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A identidade do cristão

aureliano, 16.05.19

5º Domingo da Páscoa - C - 19 de maio.jpg

5º Domingo da Páscoa [19 de maio de 2019]

[Jo 13,31-33a.34-35]

O contexto do evangelho de hoje é de despedida. Em breve os discípulos já não estarão mais com o Mestre. Acaba de lhes lavar os pés. Judas já tinha colocado no coração o propósito de entregá-lo. Mas Jesus não perde a serenidade e a ternura: “Meus filhinhos!”. Ele quer que fiquem gravados no coração dos discípulos seus últimos gestos e palavras.

Quando uma pessoa lúcida e serena sente chegar seu fim, costuma chamar os seus e fazer-lhes a recomendação final. Dá-lhes o testamento. Foi o que Jesus fez: deu aos discípulos “um mandamento novo: como eu vos amei, amai-vos uns aos outros”. Se os discípulos se amarem uns aos outros com aquele amor de Jesus, eles o sentirão sempre presente no meio deles.

Onde está a novidade do mandamento de amar o próximo, uma vez que já se encontrava na Escritura (Lv 19,18)? Também já se difundia a prática da filantropia entre os povos. O que há de novo no mandamento de Jesus? Certamente é aquele “como eu vos amei”. No início deste mesmo capítulo lemos: “Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que a sua hora tinha chegado, a hora de passar deste mundo para o Pai, ele, que amara os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). O amor de Jesus se estende até às últimas conseqüências. É um amor de oferenda, de ágape.

Comentando esta passagem do Evangelho, Santo Agostinho escreve: “Mas este mandamento já não estava escrito na antiga lei de Deus, onde se lê: Amarás o teu próximo como a ti mesmo? (Lv 19,18). Por que então o Senhor chama novo o que é evidentemente tão antigo? Será um novo mandamento pelo fato de revestir-nos do homem novo, depois de nos ter despojado do velho? Na verdade ele renova o homem que o ouve, ou melhor, que lhe obedece; não se trata, porém, de um amor puramente humano, mas daquele que o Senhor quis distinguir, acrescentando: Como eu vos amei (Jo 13,34)” (Ofício das Leituras, Quinta-feira da 4ª semana da Páscoa).

Esse jeito de amar começou a se difundir entre os discípulos de Jesus. E contagiava os circunvizinhos. Por isso lemos nos Atos dos Apóstolos: “Foi em Antioquia que os discípulos foram designados pela primeira vez com o nome de cristãos” (At 11,26). Porque a comunidade reconheceu neles a mesma ação de Jesus: seguidores de Cristo. E lemos em outro lugar a admiração dos pagãos: “Vejam como eles se amam!”  (Testemunho de Tertuliano).

Este amor vivido e proposto por Jesus gera uma nova forma de vida. Não fecha a comunidade em si mesma. Ela se abre a novos horizontes de relação. Ninguém se coloca acima de ninguém. Há respeito mútuo, colaboração, fraternidade. Cria-se um clima de simplicidade, de pequenez, de igualdade. Na comunidade inspirada em Jesus não são os pequenos que atrapalham, mas os grandes.

Por isso Jesus vai indicar a carteira de identidade do cristão: “Nisto todos reconhecerão que sois meus discípulos: no amor que tiverdes uns para com os outros”. O que irá permitir reconhecer se uma comunidade é verdadeiramente cristã não será a confissão de uma doutrina, nem seus ritos e disciplinas, mas se ela vive o amor com o espírito de Jesus. É a carteira de identidade cristã.

É certo que vivemos numa sociedade avessa à prática do amor gratuito, generoso. Há trocas de sentimentos, de carícias, de presentes, de corpos, de amizade. Mas quando se exige doação, entrega, oferenda, dificilmente encontramos alguém que se disponha a fazê-lo. Uma coisa é certa: não é possível viver esse mandamento de Jesus sem rompimento com a sociedade egoísta e interesseira que nos cerca. O estilo de vida tem que mudar.

Quando olhamos para nossa Igreja em crise de identidade, com dificuldade de penetrar nas estruturas e culturas contemporâneas, podemos concluir que não se trata simplesmente de uma sociedade perversa, mas porque, por vezes nos falta a nós cristãos aquela atitude assumida e vivida por Jesus. Falta-nos o distintivo cristão.

“Não há símbolo, ícone, discurso, teoria ou espaço que poderá nos identificar como seguidores do Mestre, a não ser o amor vivido cotidianamente. Há até quem diga que formamos a Igreja-Povo de Deus para nos obrigar a conversão ao Amor” (União Marista do Brasil, Mensagem de vida, Nº 20).

Falamos muito de amor. Quando olhamos para Jesus e contemplamos suas atitudes, notamos que ele viveu o amor como algo incorporado em seu existir. Gestos de amor, brotados de um coração que ama, capaz de recriar as pessoas, de perdoar, de acolher, de lutar contra tudo o que desumanizava e fazia sofrer o ser humano. E nós...?

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Aprofundando (Trecho de uma carta escrita por volta do ano 120)

“Os cristãos não se distinguem dos demais homens, nem pela terra, nem pela língua, nem pelos costumes. Nem, em parte alguma, habitam cidades peculiares, nem usam alguma língua distinta, nem vivem uma vida de natureza singular. Nem uma doutrina desta natureza deve a sua descoberta à invenção ou conjectura de homens de espírito irrequieto, nem defendem, como alguns, uma doutrina humana. Habitando cidades Gregas e Bárbaras, conforme coube em sorte a cada um, e seguindo os usos e costumes das regiões, no vestuário, no regime alimentar e no resto da vida, revelam unanimemente uma maravilhosa e paradoxal constituição no seu regime de vida político-social.

Habitam pátrias próprias, mas como peregrinos: participam de tudo, como cidadãos, e tudo sofrem como estrangeiros. Toda a terra estrangeira é para eles uma pátria e toda a pátria uma terra estrangeira. Casam como todos e geram filhos, mas não abandonam à violência os neonatos. Servem-se da mesma mesa, mas não do mesmo leito. Encontram-se na carne, mas não vivem segundo a carne. Moram na terra e são regidos pelo céu. Obedecem às leis estabelecidas e superam as leis com as próprias vidas.

Amam todos e por todos são perseguidos.

Não são reconhecidos, mas são condenados à morte; são condenados à morte e ganham a vida.

São pobres, mas enriquecem muita gente; de tudo carecem, mas em tudo abundam.

São desonrados, e nas desonras são glorificados; injuriados, são também justificados.

Insultados, bendizem; ultrajados, prestam as devidas honras.

Fazendo o bem, são punidos como maus; fustigados, alegram-se, como se recebessem a vida.

São hostilizados pelos Judeus como estrangeiros; são perseguidos pelos Gregos,
e os que os odeiam não sabem dizer a causa do ódio. 

Numa palavra, o que a alma é no corpo, isso são os cristãos no mundo (Carta a Diogneto, século II).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

A identidade do cristão

aureliano, 22.04.16

5º Domingo da Páscoa [24 de abril de 2016]

[Jo 13,31-33a.34-35]

O contexto do evangelho de hoje é de despedida. Em breve os discípulos já não estarão mais com o Mestre. Acaba de lhes lavar os pés. Judas já tinha colocado no coração o propósito de entregá-lo. Mas Jesus não perde a serenidade e a ternura: “Meus filhinhos!”. Ele quer que fiquem gravados no coração dos discípulos seus últimos gestos e palavras.

Quando uma pessoa lúcida e serena sente chegar seu fim, costuma chamar os seus e fazer-lhes a recomendação final. Dá-lhes o testamento. Foi o que Jesus fez: deu aos discípulos “um mandamento novo: como eu vos amei, amai-vos uns aos outros”. Se os discípulos se amarem uns aos outros com aquele amor de Jesus, eles o sentirão sempre presente no meio deles.

Onde está a novidade do mandamento de amar o próximo, uma vez que já se encontrava na Escritura (Lv 19,18)? Também já se difundia a prática da filantropia entre os povos. O que há de novo no mandamento de Jesus? Certamente é aquele “como eu vos amei”. No início deste mesmo capítulo lemos: “Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que a sua hora tinha chegado, a hora de passar deste mundo para o Pai, ele, que amara os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). O amor de Jesus se estende até às últimas conseqüências. É um amor de oferenda, de ágape.

Esse jeito de amar começou a se difundir entre os seus discípulos. E contagiava os circunvizinhos. Por isso lemos nos Atos dos Apóstolos: “Foi em Antioquia que os discípulos foram designados pela primeira vez com o nome de cristãos” (At 11,26). Porque a comunidade reconheceu neles a mesma ação de Jesus: seguidores de Cristo. E lemos em outro lugar a admiração dos pagãos: “Vejam como eles se amam!”.

Este amor vivido e proposto por Jesus gera uma nova forma de vida. Não fecha a comunidade em si mesma. Ela se abre a novos horizontes de relação. Ninguém se coloca acima de ninguém. Há respeito mútuo, colaboração, fraternidade. Cria-se um clima de simplicidade, de pequenez, de igualdade. Na comunidade inspirada em Jesus não são os pequenos que atrapalham, mas os grandes.

Por isso Jesus vai indicar a carteira de identidade do cristão: “Nisto todos reconhecerão que sois meus discípulos: no amor que tiverdes uns para com os outros”. O que irá permitir reconhecer se uma comunidade é verdadeiramente cristã não será a confissão de uma doutrina, nem seus ritos e disciplinas, mas se ela vive o amor com o espírito de Jesus. É a carteira de identidade cristã.

É certo que vivemos numa sociedade avessa à prática do amor gratuito, generoso. Há trocas de sentimentos, de carícias, de presentes, de corpos, de amizade. Mas quando se exige doação, entrega, oferenda, dificilmente encontramos alguém que se disponha a fazê-lo. Uma coisa é certa: não é possível viver esse mandamento de Jesus sem rompimento com a sociedade egoísta e interesseira que nos cerca. O estilo de vida tem que mudar.

Quando olhamos para nossa Igreja em crise de identidade, com dificuldade de penetrar nas estruturas e culturas contemporâneas, podemos concluir que não se trata simplesmente de uma sociedade perversa, mas porque, por vezes nos falta a nós cristãos aquela atitude assumida e vivida por Jesus. Falta-nos o distintivo cristão.

Falamos muito de amor. Quando olhamos para Jesus e contemplamos suas atitudes, notamos que ele viveu o amor como algo incorporado em seu existir. Gestos de amor, brotados de um coração que ama, capaz de recriar as pessoas, de perdoar, de acolher, de lutar contra tudo o que desumanizava e fazia sofrer o ser humano. E nós...?

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN