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aurelius

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Por uma Igreja Samaritana

aureliano, 09.07.22

15º Domingo do TC - C - 10 de julho.jpg

15º Domingo do Tempo Comum [10 de julho de 2022]

[Lc 10,25-37]

O Evangelho de hoje vem provocar os líderes religiosos a fazer um exame de consciência. O único interesse daqueles homens religiosos era exercer seu papel litúrgico no culto do templo. Uma prática religiosa totalmente separada da vida. O relato deixa entrever que, para o sacerdote e o levita, basta o culto no templo. A salvação está em realizar um rito e cumprir normas religiosas. Já a atitude do samaritano, recomendada por Jesus, vem mostrar que o mais importante na vida é o cuidado com o outro que precisa de mim, independente de quem seja. A frequência do templo deve levar ao cuidado para com os irmãos (cf. Tg 2,14-26). É o princípio da misericórdia que opera a salvação do ser humano.

Nos seminários, casas de formação, no clero de modo geral e também entre alguns leigos há uma excessiva preocupação com panos, objetos e práticas litúrgicas. Não que essa realidade da Igreja não seja importante. Desde que ela nos torne mais identificados com Cristo, nos aproxime mais dos sofredores, nos ajude a ser mais misericordiosos. O problema está no excesso. Há uma concentração no templo em detrimento daqueles que estão nas “periferias”. Olhando a vida dos santos nós os notamos envolvidos e preocupados com os marginalizados. Vejam Madre Teresa de Calcutá, Irmã Dulce dos Pobres, Pe. Júlio Maria etc. Muita gente de Igreja, hoje, pensa que ser santo é estar dentro do templo. Não está havendo uma distância entre a santidade proposta pelo evangelho, que é viver a compaixão para com os sofredores, e a proposta que alguns grupos e líderes religiosos fazem, hoje?

Onde estamos? Como temos vivido nossa fé cristã? Que tipo de envolvimento e de apoio temos dado às pastorais sociais (pastoral da criança, pastoral carcerária, pastoral do menor, pastoral de rua, pastoral familiar, associações de bairro, conselhos municipais etc)? Como está o caminho de conversão pastoral que a Igreja deve fazer?

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“VAI E FAZE A MESMA COISA”

“Quem é o meu próximo?” Foi a segunda pergunta daquele escriba que buscava saber o caminho que conduz à vida eterna.

É interessante notar que as pessoas se apresentavam a Jesus e faziam suas perguntas e pedidos a partir de seu lugar social. Os excluídos e marginalizados pediam para andar, enxergar, ser saciados, ser reintegrados ao convívio social etc. Já aqueles que possuíam uma condição de vida estável, social e financeiramente, queriam saber o caminho da “vida eterna”: “O que devo fazer para alcançar a vida eterna?” Sua preocupação estava mais com o além, com o que vem depois da morte.

Jesus conta uma historinha que faz pensar mais concretamente. E a sua resposta àquele homem implica a vida eterna. Ou seja, a vida eterna está intimamente relacionada com a vida que levamos aqui. O mandamento do amor a Deus acima de tudo (Dt 30, 10-14) está estritamente ligado ao amor do próximo. O cristão revela Deus ao mundo com seu amor concreto pelos pobres. Nossas escolhas definem quem somos e em quem acreditamos.

Quem quiser alcançar a vida eterna precisa “perder” a sua vida pelos outros. O samaritano estava em viagem, com um programa de vida, certamente com os dias e os negócios marcados. De repente aparece aquele “estrangeiro” em sua vida. E ele socorre. Diferentemente dos ‘servidores’ do Templo, que não tinham tempo a perder nem podiam se contaminar com aquele homem semimorto.

A resposta de Jesus à conclusão óbvia do escriba (próximo foi aquele que usou de misericórdia com o homem caído) nos remete à Eucaristia: vai e faze o mesmo. O verbo fazer está nas palavras da instituição: “Fazei isto em memória de mim”. O fazer para alcançar a vida eterna se mistura com o fazer do cuidado com o próximo e o fazer isto em memória do Senhor. A eucaristia que celebramos nos envia sempre a fazer algo pelo próximo. “Tudo o que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25, 40). E a Mãe de Jesus nos convoca: “Fazei tudo o ele vos disser”(Jo 2,5).

Não basta saber quem é o meu próximo, mas fazer-me próximo daquele que precisa de mim naquele momento. Cuidar da avó ou da tia idosa visando a herdar sua casa, seus bens, usufruir de seus benefícios previdenciários não é amar. Amar é cuidar desinteressadamente, na gratuidade, oferecendo o que somos e temos: azeite, vinho, cavalgadura, dinheiro, tempo.

Se a Eucaristia que celebramos não nos move ao encontro do próximo, a sairmos de nós mesmos, a doarmos um pouquinho de nosso tempo, de nossos dons, de nossas coisas àqueles que precisam de nós, então nosso louvor estará sendo somente de lábios, vazio, longe de Deus: “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim” (Is 29,13). O Senhor recomendou em outro lugar: “De graça recebestes; de graça dai” (Mt 10,8). “A alegria do discípulo do Reino não deve se apoiar no que faz para os outros, mas no que o Senhor fez por ele: ‘Vosso nome está escrito no céu’” (Frei Gabriel, FMM).

Para ajudar um pouco mais a reflexão: Num bairro pobre, onde há muitas crianças cujas mães não podem trabalhar porque precisam cuidar de seus filhos, vivendo por isso uma vida miserável, há dois grupos de pessoas interessados em ajudar. Um grupo pensa em se organizar e fundar uma creche possibilitando melhor qualidade de vida para as crianças e para as mães. Outro grupo se preocupa em arrecadar cestas básicas, fraldas, remédios, leite etc. Como se podem entender essas diferentes práticas? Com que grupo me identifico mais? Qual grupo se aproxima mais do evangelho? “O sinal que fará com que Deus nos identifique como seus filhos é o sinal da compaixão para com os que sofrem” (Pe. José Carlos Pereira).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Por uma Igreja Samaritana

aureliano, 12.07.19

15º Domingo do TC - C - 14 de julho.jpg

15º Domingo do Tempo Comum [14 de julho de 2019]

[Lc 10,25-37]

O Evangelho de hoje vem provocar os líderes religiosos a fazer um exame de consciência. O único interesse daqueles homens religiosos era exercer seu papel litúrgico no culto do templo. Uma prática religiosa totalmente separada da vida. O relato deixa entrever que, para o sacerdote e o levita, basta o culto no templo. A salvação está em realizar um rito e cumprir normas religiosas. Já a atitude do samaritano, recomendada por Jesus, vem mostrar que o mais importante na vida é o cuidado com o outro que precisa de mim, independente de quem seja. A frequência do templo deve levar ao cuidado para com os irmãos (cf. Tg 2,14-26). É o princípio da misericórdia que opera a salvação do ser humano.

Nos seminários, casas de formação, no clero de modo geral e também entre alguns leigos há uma excessiva preocupação com panos, objetos religiosos e práticas litúrgicas. Não que essa realidade da Igreja não seja importante. Desde que ela nos torne mais identificados com Cristo, nos aproxime mais dos sofredores, nos ajude a ser mais misericordiosos. O problema está no excesso. Há uma concentração no templo em detrimento daqueles que estão nas “periferias”. Olhando a vida dos santos nós os notamos envolvidos e preocupados com os marginalizados. Vejam Madre Teresa de Calcutá, Irmã Dulce dos Pobres, Pe. Júlio Maria etc. Muita gente de Igreja, hoje, pensa que ser santo é estar dentro do templo. Não está havendo uma distância entre a santidade proposta pelo evangelho, que é viver a compaixão para com os sofredores, e a proposta que alguns grupos e líderes religiosos fazem, hoje?

Onde estamos? Como temos vivido nossa fé cristã? Que tipo de envolvimento e de apoio temos dado às pastorais sociais (pastoral da criança, pastoral carcerária, pastoral do menor, pastoral de rua, pastoral familiar, associações de bairro, conselhos municipais etc)? Como está o caminho de conversão pastoral que a Igreja deve fazer?

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“VAI E FAZE A MESMA COISA”

“Quem é o meu próximo?” Foi a segunda pergunta daquele escriba que buscava saber o caminho que conduz à vida eterna.

É interessante notar que as pessoas se apresentavam a Jesus e faziam suas perguntas e pedidos a partir de seu lugar social. Os excluídos e marginalizados pediam para andar, enxergar, ser saciados, ser reintegrados ao convívio social etc. Já aqueles que possuíam uma condição de vida estável, social e financeiramente, queriam saber o caminho da “vida eterna”: “O que devo fazer para alcançar a vida eterna?” Sua preocupação estava mais com o além, com o que vem depois da morte.

Jesus conta uma historinha que faz pensar mais concretamente. E a sua resposta àquele homem implica a vida eterna. Ou seja, a vida eterna está intimamente relacionada com a vida que levamos aqui. O mandamento do amor a Deus acima de tudo (Dt 30, 10-14) está estritamente ligado ao amor do próximo. O cristão revela Deus ao mundo com seu amor concreto pelos pobres. Nossas escolhas definem quem somos e em quem acreditamos.

Quem quiser alcançar a vida eterna precisa “perder” a sua vida pelos outros. O samaritano estava em viagem, com um programa de vida, certamente com os dias e os negócios marcados. De repente aparece aquele “estrangeiro” em sua vida. E ele socorre. Diferentemente dos ‘servidores’ do Templo, que não tinham tempo a perder nem podiam se contaminar com aquele homem semimorto.

A resposta de Jesus à conclusão óbvia do escriba (próximo foi aquele que usou de misericórdia com o homem caído) nos remete à Eucaristia: vai e faze o mesmo. O verbo fazer está nas palavras da instituição: “Fazei isto em memória de mim”. O fazer para alcançar a vida eterna se mistura com o fazer do cuidado com o próximo e o fazer isto em memória do Senhor. A eucaristia que celebramos nos envia sempre a fazer algo pelo próximo. “Tudo o que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25, 40). E a Mãe de Jesus nos convoca: “Fazei tudo o ele vos disser”(Jo 2,5).

Não basta saber quem é o meu próximo, mas fazer-me próximo daquele que precisa de mim naquele momento. Cuidar da avó ou da tia idosa visando a herdar sua casa, seus bens, usufruir de seus benefícios previdenciários não é amar. Amar é cuidar desinteressadamente, na gratuidade, oferecendo o que somos e temos: azeite, vinho, cavalgadura, dinheiro, tempo.

Se a Eucaristia que celebramos não nos move ao encontro do próximo, a sairmos de nós mesmos, a doarmos um pouquinho de nosso tempo, de nossos dons, de nossas coisas àqueles que precisam de nós, então nosso louvor estará sendo somente de lábios, vazio, longe de Deus: “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim” (Is 29,13). O Senhor recomendou em outro lugar: “De graça recebestes; de graça dai” (Mt 10,8). “A alegria do discípulo do Reino não deve se apoiar no que faz para os outros, mas no que o Senhor fez por ele: ‘Vosso nome está escrito no céu’” (Frei Gabriel).

Para ajudar um pouco mais a reflexão: Num bairro pobre, onde há muitas crianças cujas mães não podem trabalhar porque precisam cuidar de seus filhos, vivendo por isso uma vida miserável, há dois grupos de pessoas interessados em ajudar. Um grupo pensa em se organizar e fundar uma creche possibilitando melhor qualidade de vida para as crianças e para as mães. Outro grupo se preocupa em arrecadar cestas básicas, fraldas, remédios, leite etc. Como se podem entender essas diferentes práticas? Com que grupo me identifico mais? Qual grupo se aproxima mais do evangelho?

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN