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Quaresma: conversão para vencer o mal

aureliano, 16.02.24

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1º Domingo da Quaresma [18 de fevereiro de 2024]

[Mc 1,12-15]

Estamos iniciando a Quaresma. Como nosso processo catequético é bastante fraco, certamente muitas pessoas não sabem o que significa esse tempo litúrgico da Igreja. O termo quaresma nos remete ao número quarenta, pleno de significado na Sagrada Escritura. Encontramos Jesus que passa quarenta dias e quarenta noites no deserto preparando-se para a missão que o Pai lhe confiara. Assemelha-se a Moisés que jejuou durante quarenta dias e quarenta noites no monte Horeb (Ex 24, 18; 34, 28; Dt 9,11). Também Elias, alimentado pelo pão do céu caminhou quarenta dias e quarenta noites até o monte que o Senhor lhe indicara (1Rs 19,8). Outro elemento significativo foi a peregrinação do povo de Israel durante quarenta anos no deserto, rumo à terra prometida (Dt 2,7), alimentado e assistido pelo Senhor.

O evangelho de Marcos, mais resumido do que os outros, tem como propósito responder à pergunta: “Quem é Jesus?”. No início o Pai confirma: “Tu és o meu Filho bem amado” (Mc 1,11). No final, o centurião reconhece: “Verdadeiramente este homem era Filho de Deus” (Mc 15, 39). Portanto, os discípulos podem acreditar nele, segui-lo com confiança, pois ele é o Filho de Deus que veio salvar a humanidade.

Jesus deve enfrentar as forças do mal. Por isso é conduzido pelo Espírito Santo ao deserto a fim de se preparar para essa grande missão. À semelhança do povo de Israel no deserto que foi tentado muitas vezes, Jesus resume em sua pessoa essa caminhada e experiência, vencendo, pela sua fidelidade, as tentações do maligno, garantindo assim, aos que crêem na sua Palavra, a ressurreição e a vida, a Terra Prometida.

Nessa caminhada quaresmal acompanhemos Jesus na sua entrega por nós. É tempo de reafirmar a fé e o compromisso batismais. As primeiras palavras de Jesus no evangelho de Marcos nos devem acompanhar ao longo deste tempo de preparação para a Páscoa: “O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no evangelho” (Mc 1,15). Conversão e entrega confiante à Boa Nova é a meta do cristão.

Conversão, do grego metanoia: meta significa revolução, inversão de caminho; noia signfica mente, pensamento. Então conversão nos convida a tomar um caminho novo a partir de Jesus Cristo. Zaqueu assumiu caminho novo a partir do encontro com Jesus Cristo: devolveu o que havia roubado e distribuiu com os pobres parte de seus bens (cf. Lc 19,1-10). A pecadora que encontrara Jesus na casa de Simão deixou para trás sua vida de pecado a partir da experiência do amor de Deus que ela encontrara em Jesus Mestre (cf. Lc 7,36-50). Então, conversão é deixar aquelas realidades de pecado, de maldade, de fofoca, de mentira, de palavras agressivas, de gestos ofensivos, de ganância pelos bens e sucesso, de conluio para prejudicar a outros, de fuga das responsabilidades, de preguiça em servir, de busca de satisfação dos instintos egoístas, de bebedeiras e noitadas, de amizades perversas, de fechamento às propostas da Igreja. Precisamos rever nossa vida, nossa entrega, nossa disponibilidade para servir generosamente. É tempo de conversão. O sino que nos convida à conversão vai nos chamar a participar da despedida de alguém. Um dia inevitavelmente tocará para nossa partida! O tempo se cumpriu! É tempo de conversão!

São João diz que “a vitória que vence o mundo é a nossa fé” (1 Jo 5,4). Esta é dom recebido no batismo. Ninguém crê no evangelho a partir de suas próprias forças, mas pelo dom de Deus recebido no batismo. Ensina Bento XVI: “Ao início do ser cristão, não está uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, dessa forma, o rumo decisivo” (Deus é Amor, n. 01).

Nesse tempo quaresmal a Igreja nos convida a rever nossa caminhada de batizados, de comprometimento com a pessoa de Jesus e com a Igreja. Convida a olhar onde estamos na caminhada cristã. Em que precisamos nos converter para vivermos uma fé de verdade: reta, sincera, comprometida. Convida-nos a verificar quais são as tentações que mais nos acometem e nas quais mais caímos. Coloca em nossas mãos os recursos que nos fortalecem contra o espírito do mal.

A vida de Jesus foi marcada pelas tentações do maligno que queria fazê-lo desviar-se da vontade do Pai. Também nós somos acometidos por todo tipo de tentação que nos quer desviar do caminho de Jesus. Sozinhos não damos conta do mal. Mas com a força de Deus podemos vencê-lo. Então busquemos nesta fonte inesgotável as energias e o sustento que nos colocam em permanente estado de conversão a uma vida sempre mais parecida com a vida do Mestre Jesus.

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O DESERTO

“O Espírito levou Jesus para o deserto” (Mc 1,12). O deserto, na Sagrada Escritura, é um categoria teológica. É um lugar de oração, de encontro e escuta de Deus, mas também um lugar de provas e tentações: “Aí Jesus foi tentado por Satanás”.

É importante considerar que Jesus foi ‘levado’. Ele não foi por conta própria, por si mesmo. Também, nós cristãos, somos levados para o deserto da vida, para situações de incompreensão, de falta de fé, de desprezo da religião, ou mesmo de crises pessoais de fé e de sentido de vida. Quantas vezes somos questionados a respeito da religião e da fé! Qual é mesmo o sentido de participar de uma comunidade, de realizar essa ou aquela expressão de fé? Esses embates ajudam a amadurecer nossa fé: oportunidade de passar de uma fé infantil a uma fé adulta, responsável, comprometida.

No evangelho, Satanás é o mesmo que Adversário, Inimigo de Deus. Aquele que age sempre contra o bem e a justiça. Acompanhando o noticiário sobre a corrupção generalizada no nosso País, a disseminação do ódio (até mesmo dentro da Igreja, nas famílias e nas religiões), notamos a ação de Satanás, o Adversário, que leva o ser humano a agir egoisticamente, lesando o Estado, a comunidade, os pobres, por vezes a própria família, gerando divisão e discórdia. E sem peso de consciência! Sem nenhum escrúpulo.

A corrupção que não está somente nos altos escalões de governos e empresas, mas que se repete, guardadas as proporções, nos pequenos espaços e negócios de família, de vizinho, de trabalho, está instalada nas estruturas sociais. Vivemos uma espécie de cultura da corrupção e desonestidade. Para nossa tristeza, a afirmação “sem desonestidade não se pode sobreviver nesse País”, ganha força cada vez maior.

O deserto pode ser, pois, a escola, o ambiente de trabalho, a rua, a política, os espaços esportivos, o shopping, o roçado, até mesmo a comunidade eclesial. Enfim, aquelas realidades que podem nos aproximar de Deus bem como nos afastar dele. Espaços em que somos postos à prova.

O que importa é não perdermos de vista o Espírito Santo que nos leva ao deserto e que nos fortalece no combate contra o mal. Se no deserto havia os ‘animais selvagens’, ou seja, aquelas tentações que sempre ameaçam o projeto de Jesus, havia também os ‘anjos’ que o serviam, ou seja, o cuidado e carinho de Deus Criador para com aqueles que lhe são fiéis na prova. Importa crer que o Senhor não nos abandona jamais! Na força dele vencemos as forças do mal.

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Campanha da Fraternidade 2024

“O amor social se traduz em atos de caridade que criam instituições mais sadias e estruturas mais solidárias. Estruturar a sociedade, por exemplo, ‘de modo que o próximo não venha a se encontrar na miséria’ é um ato de caridade que, segundo o Papa, tem a conotação de ‘amor político’. A política é o mais alto grau da caridade, afinal dar de comer a um desempregado é expressão de amor, mas assegurar o direito de trabalho a muitos, pela ação política, é expressão intensa de amor, porque os emancipa e os dignifica. Embora a caridade política englobe a todos, ‘o núcleo do autêntico espírito da política’ é o ‘amor preferencial pelos últimos’. Por isso, o Papa Francisco propõe à humanidade, particularmente às lideranças religiosas e políticas, a construção da cultura do diálogo, da reconciliação e da paz, atuando juntos em favor do bem comum e a promoção dos mais pobres” (Texto-Base, 21).

“‘Todos os homens devem estar livres de coração, quer por parte dos indivíduos, quer dos grupos sociais ou qualquer autoridade humana; e de tal modo que, em matéria religiosa, ninguém seja forçado a agir contra a própria consciência (...) O direito à liberdade religiosa se fundamenta na própria dignidade da pessoa humana, que a Palavra revelada de Deus e a própria razão dão a conhecer’ (Vaticano II, DH, 2).  Precisamos estar atentos: entre os cristãos, que deveriam ser conhecidos pelo amor mútuo (cf. Jo 13,35), têm sido difundidas palavras e atitudes de difamação, perseguição, calúnia e ódio, estabelecendo relações de inimizade a partir das quais uma pessoa se vê como maior e melhor que a outra. Entre nós não deve ser assim, ensina-nos Jesus (cf. Mt 20,26)” (Texto-Base, 36).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

Eis o tempo de conversão

aureliano, 13.02.24

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Quarta-feira de Cinzas [14 de fevereiro de 2024]

[Mt 6,1-6.16-18]

Não nos é dado saber com certeza data e local precisos do surgimento da Quaresma na vida litúrgica da Igreja. O que sabemos é que ela foi se formando progressivamente. Estava entranhada na consciência dos cristãos a necessidade de dedicar um tempo em preparação à celebração da Páscoa do Senhor. As primeiras alusões a um período pré-pascal estão registradas lá pelo século IV. Consta também que, na Quinta-Feira Santa, acontecia a reconciliação dos pecadores; e que na Vigília Pascal se realizavam os batizados dos catecúmenos (aqueles que estavam preparados para o batismo). Esses dois costumes, vividos desde a antiguidade da fé cristã, vem mostrar que esse tempo nos remete à renovação das promessas batismais ou preparação para o batismo e a práticas penitenciais que nos levem a uma conversão profunda do coração.

A propósito desse elemento da história, o Concílio Vaticano II recomenda: “Tanto na liturgia quanto na catequese litúrgica, esclareça-se melhor a dupla índole quaresmal, que, principalmente pela lembrança ou preparação do batismo e pela penitência, fazendo os fiéis ouvirem com mais frequência a Palavra de Deus e entregarem-se à oração, os dispõe à celebração do Mistério Pascal. Por isso, utilizem-se com mais abundância os elementos batismais próprios da liturgia quaresmal; segundo as circunstâncias, restaurem-se certos elementos da tradição anterior. Diga-se o mesmo dos elementos penitenciais” (SC 109).

É bom entender que a Quaresma não é um tempo de práticas penitenciais ultrapassadas, mas é um tempo de experiência de um Deus que está vivo no nosso meio e quer que todos vivam: “Eu vim para que todos tenham vida” (Jo 10,10). Um tempo em que somos chamados a participar dos sofrimentos de Cristo para participarmos também de sua glória (cf. Rm 8,17). O acento não está, portanto, nas práticas de penitência, mas na graça santificadora do Senhor que nos convida todos os dias à conversão.

O Cardeal José Tolentino traz-nos uma reflexão que pode nos ajudar a entrar no sentido mesmo da quaresma: “Vamos começar a quaresma por quê? Não apenas por uma imposição do calendário litúrgico, mas porque precisamos renascer. Sentimos o inacabamento, percebemos que é-nos possível ser mais e que está ao nosso alcance viver com mais autenticidade a nossa condição de discípulos de Jesus. (...) Começamos a quaresma porque somos chamados a dar lugar ao Espírito em nossas vidas. (...) Começamos a quaresma porque acreditamos no amor de Deus. (...) As mudanças que contam em nossa vida não acontecem de um dia para o outro ou de forma espontânea. Acontecem no meio de um paciente combate interior. Temos de estar preparados para um caminho exigente e através de muitas tentações. É muito fácil sermos crentes de bancada, cristãos de sofá, fregueses do templo”.

Por possuir um caráter fundamentalmente batismal, a Quaresma nos convida a entrar numa dinâmica de permanente conversão para nos mantermos no caminho iniciado pelo batismo. Mortos com Cristo, ressuscitamos com ele para uma vida nova. Quem ressuscitou com Cristo busca as “coisas do alto”. Compromete-se com a vida de todas as pessoas, particularmente com aqueles que não contam, com os invisíveis da sociedade, os “sobrantes”, os descartados.

As três práticas propostas pela Igreja, com raiz na tradição judaica, são a oração, o jejum e a esmola. Devidamente compreendidas e vividas podem nos ajudar no processo de conversão.

O JEJUM quer nos ajudar a deixar de lado o consumismo proposto por uma sociedade governada por ricos e poderosos que querem ganhar sempre mais à custa dos pobres. Querem arrancar o pouco que o pobre tem. Neste tempo é bom a gente aprender a viver com pouco, a reaproveitar as coisas, a levar uma vida mais simples, mais sóbria. Não se trata de passar necessidade ou fome, pois não é isso que Deus quer. Mas a gente pode viver de modo mais simples sem entrar no modismo da sociedade consumista que mata e exclui. Mais do que jejuar, talvez fosse muito proveitoso evitar o desperdício, jogar o lixo na lixeira, manter limpo os espaços públicos; cuidar das fontes e rios; usar a água tratada com mais consciência, como dom do Pai (não deixando a torneira aberta sem necessidade); reutilizar lixo e água; preocupar-se e solidarizar-se com quem passa necessidade; superar toda forma de violência; ser mais terno e comedido nas palavras; evitar ofender, maldizer; ser mais paciente no trânsito; tomar as dores e defender aqueles que sofrem violência; promover a paz através do diálogo, da tolerância e do respeito às diferenças; maior empenho por uma educação que leve em conta a totalidade da pessoa humana; lutar por um sistema de saúde que trabalhe preventivamente e que cuide com zelo e responsabilidade dos doentes etc. Trata-se de um ‘esvaziar-se’ para encher-se dos sentimentos de Jesus; encher-se da bondade de Deus. “Jejum não é somente privar-se do pão, é também dividir o pão com o faminto” (Papa Francisco).

A ESMOLA quer despertar-nos para a solidariedade com os mais pobres. Uma conversão que nos torne capazes de partilhar com os outros os bens e os dons que temos. Que nos mobilize pelas causas justas, em favor dos menores, dos ‘invisíveis’, sem voz nem vez. É a luta contra a ganância que faz tantas vítimas em nosso meio. A esmola nos tira de nós mesmos e nos remete na direção dos irmãos pelo gesto da partilha solidária. Não se trata apenas de darmos algo de nós, mas darmo-nos a nós mesmos. A visita a um doente, idoso, pobre é um bom gesto que ajuda no processo de conversão. É a oferta do tempo que temos para nós e que doamos a alguém. Papa Francisco ensina que não basta doar, mas é preciso doar-se: “A caridade sempre supõe uma doação oblativa da própria vida. Isso será significativo, além de uma ação concreta, quando oferecer à pessoa uma porta aberta para uma vida nova” (Papa Francisco à Caritas, em 05/09/22).

A ORAÇÃO nos coloca numa profunda comunhão com o Pai. Sem uma vida orientada pela oração não podemos construir um mundo de acordo com o sonho de Deus. E a oração verdadeira é aquela que nos coloca em sintonia com o querer de Deus, que nos move em direção aos pobres e sofredores. Ele veio “para que todos tenham vida”. Aproveitar esse tempo para reforçar a leitura orante da bíblia. Rezar todos os dias algum texto bíblico! Oramos não porque Deus desconhece nossas necessidades, mas porque queremos nos entregar a Ele e descobrir a melhor forma de servi-lo nos irmãos. A Leitura Orante ilumina nosso caminho, nossa vida. Oramos para nos colocarmos na presença de Deus gratuitamente, generosamente. Talvez fosse bom redistribuir o tempo despendido às redes sociais: não deixar que os bate-papos e diversões da internet roubem o tempo da oração.

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A Campanha da Fraternidade deste ano tem como tema: “Fraternidade e Amizade Social”, com o lema: “Vós sois todos irmãos e irmãs” (Mt 23,8). Vejamos alguns números que nos ajudam a perceber a importância da temática:

“Os tempos atuais e o Papa Francisco nos desafiam a ‘ir além dos grupos de amigos e construir a amizade social, tão necessária para a boa convivência (...) [fugindo] da inimizade social, que só destrói (...). Isso nem sempre é fácil, principalmente hoje, quando parte da sociedade e da mídia se empenha em criar inimigos para derrotá-los em um jogo de poder” (Texto-base, 07).

“Amizade social é o amor que ultrapassa as barreiras da geografia e do espaço. Amizade social é uma fraternidade aberta, que permite reconhecer, valorizar e amar todas as pessoas, independentemente da sua proximidade física. Amizade social é um amor desejoso de abraçar a todos. Amizade social é comunicar com a vida e o amor de Deus, recusando impor  doutrinas por meio de uma guerra dialética. Amizade social é viver livre de todo desejo de domínio sobre os outros. Amizade social é o amor que estende para além das fronteiras, para todo ser vivo. Amizade social é a nossa vocação para formar uma comunidade feita de irmãos que se acolhem mutuamente e cuidam uns dos outros”(TB, 16).

“O pecado nos distancia do projeto de Deus e faz-nos enxergar as diferenças, divergências e oposições não como riquezas, oportunidades ou mesmo obstáculos a serem superados, mas como características dos inimigos a serem abatidos. É preciso que fique muito claro que a subjetividade é um valor, as diferenças não são um problema e a solução não é a homogeneidade de pensamento” (TB, 27).

“É interessante notar que, desde o Gênesis, o mal que penetra no mundo tem suas raízes na quebra das relações fraternas” (TB, 96).

“É importante encontrar e criar oportunidade para propor a reflexão da CF 2024 nas celebrações comunitárias, nas catequeses, nos conselhos diocesanos, paroquiais e comunitários, nos encontros e reuniões de grupos pastorais e movimentos eclesiais, nas escolas e nas câmaras legislativas. O que importa é insistir no que é a CF em si mesma, um instrumento de comunhão eclesial, de formação das consciências e do comportamento cristão e de edificação de uma verdadeira fraternidade cristã e amizade social entre os brasileiros” (134).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

Tempo, conversão e seguimento

aureliano, 19.01.24

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3º Domingo do Tempo Comum [21 de janeiro de 2024]

[Mc 1,14-20]

A liturgia deste domingo nos convida a refletir, isto é, a nos dobrarmos (re-flectere) sobre três elementos constitutivos da caminhada cristã: o tempo, a conversão e o seguimento a Jesus.

No domingo passado, a partir do evangelho de João, refletimos a respeito da vocação, chamado de Deus para a comunhão com ele e para uma missão. O encontro com Jesus é determinante na busca pelo sentido da vida. Quando fazemos com ele um encontro de verdade, nossa vida toma nova direção, novo sentido. E transbordamos para os outros a experiência que fizemos: André chama seu irmão Simão e o apresenta a Jesus (cf. Jo 1, 40-42). Se nossa missão não proceder de um transbordamento da experiência do encontro com o Senhor, não é cristã. Poderá ser vaidade, fanatismo, prepotência, autoengano. Pois a missão não é nossa, mas de Deus (Missio Dei). Vamos conferir como anda a realização da missão que o Senhor nos confiou. Que rastros temos deixado, que tipo de semente temos semeado?

O TEMPO: Na liturgia da palavra de hoje encontramos referências ao tempo. Na primeira leitura, lemos: “dentro de quarenta dias”; na segunda leitura temos: “O tempo está abreviado... A figura deste mundo passa”; e no evangelho: “O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo”.

Podemos considerar o tempo em três dimensões: o tempo cósmico, regulado pelos ciclos da natureza; o tempo histórico, regulado pelo fluxo dos acontecimentos; e o tempo teológico, vivido à luz da fé num Deus para quem não existe passado nem futuro, mas um eterno presente: “Nasceu para vós, hoje, o Salvador” (cf. Lc 2,11). “Hoje, a salvação entrou nesta casa” (cf. Lc 19,9). “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso” (cf. Lc 23,43).

O tempo cósmico, entrelaçado ao tempo histórico, ajuda a perceber os dias e as horas, os acontecimentos que vão determinando novos rumos para a humanidade, novo modo de se relacionar etc. Assim, quando a pessoa vai ficando mais velha, vai percebendo que fica mais limitada e precisa se relacionar com a natureza e com as pessoas de modo diferente. Percebe que a juventude se foi. Já para o jovem trabalhador ou estudante, a dinâmica se dá de modo diferente. Precisa correr contra o tempo para não “sobrar”.

Do ponto de vista da história, com o passar do tempo, os acontecimentos na política, na economia, na cultura vão modificando as relações. Elementos novos vão surgindo e medidas novas precisam ser tomadas para que a história se construa de maneira a ajudar o ser humano a encontrar sentido para sua vida. Fazendo memória da política brasileira podemos identificar onde estão as forças perversas e geradoras de morte: desvio dos recursos destinados ao combate do corona vírus; falta de empenho na produção e compra da vacina; falta de cuidado com os acometidos pela enfermidade. Olhando para a história de nossa Igreja podemos ver aí os sinais de vida trazidos pela renovação do Concílio Vaticano II e as forças retrógradas insistindo em “voltar atrás”. Culturalmente falando vivemos um momento terrível: se, por um lado, crescem os avanços da técnica e da ciência, por outro, paradoxalmente, a perplexidade diante do futuro aumenta, pois a vida está sempre mais ameaçada.

Minha intenção é ressaltar o tempo chamado pelos gregos de kairós: tempo sem medida, sem relógio, tempo de Deus. O tempo teológico. Aqui não prevalecem dias, meses ou anos, mas a experiência de Deus que cada um faz. É um tempo que não comporta quantificação. Neste tempo a pessoa pode viver 80 anos ou mesmo 10 anos: não contam os anos, nem tampouco conhecimento, dinheiro, bens, poder. O que conta é a vida vivida em Deus e a partir d’Ele.

A CONVERSÃO: Chegou o tempo de Deus. Jesus quer dar um novo sentido à vida humana. Por isso ele convida à conversão. Converter-se é mudar de direção quando o rumo que encetamos  não confere com o projeto de Jesus. Converter-se é convergir a atenção e as forças para uma única direção: o Reino de Deus. É sair da dispersão que desperdiça as energias em muitas coisas que prejudicam o crescimento do Reino de Deus. Então aqui o tempo é breve: não se pode esperar muito. Não se trata de deixar para mudar de vida quando estiver mais velho, quando estiver aposentado, quando não tiver mais forças para continuar numa vida depravada ou perversa. Seria causar um enorme prejuízo ao Reino. Deus precisa de nossas forças, de nossas energias bem empregadas para fazer o Reino acontecer.

No próximo dia 25 celebramos a festa da Conversão de São Paulo. Um motivo a mais para repensarmos nossa vida, as possibilidades que o Senhor nos dá e empregá-las sempre para o bem do próximo. Para isto é preciso abertura de coração, coragem de mudar, abertura ao novo, ao inesperado de Deus que vem a nós, por vezes, através de um irmão ou acontecimento que nos surpreende. - De que preciso me converter? O que preciso mudar em minha vida para que eu seja mais fraterno, mais manso, mais amável, mais misericordioso, mais tolerante, mais justo, mais respeitoso? De que me acusa minha consciência?

O SEGUIMENTO: Jesus quer contar com colaboradores para revelar seu Reino ao mundo (re-velar é tirar o véu da maldade e do pecado que retardam a realização do Reino). Jesus é o profeta de Deus. Os sinais milagrosos que realiza servem para mostrar que Deus está com ele. Jesus não veio para fazer milagres, mas para mostrar que Deus nos ama e quer que participemos ativamente de seu projeto de amor.

Ao chamar os primeiros discípulos, conforme o evangelho de hoje relata, Jesus mostrou que não queria trabalhar sozinho. Ele quis contar com colaboradores. E estes deviam fazer alguns cortes em sua vida. Deviam se converter, tomar um novo rumo. Mudar de horizonte e de foco. Por isso deixam redes, barcas e família. Não temos nesse mundo morada permanente. “Os que têm mulher vivam como se não a tivessem” (1Cor 7,29). A vida do cristão deve ser vivida de modo kairológico, no tempo de Deus, para Deus.

Ao libertar o endemoninhado, Jesus mostra que Deus nos quer livres de todo mal que nos oprime e que é superior às nossas forças. Por isso precisamos da força de Deus manifestada em Jesus. Vivendo em comunidade, enfrentemos o mal na força e na palavra de Jesus. A conversão nos introduz na dinâmica de Jesus, de maneira que nosso modo de viver vai dando um novo jeito de ser ao mundo que nos cerca. As forças da maldade vão se dissipando pela presença da Graça e da Luz de Deus. Quando não revidamos com violência uma palavra ou atitude ofensiva. Quando não nos deixamos levar pela ganância. Quando nos solidarizamos com o sofrimento do ser humano e fazemos algo para lhe aliviar a dor, seja com atitudes individuais, seja organizando e somando forças para conseguir melhorias para a rua, o córrego, o bairro, a escola, o posto de saúde etc. É para isso que o Senhor nos chama e conta conosco.

Estes três elementos que destacamos na liturgia da Palavra de hoje querem nos ajudar a perceber que a vida é dom de Deus e deve ser vivida de tal maneira que ela seja um sinal do amor de Deus no mundo. Vivendo assim experimentaremos a alegria de viver, mesmo em meio a sofrimentos. Estes serão convertidos em fonte de vida, porque unidos à vida de Jesus.

O Servo de Deus, Pe. Júlio Maria, fundador de nossa Congregação Sacramentina, procurou fazer de sua vida um dom. Um homem que fez dos 66 anos de vida um Kairós, um tempo de Deus e para Deus no serviço aos irmãos e irmãs, tornando-se, assim, uma inspiração para nossa vida cristã.

O tempo é breve. A figura deste mundo passa. Então façamos o bem enquanto é tempo.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

A coerência de vida: não basta dizer

aureliano, 30.09.23

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26º Domingo do Tempo Comum [1º de outubro de 2023]

[Mt 21,28-32]

Neste e nos dois domingos subsequentes temos três parábolas de Mateus mostrando o que acontece àqueles que, embora conhecendo, rejeitam a graça de Deus. É próprio da liturgia, na aproximação do final do ano litúrgico, acentuar os temas da conversão e da graça, mostrando, com clareza, o final escatológico pelo qual deve passar todo ser humano. Quando o justo se desvia do caminho de Deus, ele se perde. Porém, quando o malvado se converte, ele se salva.

Na parábola de hoje não está em jogo a mudança de postura - ambos mudaram -, mas o objeto da adesão: a vontade do pai. Estamos acostumados a dizer “sim, senhor” a tudo. Há uma tendência dentro de nós em buscar sempre agradar para resolvermos nossa situação ou para não experimentarmos os dissabores por vezes provocados pela atitude coerente e verdadeira. Se atende a meus interesses, se me for vantajoso, faço o que o Evangelho propõe ou a Igreja pede, mas se exigir de mim esforço, conversão, mudança de mentalidade, então procuro dar o ‘jeitinho brasileiro’. Em outras palavras: costumamos dizer “sim”, mas fazemos o que queremos ou o que mais nos convém.

Jesus conta esta parábola aos chefes da religião: liderança religiosa. Estes eram peritos em explicá-la aos outros, em dizer o que Deus queria. Cuidavam do templo, das sinagogas, dos livros sagrados. Mas não viviam o que ensinavam. Uma religião de fachada. Ter a bíblia nas mãos, falar sobre a fé para os outros, frequentar o templo são atitudes muito comuns em nosso meio. Mas encontrar quem vive uma vida coerente com a fé professada é bastante raro. Parece que o problema do mundo não está na descrença, pois ‘crentes’ os há aos milhões. Parece mesmo que o problema é a falta de coerência de vida. Que sentido tem pronunciar com os lábios minha fé em Jesus se minha vida não expressa esforço em segui-lo? Corremos o risco de transformar a fé em ‘religião semanal’. Ou seja, nos cercamos de atos religiosos em casa ou no templo, mas não permitimos que Deus penetre e perpasse nossa vida, nossa família, nossas decisões, nossos negócios, nosso trabalho etc. É uma triste constatação, mas o que mais vemos por aí é uma religiosidade de conveniência: ser de uma outra religião enquanto atende aos próprios interesses.

As contundentes palavras de Jesus: “as prostitutas e os publicanos vos precederão no Reino de Deus” nos fazem pensar mais seriamente sobre nossa vida quando nos julgamos “bons” e “justos”. Os que estão à margem, aqueles que não contam, acolhem a Jesus, ao passo que as elites o rejeitam. Há mulheres que se prostituem para ganhar o pão de cada dia e dar de comer a seus filhos. E os “bons” compram seus ‘serviços’. Há ‘publicanos’ que subornam e sonegam porque há “bons” que usam seus serviços ou lhes favorecem a pilantragem. Há corruptos porque existem aqueles que se deixam corromper. Algum dia as meretrizes e os publicanos poderão descobrir que há outro caminho para viverem com dignidade e honestidade sua vida, se forem ajudados pelos que buscam fazer a vontade do Pai.

Percebemos pela parábola que os “bons” precisam de conversão para entrar no Reino. Aos pecadores talvez seja mais fácil fazer um caminho de conversão: não tem mesmo nada a perder nem de que se envergonhar. Aos “bons”, acostumados aos primeiros lugares, certamente custa muito deixar seu posto de “justos” para assumir um caminho de humildade, de simplicidade, de discipulado.

Não adianta ter o rótulo de justo dizendo que vai à missa, que recebe os sacramentos, que está em dia com os mandamentos de Deus e as leis da Igreja. Estar de bem com Deus não é direito adquirido. É preciso fazer a vontade de Deus, viver como Deus quer. A vida que agrada a Deus não se contabiliza por uma somatória de práticas e ritos realizados, mas a integração fé e vida. Ou seja: o sim da fé deve ser o sim da vida. A confissão dos lábios deve tornar-se ação e gestos das mãos. O “sim” e o “não” não passam pela observância externa das leis, mas através da vida. A verdade do ser humano se descobre por suas obras. É aí que ele se dá a conhecer. É pelos frutos que se conhece a árvore.

O futuro do ser humano, da família, da criação depende de como cada um responde e executa o apelo: “Filho, vai trabalhar hoje na vinha”. O cristão de verdade é reconhecido pelos seus atos e não pelas suas intenções. A salvação consiste em entrar no dinamismo do seguimento a Jesus, numa vida nova em Deus, num permanente “vestir-se da nova humanidade” (Ef 4,24), na acolhida cotidiana do Dom de Deus em nossa vida, acolhida que se concretiza no empenho pela vida dos pequenos e sofredores.

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*Hoje a Igreja celebra Santa Teresinha do Menino Jesus. Nasceu em Alençon (França) em 1873 e morreu no ano de 1897. Santa Teresinha não só descobriu que no coração da Igreja sua vocação era o amor, como também sabia que o seu coração – e o de todos nós – foi feito para amar. Nascida de família modesta e temente a Deus, seus pais (Luís e Zélia) tiveram oito filhos antes da caçula Teresa: quatro morreram com pouca idade, restando em vida as quatro irmãs da santa (Maria, Paulina, Leônia e Celina). Teresinha entrou com 15 anos no Mosteiro das Carmelitas em Lisieux, com a autorização do Papa Leão XIII. Sua vida se passou na humildade, simplicidade e confiança plena em Deus.

Todos os gestos e sacrifícios, do menor ao maior, oferecia a Deus pela salvação das almas e na intenção da Igreja. Ensinou um lindo e possível caminho de santidade: infância espiritual: colocar-se como criança nas mãos do Pai.

O mais profundo desejo do coração de Teresinha era ter sido missionária “desde a criação do mundo até a consumação dos séculos”. Sua vida nos deixou como proposta, selada na autobiografia “História de uma alma” e, como intercessora dos missionários sacerdotes e pecadores que não conheciam a Jesus, continua ainda hoje, vivendo o Céu, fazendo o bem aos da terra.

Morreu de tuberculose, com apenas 24 anos, no dia 30 de outubro de 1897. Queria tanto bem à humanidade, que dizia com frequência: “Quero passar o meu céu fazendo o bem sobre a terra”. É a padroeira principal das missões, pois era esse o desejo de seu coração: ser missionária, rezar pelos missionários.

**Estamos também iniciando o Mês das Missões. Na mensagem para o Dia Mundial das Missões deste ano de 2023, o Papa Francisco nos exorta a deixar que a Palavra dele faça “arder nosso coração”, que o “Pão partido” abra nossos olhos e que coloquemos nossos “pés a caminho”, como outrora os discípulos de Emaús que foram encantados pela presença do Senhor Ressuscitado. “Depois de abrirem os olhos, reconhecendo Jesus na fração do pão, os discípulos partiram sem demora e voltaram para Jerusalém (cf. Lc 24, 33). Esse sair apressado, para partilhar com os outros a alegria do encontro com o Senhor, mostra que “a alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Aqueles que se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria” (Exort. ap. Evangelii gaudium, 1). Não é possível encontrar verdadeiramente Jesus Ressuscitado sem ser inflamado pelo desejo de contar a todos. Por isso, o primeiro e principal recurso para a missão são aqueles que reconheceram o Cristo ressuscitado nas Escrituras e na Eucaristia, e que trazem o Seu fogo no coração e a Sua luz no olhar. Eles podem dar testemunho da vida que não morre jamais, mesmo nas situações mais difíceis e nos momentos mais sombrios” (Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial das Missões 2023).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

Dimensão comunitária do sacramento da Reconciliação

aureliano, 09.09.23

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23º Domingo do Tempo Comum [10 de setembro de 2023]

[Mt 18,15-20]

O evangelho deste domingo nos remete a um elemento fundamental dos sacramentos da Igreja, mas que no decurso da história parece ter sido esquecido no sacramento da Reconciliação ou Confissão: sua dimensão eclesial ou comunitária. Em outras palavras, o sacramento da Penitência ou Confissão precisa retomar sua dimensão comunitária.

Já no AT os ritos de penitência eram comunitários. E, segundo consta, nos primórdios da Igreja, a confissão dos pecados era pública, ou seja, feita na comunidade. Percorrendo, porém, a história desse sacramento, constata-se ter havido uma passagem progressiva da celebração penitencial de toda a comunidade à confissão individual. Isso levou à alienação do rito do perdão nos relacionamentos da comunidade, tornando-o um ato quase mágico. Tal procedimento também desvinculou o pecado de sua dimensão comunitária, como se o pecado fosse de responsabilidade e proporções apenas individuais sem consequência na vida da comunidade.

O pecado atinge de cheio a comunidade: os corruptos e ladrões de nosso País roubam o pão dos pobres, os medicamentos e atendimento médico-hospitalar dos doentes, o direito a uma educação de qualidade crianças e jovens, a merenda escolar, os recursos do saneamento básico, os incentivos sociais das políticas públicas etc. Faz a miséria se instalar ainda mais na vida dos “invisíveis” e “descartáveis” sociais, daqueles que não contam na sociedade. Com ele crescem a violência e o ódio. O pecado destrói a família, desfaz a alegria de viver, quebra a amizade e a comunhão entre os irmãos. O pecado explora o meio-ambiente e descarta as vidas, as culturas, as pessoas. O pecado afoga o indivíduo no seu próprio ego (narcisismo) e mata a quem está por perto, pois seus tentáculos atingem tanto mais pessoas quanto maior for sua gravidade.

Ora, a celebração dos sacramentos é a rememoração e atualização do evento salvífico de Deus na história, por Cristo, no Espírito Santo. Salvação essa que se dá como evento eclesial (embora Deus possa salvar também por outros meios). Tratando-se, pois, do sacramento da Reconciliação (sinal salvífico eclesial), não parece ter sentido realizá-lo como um ato isolado. Se o Batismo, sacramento primeiro da conversão e do perdão, é essencialmente comunitário, por que razão a Reconciliação, segunda penitência, foi privada de tal dimensão?

Torna-se, pois, urgente recuperar a dimensão comunitária, eclesial do sacramento da Reconciliação. Deus não salva o indivíduo no seu isolamento. Ele salva a comunidade e na comunidade. É, pois, em comunidade que deve ser operada a conversão e a busca do perdão. Na Igreja Católica, o padre ou o bispo, são os representantes da comunidade eclesial quando ministram esse sacramento. Portanto, na confissão sacramental, a pessoa é reconciliada com Deus e com a comunidade.

Se se forma o fiel cristão para o verdadeiro sentido da comunidade querida por Jesus, e para o sentido e necessidade da conversão na vida humana, se compreenderá por que Jesus centrou sua pregação na proclamação da penitência, da conversão (metanóia) como único caminho de entrada e participação no Reino de Deus: “Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede do Evangelho” (Mc 1,15).

Concluindo: o sacramento da Penitência ou Confissão se torna eficaz quando nos reconcilia com Deus e com os irmãos. Quando nos leva a uma verdadeira conversão do coração e mudança de vida. Quando nos reintroduz na vida e participação da comunidade. Quando nos leva a devolver o que roubamos, ou a alegria e paz de que privamos as pessoas. Sem busca de conversão do coração não adianta confissão dos pecados. Seria uma mera formalidade, um rito vazio de sentido. Deus não está interessado em “ouvir” pecados, mas na mudança de vida. Uma vida que deve estar cada vez mais conformada à de Jesus de Nazaré.

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A correção fraterna

Estamos no capítulo 18 de Mateus em que ele relata o discurso de Jesus sobre a comunidade. E o relato de hoje está imediatamente após a parábola da ‘ovelha perdida’. Essa observação é muito importante porque nos ajuda a compreender e a realizar a correção fraterna: deve-se buscar sempre trazer a pessoa de volta para a comunidade, pois a Igreja é a comunidade dos reconciliados: “Não é da vontade de vosso Pai, que está nos céus, que nenhum destes pequeninos se perca” (Mt 18,14). Cristo não nos salva somente pela sua morte na cruz, não. Ele quer nos salvar também pela comunidade na qual deseja que estejamos plenamente inseridos, em comunhão.

É muito comum entre nós falar mal dos outros, fofocar, condenar etc. Somos mestres em criticar  e condenar as pessoas. Dificilmente encontramos alguém que chame a pessoa que se julgue errada e lhe mostre o erro e o caminho de saída. Tem gente que se afasta da comunidade por causa desse ou daquele; tem gente que expulsa pessoas da comunidade por posturas julgadas inadequadas.

Pois bem, o Evangelho de hoje nos exorta a sairmos de um moralismo inconsequente  e ajudarmos o irmão que erra a fazer o caminho de volta. Chamá-lo em particular, para não humilhá-lo ou ridicularizá-lo. Numa segunda tentativa devem-se buscar testemunhas, ou seja, mostrar o interesse de outras pessoas, para que outros possam também manifestar-se em relação ao irmão que se desencaminhou. Finalmente, tendo mostrado que foram envidados todos os esforços, se não quis ouvir nem a pessoa em particular nem as testemunhas, deve-se comunicar à Igreja: a comunidade cristã é que tem o poder das “chaves”: ligar e desligar.

O que se ressalta deste texto é o desejo de Jesus que se empenhe com toda força na recuperação de quem está no caminho do mal. Lembre-se aqui do imperativo de Jesus: “Vai”. É preciso ir corrigir, e não ficar falando pelas costas, covardemente. A salvação que Jesus veio trazer passa pela comunidade. E esta precisa sempre mais se aproximar de Jesus para ser sinal de seu amor. A compaixão de Jesus, seus gestos de acolhida e de respeito, a quebra de todo preconceito, sua solicitude para com os pequenos e sofredores mostram como a comunidade cristã deve proceder.

Vale lembrar aqui, do ponto de vista político-social, a pouca-vergonha e canalhice de muitos quando sabem das roubalheiras, das propinas, dos desvios de verba, dos subornos, das sonegações de impostos, das “rachadinhas” e permanecem calados como se nada soubessem, ou mesmo buscando se beneficiar da situação. É tempo de acordar para o Evangelho da vida nessa cultura de morte que muitas vezes recorre à própria Palavra de Deus para justificar a podridão!

“Se ele te ouvir terás ganho teu irmão”. Esta palavra de Jesus deve ecoar forte dentro de nós. Assumirmos uma postura tal que o irmão seja capaz de nos ouvir. Toda atitude condenatória, rígida, arrogante, impetuosa afasta, espanta, irrita, distancia. O Papa Francisco adverte: “Nós, os católicos, como ensinamos a moral? Não podemos ensinar apenas preceitos como: ‘Você não pode fazer isso, tem que fazer aquilo; você pode, você não pode’. A moral nas atitudes é uma consequência do encontro com Jesus Cristo. Para nós, católicos, é uma consequência da fé. E para os demais, a moral é uma consequência do encontro com um ideal, ou com Deus, ou consigo mesmo, com a melhor parte de si mesmo. A moral é sempre uma consequência. […] Algumas pessoas preferem falar de moral em homilias ou em cursos de teologia. Há um grande perigo para os pregadores, que é cair na mediocridade… condenar somente a moralidade – desculpe-me – ‘da cintura para baixo’. Mas os outros pecados, que são mais graves, o ódio, a inveja, o orgulho, a vaidade, matar o outro, tirar a vida… não se fala tanto deles” (pt.aleteia.org – 04/09/2017).

Talvez fosse oportuno fazermos um exame de consciência: como lidamos com aqueles que se afastam ou erram em nossa comunidade? Nossa atitude se assemelha à de Jesus? Costumamos falar mal dos outros, fofocarmos, condenarmos? Deixamo-nos tocar pelo sofrimento e dor do outro, pela sua situação de angústia e medo? Impomos medo nas pessoas? Ameaçamos? Ou buscamos estabelecer uma relação de confiança e liberdade?

* Setembro Amarelo: São registrados cerca de 12 mil suicídios todos os anos no Brasil e mais de 01 milhão no mundo. Trata-se de uma triste realidade, que registra cada vez mais casos, principalmente entre os jovens. Cerca de 96,8% dos casos de suicídio estão relacionados a sofrimentos e transtornos mentais.

Em primeiro lugar está a depressão, seguida do transtorno bipolar e abuso de substâncias químicas. Com o objetivo de prevenir e reduzir estes números a campanha ‘Setembro Amarelo’ tem como objetivo mobilizar a sociedade para se empenhar na prevenção do suicídio. Um elemento fundamental é ouvir a pessoa que está em estado de sofrimento depressivo ou transtorno mental, sem juízo de valor. Acolher, estender a mão, estar junto. Com uma ação de generosa escuta e acolhida a gente pode salvar muitas vidas.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Conversão: assumir atitudes novas

aureliano, 03.12.22

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2º Domingo do Advento [04 de dezembro de 2022]

[Mt 3,1-12]

Advento é tempo de conversão. “Arrependei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo” (Mt 3,2). Com imagens em estilo apocalíptico, João Batista anuncia o Reinado de Deus. Essas imagens usadas por João escondem uma realidade: para Deus não há privilegiados – ‘sou católico’; ‘minha mãe reza o suficiente por mim’; ‘vou à missa todos os domingos’; ‘sou dizimista’; ‘tenho muita fé’ ou coisas do gênero –. É preciso fazer um caminho de conversão.

A conversão comporta dois elementos: o arrependimento, ou seja, um olhar para o passado com desejo de mudar de vida. É o pedido de perdão com a busca sincera de se emendar. O outro elemento, muito ligado a este, é a conversão: metanoia, ou seja, mudança de mentalidade. Significa que o seguidor de Jesus deve passar a pensar e a agir como Jesus. É assumir a forma de viver e de atuar de Jesus (cf. Rm 15,5; Fl 2, 5-11) .

Temos então o momento da consciência – um olhar retrospectivo com vontade de mudar de vida – e o momento da prática que é o comprovante de nossa mudança de vida, quando assumimos na nossa vida o ensinamento de Jesus.

Pelo que vamos entendendo sobre vida cristã, estritamente falando, Advento não é tempo para preparar a festa do Natal, mas para celebrar a Vinda do Senhor. Então saímos da corrente consumista que vê nas festas natalinas uma ocasião de gastar, de comprar, de vender, de comer e beber desbragadamente, sem limite. Agora é tempo de conferir como está nossa vida em Cristo e como estamos nos preparando para sua vinda.

Fé cristã não é ir ao templo para rezar, mas uma postura nova de vida a partir do que Jesus ensinou, sobretudo no tocante ao amor fraterno. Conversão não significa uma guinada de noventa graus na vida para durar uma, duas semanas, não! Conversão é um processo permanente de nos colocarmos diante de Deus com o coração aberto e dispostos a acolher o novo, as pessoas como elas são; sermos generosos no perdão, nos desculparmos com humildade quando erramos, derrubar os muros que nos separam uns dos outros, criar pontes de aproximação e perdão, vencer as barreiras que geram desencontros dentro de nossa própria casa; assumindo uma postura ética no trabalho, nos negócios, com as pessoas. Isso se dá com o tempo, ao longo da vida, e não de um dia para o outro.

Deus não se deixa impressionar por exterioridades. Celebrações vazias que não movem o coração e a mente nem dos participantes nem dos que as presidem, tornam a todos semelhantes aos fariseus e saduceus que foram pedir o batismo a João. Ouviram aquelas palavras terríveis: “Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira que está para vir? Produzi, então, fruto digno de arrependimento e não penseis que basta dizer: ‘Temos por pai Abraão’. Pois eu vos digo que mesmo destas pedras Deus pode suscitar filhos de Abraão” (Mt 3,8-9).

“Abre a porta, deixa entrar o Rei da Glória. É o tempo: ele vem orientar a nossa história”.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Um encontro que transforma

aureliano, 29.10.22

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31º Domingo do Tempo Comum [30 de outubro de 2022]

[Lc 19,1-10]

No evangelho do domingo passado ouvimos o relato do publicano fazendo oração no Tempo. Hoje temos outro publicano. Aqui, porém vemo-lo encontrando-se com Jesus, o Templo vivo do Pai.

“Deus não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e viva” (Ez 18,23). É por isso que vemos Jesus, caminhando para Jerusalém, realizando encontro com os pecadores, levando-os à conversão.

Note-se que esse relato de Lucas vem imediatamente depois da cura do cego na mesma cidade de Jericó que Jesus atravessa. O desejo do cego era poder ver, recuperar a vista (cf. Lc 18,41). E ao recuperá-la, “foi seguindo Jesus, dando glória a Deus” (Lc 18,43). O cego de Jericó quer ver. Zaqueu também “procurava ver quem era Jesus” (Lc 19,3). Portanto, o cego curado torna-se discípulo de Jesus. Zaqueu, convertido, também assume uma vida nova: “Pois bem, Senhor, eu reparto aos pobres a metade dos meus bens e, se prejudiquei alguém, restituo-lhe o quádruplo” (Lc 19,8).

Jesus caminha para Jerusalém, cidade que o rejeitará, o condenará, o matará. Jericó, ao contrário torna-se a cidade que o acolhe e lhe dá novos seguidores. Encontros transformadores de vida.

É muito interessante o relato de Lucas sobre o encontro de Jesus com Zaqueu. Este quer ver Jesus, mas esbarra em duas dificuldades: é baixinho e é publicano (chefe!): os vizinhos o detestavam. Por isso ele sobe numa árvore. Porém é um homem que busca: “procurava ver quem era Jesus”.

Jesus vale-se desta busca de Zaqueu e estabelece com ele um encontro. Não em cima da árvore, mas no “chão”. É preciso “descer”. Jesus não se relaciona conosco em situações distantes, nas nuvens, cheios de orgulho, arrogância e autossuficiência. Ele quer que desçamos para o chão de nossa história, de nosso cotidiano. É em nossa “casa” que ele quer entrar para nos transformar.

Jesus vai à casa de Zaqueu, homem rico, não para usufruir das benesses de sua riqueza, não para se aproveitar da oportunidade e ganhar alguma coisa. Não! Jesus não negocia sua hombridade. Ele vai à casa de Zaqueu para movê-lo à conversão. O convívio com os ricos pode nos levar a trair o evangelho de Jesus! O ambiente social marcado pelo luxo e pelo consumismo enfraquece da Palavra de Jesus: “Ai de vós, os ricos!” (Lc 6,24). Podemos desvirtuá-la, justificando nossas posturas incoerentes. Jesus veio para todos. Para os pobres, a fim de serem amparados; para os ricos a fim de que olhem para os pobres e repartam com eles os seus bens.

A verdadeira conversão, tanto do pobre como do rico, mexe com as estruturas do mal e torna o Reino mais próximo. A conversão da pessoa abala a estrutura da iniquidade. O episódio de Zaqueu, chefe dos publicanos, traz à baila a questão do poder: de modo geral, quando se chega ao poder, começa-se a se beneficiar dele, defraudando os outros. Por isso a necessidade da conversão verdadeira para se mudarem as estruturas de morte na sociedade a partir do encontro pessoal com Jesus de Nazaré. Ele é o modelo de homem acabado. Se nossos políticos entendessem isto, e fizessem mais encontros com Jesus de Nazaré, nosso mundo seria muito melhor. Vale o mesmo para as lideranças religiosas de nossas comunidades: a experiência do encontro verdadeiro e profundo com Jesus transforma nossa vida, nossas famílias e nossas comunidades. A isso se dá o nome de conversão.

A propósito, vem-me à memória um hino bastante cantado em alguns encontros por aí que pretende interpretar esse relato de Zaqueu. Mas esta música mutila e deturpa o evangelho que quer ressaltar o caminho da conversão. Ela é do jeitinho que os ricos gostam. Faz chorar de emoção os pobres e justifica a ganância dos ricos, pois não menciona o gesto concreto da conversão de Zaqueu: devolver o que roubou e partilhar com os pobres o que tem.

Sem um encontro verdadeiro com Jesus, num olhar que transforma por dentro, a salvação não entra na nossa casa. A iniciativa é de Deus, mas precisamos “procurar ver o Senhor”, como fizera Zaqueu. Oxalá pudéssemos dizer, depois da celebração eucarística, voltando para nossas casas: “Hoje a salvação entrou nesta casa!”. Deve ser uma experiência que nos encha de alegria: “Zaqueu desceu depressa e o acolheu com toda alegria” (Lc19,6).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Oração, Jejum e Esmola para a conversão

aureliano, 28.02.22

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Quarta-feira de Cinzas [02 de março de 2022]

[Mt 6,1-6.16-18]

Não nos é dado saber com certeza data e local precisos do surgimento da Quaresma na vida litúrgica da Igreja. O que sabemos é que ela foi se formando progressivamente. Estava entranhada na consciência dos cristãos a necessidade de dedicar um tempo em preparação à celebração da Páscoa do Senhor. As primeiras alusões a um período pré-pascal estão registradas lá pelo século IV. Consta também que, na Quinta-Feira Santa, acontecia a reconciliação dos pecadores; e que na Vigília Pascal se realizavam os batizados dos catecúmenos (aqueles que estavam preparados para o batismo). Esses dois costumes, vividos desde a antiguidade da fé cristã, vem mostrar que esse tempo nos remete à renovação das promessas batismais ou preparação para o batismo e a práticas penitenciais que nos levem a uma conversão profunda do coração.

A propósito desse elemento da história, o Concílio Vaticano II recomenda: “Tanto na liturgia quanto na catequese litúrgica, esclareça-se melhor a dupla índole quaresmal, que, principalmente pela lembrança ou preparação do batismo e pela penitência, fazendo os fiéis ouvirem com mais frequência a Palavra de Deus e entregarem-se à oração, os dispõe à celebração do Mistério Pascal. Por isso, utilizem-se com mais abundância os elementos batismais próprios da liturgia quaresmal; segundo as circunstâncias, restaurem-se certos elementos da tradição anterior. Diga-se o mesmo dos elementos penitenciais” (SC 109).

É bom entender que a Quaresma não é um tempo de práticas penitenciais ultrapassadas, mas é um tempo de experiência de um Deus que está vivo no nosso meio e quer que todos vivam: “Eu vim para que todos tenham vida” (Jo 10,10). Um tempo em que somos chamados a participar dos sofrimentos de Cristo para participarmos também de sua glória (cf. Rm 8,17). O acento não está, portanto, nas práticas de penitência, mas na graça santificadora do Senhor que nos convida todos os dias à conversão.

Por possuir um caráter fundamentalmente batismal, a Quaresma nos convida a entrar numa dinâmica de permanente conversão para nos mantermos no caminho encetado pelo batismo. Mortos com Cristo, ressuscitamos com ele para uma vida nova. Quem ressuscitou com Cristo busca as “coisas do alto”. Compromete-se com a vida de todas as pessoas, particularmente com aqueles que não contam, que não são visíveis aos olhos da sociedade, os “sobrantes”.

As três práticas propostas pela Igreja, com raiz na tradição judaica são a oração, o jejum e a esmola. Elas nos ajudam no processo de conversão.

O JEJUM quer nos ajudar a deixar de lado o consumismo proposto por uma sociedade governada por ricos e poderosos que querem ganhar sempre mais à custa dos pobres. Querem arrancar o pouco que o pobre tem. Neste tempo é bom a gente aprender a viver com pouco, a reaproveitar as coisas, a levar uma vida mais simples, mais sóbria. Não se trata de passar necessidade ou fome, pois não é isso que Deus quer. Mas a gente pode viver de modo mais simples sem entrar no modismo da sociedade consumista que mata e exclui. Mais do que jejuar, talvez fosse muito proveitoso evitar o desperdício, jogar o lixo na lixeira, manter limpo os espaços públicos; cuidar das fontes e rios; usar a água tratada com mais consciência, como dom do Pai; reutilizar lixo e água; preocupar-se e solidarizar-se com quem passa necessidade; superar toda forma de violência; ser mais terno e comedido nas palavras; evitar ofender, maldizer; ser mais paciente no trânsito; tomar as dores e defender aqueles que sofrem violência; promover a paz através do diálogo, da tolerância e do respeito às diferenças; maior empenho por uma educação que leve em conta a totalidade da pessoa humana; lutar por um sistema de saúde que trabalhe preventivamente e que cuide com zelo e responsabilidade dos doentes etc. Trata-se de um ‘esvaziar-se’ para encher-se dos sentimentos de Jesus; encher-se da bondade de Deus.

A ESMOLA quer despertar-nos para a solidariedade com os mais pobres. Uma conversão que nos torne capazes de partilhar com os outros os bens e os dons que temos. Que nos mobilize pelas causas justas, em favor dos menores, dos ‘invisíveis’, sem voz nem vez. É a luta contra a ganância que faz tantas vítimas em nosso meio. A esmola nos tira de nós mesmos e nos remete em direção dos irmãos pelo gesto da partilha solidária. Não se trata apenas de darmos algo de nós, mas darmo-nos a nós mesmos. A visita a um doente, idoso, pobre é um bom gesto que ajuda no processo de conversão. É a oferta do tempo que temos para nós e que doamos a alguém.

A ORAÇÃO nos coloca numa profunda comunhão com o Pai. Sem uma vida orientada pela oração não podemos construir um mundo de acordo com o sonho de Deus. E a oração verdadeira é aquela que nos coloca em sintonia com o querer de Deus, que nos move em direção aos pobres e sofredores. Ele veio “para que todos tenham vida”. Aproveitar esse tempo para reforçar a leitura orante da bíblia. Rezar todos os dias algum texto bíblico! Oramos não porque Deus desconhece nossas necessidades, mas porque queremos nos entregar a Ele e descobrir a melhor forma de servi-lo nos irmãos. A Leitura Orante ilumina nosso caminho, nossa vida. Oramos para nos colocarmos na presença de Deus gratuitamente, generosamente. Talvez fosse bom redistribuir o tempo despendido às redes sociais: não deixar que os bate-papos e diversões da internet roubem o tempo da oração.

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A Campanha da Fraternidade deste ano tem como tema: “Fraternidade e  Educação”, com o lema: “Fala com sabedoria, ensina com amor” (Pr 31,26). Vejamos alguns números que nos  ajudam a perceber a importância da temática:

“A realidade da educação nos interpela e exige profunda conversão de todos. Verdadeira mudança de mentalidade, reorientação da vida, revisão das atitudes e busca de um caminho que promova o desenvolvimento pessoal integral, a formação para a vida fraterna e para a cidadania. Refletir e atuar a favor da educação é uma forma de viver a penitência quaresmal. É reconhecer que algo pode e deve mudar neste cenário e, principalmente, em nossas relações” (Texto Base, 05).

“Somos convidados a ver a realidade da educação em diversos âmbitos, iluminá-la com a Palavra de Deus, encontrando e redescobrindo meios eficazes que favoreçam processos mais adequados e criativos a fim de que ninguém seja excluído de um caminho educativo integral que humanize, promova a vida e estabeleça relações de proximidade, justiça e paz. A educação é um indispensável serviço à vida. Ela nos ajuda a crescer na vivência do amor, do cuidado e da fraternidade” (Texto-Base, 06).

“Da pandemia da Covid-19 nos cabe tirar as lições e os compromissos para o presente e o futuro. Aprender lições com a vida é imperativo para todos os educadores: pais, professores, lideranças comunitárias e religiosas. Educar, antes de dar lições, é aprender com as lições cotidianas e com as crises. Precisamos aprender para passar pelas crises e para enfrentar suas futuras versões de forma mais qualificada. Se as crises são, de certa forma, uma constante na sociedade, o aprendizado também precisa ser. Aprender não é só uma capacidade humana, mas é condição da nossa própria humanidade. ‘A tribulação, a incerteza, o medo e a consciência dos próprios limites, que a pandemia despertou, fazem ressoar o apelo a repensar os nossos estilos de vida, as nossas relações, a organização das nossas sociedades e, sobretudo, o sentido da nossa existência’” (Texto-Base, 34).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Batismo: conversão e compromisso

aureliano, 07.01.22

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Batismo do Senhor [09 de janeiro de 2022]

[Lc 3,15-16.21-22]

Com a festa do Batismo de Jesus, a Igreja encerra o tempo do Natal. O Batismo de Jesus é mais uma Epifania: manifestação de Jesus como o “filho amado” do Pai. Ele é quem levará a termo o projeto de Deus, por isso exige de João “cumprir toda a justiça”.

Se Jesus é o Filho de Deus, por que quer ser batizado? Que significa o batismo de Jesus?

O batismo de João é um batismo de conversão, um rito de purificação que prepara “os caminhos do Senhor”. Desde a concepção de Jesus, João Batista esteve a ele relacionado. Agora aparece nos inícios de sua vida pública, anunciando a conversão à prática da justiça como caminho para remover o pecado.

Quando Jesus, diante da recusa de João em batizá-lo, insiste em que se deve cumprir “toda a justiça”, ele está mostrando que veio para realizar o plano da salvação que o Pai preparou para a humanidade; veio cumprir a vontade do Pai num amor incondicional à humanidade, que culmina com a cruz. Também se expressa aqui o que o batismo simboliza para Jesus: mergulho na condição humana, menos o pecado. No entendimento dos Santos Padres da Igreja, esse gesto de Jesus santifica as águas do batismo. Assim Jesus santifica todas as atividades humanas, toda a criação com sua “descida” no batismo à nossa condição humana.

A festa do Batismo de Jesus deve nos levar a refletir sobre o nosso batismo. Este não significa meramente o perdão dos pecados, como o de João, nem uma bênção ou coisa semelhante. Batismo cristão é a participação no batismo de Cristo e na sua missão como Servo de Deus, no Espírito. Ser batizado é tornar-se servidor dos irmãos e irmãs dentro de uma comunidade cristã. É seguimento a Jesus que, “ungido por Deus com o Espírito Santo e com poder, andou por toda parte fazendo o bem e curando a todos que estavam dominados pelo diabo” (At 10, 37-38).

Vamos rezar um pouco nosso batismo, rever nossos compromissos batismais, nossa vida em comunidade, nossa prática da justiça e da bondade. Seria bom que todo batizado soubesse o dia de seu batismo e o celebrasse. O Pe. Júlio Maria, fundador de nossa Congregação, Missionários Sacramentinos, dava mais ênfase ao dia do seu batismo do que ao do seu natalício. Penso que pode ser uma experiência a nos ajudar a revitalizar em nós o espírito missionário e comprometido próprios do batismo cristão.

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BATISMO: VIVER SEGUNDO O ESPÍRITO

A festa do Batismo do Senhor quer nos ajudar a pensar e a rezar o nosso batismo, nossa consagração radical que o Senhor fez de cada um de nós. Ao consagrar-nos exclama como fizera ao seu próprio Filho: “Este é meu filho amado”.

O evangelho deixa entrever dois aspectos muito interessantes da vida de Jesus: sua relação com Deus e sua solidariedade com o povo. Havia uma expectativa geral em torno do Messias. A Palestina passava por uma opressão muito grande por parte do poder romano. Pipocavam movimentos messiânicos. Esta é a razão da confusão que povo fazia a respeito de João e de Jesus.

João, um homem cheio de Deus, não se deixou levar pela vaidade e declarou: “Virá aquele que é mais forte do que eu... Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo”. Reconhece em Jesus o enviado do Pai que realiza um batismo que comunica a vida nova na força do Espírito Santo. Pregava um “batismo de conversão”.

O primeiro aspecto a ser ressaltado no relato de hoje é a solidariedade de Jesus com o povo. Por que Jesus quis ser batizado? Ele já não é o Filho de Deus? – Jesus se faz solidário com a humanidade. Entra, humildemente, na fila dos pecadores e pede a João o batismo de conversão. Não que ele precisasse desse rito, mas quer cumprir em tudo a vontade do Pai e sua missão. É o “Servo do Senhor”. “Não quebra a cana rachada nem apaga um pavio que ainda fumega; mas promoverá o julgamento para obter a verdade” (Is 42,3).

O batismo cristão não é um rito para nos afastar do mundo, mas nos reenvia renovados para fazermos o novo acontecer. Nós cristãos precisamos lançar um olhar mais profundo e contemplativo sobre essa atitude de Jesus e criarmos coragem para nos lançarmos, de modo novo, a partir do batismo que nos consagra radicalmente ao Pai, para sermos uma presença de Igreja solidária no meio do povo. Ajudar o povo a fazer um caminho de conversão, de reencantamento por Jesus Cristo, de paixão pelo Reino, de coragem para enfrentar os promotores da violência e da morte, na construção de uma sociedade de paz e de mais vida.

Rezemos um pouco mais nosso batismo. Que diferença faz ser batizado ou não? Que diferença faz crer ou não crer? O batismo que você recebeu quando criança interfere em suas atitudes, em seu modo de viver, de se relacionar, de lidar com o poder e com dinheiro? Como você tem vivido sua vida de oração? Reserva algum tempo para a intimidade com o Pai? Procura ser solidário com os pequenos e pobres, com os doentes e pecadores? – João Batista ainda não descobrira a relação misericordiosa e afável com os debilitados e marginalizados. Ele encerra a Primeira Aliança. Jesus, numa atitude reveladora da bondade do Pai, acolhia os pecadores e os perdoava, aproximava-se dos doentes e os curava, abençoava as crianças, acolhia e valorizava as mulheres. Enfim, mostrou um Deus que se aproxima para salvar.

E você, que foi batizado/consagrado, iluminado pela Palavra, orientado e instruído acerca da bondade de Deus que deve ser expressa em sua vida, como tem se colocado diante daqueles que Deus colocou no seu caminho? Você se considera filho/a de Deus? Vive como filho/a amado? O que lhe falta para ser mais fiel ao seu batismo?

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A POMBA E O ESPÍRITO SANTO

“... e ele viu o Espírito Santo desceu sobre ele em forma corporal, como pomba” (Lc 3,22). O que esse relato quer dizer? Por que a iconografia cristã representa o Espírito Santo em forma de pomba? Vamos tentar compreender esse relato.

A gente precisa ir aprendendo a ler e rezar as Sagradas Escrituras relacionando os textos. Essa perícope de Mateus está relacionada com alguns textos do Antigo Testamento. Vejamos.

Bem no início da Sagrada Escritura lemos no relato da Criação que “o vento de Deus pairava sobre as águas” (Gn 1,2). O talmude babilônico – uma espécie de interpretação dos rabinos ao texto bíblico - diz mais: “O Espírito de Deus pairava sobre a face das águas, como uma pomba que paira sobre os seus filhotes sem tocá-los”. Esse relato de Gênesis faz antever, de algum modo, o que Cristo Salvador realizará com sua vida salvadora. Os acontecimentos que se deram ao redor de sua vida no Jordão prenunciam a nova Criação da humanidade. O batismo trazido por Jesus nos recria, nos faz nascer de novo (cf. Jo 3,5-7).

Outro relato que não pode ser omitido é o do dilúvio. Noé enviou uma pomba para certificar-se se as águas haviam baixado. A pomba trouxe no bico um ramo de oliveira (cf. Gn 8,11). Esse relato está diretamente relacionado ao batismo de Jesus, uma vez que o dilúvio, no entendimento dos Santos Padres, prefigurava a destruição do pecado e a salvação pelas águas do batismo. Aqui aparecem claramente essas duas realidades retratadas por Mateus no batismo de Jesus: as águas e a pomba.

Portanto, é preciso ficar claro que o Espírito Santo não é uma pomba. O fato de a arte cristã retratar o Espírito Santo em forma de pomba tem estreita relação com esses relatos bíblicos. Lucas diz desceu em “forma corporal, como uma pomba”. Ou seja, como a pomba bate as asas e faz correr um vento suave ao pousar, aquele vento produzido pelas asas da pomba pousando assemelha-se ao Espírito que “paira” sobre a criação, sobre Jesus, sobre nós, sobre a Igreja, sobre as oferendas em santificação. É o Hálito santo de Deus. A Divina Ruah.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

Cristo padece nos pobres e sofredores

aureliano, 27.03.21

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Domingo de Ramos [28 de março de 2021]

 [Mc 11,1-10 (Ramos) e Mc 14,1 – 15,47 (Paixão)]

Estamos entrando na Semana Santa! Esta Semana passou a ser celebrada com a intenção de rememorar a Paixão do Senhor. Na Idade Média ela tomou corpo e fôlego, sobretudo pela tentativa de reviver o episódio da Paixão do Senhor descrita pelos evangelistas. Esta semana era até chamada de Semana Dolorosa, pelo fato de se dramatizarem os sofrimentos de Cristo.

Parece simples, mas o conhecimento desse dado histórico é interessante porque pode nos ajudar a entender o porquê das vias sacras e outras representações da paixão do Senhor. Ficaremos então atentos para não nos perdermos nos folclores e dramatizações, mas adentrarmos mais profundamente no Mistério profundo da entrega de Jesus, manifestação do amor do Pai, e nos atermos ao mistério fundante de nossa fé cristã, a Ressurreição do Senhor.

Este domingo se chama, na verdade, Domingo da Paixão nos Ramos. Jesus entra triunfante em Jerusalém para sofrer a Paixão. Portanto, celebramos dois acontecimentos: a aclamação de Jesus como o “Bendito que vem em nome do Senhor” e a contemplação de sua Paixão. É o único domingo do ano que a Igreja celebra a Paixão propriamente dita de Jesus, proclamando no Evangelho os relatos da Paixão.

Algumas considerações: Jesus pediu aos discípulos para buscar um jumentinho. Deviam dizer aos interrogantes: “O Senhor precisa dele”. O Senhor quer também precisar de nós. Somos os “jumentinhos” do Senhor. Nós temos nos colocado à disposição dele?

Ainda mais: as pessoas espalhavam roupas e ramos pelo caminho aclamando a Jesus. E nós? Aplaudimos Jesus passando pela Cruz até à sua Ressurreição? Temos dado algo de nós para Jesus passar? Notamos que ele passa diante de nós no irmão que sofre?

Nesta semana a Igreja nos convida a contemplar Jesus que oferece sua vida como dom ao Pai. Ele não vai à cruz porque gosta de sofrer ou porque quer morrer. Jesus não é nenhum suicida nem sado-masoquista! A paixão e sofrimento por que passa é consequência de sua fidelidade ao Pai. A contemplação de Cristo na cruz deveria nos levar a agradecer ao Pai por nos ter dado Jesus como Salvador. O Pai olha para seu Filho, vítima da maldade humana, como a olhar para todos aqueles que são injustiçados, vitimados por uma sociedade que sacrifica os menores. Quem é que sofre mais em consequência do mau atendimento do SUS, da falta de médicos e medicamentos? Quem é que morre em consequência de desvio de verbas, da propina, da corrupção sistematizada, dos jogos políticos para se ganharem e venderem cargos?

Jesus continua passando pelas nossas ruas e praças. Às vezes aplaudimos Jesus em uma celebração ou culto e o insultamos no rosto do desvalido! Por vezes nos silenciamos diante da maldade perpetrada. Atribui-se a Martin Luther King uma frase de valor inquestionável: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”. O silencio pode esconder cumplicidade no crime e na maldade. Isso é muito grave! Precisamos de um sério exame de consciência nesta Semana Santa na busca de um caminho de manifestação da bondade do Pai em nossas ações cotidianas. Fecundar a sociedade estéril, porque individualista e narcisista, com uma atitude de quem serve: “Eu vim para servir” (Mt 20,28).

E, nas trilhas da superação da violência, queremos nos lembrar de que somos todos irmãos (cf. Mt 23,8). Portanto ninguém tem o direito de tirar a vida de ninguém; ninguém pode morrer à míngua; ninguém pode sofrer violência seja de qualquer natureza; ninguém pode ser abandonado à sua própria sorte; ninguém pode ser discriminado por motivos de raça, religião, de orientação sexual ou condição social.

Portanto, a celebração de entrada de Jesus em Jerusalém deve valorizar não tanto os ramos, mas o mistério expresso pela procissão que proclama a realeza messiânica de Cristo. Uma vida entregue livremente para que toda violência e maldade fossem eliminadas da face da terra. Eis a nossa missão.

*Lembramos que hoje é o Dia Nacional da Coleta da Solidariedade. A Igreja espera e conta com a participação de todos os fiéis com esse gesto de compromisso com as incontáveis vítimas da violência e de outras formas de destruição da vida que campeiam ao redor de nós. Esse gesto fraterno e solidário é uma demonstração de nosso desejo de conversão quaresmal, de volta para Deus presente nos irmãos e irmãs sofredores para aliviar-lhes um pouco a dor.

“O resultado integral das coletas realizadas nas celebrações do Domingo de Ramos, coleta da solidariedade, com ou sem envelope, deve ser encaminhado à respectiva Diocese. Do total arrecadado pela Coleta da Solidariedade, a Diocese deve enviar 40% ao Fundo Nacional de Solidariedade (FNS), gerenciado pela CNBB. A outra parte, 60%, permanece nas dioceses para atender projetos locais, pelos respectivos Fundos Diocesanos de Solidariedade (FDS)” (Texto-Base, p. 78).

Obs.: Tendo em vista esse tempo de pandemia e isolamento social em que não faremos celebrações presenciais, cada um esteja atento às orientações diocesanas e paroquiais para a data e a modalidade da entrega da Contribuição Solidária.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN