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aurelius

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João Batista: uma voz que ilumina

aureliano, 15.12.23

3º Domingo do Advento - B - 13 de dezembro.jpg

3º Domingo do Advento [17 de dezembro de 2023]

[Jo 1,6-8.19-28]

No domingo passado, Marcos mostrava João Batista convidando à conversão. Proclama a chegada do Reino de Deus. Para isso é preciso assumir um caminho novo, pelo batismo de conversão. Já o evangelho de João, neste domingo, mostra João Batista dando testemunho. Este evangelista evita a categoria ‘Reino’; prefere ‘vida eterna’. Deus não se manifesta naquilo que o mundo chama reino no sentido de poder dominador e opressor, mas em Jesus mesmo: “Quem me viu, viu o Pai” (Jo 14,9). Quando Jesus perdoa, acolhe, cura, senta-se à mesa com os pecadores, ensina, liberta, toca os doentes, passa a noite em oração, ensina a rezar etc. ele irrompe o Reinado de Deus.

João Batista se coloca como o que veio dar testemunho. “Ele veio como testemunha, para dar testemunho da luz, para que todos chegassem à fé por meio dele” (Jo 1,7). Ele não é a luz do mundo, mas apenas uma lâmpada provisória, uma voz que clama no deserto. E faz uma provocação: “No meio de vós está quem vós não conheceis” (Jo 1,26).

Essa palavra do Batista nos provoca a pensar em nossa vida cristã. Será que Jesus continua entre nós como um ‘ilustre desconhecido’? Somos convidados a redescobri-lo. É interessante notar que João Batista fala de luz: ele veio dar testemunho da luz. E a luz brilhou nas trevas, mas as trevas não o reconheceram (cf. Jo 1,5). Estamos com o sol brilhando no meio de nós, mas continuamos sem enxergar. Há alguma ‘catarata’ impedindo nossa visão. Precisaríamos identificar, dar nome a esse mal na vista que não nos deixa ‘conhecer’, isto é, entrar em intimidade com aquele que está no meio de nós como luz.

A cobiça de ter sempre mais, de dominar os outros, de ganhar de todos, de ser sempre o primeiro, de ter sucesso a qualquer custo; o ciúme, a inveja, a ganância, a insensibilidade, a fofoca, o preconceito, a indiferença diante de quem sofre, a mentira, a preguiça, o comodismo são males que não nos deixam ‘conhecer’ Aquele que está no meio de nós. Obscurecem nossa vontade e inteligência.

A conseqüência de tudo isso é a ausência da alegria que o Senhor veio nos trazer com sua vinda ao mundo. A Boa Nova traz a alegria por si mesma, pois anuncia a libertação dos oprimidos, a cura dos enfermos, a recuperação da vista aos cegos. É o “Ano da graça do Senhor” (cf Is 61,1; Lc 4,18). Um Deus que nos ama tanto que dá sua vida para que tenhamos mais vida.

Enquanto pensarmos que alegria consiste em passar o réveillon na praia de Copacabana ou de Iracema ou do Futuro, ou num hotel cinco estrelas ou coisa do tipo, estaremos distantes de ‘conhecer’ aquele que está no meio de nós, no pobre que estende a mão, que clama por socorro, que pede um pedaço de pão; de crianças e idosos ameaçados pela fome, pela violência, pelo abandono. Certa ocasião, visitando um Lar de Idosos, perguntei a um senhor: “A família tem vindo visitá-lo?”. Ele respondeu de pronto: “Não. Eles estão bem de vida. Têm carro, apartamento, bom emprego. Estão bem. Não vêm me visitar, não!”. E não disse mais nada. E nem carecia dizê-lo.

Em um dos prefácios do Advento a Igreja reza assim: “Agora e em todos os tempos, ele vem ao nosso encontro, presente em cada pessoa humana, para que o acolhamos na fé e o testemunhemos na caridade, enquanto esperamos a feliz realização de seu Reino”. Uma amostra de que a Igreja sempre acreditou que o Senhor vem ao nosso encontro na pessoa dos pequenos e sofredores. Se não o reconhecermos aí, certamente não seremos reconhecidos quando Ele vier em sua glória: “Cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 24,40)

‘Conhecer’ Aquele que está no meio de nós é decisivo para a celebração de um Natal que faça jus a esse nome. É viver a palavra de Paulo: “Estai alegres! Rezai sem cessar. Dai graças em todas as circunstâncias, porque essa é a vosso respeito a vontade de Deus em Jesus Cristo” (1Ts 5,17-18).

Não se trata de “conhecer” racionalmente. Trata-se de conhecer com o coração. Em outras palavras, ter convicção, acreditar (credere=cor dare) em Jesus, entregar o coração. Posso saber tudo a respeito de Jesus e da Sagrada Escritura. Mas se esse conhecimento não se torna convicção de fé dentro de mim, não me transforma por dentro, não me faz ser melhor, então, do ponto de vista da fé, é um conhecimento vazio, pois não tem incidência sobre meu cotidiano, minhas escolhas e decisões. Esse tipo de conhecimento é o que o Papa Francisco chama de “tentação do gnosticismo: uma série de conhecimentos e raciocínios que supostamente confortam e iluminam, mas, em última instância, a pessoa fica enclausurada na imanência da sua própria razão e dos seus sentimentos” (GE, 36). É medir a elevação espiritual e avanço no caminho da fé pela quantidade de dados e conhecimentos que se consegue acumular. Seu perigo mortal é o afastamento da Encarnação (1Jo 4,2-3), mistério que celebramos no Natal do Senhor. Como se quiséssemos nos salvar pelo conhecimento, pela razão, pela doutrina, descartando a Graça salvadora que se manifestou em Jesus de Nazaré.

O testemunho de João é verdadeiro porque não é dado por algum interesse pessoal, mas pelo cumprimento de uma missão divina. “Eu não sou o Messias. Sou a voz que clama no deserto: aplainai o caminho do Senhor” (cf. Jo 1,19.23). Sua pregação fala alto porque sai da boca de alguém que vive o que fala. Por isso penetra o coração das pessoas e incomoda até mesmo as autoridades do templo.

Ainda mais. João Batista se coloca como servidor de Deus. Ele se define simplesmente como uma “voz”. Algo passageiro, invisível. Conclama à conversão, mas não aparece. Esse espírito de humildade de João Batista que jamais pretendeu assumir um lugar que seus admiradores sugeriam que assumisse, nos ajuda a rever nossa postura diante da fama, do sucesso, das oportunidades de ocuparmos lugar de honra social. Na perspectiva cristã, não pode existir lugar e posto de honra, de poder pelo poder: qualquer cargo ou posto deve ser ocupado na dimensão do serviço.

Nossa preparação para o Natal está levando em conta o testemunho de João Batista? Estamos nos abrindo para ‘conhecer’ melhor Aquele que já está no meio de nós? Nossa vida é um facho de luz a iluminar aqueles que vivem na escuridão? Buscamos a alegria verdadeira brotada do coração de Deus no serviço aos pequeninos? Com que objetivo ocupamos ou buscamos cargos e encargos sociais, políticos e religiosos?

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

“Preparai os caminhos do Senhor”

aureliano, 09.12.23

2º Domingo do Advento - B - 06 de dezembro.jpg

2º Domingo do Advento [10 de dezembro de 2023]

[Mc 1,1-8]

Estamos no advento, tempo de preparação para celebrarmos bem o Natal do Senhor. É uma Solenidade que precisaria ocupar o primeiro lugar em nossa preocupação nesses dias. O consumismo convida à corrida às compras, às viagens, às festas. Tudo isso é importante e muito bom. O que nos desafia é a ausência do elemento cristão em tudo isso na vida de muitos cristãos. Quando não há preocupação em colocar no centro da vida a pessoa de Jesus, o grande Presente do Pai para a humanidade, toda festa, folia, encontro ficam sem sentido.

No domingo passado, o primeiro do Advento, a liturgia enfocava a Segunda Vinda de Cristo, mostrando a necessidade da vigilância: “Vigiai, pois não sabeis quando será o momento” (Mc 13,35). Neste e nos demais domingos, a liturgia nos convida a prestar mais atenção ao acontecimento da Primeira Vinda. É o evento fundador da História da salvação da humanidade. Cristo é o Princípio e Fim de todas as coisas (Ap 22,13). Ele entra na nossa história sem privilégios: assume nossas dores e pecados, nasce pobre numa manjedoura, sem nada que lhe dê reconhecimento senão sua simplicidade e doação.

A figura de João Batista questiona nosso modo de vida e nossa preparação para o encontro com o Senhor. É preciso assumir uma vida simples, despojada, num caminho de permanente conversão. Como precursor do Senhor, João Batista, o aponta não somente com suas palavras, mas com sua vida. Ele não é o Messias. É apenas a voz que não se vê, que não aparece, que não esnoba, mas que convoca à conversão. Um modo de vida que provoca e questiona a vida de outros.

Como discípulos missionários temos a missão de ajudar as pessoas a fazer o encontro com Jesus, a reconhecê-lo como Mestre e Senhor. Para isso precisamos ter um pouco do espírito de João Batista: não se coloca no centro, não chama a atenção sobre si, não se julga mais importante e melhor do que os demais. Não se julga digno de “desatar as correias de suas sandálias”. Lancemos um olhar contemplativo para a figura de João Batista. Em quê nos sentimos questionados pela vida dele? Nossa vida está focada nas coisas ou nas pessoas?

No início do cristianismo os fiéis esperavam a volta de Jesus para breve. Por isso viviam um fervor muito grande, até mesmo exagerado (cf. 2Ts 3,10-12). Com o passar do tempo suas expectativas sofreram uma espécie de frustração: o Senhor não veio como esperavam! E começaram a cometer os mesmos pecados e abusos que hoje cometemos: consumismo, comodismo, ganância, infidelidades, intrigas. Seria bom guardarmos a palavra de Pedro, na segunda leitura de hoje: “Esforçai-vos para que ele vos encontre em paz, puros e irrepreensíveis” (2Pd 3, 14).

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O DESEJO DE CAMINHAR

Um elemento muito importante na vida cristã é o cultivo do desejo. Não estou falando aqui de psicanálise, mas de um caminho espiritual. O ser humano, do ponto de vista filosófico e psicológico é um ‘ser desejante’. Pe. Dalton Barros, redentorista, fala de “desejos” e “Desejo”. Os desejos que nos habitam podem destruir o Desejo (com D maiúsculo). Esse Desejo é que clama dentro de nós. E seu clamor é de uma “brisa suave”, como ocorreu a Elias (1Rs, 19,12-13). Os desejos da carne, no dizer de São Paulo, clamam em nós (cf. Gl 5,17). Querem prevalecer sobre o Espírito. Um pensamento de Simone Weil leva a um profundo questionamento a respeito de nossa fé cristã: “Onde falta o desejo de encontrar-se com Deus, ali não há crentes, mas pobres caricaturas de pessoas que se dirigem a Deus por medo ou por interesse”.

Outro pensamento do evangelho de hoje é o do ‘caminho’: “Preparai o caminho do Senhor”. A comunidade cristã em seus primórdios era conhecida como ‘Caminho’. Saulo perseguia os adeptos do ‘Caminho’ (cf. At 9). Não se tratava de um sistema religioso com normas e leis. O entendimento da comunidade cristã como Caminho continua muito interessante. No caminho esbarramos com várias situações e pessoas. Há retrocessos e avanços. Há atalhos e curvas, há pedras e espinhos, há provas, desilusões, cansaços, dores, dúvidas, angústias, incertezas, desânimo. É até meio perigoso dizer, mas as dúvidas e incertezas podem nos estimular mais do que a segurança de certezas absolutas, fechadas, simplistas e rotineiras.

Além do mais, quando lidamos com nossa fé como ‘Caminho’, aprendemos a lidar com os irmãos de caminhada. Cada um é responsável pelo seu próprio passo. Cada um tem um ritmo. Ninguém pode ser forçado a me acompanhar. Também não tenho que acompanhar o ritmo de ninguém. Além disso, na caminhada há etapas. As situações e circunstâncias de cada um são diferentes. O que importa mesmo é caminhar, não desanimar, não recuar, não se desviar “nem para a direita nem para a esquerda” (cf. Js 1,7). Estar atento ao chamado que o Senhor faz a todos: viver de maneira digna e feliz, e trabalhar para que todos tenham acesso à mesma dignidade e alegria de viver.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

João Batista: testemunha da Luz

aureliano, 12.12.20

3º Domingo do Advento [13 de dezembro de 2020]

3º Domingo do Advento - B - 13 de dezembro.jpg

[Jo 1,6-8.19-28]

No domingo passado, Marcos mostrava João Batista convidando à conversão. Proclama a chegada do Reino de Deus. Para isso é preciso assumir um caminho novo, pelo batismo de conversão. Já o evangelho de João, neste domingo, mostra João Batista dando testemunho. Este evangelista evita a categoria ‘Reino’; prefere ‘vida eterna’. Deus não se manifesta naquilo que o mundo chama reino no sentido de poder dominador e opressor, mas em Jesus mesmo: “Quem me viu, viu o Pai” (Jo 14,9). Quando Jesus perdoa, acolhe, cura, senta-se à mesa com os pecadores, ensina, liberta, toca os doentes, passa a noite em oração, ensina a rezar etc. ele irrompe o Reinado de Deus.

João Batista se coloca como o que veio dar testemunho. “Ele veio como testemunha, para dar testemunho da luz, para que todos chegassem à fé por meio dele” (Jo 1,7). Ele não é a luz do mundo, mas apenas uma lâmpada provisória, uma voz que clama no deserto. E faz uma provocação: “No meio de vós está quem vós não conheceis” (Jo 1,26).

Essa palavra do Batista nos provoca a pensar em nossa vida cristã. Será que Jesus continua entre nós como um ‘ilustre desconhecido’? Somos convidados a descobri-lo. É interessante notar que João Batista fala de luz: ele veio dar testemunho da luz. E a luz brilhou nas trevas, mas as trevas não o reconheceram (cf. Jo 1,5). Estamos com o sol brilhando no meio de nós, mas continuamos sem enxergar. Há alguma ‘catarata’ impedindo nossa visão. Precisaríamos identificar, dar nome a esse mal na vista que não nos deixa ‘conhecer’ aquele que está no meio de nós como luz.

A cobiça de ter sempre mais, de dominar os outros, de ganhar de todos, de ser sempre o primeiro, de ter sucesso a qualquer custo; o ciúme, a inveja, a ganância, a insensibilidade, o preconceito, a indiferença diante de quem sofre, a mentira, a preguiça, o comodismo são males que não nos deixam ‘conhecer’ Aquele que está no meio de nós.

A consequência de tudo isso é a ausência da alegria que o Senhor veio nos trazer com sua vinda ao mundo. A Boa Nova traz a alegria por si mesma, pois anuncia a libertação dos oprimidos, a cura dos enfermos, a recuperação da vista aos cegos. É o “Ano da graça do Senhor” (cf Is 61,1; Lc 4,18). Um Deus que nos ama tanto que dá sua vida para que tenhamos mais vida.

Enquanto pensarmos que alegria consiste em passar o réveillon na praia de Copacabana ou num hotel cinco estrelas ou coisa do tipo, estaremos distantes de ‘conhecer’ aquele que está no meio de nós, no pobre que estende a mão, que clama por socorro, que pede um pedaço de pão; de crianças e idosos ameaçados pela fome, pela violência, pelo abandono. Um dia desses, visitando um Lar de Idosos, perguntei a um senhor: “A família tem vindo visitá-lo?”. Ele respondeu de pronto: “Não. Eles estão bem de vida. Têm carro, apartamento, bom emprego. Estão bem. Não vêm me visitar, não!”. E não disse mais nada.

Em um dos prefácios do Advento, a Igreja reza assim: “Agora e em todos os tempos, ele vem ao nosso encontro, presente em cada pessoa humana, para que o acolhamos na fé e o testemunhemos na caridade, enquanto esperamos a feliz realização de seu Reino”. Uma amostra de que a Igreja sempre acreditou que o Senhor vem ao nosso encontro na pessoa dos pequenos e sofredores. Se não o reconhecermos aí, certamente não seremos reconhecidos quando Ele vier em sua glória: “Cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 24,40)

‘Conhecer’ Aquele que está no meio de nós é decisivo para uma celebração de um Natal que faça jus a esse nome. É viver a palavra de Paulo: “Estai alegres! Rezai sem cessar. Dai graças em todas as circunstâncias, porque essa é a vosso respeito a vontade de Deus em Jesus Cristo” (1Ts 5,17-18).

Não se trata de “conhecer” intelectualmente. Trata-se de conhecer com o coração. Em outras palavras, ter convicção, acreditar (credere=cor dare) em Jesus, entregar o coração. Posso saber tudo a respeito de Jesus e da Sagrada Escritura. Mas se esse conhecimento não se torna convicção de fé dentro de mim, não me transforma por dentro, não me faz ser melhor, então, do ponto de vista da fé, é um conhecimento vazio, pois não tem incidência sobre meu cotidiano, minhas escolhas e decisões.

O testemunho de João é verdadeiro porque não é dado por algum interesse pessoal, mas pelo cumprimento de uma missão divina. “Eu não sou o Messias. Sou a voz que clama no deserto: aplainai o caminho do Senhor” (cf. Jo 1,19.23). Sua pregação fala alto porque sai da boca de alguém que vive o que fala. Por isso penetra o coração das pessoas e incomoda até mesmo as autoridades do templo.

Ainda mais. João Batista se coloca como servidor de Deus. Ele se define simplesmente como uma “voz”. Algo passageiro, invisível. Conclama à conversão, mas não aparece. Esse espírito de humildade de João Batista que jamais pretendeu assumir um lugar que seus admiradores sugeriam que assumisse, nos ajuda a rever nossa postura diante da fama, do sucesso, das oportunidades de ocuparmos lugar de honra social. Na perspectiva cristã, não pode existir lugar e posto de honra, de poder pelo poder: qualquer cargo ou posto deve ser ocupado na dimensão do serviço.

Nossa preparação para o Natal está levando em conta o testemunho de João Batista? Estamos nos abrindo para ‘conhecer’ melhor Aquele que já está no meio de nós? Nossa vida é um facho de luz a iluminar aqueles que vivem na escuridão? Buscamos a alegria verdadeira brotada do coração de Deus no serviço aos pequeninos? Com que objetivo ocupamos ou buscamos cargos e encargos sociais, políticos e religiosos?

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Menos palavras e mais atitudes

aureliano, 13.12.19

3º Domingo do Advento - A - 15 de dezembro.jpg

3º Domingo do Advento [15 de dezembro de 2019]

[Mt 11,2-11]

Esse terceiro Domingo do Advento é cognominado pela tradição litúrgica como Dominica Gaudete (Domingo da Alegria). A proximidade da vinda do Senhor deve encher de santa alegria o coração do cristão. E só experimentará a alegria que brota do coração do Pai o cristão que busca assumir em sua vida o jeito de ser de Jesus de Nazaré. “Ide dizer a João o que ouvistes e vistes”. A plena vida e dignidade devolvida aos pobres e sofredores era a grande manifestação do Reino de Deus.

A ação evangelizadora de Jesus que curava os cegos, os coxos, os surdos no anúncio da Boa Nova aos pobres, revelava quem era Jesus. As obras e palavras revelam quem é uma pessoa. A celebração da ação litúrgica revela a vida de uma comunidade. As expressões, os gestos, as palavras, a homilia, o canto (conteúdo da letra), a acolhida etc são reveladores do lugar que a assembleia celebrante ocupa na vida da comunidade. As realidades vividas no cotidiano devem estar presentes na celebração, bem como a celebração deve iluminar e inspirar as atividades cotidianas. Uma circularidade humano-divina.

Aliás, a propósito de um culto desligado da vida, o Papa Francisco alerta contra o “cuidado exibicionista da liturgia, da doutrina e do prestígio da Igreja, mas não se preocupam que o Evangelho adquira uma real inserção no povo fiel de Deus e nas necessidades concretas da história” (EG, 95). E emenda o Pontífice: “É uma tremenda corrupção, com aparências de bem. (...) Deus nos livre de uma Igreja mundana sob vestes espirituais ou pastorais!” (EG, 97).

A “cura” traz alegria para a pessoa e a família. Jesus curava os sofredores, alivia-lhes o sofrimento. Hoje, se queremos trazer alegria à vida das pessoas precisamos “curar suas feridas”. Papa Francisco tem alertado para essa atitude: “Vejo com clareza que o que a Igreja necessita hoje é a capacidade de curar feridas e dar calor, intimidade e proximidade aos corações... Isto é o primeiro: curar feridas, curar feridas”. Fala ainda de “tratarmos das pessoas, acompanhando-as como o bom samaritano que lava, limpa e consola; caminhar com as pessoas na noite, saber dialogar e inclusive descer à sua noite e obscuridade sem se perder”.

Segundo o evangelho deste domingo, a atuação de Jesus está orientada para curar e libertar, não para julgar e condenar. Os discípulos de João devem comunicar-lhe o que vêem: Jesus vive voltado para os que sofrem para libertá-los do sofrimento. Depois devem dizer a João o que ouvem: uma mensagem de esperança dirigida àqueles camponeses pobres, vítimas de injustiças sociais.

Também a nós, se alguém nos pergunta se somos seguidores do Messias Jesus, que obras lhes poderemos mostrar? Que mensagem podem escutar de nós? De quem nos aproximamos? Com que interesse? Trabalhamos pelo interesse de quem? “Vão dizer a João o que vocês viram e ouviram”. Eis o desafio!

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OS SINAIS DO REINO DE DEUS

Quando estamos dirigindo pela cidade, nos deparamos frequentemente com os sinais de trânsito. Para que servem? Para indicar o que devemos fazer: parar, prosseguir, diminuir a velocidade etc. Seria ridículo alguém parar o carro e ficar admirando o sinal verde ou vermelho etc.

Costumamos fazer isso com os milagres de Jesus. Somos levados a pensar que os milagres que Jesus realizou e mandou seus discípulos realizar eram demonstração de um sinal de força e poder. A mídia está cheia de “igrejas” que afirmam “curar”. Seria bom verificarmos com que interesse se propaga isso.

No tempo de Jesus havia grupos que idealizavam o seu messias. Assim, os fariseus, os zelotes, os essênios, os discípulos de João Batista e outros esperavam um messias que os libertasse do jugo romano e fosse fiel cumpridor da Lei e seus ritos. Havia também o grupo dos que não esperavam o messias: os saduceus e os herodianos. Esses últimos identificavam Herodes com o rei messiânico.

Havia um grupo, os “pobres de Javé”, que esperavam um messias que incluísse os pobres, os doentes, os estrangeiros, os pecadores. Jesus encarnou a esperança deste grupo. Ele é o “Servo de Javé” (Is 42,1).

Contemplando as atitudes de Jesus notamos que as curas que ele realizava eram sinais indicadores de sua missão. O que interessa não é a placa, mas o que ela indica. Por isso Jesus manda dizer a João: “Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo”. Abrir os olhos aos cegos, soltar a língua dos mudos, abrir os ouvidos dos surdos, soltar os braços e as pernas dos entrevados, enfim, dar nova vida aos mortos é o núcleo da missão do Messias. Jesus não é um simples curandeiro, mas aquele que veio dar vida nova aos desafortunados da história.

Para João, que havia anunciado a presença de um messias forte, julgador severo, Jesus se comporta como um fraco. À dúvida honesta de João, Jesus responde com atitudes. Não aponta para sua pessoa, mas para suas ações. Enquanto João é severo exigindo arrependimento e mudança de vida, Jesus mostra-se manso, humilde, compadecido dos pobres e pecadores.

A pessoa de João Batista é elogiada por Jesus por causa de sua firmeza profética. “No entanto o menor no Reino dos céus é maior do que ele”. Reino dos céus aqui é a comunidade cristã que tem um caminho muito mais amplo, mais aberto, mais abrangente. Os tempos do Reino transcendem em muito àqueles que o prepararam.

O Reino sofre violência (cf. Mt 11,12). Na busca do Reino de Deus o mais difícil talvez seja desembaraçar-se do reinado do dinheiro, da fama, do sucesso e do poder para assumir a postura de “fraco” que se torna forte pela graça. Para entregar-se como Jesus precisa-se ser “violento”: ter coragem de doar-se generosamente. É na Eucaristia que celebramos a renovação do gesto de Jesus e nos fortalecemos para darmos continuidade à sua ação na história.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Seu nascimento trouxe alegria

aureliano, 22.06.18

Natividade de João Batista.jpg

Nascimento de São João Batista [24 de junho de 2018]

[Lc 1,57-66.80]

Estamos celebrando as festas juninas. Muita manifestação de alegria por todo lado. Arraiá, dança, quadrilha, comidas típicas, canjica (mugunzá), caldo de feijão, etc. Muita coisa boa, sem dúvida. Não se podem admitir, porém, em nossas comunidades eclesiais, as malditas cerveja e cachaça, pois, no contexto de celebração religiosa cristã, fazem muito mal. É maldito o dinheiro ganho às custas da venda de bebida alcoólica em nossas comunidades eclesiais. Há famílias inteiras destruídas e em sofrimento por causa de bebida alcoólica. Pedimos aos dependentes frequentar o AA, construímos e/ou ajudamos a manter Casas de Recuperação, mas os incitamos ao vício da bebida alcoólica. Não é uma incoerência absurda? Graças a Deus que nossos Bispos estão tendo a coragem de decretar a proibição da comercialização e consumo de bebida alcoólica nas quermesses e celebrações de nossas comunidades.

Embora se festejem, por vezes não se sabe a origem das festividades neste mês. Foram introduzidas no Brasil pelos portugueses desde o início da colonização. E pegou com facilidade, pois eram parecidas com as festas das culturas indígenas e africanas das quais muitos elementos foram incorporados.

Neste mês, a Igreja católica celebra três santos muito populares: Santo Antônio (dia 13), São João Batista (dia24) e São Pedro (dia 29). É provável que a alegria e a festa estejam mais ligadas a São João pelo mesmo fato de que, por ocasião de seu nascimento, os parentes e vizinhos ficaram muito felizes e alegres. Mas qual foi o motivo de tanta alegria?

Poderíamos elencar três razões: duas explícitas, claras, evidentes: o desatar da língua de Zacarias e a fecundidade do seio estéril de Isabel. E uma, implícita, oculta, presente apenas na interrogação: “o que virá a ser este menino?”. Aquele que veio dar “testemunho da luz”, pois “a mão do Senhor estava com ele”.

A esterilidade de Isabel e a mudez de Zacarias eram sinais do que ocorria na comunidade de Israel: ausência de fervor, de entusiasmo, de vibração por Deus, de fidelidade à Aliança.

Esterilidade de Isabel: A dominação implantada pelos romanos, aliada à cooperação da liderança religiosa e política do povo, matava a esperança da comunidade. Diversos grupos brigavam entre si disputando o poder ou tentando se livrar de um poder opressor. Além disso, o serviço e o culto verdadeiro a Deus estavam eivados de hipocrisia e cada vez mais distantes da vida da comunidade. A capacidade generativa da comunidade estava obstruída.

Mudez de Zacarias: Esse fato evoca a voz emudecida dos profetas de então: voz calada, embargada. Não havia mais quem se levantasse, em nome de Deus, para apontar caminhos de esperança. A mudez pode significar também que a oração e o culto estavam sem expressão, sem sentido, esvaziados pela incoerência dos dirigentes do culto e da nação. Não ressoava nem aos ouvidos de Deus nem aos ouvidos da assembleia celebrante.

Lição para nós: Não parece que essa realidade se repete em nosso meio? A palavra de Deus, as celebrações, as orações parecem estar estéreis, sem fruto, sem sentido. Não se vêem os frutos, a alegria de ser cristão. Uma vida cristã apagada, desencantada, desencarnada. E a profecia está sumida de nosso meio. Estamos vivendo um marasmo espiritual. O desencanto e a decepção tomaram conta de nós. Há uma espécie de conivência com o mal: “todo mundo faz”; “não tem mais jeito”... Esse é o grande perigo da humanidade: indiferença, desânimo, desencanto. Paralelo a isso, toma corpo uma onda espiritualista, uma religiosidade baseada na emoção e no sensacionalismo. Realidade sem base, sem consistência, destituída da convicção que brota da confiança no Pai e da lucidez da razão. O Papa Francisco chama isso de “Mundanismo espiritual”.

O nascimento de João Batista irrompe o novo na história: uma mulher cheia de Deus vence a esterilidade. É a possibilidade de vida nova de onde não se esperava mais nada. Um homem que desata a língua e proclama o nome do filho: “João é o seu nome”, e prorrompe em louvor a Deus: “Bendito o Deus de Israel que visitou e libertou o seu povo”. Ou seja, Zacarias proclama que Deus é misericórdia (significado do nome João) e olhou para nós. Por isso canta: “Deus visitou e libertou o seu povo. Sobre nós fará brilhar um Sol nascente, para iluminar a todos que se acham nas trevas e nas sombras da morte”. A luz voltou a brilhar. O Sol nasceu. Agora somos aquecidos, iluminados, fecundos. João Batista aponta esse Sol que ilumina e dá novo sentido à vida. Eis o motivo da grande alegria que contagiou todos os moradores das montanhas da Judéia.

A Solenidade do Nascimento de João Batista nos ajuda a pensar na nossa missão. O que nos torna mudos diante da história? Como romper nossa mudez e celebrar, proclamar e denunciar profeticamente? Será que nos comprometemos com poder escuso, com o dinheiro, com a politicagem, propinas, ameaças que nos calam diante das maldades e injustiças?

Refletindo acerca da esterilidade rompida de Isabel, poderíamos perguntar: como está nossa capacidade de gerar? Geramos alegria, mais vida, fraternidade, harmonia? Ou ainda a fofoca, o preconceito, a competição, o ciúme continuam matando a vida em nós e fora de nós? A capacidade generativa do seio materno está intimamente relacionada à generosidade, à gratuidade. Como está nossa a capacidade de sermos gratuitos, generosos?

João significa “Deus é misericórdia”. Ele vem e aponta a luz que é Jesus, aquele que salva (Cf. Jo 1, 7-12). Trabalhamos em nós o sentimento de misericórdia? Podemos dizer que nossa vida aponta a luz que é Jesus? Nossas atitudes correspondem a nossas palavras, às realidades que celebramos? “É preciso que ele cresça e que eu diminua” (Jo 3, 30).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

João Batista: testemunha da Luz

aureliano, 15.12.17

3º domingo do advento B.jpg

3º Domingo do Advento [17 de dezembro de 2017]

[Jo 1,6-8.19-28]

No domingo passado, Marcos mostrava João Batista convidando à conversão. Proclama a chegada do Reino de Deus. Para isso é preciso assumir um caminho novo, pelo batismo de conversão. Já o evangelho de João, neste domingo, mostra João Batista dando testemunho. Este evangelista evita a categoria ‘Reino’; prefere ‘vida eterna’. Deus não se manifesta naquilo que o mundo chama reino no sentido de poder dominador e opressor, mas em Jesus mesmo: “Quem me viu, viu o Pai” (Jo 14,9). Quando Jesus perdoa, acolhe, cura, senta-se à mesa com os pecadores, ensina, liberta, toca os doentes, passa a noite em oração, ensina a rezar etc. ele irrompe o Reinado de Deus.

João Batista se coloca como o que veio dar testemunho. “Ele veio como testemunha, para dar testemunho da luz, para que todos chegassem à fé por meio dele” (Jo 1,7). Ele não é a luz do mundo, mas apenas uma lâmpada provisória, uma voz que clama no deserto. E faz uma provocação: “No meio de vós está quem vós não conheceis” (Jo 1,26).

Essa palavra do Batista nos provoca a pensar em nossa vida cristã. Será que Jesus continua entre nós como um ‘ilustre desconhecido’? Somos convidados a descobri-lo. É interessante notar que João Batista fala de luz: ele veio dar testemunho da luz. E a luz brilhou nas trevas, mas as trevas não o reconheceram (cf. Jo 1,5). Estamos com o sol brilhando no meio de nós, mas continuamos sem enxergar. Há alguma ‘catarata’ impedindo nossa visão. Precisaríamos identificar, dar nome a esse mal na vista que não nos deixa ‘conhecer’ aquele que está no meio de nós como luz.

A cobiça de ter sempre mais, de dominar os outros, de ganhar de todos, de ser sempre o primeiro, de ter sucesso a qualquer custo; o ciúme, a inveja, a ganância, a insensibilidade, o preconceito, a indiferença diante de quem sofre, a mentira, a preguiça, o comodismo são males que não nos deixam ‘conhecer’ Aquele que está no meio de nós.

A conseqüência de tudo isso é a ausência da alegria que o Senhor veio nos trazer com sua vinda ao mundo. A Boa Nova traz a alegria por si mesma, pois anuncia a libertação dos oprimidos, a cura dos enfermos, a recuperação da vista aos cegos. É o “Ano da graça do Senhor” (cf Is 61,1; Lc 4,18). Um Deus que nos ama tanto que dá sua vida para que tenhamos mais vida.

Enquanto pensarmos que alegria consiste em passar o réveillon na praia de Copacabana ou num hotel cinco estrelas ou coisa do tipo, estaremos distantes de ‘conhecer’ aquele que está no meio de nós, no pobre que estende a mão, que clama por socorro, que pede um pedaço de pão; de crianças e idosos ameaçados pela fome, pela violência, pelo abandono. Um dia desses, visitando um Lar de Idosos, perguntei a um senhor: “A família tem vindo visitá-lo?”. Ele respondeu de pronto: “Não. Eles estão bem de vida. Têm carro, apartamento, bom emprego. Estão bem. Não vêm me visitar, não!”. E não disse mais nada.

‘Conhecer’ Aquele que está no meio de nós é decisivo para uma celebração de um Natal que faça jus a esse nome. É viver a palavra de Paulo: “Estai alegres! Rezai sem cessar. Dai graças em todas as circunstâncias, porque essa é a vosso respeito a vontade de Deus em Jesus Cristo” (1Ts 5,17-18).

Não se trata de “conhecer” intelectualmente. Trata-se de conhecer com o coração. Em outras palavras, ter convicção, acreditar (credere=cor dare) em Jesus, entregar o coração. Posso saber tudo a respeito de Jesus e da Sagrada Escritura. Mas se esse conhecimento não se torna convicção de fé dentro de mim, não me transforma por dentro, não me faz ser melhor, então, do ponto de vista da fé, é um conhecimento vazio, pois não tem incidência sobre meu cotidiano, minhas escolhas e decisões.

O testemunho de João é verdadeiro porque não é dado por algum interesse pessoal, mas pelo cumprimento de uma missão divina. “Eu não sou o Messias. Sou a voz que clama no deserto: aplainai o caminho do Senhor” (cf. Jo 1,19.23). Sua pregação fala alto porque sai da boca de alguém que vive o que fala. Por isso penetra o coração das pessoas e incomoda até mesmo as autoridades do templo.

Ainda mais. João Batista se coloca como servidor de Deus. Ele se define simplesmente como uma “voz”. Algo passageiro, invisível. Conclama à conversão, mas não aparece. Esse espírito de humildade de João Batista que jamais pretendeu assumir um lugar que seus admiradores sugeriam que assumisse, nos ajuda a rever nossa postura diante da fama, do sucesso, das oportunidades de ocuparmos lugar de honra social. Na perspectiva cristã, não pode existir lugar e posto de honra, de poder pelo poder: qualquer cargo ou posto deve ser ocupado na dimensão do serviço.

Nossa preparação para o Natal está levando em conta o testemunho de João Batista? Estamos nos abrindo para ‘conhecer’ melhor Aquele que já está no meio de nós? Nossa vida é um facho de luz a iluminar aqueles que vivem na escuridão? Buscamos a alegria verdadeira brotada do coração de Deus no serviço aos pequeninos? Com que objetivo ocupamos ou buscamos cargos e encargos sociais e políticos?

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

“Preparai os caminhos do Senhor”

aureliano, 08.12.17

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2º Domingo do Advento [10 de dezembro de 2017]

[Mc 1,1-8]

Estamos no advento, tempo de preparação para celebrarmos bem o Natal do Senhor. É uma Solenidade que precisaria ocupar o primeiro lugar em nossa preocupação nesses dias. Há uma corrida às compras, às viagens, às festas. Tudo isso é importante e muito bom. O que nos desafia é a ausência do elemento cristão em tudo isso na vida de muitos cristãos. Quando não há preocupação em colocar no centro da vida a pessoa de Jesus, o grande Presente do Pai para a humanidade, toda festa, folia, encontro ficam sem sentido.

No domingo passado, o primeiro do Advento, a liturgia enfocava a Segunda Vinda de Cristo, mostrando a necessidade da vigilância: “Vigiai, pois não sabeis quando será o momento” (Mc 13,35). Neste e nos demais domingos, a liturgia nos convida a prestar mais atenção ao acontecimento da Primeira Vinda. É o evento fundador da História da salvação da humanidade. Cristo é o Princípio e Fim de todas as coisas (Ap 22,13). Ele entra na nossa história, sem privilégios: assume nossas dores e pecados, nasce pobre numa manjedoura, sem nada que lhe dê reconhecimento senão sua simplicidade e doação.

A figura de João Batista questiona nosso modo de vida e nossa preparação para o encontro com o Senhor. É preciso assumir uma vida simples, despojada, num caminho de permanente conversão. Como precursor do Senhor, João Batista, o aponta não somente com suas palavras, mas com sua vida. Ele não é o Messias. É apenas a voz que não se vê, que não aparece, que não esnoba, mas que convoca à conversão. Um modo de vida que provoca e questiona a vida de outros.

Como discípulos missionários temos a missão de ajudar as pessoas a fazer o encontro com Jesus, a reconhecê-lo como Mestre e Senhor. Para isso precisamos ter um pouco do espírito de João Batista: não se coloca no centro, não chama a atenção sobre si, não se julga mais importante e melhor do que os demais. Não se julga digno de “desatar as correias de suas sandálias”. Lancemos um olhar contemplativo para a figura de João Batista. Em quê nos sentimos questionados pela vida dele? Nossa vida está focada nas coisas ou nas pessoas?

No início do cristianismo os fiéis esperavam a volta de Jesus para breve. Por isso viviam um fervor muito grande, até mesmo exagerado (cf. 2Ts 3,10-12). Com o passar do tempo suas expectativas sofreram uma espécie de frustração: o Senhor não veio como esperavam! E começaram a cometer os mesmos pecados e abusos que hoje cometemos: consumismo, comodismo, ganância, infidelidades, intrigas. Seria bom guardarmos a palavra de Pedro, na segunda leitura de hoje: “Esforçai-vos para que ele vos encontre em paz, puros e irrepreensíveis” (2Pd 3, 14).

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O DESEJO DE CAMINHAR

Um elemento muito importante na vida cristã é o cultivo do desejo. Não estou falando aqui de psicanálise, mas de um caminho espiritual. O ser humano, do ponto de vista filosófico e psicológico é um ‘ser desejante’. Pe. Dalton Barros, redentorista, fala de “desejos” e “Desejo”. Os desejos que nos habitam podem destruir o Desejo (com D maiúsculo). Esse Desejo é que clama dentro de nós. E seu clamor é de uma “brisa suave”, como ocorreu a Elias (1Rs, 19,12-13). Os desejos da carne, no dizer de São Paulo, clamam em nós (cf. Gl 5,17). Querem prevalecer sobre o Espírito. Um pensamento de Simone Weil leva a um profundo questionamento a respeito de nossa fé cristã: “Onde falta o desejo de encontrar-se com Deus, ali não há crentes, mas pobres caricaturas de pessoas que se dirigem a Deus por medo ou por interesse”.

Outro pensamento do evangelho de hoje é o do ‘caminho’: “Preparai o caminho do Senhor”. A comunidade cristã em seus primórdios era conhecida como ‘Caminho’. Saulo perseguia os adeptos do ‘Caminho’ (cf. At 9). Não se tratava de um sistema religioso com normas e leis. O entendimento da comunidade cristã como Caminho continua muito interessante. No caminho esbarramos com várias situações e pessoas. Há retrocessos e avanços. Há atalhos e curvas, há pedras e espinhos, há provas, desilusões, cansaços, dores, dúvidas, angústias, incertezas, desânimo. É até meio perigoso dizer, mas as dúvidas e incertezas podem nos estimular mais do que a segurança de certezas absolutas, fechadas, simplistas e rotineiras.

Além do mais, quando lidamos com nossa fé como ‘Caminho’, aprendemos a lidar com os irmãos de caminhada. Cada um é responsável pelo seu próprio passo. Cada um tem um ritmo. Ninguém pode ser forçado a me acompanhar. Também não tenho que acompanhar o ritmo de ninguém. Além disso, na caminhada há etapas. As situações e circunstâncias de cada um são diferentes. O que importa mesmo é caminhar, não desanimar, não recuar, não se desviar “nem para a direita nem para a esquerda” (cf. Js 1,7). Estar atento ao chamado que o Senhor faz a todos: viver de maneira digna e feliz, e trabalhar para que todos tenham acesso à mesma dignidade e alegria de viver.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN