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aurelius

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Fazer caminhos de conversão

aureliano, 23.01.26

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3º Domingo do Tempo Comum [25 de janeiro de 2026]

[Mt 4,12-23]

O primeiro escritor que recolheu a atuação e a mensagem de Jesus nas palavras “boa notícia de Deus” foi Mateus. É o Evangelho (euanggelion), a boa notícia que deve ser lida em meio a essa sociedade indiferente e desacreditada, mostrando que Jesus veio trazer algo bom, novo. Significa que não estamos perdidos, mas que temos Alguém a quem podemos agradecer e que é o “Garante” do sentido de nossa vida.

No Evangelho de Jesus nos encontramos com um Deus que, apesar de nossas fraquezas e pecados, nos dá força para defender nossa liberdade sem nos tornarmos escravos dos ídolos. Esse Deus desperta nossa responsabilidade para com os outros, mesmo que não façamos grandes coisas podemos colaborar com uma vida mais digna e alegre para os necessitados e indefesos.

Certamente, cada um de nós tem que decidir como quer viver e como quer morrer. Cada um há de escutar sua própria verdade e assumir pessoalmente sua vida. Crer em Deus não é a mesma coisa que não crer. Numa expressão brilhante do Papa Francisco: “Não se pode perseverar numa evangelização cheia de ardor, se não se está convencido, por experiência própria, que não é a mesma coisa ter conhecido Jesus ou não O conhecer, não é a mesma coisa caminhar com Ele ou caminhar tateando, não é a mesma coisa poder escutá-Lo ou ignorar a sua Palavra, não é a mesma coisa poder contemplá-Lo, adorá-Lo, descansar n’Ele ou não o poder fazer” (EG, n. 266).

Ou ainda, para encher o coração de entusiasmo, nessa expressão bonita dos Bispos Latinoamericanos: “Conhecer Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber: tê-lo encontrado foi o melhor que ocorreu em nossas vidas, e fazê-lo conhecido com nossa palavra e obras é nossa alegria” (Documento de Aparecida, n. 29). 

A pessoa de fé sente-se bem pelo fato de andar por esse caminho que a faz sentir-se acolhida, perdoada e amada pelo Deus revelado em Jesus. Encontra sentido para sua vida e para sua morte.

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ILUMINADOS PARA ILUMINAR

O tema da luz é marcante na liturgia da Palavra de hoje. A luz é uma necessidade básica do ser humano. Aliás, a expressão que se utiliza para se referir ao nascimento de uma pessoa é “dar à luz”. E quando alguém morre costuma-se dizer: fulano se “apagou”. Esta expressão, porém, a partir da fé cristã, é sem sentido. Pois a pessoa que morre, termina sua peregrinação neste mundo e entra na Luz de Deus. Por isso a Igreja reza: “Lux aeterna luceat eis”: “Brilhe para eles a vossa luz”.

O salmista canta na liturgia: “O Senhor é minha luz e salvação” (Sl 26). Há poucos dias, celebrando o Natal do Senhor, proclamamos: “Veio ao mundo a luz verdadeira que ilumina todo homem” (Jo 1,9). Deste modo, o ser humano é chamado a viver sempre na luz. As trevas, símbolo do pecado, se opõem à luz e tentam, embora em vão, lhe fazer sombra. Quando o dia amanhece, vê-se que o sol vai dissipando as trevas da noite. Assim, Jesus Ressuscitado, brilha em meio às trevas, enchendo de luz o coração do ser humano: “A noite escura se afasta, as trevas fogem da luz. A estrela d’alva fulgura, sinal de Cristo Jesus.” “Ao clarão desta luz que renasce, fuja a treva e se apague a ilusão. A discórdia não trema nos lábios, a maldade não turve a razão” (Hinos de Laudes).

A entrada de Deus em nossa história humana na pessoa de Jesus de Nazaré trouxe uma grande luz de sentido, de novo horizonte para a vida de todo aquele que nele crê. “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz (...) Fizeste crescer a alegria, e aumentaste a felicidade” (Is 9,1-2). A felicidade do ser humano está intimamente associada à vida na luz: “Quem faz o mal odeia a luz e não vem para a luz, para que suas obras não sejam demonstradas como culpáveis. Mas quem pratica a verdade vem para a luz, para que se manifeste que suas obras são feitas em Deus” (Jo 3,20-21). Quem vive na luz não experimenta o medo doentio. Confia, espera, entrega-se. Experimenta a liberdade dos filhos de Deus (cf. Gl 5,1).

É muito importante notarmos que Jesus inicie seu ministério anunciando o Reino de Deus e convidando à conversão: “Convertei-vos porque o Reino de Deus está próximo” (Mt 4,17). Sua palavra e suas ações demonstram sua presença de luz. Veio para transmitir a luz que faz ver o pecado presente no coração humano e na sociedade a fim de que, pela conversão, se supere o mal que destrói a vida na face da terra.

Passar das trevas à luz é fazer um caminho de conversão para se entrar no Reino de Deus. Converter-se é mudar de vida, é inverter a escala de valores que o mundo propõe para assumir os valores do Reino instaurado por Jesus.

Há grande número de cristãos que, à semelhança de alguns mestres do tempo de Jesus, julgam que não precisam de conversão. Pensam que basta fazer uma “rezazinha”, acender uma vela, dar uma esmola para desencargo de consciência ou carregar a bíblia debaixo do braço e dizer que “aceitou Jesus” etc. Não! A conversão é um caminho cotidiano. O ser humano é um misto de luz e trevas. Há muitas realidades de nossa vida pessoal e da vida social que precisam ser evangelizadas.

No passado pensava-se – e ainda esta mentalidade persiste – que evangelização consistia em frequentar a catequese para os sacramentos de iniciação cristã, e pronto. Mas hoje, graças a Deus, a Igreja percebe que é preciso trabalhar a evangelização permanentemente. É preciso voltar ao evangelho. O Papa Francisco insistiu que não adianta ir à Igreja, comungar, rezar e não mudar de vida. “Você pode ir à missa aos domingos, mas se não tem coração solidário, se não sabe o que acontece na sua cidade, (a fé) ou está doente ou está morta. (...) A fé nos faz próximos, aproxima-nos da vida dos outros. A fé desperta o nosso compromisso com os outros, desperta nossa solidariedade” (15/07/16). O importante na vida do cristão é insistir no caminho de conformar a própria vida à vida de Jesus. Tentarmos, cotidianamente, reproduzir em nossa vida os gestos de Jesus.

Todas as vezes que perdoamos, que nos solidarizamos, que evitamos dizer uma palavra que destrói e machuca, que saímos de nossa casa para socorrer alguém, que nos esforçamos para ser fiéis e respeitosos para com nossa família, que trabalhamos com honestidade, que manifestamos nossa opinião reta e verdadeira diante de atitudes desonestas e mentirosas; todas as vezes que nos organizamos para trabalhar em favor da vida, contra a corrupção e a maldade, que aliviamos o sofrimento de alguém, que colaboramos para que as pessoas sofridas e angustiadas vivam mais alegres, estamos espargindo um pouco da Luz que brota do coração do Pai, pois estamos reproduzindo os gestos de Jesus. Isto é caminho de conversão.

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O REINADO DE DEUS

O anúncio do Reino de Deus (ou dos Céus, conforme Mateus) foi o centro da vida de Jesus. Todas as suas palavras e ações foram em vista de estabelecer o Reinado de Deus no mundo.

João Batista também pregava a conversão em vista da proximidade do Reino. Porém o Reino anunciado por Jesus tem um sentido novo. É um Reino que se realiza no amor, na misericórdia, no acolhimento, na busca da justiça e da verdade. Se o reino das trevas favorece os poderosos, aumentando-lhes os privilégios, o Reino de Deus proclamado por Jesus se dá na partilha dos bens da criação, na libertação dos oprimidos, resgatando e levantando a pessoa para a dignidade de filho de Deus.

Esse Reino se concretiza pelo caminho da conversão. Sem mudar a ”maneira de pensar” (cf. Rm 12, 2), não se constrói o Reinado de Deus. A transformação social e comunitária passa necessariamente pela conversão pessoal. O Documento de Aparecida fala da necessidade da conversão pessoal para a transformação da paróquia e da comunidade. E a conversão se faz quando se olha para Jesus, se convive com ele, se deixa modelar por ele, por seu amor misericordioso.

Para a construção do Reino, o Pai conta com colaboradores. Por isso Jesus os chama para “estar com ele e enviá-los em missão” (cf Mc 3, 14). O processo de conversão no discipulado nos leva a colocar Jesus como o centro de nossa vida. Nossas decisões são movidas e iluminadas por ele, pela postura dele, pelas palavras dele. Aquilo que nos impede de ser melhores precisa ser abandonado. É assim que se vai consolidando o Reinado de Deus na história. Os discípulos que ele chama serão formados em sua escola, a comunidade. É na comunidade que vamos aprendendo a ser mais de Jesus: pelo amor fraterno, pela escuta atenta à Palavra de Deus, pela Eucaristia celebrada, pelo engajamento nas pastorais. Enfim, cada um deve encontrar seu lugar na comunidade servindo a Deus nos irmãos mais necessitados.

“Eis que estou à porta e bato”. Como reajo ao convite do Senhor? Estou disposto a trabalhar pela extensão o Reino de Deus? Há muita gente esperando pela minha resposta generosa ao chamado de Deus. Preciso dizer: “Eis-me aqui, envia-me”.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

Batismo: filhos amados do Pai

aureliano, 09.01.26

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Batismo do Senhor [11 de janeiro de 2026]

[Mt 3,13-17]

Com a festa do Batismo de Jesus, a Igreja encerra o tempo do Natal. O Batismo de Jesus é mais uma Epifania: manifestação de Jesus como o “filho amado” do Pai. Ele é quem levará a termo o projeto de Deus, por isso exige de João “cumprir toda a justiça”.

Se Jesus é o Filho de Deus, por que quer ser batizado? Que significa o batismo de Jesus?

O batismo de João é um batismo de conversão, um rito de purificação que prepara “os caminhos do Senhor”. Desde a concepção de Jesus, João Batista esteve a ele relacionado. Agora aparece nos inícios de sua vida pública, anunciando a conversão à prática da justiça como caminho para remover o pecado.

Quando Jesus, diante da recusa de João em batizá-lo, insiste em que se deve cumprir “toda a justiça”, ele está mostrando que veio para realizar o plano da salvação que o Pai preparou para a humanidade; veio cumprir a vontade do Pai num amor incondicional à humanidade, que culmina com a cruz. Também se expressa aqui o que o batismo simboliza para Jesus: mergulho na condição humana, menos o pecado. No entendimento dos Santos Padres da Igreja, esse gesto de Jesus santifica as águas do batismo. Assim Jesus santifica todas as atividades humanas, toda a criação com sua “descida” no batismo à nossa condição humana.

A festa do Batismo de Jesus deve nos levar a refletir sobre o nosso batismo. Este não significa meramente o perdão dos pecados, como o de João, nem uma bênção ou coisa semelhante. Batismo cristão é a participação no batismo de Cristo e na sua missão como Servo de Deus, no Espírito. Ser batizado é tornar-se servidor dos irmãos e irmãs dentro de uma comunidade cristã. É assumir uma “vida nova”, um jeito novo de viver, configurado a Cristo. É seguimento a Jesus que, “ungido por Deus com o Espírito Santo e com poder, andou por toda parte fazendo o bem e curando a todos que estavam dominados pelo diabo” (At 10, 37-38).

Vamos rezar um pouco nosso batismo, rever nossos compromissos batismais, nossa vida em comunidade, nossa prática da justiça e da bondade. Seria bom que todo batizado soubesse o dia de seu batismo e o celebrasse. O Pe. Júlio Maria, fundador de nossa Congregação, Missionários Sacramentinos, dava mais ênfase ao dia do seu batismo do que ao do seu natalício. Penso que pode ser uma experiência que nos ajuda a revitalizar em nós o espírito missionário e comprometido próprios do batismo cristão.

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BATISMO: VIVER SEGUNDO O ESPÍRITO

A festa do Batismo do Senhor quer nos ajudar a pensar e a rezar o nosso batismo, nossa consagração radical que o Senhor fez de cada um de nós. Ao consagrar-nos exclama como fizera ao seu próprio Filho: “Este é meu filho amado”.

O evangelho deixa entrever dois aspectos muito interessantes da vida de Jesus: sua relação com Deus e sua solidariedade com o povo. Havia uma expectativa geral em torno do Messias. A Palestina passava por uma opressão muito grande por parte do poder romano. Pipocavam movimentos messiânicos. Esta é a razão da confusão que o povo fazia a respeito de João e de Jesus.

João, um homem cheio de Deus, não se deixou levar pela vaidade e declarou: “Virá aquele que é mais forte do que eu... Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo”. Reconhece em Jesus o enviado do Pai que realiza um batismo que comunica a vida nova na força do Espírito Santo. Pregava um “batismo de conversão”.

O primeiro aspecto a ser ressaltado no relato de hoje é a solidariedade de Jesus com o povo. Por que Jesus quis ser batizado? Ele já não é o Filho de Deus? – Jesus se faz solidário com a humanidade. Entra, humildemente, na fila dos pecadores e pede a João o batismo de conversão. Não que ele precisasse desse rito, mas quer cumprir em tudo a vontade do Pai e sua missão. É o “Servo do Senhor”. “Não quebra a cana rachada nem apaga um pavio que ainda fumega; mas promoverá o julgamento para obter a verdade” (Is 42,3).

O batismo cristão não é um rito para nos afastar do mundo, mas nos reenvia renovados para recriarmos o mundo. Nós cristãos precisamos lançar um olhar mais profundo e contemplativo sobre essa atitude de Jesus e criarmos coragem para nos lançarmos, de modo novo, a partir do batismo que nos consagra radicalmente ao Pai, para sermos uma presença de Igreja solidária no meio do povo. Ajudar o povo a fazer um caminho de conversão, de reencantamento por Jesus Cristo, de paixão pelo Reino, de coragem para enfrentar os promotores da violência e da morte, na construção de uma sociedade de paz e de mais vida.

Rezemos um pouco mais nosso batismo. Que diferença faz ser batizado ou não? Que diferença faz crer ou não crer? O batismo que você recebeu quando criança interfere em suas atitudes, em seu modo de viver, de se relacionar, de lidar com o poder e com dinheiro? Como você tem vivido sua vida de oração? Reserva algum tempo para a intimidade com o Pai? Procura ser solidário com os pequenos e pobres, com os doentes e pecadores? – João Batista ainda não descobrira a relação misericordiosa e afável com os debilitados e marginalizados. Ele encerra a Primeira Aliança. Jesus, numa atitude reveladora da bondade do Pai, acolhia os pecadores e os perdoava, aproximava-se dos doentes e os curava, abençoava as crianças, acolhia e valorizava as mulheres. Enfim, mostrou um Deus que se aproxima para salvar.

E você, que foi batizado/consagrado, iluminado pela Palavra, orientado e instruído acerca da bondade de Deus que deve ser expressa em sua vida, como tem se colocado diante daqueles que Deus colocou no seu caminho? Você se considera filho/a de Deus? Vive como filho/a amado? O que lhe falta para ser mais fiel ao seu batismo?

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A POMBA E O ESPÍRITO SANTO

“... e ele viu o Espírito de Deus descendo como uma pomba e vindo sobre ele” (Mt 3,16). O que esse relato quer dizer? Por que a iconografia cristã representa o Espírito Santo em forma de pomba? Vamos tentar compreender esse relato.

A gente precisa ir aprendendo a ler e rezar as Sagradas Escrituras relacionando os textos. Essa perícope de Mateus está relacionada com alguns textos do Antigo Testamento. Vejamos.

Bem no início da Sagrada Escritura lemos no relato da Criação que “o vento de Deus pairava sobre as águas” (Gn 1,2). O talmude babilônico – uma espécie de interpretação dos rabinos ao texto bíblico - diz mais: “O Espírito de Deus pairava sobre a face das águas, como uma pomba que paira sobre os seus filhotes sem tocá-los”. Esse relato de Gênesis faz antever, de algum modo, o que Cristo Salvador realizará com sua vida salvadora. Os acontecimentos que se deram ao redor de sua vida no Jordão prenunciam a nova Criação da humanidade. O batismo trazido por Jesus nos recria, nos faz nascer de novo (cf. Jo 3,5-7).

Outro relato que não pode ser omitido é o do dilúvio. Noé enviou uma pomba para certificar-se se as águas haviam baixado. A pomba trouxe no bico um ramo de oliveira (cf. Gn 8,11). Esse relato está diretamente relacionado ao batismo de Jesus, uma vez que o dilúvio, no entendimento dos Santos Padres, prefigurava a destruição do pecado e a salvação pelas águas do batismo. Aqui aparecem claramente essas duas realidades retratadas por Mateus no batismo de Jesus: as águas e a pomba.

Portanto, é preciso ficar claro que o Espírito Santo não é uma pomba. O fato de a arte cristã retratar o Espírito Santo em forma de pomba tem estreita relação com esses relatos bíblicos. Lucas diz que desceu em “forma corporal, como uma pomba”. Ou seja, como a pomba bate as asas e faz correr um vento suave ao pousar, aquele vento produzido pelas asas da pomba pousando assemelha-se ao Espírito que “paira” sobre a criação, sobre Jesus, sobre nós, sobre a Igreja, sobre as oferendas em santificação. É o Hálito santo de Deus. A Divina Ruah.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Não basta fazer de conta que se é cristão

aureliano, 05.12.25

 

 

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2º Domingo do Advento [07 de dezembro de 2025]

[Mt 3,1-12]

Advento é tempo de vigilância que produz conversão, mudança de mentalidade. “Arrependei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo” (Mt 3,2). Com imagens em estilo apocalíptico, João Batista anuncia o Reinado de Deus. Essas imagens usadas por João escondem uma realidade: para Deus não há privilegiados – ‘sou católico’; ‘minha mãe reza o suficiente por mim’; ‘vou à missa todos os domingos’; ‘sou dizimista’; ‘tenho muita fé’, ‘faço a quaresma de São Miguel’, ‘rezo o rosário de madrugada’, ou coisas do gênero –. É preciso fazer caminho de conversão. Não basta “fazer coisas religiosas”, mas trabalhar nosso ser mais profundo a fim de que nossas ações revelem que somos seguidores de Jesus de Nazaré. Assumir atitudes de justiça e de construção de paz. Deixar Deus ser grande em nós, como a Bem-Aventurada Virgem Maria.

A conversão comporta dois elementos: o arrependimento, ou seja, um olhar para o passado com desejo de mudar de vida. É o pedido de perdão com a busca sincera de se emendar. O outro elemento, muito ligado a este, é a conversão: metanoia, ou seja, mudança de mentalidade. Significa que o seguidor de Jesus deve passar a pensar e a agir como Jesus. É assumir a forma de viver e de atuar de Jesus (cf. Rm 15,5; Fl 2, 5-11).

Temos então o momento da consciência – um olhar retrospectivo com vontade de mudar de vida – e o momento da prática que é o comprovante de nossa mudança de vida, quando assumimos na nossa vida o ensinamento de Jesus.

Pelo que vamos entendendo sobre vida cristã, estritamente falando, Advento não é tempo para preparar a festa do Natal, mas para celebrar a Vinda do Senhor. Então saímos da corrente consumista que vê nas festas natalinas uma ocasião de gastar, de comprar, de vender, de comer e beber desbragadamente, sem limites. Agora é tempo de conferir como está nossa vida em Cristo e como estamos nos preparando para sua vinda.

Fé cristã não é ir ao templo para rezar, mas uma postura nova de vida a partir do que Jesus ensinou, sobretudo no tocante ao amor fraterno. Conversão não significa uma guinada de noventa graus na vida para durar uma, duas semanas, não! Conversão é um processo permanente de nos colocarmos diante de Deus com o coração aberto e dispostos a acolher o novo, as pessoas como elas são; sermos generosos no perdão, nos desculparmos com humildade quando erramos, derrubar os muros que nos separam uns dos outros, criar pontes de aproximação e perdão, vencer as barreiras que geram desencontros dentro de nossa própria casa; assumindo uma postura ética no trabalho, nos negócios, com as pessoas. Isso se dá com o tempo, ao longo da vida, e não de um dia para o outro.

Deus não se deixa impressionar por exterioridades. Celebrações vazias que não movem o coração e a mente nem dos participantes nem dos que as presidem, tornam a todos semelhantes aos fariseus e saduceus que foram pedir o batismo a João. Ouviram aquelas palavras terríveis: “Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira que está para vir? Produzi, então, fruto digno de arrependimento e não penseis que basta dizer: ‘Temos por pai Abraão’. Pois eu vos digo que mesmo destas pedras Deus pode suscitar filhos de Abraão” (Mt 3,8-9).

“Abre a porta, deixa entrar o Rei da Glória. É o tempo: ele vem orientar a nossa história”.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

A porta estreita e conversão cotidiana

aureliano, 22.08.25

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21º Domingo do Tempo Comum [24 de agosto de 2025]

[Lc 13,22-30]

“Esforçai-vos por entrar pela porta estreita”. Estas palavras do divino Mestre nos remetem a Jo 10,9: “Eu sou a porta: quem entrar por mim será salvo”. Portanto, a porta estreita pela qual devem passar aqueles que buscam a salvação é o próprio Jesus. Não há outra porta nem outro caminho: “Eu sou o caminho”, afirmara Jesus em outro lugar. Entrar pela “porta estreita” é seguir Jesus, é confiar no Pai, é voltar-se, com compaixão, para os pequenos e pobres.

O relato deste domingo quer nos mostrar que o ser cristão não é um meio mágico de salvação. Esta é o resultado do encontro entre esforço humano e o dom de Deus (cf. Mt 7,13-14). Pensar que seguir uma religião, praticar determinados ritos, frequentar o templo são atitudes suficientes para se salvar, é ledo engano. Uma religião que não nos coloca em comunhão profunda com o Criador e não nos compromete eticamente com o mundo, com a transformação social, com o cuidado para com o planeta e com o ser humano, pode ser uma religião falsa. A gente pode estar caminhando para ouvir aquelas duras palavras: “Não vos conheço. Afastai-vos de mim vós que praticais a iniquidade”. Devemos nos acautelar com uma religiosidade de aparência, de capa, de fachada!

A “porta estreita” está relacionada com Mt 25,31-46: “Tudo o que fizerdes a um destes meus irmãos mais pequeninos foi a mim que o fizestes”. Quem quer entrar na vida de Deus precisa abrir o coração para o exercício da caridade e da misericórdia. Esse é, sem dúvida, o caminho da salvação. Pois salvação não é uma realidade que se dá somente no além, mas uma dinâmica que já começa aqui. Quem entra pela “porta estreita”, quem procura perfazer um caminho de salvação, preocupa-se com os irmãos sofredores, “caminha na justiça e não engana o semelhante” (Sl 15), procura viver com fidelidade sua vocação na família, no trabalho, na consagração. E, consequemente, gera uma realidade de “vida eterna” ao seu redor. “A vida eterna é esta: que conheçam a ti, ó Pai, como único Deus verdadeiro e àquele que enviaste, Jesus Cristo” (Jo 17,3).

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A PORTA É ESTREITA E DEUS NÃO QUER NINGUÉM DE FORA

A curiosidade com o número dos eleitos do Reino costuma preocupar algumas pessoas. Mas Jesus deixa claro no evangelho de hoje que isso não importa. O próprio Jesus não responde à pergunta. Para Jesus o que importa mesmo é a conversão, esforçar-se para entrar e se empenhar em manter-se na vida de Deus. A festa é para todos. A porta continua aberta; mas num determinado momento ela será fechada.

Há alguns grupos religiosos que insistem em afirmar que basta “entregar” tudo a Jesus e cruzar os braços. O Evangelho mostra outro caminho: é preciso esforço, empenho pessoal, seguimento de Jesus ”rumo a Jerusalém” pela “porta estreita”.            A eleição não corresponde a mérito humano, mas à graça de Deus. Diante do chamado de Deus, é preciso ouvir, converter-se, esforçar-se para entrar pela “porta estreita”.

É bom lembrar também que a fé é um dom que precisa ser cultivado todos os dias. É como o maná do deserto: se for guardado até a manhã seguinte, apodrece. Todos os dias precisa ser recolhido para aquele dia. Quem não retoma todos os dias o trabalho de responder à Palavra com uma autêntica conversão, gritará em vão: “Senhor, eu fui à missa ou ao culto, participei dos movimentos da igreja...!” O que importa não é ir à igreja (templo), mas ser Igreja (cristão). Vai-se à igreja para celebrar e se fortalecer para ser Igreja, isto é, sinal de Jesus no mundo.

A salvação é para todos. Só não o é para aqueles que a rejeitam, fechando-se na sua auto-suficiência e privilégios.

O cristão instalado, acomodado, apegado às formalidades das práticas religiosas, não se importando em viver como Jesus viveu no amor e serviço ao próximo, vai ficar de fora se não se converter. Quem serve a Deus só com os lábios e não de coração não será reconhecido pelo Pai. A profundidade da vocação e da missão do cristão está em viver como Jesus viveu. Ser cristão é ter a simplicidade, a abertura, a consciência da própria incapacidade e pequenês, e estar aberto às surpresas de Deus. Quem vive assim passa pela porta estreita.

A questão, portanto, não é de se perguntar se poucos ou muitos serão salvos, mas se estamos dispostos a entrar pela “porta estreita” da desinstalação, da acolhida do amor de Deus, do compromisso com a comunidade, com os pobres.

A palavra de Deus deve nos incomodar e desacomodar!

*Queremos deixar nosso abraço carinhoso a todos os catequistas neste domingo a eles dedicado. Catequizar é fazer ecoar o amor de Deus no coração do catequizando. O catequista tem um papel preponderante na comunidade: ele ajuda o catequizando a entrar no caminho de Jesus dentro da comunidade cristã. Nossos dedicados catequistas têm feito um bem enorme às nossas comunidades pela sua dedicação, pelo seu testemunho, pelo empenho para que nossas crianças, adolescentes, jovens e adultos se comprometam com Jesus e seu Reino. Obrigado, catequistas!

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

Colaborar com a ação de Deus

aureliano, 21.03.25

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3º Domingo da Quaresma [23 de março de 2025]

[Lc 13,1-9]

Nossa preparação para Páscoa continua. É um caminho de conversão. No batismo fomos purificados do mal, iluminados por Cristo, ressuscitados para uma vida nova. A caminhada neste mundo nos coloca em situação de risco permanente. As tentações nos empurram para o mal, ao egoísmo, ao rompimento da aliança com Deus. Consequentemente brota a necessidade de um caminho cotidiano de conversão, de busca de uma interioridade mais profunda que nos leve à Fonte e Raiz de nossa vida.

TEOLOGIA DA RETRIBUIÇÃO X SINAIS DE DEUS

O evangelho deste domingo traz dois relatos distintos: o primeiro é a crueldade de Pilatos assassinando galileus que, provavelmente, se opuseram à invasão e assalto do cofre do Templo por parte do Governador, e a catástrofe da torre de Siloé que, ao cair, mata 18 pessoas; o outro relato é a parábola da figueira estéril. No primeiro caso temos uma situação que mexe bastante com o imaginário popular: atribuir catástrofes e acidentes a castigo divino. Está em jogo a teologia da retribuição, condenada por Jesus. Este diz enfaticamente: “Pensais que eram mais pecadores do que todos os outros?” E acrescenta um “Não” definitivo. O Deus anunciado por Jesus é misericordioso e quer a salvação de todos.

Podemos dizer que as catástrofes naturais ou criminosas são um recado de Deus para nós. Quando a gente menos espera, nossa vida pode estar terminando. É preciso, pois, vigiar. Por isso mostra-se oportuna a palavra de Jesus: “Se não vos converterdes ireis morrer todos do mesmo modo”. Jesus aproveita-se desses acontecimentos para dar um ensinamento sobre o juízo de Deus e a necessidade de permanente conversão.

As catástrofes e horrores pelos quais o Brasil e o mundo têm passado são reveladores de opções desastrosas que governos e empresários (pretensos donos do poder) têm feito. Estão na contramão da vida, do evangelho, da salvação. Uma cultura de violência e de dominação, alimentada pela sede do lucro, pela falta de sentido de vida, pelo ódio e desejo de vingança tem ceifado milhares de vidas. Onde está o evangelho em nossa Nação que se pretende cristã, católica? Onde estão os projetos de políticas públicas que visem às ações de cuidados para com a vida? Administradores públicos, parlamentares, judiciários que realmente se empenhem pela vida, abrindo mão de seus interesses perversos! Os sinais de morte apontam para caminhos que precisam ser refeitos a partir do Evangelho. Surgem sinais claros de que precisamos nos converter.

Conversão: eis o conceito que a liturgia de hoje quer destacar. Todos os acontecimentos devem ser lidos à luz de Deus como um sinal indicador de um caminho sempre novo que precisamos assumir. Um retornar e renovar constantemente a aliança e a consagração batismal. A busca incessante do seguimento a Jesus.

A sociedade propõe vida fácil, consumismo, preocupação com o bem-estar pessoal acima do interesse coletivo, corrupção descarada, favorecimento do banditismo, sucesso financeiro, capa religiosa e moral para encobrir falcatruas, busca de fama e sucesso etc. E as atitudes verdadeiramente cristãs vão se perdendo pela vida afora. Se o cristão quiser se firmar no caminho da salvação precisa voltar seu olhar para Jesus Cristo. Seu parâmetro de ação deve ser sempre o Evangelho.

CULTIVAR A FIGUEIRA: PACIÊNCIA E CUIDADOS

A parábola da figueira estéril provoca alguns questionamentos em nós: Para que serve uma religião sem conversão? Um culto sem mudança de atitudes? Um aparato religioso sem transformação social? Para que serve uma comunidade que vive de aparência? Para que um templo muito bonito e enfeitado, se a Igreja viva, que são as pessoas, está abandonada, às traças? Que adianta rezar e pregar dentro do templo se as pessoas continuam sofrendo por falta de cuidados, de remédio, de educação, de amparo, de afeto, de presença, de segurança, de pão, da alegria de viver? São dois lados de uma mesma moeda: não se pode viver uma dimensão e esquecer-se da outra. A fé salva, mas quem salva esta fé que salva é a caridade, atos concretos, comprovados (cf. Gl 5,6). É o que chamamos de fé e vida.

Vale a pena cultivar a figueira. Ter um pouco de paciência. Mas se não se cavar e colocar adubo, ficará do mesmo jeito! Ou seja, é preciso instaurar um processo de transformação no terreno, ao redor do pé da figueira para que ela produza. É o processo que nos faz sair de nós mesmos. Quando gastamos a vida cuidando de uma pessoa pobre, ajudando a levar adiante um projeto social, visitando e cuidando de um doente, assumindo a responsabilidade familiar, vivendo e trabalhando de modo coerente, honesto e justo: esse empenho é que faz a diferença. São os frutos que o Agricultor quer encontrar. Do contrário, para que ficar ocupando a terra em vão? Que sentido tem ocupar um lugar na Criação se nossa vida não contribui para a construção de um mundo melhor? Que sentido faz ocupar um cargo de influência se o faço em benefício próprio? Para que assumir ministérios na comunidade se os assumo como cargos e funções que me dão reconhecimento social e não como serviço humilde e desinteressado aos irmãos?

É claro que a parábola nos convida à paciência! É preciso saber esperar. O tempo é de Deus. Mas não se pode deixar tudo para o final. E se não der mais tempo? O tempo de Deus é hoje. Não se pode contar com o amanhã. Não dizemos que o dia de amanhã pertence a Deus? Então! Não basta comer da “comida espiritual” nem beber da “bebida espiritual” (cf. 1Cor 10,2-3). Paulo emenda: “No entanto, a maioria deles não agradou a Deus” (1Cor 10,5). Por isso “Quem julga estar de pé tome cuidado para não cair” (1Cor 10,12).

*Campanha da Fraternidade 2025: “Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1,31).

“Apesar de a sociedade contar com dados científicos e com os alertas proféticos das religiões, há grupos que promovem ideologicamente a negação das mudanças climáticas (Laudate Deum, n. 5-10). Dizem que elas não existem e por isso não devemos nos preocupar. Isso gera confusão e dúvida entre as pessoas, dificultando a conversão ecológica e a onseqüênci prática de ações concretas para lidar com desafios climáticos. Felizmente, a maioria da população está ciente das mudanças climáticas e vivencia diariamente as onseqüências dessas mudanças em níveis locais e regionais. O movimento de conscientização socioambiental tem ganhado força nas últimas décadas, especialmente entre os jovens, que demonstram maior sensibilidade a essas questões” (Texto-Base, n. 41).

Atitudes:

  1. Contemplar a Ecologia Integral como questão transversal que perpassa toda a nossa ação eclesial nos Planos Diocesanos, Paroquiais e Comunitários de Evangelização e Pastoral.
  2. Organizar retiros, caminhadas e Vias-Sacras ecológicas, com o objetivo de despertar a consciência socioambiental.
  3. Criar hortas comunitárias agroecológicas, incentivando a partilha dos alimentos produzidos, beneficiando as pessoas mais pobres.
  4. Combater a cultura das queimadas, que concebe o fogo como solução e conscientizar as pessoas sobre as suas trágicas consequências.
  5. Incentivar e apoiar a coleta seletiva e a reciclagem nas comunidades e paróquias, junto às cooperativas de catadores, para promover educação ambiental e apoiar a economia circular.
  6. Promover o cultivo de plantas medicinais e a capacitação e implementação de farmácias comunitárias alternativas.
  7. Assumir ações comuns, tais como utilização de energia solar, a reutilização da água da chuva, o plantio de mudas de árvores nativas e/ou a abolição do uso de descartáveis etc., em todas as comunidades e paróquias de uma Forania ou Diocese. (Texto-Base, n. 157. B).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Oração, Jejum e Esmola: um sentido de vida

aureliano, 04.03.25

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Quarta-feira de Cinzas [05 de março de 2025]

[Mt 6,1-6.16-18]

Não nos é dado saber com certeza data e local precisos do surgimento da Quaresma na vida litúrgica da Igreja. O que sabemos é que ela foi se formando progressivamente. Estava entranhada na consciência dos cristãos a necessidade de dedicar um tempo em preparação à celebração da Páscoa do Senhor. As primeiras alusões a um período pré-pascal estão registradas lá pelo século IV. Consta também que, na Quinta-Feira Santa, acontecia a reconciliação dos pecadores; e que na Vigília Pascal se realizavam os batizados dos catecúmenos (aqueles que estavam preparados para o batismo). Esses dois costumes, vividos desde a antiguidade da fé cristã, vem mostrar que esse tempo nos remete à renovação das promessas batismais ou preparação para o batismo e a práticas penitenciais que nos levem a uma conversão profunda do coração.

A propósito desse elemento da história, o Concílio Vaticano II recomenda: “Tanto na liturgia quanto na catequese litúrgica, esclareça-se melhor a dupla índole quaresmal, que, principalmente pela lembrança ou preparação do batismo e pela penitência, fazendo os fiéis ouvirem com mais frequência a Palavra de Deus e entregarem-se à oração, os dispõe à celebração do Mistério Pascal. Por isso, utilizem-se com mais abundância os elementos batismais próprios da liturgia quaresmal; segundo as circunstâncias, restaurem-se certos elementos da tradição anterior. Diga-se o mesmo dos elementos penitenciais” (SC 109).

É bom entender que a Quaresma não é um tempo de práticas penitenciais ultrapassadas, mas é um tempo de experiência de um Deus que está vivo no nosso meio e quer que todos vivam: “Eu vim para que todos tenham vida” (Jo 10,10). Um tempo em que somos chamados a participar dos sofrimentos de Cristo para participarmos também de sua glória (cf. Rm 8,17). O acento não está, portanto, nas práticas de penitência, mas na graça santificadora do Senhor que nos convida todos os dias à conversão.

Por possuir um caráter fundamentalmente batismal, a Quaresma nos convida a entrar numa dinâmica de permanente conversão para nos mantermos no caminho encetado pelo batismo. Mortos com Cristo, ressuscitamos com ele para uma vida nova. Quem ressuscitou com Cristo busca as “coisas do alto”. Compromete-se com a vida de todas as pessoas, particularmente com aqueles que não contam, que não são visíveis aos olhos da sociedade, os “sobrantes”.

As três práticas propostas pela Igreja, com raiz na tradição judaica são a oração, o jejum e a esmola. Elas nos ajudam no processo de conversão.

O JEJUM quer nos ajudar a deixar de lado o consumismo proposto por uma sociedade governada por ricos e poderosos que querem ganhar sempre mais à custa dos pobres. Querem arrancar o pouco que o pobre tem. Neste tempo é bom a gente aprender a viver com pouco, a reaproveitar as coisas, a levar uma vida mais simples, mais sóbria. Não se trata de passar necessidade ou fome, pois não é isso que Deus quer. Mas a gente pode viver de modo mais simples sem entrar no modismo da sociedade consumista que mata e exclui. Mais do que jejuar, talvez fosse muito proveitoso evitar o desperdício, jogar o lixo na lixeira, manter limpo os espaços públicos; cuidar das fontes e rios; usar a água tratada com mais consciência, como dom do Pai; reutilizar resíduos e água; preocupar-se e solidarizar-se com quem passa necessidade; superar toda forma de violência; ser mais terno e comedido nas palavras; evitar ofender, maldizer; ser mais paciente no trânsito; tomar as dores e defender aqueles que sofrem violência; promover a paz através do diálogo, da tolerância e do respeito às diferenças; maior empenho por uma educação que leve em conta a totalidade da pessoa humana; lutar por um sistema de saúde que trabalhe preventivamente e que cuide com zelo e responsabilidade dos doentes etc. Trata-se de um ‘esvaziar-se’ para encher-se dos sentimentos de Jesus; encher-se da bondade de Deus.

A ESMOLA quer despertar-nos para a solidariedade com os mais pobres. Uma conversão que nos torne capazes de partilhar com os outros os bens e os dons que temos. Que nos mobilize pelas causas justas, em favor dos menores, dos ‘invisíveis’, sem voz nem vez. É a luta contra a ganância que faz tantas vítimas em nosso meio. A esmola nos tira de nós mesmos e nos remete em direção dos irmãos pelo gesto da partilha solidária. Não se trata apenas de darmos algo de nós, mas darmo-nos a nós mesmos. A visita a um doente, idoso, pobre é um bom gesto que ajuda no processo de conversão. É a oferta do tempo que temos para nós e que doamos a alguém. A esmola ajuda a quebrar nosso orgulho, nos dispõe ao desapego dos bens e à partilha, nos aproxima de Deus. “Dar esmola é oferecer um sacrifício de louvor” (Eclo 35,2). E ainda diz a Escritura: “Quem dá a um pobre empresta a Deus, quem lho retribuirá senão ele?” (Pr 19,17).

A ORAÇÃO nos coloca numa profunda comunhão com o Pai. Sem uma vida orientada pela oração não podemos construir um mundo de acordo com o sonho de Deus. E a oração verdadeira é aquela que nos coloca em sintonia com o querer de Deus, que nos move em direção aos pobres e sofredores. Ele veio “para que todos tenham vida”. Aproveitar esse tempo para reforçar a leitura orante da bíblia. Rezar todos os dias algum texto bíblico! Oramos não porque Deus desconhece nossas necessidades, mas porque queremos nos entregar a Ele e descobrir a melhor forma de servi-lo nos irmãos. A Leitura Orante ilumina nosso caminho, nossa vida. Como reza um prefácio da Liturgia Eucarística: “Ainda que nossos louvores não vos sejam necessários, vós nos concedeis o dom de vos louvar. Eles nada acrescentam ao que sois, mas nos aproximam de vós” (Prefácio Comum, IV). Oramos para nos colocarmos na presença de Deus gratuitamente, generosamente. Talvez fosse bom redistribuir o tempo despendido às redes sociais: não deixar que os bate-papos e diversões da internet e séries de TV roubem o tempo da oração.

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A Campanha da Fraternidade deste ano tem como tema: “Fraternidade e Ecologia Intetral”, com o lema: “Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1,31). Vejamos alguns números que nos ajudam a perceber a importância da temática:

“Novamente, Deus nos chama a vivenciar a Quaresma. Desta vez, porém, com um apelo especial a louvá-lo pela beleza da criação, e fazer um caminho decidido de conversão ecológica e a vivenciar a Ecologia Integral. É preciso despertar para “a grandeza, a urgência e a beleza do desafio” de cuidar da Casa Comum (LS, n. 15). Assim, renovados pela força do Espírito Santo, aprendemos a falar “a língua da fraternidade e da beleza na nossa relação com o mundo” criado (LS, n. 11). Então, ao nos sentirmos intimamente unidos a tudo o que existe, brotarão do encantamento a sobriedade e a generosidade (cf. LS, n. 11). No dizer do Papa Francisco, “o mundo é  algo mais do que um problema a resolver; é um mistério gozosos que contemplamos na alegria e no louvor” (LS, n. 12). (Texto-Base, n. 5).

“Colaborar com pastorais, redes eclesiais e educacionais, organizações da sociedade civil, assumindo soluções concretas em defesa da nossa Casa Comum e dos mais pobres e vulneráveis.

Adotar um estilo de vida profundamente crítico e afastado do consumismo e mais focado em valores duradouros e definitivos, cientes de que o ato de comprar e consumir não é apenas econômico, mas um ato com exigentes implicações morais.

Priorizar a compra de produtos locais, orgânicos, vindos da agricultura familiar e agroecológica.

Optar por formas de transporte mais sustentáveis, como o transporte público e a mobilidade ativa, a carona solidária, a bicicleta e a caminhada” (Texto-Base, 156 A).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

 

Agere sequitur esse

aureliano, 13.12.24

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3º Domingo do Advento [15 de dezembro de 2024]

[Lc 3,10-18]

Este 3º Domingo do Advento é considerado pela tradição litúrgica da Igreja, como Domingo Laetare, pela alegria que resplandece nos corações e nas mentes dos fiéis que aguardam para muito breve a celebração do Natal do Senhor: “Canta de alegria, cidade de Sião..., pois o Senhor está no meio de ti” (Sf 3,14-15). “Alegrai-vos sempre no Senhor; eu repito, alegrai-vos... O Senhor está próximo” (Fl 4,4-5). É a proclamação das leituras da Liturgia da Palavra.

Essa alegria que inunda o coração do fiel só é possível pelo perdão de Deus que é dado a quem faz um caminho de conversão. Pois o pecado é a grande fonte de tristeza e de dor para a humanidade. As alegrias da salvação que queremos alcançar, conforme a oração da missa deste domingo, estão profundamente vinculadas ao caminho que fazemos. Aqui podemos nos remeter ao início do capítulo 3º de Lucas (2º domingo do advento): João pregava um batismo de conversão para o perdão dos pecados (cf Lc 3,3). O perdão de Deus é gratuito. Mas Ele não tem como perdoar alguém que não quer se arrepender, não quer mudar de vida, não quer se converter. A conversão é a acolhida do perdão do Pai que, por sua vez, enche o coração de alegria divina.

O relato do evangelho deste domingo mostra os efeitos da pregação de João. Tocadas pelo testemunho e pelas palavras do profeta e asceta João, as pessoas começaram a perguntar: “Que devemos fazer?” Essa pergunta é reveladora do grande mistério que é o ser humano: “O ser humano supera o ser humano”, dizia Paschal. Ou seja, há uma fagulha divina dentro do ser humano que o deixa inquieto, incomodado diante da vida e da história. Ele pode fazer de conta que não existe nada, mas lá no núcleo mais secreto de sua consciência sente um apelo para algo maior do que ele mesmo e os bens que possui. É o sopro de vida insuflado pelo Criador em suas narinas, na criação (cf. Gn 2,7).

Aparecem no texto três categorias de pessoas fazendo a mesma pergunta. E o Batista lhes indica o caminho de acordo com a categoria a que pertencem. Não lhes recomenda jejum, oração, deserto ou outro ato ‘religioso’. Mas vai direto à recomendação de um agir moral, ético para resolver o problema da fome (repartir com os mais pobres), da nudez (vestir os nus: dar dignidade) e da corrupção (não aceitar propina nem sonegar ou desviar impostos) que acarretam dor e sofrimento.

Às multidões João recomenda: “Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo”. Ou seja, a humanidade precisa preocupar-se, em primeiro lugar, para que ninguém passe fome nem fique ‘nu’. Que todos possam viver com dignidade através da partilha equitativa dos bens. Quantos freezers e guarda-roupas abarrotados, a ponto de não caber mais! Quantas contas bancárias gordas e quanto dinheiro em paraísos fiscais ou em bolsas de valores! Quanto dinheiro público desperdiçado, roubado, desviado! Quanta comida jogada fora, desperdiçada! Enquanto um terço da humanidade passa necessidade e fome! “Que devemos fazer?”

Aos cobradores de impostos, odiados pelos judeus, pois se enriqueciam às custas de seus correligionários, recomenda: “Não cobreis mais do que foi estabelecido”. João não lhes diz que precisam deixar o emprego. Mas que sejam honestos. Essa passagem nos faz lembrar a corrupção presente em nosso meio. É terrível conviver com gente desonesta, mentirosa, injusta, gananciosa. Desde o pobretão até o ricaço, há uma onda de desonestidade e de roubalheira escandalosa em nossa sociedade! De modo geral, se o sujeito tem oportunidade, rouba, engana, tira proveito, pede ou oferece ‘gorjeta’ para dar um “jeitinho”. Faz-se passar por bom, mas é um malvado, ganancioso que faz de tudo para enriquecer-se às custas de outros. Quem paga a conta são os pobres!

A terceira categoria que acorre a João na busca de um caminho de conversão são os soldados. João é enfático: “Não tomeis à força dinheiro de ninguém, nem façais falsas acusações; ficai satisfeitos com vosso salário”. É uma condenação à violência, à dominação, ao uso da força injusta e prevalecida para tirar da pessoa o que ela tem. Uma sociedade que se diz cristã e que emprega suas maiores forças econômicas na fabricação de armas é a maior prova da distância que ainda existe entre o dizer-se cristão e o ser cristão. Temos assistido às tragédias provocadas pela posse e porte de armas. Nesses dias o Congresso Nacional aprovou a tributação de produtos da cesta básica, mas deixou de fora dos tributos ao comércio de armas munição. Por aí se vê onde estão os interesses da maioria de nossos congressistas e legisladores. Sem falar dos espertalhões que se valem dos cargos, do conhecimento das leis, dos espaços de poder, do ‘jeitinho brasileiro’, para engordarem suas contas ou escamotearem suas dívidas e compromissos seja com o Estado seja com os cidadãos que trilham o caminho da paz, do bem e da justiça.

Esse relato do evangelho nos remete a Lc 19,1-10 que trata do encontro de Jesus com Zaqueu. Aquele homem queria se encontrar com o Senhor. Mas, inicialmente, não estava disposto a mudar de vida. Quando vê Jesus entrando em sua casa, refaz seu projeto de vida! Promete fazer um caminho de conversão: “Eu reparto aos pobres a metade dos meus bens e, se prejudiquei alguém, restituo-lhe o quádruplo”. Diante deste propósito do “fazer” de Zaqueu que lhe transforma o “ser”, Jesus lhe diz: “Hoje veio a salvação a esta casa”. A salvação está, de alguma forma, condicionada à conversão. O agir ético, a caridade fraterna, a partilha dos bens, a luta pela justiça, pela igualdade de direitos e pela paz, a luta do cristão por políticas públicas, por melhoria para a população mais pobre. Em uma palavra: a saída de si, como João Batista, o “ex-cêntrico”, isto é, aquele que colocou o Senhor como centro de sua vida, é um caminho de salvação no sentido de ser uma resposta ao amor de Deus que nos salvou em Jesus Cristo.

Uma adágio latino atribuído a Santo Tomás diz que "agere sequitur esse": o agir segue o ser. Ou seja, a essência do ser humano determina seu agir. Assim, se ele é uma pessoa boa, irá praticar atos de bondade; se é uma pessoa verdadeira, irá dizer sempre a verdade; se é uma pessoa gananciosa, irá usar todos os meios possíveis para obter lucro, fazer crescer seu patrimônio financeiro. Portanto, importa cuidar bem de nosso ser, de nossa essência, daquilo que nos define nesta vida como filhos de Deus, seguidores de Jesus, a fim de que nossas nossas ações sejam marcadas pela bondade, justiça e verdade.

“Que devemos fazer?” Ele está com a pá na mão. O Trigo recolherá no celeiro, mas a palha será lançada no fogo inextinguível. Sou trigo ou palha? Qual o meu conteúdo? O que estou fazendo de minha vida? O que cultivo dentro do coração?

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

Ouvir os profetas! Buscar a conversão!

aureliano, 06.07.24

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14º Domingo do Tempo Comum [07 de julho de 2024]

   [Mc 6,1-6]

A expressão “santo de casa não faz milagres” é muito comum entre o povo quando se refere a pessoas conhecidas da comunidade ou membros da própria família que deve fazer uma homilia na celebração ou proferir uma palavra profética sobre determinada situação que precisa tomar novo rumo, precisa ser acertada, mudada.

Parece que essa expressão tem raiz e confirmação no evangelho de hoje que mostra uma situação em que Jesus é rejeitado pelos seus: estando em sua cidade, ensinando aos seus correligionários, compatriotas e familiares na sinagoga, estes ficam admirados com sua sabedoria, mas recusam-se a acreditar nele. Jesus então profere a sentença: “Um profeta só não é estimado em sua pátria, entre seus parentes e familiares”. E Jesus “ficou admirado com a falta de fé deles”.

Parece haver aqui dois equívocos: por um lado, prevalecia uma espécie de orgulho e vaidade que só levava a dar crédito em quem tivesse posses, conhecimento profundo das ciências, fosse de família rica, reconhecida, mestre no conhecimento da Escritura, parecendo que Deus chama somente esse tipo de pessoas para anunciar seu Reino. Por outro lado havia também um sentimento de inferioridade que levava as pessoas a se recusar ouvir uma palavra sábia de quem fosse de origem simples, pobre, (semi-)analfabeto, comum como os demais.

O fato é que, para ser ouvido na assembleia, precisava ser pessoa que gozasse de reconhecimento social, de influência política, membro reconhecido da hierarquia.

Talvez seja essa também a nossa dificuldade, ainda hoje. Se a pessoa não tem influência política, religiosa e econômica, não é ouvida. É muito difícil reconhecer a presença de Jesus e uma palavra profética num ‘Seu Zé’ ou numa ‘Dona Maria’ que nos diz que precisamos olhar com mais cuidado para nossos irmãos mais pobres e sofredores. Que precisamos descer do trono e acolher o pequeno, o doente, o embriagado, o presidiário. Que precisamos ser mais honestos e justos nos nossos negócios. Que precisamos ser mais comprometidos com a família e com a comunidade. Que precisamos aprender a partilhar os dons e os bens. Que precisamos zelar pela Mãe-Terra, não apoiando nem votando em candidatos políticos que contrariam os cuidados com o meio ambiente e não se empenham por políticas públicas em favor da população carente. O “Seu Zé” e a “Dona Maria” muitas vezes nos dão uma lição de vida cristã que nos deixa envergonhados!

O que é que nos faz mudar de atitude? Uma fé autêntica em Jesus que se fez pobre para nos enriquecer com sua pobreza (Cf. 2Cor 8,9). Acreditar, isto é, entregar-se a esse homem que passou trinta anos numa vida oculta tão simples que, quando inicia sua missão e diz uma palavra profética, dizem dele: “Este homem não é o carpinteiro, filho de Maria...?” Não se prevaleceu de ser igual a Deus, mas humilhou-se, fazendo-se um de nós (Cf. Fl 2, 5-11).

Para quem não quer crer, a vida de Jesus nada revela. Jesus só transforma a vida daquele que dele se aproxima com humildade, simplicidade e de coração aberto. Ele não buscou aplausos, reconhecimento social, sucesso, posses de bens e poder político. Ele buscou, acima de tudo, a vontade do Pai. É o que mais lhe interessava. E a vontade do Pai era salvar a todos, particularmente, os mais pequeninos (Cf. Jo 6,39).

É essa fé de Jesus que devemos alimentar em nós. Mais do que ter fé em Jesus, precisamos ter a fé que o animava. Aquele espírito de entrega, de comunhão, de sacrifício, de oferta de si, de acolhida, de encantamento e entusiasmo pelo Reino. Jesus não desanimava, mesmo quando não era aceito ou reconhecido. Continuava seu caminho. Tinha firmeza porque confiava no Pai.

Será que não está faltando em nós um pouco mais de humildade para reconhecer a ação de Deus que nos fala nos gestos e palavras dos simples e humildes, pessoas que nós conhecemos, que moram na nossa rua, participam de nossa comunidade, ou mesmo parentes nossos? Será que não nos está faltando um pouco desse espírito que animava a vida de Jesus para que nossa participação na transformação da comunidade e da sociedade seja mais eficaz? Será que o espírito de grandeza não nos quer invadir quando buscamos ou proferimos belos discursos, porém, vazios de atitudes evangélicas? Ou mesmo quando nos recusamos ouvir e prestar mais atenção aos “santos de casa” para acolhermos melhor a Palavra de Deus que nos transmitem?

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O PECADO

Penso que o relato do evangelho de hoje (Mc 6,1-6), unido ao à primeira leitura: “corações empedernidos” (Ez 2,2-5), leva-nos a considerar um pouco a realidade do pecado na Igreja e no mundo.

O que notamos nos contemporâneos e correligionários de Jesus é a recusa em ver naquele Homem de Nazaré a manifestação do querer de Deus. Um profeta que aponta caminhos novos, mudança de hábitos, atitudes que expressem uma fé vivencial e não apenas cultual, ritual.

A história do povo de Israel revela uma caminhada de muitas vicissitudes. A idolatria sempre foi uma grande tentação: abandono do projeto de Deus para atender aos instintos egoístas do poder, do ter e do prazer. Eram tentados a seguir as práticas dos povos vizinhos que viviam segundo os ídolos. Eram levados a acreditar que as alianças com grandes reis e nações pagãs lhes trariam segurança e riqueza. Além do mais, aqueles que ocupavam os altos cargos do poder imitavam nos povos vizinhos submetendo os agricultores e trabalhadores à escravidão e cobrando altos impostos para sustentar as regalias da vida palaciana. Assim iam se afastando cada vez mais do único e verdadeiro Deus que os libertara da escravidão do Egito. A liderança do povo de Israel perfazia um caminho de incredulidade que, por sua vez, levava todo o povo à infidelidade.

Estas considerações são importantes para compreendermos a reação da liderança dos judeus do tempo de Jesus diante de seus gestos e palavra proféticos. A liderança judaica dava continuidade à tradição perversa dos pais. Era o pecado da rejeição, da recusa à conversão. Diante da quebra de suas expectativas perversas se recusam a aceitar e acolher a manifestação de Deus na pessoa de Jesus que os conclamava à conversão.

Portanto, as influências da sociedade – “povos vizinhos” - podem nos afastar do caminho de Deus. As ideologias, os ódios guardados, o desejo de vingança, as propinas, o dinheiro fácil, a má companhia, a busca de si e dos próprios interesses, o uso do outro em benefício próprio, o consumismo desenfreado, o suborno, a mentira, a incoerência de vida, as “rachadinhas”, o dinheiro desonesto, a instrumentalização da religião e da boa fé das pessoas simples, os adultérios e as fornicações sem escrúpulo etc. São algumas das tentações que seduzem o cristão e o homem de bem, afastando-o de uma vida em Deus para um mundanismo destruidor da vida.

O pecado é a recusa de comunhão com Deus, provocando a desagregação da humanidade. Uma força de gravidade que nos afasta do bem, da luz, da verdade, da justiça, de Deus. Leva à alienação do ser humano em relação aos verdadeiros valores que consolidam a unidade e o sentido da vida humana. Pecar é dizer não ao amor de Deus oferecido a nós na entrega de seu Filho amado. Pecar é optar pelo autocentramento, pela autorreferencialidade, pela busca de si mesmo, pela não-mudança de hábitos e atitudes contrários ao amor de Deus.

Rejeitar a atitude profética de Jesus de Nazaré leva a humanidade a um descaminho desagregador e autodestruidor. Por isso o cristão, ainda que atormentado pela necessidade de lutar contra o pecado e suas consequências todos os dias, busca força e sustentação na oração, na Eucaristia, na Palavra proclamada, refletida e rezada, na comunidade, para alimentar sua esperança, pois esta “não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Quaresma: conversão para vencer o mal

aureliano, 16.02.24

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1º Domingo da Quaresma [18 de fevereiro de 2024]

[Mc 1,12-15]

Estamos iniciando a Quaresma. Como nosso processo catequético é bastante fraco, certamente muitas pessoas não sabem o que significa esse tempo litúrgico da Igreja. O termo quaresma nos remete ao número quarenta, pleno de significado na Sagrada Escritura. Encontramos Jesus que passa quarenta dias e quarenta noites no deserto preparando-se para a missão que o Pai lhe confiara. Assemelha-se a Moisés que jejuou durante quarenta dias e quarenta noites no monte Horeb (Ex 24, 18; 34, 28; Dt 9,11). Também Elias, alimentado pelo pão do céu caminhou quarenta dias e quarenta noites até o monte que o Senhor lhe indicara (1Rs 19,8). Outro elemento significativo foi a peregrinação do povo de Israel durante quarenta anos no deserto, rumo à terra prometida (Dt 2,7), alimentado e assistido pelo Senhor.

O evangelho de Marcos, mais resumido do que os outros, tem como propósito responder à pergunta: “Quem é Jesus?”. No início o Pai confirma: “Tu és o meu Filho bem amado” (Mc 1,11). No final, o centurião reconhece: “Verdadeiramente este homem era Filho de Deus” (Mc 15, 39). Portanto, os discípulos podem acreditar nele, segui-lo com confiança, pois ele é o Filho de Deus que veio salvar a humanidade.

Jesus deve enfrentar as forças do mal. Por isso é conduzido pelo Espírito Santo ao deserto a fim de se preparar para essa grande missão. À semelhança do povo de Israel no deserto que foi tentado muitas vezes, Jesus resume em sua pessoa essa caminhada e experiência, vencendo, pela sua fidelidade, as tentações do maligno, garantindo assim, aos que crêem na sua Palavra, a ressurreição e a vida, a Terra Prometida.

Nessa caminhada quaresmal acompanhemos Jesus na sua entrega por nós. É tempo de reafirmar a fé e o compromisso batismais. As primeiras palavras de Jesus no evangelho de Marcos nos devem acompanhar ao longo deste tempo de preparação para a Páscoa: “O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no evangelho” (Mc 1,15). Conversão e entrega confiante à Boa Nova é a meta do cristão.

Conversão, do grego metanoia: meta significa revolução, inversão de caminho; noia signfica mente, pensamento. Então conversão nos convida a tomar um caminho novo a partir de Jesus Cristo. Zaqueu assumiu caminho novo a partir do encontro com Jesus Cristo: devolveu o que havia roubado e distribuiu com os pobres parte de seus bens (cf. Lc 19,1-10). A pecadora que encontrara Jesus na casa de Simão deixou para trás sua vida de pecado a partir da experiência do amor de Deus que ela encontrara em Jesus Mestre (cf. Lc 7,36-50). Então, conversão é deixar aquelas realidades de pecado, de maldade, de fofoca, de mentira, de palavras agressivas, de gestos ofensivos, de ganância pelos bens e sucesso, de conluio para prejudicar a outros, de fuga das responsabilidades, de preguiça em servir, de busca de satisfação dos instintos egoístas, de bebedeiras e noitadas, de amizades perversas, de fechamento às propostas da Igreja. Precisamos rever nossa vida, nossa entrega, nossa disponibilidade para servir generosamente. É tempo de conversão. O sino que nos convida à conversão vai nos chamar a participar da despedida de alguém. Um dia inevitavelmente tocará para nossa partida! O tempo se cumpriu! É tempo de conversão!

São João diz que “a vitória que vence o mundo é a nossa fé” (1 Jo 5,4). Esta é dom recebido no batismo. Ninguém crê no evangelho a partir de suas próprias forças, mas pelo dom de Deus recebido no batismo. Ensina Bento XVI: “Ao início do ser cristão, não está uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, dessa forma, o rumo decisivo” (Deus é Amor, n. 01).

Nesse tempo quaresmal a Igreja nos convida a rever nossa caminhada de batizados, de comprometimento com a pessoa de Jesus e com a Igreja. Convida a olhar onde estamos na caminhada cristã. Em que precisamos nos converter para vivermos uma fé de verdade: reta, sincera, comprometida. Convida-nos a verificar quais são as tentações que mais nos acometem e nas quais mais caímos. Coloca em nossas mãos os recursos que nos fortalecem contra o espírito do mal.

A vida de Jesus foi marcada pelas tentações do maligno que queria fazê-lo desviar-se da vontade do Pai. Também nós somos acometidos por todo tipo de tentação que nos quer desviar do caminho de Jesus. Sozinhos não damos conta do mal. Mas com a força de Deus podemos vencê-lo. Então busquemos nesta fonte inesgotável as energias e o sustento que nos colocam em permanente estado de conversão a uma vida sempre mais parecida com a vida do Mestre Jesus.

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O DESERTO

“O Espírito levou Jesus para o deserto” (Mc 1,12). O deserto, na Sagrada Escritura, é um categoria teológica. É um lugar de oração, de encontro e escuta de Deus, mas também um lugar de provas e tentações: “Aí Jesus foi tentado por Satanás”.

É importante considerar que Jesus foi ‘levado’. Ele não foi por conta própria, por si mesmo. Também, nós cristãos, somos levados para o deserto da vida, para situações de incompreensão, de falta de fé, de desprezo da religião, ou mesmo de crises pessoais de fé e de sentido de vida. Quantas vezes somos questionados a respeito da religião e da fé! Qual é mesmo o sentido de participar de uma comunidade, de realizar essa ou aquela expressão de fé? Esses embates ajudam a amadurecer nossa fé: oportunidade de passar de uma fé infantil a uma fé adulta, responsável, comprometida.

No evangelho, Satanás é o mesmo que Adversário, Inimigo de Deus. Aquele que age sempre contra o bem e a justiça. Acompanhando o noticiário sobre a corrupção generalizada no nosso País, a disseminação do ódio (até mesmo dentro da Igreja, nas famílias e nas religiões), notamos a ação de Satanás, o Adversário, que leva o ser humano a agir egoisticamente, lesando o Estado, a comunidade, os pobres, por vezes a própria família, gerando divisão e discórdia. E sem peso de consciência! Sem nenhum escrúpulo.

A corrupção que não está somente nos altos escalões de governos e empresas, mas que se repete, guardadas as proporções, nos pequenos espaços e negócios de família, de vizinho, de trabalho, está instalada nas estruturas sociais. Vivemos uma espécie de cultura da corrupção e desonestidade. Para nossa tristeza, a afirmação “sem desonestidade não se pode sobreviver nesse País”, ganha força cada vez maior.

O deserto pode ser, pois, a escola, o ambiente de trabalho, a rua, a política, os espaços esportivos, o shopping, o roçado, até mesmo a comunidade eclesial. Enfim, aquelas realidades que podem nos aproximar de Deus bem como nos afastar dele. Espaços em que somos postos à prova.

O que importa é não perdermos de vista o Espírito Santo que nos leva ao deserto e que nos fortalece no combate contra o mal. Se no deserto havia os ‘animais selvagens’, ou seja, aquelas tentações que sempre ameaçam o projeto de Jesus, havia também os ‘anjos’ que o serviam, ou seja, o cuidado e carinho de Deus Criador para com aqueles que lhe são fiéis na prova. Importa crer que o Senhor não nos abandona jamais! Na força dele vencemos as forças do mal.

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Campanha da Fraternidade 2024

“O amor social se traduz em atos de caridade que criam instituições mais sadias e estruturas mais solidárias. Estruturar a sociedade, por exemplo, ‘de modo que o próximo não venha a se encontrar na miséria’ é um ato de caridade que, segundo o Papa, tem a conotação de ‘amor político’. A política é o mais alto grau da caridade, afinal dar de comer a um desempregado é expressão de amor, mas assegurar o direito de trabalho a muitos, pela ação política, é expressão intensa de amor, porque os emancipa e os dignifica. Embora a caridade política englobe a todos, ‘o núcleo do autêntico espírito da política’ é o ‘amor preferencial pelos últimos’. Por isso, o Papa Francisco propõe à humanidade, particularmente às lideranças religiosas e políticas, a construção da cultura do diálogo, da reconciliação e da paz, atuando juntos em favor do bem comum e a promoção dos mais pobres” (Texto-Base, 21).

“‘Todos os homens devem estar livres de coração, quer por parte dos indivíduos, quer dos grupos sociais ou qualquer autoridade humana; e de tal modo que, em matéria religiosa, ninguém seja forçado a agir contra a própria consciência (...) O direito à liberdade religiosa se fundamenta na própria dignidade da pessoa humana, que a Palavra revelada de Deus e a própria razão dão a conhecer’ (Vaticano II, DH, 2).  Precisamos estar atentos: entre os cristãos, que deveriam ser conhecidos pelo amor mútuo (cf. Jo 13,35), têm sido difundidas palavras e atitudes de difamação, perseguição, calúnia e ódio, estabelecendo relações de inimizade a partir das quais uma pessoa se vê como maior e melhor que a outra. Entre nós não deve ser assim, ensina-nos Jesus (cf. Mt 20,26)” (Texto-Base, 36).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

Eis o tempo de conversão

aureliano, 13.02.24

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Quarta-feira de Cinzas [14 de fevereiro de 2024]

[Mt 6,1-6.16-18]

Não nos é dado saber com certeza data e local precisos do surgimento da Quaresma na vida litúrgica da Igreja. O que sabemos é que ela foi se formando progressivamente. Estava entranhada na consciência dos cristãos a necessidade de dedicar um tempo em preparação à celebração da Páscoa do Senhor. As primeiras alusões a um período pré-pascal estão registradas lá pelo século IV. Consta também que, na Quinta-Feira Santa, acontecia a reconciliação dos pecadores; e que na Vigília Pascal se realizavam os batizados dos catecúmenos (aqueles que estavam preparados para o batismo). Esses dois costumes, vividos desde a antiguidade da fé cristã, vem mostrar que esse tempo nos remete à renovação das promessas batismais ou preparação para o batismo e a práticas penitenciais que nos levem a uma conversão profunda do coração.

A propósito desse elemento da história, o Concílio Vaticano II recomenda: “Tanto na liturgia quanto na catequese litúrgica, esclareça-se melhor a dupla índole quaresmal, que, principalmente pela lembrança ou preparação do batismo e pela penitência, fazendo os fiéis ouvirem com mais frequência a Palavra de Deus e entregarem-se à oração, os dispõe à celebração do Mistério Pascal. Por isso, utilizem-se com mais abundância os elementos batismais próprios da liturgia quaresmal; segundo as circunstâncias, restaurem-se certos elementos da tradição anterior. Diga-se o mesmo dos elementos penitenciais” (SC 109).

É bom entender que a Quaresma não é um tempo de práticas penitenciais ultrapassadas, mas é um tempo de experiência de um Deus que está vivo no nosso meio e quer que todos vivam: “Eu vim para que todos tenham vida” (Jo 10,10). Um tempo em que somos chamados a participar dos sofrimentos de Cristo para participarmos também de sua glória (cf. Rm 8,17). O acento não está, portanto, nas práticas de penitência, mas na graça santificadora do Senhor que nos convida todos os dias à conversão.

O Cardeal José Tolentino traz-nos uma reflexão que pode nos ajudar a entrar no sentido mesmo da quaresma: “Vamos começar a quaresma por quê? Não apenas por uma imposição do calendário litúrgico, mas porque precisamos renascer. Sentimos o inacabamento, percebemos que é-nos possível ser mais e que está ao nosso alcance viver com mais autenticidade a nossa condição de discípulos de Jesus. (...) Começamos a quaresma porque somos chamados a dar lugar ao Espírito em nossas vidas. (...) Começamos a quaresma porque acreditamos no amor de Deus. (...) As mudanças que contam em nossa vida não acontecem de um dia para o outro ou de forma espontânea. Acontecem no meio de um paciente combate interior. Temos de estar preparados para um caminho exigente e através de muitas tentações. É muito fácil sermos crentes de bancada, cristãos de sofá, fregueses do templo”.

Por possuir um caráter fundamentalmente batismal, a Quaresma nos convida a entrar numa dinâmica de permanente conversão para nos mantermos no caminho iniciado pelo batismo. Mortos com Cristo, ressuscitamos com ele para uma vida nova. Quem ressuscitou com Cristo busca as “coisas do alto”. Compromete-se com a vida de todas as pessoas, particularmente com aqueles que não contam, com os invisíveis da sociedade, os “sobrantes”, os descartados.

As três práticas propostas pela Igreja, com raiz na tradição judaica, são a oração, o jejum e a esmola. Devidamente compreendidas e vividas podem nos ajudar no processo de conversão.

O JEJUM quer nos ajudar a deixar de lado o consumismo proposto por uma sociedade governada por ricos e poderosos que querem ganhar sempre mais à custa dos pobres. Querem arrancar o pouco que o pobre tem. Neste tempo é bom a gente aprender a viver com pouco, a reaproveitar as coisas, a levar uma vida mais simples, mais sóbria. Não se trata de passar necessidade ou fome, pois não é isso que Deus quer. Mas a gente pode viver de modo mais simples sem entrar no modismo da sociedade consumista que mata e exclui. Mais do que jejuar, talvez fosse muito proveitoso evitar o desperdício, jogar o lixo na lixeira, manter limpo os espaços públicos; cuidar das fontes e rios; usar a água tratada com mais consciência, como dom do Pai (não deixando a torneira aberta sem necessidade); reutilizar lixo e água; preocupar-se e solidarizar-se com quem passa necessidade; superar toda forma de violência; ser mais terno e comedido nas palavras; evitar ofender, maldizer; ser mais paciente no trânsito; tomar as dores e defender aqueles que sofrem violência; promover a paz através do diálogo, da tolerância e do respeito às diferenças; maior empenho por uma educação que leve em conta a totalidade da pessoa humana; lutar por um sistema de saúde que trabalhe preventivamente e que cuide com zelo e responsabilidade dos doentes etc. Trata-se de um ‘esvaziar-se’ para encher-se dos sentimentos de Jesus; encher-se da bondade de Deus. “Jejum não é somente privar-se do pão, é também dividir o pão com o faminto” (Papa Francisco).

A ESMOLA quer despertar-nos para a solidariedade com os mais pobres. Uma conversão que nos torne capazes de partilhar com os outros os bens e os dons que temos. Que nos mobilize pelas causas justas, em favor dos menores, dos ‘invisíveis’, sem voz nem vez. É a luta contra a ganância que faz tantas vítimas em nosso meio. A esmola nos tira de nós mesmos e nos remete na direção dos irmãos pelo gesto da partilha solidária. Não se trata apenas de darmos algo de nós, mas darmo-nos a nós mesmos. A visita a um doente, idoso, pobre é um bom gesto que ajuda no processo de conversão. É a oferta do tempo que temos para nós e que doamos a alguém. Papa Francisco ensina que não basta doar, mas é preciso doar-se: “A caridade sempre supõe uma doação oblativa da própria vida. Isso será significativo, além de uma ação concreta, quando oferecer à pessoa uma porta aberta para uma vida nova” (Papa Francisco à Caritas, em 05/09/22).

A ORAÇÃO nos coloca numa profunda comunhão com o Pai. Sem uma vida orientada pela oração não podemos construir um mundo de acordo com o sonho de Deus. E a oração verdadeira é aquela que nos coloca em sintonia com o querer de Deus, que nos move em direção aos pobres e sofredores. Ele veio “para que todos tenham vida”. Aproveitar esse tempo para reforçar a leitura orante da bíblia. Rezar todos os dias algum texto bíblico! Oramos não porque Deus desconhece nossas necessidades, mas porque queremos nos entregar a Ele e descobrir a melhor forma de servi-lo nos irmãos. A Leitura Orante ilumina nosso caminho, nossa vida. Oramos para nos colocarmos na presença de Deus gratuitamente, generosamente. Talvez fosse bom redistribuir o tempo despendido às redes sociais: não deixar que os bate-papos e diversões da internet roubem o tempo da oração.

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A Campanha da Fraternidade deste ano tem como tema: “Fraternidade e Amizade Social”, com o lema: “Vós sois todos irmãos e irmãs” (Mt 23,8). Vejamos alguns números que nos ajudam a perceber a importância da temática:

“Os tempos atuais e o Papa Francisco nos desafiam a ‘ir além dos grupos de amigos e construir a amizade social, tão necessária para a boa convivência (...) [fugindo] da inimizade social, que só destrói (...). Isso nem sempre é fácil, principalmente hoje, quando parte da sociedade e da mídia se empenha em criar inimigos para derrotá-los em um jogo de poder” (Texto-base, 07).

“Amizade social é o amor que ultrapassa as barreiras da geografia e do espaço. Amizade social é uma fraternidade aberta, que permite reconhecer, valorizar e amar todas as pessoas, independentemente da sua proximidade física. Amizade social é um amor desejoso de abraçar a todos. Amizade social é comunicar com a vida e o amor de Deus, recusando impor  doutrinas por meio de uma guerra dialética. Amizade social é viver livre de todo desejo de domínio sobre os outros. Amizade social é o amor que estende para além das fronteiras, para todo ser vivo. Amizade social é a nossa vocação para formar uma comunidade feita de irmãos que se acolhem mutuamente e cuidam uns dos outros”(TB, 16).

“O pecado nos distancia do projeto de Deus e faz-nos enxergar as diferenças, divergências e oposições não como riquezas, oportunidades ou mesmo obstáculos a serem superados, mas como características dos inimigos a serem abatidos. É preciso que fique muito claro que a subjetividade é um valor, as diferenças não são um problema e a solução não é a homogeneidade de pensamento” (TB, 27).

“É interessante notar que, desde o Gênesis, o mal que penetra no mundo tem suas raízes na quebra das relações fraternas” (TB, 96).

“É importante encontrar e criar oportunidade para propor a reflexão da CF 2024 nas celebrações comunitárias, nas catequeses, nos conselhos diocesanos, paroquiais e comunitários, nos encontros e reuniões de grupos pastorais e movimentos eclesiais, nas escolas e nas câmaras legislativas. O que importa é insistir no que é a CF em si mesma, um instrumento de comunhão eclesial, de formação das consciências e do comportamento cristão e de edificação de uma verdadeira fraternidade cristã e amizade social entre os brasileiros” (134).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN