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Jesus, a Igreja e a “lepra” de hoje

aureliano, 10.02.24

6º Domingo do TC - B.jpg

6º Domingo do Tempo Comum [11 de fevereiro de 2024]

[Mc 1,40-45]

O evangelho de Marcos é um livrinho de catequese escrito para as primeiras comunidades cristãs, principalmente provenientes do paganismo, para mostrar quem é Jesus: o Filho de Deus que veio a este mundo para libertar o homem do mal. Jesus tem poder sobre o mal e o pecado. A comunidade pode crer, confiar nele. Ele está acima de qualquer lei tanto imperial como mosaica. Ele é a Lei. Sua vida é a norma de vida para todos, judeus ou pagãos.

O relato do evangelho deste domingo mostra o encontro de Jesus com um leproso. É preciso notar o que significava a lepra para a comunidade judaica. De todas as doenças era a que os judeus consideravam mais impura, pois  destruía a integridade e a vitalidade física do ser humano. Por isso se previa a exclusão da pessoa do convívio social. Na opinião popular essa doença devia ser obra de um espírito muito ruim.

Jesus quebra todas as leis e normas que excluíam o leproso. Jesus é um judeu diferente: ele se torna participante da situação do leproso. É movido de profunda compaixão (termo que não aparece no relato de Lucas e Mateus) por aquele homem que lhe implora a cura, confiando em seu poder: “Se queres podes curar-me”. E Jesus estende a mão e toca aquele homem. O leproso, segundo a Lei, não podia ser tocado por ninguém, não somente pela contaminação da doença, que poderia se proliferar e colocar em risco a comunidade, mas também porque colocava o judeu piedoso fora da comunhão com Deus. A doença era considerada consequência do pecado, sobretudo a lepra, pois destruía a integridade física do ser humano. Mas Jesus tem outra interpretação. Mostra que o culto a Deus passa pela misericórdia para com os sofredores: “Quero misericórdia e não sacrifício”. Esse sinal realizado em favor daquele homem indica que Jesus veio tirar do mundo e do ser humano a “lepra” do pecado que destrói a humanidade, carregando em si mesmo nossas enfermidades (cf. Is 53,3-12).

O relato de hoje nos ajuda a pensar na conciliação de duas realidades na vida de Jesus que precisam ser olhadas por nós com muito carinho: poder e compaixão. A Lei simboliza aqui o poder. Ela existe para o bem da pessoa. Quando unida à misericórdia pode salvar a muitos. Mas sem essa qualidade divina, torna-se excludente e perversa. Jesus não vai consultar os sacerdotes, guardiães da lei daquele tempo, mas restabelece aquele homem na sua necessidade imediata. Depois de beneficiado, então ele vai agradecer e oferecer o sacrifício prescrito. Jesus não se opõe à Lei, mas dá-lhe um novo sentido. Ela deve ser cumprida para o bem de todas as pessoas e não para oferecer privilégios a uns e descarte de outros. O auxílio moradia e os altos salários dos juízes, senadores, deputados, vereadores e executivos, mostram bem como a lei pode ser perversa. Pode estar a serviço de privilégios. Podem dizer que é legal, que está de acordo com a legislação vigente, mas é injusta, iníqua, perversa. Nem tudo que é legal é justo. “O sábado foi feito para o ser humano, e não o ser humano para o sábado” (Mc 2,27). As leis que regem a sociedade são justas enquanto estão a serviço de todos, especialmente dos mais frágeis, desprotegidos, desamparados. Quando elas defendem e fortalecem privilégios e oprimem os pobres, não podem ser executadas.

As consequências para nossa vida de fé indicadas no relato de hoje são bem evidentes. É uma catequese sobre a reintegração dos marginalizados de hoje. Podemos nomear alguns banidos de nossa sociedade: os que vivem nos barracos das favelas e periferias das grandes cidades, os fracassados, os desempregados, os dependentes de droga, as vítimas de uma sociedade do consumismo e do sucesso a qualquer custo, as pessoas com deficiência física ou mental, os idosos e doentes que não mais produzem nem dão lucro, os encarcerados, os aidéticos, os maltrapilhos etc. Enfim, vivemos numa sociedade marcada pela lepra do preconceito e da discriminação.  

Jesus vem nos mostrar um jeito novo, diferente de agir. Ninguém pode ficar ‘de fora’, banido. Nosso coração precisa ser tomado desse poder compassivo que habitava o coração de Jesus para construirmos relações verdadeiramente fraternas e libertadoras. O poder de Jesus foi transmitido a nós. A missão agora é nossa. Muitos ‘leprosos’ estão suplicando pela cura, pela inclusão, pelo reconhecimento, pela acolhida em nosso meio. O que temos feito? Como nos relacionamos com eles? Temos tido coragem de sair de nós mesmos? Ou estamos também acometidos pela ‘lepra’ do comodismo, do egoísmo, do fechamento, da ganância, da sede do poder e do ter que mata em nós todo sentimento de compaixão, de desejo de salvação de todos?

Onde quer que falte alimento, água potável, saneamento básico, casa, medicamento, trabalho, educação, meios necessários para levar uma vida verdadeiramente humana; onde estiver um aflito ou sem saúde, um presidiário ou maltratado, aí deve estar a caridade cristã para consolá-los e reerguê-los oferecendo-lhes auxílio. É essa a missão da Igreja e é isso que o mundo de hoje espera dela. Porque é chamada a ser continuadora da missão de Jesus.

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Estamos em dias de Carnaval. Outrora esse tempo era oportunidade de alegria, de extravasamento sadio. Hoje, de modo geral, tornou-se tempo de preocupação, de violência, de morte. Cada um escolha uma forma de descansar, de rezar, de se preparar para viver com intensidade o tempo litúrgico da quaresma.

E não se esqueçam de que na Quarta-feira de Cinzas, dia de jejum e abstinência, iniciamos a Quaresma, tempo de preparação para celebrarmos a Páscoa da Ressurreição do Senhor. Tempo de conversão para uma vida mais fraterna. Guardemos no coração a palavra do Papa Francisco: “O jejum não é somente privar-se do pão. É também dividir o pão com o faminto”.

Você já sabe qual é o tema da Campanha da Fraternidade desse ano? Pois fique sabendo: “Fraternidade e amizade social”. Com o lema: “Vós sois todos irmãos e irmãs” (Mt 23,8). Não se deixe levar pelo discurso daqueles que se colocam contra a Campanha da Fraternidade, pois estão contra o Evangelho e a Igreja. Cuidado com os falsos profetas e falsos pastores travestidos de ovelhas, mas são lobos devoradores. Coloquemo-nos no seguimento a Jesus que enfrentou a cruz e a morte para nos dar mais vida.

Pai, derrama sobre nós o Espírito Santo, para que, com o coração convertido, acolhamos o projeto de Jesus e sejamos construtores de uma sociedade justa e sem violência, para que, no mundo inteiro, cresça o vosso Reino de liberdade, verdade e paz.

*Dia mundial dos enfermos: não deixar o enfermo na solidão

"Irmãos e irmãs, o primeiro cuidado de que necessitamos na doença é uma proximidade cheia de compaixão e ternura. Por isso, cuidar do doente significa, antes de mais nada, cuidar das suas relações, de todas as suas relações: com Deus, com os outros – familiares, amigos, profissionais de saúde –, com a criação, consigo mesmo. É possível? Sim, é possível; e todos somos chamados a empenhar-nos para que tal aconteça. Olhemos para o ícone do Bom Samaritano (cf. Lc 10, 25-37), contemplemos a sua capacidade de parar e aproximar-se, a ternura com que trata as feridas do irmão que sofre.

Recordemos esta verdade central da nossa vida: viemos ao mundo porque alguém nos acolheu, somos feitos para o amor, somos chamados à comunhão e à fraternidade. Esta dimensão do nosso ser sustém-nos sobretudo no tempo da doença e da fragilidade, e é a primeira terapia que todos, juntos, devemos adotar para curar as doenças da sociedade em que vivemos.

(...) Nesta mudança de época que vivemos, especialmente nós, cristãos, somos chamados a adotar o olhar compassivo de Jesus. Cuidemos de quem sofre e está sozinho, porventura marginalizado e descartado. Com o amor mútuo que Cristo Senhor nos oferece na oração, especialmente na Eucaristia, tratemos das feridas da solidão e do isolamento. E deste modo cooperamos para contrastar a cultura do individualismo, da indiferença, do descarte e fazer crescer a cultura da ternura e da compaixão.

Os doentes, os frágeis, os pobres estão no coração da Igreja e devem estar também no centro das nossas solicitudes humanas e cuidados pastorais. Não o esqueçamos! E confiemo-nos a Maria Santíssima, Saúde dos Enfermos, pedindo-Lhe que interceda por nós e nos ajude a ser artífices de proximidade e de relações fraternas” (Papa Francisco in Mensagem para o dia mundial dos enfermos 2024).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Hesed: bondade misericordiosa de Deus

aureliano, 09.09.22

24º Domingo do TC - C - 11 de setembro.jpg

24º Domingo do Tempo Comum [11 de setembro de 2022]

 [Lc 15, 1-32]

Lucas é o evangelista que destaca o rosto misericordioso do Pai, revelado em Jesus. Um Deus amoroso e misericordioso. A Sagrada Escritura conservou um termo hebraico que quer revelar isso: Hesed, a bondade misericordiosa de Deus. Um amor que excede toda medida. Ainda que sejamos infiéis, Ele continua nos amando. Seu amor não depende de nossos méritos: amor totalmente gratuito e generoso. Uma Hesed, um amor que precisa ecoar dentro de nós e expandir ao mundo. Sobretudo nesses tempos de propagação de relações odiosas, de projeto que defende armar a população, de defesa institucional da dominação do grande sobre o pequeno, do rico sobre o pobre, de progresso e crescimento econômico às custas da eliminação dos pobres e da destruição do meio ambiente. É tempo de Hesed: bondade misericordiosa.

O capítulo 15 de Lucas mostra, através de três parábolas, aquele Pai que não quer perder ninguém. É a concretização de Is 49, 15: “Por acaso uma mulher se esquecerá de sua criancinha de peito? Não se compadecerá ela do filho do seu ventre? Ainda que as mulheres se esquecessem, eu não me esqueceria de ti”. Quem deseja ser cristão de verdade tem nesse evangelho o ensinamento para sua vida. Este capítulo é considerado o coração do Evangelho de Lucas.

A ovelha perdida, a moeda perdida e o filho perdido lembram o grande amor do Pai que sempre está em busca, procura até encontrar. E encontrando, faz festa!

A OVELHA PERDIDA

O pensamento capitalista da sociedade contemporânea jamais concordará com a atitude do pastor: deixar as noventa e nove para buscar uma única que estava perdida. Diria o capitalista: “Ocupa-te com os ‘bons’, com os que ‘rendem’, pois com os outros perdes teu tempo. Enfraquece-os e deixa-os morrer”. Essa mentalidade se faz presente naquela ideia de que o padre ou o agente de pastoral não tem que ficar visitando as vilas e favelas, os empobrecidos que não frequentam a igreja. Devem-se ocupar do grande grupo. Não seria melhor que uma ovelha se perdesse do que o rebanho todo? É a lógica do mercado. Bem lembrada a comparação: o motorista não se preocupa com o que funciona bem no carro, mas com o que está com defeito.

Ainda existem em nós atitudes farisaicas. Gostamos de resolver os ‘casos difíceis’ pela expulsão ou repressão ou mesmo pela eliminação. Já Deus opta pela reconciliação.

A propósito deste tema, em 17 de junho de 2013 o Papa Francisco ensinava: "Quero dizer-lhes algo: No Evangelho é belo o texto que fala do pastor que, quando volta para o redil, se dá conta de que lhe falta uma ovelha; deixa as noventa e nove e vai procurá-la. Vai procurar uma. Mas nós temos uma e nos faltam as noventa e nove! Temos que sair, temos que buscá-las. Nesta cultura, digamos a verdade, temos somente uma, somos minoria. E não sentimos o fervor, o zelo apostólico de sair e procurar as outras noventa e nove?"

A MOEDA PERDIDA

“Uma mulher tinha dez moedas”. Seria bom que a gente conseguisse enumerar as moedas que temos: dons, qualidades, pessoas, virtudes...

“Perde uma moeda”. Identificadas as ‘moedas’, talvez fosse bom ver qual moeda que a gente não poderia ter perdido de jeito nenhum. Não estamos buscando mais as coisas do que as pessoas?

“Acende uma lâmpada...”. Que lâmpada precisamos acender para iluminar os espaços escuros de nossa vida onde perdemos a ‘moeda’? Nas dificuldades e contradições da vida acendemos a luz ou continuamos caminhando na escuridão? Esta lamparina pode ser uma pessoa amiga, a Palavra de Deus, a Oração, a Confissão, a Eucaristia, o exercício das Obras de Misericórdia etc.

“Varre a casa”. Que espaços de nossa vida precisamos varrer? Relações de ódio e vingança, preguiça, comodismo, apegos a coisas e pessoas, fofoca e intriga, vida afetiva desordenada, mentira e desonestidade, corrupção etc.

“Procura cuidadosamente”. Como temos procurado a ‘moeda’ perdida? Há perseverança, concentração, desejo de encontrar o que se perdeu? É uma busca amorosa? Ou sou movido por medo e escrúpulo? O que me move, mesmo, mais profundamente?

“Até encontrar a moeda”. O que é que nos faz desanimar em nossas buscas pelo essencial? Seria bom identificar aquelas coisas ou pessoas que não nos deixam crescer, que nos desestimulam, que desviam nossa atenção do foco principal e fundamental de nossa vida. Pode ser uma relação afetiva desordenada, busca gananciosa pelo dinheiro, fanatismo político-partidário, desvio do evangelho, moralismo doutrinal, o gosto perverso de mentir e de divulgar mentiras (fake news) etc.

“Quando a encontra”. Já encontramos alguma ‘moeda’ significativa em nossa vida? Qual? Quais?

“Reúne as amigas e vizinhas e diz...”. Nossos convidados, as pessoas que frenquentamos, os amigos com os quais nos reunimos, festejamos, que rosto têm? Quem são? O que eles sonham, conversam? Quais são seus principais assuntos? “A boca fala daquilo que está cheio o coração” (Lc 6,45).

“Alegrai-vos comigo!”. O Papa Francisco tem insistindo muito na necessidade de vivermos uma vida cristã marcada pela alegria. “A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus” (EG, 1). Não existe alegria experimentada somente pelo indivíduo. A alegria tende necessariamente a ser partilhada. Experimentamos alegria verdadeira? Com quem partilhamos nossa alegria mais profunda?

“Encontrei a moeda que tinha perdido!”. Que é que estamos procurando e encontrando para deixar como legado, como herança? A alegria da mulher foi a de ter encontrado a moeda que havia perdido. Nosso encontro com o Senhor na oração/celebração tem nos dado verdadeira alegria? Tem nos ajudado na conversão do coração?

O FILHO PERDIDO

O filho mais velho representa aqui o fariseu que contabiliza suas práticas religiosas, mas mantém um coração longe de Deus. Sabe cumprir os mandamentos, mas não sabe amar. Não consegue entender o amor de seu pai para com o filho perdido e encontrado. Não acolhe nem perdoa. Não quer saber de seu irmão. Aliás, nem o reconhece como irmão: “Este teu filho”, diz ao pai. Como se dissesse: “Não é meu irmão”. E o pai se dirige a ele com toda ternura: “Meu filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu”.

O filho mais velho nos interpela, a nós que acreditamos viver juntos do Pai. O que estamos fazendo que não abandonamos a Igreja? Será que não estamos apenas cumprindo ritos e tarefas, talvez com medo de ir para inferno, ou para conseguirmos uma graça, ou apenas por formalidade social e para manter a tradição? “Meu pai era católico... e me batizou na Igreja católica!” E a vida continua como se a fé cristã não fizesse nenhuma diferença no cotidiano.

Precisamos reconhecer a alegria de estarmos sempre na presença de Deus, de podermos experimentar o seu amor. Sejamos como o pai que se alegra com a volta do filho que se afastou. Ajudemos as pessoas a encontrar o caminho de volta para a casa paterna.

Aliás, um elemento significativo das três parábolas deste domingo é a alegria do reencontro. E uma alegria compartilhada com amigos e vizinhos. O único que se aborreceu foi o filho mais velho. Aquele que se julgava dentro de casa, que estava com o Pai. Mas não estava, visto que visava recompensa, e não vivia na gratuidade. Vivia pela lei e não pelo amor.

A alegria da volta à casa do Pai deve ser um distintivo de nossa vida cristã celebrada em comunidade. As ofensas que por vezes ocorrem precisam ser perdoadas para que nossa vida de comunidade possa ser celebrada com mais alegria. Dá o que pensar a observação de Leonardo Boff: “As pessoas de hoje não aceitam mais uma Igreja autoritária e triste, como se fosse ao próprio enterro. Mas estão abertas à saga de Jesus, ao seu sonho e aos valores evangélicos”.

Como lidamos com os afastados da comunidade? Qual tem sido nossa ação missionária junto dos mais pobres e abandonados? Com quem temos sido mais parecidos: com o Pai? Com o filho mais velho? Com o filho mais novo?

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

A compaixão é o rosto do Pai

aureliano, 26.03.22

4º Domingo da Quaresma - 31 de março - C.jpg

4º Domingo da Quaresma [27 de março de 2022]

[Lc 15,1-3.11-32]

O evangelho de hoje situa-se num contexto de dois grupos em torno de Jesus. Por um lado verifica-se a proximidade de Jesus dos publicanos e pecadores. Por outro, estão os escribas e fariseus em constantes críticas a Jesus por acolher essa “gentalha”.

O capítulo 15 de Lucas contém três parábolas que expressam a misericórdia de Deus. A escolhida para hoje, a do Pai misericordioso, que nos ajuda a identificar as intenções de Jesus e daqueles que estão à sua volta.

Não podemos perder de vista os três personagens principais da parábola: o pai, o filho mais novo e o filho mais velho. Aqui Jesus quer mostrar o rosto misericordioso de Deus. Se a gente quer saber quem é Deus, essa parábola no-lo revela.

O filho mais novo: ao longo da história esse personagem ocupou o centro das homilias e reflexões. Tanto é verdade que a parábola recebeu a alcunha de “parábola do filho pródigo”. Acentuou-se muito a atitude “errada” do filho mais novo. Foi um esbanjador, desnaturado, inconsequente. E ainda volta para casa pedindo pão depois de ter esbanjado os bens com sem-vergonhice! O acento sobre os erros do moço obnubilavam o amor do pai.

O filho mais novo tem uma vontade enorme de autonomia, de fazer o que deseja. O grande problema é que ele não o faz em diálogo, mas em ruptura. Rompe com o pai, com o irmão, substituindo-os pelos bens. A busca de autonomia absoluta coloca o ser humano em grande pecado: torna senhor absoluto de si mesmo. Atropela todo mundo à sua volta.

A busca dos bens e o desejo insaciável do consumismo não é outra realidade senão a busca de locupletar-se, de saciar-se totalmente. Algo impossível ao ser humano. Já rezava Santo Agostinho: “Meu coração estará inquieto enquanto não repousar em ti, ó Senhor!”. É preciso deixar espaço para a sede, para a falta, para a insatisfação. Essa “falta” é a brecha pela qual Deus, sentido absoluto de nossa existência, pode entrar em nossa história e nos reconstruir.

O pai: a figura mais importante do relato. Não se importou que o filho o considerasse morto - só se distribui a herança após a morte! Tendo recebido a herança, saiu de casa. E o pai não se lhe opôs em nada. E depois que partira, o aguardava compassivo: “O pai viu-o e, enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço e cobriu-o de beijos” (Lc 15,20).  O abraço, as sandálias, o anel, o banquete, a festa...! Sinais da alegria pelo retorno do filho. Não lhe faz nenhuma cobrança, nenhum acerto de contas. “Este meu filho estava morto e tornou a viver. Estava perdido e foi encontrado”.

Ao invés de aplicar-lhe um corretivo e fazê-lo pensar sobre o que fizera, o pai supera a lógica humana num excesso de misericórdia. Esta consiste precisamente em dar ao outro o que ele não merece. Se quisermos ser pessoas moderadas, justas, podemos e devemos sê-lo. E seremos pessoas boas. Mas se quisermos ser “misericordiosos como o Pai”, transformando as pessoas pelo amor, cultivemos a misericórdia que é um amor em excesso.

É assim que Jesus experimenta Deus. Qualquer teologia ou catequese que não experimenta nem comunica o Deus manifestado nesta parábola e impede as pessoas de experimentar Deus como um Pai respeitoso e bom, que acolhe e perdoa o filho perdido, não provém de Jesus nem transmite a Boa Notícia que Ele pregou.

O filho mais velho: normalmente ficava esquecido nos comentários tradicionais. Sua atitude, na parábola, revela a postura daqueles que estão “dentro de casa”, mas com o coração longe. Cumpridores de normas e regras, sem nenhum sentimento de amor e de fraternidade.

“Esta é a tragédia do filho maior. Nunca saiu de casa, mas seu coração está sempre longe. Sabe cumprir mandamentos, mas não sabe amar. Não entende o amor de seu pai ao filho perdido. Ele não acolhe nem perdoa, não quer saber de seu irmão” (Pe. Antônio Pagola). O retorno do irmão não lhe causa alegria como a seu pai, mas raiva. Fica indignado e recusa-se a “entrar” na festa.

É preciso notar que o pai tem, também para com ele, uma atitude de carinho, de acolhida. Insiste para que “entre”. Manifesta-lhe o motivo da alegria. Esse filho passou toda a vida cumprindo ordens do pai, mas não aprendeu a amar seu irmão. Só tem palavras para diminuir o irmão que errou.

O “filho mais velho” nos interpela a nós que acreditamos viver juntos do Pai. O que fazemos, nós que não “abandonamos” a Igreja? Sabemos compreender quem “saiu”, quem vive na “irregularidade” matrimonial? Compreendemos as fraquezas e misérias de cada um? Como lidamos com os que vivem crise de fé? O que fazemos para atrair ou reconduzir os afastados? E a festa do Pai, fica para quem? Ele não a preparou para todos?

Embora pareça mais integrado do que o filho mais novo, demonstra imaturidade quando manifesta dura competitividade com ele. Nem mesmo com o pai parece estar bem integrado. Mostra-se amargo, murmurador, ressentido, preso em sua própria rigidez e sentimento de inveja. Seu problema não parece ser com a lei, mas com a generosidade.

O passo que precisa ser dado, tanto para o filho mais novo como para o filho mais velho, para aceitação de si, acolhendo as próprias carências e fraquezas, é sempre muito doloroso. Mas altamente fecundo. Sem esse passo, fica-se nas guerras entre irmãos e pais, na busca frenética de “ganhar a guerra”.

Concluindo

“O filho mais novo sonhou felicidade com vida de independência e de liberdade, e voltou espoliado, esfarrapado, faminto e sem dignidade... ‘Longe’ da casa do Pai, não encontrou a felicidade desejada. A fome fez ter saudades da casa do Pai e a lembrança da bondade do Pai o animou a voltar...

O Filho mais velho é um ‘bom filho’, sóbrio, obediente e trabalhador... mas não é um bom irmão. Não aceita a volta do irmão, nem mesmo o amor do Pai, que o acolheu...

Podemos até abandonar a nossa dignidade de filhos. Deus, porém, não abandona a sua missão de Pai.   Deus sai à procura dos perdidos e festeja porque são resgatados... A ação do Pai reflete a atitude de Jesus e deve ser também a nossa” (www.buscandonovasaguas.com).

Esta parábola nos revela que o Pai do céu não é propriedade de ninguém, de nenhuma religião, de nenhuma Igreja. Ele quer salvar a todos. Tem compaixão de todos, indistintamente. A única atitude que Ele pede é de abertura, de acolhida do seu amor.

Nossas atitudes se aproximam mais das atitudes de quem? Do filho mais novo? Do filho mais velho? Do pai?

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

O bom pastor tem compaixão

aureliano, 17.07.21

16º Domingo do TC - B - 18 de julho.jpg

16º Domingo do Tempo Comum [18 de julho de 2021]

   [Mc 6,30-34]

Estamos ainda no capítulo sexto de Marcos. Se o leitor atentar bem, vai perceber que houve um salto em relação aos versículos proclamados no evangelho do último domingo. O texto retoma o envio dos discípulos: a volta da missão. O relato do assassinato do Batista (6,17-28) mostra Herodes oferecendo um banquete de morte. Jesus vem oferecer um banquete de vida.

Jesus propõe aos discípulos, que retornam cansados da missão, um descanso. Esse descanso, porém não é uma ociosidade improdutiva. Mas, pelo entendimento que o autor sagrado tem do deserto, trata-se de uma retirada para um encontro com Deus. Pois deserto, na Sagrada Escritura, é o lugar da luta contra o espírito do mal e do encontro com o Pai, na oração. De qualquer modo, é um lugar de revisão de vida, encontro consigo mesmo, de confronto e luta espiritual. Ajuda a descobrir por que caminhos Deus nos quer conduzir.

Para surpresa do grupo de Jesus, a multidão chegou lá antes deles. O que surpreende ainda mais é a atitude de Jesus. Em vez de expulsar, de maldizer a multidão, de reclamar ‘contra Deus e o mundo’, pois ele e os discípulos estavam em busca de “descansar um pouco”, enche-se de compaixão “porque eram como ovelhas sem pastor”. Jesus nunca decepciona aqueles que o buscam. Tem sempre um gesto, uma palavra que conforta e reanima.

Essa atitude de Jesus é o centro do relato de hoje. Jesus não sabia olhar para ninguém com indiferença. Não suportava ver as pessoas sofrendo. Esse seu jeito de ser entrou no coração das primeiras gerações cristãs. Por isso Marcos recorda esse fato, num tempo em que, certamente, a indiferença e mesmo o cansaço ameaçavam minar a vida da comunidade. Então começam a perceber que Jesus se compadecia das crianças sem carinho, dos enfermos abandonados e sofredores, dos que passavam fome. Estava atento ao que se passava ao seu redor. Não era um alienado e ensimesmado.

Essas atitudes de Jesus levam a comunidade a reconhecê-lo como o Pastor prometido em Ezequiel 34: “Eu mesmo vou buscar meu rebanho para cuidar dele”. Cuida das ovelhas fracas, cura as feridas, conforta as doentes, alimenta as famintas, busca e reconduz as desgarradas e perdidas. É o bom Pastor do Salmo 23 (22) que não abandona “no vale tenebroso” aqueles que a Ele se entregam confiantes.

Esse gesto de Jesus nos insta a olhar com mais cuidado ao nosso redor. Pode ser u’a mãe que não sabe o que fazer com o filho rebelde ou desencontrado. Pode ser um pai desempregado e desiludido. Pode ser uma esposa que não suporta mais a droga na família. Pode ser um jovem decepcionado com os pais. Pode ser uma pessoa perdida em relação ao sentido da vida e à religião. Pode ser uma jovem que ficou grávida e não sabe o que fazer para não ser expulsa de casa ou abandonada pelo namorado. Precisamos estar atentos, compassivamente, como Jesus. As dores e angústias das pessoas estremeciam-lhe a alma, moviam-lhe a entranhas.

Às vezes perdemos tempo e energia discutindo ninharias, falando mal dos outros, ou mesmo envolvidos em questões mesquinhas, enquanto há tantas “ovelhas sem pastor”. Há, pois, necessidade urgente de formarmos lideranças que sejam verdadeiros pastores e pastoras para o povo. Chega de lobos travestidos de ovelhas, de mercenários travestidos de pastores!

A nomenclatura que tanto usamos nas comunidades – pastoral - tem aí sua raiz. Por isso, hoje, o importante não é multiplicar atividades chamando-as de pastoral, mas estar atento para que, os que as realizam, tenham alma de pastor, atitude de pastor: acolhida, liderança e amor até doar a própria vida. É preciso adquirir o “cheiro das ovelhas”. E as “ovelhas” não são apenas as pessoas que frequentam nosso grupo, mas toda pessoa em situação de necessidade.

“Pastoral é conduzir o povo pelo caminho de Deus. É inspirada não pelo desejo de poder, mas pelo espírito de serviço. Jesus não procurou arrebanhar o povo para si. Inclusive, vendo o entusiasmo equivocado, se retirou (Jo 6,14-15). Ele procura levar o rebanho ao Pai, nada mais. Ser pastor não é autoafirmação, mas o dom de orientar carinhosamente o povo eclesial para Deus” (Pe. J. Konings).

Note bem: Uma das razões do celibato consagrado dos religiosos e dos padres é deixá-los mais disponíveis para cuidar das ovelhas sem pastor. Sendo assim, o tempo que gastariam consigo mesmos e com suas coisas, gastam-no com o rebanho que lhes foi confiado. Rezemos para que nossos padres, religiosos e religiosas vivam com alegria sua consagração e se dediquem, com generosidade, ao serviço das ovelhas, principalmente daquelas abandonadas e infelizes, sem medir esforços, sem adiar urgências, sem mediocridade, mas com o espírito de Jesus, Bom Pastor.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Jesus, a Igreja e a “lepra” de hoje

aureliano, 12.02.21

6º Domingo do Tempo Comum [14 de fevereiro de 2021]

[Mc 1,40-45]

O evangelho de Marcos é um livrinho de catequese escrito para as primeiras comunidades cristãs, principalmente provenientes do paganismo, para mostrar quem é Jesus: o Filho de Deus que veio a este mundo para libertar o homem do mal. Jesus tem poder sobre o mal e o pecado. A comunidade pode crer, confiar nele. Ele está acima de qualquer lei tanto imperial como mosaica. Ele é a Lei. Sua vida é a norma de vida para todos, judeus ou pagãos.

O relato do evangelho deste domingo mostra o encontro de Jesus com um leproso. É preciso notar o que significava a lepra para a comunidade judaica. De todas as doenças era a que os judeus consideravam mais impura, pois  destruía a integridade e a vitalidade física do ser humano. Por isso se previa a exclusão da pessoa do convívio social. Na opinião popular essa doença devia ser obra de um espírito muito ruim.

Jesus quebra todas as leis e normas que excluíam o leproso. Jesus é um judeu diferente: ele se torna participante da situação do leproso. É movido de profunda compaixão (termo que não aparece no relato de Lucas e Mateus) por aquele homem que lhe implora a cura, confiando em seu poder: “Se queres podes curar-me”. E Jesus estende a mão e toca aquele homem. O leproso, segundo a Lei, não podia ser tocado por ninguém, não somente pela contaminação da doença, que poderia se proliferar e colocar em risco a comunidade, mas também porque colocava o judeu piedoso fora da comunhão com Deus. A doença era considerada consequência do pecado, sobretudo a lepra, pois destruía a integridade física do ser humano. Mas Jesus tem outra interpretação. Mostra que o culto a Deus passa pela misericórdia para com os sofredores: “Quero misericórdia e não sacrifício”. Esse sinal realizado em favor daquele homem indica que Jesus veio tirar do mundo e do ser humano a “lepra” do pecado que destrói a humanidade, carregando em si mesmo nossas enfermidades (cf. Is 53,3-12).

O relato de hoje nos ajuda a pensar na conciliação de duas realidades na vida de Jesus que precisam ser olhadas por nós com muito carinho: poder e compaixão. A Lei simboliza aqui o poder. Ela existe para o bem da pessoa. Quando unida à misericórdia pode salvar a muitos. Mas sem essa qualidade divina, torna-se excludente e perversa. Jesus não vai consultar os sacerdotes, guardiães da lei daquele tempo, mas restabelece aquele homem na sua necessidade imediata. Depois de beneficiado, então ele vai agradecer e oferecer o sacrifício prescrito. Jesus não se opõe à Lei, mas dá-lhe um novo sentido. Ela deve ser cumprida para o bem de todas as pessoas e não para oferecer privilégios a uns e descarte de outros. O auxílio moradia e os altos salários dos juízes, senadores, deputados, vereadores e executivos, mostram bem como a lei pode ser perversa. Pode estar a serviço de privilégios. Podem dizer que é legal, que está de acordo com a legislação vigente, mas é injusta, iníqua, perversa. Nem tudo que é legal é justo. “O sábado foi feito para o ser humano, e não o ser humano para o sábado” (Mc 2,27). As leis que regem a sociedade são justas enquanto estão a serviço de todos, especialmente dos mais frágeis, desprotegidos, desamparados. Quando elas defendem e fortalecem privilégios e oprimem os pobres, não podem ser executadas.

As consequências para nossa vida de fé indicadas no relato de hoje são bem evidentes. É uma catequese sobre a reintegração dos marginalizados de hoje. Podemos nomear alguns banidos de nossa sociedade: os que vivem nos barracos das favelas e periferias das grandes cidades, os fracassados, os desempregados, os dependentes de droga, as vítimas de uma sociedade do consumismo e do sucesso a qualquer custo, as pessoas com deficiência física ou mental, os idosos e doentes que não mais produzem nem dão lucro, os encarcerados, os aidéticos, os maltrapilhos etc. Enfim, vivemos numa sociedade marcada pela lepra do preconceito e da discriminação.  

Jesus vem nos mostrar um jeito novo, diferente de agir. Ninguém pode ficar ‘de fora’, banido. Nosso coração precisa ser tomado desse poder compassivo que habitava o coração de Jesus para construirmos relações verdadeiramente fraternas e libertadoras. O poder de Jesus foi transmitido a nós. A missão agora é nossa. Muitos ‘leprosos’ estão suplicando pela cura, pela inclusão, pelo reconhecimento, pela acolhida em nosso meio. O que temos feito? Como nos relacionamos com eles? Temos tido coragem de sair de nós mesmos? Ou estamos também acometidos pela ‘lepra’ do comodismo, do egoísmo, do fechamento, da ganância, da sede do poder e do ter que mata em nós todo sentimento de compaixão, de desejo de salvação de todos?

Onde quer que falte alimento, água potável, saneamento básico, casa, medicamento, trabalho, educação, meios necessários para levar uma vida verdadeiramente humana; onde estiver um aflito ou sem saúde, um presidiário ou maltratado, aí deve estar a caridade cristã para consolá-los e reerguê-los oferecendo-lhes auxílio. É essa a missão da Igreja e é isso que o mundo de hoje espera dela. Porque é chamada a ser continuadora da missão de Jesus.

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Estamos em dias de Carnaval. Outrora esse tempo era oportunidade de alegria, de extravasamento sadio. Hoje, de modo geral, tornou-se tempo de preocupação, de violência, de morte. Nesse ano, extraordinariamente, devido à pandemia do coronavírus, as brincadeiras carnavalescas estão interditadas. Pode ser uma excelente oportunidade de se buscar uma interiorização maior do sentido da vida, uma reflexão sobre os conflitos mundiais, uma parada para considerar nossas relações familiares, enfermidades e cuidados dos doentes, diálogo e construção da fraternidade entre nós.

E não se esqueçam de que na Quarta-feira de Cinzas, dia de jejum e abstinência, iniciamos a Quaresma, tempo de preparação para celebrarmos a Páscoa da Ressurreição do Senhor. Tempo de conversão para uma vida mais fraterna. Você já sabe qual é o tema da Campanha da Fraternidade desse ano? Pois fique sabendo: “Fraternidade e diálogo: compromisso de amor”. Com o lema: “Cristo é nossa paz. Do que era dividido, ele fez uma unidade” (Ef 2,14). Não se deixe levar pelo discurso daqueles que se colocam contra a Campanha da Fraternidade, pois estão contra o Evangelho e a Igreja. Coloquemo-nos no seguimento a Jesus que enfrentou a cruz e a morte para nos dar mais vida.

Pai, derrama sobre nós o Espírito Santo, para que, com o coração convertido, acolhamos o projeto de Jesus e sejamos construtores de uma sociedade justa e sem violência, para que, no mundo inteiro, cresça o vosso Reino de liberdade, verdade e paz.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Jesus, a Igreja e a “lepra” de hoje

aureliano, 09.02.18

6º Domingo do TC - B.jpg

6º Domingo do Tempo Comum [11 de fevereiro de 2018]

[Mc 1,40-45]

O evangelho de Marcos é um livrinho de catequese escrito para as primeiras comunidades cristãs, principalmente provenientes do paganismo, para mostrar quem é Jesus: o Filho de Deus que veio a este mundo para libertar o homem do mal. Jesus tem poder sobre o mal e o pecado. A comunidade pode crer, confiar nele. Ele está acima de qualquer lei tanto imperial como mosaica. Ele é a Lei. Sua vida é a norma de vida para todos, judeus ou pagãos.

O relato do evangelho deste domingo mostra o encontro de Jesus com um leproso. É preciso notar o que significava a lepra para a comunidade judaica. De todas as doenças era a que os judeus consideravam mais impura, pois  destruía a integridade e a vitalidade física do ser humano. Por isso se previa a exclusão da pessoa do convívio social. Na opinião popular essa doença devia ser obra de um espírito muito ruim.

Jesus quebra todas as leis e normas que excluíam o leproso. Jesus é um judeu diferente: ele se torna participante da situação do leproso. É movido de profunda compaixão (termo que não aparece no relato de Lucas e Mateus) por aquele homem que lhe implora a cura, confiando em seu poder: “Se queres podes curar-me”. E Jesus estende a mão e toca aquele homem. O leproso, segundo a Lei, não podia ser tocado por ninguém, não somente pela contaminação da doença, que poderia se proliferar e colocar em risco a comunidade, mas também porque colocava o judeu piedoso fora da comunhão com Deus. A doença era considerada consequência do pecado, sobretudo a lepra, pois destruía a integridade física do ser humano. Mas Jesus tem outra interpretação. Mostra que o culto a Deus passa pela misericórdia para com os sofredores: “Quero misericórdia e não sacrifício”. Esse sinal realizado em favor daquele homem indica que Jesus veio tirar do mundo e do ser humano a “lepra” do pecado que destrói a humanidade, carregando em si mesmo nossas enfermidades (cf. Is 53,3-12).

O relato de hoje nos ajuda a pensar na conciliação de duas realidades na vida de Jesus que precisam ser olhadas por nós com muito carinho: poder e compaixão. A Lei simboliza aqui o poder. Ela existe para o bem da pessoa. Quando unida à misericórdia pode salvar a muitos. Mas sem essa qualidade divina, torna-se excludente e perversa. Jesus não vai consultar os sacerdotes, guardiães da lei daquele tempo, mas restabelece aquele homem na sua necessidade imediata. Depois de beneficiado, então ele vai agradecer e oferecer o sacrifício prescrito. Jesus não se opõe à Lei, mas dá-lhe um novo sentido. Ela deve ser cumprida para o bem de todas as pessoas e não para oferecer privilégios a uns e descarte de outros. O auxílio moradia e os altos salários dos juízes, senadores, deputados, vereadores e executivos, mostram bem como a lei pode ser perversa. Pode estar a serviço de privilégios.

As consequências para nossa vida de fé indicadas no relato de hoje são bem evidentes. É uma catequese sobre a reintegração dos marginalizados de hoje. Podemos nomear alguns banidos de nossa sociedade: os que vivem nos barracos das favelas nas grandes cidades, os fracassados, os desempregados, os dependentes de droga, as vítimas de uma sociedade do consumismo e do sucesso a qualquer custo, as pessoas com deficiência, os idosos e doentes que não mais produzem nem dão lucro, os encarcerados, os aidéticos, os maltrapilhos etc. Enfim, vivemos numa sociedade marcada pela lepra do preconceito e da discriminação.  

Jesus vem nos mostrar um jeito novo, diferente de agir. Ninguém pode ficar ´de fora´, banido. Nosso coração precisa ser tomado desse poder compassivo que habitava o coração de Jesus para construirmos relações verdadeiramente fraternas e libertadoras. O poder de Jesus foi transmitido a nós. A missão agora é nossa. Muitos ‘leprosos’ estão suplicando pela cura, pela inclusão, pelo reconhecimento, pela acolhida em nosso meio. O que temos feito? Como nos relacionamos com eles? Temos tido coragem de sair de nós mesmos? Ou estamos também acometidos pela ‘lepra’ do comodismo, do egoísmo, do fechamento, da ganância, da sede do poder e do ter que mata em nós todo sentimento de compaixão, de desejo de salvação de todos?

Onde quer que falte alimento, água potável, casa, medicamento, trabalho, educação, meios necessários para levar uma vida verdadeiramente humana; onde estiver um aflito ou sem saúde, um presidiário ou maltratado, aí deve estar a caridade cristã para consolá-los e reerguê-los oferecendo-lhes auxílio. É essa a missão da Igreja e é isso que o mundo de hoje espera dela. Porque é chamada a ser continuadora da ação de Jesus.

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Neste dia 11/02 celebramos o Dia Mundial do Enfermo. Uma palavrinha do Papa para esse dia pode ser iluminadora e confortadora: "Ao dom de Jesus corresponde o dever da Igreja, bem ciente de que deve pousar, sobre os doentes, o mesmo olhar rico de ternura e compaixão do seu Senhor. A pastoral da saúde permanece e sempre permanecerá um dever necessário e essencial, que se há de viver com um ímpeto renovado começando pelas comunidades paroquiais até aos centros de tratamento de excelência. Não podemos esquecer aqui a ternura e a perseverança com que muitas famílias acompanham os seus filhos, pais e parentes, doentes crónicos ou gravemente incapacitados. Os cuidados prestados em família são um testemunho extraordinário de amor pela pessoa humana e devem ser apoiados com o reconhecimento devido e políticas adequadas. Portanto, médicos e enfermeiros, sacerdotes, consagrados e voluntários, familiares e todos aqueles que se empenham no cuidado dos doentes, participam nesta missão eclesial. É uma responsabilidade compartilhada, que enriquece o valor do serviço diário de cada um" (Papa Francisco em mensagem para o Dia Mundial do Enfermo).

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Estamos em dias de Carnaval. Outrora esse tempo era oportunidade de alegria, de extravasamento sadio. Hoje, de modo geral, tornou-se tempo de preocupação, de violência, de morte. O apelo que fazemos é que se brinque e se divirta com aquela justa medida que faça todos experimentarem a alegria de viver. Os excessos nunca fizeram bem a ninguém. Bebida alcoólica, drogas, sexo desregrado, imprudência no trânsito etc são alguns elementos que precisam de medida evangélica.

E não se esqueçam de que na Quarta-feira de Cinzas, dia de jejum e abstinência, iniciamos a Quaresma, tempo de preparação para celebrarmos a Páscoa da Ressurreição do Senhor. Tempo de conversão para uma vida mais fraterna. Você já sabe qual é o tema da Campanha da Fraternidade desse ano? Pois fique sabendo: “Fraternidade e superação da violência”. Com o lema: “Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8).

"Derrama sobre nós o Espírito Santo, para que, com o coração convertido, acolhamos o projeto de Jesus e sejamos construtores de uma sociedade justa e sem violência, para que, no mundo inteiro, cresça o vosso Reino de liberdade, verdade e paz".

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN