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  Jesus, vinho novo nascido de Maria

aureliano, 12.10.23

Nossa Senhora Aparecida 2019.jpg

Nossa Senhora da Conceição Aparecida (12 de outubro de 2023]

[Jo 2,1-11)

Ó mãe da nossa pátria,

Escuta a nossa voz:

Teus olhos compassivos

Se voltam para nós.

 

Tu és nosso socorro

Em nossas aflições;

Guarda junto do teu

Os nossos corações.

 

Louvor e honra ao Filho

Que pela Virgem vem;

No Espírito és o brilho

Do Pai eterno. Amém.

Diferentemente dos outros evangelistas, João não apresenta Jesus chamando publicamente as pessoas para a conversão ao Reino de Deus (Mt 4,17; Mc 1,15). João apresenta Jesus iniciando sua vida pública numa festa de casamento. Em Israel o casamento é imagem da aliança de Deus com seu povo (cf. Os 2,19-22).

Neste mesmo capítulo notaremos a discussão a respeito do templo quando Jesus se apresenta como o Templo de Deus, substituindo o templo de Jerusalém que se tornara objeto de exploração dos pobres (cf. Jo 2,13-22). Então o relato de hoje quer mostrar que Deus Pai fez uma nova aliança com a humanidade na pessoa de Jesus de Nazaré. Um novo casamento. Por isso, no evangelho de João, temos a narrativa do primeiro sinal de Jesus numa festa de casamento.

Aqueles aparatos da festa são metáforas da religião antiga que deveria ser renovada pela presença salvadora de Jesus. As talhas, a água, o encarregado são símbolos de uma realidade que precisava ser renovada pelo amor incondicional que Jesus trouxe e revelou, representada no vinho. O vinho novo é o amor de Jesus manifestado “até o fim” (Jo 13,1).

“A mãe de Jesus estava lá”. É muito interessante interpretar essa expressão do evangelho. Primeiro, não tem nome. É mais do que a mãe de Jesus. Ela representa a comunidade cristã. Depois, é a noiva do casamento que está à procura do noivo. O casamento, a aliança se dará na Cruz, a Hora de Jesus que naquela festa de casamento ainda não havia chegado. Na cruz ele dirá: “Mulher, eis aí teu filho”.

Relacionada a Maria, mãe de Jesus, está aquela bela palavra que atravessou séculos como uma ordem da Mãe de Deus: “Fazei tudo o que ele vos disser”. Esta palavra deve continuar ecoando em nossos ouvidos e coração. Pois fazer o que Jesus mandou significa acreditar na palavra dele e colocá-la em prática. Acreditar na palavra de Jesus é abrir-se ao seu amor e deixar-se transformar como aquela água que se transformou em vinho e alegrou o coração de todos os convivas. É a vida nova, um jeito novo de ser, um caminho renovado pela graça de Deus haurida nos sacramentos, na oração, no encontro com ele.

Portanto, Maria, a Mãe de Jesus, é ícone da Igreja. Neste evangelho ela representa a comunidade de Israel que anseia pela vinda do Messias e, por outro lado, a comunidade cristã que acolhe e se deixa renovar pelo vinho novo que ultrapassa as estruturas caducas de uma lei que escraviza as pessoas. Só o amor, representado pelo vinho no relato de hoje, poderá transformar os caminhos da humanidade.

Celebrando hoje nossa Padroeira, queremos elevar nossa prece confiante ao Pai, para que nós brasileiros sejamos fiéis à nossa vocação, nos empenhemos na construção da paz e da justiça, no serviço generoso aos irmãos e no cuidado para com a Mãe Natureza, tão maltratada pela ganância, pela busca frenética do lucro a qualquer preço.

Que neste dia também dedicado às crianças, nosso coração se abra ao cuidado e carinho para com esses pequeninos tão amados por Nosso Senhor, muitas vezes vitimados por abusos e maus tratos por parte adultos irresponsáveis e maldosos. Peçamos a Maria, a Virgem humilde e simples de Nazaré, nos dê aquela simplicidade e candura que caracterizam o coração da criança.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Jesus interpreta o Ensinamento de Deus (Torá)

aureliano, 10.02.23

6º Domingo do TC - A - 16 de fevereiro.jpg

6º Domingo do Tempo Comum [12 de fevereiro de 2023]

[Mt 5,17-37]

Estamos no capítulo 5º de Mateus. No domingo retrasado rezamos o Evangelho das Bem-aventuranças: a verdadeira felicidade está em viver segundo o Espírito de Jesus. No domingo passado vimos que o discípulo é chamado a iluminar e a dar novo sabor à própria vida e à vida dos outros a partir de Jesus. Hoje, continuando a leitura do mesmo capítulo, ouvimos o ensinamento novo de Jesus em relação à Lei.

A fidelidade à Lei ou Torá, Ensinamento do Senhor, - os cinco primeiros livros da Bíblia, normalmente lidos nas sinagogas aos sábados - era o que colocava o judeu piedoso no caminho da santidade e da justiça. A dificuldade apontada por Jesus na reforma que ele faz da Lei era o entendimento corrente no seu tempo, de que bastava a fidelidade externa, uma observância à letra da Lei para ser justo. Jesus mostra que cumprir a Lei não é executar o que está prescrito ou deixar de fazer o que é proibido. Cumprir a Lei e realizar toda justiça, é agir de acordo com a vontade amorosa do Pai que está por trás da letra da Lei. É viver o espírito da Lei. É a intencionalidade de cada um que dá sentido ao que se vive. Poderíamos dizer que é a reta intenção no agir. O desejo de fazer o melhor, de acertar, de perceber como Deus gostaria que agíssemos, como Jesus agiria em nosso lugar.

Assim, quando a Lei diz “não matarás”, ela quer dizer, não sufocarás teu irmão por desprezo ou por rixa, por meio do preconceito ou da lei da ‘vantagem’. É claro que o mandamento “não matarás” refere-se também a atitudes e legislações que tiram da pessoa a possibilidade de viver com dignidade, de ter acesso à saúde e à educação, ao pão de cada dia. Significa que a vida humana deve ser preservada, cuidada, respeitada desde a concepção até ao último suspiro.

Pelo que se constata, não há dúvida de que muitas atitudes e leis governamentais (Executivo, Congresso e Judiciário) levam à morte milhares de pessoas. Uma considerável parte de políticos e empresários desonestos roubou e continua roubando o patrimônio brasileiro. Há uma manobra satânica para livrá-los da condenação à devolução do que roubaram. Outros nem são levados a julgamento. Há ainda aqueles que, por omissão e maldade, sucateiam o patrimônio público, se valem dos cargos e funções para prejudicar os pobres e suprimir direitos adquiridos. Isto mata muita gente e coloca em dificuldade muitas vidas. E, o que é pior, muitos deles com a Bíblia ou o Rosário na mão!

É terrível cair nas mãos de um grupo que age movido somente por interesses politiqueiros, sem o mínimo de consciência ética, desdenhando totalmente o bem comum, o clamor dos pobres. É um daqueles pecados que, na linguagem da catequese tradicional, “bradam aos céus e pedem a Deus por vingança”. Não significa que Deus seja vingativo, mas são pecados que afrontam a ordem natural da Criação, que destroem a humanidade. “Lembrai-vos de que o salário, do qual privastes os trabalhadores que ceifaram os vossos campos, clama, e os gritos dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor dos exércitos” (Tg 5,4).

Da mesma forma, o “não adulterarás” dever ir além. Deve levar o discípulo de Jesus a lutar contra a cobiça que habita o coração de toda pessoa. No entendimento dos rabinos do tempo de Jesus, se a mulher olhasse para outro homem ou se demonstrasse qualquer insinuação de desejo por possuí-lo, já era motivo para divorciar-se dela. Porém o homem (varão) era imune a essas penalizações. Jesus, porém, coloca homem e mulher no mesmo nível de compromisso, de respeito e fidelidade.

O mal é gestado nas más intenções que brotam do coração (cf. Mc 7, 21) tanto do homem quanto da mulher. Nesse mesmo sentido é preciso entender que o divórcio não faz parte do plano de Deus. Ainda que, em determinadas circunstâncias, seja um mal menor, é sempre um mal. Todos sabemos bem das consequências danosas, ainda que por vezes inevitáveis, provocadas pela separação do casal! Quando um casamento é vivido “até que a morte separe”, num consenso de compreensão e perdão mútuos, certamente muitas dores e sofrimentos são evitados.

O evangelho de hoje nos ajuda a entender que diante de nós estão dois caminhos: “Diante dos homens está a vida e a morte, o bem e o mal; ser-te-á dado o que preferires” (Eclo, 15, 17; cf Dt 30,15-20). A Lei de Moisés nos ajuda a escolher qual o melhor caminho. Jesus, interpretando a Lei, nos mostra a necessidade de ir além da literalidade da Lei. Em outras palavras: se alguém pensa que para servir a Deus basta ir ao templo, “assistir” à missa ou ao culto, sem cultivar o amor e o cuidado para com os pais; ou que, em relação ao casamento, basta honrar o “contrato matrimonial”, sem necessidade de se preocupar em renovar o amor, o respeito e a fidelidade ao esposo, à esposa, aos filhos todos os dias, está fora do projeto de Deus; não está cumprindo a justiça do Reino. É o caso também de quem pensa que roubar ou matar é quando se tira algo do outro ou se tira a vida de alguém, podendo-se andar de mãos dadas com a corrupção e a mentira. Ou mesmo quando se pensa que não há necessidade de importar-se com a preservação e cuidados do meio ambiente que “geme dores de parto” (cf. Rm 8,22).

Viver o espírito da Lei, o Ensinamento de Deus, para se cumprir a justiça do Reino anunciado por Jesus, leva o discípulo a olhar para seu interior onde está inscrita a vontade do Pai. Escutando a consciência, voz de Deus, conferindo-a com a Palavra que ouvimos, vamos percebendo por onde andamos e que contornos de conversão precisamos fazer.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Vinho novo: a alegria de ser cristão

aureliano, 15.01.22

2º Domingo do TC - C -.jpg

2º Domingo do Tempo Comum [16 de janeiro de 2022]

[Jo 2,1-11]

Estamos no Tempo Comum da liturgia da Igreja. Esse tempo é caracterizado pelo cotidiano, que não deve ser menosprezado, mas alimentado pela contemplação dos mistérios da vida de Cristo. A cor verde recorda a esperança que deve alimentar o cristão, e o pinheiro, árvore forte, recorda ao cristão que deve ser forte e perseverante em meio às intempéries da vida.

O evangelho deste 2º domingo do Tempo Comum vem como que coroar todo o mistério natalino que acabamos de celebrar. É o início da vida pública de Jesus.

“Este foi o início dos sinais de Jesus. Ele o realizou em Caná da Galileia e manifestou a sua glória, e seus discípulos creram nele”. Este versículo é vital para a interpretação deste “Sinal” realizado por Jesus O acontecimento de Caná da Galileia foi decisivo para que os discípulos acreditassem em Jesus.

Notem que João não chama de milagre, mas de sinal. O que Jesus realizou era um “sinal’ (o primeiro dos sete que João narrará ao longo do evangelho) de sua messianidade já anteriormente reconhecida: Cordeiro de Deus (Jo 1,29.36), Messias (Jo 1,41), aquele sobre quem escreveu Moisés e os profetas (Jo 1,45), Filho de Deus e Rei de Israel (Jo 1,49). É uma confirmação para os discípulos de tudo aquilo que fora dito a seu respeito.

“Seus discípulos creram nele”. Para o seguimento de Jesus era imprescindível a fé. Esta leva a agir segundo as palavras e as atitudes de Cristo. Aquele que crê empenha-se sempre na prática da justiça e da fraternidade, da concórdia e da paz, do cuidado e defesa da vida. O agir daquele que crê assume contornos novos. Quem crê assume as atitudes de Jesus: “Vivo, mas não sou mais eu, é Cristo que vive em mim. Pois a minha vida presente na carne, vivo-a pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20).

Tratando-se de Igreja, a fé é vital para que haja renovação na vida pessoal, eclesial, social e comunitária. Bento XVI, na Carta Apostólica Porta Fidei afirma: “A renovação da Igreja realiza-se também através do testemunho prestado pela vida dos crentes: de fato, os cristãos são chamados a fazer brilhar, com sua própria vida no mundo, a Palavra de verdade que o Senhor Jesus nos deixou” (nº 6).

No relato, João afirma que Jesus fez um “sinal”: transformou a água em vinho numa festa de casamento. Aqui se faz necessário certo nível de abstração para que nosso espírito adentre no que o texto quer dizer. Ele não está falando de casamento, simplesmente. Este relato precisa ser interpretado à luz da intencionalidade de João ao escrever seu evangelho: o noivo é Jesus, a água e as jarras são a Lei, o vinho novo é a presença inovadora da vida e do ensinamento de Jesus, Maria é a comunidade eclesial etc. Enfim, todos os elementos deste relato estão carregados de sentido e significados para despertarem e gerarem a fé nos discípulos.

A ‘glória’ e a ‘hora’ de que fala Jesus se concretizarão mais tarde em sua morte na cruz.: “Agora o Filho do Homem é glorificado, e Deus foi glorificado por ele” (Jo 13,31). E na oração ao Pai, antes da paixão, diz: “Pai, é chegada a hora, glorifica o teu Filho, a fim de que o teu Filho te glorifique” (Jo 17,1).

A propósito da expressão “mulher”, entendemos que Jesus tencionava falar da Igreja. Maria sua mãe é ícone dessa Igreja sonhada que ele sonhou. Na cruz ele volta à expressão, cumprindo a sua “hora”: “Vendo assim sua mãe, e perto dela o discípulo que ele amava, Jesus disse à sua mãe: ‘Mulher, eis aí o teu filho’. A seguir disse ao discípulo: ‘Eis a tua mãe’” (Jo 19,26-27). Maria, a mulher atenta à falta de vinho na festa, estava presente ao pé da cruz. Ali é feita mãe dos crentes. Maria é bendita porque é a mulher que acreditou (cf. Lc 1,45).

A liturgia da Palavra de hoje nos leva a pensar e a rezar um pouco mais nossa vida de fé. Sem entrar na ‘festa de casamento’ que o Pai nos preparou em seu Filho não é possível uma dinâmica de fé que nos faça pensar e agir de modo novo, vibrante, entusiasmado, transformador.

Aquele vinho novo que deve ser ‘bebido’ por nós, significa também todos nós, Igreja de Jesus. Não podemos continuar como água engarrafada, parada, represada, sem sentido. Deixemos o Pai nos transformar em vinho novo, para levar alegria e alento a tantas pessoas desiludidas, sem voz e sem vez. Há muita gente sem alegria, sem esperança, sem sentido de vida. Se experimentamos o vinho novo, que é a própria vida de Jesus, seremos sua extensão na história.

A ordem que a Mãe de Jesus nos transmite com seu agir discreto e oportuno é clara: “Fazei tudo o que ele vos disser”.

Um pensamento do Pe. Pagola poderá ajudar-nos a entender melhor o ‘vinho novo’ trazido por Jesus e tão necessário à sociedade em que vivemos:

 “Estas bodas anônimas nas quais os esposos não têm rosto nem voz própria, é figura da antiga aliança judia. Nestas bodas falta um elemento indispensável. Falta o vinho, sinal da alegria e símbolo do amor, como cantava o Cântico dos Cânticos.            

É uma situação triste que só se transformará pelo ‘vinho’ novo trazido por Jesus. Um ‘vinho’ que só o saboreia quem crê no amor gratuito de Deus Pai e vive animado pelo espírito de verdadeira fraternidade.

Vivemos numa sociedade em que, cada vez mais, se enfraquece a raiz cristã do amor fraterno desinteressado. Com frequência o amor se reduz a uma troca mútua, prazerosa e útil, em que as pessoas buscam somente seu próprio interesse. No entanto se pensa, talvez, que é melhor amar que não amar. Porém, na prática, muitos estariam de acordo com aquele princípio anticristão de S. Freud: ‘Se amo alguém, é preciso que este o mereça por alguma razão” (Pe. José Antônio Pagola).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

A vida matrimonial em desafio

aureliano, 01.10.21

27º Domingo do TC - B - 03 de outubro.jpg

27º Domingo do Tempo Comum [03 de outubro 2021]

[Mc 10,2-16]

O ser humano é chamado, no amor, a realizar-se como pessoa. Porém essa realização não se dá sem a colaboração do outro que lhe diz quem ele é e por onde está caminhando. Ele deve realizar um encontro com alguém que seja capaz de comunhão com ele. É aí que se dará um diálogo aberto e nobre para, juntos, descobrirem a plenitude de sua vocação.

Quando os fariseus, cheios de maldade e de dúvidas também, fazem a Jesus aquela pergunta crucial sobre o divórcio, ele responde com maestria remetendo-se à ordem da Criação: “Desde o começo da criação, Deus os fez homem e mulher. Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e os dois serão uma só carne. Assim já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe”.

Jesus quer dizer que a separação do casal não faz parte do projeto original de Deus. Homem e mulher foram criados em mesmo nível de igualdade. Para viverem juntos, constituindo família, segundo sua vocação, realizando-se no que fazem e vivem.

Aqui entra um elemento fundamental: Deus não fez o homem (varão) superior à mulher. Nem vice-versa. Jesus condena essa atitude e quer que todos tenham a mesma dignidade e igualdade nas relações. Jesus desautoriza explicitamente todo autoritarismo machista que permitia ao homem “despedir a mulher por qualquer motivo”.

Na verdade havia interpretações divergentes relativas a esse tema entre as duas escolas mais famosas do judaísmo de então: a de Hillel, mais liberal em relação ao divórcio, permitindo, por exemplo, que o marido poderia pedir carta de divórcio quando a mulher não cozinhasse de acordo com seu gosto, ou quando ele gostasse mais de outra. Já a escola de Shammai, mais rigorosa, só admitia o divórcio em caso de adultério ou má conduta da mulher. À mulher restava recorrer para separação se o marido tivesse contraído a lepra ou exercesse um ofício repugnante.

Por aí se vê que a discussão não era simples. E os fariseus ficavam meio engasgados diante de tamanho impasse. Queriam saber a opinião de Jesus. Ao invocar o projeto original de Deus, a Criação, Jesus convida a uma reflexão mais profunda. Não se trata somente de continuar com a mulher ou abandoná-la. Em primeiro lugar trata-se de perceber que Deus os fez homem e mulher. São iguais perante Deus. Depois é preciso notar que o casamento é um projeto divino. É um dom para a humanidade. É o cuidado de um pelo outro e de ambos pelos filhos. Não se pode invocar a lei para justificar projetos egoístas. A Lei que deve prevalecer no coração humano é a Lei do amor.

O sonho de Deus é que o casal entre num projeto de vida estável e indissolúvel. O divórcio não faz parte do projeto do Pai, porque ele traz em si as marcas da dor, do golpe, da ferida quase incurável, da morte. As facilidades oferecidas por Moisés “por causa da dureza de vossos corações” estão em alta, nos últimos tempos. Sabemos por experiência que, sempre que o egoísmo prevalece, o sofrimento intensifica-se na vida humana. Mas todas as vezes que o amor-ágape encontra guarida no coração humano, o sofrimento é minimizado pelo alento da generosidade, do cuidado e do perdão.

Cabe aqui levar em consideração os casos de fracasso no casamento. Podemos dizer que não faz parte do projeto ideal de Deus. Mas a continuidade da convivência sob o mesmo teto por vezes se torna insustentável. Quando o egoísmo toma conta de uma parte ou de ambas, a situação vai se tornando insuportável, chega a ser desumana. Sem mencionar aquelas situações em que uma das partes é, simplesmente, abandonada (com os filhos). Se essa parte fiel, sadia, encontra amparo de alguém que valoriza, que respeita, que cuida devemos nos atirar confiantes nos braços da providência e da misericórdia divinas. Mas sabendo sempre que a questão da separação do casal não deve estar sempre sobre a mesa, como insistem as telenovelas. O casal que se faz discípulo de Jesus empenha todas as forças para levar adiante essa relação que significa o amor eterno que Deus tem por todos nós. Amor manifestado na entrega de seu Filho Unigênito pela nossa salvação. Amor expresso na entrega de Cristo pela sua Igreja.

Cabe considerar também a necessidade de acolhermos e oferecermos nosso ombro aos casais recasados. Eles não estão excomungados, não foram expulsos da Igreja. Estão em situação irregular, mas continuam em comunhão eclesial. Devem ser acolhidos. Devem participar da celebração, dos serviços da Igreja. Se a Igreja lhes retira o direito de receber a comunhão é porque “seu estado e condição de vida contradizem objetivamente a união de amor entre Cristo e a Igreja, significada e atualizada na eucaristia” (São João Paulo II). Mas isso não autoriza ninguém condená-los, discriminá-los, rejeitá-los. Precisam ser acolhidos e amados em sua nova condição. É preciso ter para com eles o espírito de Jesus.

Escutemos o Papa Francisco: “Quanto às pessoas divorciadas que vivem em uma nova união, é importante fazer-lhes sentir que fazem parte da Igreja, que ‘não estão excomungadas’ nem são tratadas como tais, porque sempre integram a comunhão eclesial. Estas situações ‘exigem um atento discernimento e um acompanhamento com grande respeito, evitando qualquer linguagem e atitude que as faça sentir discriminadas e promovendo a sua participação na vida da comunidade. Cuidar delas não é, para a comunidade cristã, um enfraquecimento da sua fé e do seu testemunho sobre a indissolubilidade do matrimônio; antes, ela exprime precisamente neste cuidado a sua caridade” (Amoris Laetitia, 243).

“Essa sublime vocação do matrimônio indissolúvel é hoje fonte de violentas críticas à Igreja. Que fazer com os que fracassam? Objetivamente falando, sem inculpar ninguém – pois de culpa só Deus entende, e perdoa – devemos constatar que há fracassos, e que fica muito difícil celebrar um ‘sinal eficaz do amor inquebrantável de Jesus’ na presença de um matrimônio desfeito... Por isso, a Igreja não reconhece como sacramento o casamento de divorciados. Teoricamente, se poderia discutir se o segundo casamento não pode ser aceito como união não-sacramental (como se faz na Igreja Ortodoxa). E observe-se que muitos casamentos em nosso meio são, propriamente falando, inválidos, porque contraídos sem suficiente consciência ou intenção; poderiam, portanto, ser anulados (como se nunca tivessem existido). Em todo caso, o matrimônio cristão, quando bem conduzido em amor inquebrantável, é uma forma de seguir Jesus no caminho do dom total” (Pe. J. Konings).

O que importa aqui é nos colocarmos diante do Pai como a criança, porque “o Reino de Deus é dos que são como elas”. Ou seja, em qualquer circunstância, é preciso de nos colocarmos diante do Pai com o coração aberto, com disponibilidade de alma, desarmados, confiantes na misericórdia d’Ele, como aprendizes, com transparência e sinceridade de coração.

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TRÊS PALAVRAS MÁGICAS PARA FAZER O CASAMENTO DURAR

Papa Francisco esclarece que o "para sempre" não é só questão de duração. "Um casamento não se realiza somente se ele dura, sua qualidade também é importante. Estar juntos e saber amar-se para sempre é o desafio dos esposos".

E fala sobre a convivência matrimonial: "Viver juntos é uma arte, um caminho paciente, bonito e fascinante (…) que tem regras que se podem resumir exatamente naquelas três palavras: 'posso?', 'obrigado' e 'desculpe'".

"Posso? é o pedido amável de entrar na vida de alguém com respeito e atenção. O verdadeiro amor não se impõe com dureza e agressividade. São Francisco dizia: 'A cortesia é a irmã da caridade, que apaga o ódio e mantém o amor'. E hoje, nas nossas famílias, no nosso mundo amiúde violento e arrogante, faz falta muita cortesia."

"Obrigado: a gratidão é um sentimento importante. Sabemos agradecer? (…) É importante manter viva a consciência de que a outra pessoa é um dom de Deus, e aos dons de Deus diz-se 'obrigado'. Não é uma palavra amável para usar com os estranhos, para ser educados. É preciso saber dizer 'obrigado' para caminhar juntos."

"Desculpe-me: na vida cometemos muitos erros, enganamo-nos tantas vezes. Todos. Daí a necessidade de utilizar esta palavra tão simples: 'desculpe-me'. Em geral, cada um de nós está disposto a acusar o outro para se desculpar. É um instinto que está na origem de tantos desastres. Aprendamos a reconhecer os nossos erros e a pedir desculpa. Também assim cresce uma família cristã.

Finalmente, o Papa acrescenta com bom humor: "Todos sabemos que não existe uma família perfeita, nem o marido ou a mulher perfeitos. Isso sem falar da sogra perfeita…".
E conclui: "Existimos nós, os pecadores. Jesus, que nos conhece bem, ensina-nos um segredo: que um dia não termine nunca sem pedir perdão, sem que a paz volte à casa. Se aprendemos a pedir perdão e a perdoar aos outros, o matrimônio durará, seguirá em frente" (https://pt.aleteia.org/2014/03/12)

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

A comunidade cristã nasce e vive da fé

aureliano, 18.01.19

2º domingo do TC - C.jpg

2º Domingo do Tempo Comum [20 de janeiro de 2019]

[Jo 2,1-11]

Estamos no Tempo Comum da liturgia da Igreja. Esse tempo é caracterizado pelo cotidiano, que não deve ser menosprezado, mas alimentado pela contemplação dos mistérios da vida de Cristo. A cor verde recorda a esperança que deve alimentar o cristão, e o pinheiro, árvore forte, recorda ao cristão que deve ser forte e perseverante em meio às intempéries da vida.

O evangelho desse 2º domingo do Tempo Comum vem como que coroar todo o mistério natalino que acabamos de celebrar. É o início da vida pública de Jesus.

“Este foi o início dos sinais de Jesus. Ele o realizou em Caná da Galileia e manifestou a sua glória, e seus discípulos creram nele”. Este versículo é vital para a interpretação deste “Sinal” realizado por Jesus O acontecimento de Caná da Galileia foi decisivo para que os discípulos acreditassem em Jesus.

Notem que João não chama de milagre, mas de sinal. O que Jesus realizou era um “sinal’ (o primeiro dos sete que João narrará ao longo do evangelho) de sua messianidade já anteriormente reconhecida: Cordeiro de Deus (Jo 1,29.36), Messias (Jo 1,41), aquele sobre quem escreveu Moisés e os profetas (Jo 1,45), Filho de Deus e Rei de Israel (Jo 1,49). É uma confirmação para os discípulos de tudo aquilo que fora dito a seu respeito.

“Seus discípulos creram nele”. Para o seguimento de Jesus era imprescindível a fé. Esta leva a agir segundo as palavras e as atitudes de Cristo. Aquele que crê empenha-se sempre na prática da justiça e da fraternidade, da concórdia e da paz, do cuidado e defesa da vida. O agir daquele que crê assume contornos novos. Quem crê assume as atitudes de Jesus: “Vivo, mas não sou mais eu, é Cristo que vive em mim. Pois a minha vida presente na carne, vivo-a pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20).

Tratando-se de Igreja, a fé é vital para que haja renovação na vida pessoal, eclesial, social e comunitária. Bento XVI, na Carta Apostólica Porta Fidei afirma: “A renovação da Igreja realiza-se também através do testemunho prestado pela vida dos crentes: de fato, os cristãos são chamados a fazer brilhar, com sua própria vida no mundo, a Palavra de verdade que o Senhor Jesus nos deixou” (nº 6).

No relato, João fala que Jesus fez um “sinal”: transformou a água em vinho numa festa de casamento. Aqui se faz necessário certo nível de abstração para que nosso espírito adentre no que o texto quer dizer. Ele não está falando de casamento, simplesmente. Este relato precisa ser interpretado à luz da intencionalidade de João ao escrever seu evangelho: o noivo é Jesus, a água e as jarras são a Lei, o vinho novo é a presença inovadora da vida e do ensinamento de Jesus, Maria é a comunidade eclesial etc. Enfim, todos os elementos deste relato estão carregados de sentido e significados para despertarem e gerarem a fé nos discípulos.

A ‘glória’ e a ‘hora’ de que fala Jesus se concretizarão mais tarde em sua morte na cruz.: “Agora o Filho do Homem é glorificado, e Deus foi glorificado por ele” (Jo 13,31). E na oração ao Pai, antes da paixão, diz: “Pai, é chegada a hora, glorifica o teu Filho, a fim de que o teu Filho te glorifique” (Jo 17,1).

A propósito da expressão “mulher”, entendemos que Jesus tencionava falar da Igreja. Maria sua mãe é ícone dessa Igreja sonhada que ele sonhou. Na cruz ele volta à expressão, cumprindo a sua “hora”: “Vendo assim sua mãe, e perto dela o discípulo que ele amava, Jesus disse à sua mãe: ‘Mulher, eis aí o teu filho’. A seguir disse ao discípulo: ‘Eis a tua mãe’” (Jo 19,26-27). Maria, a mulher atenta à falta de vinho na festa, estava presente ao pé da cruz. Ali é feita mãe dos crentes. Maria é bendita porque é a mulher que acreditou (cf. Lc 1,45).

A liturgia da Palavra de hoje nos leva a pensar e a rezar um pouco mais nossa vida de fé. Sem entrar na ‘festa de casamento’ que o Pai nos preparou em seu Filho não é possível uma dinâmica de fé que nos faça pensar e agir de modo novo, vibrante, entusiasmado, transformador.

Aquele vinho novo que deve ser ‘bebido’ por nós, significa também todos nós, Igreja de Jesus. Não podemos continuar como água engarrafada, parada, represada, sem sentido. Deixemos o Pai nos transformar em vinho novo, para levar alegria e alento a tantas pessoas desiludidas, sem voz e sem vez. Há muita gente sem alegria, sem esperança, sem sentido de vida. Se experimentamos o vinho novo, que é a própria vida de Jesus, seremos sua extensão na história.

A ordem que a Mãe de Jesus nos transmite com seu agir discreto e oportuno é clara: “Fazei tudo o que ele vos disser”.

Um pensamento do Pe. Pagola poderá ajudar-nos a entender melhor o ‘vinho novo’ trazido por Jesus e tão necessário à sociedade em que vivemos:

 “Estas bodas anônimas nas quais os esposos não têm rosto nem voz própria, é figura da antiga aliança judia. Nestas bodas falta um elemento indispensável. Falta o vinho, sinal da alegria e símbolo do amor, como cantava o Cântico dos Cânticos.            

É uma situação triste que só se transformará pelo ‘vinho’ novo trazido por Jesus. Um ‘vinho’ que só o saboreia quem crê no amor gratuito de Deus Pai e vive animado pelo espírito de verdadeira fraternidade.

Vivemos numa sociedade em que, cada vez mais, se enfraquece a raiz cristã do amor fraterno desinteressado. Com frequência o amor se reduz a uma troca mútua, prazerosa e útil, em que as pessoas buscam somente seu próprio interesse. No entanto se pensa, talvez, que é melhor amar que não amar. Porém, na prática, muitos estariam de acordo com aquele princípio anticristão de S. Freud: ‘Se amo alguém, é preciso que este o mereça por alguma razão” (Pe. José Antônio Pagola).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Mãe Aparecida, transforma-nos em vinho bom!

aureliano, 11.10.18

Nossa Senhora Aparecida.jpg

Nossa Senhora Aparecida - 12 de outubro

[Jo 2,1-11]

Diferentemente dos outros evangelistas, João não apresenta Jesus chamando publicamente as pessoas para a conversão ao Reino de Deus (Mt 4,17; Mc 1,15). João apresenta Jesus iniciando sua vida pública numa festa de casamento. Em Israel o casamento é imagem da aliança de Deus com seu povo (cf. Os 2,19-22).

Neste mesmo capítulo notaremos a discussão a respeito do templo quando Jesus se apresenta como o Templo de Deus, substituindo o templo de Jerusalém que se tornara objeto de exploração dos pobres (cf. Jo 2,13-22). Então o relato de hoje quer mostrar que Deus Pai fez uma nova aliança com a humanidade na pessoa de Jesus de Nazaré. Um novo casamento. Por isso, no evangelho de João, temos a narrativa do primeiro sinal de Jesus numa festa de casamento.          

Aqueles aparatos da festa são metáforas da religião antiga que deveria ser renovada pela presença salvadora de Jesus. As talhas, a água, o encarregado são símbolos de uma realidade que precisava ser renovada pelo amor incondicional que Jesus trouxe e revelou, representada no vinho. O vinho novo é o amor de Jesus manifestado “até o fim” (Jo 13,1).

“A mãe de Jesus estava lá”. É muito interessante interpretar essa expressão do evangelho. Primeiro, não tem nome. É mais do que a mãe de Jesus. Ela representa a comunidade cristã. Depois, é a noiva do casamento que está à procura do noivo. O casamento, a aliança se dará na Cruz, a Hora de Jesus que naquela festa de casamento ainda não havia chegado. Na cruz ele dirá: “Mulher, eis aí teu filho”.

Relacionada a Maria, mãe de Jesus, está aquela bela palavra que atravessou séculos como uma ordem da Mãe de Deus: “Fazei tudo o que ele vos disser”. Esta palavra deve continuar ecoando em nossos ouvidos e coração. Pois fazer o que Jesus mandou significa acreditar na palavra dele e colocá-la em prática. Acreditar na palavra de Jesus é abrir-se ao seu amor e deixar-se transformar como aquela água que se transformou em vinho e alegrou o coração de todos os convivas. É a vida nova, um jeito novo de ser, um caminho renovado pela graça de Deus haurida nos sacramentos, na oração, no encontro com ele.

Portanto, Maria, a Mãe de Jesus, é ícone da Igreja. Neste evangelho ela representa a comunidade de Israel que anseia pela vinda do Messias e, por outro lado, a comunidade cristã que acolhe e se deixa renovar pelo vinho novo que ultrapassa as estruturas caducas de uma lei que escraviza as pessoas. Só o amor, representado pelo vinho no relato de hoje, poderá transformar os caminhos da humanidade.

Celebrando hoje nossa Padroeira, queremos elevar nossa prece confiante ao Pai, para que nós brasileiros sejamos fiéis à nossa vocação, nos empenhemos na construção da paz e da justiça, no serviço generoso aos irmãos. Nesses tempos difíceis em que vivemos, quando o ódio, a violência, o preconceito, a tortura, a sede do poder a qualquer preço, a discórdia e a divisão estão sendo disseminados em nossa Nação, queremos voltar nosso olhar contemplativo à Mãe de Deus e nossa e pedir que ela interceda por nós e nos ajude a cultivar em nosso coração os sentimentos que havia em Cristo Jesus (cf. Fl 2, 5-11). Não haja lugar em nosso coração para o fechamento, para a discriminação, para o ódio e desejo de vingança, para a busca de lucro e sucesso a qualquer preço. Que a Paz, fruto da Justiça, encontre guarida dentro de nós e ao redor de nós.

A imagenzinha negra, pequena e simples de Aparecida nos recorde o compromisso com os quilombolas, com as nações indígenas, com os marginalizados, com os Sem-Terra e Sem-Teto, com os milhões de pobres que estão descendo cada vez à cova da morte que os ricaços e dominadores de nosso País estão lhes abrindo. Que as bancadas da Bala, da Bíblia e do Boi, que foram reforçadas na última eleição, não nos tirem a esperança, o alimento, os direitos de cidadãos e de filhos e filhas do mesmo Pai.

Finalmente, que neste dia também dedicado às crianças, nosso coração se abra ao cuidado e carinho para com esses pequeninos tão amados por Nosso Senhor, muitas vezes vitimados por abusos e maus tratos de adultos irresponsáveis e maldosos. Peçamos a Maria, a Virgem humilde e simples de Nazaré, nos dê aquela simplicidade e candura que caracterizam o coração da criança.

 

Ó mãe da nossa pátria,

Escuta a nossa voz:

Teus olhos compassivos

Se voltam para nós.

 

Tu és nosso socorro

Em nossas aflições;

Guarda junto do teu

Os nossos corações.

 

Louvor e honra ao Filho

Que pela Virgem vem;

No Espírito és o brilho

Do Pai eterno. Amém.

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Mãe do Céu morena, / Senhora da América Latina.

De olhar e caridade tão divina, / de cor igual à cor de tantas raças.

 

Virgem tão serena, / Senhora destes povos tão sofridos.

Patrona dos pequenos e oprimidos, / derrama sobre nós as tuas graças.

 

Derrama sobre os jovens tua luz, / aos pobres vem mostrar o teu Jesus

Ao mundo inteiro traz o teu amor de Mãe.

Ensina quem tem tudo a partilhar, / ensina quem tem pouco a não cansar

E faz o nosso povo caminhar em paz.

Derrama a esperança sobre nós, / ensina o povo a não calar a voz.

Desperta o coração de quem não acordou.

Ensina que a justiça é condição / de construir um mundo mais irmão.

E faze o nosso povo conhecer Jesus.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Sim ao amor e à unidade; não à dominação e ao preconceito

aureliano, 05.10.18

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27º Domingo do Tempo Comum [07 de outubro 2018]

   [Mc 10,2-16]

O ser humano é chamado, no amor, a realizar-se como pessoa. Porém essa realização não se dá sem a colaboração do outro que lhe diz quem ele é e por onde está caminhando. Ele deve realizar um encontro com alguém que seja capaz de comunhão com ele. É aí que se dará um diálogo aberto e nobre para, juntos, descobrirem a plenitude de sua vocação.

Quando os fariseus, cheios de maldade e de dúvidas também, fazem a Jesus aquela pergunta crucial sobre o divórcio, ele responde com maestria remetendo-se à ordem da Criação: “Desde o começo da criação, Deus os fez homem e mulher. Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e os dois serão uma só carne. Assim já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe”.

Jesus quer dizer que a separação do casal não faz parte do projeto original de Deus. Homem e mulher foram criados em mesmo nível de igualdade. Para viverem juntos, constituindo família, segundo sua vocação, realizando-se no que fazem e vivem.

Aqui entra um elemento fundamental: Deus não fez o homem superior à mulher. Nem vice-versa. Jesus condena essa atitude e quer que todos tenham a mesma dignidade e igualdade nas relações. Jesus desautoriza explicitamente todo autoritarismo machista que permitia ao homem “despedir a mulher por qualquer motivo”.

Na verdade havia interpretações divergentes relativas a esse tema entre as duas escolas mais famosas do judaísmo de então: a de Hillel, mais liberal em relação ao divórcio, permitindo, por exemplo, que o marido poderia pedir carta de divórcio quando a mulher não cozinhasse de acordo com seu gosto, ou quando ele gostasse mais de outra. Já a escola de Shammai, mais rigorosa, só admitia o divórcio em caso de adultério ou má conduta da mulher. À mulher restava recorrer para separação se o marido tivesse contraído a lepra ou exercesse um ofício repugnante.

Por aí se vê que a discussão não era simples. E os fariseus ficavam meio engasgados diante de tamanho impasse. Queriam saber a opinião de Jesus. Ao invocar o projeto original de Deus, a Criação, Jesus convida a uma reflexão mais profunda. Não se trata somente de continuar com a mulher ou abandoná-la. Em primeiro lugar trata-se de perceber que Deus os fez homem e mulher. São iguais perante Deus. Depois é preciso notar que o casamento é um projeto divino. É um dom para a humanidade. É o cuidado de um pelo outro e de ambos pelos filhos. Não se pode invocar a lei para justificar projetos egoístas. A Lei que deve prevalecer no coração humano é a Lei do amor.

O sonho de Deus é que o casal entre num projeto de vida estável e indissolúvel. O divórcio não faz parte do projeto do Pai, porque ele traz em si as marcas da dor, do golpe, da ferida quase incurável, da morte. As facilidades oferecidas por Moisés “por causa da dureza de vossos corações” estão em alta, nos últimos tempos. Sabemos por experiência que, sempre que o egoísmo prevalece, o sofrimento intensifica-se na vida humana. Mas todas as vezes que o amor-ágape encontra guarida no coração humano, o sofrimento é minimizado pelo alento da generosidade, do cuidado e do perdão.

Cabe aqui levar em consideração os casos de fracasso no casamento. Podemos dizer que não faz parte do projeto ideal de Deus. Mas a continuidade da relação por vezes se torna insustentável. Quando o egoísmo toma conta de uma parte ou de ambas, a situação vai se tornando insuportável, chega a ser desumana. Sem mencionar aquelas situações em que uma das partes é, simplesmente, abandonada (com os filhos). Se essa parte fiel, sadia, encontra amparo de alguém que valoriza, que respeita, que cuida devemos nos atirar confiantes nos braços da providência e da misericórdia divinas. Mas sabendo sempre que a questão da separação do casal não deve estar sempre sobre a mesa, como insistem as telenovelas. O casal que se faz discípulo de Jesus empenha todas as forças para levar adiante essa relação que significa o amor eterno que Deus tem por todos nós. Amor manifestado na entrega de seu Filho Unigênito pela nossa salvação. Amor expresso na entrega de Cristo pela sua Igreja.

Cabe considerar também a necessidade de acolhermos e oferecermos nosso ombro aos casais recasados. Eles não estão excomungados, não foram expulsos da Igreja. Estão em situação irregular, mas continuam em comunhão eclesial. Devem ser acolhidos. Devem participar da celebração, dos serviços da Igreja. Se a Igreja lhes retira o direito de receber a comunhão é porque “seu estado e condição de vida contradizem objetivamente a união de amor entre Cristo e a Igreja, significada e atualizada na eucaristia” (São João Paulo II). Mas isso não autoriza ninguém condená-los, discriminá-los, rejeitá-los. Precisam ser acolhidos e amados em sua nova condição. É preciso ter para com eles o espírito de Jesus.

Escutemos o Papa Francisco: “Quanto às pessoas divorciadas que vivem em uma nova união, é importante fazer-lhes sentir que fazem parte da Igreja, que ‘não estão excomungadas’ nem são tratadas como tais, porque sempre integram a comunhão eclesial. Estas situações ‘exigem um atento discernimento e um acompanhamento com grande respeito, evitando qualquer linguagem e atitude que as faça sentir discriminadas e promovendo a sua participação na vida da comunidade. Cuidar delas não é, para a comunidade cristã, um enfraquecimento da sua fé e do seu testemunho sobre a indissolubilidade do matrimônio; antes, ela exprime precisamente neste cuidado a sua caridade” (Amoris Laetitia, 243).

“Essa sublime vocação do matrimônio indissolúvel é hoje fonte de violentas críticas à Igreja. Que fazer com os que fracassam? Objetivamente falando, sem inculpar ninguém – pois de culpa só Deus entende, e perdoa – devemos constatar que há fracassos, e que fica muito difícil celebrar um “sinal eficaz do amor inquebrantável de Jesus” na presença de um matrimônio desfeito... Por isso, a Igreja não reconhece como sacramento o casamento de divorciados. Teoricamente, se poderia discutir se o segundo casamento não pode ser aceito como união não-sacramental (como se faz na Igreja Ortodoxa). E observe-se que muitos casamentos em nosso meio são, propriamente falando, inválidos, porque contraídos sem suficiente consciência ou intenção; poderiam, portanto, ser anulados (como se nunca tivessem existido). Em todo caso, o matrimônio cristão, quando bem conduzido em amor inquebrantável, é uma forma de seguir Jesus no caminho do dom total” (Pe. J. Konings).

O que importa aqui é nos colocarmos diante do Pai como a criança, porque “o Reino de Deus é dos que são como elas”. Ou seja, em qualquer circunstância, é preciso de nos colocarmos diante do Pai com o coração aberto, com disponibilidade de alma, desarmados, confiantes na misericórdia d’Ele, como aprendizes, com transparência e sinceridade de coração.

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TRÊS PALAVRAS MÁGICAS PARA FAZER O CASAMENTO DURAR

Papa Francisco esclarece que o "para sempre" não é só questão de duração. "Um casamento não se realiza somente se ele dura, sua qualidade também é importante. Estar juntos e saber amar-se para sempre é o desafio dos esposos".

E fala sobre a convivência matrimonial: "Viver juntos é uma arte, um caminho paciente, bonito e fascinante (…) que tem regras que se podem resumir exatamente naquelas três palavras: 'posso?', 'obrigado' e 'desculpe'".

"Posso? é o pedido amável de entrar na vida de alguém com respeito e atenção. O verdadeiro amor não se impõe com dureza e agressividade. São Francisco dizia: 'A cortesia é a irmã da caridade, que apaga o ódio e mantém o amor'. E hoje, nas nossas famílias, no nosso mundo amiúde violento e arrogante, faz falta muita cortesia."

"Obrigado: a gratidão é um sentimento importante. Sabemos agradecer? (…) É importante manter viva a consciência de que a outra pessoa é um dom de Deus, e aos dons de Deus diz-se 'obrigado'. Não é uma palavra amável para usar com os estranhos, para ser educados. É preciso saber dizer 'obrigado' para caminhar juntos."

"Desculpe: na vida cometemos muitos erros, enganamo-nos tantas vezes. Todos. Daí a necessidade de utilizar esta palavra tão simples: 'desculpe'. Em geral, cada um de nós está disposto a acusar o outro para se desculpar. É um instinto que está na origem de tantos desastres. Aprendamos a reconhecer os nossos erros e a pedir desculpa. Também assim cresce uma família cristã.

Finalmente, o Papa acrescenta com bom humor: "Todos sabemos que não existe uma família perfeita, nem o marido ou a mulher perfeitos. Isso sem falar da sogra perfeita…".
E conclui: "Existimos nós, os pecadores. Jesus, que nos conhece bem, ensina-nos um segredo: que um dia não termine nunca sem pedir perdão, sem que a paz volte à casa. Se aprendemos a pedir perdão e a perdoar aos outros, o matrimônio durará, seguirá em frente" - https://pt.aleteia.org/2014/03/12

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN