O templo, o culto e a vida
Dedicação da Basílica do Latrão

[09 de novembro de 2025]
[Jo 2,13-22]
A basílica de Latrão foi a primeira catedral do mundo cristão. Igreja catedral é a igreja do bispo do lugar. Vem de cátedra, cadeira presidencial. Ali o bispo preside a Eucaristia e preside a comunidade que lhe foi confiada como Igreja Particular ou Diocese. A igreja dedicada a São João do Latrão foi, durante muito tempo, a igreja do bispo de Roma, o Papa. No dizer de Santo Inácio de Antioquia o Papa recebeu o ministério de “presidir a assembléia universal da caridade”.
Bem. A festa de hoje tem o propósito de alimentar a unidade da Igreja, mostrando que as catedrais do mundo inteiro, bem como toda igreja em que a comunidade cristã católica se reúne, está em comunhão com toda a Igreja. Aqui está uma das razões pelas quais se menciona o nome do papa e do bispo na celebração eucarística: comunhão de fé espírito de unidade.
É importante ressaltar que celebramos não o templo de pedras, mas o templo do Espírito. Na carta de Pedro temos a expressão “pedras vivas” (1Pd 2,5), referindo-se à Igreja desejada por Jesus. Paulo diz que essa Igreja oferece um “sacrifício espiritual” (Rm 12,1; 1Pd 2,5) (isto é, promovido pelo Espírito Santo), que é a prática de vida cristã. O alicerce é o próprio Cristo (1Pd 2,4).
Assim entramos no evangelho da festa que celebramos. Ele nos ajuda a entender mais o sentido da Igreja. Jesus sobe a Jerusalém por ocasião de uma romaria pascal. Lá ele expulsa do templo vendedores e animais do sacrifício. Que Jesus quer dizer quando realiza este gesto profético?
Em primeiro lugar ele expulsa o culto do templo. Ou seja, aquele modo de se realizar o culto não era do agrado do Pai. O que se fazia ali era uma exploração dos pequenos e pobres em nome da religião. A casta sacerdotal e os aristocratas do templo de Jerusalém valiam-se das grandes festas religiosos para explorar os fiéis. Os saduceus engordavam o gado nos latifúndios próximos da cidade para vendê-los aos peregrinos por ocasião das festas religiosas. E para aqueles que não podiam pagar por um novilho, havia os pombos. Por isso diz o evangelho que Jesus disse aos vendedores de pombas: “Tirai isso daqui. Não façais da casa de meu Pai um mercado”. Jesus estava indignado com a exploração dos pobres.
O templo construído por mãos humanas dará lugar ao Templo vivo, o próprio Jesus. Ele é o verdadeiro Templo, lugar onde Deus habita. Será destruído por morte violenta, mas se reerguerá do túmulo, ressuscitará. O Pai não deixa seu Filho na sombra da morte. Em Jesus todos nós nos tornamos templos vivos do Espírito Santo: “Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1Cor 3,16).
Então a relação com Deus toma novo rumo. A fé não pode ser algo separado de nossa vida, distante, desligada de nosso cotidiano. O ser humano deve receber um novo olhar, novo tratamento. Já não basta mais dizer que cumprimos nosso dever religioso quando fomos à igreja, fizemos nossa oração, acendemos uma vela, escutamos a Sagrada Escritura. Não é possível, a partir de Jesus Cristo, nos contentarmos com uma prática externa de religião, com um rito religioso desligado da vda. Não é o templo, o culto vazio, o sacrifício que interessa a Deus, mas a vida. O culto que prestamos a Deus, o “culto espiritual” (cf. Rm 12,1-2), o “sacrifício de louvor” (Hb 13,15-16) é nosso “modus vivendi” (nosso modo de viver). Nosso esforço cotidiano de corresponder ao dom da salvação que o Senhor nos concedeu em Jesus.
Essa visão mercadológica da fé que se propaga nas mídias não tem nada a ver com o evangelho. Esse ‘toma lá, dá cá’ com Deus, essa insistência insana de que Deus ajuda a alguns “que têm fé” e abandona a outros “que não têm fé”, é uma aberração ao evangelho. É uma negação de tudo o que Jesus ensinou. Na verdade são meios de manipulação e dominação religiosa das pessoas de boa fé. Um pecado mortal por parte dos “abusadores” e “manipuladores”.
A festa de hoje nos convida a revermos nossa compreensão de Igreja. Igreja não é templo de pedras. Igreja é a comunidade cristã que celebra o Mistério Pascal da vida, morte e ressurreição de Jesus e procura transformar essa celebração em atitudes no seu cotidiano, vivendo e construindo fraternidade, vencendo os preconceitos, respeitando todas as pessoas, lutando contra as “injustiças que ferem e que matam”, lutando contra o egoísmo, fonte de muitos males, vigiando para que a ganância não tome conta do coração da gente. É isso aí.
Atenção: Há uma mentalidade bastante difusa de que basta acreditar em Deus ou em Jesus, prescindindo-se da Igreja, de comunidade de fé. Talvez seja fruto de alguma decepção ou ideologia narcisista, gerando assim os “desigrejados”. Parece não ser o caminho apontado pro Jesus. O divino Mestre constituiu um grupo, uma Igreja. É o povo convocado por Deus para celebrar e viver unido, junto, construindo fraternidade. As dificuldades nas relações nos ajudam na purificação de nossa mente e coração marcados pelo egoísmo e individualismo. É preciso buscar a vida de fraternidade, de comunhão, de diálogo. A igreja-templo é sinal, é analogia do povo convocado e reunido por Deus para ouvir e viver sua Palavra que liberta e salva.
Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN



