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aurelius

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Perder a vida para gerar novas vidas

aureliano, 15.03.24

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5º Domingo da Quaresma [17 de março de 2024]

 [Jo 12,20-33]

Porque Jesus fizera Lázaro reviver, houve uma corrida das multidões a ele: “Eis que todo mundo se põe a segui-lo” (Jo 12, 19), gerando dor-de-cotovelo entre os fariseus. E dentro da multidão, vieram os ‘gregos’. Disseram a Filipe: “Queremos ver Jesus”. No finalzinho do relato de hoje encontramos novamente Jesus “atraindo” as pessoas: “Quando for elevado da terra, atrairei todos a mim”. Jesus tinha uma força que atraía a pessoas. Era a força de sua fidelidade ao Pai e plenitude do Espírito Santo. - Cá pra nós: nosso modo de viver está atraindo, conquistando as pessoas para a verdade, a paz e o bem?

É bom refletir aqui sobre a intencionalidade destes estrangeiros. O que de fato os movia? Era apenas curiosidade? Ou eles queriam mesmo conhecer Jesus para assumir um novo modo de viver a partir do encontro com Jesus? Parece que sim, pois não entram no Templo, mas buscam conhecer Jesus. - Nossas buscas religiosas, nossas idas ao templo, nossas leituras espirituais e rezas tem como objetivo satisfazer curiosidades, atender conveniências, ou nutrir o desejo de nos identificarmos com Jesus? Elas alimentam nossa intimidade com o Senhor?

Independentemente da intenção daqueles gregos, representantes das comunidades fundadas fora do judaísmo, Jesus mostra claramente aos seus seguidores que o caminho da vida que ele veio ensinar não é fácil. É preciso morrer para produzir frutos. É preciso perder a vida para ganhá-la: “Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem faz pouca conta de sua vida neste mundo, conservá-la-á para a vida eterna”. Jesus nos ensina que o sofrimento e a morte, a partir de então, encontra um sentido: conversão, vida nova, ressurreição.

Quem se apega ao dinheiro, ao poder, ao prazer, ao ter cada vez mais, aos seus desejos egoístas, está matando a semente de vida que Deus colocou em seu coração. A semente que não morre, fica só, sem vida, estéril. Jesus produziu muito fruto porque entregou sua vida. “Atraiu” todos a si porque deixou-se elevar da terra numa cruz. Entregou-se pela salvação de todos. Na Igreja encontramos inúmeros homens e mulheres que tiveram (e têm) a coragem de enfrentar a perseguição, a exclusão, o exílio, a fome, o cárcere, a morte em defesa da vida: Dom Oscar Romero, Irmã Dorothy, Chico Mendes, Dom Luciano, Madre Teresa de Calcutá, Santa Dulce dos Pobres, Pe. Júlio Maria e tantos outros santos anônimos que conhecemos. –  Como tenho entregado minha vida? Que experiências tenho feito que denotam uma vida eucarística, isto é, de oferenda pelo bem das pessoas?

Outro elemento do relato evangélico que merece destaque é a atitude de Jesus que mostra sua humanidade profunda: “Agora sinto-me angustiado. E que direi? ‘Pai, livra-me desta hora!’? Mas foi precisamente para esta hora que eu vim”. Jesus não usa máscaras. Fala de suas dores e angústias. Coloca-se frágil diante do Pai, face ao sofrimento e à morte iminente. Pede até para que o Pai o livre “dessa hora”. Jesus nos ensina a sermos mais autênticos, verdadeiros, humanizados. Convida-nos a assumir nossos fracassos e fraquezas; a arrancar nossas máscaras. Não adianta fazer-se de forte, de bonachão, de independente, de santo. Precisamos reconhecer nossas fraquezas e fragilidades, nossa total dependência do Pai para perseverarmos no caminho do bem, da vida, da paz. Ninguém caminha sozinho. E ninguém está livre das angústias da vida. Elas podem ser ressignificadas na fé, na vida e seguimento de Jesus.

Do evangelho de hoje deve ficar para nós um comprometimento maior com Jesus Cristo, um encantamento maior por sua pessoa, uma coragem mais forte para fazer morrer em nós o egoísmo e o fechamento a fim de produzirmos muitos frutos. Só atrai gente para Cristo quem tem coragem de morrer por ele, de deixar-se levantar na cruz por ele. Isto é, quem tem coragem de pautar sua vida pelo evangelho, de colocar a vida e o ensinamento de Jesus como parâmetros para suas escolhas e atitudes cotidianas. A partir de Jesus a morte não tem mais a última palavra. Não há necessidade de temer a morte. A morte em Cristo é possibilidade de novas vidas.

Campanha da Fraternidade 2024: “Deus nos fez a todos seus filhos e filhas. Somos todos irmãos e irmãs! Sua eterna criatividade fez-nos únicos. Portanto, diferentes. Contudo, nossas diferenças no ser, no pensar e no agir não nos podem dividir ou separar. Nossas diferenças são riquezas, oportunidades de crescimento, encaixes de comunhão! Por meio do diálogo, construamos harmonia entre nós, sejamos construtores da cultura do encontro” (TB, 133).

                Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN