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aurelius

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“Preparai os caminhos do Senhor”

aureliano, 09.12.23

2º Domingo do Advento - B - 06 de dezembro.jpg

2º Domingo do Advento [10 de dezembro de 2023]

[Mc 1,1-8]

Estamos no advento, tempo de preparação para celebrarmos bem o Natal do Senhor. É uma Solenidade que precisaria ocupar o primeiro lugar em nossa preocupação nesses dias. O consumismo convida à corrida às compras, às viagens, às festas. Tudo isso é importante e muito bom. O que nos desafia é a ausência do elemento cristão em tudo isso na vida de muitos cristãos. Quando não há preocupação em colocar no centro da vida a pessoa de Jesus, o grande Presente do Pai para a humanidade, toda festa, folia, encontro ficam sem sentido.

No domingo passado, o primeiro do Advento, a liturgia enfocava a Segunda Vinda de Cristo, mostrando a necessidade da vigilância: “Vigiai, pois não sabeis quando será o momento” (Mc 13,35). Neste e nos demais domingos, a liturgia nos convida a prestar mais atenção ao acontecimento da Primeira Vinda. É o evento fundador da História da salvação da humanidade. Cristo é o Princípio e Fim de todas as coisas (Ap 22,13). Ele entra na nossa história sem privilégios: assume nossas dores e pecados, nasce pobre numa manjedoura, sem nada que lhe dê reconhecimento senão sua simplicidade e doação.

A figura de João Batista questiona nosso modo de vida e nossa preparação para o encontro com o Senhor. É preciso assumir uma vida simples, despojada, num caminho de permanente conversão. Como precursor do Senhor, João Batista, o aponta não somente com suas palavras, mas com sua vida. Ele não é o Messias. É apenas a voz que não se vê, que não aparece, que não esnoba, mas que convoca à conversão. Um modo de vida que provoca e questiona a vida de outros.

Como discípulos missionários temos a missão de ajudar as pessoas a fazer o encontro com Jesus, a reconhecê-lo como Mestre e Senhor. Para isso precisamos ter um pouco do espírito de João Batista: não se coloca no centro, não chama a atenção sobre si, não se julga mais importante e melhor do que os demais. Não se julga digno de “desatar as correias de suas sandálias”. Lancemos um olhar contemplativo para a figura de João Batista. Em quê nos sentimos questionados pela vida dele? Nossa vida está focada nas coisas ou nas pessoas?

No início do cristianismo os fiéis esperavam a volta de Jesus para breve. Por isso viviam um fervor muito grande, até mesmo exagerado (cf. 2Ts 3,10-12). Com o passar do tempo suas expectativas sofreram uma espécie de frustração: o Senhor não veio como esperavam! E começaram a cometer os mesmos pecados e abusos que hoje cometemos: consumismo, comodismo, ganância, infidelidades, intrigas. Seria bom guardarmos a palavra de Pedro, na segunda leitura de hoje: “Esforçai-vos para que ele vos encontre em paz, puros e irrepreensíveis” (2Pd 3, 14).

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O DESEJO DE CAMINHAR

Um elemento muito importante na vida cristã é o cultivo do desejo. Não estou falando aqui de psicanálise, mas de um caminho espiritual. O ser humano, do ponto de vista filosófico e psicológico é um ‘ser desejante’. Pe. Dalton Barros, redentorista, fala de “desejos” e “Desejo”. Os desejos que nos habitam podem destruir o Desejo (com D maiúsculo). Esse Desejo é que clama dentro de nós. E seu clamor é de uma “brisa suave”, como ocorreu a Elias (1Rs, 19,12-13). Os desejos da carne, no dizer de São Paulo, clamam em nós (cf. Gl 5,17). Querem prevalecer sobre o Espírito. Um pensamento de Simone Weil leva a um profundo questionamento a respeito de nossa fé cristã: “Onde falta o desejo de encontrar-se com Deus, ali não há crentes, mas pobres caricaturas de pessoas que se dirigem a Deus por medo ou por interesse”.

Outro pensamento do evangelho de hoje é o do ‘caminho’: “Preparai o caminho do Senhor”. A comunidade cristã em seus primórdios era conhecida como ‘Caminho’. Saulo perseguia os adeptos do ‘Caminho’ (cf. At 9). Não se tratava de um sistema religioso com normas e leis. O entendimento da comunidade cristã como Caminho continua muito interessante. No caminho esbarramos com várias situações e pessoas. Há retrocessos e avanços. Há atalhos e curvas, há pedras e espinhos, há provas, desilusões, cansaços, dores, dúvidas, angústias, incertezas, desânimo. É até meio perigoso dizer, mas as dúvidas e incertezas podem nos estimular mais do que a segurança de certezas absolutas, fechadas, simplistas e rotineiras.

Além do mais, quando lidamos com nossa fé como ‘Caminho’, aprendemos a lidar com os irmãos de caminhada. Cada um é responsável pelo seu próprio passo. Cada um tem um ritmo. Ninguém pode ser forçado a me acompanhar. Também não tenho que acompanhar o ritmo de ninguém. Além disso, na caminhada há etapas. As situações e circunstâncias de cada um são diferentes. O que importa mesmo é caminhar, não desanimar, não recuar, não se desviar “nem para a direita nem para a esquerda” (cf. Js 1,7). Estar atento ao chamado que o Senhor faz a todos: viver de maneira digna e feliz, e trabalhar para que todos tenham acesso à mesma dignidade e alegria de viver.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

“Preparai os caminhos do Senhor”

aureliano, 08.12.17

preparai os caminhos.jpg

2º Domingo do Advento [10 de dezembro de 2017]

[Mc 1,1-8]

Estamos no advento, tempo de preparação para celebrarmos bem o Natal do Senhor. É uma Solenidade que precisaria ocupar o primeiro lugar em nossa preocupação nesses dias. Há uma corrida às compras, às viagens, às festas. Tudo isso é importante e muito bom. O que nos desafia é a ausência do elemento cristão em tudo isso na vida de muitos cristãos. Quando não há preocupação em colocar no centro da vida a pessoa de Jesus, o grande Presente do Pai para a humanidade, toda festa, folia, encontro ficam sem sentido.

No domingo passado, o primeiro do Advento, a liturgia enfocava a Segunda Vinda de Cristo, mostrando a necessidade da vigilância: “Vigiai, pois não sabeis quando será o momento” (Mc 13,35). Neste e nos demais domingos, a liturgia nos convida a prestar mais atenção ao acontecimento da Primeira Vinda. É o evento fundador da História da salvação da humanidade. Cristo é o Princípio e Fim de todas as coisas (Ap 22,13). Ele entra na nossa história, sem privilégios: assume nossas dores e pecados, nasce pobre numa manjedoura, sem nada que lhe dê reconhecimento senão sua simplicidade e doação.

A figura de João Batista questiona nosso modo de vida e nossa preparação para o encontro com o Senhor. É preciso assumir uma vida simples, despojada, num caminho de permanente conversão. Como precursor do Senhor, João Batista, o aponta não somente com suas palavras, mas com sua vida. Ele não é o Messias. É apenas a voz que não se vê, que não aparece, que não esnoba, mas que convoca à conversão. Um modo de vida que provoca e questiona a vida de outros.

Como discípulos missionários temos a missão de ajudar as pessoas a fazer o encontro com Jesus, a reconhecê-lo como Mestre e Senhor. Para isso precisamos ter um pouco do espírito de João Batista: não se coloca no centro, não chama a atenção sobre si, não se julga mais importante e melhor do que os demais. Não se julga digno de “desatar as correias de suas sandálias”. Lancemos um olhar contemplativo para a figura de João Batista. Em quê nos sentimos questionados pela vida dele? Nossa vida está focada nas coisas ou nas pessoas?

No início do cristianismo os fiéis esperavam a volta de Jesus para breve. Por isso viviam um fervor muito grande, até mesmo exagerado (cf. 2Ts 3,10-12). Com o passar do tempo suas expectativas sofreram uma espécie de frustração: o Senhor não veio como esperavam! E começaram a cometer os mesmos pecados e abusos que hoje cometemos: consumismo, comodismo, ganância, infidelidades, intrigas. Seria bom guardarmos a palavra de Pedro, na segunda leitura de hoje: “Esforçai-vos para que ele vos encontre em paz, puros e irrepreensíveis” (2Pd 3, 14).

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O DESEJO DE CAMINHAR

Um elemento muito importante na vida cristã é o cultivo do desejo. Não estou falando aqui de psicanálise, mas de um caminho espiritual. O ser humano, do ponto de vista filosófico e psicológico é um ‘ser desejante’. Pe. Dalton Barros, redentorista, fala de “desejos” e “Desejo”. Os desejos que nos habitam podem destruir o Desejo (com D maiúsculo). Esse Desejo é que clama dentro de nós. E seu clamor é de uma “brisa suave”, como ocorreu a Elias (1Rs, 19,12-13). Os desejos da carne, no dizer de São Paulo, clamam em nós (cf. Gl 5,17). Querem prevalecer sobre o Espírito. Um pensamento de Simone Weil leva a um profundo questionamento a respeito de nossa fé cristã: “Onde falta o desejo de encontrar-se com Deus, ali não há crentes, mas pobres caricaturas de pessoas que se dirigem a Deus por medo ou por interesse”.

Outro pensamento do evangelho de hoje é o do ‘caminho’: “Preparai o caminho do Senhor”. A comunidade cristã em seus primórdios era conhecida como ‘Caminho’. Saulo perseguia os adeptos do ‘Caminho’ (cf. At 9). Não se tratava de um sistema religioso com normas e leis. O entendimento da comunidade cristã como Caminho continua muito interessante. No caminho esbarramos com várias situações e pessoas. Há retrocessos e avanços. Há atalhos e curvas, há pedras e espinhos, há provas, desilusões, cansaços, dores, dúvidas, angústias, incertezas, desânimo. É até meio perigoso dizer, mas as dúvidas e incertezas podem nos estimular mais do que a segurança de certezas absolutas, fechadas, simplistas e rotineiras.

Além do mais, quando lidamos com nossa fé como ‘Caminho’, aprendemos a lidar com os irmãos de caminhada. Cada um é responsável pelo seu próprio passo. Cada um tem um ritmo. Ninguém pode ser forçado a me acompanhar. Também não tenho que acompanhar o ritmo de ninguém. Além disso, na caminhada há etapas. As situações e circunstâncias de cada um são diferentes. O que importa mesmo é caminhar, não desanimar, não recuar, não se desviar “nem para a direita nem para a esquerda” (cf. Js 1,7). Estar atento ao chamado que o Senhor faz a todos: viver de maneira digna e feliz, e trabalhar para que todos tenham acesso à mesma dignidade e alegria de viver.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Um encontro que sacia o desejo

aureliano, 17.03.17

Samaritana.jpg

3º Domingo da Quaresma [19 de março de 2017]

[Jo 4,5-42]

A água é elemento indispensável à vida. Ela é tão importante que em breve pode se tornar o elemento mais precioso e caro do planeta. É o bem mais essencial para a vida humana. Infelizmente ainda não se tomou consciência suficiente no uso desse elemento. Em vez de varrer com a vassoura muita gente varre calçadas e ruas com água limpinha, tratada; desperdiça de várias outras maneiras. Quando me deparo com alguém (conhecido!) desperdiçando água, ou misturando lixo reciclável com lixo molhado ou orgânico, ou queimando capim ou folhas secas etc, costumo exclamar: “Olhe a Campanha da Fraternidade!”

A liturgia da Palavra deste domingo nos coloca diante da sede de um povo no deserto (Ex 19,3-7) e da sede da mulher à beira do poço. O que é a sede? Você já experimentou sede? Esse desejo e necessidade não sendo saciados com certa imediatez levam a desfalecimento. A gente pode passar dias sem alimento sólido, mas sem água, não. A sede (de água) é símbolo de uma sede maior, mais profunda. A experiência de habitar em terra estrangeira, longe do Templo, numa vida escravizada leva o israelita a dizer a Deus: “Ó Deus, tu és o meu Deus, eu te procuro. Minha alma tem sede de ti, minha carne te deseja com ardor, como terra seca, esgotada, sem água” (Sl 63,2). Muitas vezes a experiência de dor e sofrimento nos faz voltar para Deus como “terra seca e sedenta”.

Vejam o que aconteceu com a mulher samaritana neste belíssimo relato de João que mostra Jesus como do Dom do Pai, a Água Viva que preenche o coração humano, representado nas buscas até então insatisfeitas da mulher samaritana: “Vai chamar teu marido”...  “Eu não tenho marido”... “Tiveste cinco maridos, e o que tens agora não é teu marido” (Jo 4,16-18).

No caminho da Judéia para a Galiléia era preciso passar pela Samaria. Um território constituído por um povo que tinha alguns costumes diferentes e divergentes dos costumes dos judeus. Havia entre eles uma inimizade histórica e cultural mortal. Jesus estabelece uma nova relação com esse povo.

Aqui temos o fruto de um encontro verdadeiro, honesto, na busca da verdade do ser humano. Um encontro que desperta um desejo para além daqueles que se deram ao longo da história em redor do poço: Isaac e Rebeca; Jacó e Raquel; Moisés e Séfora. Não se dá ali uma “paquera” para casamento, mas um encontro que transforma a partir de dentro e envolve toda uma cidade: “Muitos samaritanos daquela cidade creram nele, por causa da palavra da mulher”.

O Desejo de Jesus se encontrou com o desejo da mulher, que a princípio estava marcada pelo sentimento de ódio, de decepção, de desencanto. O Desejo puro de Jesus contagia aquela mulher, purifica seu desejo e lhe dá uma nova perspectiva de vida. Aquele Desejo oculto de felicidade, ínsito por Deus em seu coração na criação, foi despertado.

Jesus é o dom do Pai, a água viva capaz de saciar o desejo humano que não se sacia com coisas e pessoas: “Já tiveste cinco maridos e o que agora tens não é teu marido”. Ele sacia de vez a sede profunda daqueles que o buscam: “Dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede”.

Nossos jovens, nossas famílias, nossas crianças estão buscando saciar a sede de servir a Deus “em espírito e verdade”. Mas o que lhes é oferecido pela televisão, pela internet, até mesmo em alguns cultos ditos cristãos é veneno. Algo parecido com água, mas que leva à morte, à secura, a uma busca frenética de bens de consumo, de festas e mais festas, de bebidas e drogas, de sítios e quintais, de gozo e mais gozo. O resultado nós o temos visto: assassinatos, vinganças e mortes; cadeias e bandidagem; corrupção política e roubos de todo jeito; desesperança e “fossa”. Onde está o remédio? No encontro transformador com Jesus Cristo, a Água Viva que nos dá vida nova, que abre nossos horizontes, que dá sentido à vida, que nos faz discípulos e missionários, como aconteceu com a samaritana. Bento XVI dizia que o “ser cristão não é fruto de uma decisão ética ou de uma grande ideia, mas de um encontro com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, um rumo decisivo”.

Teremos um mundo novo na medida em que cada cristão, assumindo seu batismo, fonte de vida nova em Deus, continuar fazendo seu encontro com Jesus Cristo na sua comunidade, na Palavra de Deus, na celebração, junto àqueles que sofrem. De uma mentalidade consumista e capitalista, egoísta e gananciosa, fratricida e maledicente, transformar-se em discípulo de Jesus como a samaritana do evangelho.

O encontro com Jesus “ao redor do poço” deve levar à missão. A participação na celebração deve levar o cristão a partilhar com os outros a experiência feita no encontro vivificador com Jesus Cristo. Há muita gente esperando um pouquinho de nossa “água” haurida nas fontes do Salvador.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN