Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

aurelius

aurelius

Ultimidade e gratuidade do discípulo de Jesus

aureliano, 27.08.22

22º Domingo do Tempo Comum [28 de agosto de 2022]

[Lc 14,1.7-14]

O evangelho deste domingo nos mostra duas atitudes reveladoras do interior do discípulo do Reino: escolha dos lugares e escolha dos convidados.

O contexto do evangelho é o da continuidade da caminhada de Jesus para Jerusalém. No caminho o Mestre visita as casas de algumas pessoas. Hoje ele vai à casa de um fariseu a convite deste para uma refeição. E era observado. Mas ele também observava!

Os relatos do evangelho que tratam das refeições de que Jesus participava são interpretadas pelos exegetas como referentes ao Banquete Eucarístico. O texto quer, pois, iluminar as assembleias eucarísticas da comunidade cristã. Certamente havia jogos de interesses, troca de favores escusos e discriminações nas comunidades. Jesus oferece orientações seguras ao discípulo do Reino: é preciso viver na humildade, no serviço generoso e no cuidado para com os pequeninos.

A escolha dos lugares: Aqui Jesus pede aos discípulos que deixem de lado a arrogância, a busca do poder, a competição, o prestígio, o jogo de interesse. É preciso buscar o último lugar. Ou seja: cada qual deve procurar servir onde está. Não se pode viver à cata de primeiros lugares, disputando, competindo, derrubando os outros em busca de sucesso, de poder e de destaque social. O discípulo de Jesus deve aprender dele a “descer”, a colocar-se no último lugar (cf. Fl 2,5-11). O lugar de Jesus é o último. E nós queremos estar lá onde ele está. Ademais, não é o lugar que torna a pessoa importante, mas é a pessoa que torna o lugar importante. É a pessoa que faz o lugar!  E, onde a pessoa estiver, deve lançar pontes para construir fraternidade, diálogo, paz, buscando sempre o bem de todos, particularmente para os pequeninos do Reino de Deus.

A escolha dos convidados: Unido ao jogo de interesse e competição pelos primeiros lugares, está esse outro ensinamento de Jesus: é preciso ajudar a quem precisa sem esperar retorno, reconhecimento, troca. Jesus não está condenando as relações familiares e amistosas. O que ele condena é a atitude de priorizar essas relações em detrimento dos pobres. Estes devem ocupar prioridade em nossas ações. Pois o risco é passar a vida inteira fazendo jogos de trocas de afetos e favores com amigos e familiares, sem jamais tirar um tempo para presença gratuita e serviçal junto aos pobres que não têm como retribuir. Muitas vezes, enquanto a pessoa tem saúde e bens, estamos ali todos os dias para usufruir de suas benesses. Mas quando adoece ou precisa de cuidados gratuitos e generosos, não queremos mais nem notícias.

Nunca podemos nos esquecer de que nossa missão neste mundo é introduzir no meio em que vivemos o modo de pensar e de viver de Jesus de Nazaré. Isto se dá na medida em que nosso modo de viver e de pensar se sustenta numa “vida escondida com Cristo em Deus” (Cl 3,3).

O Papa Francisco, na pequena ilha de Lampedusa, exortava: “A cultura do bem-estar nos faz insensíveis aos gritos dos demais”. “Caímos na globalização da indiferença”. “Perdemos o sentido da responsabilidade”. Estamos vivendo uma cultura da indiferença. Ou seja, há uma cultura antievangélica que insiste na necessidade da competição, reforçando o individualismo, a busca frenética do estar bem contraposto ao fazer o bem. O que conta na vida é o interesse pessoal. O outro me interessa enquanto me dá lucro, possibilidade, vantagem.

Guardemos esta palavra de Jesus: “Quando deres uma festa, chama pobres, estropiados, coxos, cegos; feliz serás, então, porque eles não têm com que te retribuir. Serás, porém, recompensado na ressurreição do justos” (Lc 14,13-14). A opção pelos pobres não é invenção de teólogos da libertação, como afirmam alguns. Foi a opção de Jesus! “A opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós, para enriquecer-nos com sua pobreza” (cf. 2Cor 8,9), afirmou Bento XVI na Conferência de Aparecida. Papa Francisco fala da necessidade de uma “Igreja pobre para os pobres”.

Sintetizando, podemos dizer que a mensagem do evangelho de hoje é saber receber de graça (humildade); dar de graça (gratuidade); nada de prepotência nem de autossuficiência.

Para refletir: com que interesse me aproximo dos outros e defendo certas bandeiras ideológicas e partidárias? Procuro dar ou receber? Estou interessado pelo bem da pessoa ou nos bens dela?

*Queremos deixar nosso abraço carinhoso e agradecido a todos os nossos incansáveis catequistas neste domingo a eles dedicado. Há muitas mães e pais de família, rapazes e moças, homens e mulheres que abdicam de um merecido descanso e lazer para se dedicarem ao serviço de catequese em nossas comunidades. São colaboradores dos pais e mães na educação de seus filhos. São merecedores de todo nosso respeito e reconhecimento. Catequizar é fazer ecoar o amor de Deus no coração do catequizando. O catequista tem um papel preponderante na comunidade: ele ajuda o catequizando a conhecer mais profundamente e a seguir a Jesus na comunidade cristã. Nossos dedicados catequistas fazem um bem enorme às nossas comunidades pela sua dedicação, pelo seu testemunho, pelo empenho para que nossas crianças, adolescentes, jovens e adultos se comprometam com Jesus e seu Reino. Obrigado, catequistas!

----------xxxxx----------

Hoje celebramos a Memória de Santo Agostinho. Rezemos com ele esta linda oração:

“Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova… Tarde Te amei! Trinta anos estive longe de Deus. Mas, durante esse tempo, algo se movia dentro do meu coração… Eu era inquieto, alguém que buscava a felicidade, buscava algo que não achava… Mas Tu Te compadeceste de mim e tudo mudou, porque Tu me deixaste conhecer-Te. Entrei no meu íntimo sob a Tua Guia e consegui, porque Tu Te fizeste meu auxílio.

Tu estavas dentro de mim e eu fora… “Os homens saem para fazer passeios, a fim de admirar o alto dos montes, o ruído incessante dos mares, o belo e ininterrupto curso dos rios, os majestosos movimentos dos astros. E, no entanto, passam ao largo de si mesmos. Não se arriscam na aventura de um passeio interior”. Durante os anos de minha juventude, pus meu coração em coisas exteriores que só faziam me afastar cada vez mais d’Aquele a Quem meu coração, sem saber, desejava… Eis que estavas dentro e eu fora! Seguravam-me longe de Ti as coisas que não existiriam senão em Ti. Estavas comigo e não eu Contigo…

Mas Tu me chamaste, clamaste por mim e Teu grito rompeu a minha surdez… “Fizeste-me entrar em mim mesmo… Para não olhar para dentro de mim, eu tinha me escondido. Mas Tu me arrancaste do meu esconderijo e me puseste diante de mim mesmo, a fim de que eu enxergasse o indigno que era, o quão deformado, manchado e sujo eu estava”. Em meio à luta, recorri a meu grande amigo Alípio e lhe disse: “Os ignorantes nos arrebatam o céu e nós, com toda a nossa ciência, nos debatemos em nossa carne”. Assim me encontrava, chorando desconsolado, enquanto perguntava a mim mesmo quando deixaria de dizer “Amanhã, amanhã”… Foi então que escutei uma voz que vinha da casa vizinha… Uma voz que dizia: “Pega e lê. Pega e lê!”.

Brilhaste, resplandeceste sobre mim e afugentaste a minha cegueira. Então corri à Bíblia, abri-a e li o primeiro capítulo sobre o qual caiu o meu olhar. Pertencia à carta de São Paulo aos Romanos e dizia assim: “Não em orgias e bebedeiras, nem na devassidão e libertinagem, nem nas rixas e ciúmes. Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo” (Rm 13,13s). Aquelas Palavras ressoaram dentro de mim. Pareciam escritas por uma pessoa que me conhecia, que sabia da minha vida.

Exalaste Teu Perfume e respirei. Agora suspiro por Ti, anseio por Ti! Deus… de Quem separar-se é morrer, de Quem aproximar-se é ressuscitar, com Quem habitar é viver. Deus… de Quem fugir é cair, a Quem voltar é levantar-se, em Quem apoiar-se é estar seguro. Deus… a Quem esquecer é perecer, a Quem buscar é renascer, a Quem conhecer é possuir. Foi assim que descobri a Deus e me dei conta de que, no fundo, era a Ele, mesmo sem saber, a Quem buscava ardentemente o meu coração.

Provei-Te, e, agora, tenho fome e sede de Ti. Tocaste-me, e agora ardo por Tua Paz. “Deus começa a habitar em ti quando tu começas a amá-Lo”. Vi dentro de mim a Luz Imutável, Forte e Brilhante! Quem conhece a Verdade conhece esta Luz. Ó Eterna Verdade! Verdadeira Caridade! Tu és o meu Deus! Por Ti suspiro dia e noite desde que Te conheci. E mostraste-me então Quem eras. E irradiaste sobre mim a Tua Força dando-me o Teu Amor!

E agora, Senhor, só amo a Ti! Só sigo a Ti! Só busco a Ti! Só ardo por Ti!…

Tarde te amei! Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu Te amei! Eis que estavas dentro, e eu, fora – e fora Te buscava, e me lançava, disforme e nada belo, perante a beleza de tudo e de todos que criaste. Estavas comigo, e eu não estava Contigo… Seguravam-me longe de Ti as coisas que não existiriam senão em Ti. Chamaste, clamaste por mim e rompeste a minha surdez. Brilhaste, resplandeceste, e a Tua Luz afugentou minha cegueira. Exalaste o Teu Perfume e, respirando-o, suspirei por Ti, Te desejei. Eu Te provei, Te saboreei e, agora, tenho fome e sede de Ti. Tocaste-me e agora ardo em desejos por Tua Paz!” (Santo Agostinho, Confissões 10, 27-29).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

As consequências da profissão de fé

aureliano, 22.08.20

21º Domingo do TC - A - 23 de agosto.jpg

21º Domingo do Tempo Comum [23 de agosto de 2020]

[Mt 16,13-20]

Este relato do evangelho de Mateus é um marco muito importante, pois mostra dois modos de compreender a pessoa de Jesus: um modo confuso (messias milagreiro, resposta para todos os problemas); e uma confissão clara: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (messianidadade de Jesus). Pedro, representando todos os discípulos, estabelece com sua resposta, uma nova fase no seguimento de Jesus. Com isso Jesus afasta a falsa concepção messiânica que habitava o coração dos fariseus, saduceus e mesmo dos discípulos. Demonstra que sua messianiadade se manifesta no sofrimento da cruz como entrega de sua vida, passagem "necessária” para a glória da ressurreição (cf. Mt 16,21-28).

A confissão de Pedro brotou da pergunta de Jesus a respeito da compreensão que tinham de sua própria identidade: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Pedro, não pela própria força, mas por inspiração do Alto, faz a profissão de fé: “Tu és o Filho do Deus vivo”. A fé é dom do Pai que deve ser cultivado por aquele que crê pela relação de intimidade com o Mestre e Senhor.

Essa fé proclamada por Pedro precisa continuar ressoando dentro de nós. Que significado tem para nós confessarmos que Jesus é o Filho de Deus? Que lugar ele ocupa em minha vida, em minhas decisões, em minhas escolhas? Que sentido tem para minha vida ler a bíblia, ir ao templo, participar da celebração, fazer oração? A minha vida mudou a partir de minha fé? Minha oração me torna mais amável, mais solidário, mais comprometido com os pobres, mais respeitoso com os irmãos, com minha família?

Somos pessoas apaixonadas por Jesus mesmo no meio de indiferenças, injustiças, maldades? Continuamos fiéis a ele também quando a vida sorri para nós? As pessoas com as quais convivemos, trabalhamos podem perceber, notar, ver que realmente acreditamos nele? Nossas atitudes estão no caminho da coerência de vida, na simplicidade, na humildade, na honestidade, no gesto de misericórdia?

Fazemos caminho de discipulado buscando a conversão do coração? Procuramos ver a vida como Jesus? Conseguimos enxergar a imagem dele nos excluídos, nos pobres, nos doentes, nas crianças, nos idosos?

“Seguimos a Jesus colaborando com ele no projeto humanizador do Pai, ou seguimos pensando que o mais importante do cristianismo é preocupar-nos exclusivamente com nossa salvação, com nosso bem-estar? Estamos convencidos de que o modo de seguir a Jesus é viver cada dia fazendo a vida mais humana e mais esperançosa para todos?

Vivemos o domingo cristão celebrando a ressurreição de Jesus, ou organizamos nosso fim de semana vazio de sentido cristão? Aprendemos a encontrar a Jesus no silêncio do coração, ou sentimos que nossa fé vai-se apagando, afogada pelo ruído e vazio que há dentro de nós?

Cremos em Jesus ressuscitado que caminha conosco cheio de vida? Vivemos acolhendo em nossas comunidades a paz que deixou como herança aos seus seguidores? Cremos que Jesus nos ama com um amor que nunca acabará? Cremos em sua força renovadora? Sabemos ser testemunhas do mistério de esperança que levamos dentro de nós?” (Pe. José Antônio Pagola).

---------xxxxx----------

CONTINUANDO A REFLEXÃO...

A profissão de fé de Pedro é a base da comunidade cristã: "Tu és o Cristo, o filho de Deus vivo". É nessa fé que a Igreja se firma e caminha. É o Espírito Santo que sustenta a caminhada da Igreja. Ela não se instituiu sobre "carne e sangue", mas no Amor gratuito do Pai revelado na entrega livre do Filho pela salvação da humanidade (cf. Jo 10,18).

As "chaves do Reino" que são confiadas a Pedro devem sempre abrir as cadeias e algemas daqueles que estão dominados pelo mal. Quanta gente presa nas amarras da mentira, da ambição, da corrupção, do ódio, do medo, do preconceito, da enganação! Nosso mundo precisa, cada vez mais,  das "chaves do Reino" para abrir a mais partilha, mais sentido de vida, mais perdão, mais fraternidade e compreensão.

Pedro foi encarcerado por causa da fé! Levou às últimas consequências sua profissão de fé: "Tu és o Cristo". Paulo também foi preso, ameaçado e perseguido pelos de dentro e pelos de fora. Mas levou até o fim sua missão: "Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. (...) O Senhor me assistiu e me revestiu de forças, a fim de que por mim a mensagem fosse plenamente proclamada e ouvida por todas as nações" (2Tm 4, 6-7.17).

Essa profissão de fé proclamada por Pedro e repetida por nós todos os dias precisa encontrar ressonância dentro de nós e em nossa vida. Há muita gente pregando por aí a doutrina católica ou cristã, mas distanciada e descomprometida com Jesus Cristo. Uma “ortodoxia” que não nos compromete com Jesus de Nazaré, morto e ressuscitado, não tem sentido. É vazia e perigosa. Não podemos perder de vista aquelas palavras do juízo final: “Ao que lhes responderá o rei: ‘Em verdade vos digo: cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes’” (Mt 25,40).

Não adianta dizer que Jesus é o Senhor se Ele não tem espaço no meu coração, não é o centro da minha vida. Não adianta dizer que Jesus é o Mestre se não o sigo, se não procuro viver seu mandamento de amar uns aos outros, se vivo de costas para Ele, se não me faço discípulo dele. Não adianta proclamar que Jesus é o Salvador, se a vida e o ensinamento dele não são fundamento da minha vida.

Crer é assumir uma atitude de adesão a Jesus. É a busca de uma vida que se conforma cotidianamente à vida dele. É deixar-se seduzir por Ele na conversão cotidiana, transformando a maneira de pensar e de agir (cf. Rm 12,1).

Podemos nos perguntar: até que ponto damos conta de sustentar nossa fidelidade ao Evangelho, levando às últimas consequências nosso batismo? O que é mesmo que nos faz desanimar, abandonar a missão, a comunidade? O "conteúdo" de nossa vida é Jesus Cristo? Ou são as vaidades e posses da sociedade capitalista e consumista? O que preciso deixar e o que preciso abraçar com mais vigor para ser verdadeiro discípulo de Jesus?

*Neste dia dedicado às(aos) catequistas, queremos abraçar a todos(as) pelo serviço generoso de fazer ecoar o amor de Deus no coração de nossas crianças e jovens. Continuem firmes nesse caminho, pois mais do que busca de realização pessoal, vocês estão ajudando nossas famílias a encontrar Aquele que dá o verdadeiro sentido à vida. Jamais abandonem a Palavra de Deus que é fonte viva e eficaz para sua vida, em primeiro lugar, e para os catequizandos. Vale a pena “perder o tempo” (a vida) para doá-lo em favor de nossas crianças e jovens. Deus fortaleça cada catequista, sobretudo nesse tempo de pandemia em que se faz necessário muita criatividade e um jeito novo para tocar o coração dos catequizandos. Diz o Papa Francisco: “Quem é o catequista? É aquele que guarda e alimenta a memória de Deus; guarda-a em si mesmo e sabe despertá-la nos outros”.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

A porta é estreita, mas continua aberta

aureliano, 23.08.19

21º domingo do TC - 25 de agosto - C.jpg

21º Domingo do Tempo Comum [25 de agosto de 2019]

[Lc 13,22-30]

“Esforçai-vos por entrar pela porta estreita”. Estas palavras do divino Mestre nos remetem a Jo 10,9: “Eu sou a porta: quem entrar por mim será salvo”. Portanto, a porta estreita pela qual devem passar aqueles que buscam a salvação é o próprio Jesus. Não há outra porta nem outro caminho: “Eu sou o caminho”, afirmara Jesus em outro lugar. Entrar pela “porta estreita” é seguir Jesus, é confiar no Pai, é voltar-se, com compaixão, para os pequenos e pobres.

O relato deste domingo quer nos mostrar que o ser cristão não é um meio mágico de salvação. Esta é o resultado do encontro entre esforço humano e o dom de Deus (cf. Mt 7,13-14). Pensar que seguir uma religião, praticar determinados ritos, frequentar o templo são atitudes suficientes para se salvar, é ledo engano. Uma religião que não nos compromete eticamente com o mundo, com a transformação social, com o cuidado para com o planeta e com o ser humano pode ser uma religião falsa. A gente pode estar caminhando para ouvir aquelas duras palavras: “Não vos conheço. Afastai-vos de mim vós que praticais a iniquidade”.

A “porta estreita” está relacionada com Mt 25,31-46: “Tudo o que fizerdes a um destes meus irmãos mais pequeninos foi a mim que o fizestes”. Quem quer entrar na vida de Deus precisa abrir o coração para o exercício da caridade e da misericórdia. Esse é, sem dúvida, o caminho da salvação. Pois salvação não é uma realidade do além, mas uma dinâmica que já começa aqui. Quem entra pela “porta estreita”, quem procura perfazer um caminho de salvação, preocupa-se com os irmãos sofredores, “caminha na justiça e não engana o semelhante” (Sl 15), procura viver com fidelidade sua vocação na família, no trabalho, na consagração. E, consequemente, gera uma realidade de “vida eterna” ao seu redor. “A vida eterna é esta: que conheçam a ti, ó Pai, como único Deus verdadeiro e àquele que enviaste, Jesus Cristo” (Jo 17,3).

-------xxx-------

A PORTA É ESTREITA E DEUS NÃO QUER NINGUÉM DE FORA

A curiosidade com o número dos eleitos do Reino costuma preocupar algumas pessoas. Mas Jesus deixa claro no evangelho de hoje que isso não importa. O que importa mesmo é a conversão, esforçar-se para entrar e se empenhar em manter-se dentro. A festa é para todos. A porta continua aberta; mas num determinado momento ela será fechada.

Há alguns grupos religiosos que insistem em afirmar que basta “entregar” tudo a Jesus e cruzar os braços. O Evangelho mostra outro caminho: é preciso esforço, empenho pessoal, seguimento de Jesus ”rumo a Jerusalém” pela “porta estreita”. A eleição não corresponde a mérito humano, mas à graça de Deus. Diante do chamado de Deus, é preciso ouvir, converter-se, esforçar-se para entrar pela “porta estreita”.

É bom lembrar também que a fé nunca é conquistada para sempre. É como o maná do deserto: se for guardado até a manhã seguinte, apodrece. Quem não retoma todos os dias o trabalho de responder à Palavra com uma autêntica conversão, gritará em vão: “Senhor, eu fui à missa, participei dos movimentos da igreja...!” O que importa não é ir à igreja (templo), mas ser Igreja (cristão). Vai-se à igreja para celebrar e se fortalecer para ser Igreja, isto é, sinal de Jesus no meio do mundo.

A salvação é para todos. Só não o é para aqueles que a rejeitam, fechando-se na sua auto-suficiência e privilégios

O cristão instalado, acomodado, apegado às formalidades das práticas religiosas, não se importando em viver como Jesus viveu no amor e serviço ao próximo, vai ficar de fora se não se converter. Quem serve a Deus só com os lábios e não de coração não será reconhecido pelo Pai. A profundidade da vocação e da missão do cristão está em viver como Jesus viveu.

A questão, portanto, não é de se perguntar se poucos ou muitos serão salvos, mas se estamos dispostos a entrar pela “porta estreita” da desinstalação, da acolhida do amor de Deus, do compromisso com a comunidade, com os pobres.

A palavra de Deus deve nos incomodar e desacomodar!

*Queremos deixar nosso abraço carinhoso a todos os catequistas neste domingo a eles dedicado. Catequizar é fazer ecoar o amor de Deus no coração do catequizando. O catequista tem um papel preponderante na comunidade: ele ajuda o catequizando a entrar no caminho de Jesus dentro da comunidade cristã. Nossos dedicados catequistas têm feito um bem enorme às nossas comunidades pela sua dedicação, pelo seu testemunho, pelo empenho para que nossas crianças, adolescentes, jovens e adultos se comprometam com Jesus e seu Reino. Obrigado, catequistas!

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

As consequências da profissão de fé

aureliano, 25.08.17

Profissão de fé de Pedro.jpg

21º Domingo do Tempo Comum [27 de agosto de 2017]

[Mt 16,13-20]

Este relato do evangelho de Mateus é um marco muito importante, pois mostra dois modos de se compreender a pessoa de Jesus: um modo confuso (messianismo=milagreiro, resposta para todos os problemas); e uma confissão clara: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (messianidadade de Jesus). Pedro, representando todos os discípulos, estabelece com sua resposta, uma nova fase no seguimento de Jesus. Com isso Jesus afasta a concepção messiânica que habitava o coração dos fariseus, saduceus e mesmo dos discípulos. Demonstra que sua messianiadade se manifesta no sofrimento da cruz, passagem "necessária” para a glória da ressurreição (cf. Mt 16,21-28).

A confissão de Pedro brotou da pergunta de Jesus a respeito da compreensão que tinham de sua própria identidade: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Pedro, não pela própria força, mas por inspiração do Alto, faz a profissão de fé: “Tu és o Filho do Deus vivo”. A fé é dom do Pai que deve ser cultivado por aquele que crê.

Esse episódio de Pedro precisa continuar ressoando dentro de nós. Que significado tem para nós confessarmos que Jesus é o Filho de Deus? Que lugar ele ocupa em nossa vida, em nossas decisões, em nossas escolhas? Que sentido tem para minha vida ler a bíblia, ir ao templo, participar da celebração, fazer oração?

Somos pessoas apaixonadas por Jesus mesmo no meio de indiferenças, injustiças, maldades? Continuamos fiéis a ele também quando a vida não sorri para nós? As pessoas com as quais convivemos, trabalhamos podem perceber, notar, ver que realmente acreditamos nele? Nossas atitudes estão no caminho da coerência de vida, na simplicidade, na humildade, no gesto de misericórdia?

Fazemos caminho de discipulado buscando a conversão do coração? Procuramos ver a vida como Jesus? Conseguimos enxergar nos excluídos, nos pobres, nos doentes, nas crianças, nos idosos a imagem dele?

“Seguimos a Jesus colaborando com ele no projeto humanizador do Pai, ou seguimos pensando que o mais importante do cristianismo é preocupar-nos exclusivamente com nossa salvação, com nosso bem-estar? Estamos convencidos de que o modo de seguir a Jesus é viver cada dia fazendo a vida mais humana e mais esperançosa para todos?

Vivemos o domingo cristão celebrando a ressurreição de Jesus, ou organizamos nosso fim de semana vazio de sentido cristão? Aprendemos a encontrar a Jesus no silêncio do coração, ou sentimos que nossa fé vai-se apagando, afogada pelo ruído e vazio que há dentro de nós?

Cremos em Jesus ressuscitado que caminha conosco cheio de vida? Vivemos acolhendo em nossas comunidades a paz que deixou como herança aos seus seguidores? Cremos que Jesus nos ama com um amor que nunca acabará? Cremos em sua força renovadora? Sabemos ser testemunhas do mistério de esperança que levamos dentro de nós?” (Pe. José Antônio Pagola).

______________xxxxxxxxxxx_______________

CONTINUANDO A REFLEXÃO...

A profissão de fé de Pedro é a base da comunidade cristã: "Tu és o Cristo, o filho de Deus vivo". É nessa fé que a Igreja se firma e caminha. É o Espírito que sustenta a caminhada da Igreja. Ela não se instituiu sobre "carne e sangue", mas no Amor gratuito do Pai revelado na entrega livre do Filho pela salvação da humanidade (cf. Jo 10,18).

As "chaves do Reino" que são confiadas a Pedro devem sempre abrir as cadeias e algemas daqueles que estão dominados pelo mal. Quanta gente presa nas amarras da mentira, da ambição, da corrupção, do ódio, do medo, do preconceito, da enganação! Nosso mundo precisa, cada vez mais,  das "chaves do Reino" para que haja mais partilha, mais sentido de vida, mais perdão, mais fraternidade e compreensão.

Pedro foi encarcerado por causa da fé! Levou às últimas consequências sua profissão de fé: "Tu és o Cristo". Paulo também foi preso, ameaçado e perseguido pelos de dentro e pelos de fora. Mas levou até o fim sua missão: "Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. (...) O Senhor me assistiu e me revestiu de forças, a fim de que por mim a mensagem fosse plenamente proclamada e ouvida por todas as nações" (2Tm 4, 6-7.17).

Podemos nos perguntar: até que ponto damos conta de sustentar nossa fidelidade ao Evangelho, levando às últimas consequências nosso batismo? O que é mesmo que nos faz desanimar, abandonar a missão, a comunidade? O "conteúdo" de nossa vida é Jesus Cristo? Ou são as vaidades e posses da sociedade capitalista e consumista? O que preciso deixar e o que preciso abraçar com mais vigor para ser verdadeiro discípulo de Jesus?

*Neste dia dedicado às(aos) catequistas, queremos abraçar a todos pelo serviço generoso de fazer ecoar o amor de Deus no coração de nossas crianças e jovens. Continuem firmes nesse caminho, pois mais do que busca de realização pessoal, vocês estão ajudando nossas famílias a encontrar Aquele que dá o verdadeiro sentido à vida. Jamais abandonem a Palavra de Deus que é fonte viva e eficaz para sua vida, em primeiro lugar, e para os catequizandos: “A catequese será tanto mais rica e eficaz quanto mais ler os textos com a inteligência e o coração da Igreja” (Verbum Domini, 74). Vale a pena “perder o tempo” (a vida) de vocês para doá-lo em favor de nossas crianças e jovens. Deus fortaleça vocês na luta contra os “adversários” do projeto de Jesus.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN