se entende prestar culto com os lábios, repetindo fórmulas, recitando ou cantando salmos e hinos etc. Enquanto o coração está longe d’Ele.

Não há dúvida, porém, de que o culto que agrada a Deus nasce do coração, da adesão interior, desse centro profundo da pessoa, donde brotam as decisões, desejos e projetos. Quando nosso coração está longe de Deus, nosso culto fica sem conteúdo. A falta de vida, de escuta sincera da Palavra de Deus, de amor ao irmão torna vazio nosso culto. O que dá conteúdo ao nosso culto é a fidelidade cotidiana, a atenção aos mais necessitados, a prática da misericórdia e da justiça, o empenho em ser parecido com Jesus: “Quero misericórdia e não sacrifício”. Ou lendo Tiago: “A religião pura e sem mancha diante de Deus Pai é esta: assistir os órfãos e as viúvas em suas tribulações e não se deixar contaminar pelo mundo” (Tg 1,27).

“As doutrinas que ensinam são preceitos humanos”. A propósito destas palavras de Jesus, diz Pe. Antônio Pagola: “Em toda religião há tradições que são ‘humanas’. Normas, costumes, devoções que nascem para viver a religiosidade em determinada cultura. Podem fazer muito bem. Porém, fazem muito mal quando nos distraem e nos distanciam da Palavra de Deus. Nunca poderão ter a primazia. Ao terminar a citação do profeta Isaías, Jesus resume seu pensamento com palavras muito sérias: ‘Deixais de lado o mandamento de Deus para apegardes à tradição dos homens’. Quando nos apegamos cegamente a tradições humanas, corremos o risco de esquecer o mandamento do amor e nos desviarmos do seguimento a Jesus, Palavra de Deus encarnada. Na religião cristã o primeiro é sempre Jesus e seu chamado ao amor. Só depois vêm nossas tradições humanas, por mais importantes que possam parecer. Não podemos deixar o essencial cair no esquecimento”.

Pode ilustrar as tradições que distraem, por exemplo, os excessos nas vestes litúrgicas, os enfeites exagerados, a busca de brilho e de ritos inventados. Os elementos litúrgicos devem ajudar a entrar em comunhão com o Pai na celebração. Jamais cansar, distrair, desfocar do essencial da celebração, a Páscoa do Senhor. Outros elementos que matam o culto ou a celebração acontecem na celebração de alguns sacramentos como o matrimônio, o batismo, a primeira eucaristia, ordenação. Por vezes há um excesso de parafernália que não deixa a gente encontrar Jesus. Se se pergunta: “Onde estava Jesus naquela celebração?”, a resposta pode ser decepcionante. Fica parecendo um culto pagão. Os elementos do evangelho ficam ofuscados pelo brilho da vaidade, da autorreferencialidade, do sucesso, do narcisismo. É urgente revermos isso!

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CINQUENTENÁRIO DO MÊS DA BÍBLIA

Desde 1971 o mês de setembro é dedicado à Bíblia. Uma iniciativa da Arquidiocese de Belo Horizonte e que foi assumida pela CNBB em 1985. Portanto, estamos celebrando o 50º ano desta iniciativa tão iluminada!

Neste ano, o mês da Bíblia traz como tema a Carta de Paulo aos Gálatas e o lema é “Todos vós sois um só em Cristo Jesus” (Gl 3,28d), extraído do “hino batismal”, descrito em Gl 3,26-28, quando Paulo afirma que todos são filhos e filhas de Deus. Portanto, pelo Batismo, as divisões foram superadas e, dessa forma, “não há mais judeu ou grego, nem escravo ou livre, nem macho ou fêmea”, pois somos um em Cristo Jesus.

Participe de um encontro de estudo sobre esse tema, entre num grupo de reflexão ou círculo bíblico, faça uma pesquisa/estudo em algum site católico sobre este tema etc. Faça o esforço de ler a Carta aos Gálatas. É bom termos diante dos olhos as palavras de São Jerônimo: “Ignorar as Escrituras é ignorar a Cristo”.

Pe. Aureliano de Moura  Lima, SDN

O culto que agrada a Deus brota do coração

aureliano, 31.08.18

22º domingo do TC - 02 de setembro.jpg

22º Domingo do Tempo Comum [02 de setembro de 2018]

   [Mc 7,1-8.14-15.21-23]

Neste domingo estamos de volta ao evangelho de Marcos.  No relato de hoje vemos um confronto entre Jesus e os escribas e fariseus. Aqueles (os escribas), provenientes de Jerusalém, eram os entendidos da Escritura; estes (os fariseus), uma espécie de irmandade que se caracterizava pela observância rigorosa da Lei. Jesus vai dizer que aquelas tradições que guardavam e exigiam que se guardassem não eram divinas, mas humanas, inventadas pelos que estão longe de Deus, embora se julguem próximos dele. O contexto é da discussão entre cristãos provindos do judaísmo que insistiam na necessidade da observância da Lei de Moisés e os cristãos provindos do helenismo que não tinham o costume de tais práticas. Marcos quer dizer que, com a presença de Jesus, o que voga agora é a Lei do Espírito: “É para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5,1).

Os povos antigos e, dentre estes, os judeus, tinham muita dificuldade de lidar com as situações de doenças graves e de morte, pois eram realidades que eles não podiam compreender nem dominar. Por isso criavam uma série de leis e normas que os distanciavam e, como que os “imunizavam” deste desconforto. Aí se explica a exigência de os judeus lavarem as mãos antes das refeições: ficarem puros para a relação com o divino.

As palavras de Jesus lembrando a profecia de Isaías: “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim”, são critério para repensarmos nossa relação com Deus. É uma denúncia de determinadas atitudes que parecem cristãs e católicas, mas que trazem no seu bojo uma grande hipocrisia. Não basta colocar uma “capa” cristã para a oração, e continuar com um coração impuro, perverso, rancoroso, desonesto, insensível, distante de Deus. “Não adianta ir à Igreja rezar e fazer tudo errado” já dizia o poeta cantor.

“O que torna impuro o homem não é o que entra nele vindo de fora, mas o que sai de seu interior. Pois é de dentro do coração humano que saem as más intenções, imoralidades, roubos, assassínios, adultérios, ambições desmedidas, maldades, fraudes, devassidão, inveja, calúnia, orgulho, falta de juízo”. Com essas palavras Jesus traz uma liberdade muito grande para os pobres. Antes viviam preocupados com a observância das leis sem conta e quase não podiam viver. Agora estão livres desta preocupação. Jesus vem libertar o ser humano de leis externas e coloca no seu coração a Lei do Espírito, do Amor. Ama e faze o que quiseres. Se calares, calarás com amor; se gritares, gritarás com amor; se corrigires, corrigirás com amor; se perdoares, perdoarás com amor. Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa senão o amor serão os teus frutos” (Santo Agostinho).

Volto aqui à citação que Marcos faz de Isaías: “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim” (Is 29,13). É a queixa de Deus. O que caracteriza toda religião é prestar culto a Deus. Acontece, porém que, de modo geral, se entende prestar culto com os lábios, repetindo fórmulas, recitando ou cantando salmos e hinos etc. Enquanto o coração está longe d’Ele.

Não há dúvida, porém, de que o culto que agrada a Deus nasce do coração, da adesão interior, desse centro profundo da pessoa, donde brotam as decisões, desejos e projetos. Quando nosso coração está longe de Deus, nosso culto fica sem conteúdo. A falta de vida, de escuta sincera da Palavra de Deus, de amor ao irmão torna vazio nosso culto. O que dá conteúdo ao nosso culto é a fidelidade cotidiana, a atenção aos mais necessitados, a prática da misericórdia e da justiça, o empenho em ser parecido com Jesus: “Quero misericórdia e não sacrifício”. Ou lendo Tiago: “A religião pura e sem mancha diante de Deus Pai é esta: assistir os órfãos e as viúvas em suas tribulações e não se deixar contaminar pelo mundo” (Tg 1,27).

“As doutrinas que ensinam são preceitos humanos”. A propósito destas palavras de Jesus, diz Pe. Pagola: “Em toda religião há tradições que são ‘humanas’. Normas, costumes, devoções que nascem para viver a religiosidade em determinada cultura. Podem fazer muito bem. Porém, fazem muito mal quando nos distraem e nos distanciam da Palavra de Deus. Nunca poderão ter a primazia. Ao terminar a citação do profeta Isaías, Jesus resume seu pensamento com palavras muito sérias: ‘Deixais de lado o mandamento de Deus para apegardes à tradição dos homens’. Quando nos apegamos cegamente a tradições humanas, corremos o risco de esquecer o mandamento do amor e nos desviarmos do seguimento a Jesus, Palavra de Deus encarnada. Na religião cristã o primeiro é sempre Jesus e seu chamado ao amor. Só depois vêm nossas tradições humanas, por mais importantes que possam parecer. Não podemos deixar o essencial cair no esquecimento”.

Pode ilustrar as tradições que distraem, por exemplo, os excessos nas vestes litúrgicas, os enfeites exagerados, a busca de brilho e de ritos inventados. Os elementos litúrgicos devem ajudar a entrar em comunhão com o Pai na celebração. Jamais cansar, distrair, desfocar do essencial da celebração, a Páscoa do Senhor. Outros elementos que matam o culto ou a celebração acontecem na celebração de alguns sacramentos como o matrimônio, o batismo, a primeira eucaristia, ordenação. Há um excesso de parafernália que não deixa a gente encontrar Jesus. Se se pergunta: “Onde está Jesus naquela celebração?”, a resposta pode ser decepcionante. Fica parecendo um culto pagão. Os elementos do evangelho ficam ofuscados pelo brilho da vaidade, da autorreferencialidade, do sucesso, do narcisismo. É urgente revermos isso!

*Neste mês celebramos a Bíblia, Palavra de Deus para nós, crentes. O tema do Mês da Bíblia para este ano é: “Para que n’Ele nossos povos tenham vida”. E o lema: “A sabedoria é um espírito amigo do ser humano” (Sb 1,6). A proposta para estudo são os capítulos 1-6 do livro da Sabedoria. Sugiro que cada um procure ler esses capítulos. Mas seria bom ler a introdução do livro que o editor faz, pois ajuda na compreensão. Assim você terá uma chave de leitura para ajudar a compreender todo o livro no seu contexto histórico. Mesmo porque este é um dos sete livros ausentes na lista dos livros da bíblia protestante. Planeje algo neste mês que coloque você em sintonia com a Palavra de Deus. Prepare em um cantinho de sua casa ou do quarto um altarzinho para a bíblia; deixe-a aberta, de preferência no livro da Sabedoria. Participe de um encontro bíblico, entre num grupo de reflexão ou círculo bíblico, faça uma pesquisa/estudo em algum site católico sobre este tema etc. É bom termos diante dos olhos as palavras de São Jerônimo: “Ignorar as Escrituras é ignorar a Cristo”.

Pe. Aureliano de Moura  Lima, SDN