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aurelius

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O amor do Coração de Jesus

aureliano, 16.06.23

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Sagrado Coração de Jesus [16 de junho de 2023]

[Mt 11,25-30]

“Desde a Patrística, a água e o sangue do Coração de Jesus são símbolos dos sacramentos do Batismo e da Eucaristia. A própria Igreja é vista como nascida do lado aberto de Cristo na Cruz. A contemplação do Coração de Jesus, jorrando sangue e água, sempre foi na Igreja fonte de piedade, oração, fé, graça.

No entanto, uma festa propriamente dita do Coração de Jesus foi celebrada pela primeira vez em 20 de outubro de 1672, pelo padre São João Eudes. Pouco tempo depois, as revelações de Santa Margarida Maria Alacoque (1675) contribuíram imensamente para a difusão dessa devoção.

A característica própria dessa solenidade é a ação de graças pela riqueza insondável de Cristo e a contemplação reparadora do Coração Transpassado. O Papa Pio IX, em 1856, estendeu a festa a toda a Igreja Latina. Em 1899, Leão XIII consagrou o mundo ao Sagrado Coração de Jesus” (fonte: CNBB)..

Na sequência da solenidade do Sagrado Coração de Jesus, é celebrada a memória do Imaculado Coração de Maria. Neste ano, amanhã, sábado, 17 de junho.

Um coração para amar

O coração, na cultura judaica, é a sede das decisões, do pensamento, da vontade. O coração era considerado a própria vida das pessoas. Seu movimento de contração e expansão (sístole e diástole) lembrava ao israelita o movimento da terra e dos astros. Sede da vida emotiva e intelectual, os poetas e o povo em geral têm no coração o símbolo do amor, das emoções, dos sentimentos mais profundos.

A bíblia cita o coração mais de mil vezes, mas pouquíssimas vezes no sentido fisiológico. Quase sempre no sentido figurado, simbólico. Como sede das faculdades intelectuais e sentimentais, é conhecido por Deus em suas dobras mais profundas. Ele penetra os “rins e corações”. As más ações que brotam do ser humano tem como fonte o coração. A boca fala daquilo que está cheio o coração.

Deus disse, pelo profeta Ezequiel, que trocaria o “coração de pedra em coração de carne”. A dureza de coração do ser humano sempre foi objeto de crítica e condenação por parte dos profetas.

Porém sabemos que o coração, do ponto de vista fisiológico, não é mais do que um órgão responsável por bombear o sangue no organismo, desprovido, portanto, de qualquer sentimento ou emoção.

Do ponto de vista simbólico, na Sagrada Escritura, ele representa a mente, o cérebro. Nesse sentido o coração termina por ser o responsável pelos sentimentos de medo, de ansiedade, de desejos variados, de ódio, de alegria, de entusiasmo, de raiva etc. Toda essa onda de sentimentos e emoções que passam pela nossa vida é atribuída ao coração  no sentido de mente, daquela parte do cérebro responsável por controlar e comandar nosso “sistema límbico” (saciedade, fome e memória).

Tudo isso para entendermos o sentido da celebração do Coração de Jesus. Para dizer que não se trata do órgão fisiológico, mas de uma expressão simbólica para dizer do pulsar amoroso do Coração de Deus por nós. Nesse sentido a celebração de hoje conduz à essência da fé cristã: o amor de Deus pela humanidade, manifestado em Jesus de Nazaré, que entregou sua vida por nós. No coração de Jesus nunca pulsou sentimentos de maldade, de ódio ou de destruição. O coração de Jesus foi sempre fonte de amor, de entrega, de generosidade, de perdão, de acolhida, de abertura, de salvação de todas as pessoas.

Amar é agir segundo Deus

Na primeira leitura de hoje temos o autor da primeira carta de João afirmando que o amor é a essência da vida cristã. É o amor que distingue quem é de Deus e quem não é de Deus. E o ponto de partida é o Deus-Amor. Deus se manifesta ao mundo como bondade, ternura, misericórdia. As palavras e ações de Jesus manifestam o ser de Deus. É a entrega total, o dom radical de Deus em seu Filho amado na cruz.

Se Deus nos amou então devemos amar-nos uns aos outros (1Jo 4,11). A vivência do amor de Deus não permite que assistamos de braços cruzados aos acontecimentos trágicos e dolorosos da história. É preciso agir. Esse amor coloca o ser humano numa dinâmica de entrega, de generosidade, de serviço, de saída de si, de querer bem aos outros. Essa é a dinâmica do “conhecer” Deus. Isto é, viver uma intimidade fecunda com Deus que nos coloca em movimento de fecundidade de mais vida.

Deus se revela aos pequenos

Nos versículos antecedentes ao relato do evangelho de hoje, Jesus diz palavras veementemente fortes contra as cidades de Cafarnaum, Corozaim e Betsaida que foram indiferentes aos sinais que ele aí realizara. Os habitantes destas cidades, fechados em si mesmos e autossuficientes, julgam não precisar da proposta de Jesus. O Homem de Nazaré então dirige-se aos excluídos e marginalizados na esperança de encontrar nestes acolhida de sua proposta do Reinado de Deus.

Jesus eleva um louvor ao Pai por ter escondido as “coisas” do Reino aos “sábios e entendidos”, compreendendo-se aqui, certamente, os fariseus e mestres da Lei, cheios de si, julgando agradarem a Deus com seus ritos externos de culto e cumprimento do que prescrevia a Lei. Jesus louva ao Pai por revelar essas “coisas” aos pequeninos, representados aqui nos seus discípulos que por primeiro acolheram seu chamado, e também por tantos outros homens, mulheres e crianças, marcados pelo preconceito, pela doença, considerados malditos pela Lei, pelos infortúnios da vida. Vêem em Jesus a cura de seus males e uma esperança para suas vidas.

Para se fazer a experiência de Deus, conhecer a Deus, é necessário levar uma vida de intimidade com o Pai, à semelhança de Jesus, o Filho amado. Essa intimidade é que garante a revelação de Deus, ou seja, a suspensão e abertura do véu que encobre o conhecimento de Deus. Entrando na intimidade do Pai, descobrimos o sentido da vida, enxergamos o mundo com os olhos de Deus, à semelhança de Jesus.

A vida em Deus, na pessoa de Jesus, libertava do jugo. Na época a Lei com seus 613 mandamentos era um peso enorme para os pobres judeus e prosélitos. Em lugar de conduzir, a Lei afastava as pessoas de Deus. Jesus vem libertar deste peso.

Na nova dinâmica de vida proposta por Jesus, o povo experimenta alegria de viver; sente no coração o Deus que os ama e os salva. Compreendem que a salvação não vem da prática externa da Lei, mas da bondade e graça de Deus. Todos se sentirão filhos e filhas de Deus.

Por detrás dessas palavras de Jesus está o amor de Deus. Ele ama a todos com amor eterno e gratuito. Ele veio trazer, em Jesus, a liberdade plena, o alívio nos sofrimentos, a comunhão com Deus que cuida de todos nós.

E só conhece a Deus aquele que se coloca no seguimento de Jesus, com humildade, com docilidade de coração, com espírito de abertura à novidade do Reino de Deus que Jesus veio inaugurar.

Ter o coração parecido com o de Jesus é a meta do cristão. Ser parecido com a criança que está sempre aberta, como uma tábula rasa, em disponibilidade para aprender e fazer como aprendeu.

Peçamos ao Senhor que tire do nosso coração todo sentimento de autossuficiência, de fechamento, de nos julgarmos sabedores de tudo, donos do dinheiro, do poder e das pessoas. Deus nos livre da arrogância, da soberba, do orgulho, da vaidade, da prepotência, da ganância e do egoísmo que arruína a nós e às pessoas ao nosso redor.

Os pobres que encontramos nas calçadas, nas nossas portas, nas portas de nossas igrejas têm de nossa parte um sorriso, um olhar de compaixão? Como tratamos o catador de reciclável, o enfermo de mente e de corpo, o gari, o flanelinha, o vendedor de bombom no semáfora etc?

Nossas atitudes para com os pequenos e pobres podem ser um bom “termômetro” para medir a “temperatura” de nosso amor a Deus. Nossos apegos a práticas externas de devoção podem revelar nossa distância do Deus de Jesus quando não nos convertem em pessoas mais humanizadas e misericordiosas.

Nossa meta como cristãos deve ser a de tornar o amor de Deus uma realidade viva no mundo lutando contra tudo o que gera ódio, injustiça, opressão, mentira, sofrimento…

Para refletir e rezar: Faço pacto (com o meu silêncio, indiferença, cumplicidade) com os sistemas que geram injustiça, ou esforço-me ativamente por destruir tudo o que é uma negação do amor de Deus? As nossas comunidades são espaços de acolhimento e de hospitalidade, oásis do amor de Deus, não só para os amigos, mas também para os pobres, os marginalizados, os sofredores que buscam em nós um sinal de amor, de ternura e de esperança?

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Jesus interpreta o Ensinamento de Deus (Torá)

aureliano, 10.02.23

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6º Domingo do Tempo Comum [12 de fevereiro de 2023]

[Mt 5,17-37]

Estamos no capítulo 5º de Mateus. No domingo retrasado rezamos o Evangelho das Bem-aventuranças: a verdadeira felicidade está em viver segundo o Espírito de Jesus. No domingo passado vimos que o discípulo é chamado a iluminar e a dar novo sabor à própria vida e à vida dos outros a partir de Jesus. Hoje, continuando a leitura do mesmo capítulo, ouvimos o ensinamento novo de Jesus em relação à Lei.

A fidelidade à Lei ou Torá, Ensinamento do Senhor, - os cinco primeiros livros da Bíblia, normalmente lidos nas sinagogas aos sábados - era o que colocava o judeu piedoso no caminho da santidade e da justiça. A dificuldade apontada por Jesus na reforma que ele faz da Lei era o entendimento corrente no seu tempo, de que bastava a fidelidade externa, uma observância à letra da Lei para ser justo. Jesus mostra que cumprir a Lei não é executar o que está prescrito ou deixar de fazer o que é proibido. Cumprir a Lei e realizar toda justiça, é agir de acordo com a vontade amorosa do Pai que está por trás da letra da Lei. É viver o espírito da Lei. É a intencionalidade de cada um que dá sentido ao que se vive. Poderíamos dizer que é a reta intenção no agir. O desejo de fazer o melhor, de acertar, de perceber como Deus gostaria que agíssemos, como Jesus agiria em nosso lugar.

Assim, quando a Lei diz “não matarás”, ela quer dizer, não sufocarás teu irmão por desprezo ou por rixa, por meio do preconceito ou da lei da ‘vantagem’. É claro que o mandamento “não matarás” refere-se também a atitudes e legislações que tiram da pessoa a possibilidade de viver com dignidade, de ter acesso à saúde e à educação, ao pão de cada dia. Significa que a vida humana deve ser preservada, cuidada, respeitada desde a concepção até ao último suspiro.

Pelo que se constata, não há dúvida de que muitas atitudes e leis governamentais (Executivo, Congresso e Judiciário) levam à morte milhares de pessoas. Uma considerável parte de políticos e empresários desonestos roubou e continua roubando o patrimônio brasileiro. Há uma manobra satânica para livrá-los da condenação à devolução do que roubaram. Outros nem são levados a julgamento. Há ainda aqueles que, por omissão e maldade, sucateiam o patrimônio público, se valem dos cargos e funções para prejudicar os pobres e suprimir direitos adquiridos. Isto mata muita gente e coloca em dificuldade muitas vidas. E, o que é pior, muitos deles com a Bíblia ou o Rosário na mão!

É terrível cair nas mãos de um grupo que age movido somente por interesses politiqueiros, sem o mínimo de consciência ética, desdenhando totalmente o bem comum, o clamor dos pobres. É um daqueles pecados que, na linguagem da catequese tradicional, “bradam aos céus e pedem a Deus por vingança”. Não significa que Deus seja vingativo, mas são pecados que afrontam a ordem natural da Criação, que destroem a humanidade. “Lembrai-vos de que o salário, do qual privastes os trabalhadores que ceifaram os vossos campos, clama, e os gritos dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor dos exércitos” (Tg 5,4).

Da mesma forma, o “não adulterarás” dever ir além. Deve levar o discípulo de Jesus a lutar contra a cobiça que habita o coração de toda pessoa. No entendimento dos rabinos do tempo de Jesus, se a mulher olhasse para outro homem ou se demonstrasse qualquer insinuação de desejo por possuí-lo, já era motivo para divorciar-se dela. Porém o homem (varão) era imune a essas penalizações. Jesus, porém, coloca homem e mulher no mesmo nível de compromisso, de respeito e fidelidade.

O mal é gestado nas más intenções que brotam do coração (cf. Mc 7, 21) tanto do homem quanto da mulher. Nesse mesmo sentido é preciso entender que o divórcio não faz parte do plano de Deus. Ainda que, em determinadas circunstâncias, seja um mal menor, é sempre um mal. Todos sabemos bem das consequências danosas, ainda que por vezes inevitáveis, provocadas pela separação do casal! Quando um casamento é vivido “até que a morte separe”, num consenso de compreensão e perdão mútuos, certamente muitas dores e sofrimentos são evitados.

O evangelho de hoje nos ajuda a entender que diante de nós estão dois caminhos: “Diante dos homens está a vida e a morte, o bem e o mal; ser-te-á dado o que preferires” (Eclo, 15, 17; cf Dt 30,15-20). A Lei de Moisés nos ajuda a escolher qual o melhor caminho. Jesus, interpretando a Lei, nos mostra a necessidade de ir além da literalidade da Lei. Em outras palavras: se alguém pensa que para servir a Deus basta ir ao templo, “assistir” à missa ou ao culto, sem cultivar o amor e o cuidado para com os pais; ou que, em relação ao casamento, basta honrar o “contrato matrimonial”, sem necessidade de se preocupar em renovar o amor, o respeito e a fidelidade ao esposo, à esposa, aos filhos todos os dias, está fora do projeto de Deus; não está cumprindo a justiça do Reino. É o caso também de quem pensa que roubar ou matar é quando se tira algo do outro ou se tira a vida de alguém, podendo-se andar de mãos dadas com a corrupção e a mentira. Ou mesmo quando se pensa que não há necessidade de importar-se com a preservação e cuidados do meio ambiente que “geme dores de parto” (cf. Rm 8,22).

Viver o espírito da Lei, o Ensinamento de Deus, para se cumprir a justiça do Reino anunciado por Jesus, leva o discípulo a olhar para seu interior onde está inscrita a vontade do Pai. Escutando a consciência, voz de Deus, conferindo-a com a Palavra que ouvimos, vamos percebendo por onde andamos e que contornos de conversão precisamos fazer.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe

aureliano, 30.12.19

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Santa Maria, Mãe de Deus [1º de janeiro de 2020]

[Lc 2,16-21]

“Quanto a Maria, guardava todos esses fatos e meditava sobre eles em seu coração” (Lc 2,19). Esse relato já bastaria para mostrar como Maria, mãe de Jesus, foi uma mulher profundamente de Deus. Essa frase bastaria para buscarmos em Maria um exemplo de verdadeira discípula, mãe, mulher, íntima do Pai.

Mulher contemplativa, via, ouvia e se admirava dos acontecimentos. Sabia que tudo provinha do Pai. Meditava tudo em seu coração. Os acontecimentos em torno do Menino não eram motivo de orgulho, de vaidade, de vanglória. Eram motivo para colocar-se ainda mais no coração do Pai. Sem compreender o que estava acontecendo, lança-se confiante e silente no Mistério de Deus.

Ao celebrarmos, hoje, Maria Mãe de Deus, valem aqui algumas considerações a respeito desse dogma da Igreja.

Dogmas são como que placas a indicar o caminho da nossa fé. Metaforicamente funcionam como balizas, olhos-de-gato, arrimos e proteção. Os meio-fios de uma via são balizas que não fecham o caminho, mas indicam por onde se deve caminhar. No passado havia um exagero em relação aos dogmas, criando-se uma espécie de dogmatismo: muitas placas e pouco caminho. Hoje, após o Vaticano II, a Igreja fez uma purificação da estrada, tirando muita coisa que atrapalha, valorizando mais a Palavra de Deus e a experiência de vida de cada um, dialogando de maneira mais aberta. Deste modo ela não abre mão das verdades que acredita, distinguindo o núcleo entre aquilo de que não pode abrir mão e aqueles elementos que evoluem com o tempo. Abre-se a possibilidade do diálogo que, ao contrário de negar os fundamentos da fé, favorece maior crescimento e amadurecimento da vida cristã e eclesial.

O dogma da Maternidade Divina de Maria foi definido pelo Concílio de Éfeso, no ano 431. A discussão era cristológica, isto é, girava em torno da divindade e humanidade de Jesus. Afirmando que Jesus é Deus e homem, concluiu o Concílio que Maria é Theotokos, ou seja, Genitora (Mãe) de Deus, porque é mãe de Jesus que é Deus.

Maria é mãe porque gerou e educou Jesus, o Filho de Deus. Em poucas cenas e palavras, mas profundamente significativas, os Evangelhos retratam Maria sempre atenta, fiel, humilde, generosa, acolhedora, solícita, aberta à vontade do Pai.

Ao proclamar Maria Mãe de Deus, não estamos fazendo de Maria uma deusa, nem colocando-a como quarta Pessoa da Santíssima Trindade. Porém como Deus é comunidade de pessoas (Pai, Filho e Espírito Santo), Maria, mãe do Filho de Deus, toca cada pessoa da Trindade. É filha predileta e escolhida do Pai.  Como mãe, é figura do amor criador de Deus Pai. Em relação ao Filho, Maria é mãe, educadora, discípula e companheira. É também uma mulher cheia do Espírito do Senhor. Templo vivo de Deus. Sua docilidade ao Espírito Santo explica sua maternidade biológica e seu coração aberto a Deus.

A comunidade-Igreja participa da maternidade de Maria. Ela gera novos filhos pela fé, pelo batismo, pelo testemunho do bem. A comunidade é chamada a dar o aconchego de mãe àquele que sofre, que precisa de carinho, de educação, de cuidados, de pão. A ‘opção preferencial pelos pobres’ é uma das formas mais claras de a Igreja mostrar seu rosto materno: preocupando-se com aqueles que não têm moradia, que estão desempregados, que não têm pão, que estão doentes e sem cuidado, sem reconhecimento, cujos direitos essenciais lhes são negados, aqueles que estão na invisibilidade social e econômica. Coração de mãe não aguenta ver os filhos em condições desumanas.

Santo Ambrósio, no século IV, dizia que cada cristão é mãe como Maria, pois gera Cristo na sua alma, no seu coração. Quando cultivamos a ternura, a intuição, o cuidado, a acolhida, a capacidade de zelar pela vida ameaçada, estamos desenvolvendo nossa dimensão cristã de mãe. Uma espécie de maternagem.

Nesse dia mundial de oração pela paz, queremos que nossas palavras encontrem ressonância em nossos gestos e atitudes. Sendo contra a violência, mais ternos, evitando palavras que machucam e entristecem, a partir de nossos lares e ambiente que frequentamos e em que trabalhamos. Reafirmando nosso NÃO incondicional ao desarmamento, à fabricação e comercialização de armas, às guerras e guerrilhas que tão mal fazem à humanidade. Lembrando-nos de que a paz é fruto da justiça (cf. Is 32,17), enquanto nossas relações forem injustas, desrespeitosas, torna-se em vão falar de paz. Esta não se constrói com palavras, mas com atitudes.

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MARIA, MÃE DAQUELE QUE VEIO TRAZER A PAZ

Estamos começando o ano. “Feliz Ano Novo!” dizem todos. O que será mesmo um Ano Feliz? Meu pai tem sugerido desejar: “Abençoado Ano Novo”. Seria importante refletirmos um pouco sobre o que queremos neste ano de 2020. Que propósitos de vida estou assumindo? De quem vou me aproximar neste ano? Com quem vou trabalhar? Como quero que seja minha relação com eles/elas? Com que lentes vou olhar as pessoas, a história, as lágrimas, a violência, o poder político e econômico? Que colaboração pretendo dar para que o mundo possa ser melhor? Com que espírito assumirei meu trabalho profissional, meus compromissos familiares? Como será minha oração durante esse ano? Com que espírito participarei da comunidade? Mais do que pedir um ano melhor ou excelente, peçamos ao Pai que nos ajude a ser melhores, mais humanos em 2020.

Neste dia em que celebramos o dia da Confraternização Universal ou Dia Internacional da Paz, é tempo também de pensar na paz. Que paz queremos? Uma paz psicológica que visa ao bem-estar pessoal? Uma paz que nos faz fugir dos conflitos e angústias sociais e humanas para um “oásis” distante dos problemas humanos? Essa não é a paz que Jesus trouxe e anunciou. O Shalom judaico é indicativo de um estado de ânimo, de bem-estar pessoal e comunitário. É saúde e qualidade de vida envolvendo a comunidade. Não há paz para o judeu piedoso enquanto seus irmãos estiverem sofrendo, vítimas da maldade humana. Então devemos nos perguntar: “Que paz estamos desejando e construindo?”. Pois a paz/shalon é dom de Deus, mas também constructo humano. A paz é fruto da justiça (cf. Is 9,1-6; 32,17).

Celebramos neste dia, com a Igreja, a Maternidade Divina de Maria. Esse dogma foi definido em 431, no Concílio de Éfeso. A discussão girava em torno da humanidade e divindade de Jesus. Dessa discussão concluíram essa realidade de Maria: ela não é mãe somente da humanidade de Jesus, mas de toda a sua pessoa de Filho de Deus Encarnado. Se Jesus é Deus, então Maria é Theotokos - Mãe de Deus.

O evangelho de hoje nos relata que “Maria guardava todos esses fatos e meditava sobre eles em seu coração”. Vê-se, por esse e outros textos, que Maria não ocupa o centro do evangelho. Tudo o que acontece nela é referido ao Pai, no Filho, pelo Espírito Santo. Ela foi uma mulher preparada por Deus para ser Sua Mãe. E correspondeu com uma vida de humildade, de serviço, de cuidado, de presença atenta, de fidelidade. É Mãe de Deus e nossa Mãe. A meditação sobre aqueles acontecimentos iam-lhe modelando a alma para que fosse sempre mais de Deus e da comunidade.

Obrigado, Maria, mãe de Jesus. Nós te agradecemos por teres ensinado Jesus a andar, a falar, a caminhar e a amar. O teu olhar amoroso de mãe, o teu sorriso, o teu colo e a tua presença de qualidade marcaram a personalidade e a missão de Jesus. Obrigado porque também aprendeste a ser mãe, amando sem reter o teu Filho. Ensina-nos a viver os traços da maternidade: o afeto, a ternura, o cuidado e a intuição. Amem

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Qual é o teu tesouro?

aureliano, 09.08.19

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19º Domingo do Tempo Comum [11 de agosto de 2019]

[Lc 12,32-48]

No evangelho do domingo passado acompanhamos Jesus orientando seus discípulos a não depositarem sua confiança nos bens terrenos: “Tomai cuidado com todo tipo de ganância, porque, mesmo que alguém tenha muitas coisas, a vida de um homem não consiste na abundância de bens” (Lc 12,15). Essa admoestação de Jesus pode ter provocado nos discípulos alguma defecção, desistência, medo de assumir o projeto que o Mestre apresenta. Daí a palavra do evangelho de hoje: “Não tenhais medo, pequenino rebanho, pois foi do agrado do Pai dar a vós o Reino”. Parece que Jesus não contava com grande multidão de discípulos. Ele conta com poucos, porém destemidos, generosos, capazes de se desprenderem dos bens e posses e lutarem por um mundo mais fraterno e igualitário. Pequeno grupo que tenha como único tesouro o Reino. Um pequeno rebanho, porém que se constitui em grande sinal do Reino.

  1. “Onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração”. O desprendimento dos bens em favor dos pobres traz ao discípulo a verdadeira liberdade. Note-se que não se trata pura e simplesmente de desprezo das coisas materiais. Isso seria uma maneira doentia, desumana de se relacionar com os bens da Criação, dons de Deus. Mas Jesus propõe um jeito novo: vender e dar em esmola. É a partilha evangélica. É o não-acúmulo, o sair de si em favor dos necessitados. Essa é a perspectiva cristã. Se nosso tesouro é o Reino de Deus, então nosso coração estará em paz, livre, empenhado naquelas realidades que não passam. O cuidado com as pessoas terá prioridade sobre o cuidado com as coisas.
  2. “Que vossos rins estejam cingidos e vossas lâmpadas acesas”. Jesus alerta para a necessidade de se estar atento, pronto. Rins cingidos significa estar preparado para agir. Aliás, o Papa Francisco lembra que a Igreja precisa sair, ir para as ruas, encontrar-se com os pobres, com os necessitados, com os sofredores: "Eu quero agito nas dioceses, que vocês saiam às ruas. Eu quero que a Igreja vá para as ruas, eu quero que nós nos defendamos de toda acomodação, imobilidade, clericalismo. Se a Igreja não sai às ruas, se converte em uma ONG. A igreja não pode ser uma ONG" (JMJ do Brasil, 2013). Na JMJ da Polônia (2016) o Papa insiste na necessidade de sair: “Queridos jovens, não viemos ao mundo para ‘vegetar’, para transcorrer comodamente os dias, para fazer da vida um sofá que nos adormeça; pelo contrário, viemos com outra finalidade, para deixar uma marca. É muito triste passar pela vida sem deixar uma marca. Mas, quando escolhemos a comodidade, confundindo felicidade com consumo, então o preço que pagamos é muito, mas muito caro: perdemos a liberdade”. E acrescentou: “O tempo que hoje estamos a viver não precisa de jovens-sofá, mas de jovens com os sapatos, ainda melhor, calçados com as botas”. - Lâmpadas acesas significa cuidar da fé. Esta é a luz que ilumina o caminho. Se nos descuidamos do óleo da caridade, das boas obras, da oração fervorosa, do cultivo de uma mística profunda, do cuidado com os pobres e sofredores, nossa fé pode esmorecer e nossa lâmpada se apagar. Então nosso caminho ficará em trevas e também aqueles que precisam de nossa luz.
  3. “Felizes os empregados que o senhor encontrar acordados quando chegar”. É preciso estar despertos. É muito fácil viver dormindo. É só fazer o que todo mundo faz. É deixar a vida correr ao sabor do vento: pra onde ventar a gente vai. É viver insensível ao sofrimento alheio. Quando se vive só para trabalhar, ganhar dinheiro, cumprir algumas normas, comer, dormir, se divertir é viver dormindo. As coisas mais importantes, fundamentais da vida passam longe. Teologicamente, “dormir” significa viver uma religião de tradição. É não querer perceber o agir de Deus na história, nas pessoas. É ser indiferente, despreocupado com o que realmente conta. Talvez se possam fazer muitas coisas, mas se permanece na superficialidade dessas coisas. Isso é viver dormindo. E Jesus admoesta que é preciso viver acordado.– Um grande risco é vivermos uma “religião adormecida”. Uma espiritualidade que anestesia, que leva para as nuvens. Que faz viver em torno de si, de seus próprios conflitos e desgraças. “Para viver despertos é importante viver mais devagar, cultivar melhor o silêncio e estar atento aos apelos do coração. Sem dúvida, o mais decisivo é viver amando. Só quem ama vive intensamente, com alegria e vitalidade, atento ao essencial. Por outro lado, para despertar de uma ‘religião adormecida’ só há um caminho: buscar para além dos ritos e das crenças, aprofundar-se mais em nossa verdade perante Deus e abrir-nos confiantemente ao seu mistério. ‘Felizes aqueles que o Senhor, ao chegar, encontrar vigiando’” (Pe. José Antônio Pagola, O caminho aberto por Jesus, p. 215).
  4. “A quem muito foi dado, muito será pedido; a quem muito foi confiado, muito mais será exigido”. São palavras que precisam nos acompanhar a vida toda. Quanto mais recebemos de Deus, maior nossa responsabilidade de repartir. Se Deus me deu muito, devo também dar muito. O Pai do céu não é injusto com ninguém: aqueles que receberam mais, precisam criar consciência de que devem distribuir com quem não tem. A Eucaristia nos ensina que a verdadeira riqueza é a aquela que se divide com os outros. O Deus que defende a vida justa e digna para os pobres não pode habitar num coração dominado pelo poder e pelo dinheiro.

*Neste domingo em que comemoramos o Dia dos Pais, queremos lembrar essa figura representativa do Pai do céu. Oxalá os pais assumissem, de verdade, sua missão para além da manutenção de casa e comida. Pai é aquele que educa, que forma, que se faz presente, que ampara, que dá carinho, que oferece segurança, que aponta e ajuda a trilhar caminhos de vida. Penso que nem todo homem, embora casado, tenha vocação para ser pai. Não adianta ter filhos, mas não ser referência de vida, de honestidade, de cuidado, de paternidade responsável. Parabéns papais! Dêem uma olhadinha na maneira como São José exerceu sua paternidade: orante, responsável, dedicado, confiante, respeitoso, justo, trabalhador, honesto.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

As palavras e ações revelam o coração

aureliano, 28.02.19

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8º Domingo do Tempo Comum [03 de março de 2019]

[Lc 6,39-45]

É a ultima parte do “Sermão da Planície”. Uma coletânea de sentenças em vista da construção da comunidade cristã. Tanto para os mestres, a liderança da comunidade, como para os discípulos, os fiéis participantes. O guia precisa enxergar bem para conduzir seus guiados (cf. Lc 6,39-40). Um guia desnorteado, iludido, insensato pode levar todos os seus guiados a se perderem. O mestre precisa estar bem iluminado, centrado no Mestre maior, Jesus, para que conduza com justiça e sabedoria os discípulos.

Sem hipocrisia

Jesus nos ensina que as pessoas devem ser avaliadas pelos seus frutos, e não por aquilo que aparece à primeira vista, pela aparência. A gente pode se enganar e se perder. Não são os belos discursos, as frases de efeito, as promessas de realização e sucesso que garantem a verdade e sinceridade do líder. Mas suas ações, sua atitude, os frutos produzidos. Isso é que garante a confiança que se pode colocar na pessoa que está à frente do grupo.

Jesus condena um discurso marcado pela hipocrisia. “Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho, e então poderás enxergar bem para tirar o cisco do olho do teu irmão” (Lc 6,42). Cada um deve olhar para dentro de si mesmo e avaliar como tem caminhado. O julgamento pertence a Deus. “Não julgueis, para não serdes julgados; não condeneis para não serdes condenados; perdoai, e vos será perdoado” (Lc 6,36-37).

Que frutos produzimos?

A nós compete tentar produzir frutos bons. E quais são os frutos que o Senhor espera de nós? A justiça amorosa, o serviço aos irmãos, o comprometimento com os desafios da família e da comunidade. O envolvimento nas políticas públicas. Sair daquele pensamento e atitude de conformismo e de que religião deve ser vivida dentro do templo. “Sujar” os pés na lama em busca de melhoria de vida dos mais pobres a partir do Evangelho. “Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças” (Papa Francisco).

Solidários e comprometidos

Uma Igreja que se empenha em ser fiel a Jesus Cristo, que assume o Evangelho como norma de vida, produz frutos. A verdadeira religião é aquela que atua pela libertação e salvação dos órfãos, das viúvas, dos pobres. “A religião pura e sem mácula diante de Deus, nosso Pai, consiste nisto: visitar os órfãos e as viúvas em suas tribulações e guardar-se livre da corrupção do mundo” (Tg 1,27).

E João já advertia a comunidade: “Se alguém, possuindo os bens deste mundo, vê o seu irmão na necessidade e lhe fecha o coração, como permanecer nele o amor de Deus? Filhinhos, não amemos com palavras nem com a língua, mas com ações e em verdade” (1Jo 3,17-18).

Nossa confiança deve ser investida naqueles que, por suas ações, mostram-se participantes do projeto do Reino de Deus. Aqueles que trabalham pela fraternidade, pela justiça e pela paz. Não adianta proclamar a Palavra ou carregar a Bíblia debaixo do braço ou fazer longas e fervorosas orações, mas continuar com atitudes que manifestam frutos podres de uma vida hipócrita, distante do evangelho. Estes tais não merecem nossa confiança. Só merece nossa confiança quem se coloca, a exemplo de Jesus, a serviço dos fracos, dos injustiçados, dos pequenos e sofredores, os perseguidos e marginalizados.

Como anda nossa acolhida?

Um modo muito interessante e necessário de produzirmos frutos é a acolhida, o respeito, a ajuda aos sofredores. Quando não tornamos a vida dos irmãos mais difícil do que já está. Quando sabemos acolher, ouvir, respeitar a partilha que nos fazem aqueles que passam por momentos de dor e angústia. Quando não envenenamos com nossas fofocas e calúnias a vida dos outros. Quando desenvolvemos em nós o espírito de compaixão e solidariedade com os pecadores, acolhendo-os e perdoando-lhes as fraquezas. Quando respeitamos os idosos e lhes proporcionamos um pouco de alegria e bom sabor na vida já marcada pela insegurança, pelo medo, pela enfermidade.

Fé e vida

Podemos pensar também nos cultos e liturgias que celebramos. Jesus invocou certa vez o profeta Isaías ao recriminar a hipocrisia na oração: “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim. Em vão me prestam culto, pois o que ensinam são pensamentos humanos” (Mt 15,8-9). Deus não se interessa por práticas religiosas vazias, descomprometidas. Às vezes há mais comércio, panos, fumaça, ritos e louvações do que corações sinceros e retos com desejo de louvar a Deus e de buscar a conversão sincera e a mudança de vida. Não são os “sacrifícios e holocaustos” que lhe agradam, mas um coração puro e reto. Quando o interior não for puro e reto, o futuro não será humano. “O homem bom tira coisas boas do bom tesouro do seu coração” (Lc 6,5).

Ser amante da verdade

As sentenças do evangelho de hoje nos permitem fazer uma reflexão sobre a verdade. Vivemos num mundo marcada e descaradamente mentiroso e falso. As aparências e as máscaras é que dão as cartas. Merece credibilidade o que aparece, que agrada, que dá lucro.

Há especialistas em mentir, em montar e espalhar fake news, em armar estratégias malignas para enganar a população. As guerras, por exemplo, são geralmente realizadas dentro de esquemas mentirosos. Vejam a mentira em torno da guerra do Iraque. Que amparo os Estados Unidos estão oferecendo à população iraquiana? Está em destroços! Hoje estamos assistindo à situação da Venezuela. A mentira que fazem circular nas mídias em torno da Venezuela é terrível. Não se diz a verdade a respeito dos interesses internacionais, a começar pelos Estados Unidos, sobre o petróleo venezuelano. Por detrás das notícias da falta de alimento e medicamento para a população - que certamente são verdadeiras - se esconde a tramóia perversa de se apossar da riqueza do País: a maior reserva de petróleo do mundo. A mentira não nos deixa ver os abusos, os desvios, os acordos perversos. A mentira nos cega.

Líderes mentirosos trazem verdadeira miséria e desumanidade à população. Isso tanto em nível de política nacional e internacional, quanto em nível de Igreja, de comunidade, de família, de ambiente de trabalho.

Em nível de religião, é sabido que muitos se valem de discurso religioso mentiroso para enganar as pessoas e tirar proveito da situação. Incutem o medo, o desespero, o fanatismo na pessoa. Dominam. Então a pesssoa começa a fazer o que o falso mestre mandar. Há inúmeros charlatões enganando os pobres, sugando-lhes todas as forças e roubando-lhes o pouco que têm para sobreviver.

Pelos frutos é que se conhece a árvore. “Não existe árvore boa que dê frutos ruins, nem árvore ruim que dê frutos bons” (Lc 6,43). Estejamos, pois, atentos.

*Carnaval

Neste final de semana é tempo de carnaval. Inicialmente era uma festa pagã. A Igreja Católica quis dar-lhe um sentido. Então estabeleceu que, nos três dias imediatamente anteriores à Quarta-feira de Cinzas, dia em que tem início a Quaresma, se fariam as festas de despedida da “carne” (carne vale = adeus à carne) para se entrar com sobriedade no tempo de conversão e de penitência proposto pela Igreja aos seus fiéis.

Cada um vive esse tempo como lhe apraz: uns passeiam; outros rezam; outros brincam; outros fazem retiros. Não se pode perder de vista, porém, o respeito pela pessoa humana. O cristão precisa ser comedido e responsável no uso do álcool e outras drogas. Nesse tempo muitos acham que podem tudo. Há muita falta de respeito pelas pessoas. Muita droga e muito sexo desmedido. Realidades que não condizem com a vida cristã. Não há nada de mal em se festejar, brincar e se alegrar. O mal está na falta de respeito, no desperdício, nos excessos: “Conduzi-vos pelo Espírito e não satisfareis as obras da carne. (...) Os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne com suas paixões e seus desejos. Se vivemos pelo Espírito, pelo Espírito também pautemos a nossa conduta” (Gl 5,16.24-25). Vamos nos divertir como cristãos e não como pagãos: “Outrora éreis treva, mas agora sois luz no Senhor: andai como filhos da luz” (Ef 5,8).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

O culto que agrada a Deus brota do coração

aureliano, 31.08.18

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22º Domingo do Tempo Comum [02 de setembro de 2018]

   [Mc 7,1-8.14-15.21-23]

Neste domingo estamos de volta ao evangelho de Marcos.  No relato de hoje vemos um confronto entre Jesus e os escribas e fariseus. Aqueles (os escribas), provenientes de Jerusalém, eram os entendidos da Escritura; estes (os fariseus), uma espécie de irmandade que se caracterizava pela observância rigorosa da Lei. Jesus vai dizer que aquelas tradições que guardavam e exigiam que se guardassem não eram divinas, mas humanas, inventadas pelos que estão longe de Deus, embora se julguem próximos dele. O contexto é da discussão entre cristãos provindos do judaísmo que insistiam na necessidade da observância da Lei de Moisés e os cristãos provindos do helenismo que não tinham o costume de tais práticas. Marcos quer dizer que, com a presença de Jesus, o que voga agora é a Lei do Espírito: “É para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5,1).

Os povos antigos e, dentre estes, os judeus, tinham muita dificuldade de lidar com as situações de doenças graves e de morte, pois eram realidades que eles não podiam compreender nem dominar. Por isso criavam uma série de leis e normas que os distanciavam e, como que os “imunizavam” deste desconforto. Aí se explica a exigência de os judeus lavarem as mãos antes das refeições: ficarem puros para a relação com o divino.

As palavras de Jesus lembrando a profecia de Isaías: “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim”, são critério para repensarmos nossa relação com Deus. É uma denúncia de determinadas atitudes que parecem cristãs e católicas, mas que trazem no seu bojo uma grande hipocrisia. Não basta colocar uma “capa” cristã para a oração, e continuar com um coração impuro, perverso, rancoroso, desonesto, insensível, distante de Deus. “Não adianta ir à Igreja rezar e fazer tudo errado” já dizia o poeta cantor.

“O que torna impuro o homem não é o que entra nele vindo de fora, mas o que sai de seu interior. Pois é de dentro do coração humano que saem as más intenções, imoralidades, roubos, assassínios, adultérios, ambições desmedidas, maldades, fraudes, devassidão, inveja, calúnia, orgulho, falta de juízo”. Com essas palavras Jesus traz uma liberdade muito grande para os pobres. Antes viviam preocupados com a observância das leis sem conta e quase não podiam viver. Agora estão livres desta preocupação. Jesus vem libertar o ser humano de leis externas e coloca no seu coração a Lei do Espírito, do Amor. Ama e faze o que quiseres. Se calares, calarás com amor; se gritares, gritarás com amor; se corrigires, corrigirás com amor; se perdoares, perdoarás com amor. Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa senão o amor serão os teus frutos” (Santo Agostinho).

Volto aqui à citação que Marcos faz de Isaías: “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim” (Is 29,13). É a queixa de Deus. O que caracteriza toda religião é prestar culto a Deus. Acontece, porém que, de modo geral, se entende prestar culto com os lábios, repetindo fórmulas, recitando ou cantando salmos e hinos etc. Enquanto o coração está longe d’Ele.

Não há dúvida, porém, de que o culto que agrada a Deus nasce do coração, da adesão interior, desse centro profundo da pessoa, donde brotam as decisões, desejos e projetos. Quando nosso coração está longe de Deus, nosso culto fica sem conteúdo. A falta de vida, de escuta sincera da Palavra de Deus, de amor ao irmão torna vazio nosso culto. O que dá conteúdo ao nosso culto é a fidelidade cotidiana, a atenção aos mais necessitados, a prática da misericórdia e da justiça, o empenho em ser parecido com Jesus: “Quero misericórdia e não sacrifício”. Ou lendo Tiago: “A religião pura e sem mancha diante de Deus Pai é esta: assistir os órfãos e as viúvas em suas tribulações e não se deixar contaminar pelo mundo” (Tg 1,27).

“As doutrinas que ensinam são preceitos humanos”. A propósito destas palavras de Jesus, diz Pe. Pagola: “Em toda religião há tradições que são ‘humanas’. Normas, costumes, devoções que nascem para viver a religiosidade em determinada cultura. Podem fazer muito bem. Porém, fazem muito mal quando nos distraem e nos distanciam da Palavra de Deus. Nunca poderão ter a primazia. Ao terminar a citação do profeta Isaías, Jesus resume seu pensamento com palavras muito sérias: ‘Deixais de lado o mandamento de Deus para apegardes à tradição dos homens’. Quando nos apegamos cegamente a tradições humanas, corremos o risco de esquecer o mandamento do amor e nos desviarmos do seguimento a Jesus, Palavra de Deus encarnada. Na religião cristã o primeiro é sempre Jesus e seu chamado ao amor. Só depois vêm nossas tradições humanas, por mais importantes que possam parecer. Não podemos deixar o essencial cair no esquecimento”.

Pode ilustrar as tradições que distraem, por exemplo, os excessos nas vestes litúrgicas, os enfeites exagerados, a busca de brilho e de ritos inventados. Os elementos litúrgicos devem ajudar a entrar em comunhão com o Pai na celebração. Jamais cansar, distrair, desfocar do essencial da celebração, a Páscoa do Senhor. Outros elementos que matam o culto ou a celebração acontecem na celebração de alguns sacramentos como o matrimônio, o batismo, a primeira eucaristia, ordenação. Há um excesso de parafernália que não deixa a gente encontrar Jesus. Se se pergunta: “Onde está Jesus naquela celebração?”, a resposta pode ser decepcionante. Fica parecendo um culto pagão. Os elementos do evangelho ficam ofuscados pelo brilho da vaidade, da autorreferencialidade, do sucesso, do narcisismo. É urgente revermos isso!

*Neste mês celebramos a Bíblia, Palavra de Deus para nós, crentes. O tema do Mês da Bíblia para este ano é: “Para que n’Ele nossos povos tenham vida”. E o lema: “A sabedoria é um espírito amigo do ser humano” (Sb 1,6). A proposta para estudo são os capítulos 1-6 do livro da Sabedoria. Sugiro que cada um procure ler esses capítulos. Mas seria bom ler a introdução do livro que o editor faz, pois ajuda na compreensão. Assim você terá uma chave de leitura para ajudar a compreender todo o livro no seu contexto histórico. Mesmo porque este é um dos sete livros ausentes na lista dos livros da bíblia protestante. Planeje algo neste mês que coloque você em sintonia com a Palavra de Deus. Prepare em um cantinho de sua casa ou do quarto um altarzinho para a bíblia; deixe-a aberta, de preferência no livro da Sabedoria. Participe de um encontro bíblico, entre num grupo de reflexão ou círculo bíblico, faça uma pesquisa/estudo em algum site católico sobre este tema etc. É bom termos diante dos olhos as palavras de São Jerônimo: “Ignorar as Escrituras é ignorar a Cristo”.

Pe. Aureliano de Moura  Lima, SDN