"Cuidado para não serdes enganados!"

33º Domingo do Tempo Comum [16 de novembro de 2025]
[Lc 21,5-19]
O chamado “discurso escatológico” de Jesus não tem como propósito assustar os discípulos, fazer-lhes medo, mas infundir-lhes confiança nas outras palavras de Jesus. É como se dissessem: ‘O Senhor não os enganou. Aquilo que predissera, aconteceu’. A perseguição aos seus seguidores acontece: “O discípulo não é maior do que o mestre”.
A intervenção de Deus na história, na pessoa de Jesus de Nazaré, introduz a novidade de que a salvação é para todos. Jerusalém é condenada porque traiu sua missão. Em vez de ser sinal da salvação de Deus para todos os povos, fechou-se no seu particularismo, apodrecendo sem gerar vida. A fidelidade de Deus é traída pela infidelidade de um povo escolhido. Sendo a salvação o encontro de duas fidelidades, Jerusalém não corresponde. Jesus, o Filho Amado, permanece fiel e garante a salvação a todos.
Embora esteja garantida a salvação, permanece, porém a incompletude enquanto depende da resposta de cada ser humano. É uma promessa que espera ser completada. É um dom que supõe conquista. A fidelidade de cada um deve encontrar eco na fidelidade de Jesus ao Pai.
Deus salva o indivíduo na comunidade. A Igreja tem, pois, a missão de quebrar as barreiras que dividem a humanidade. A divisão, a ganância, o egoísmo, a mentira, o preconceito, o fechamento são atitudes pecaminosas que bloqueiam a salvação.
As obras suntuosas, as pessoas famosas, as beldades, a fama, o sucesso passarão. Só não passará o amor de Deus testemunhado pela firmeza e fidelidade daqueles que são apaixonados pelo Reino e têm a coragem de entregar a vida em defesa da vida. “Quem procurar ganhar sua vida, vai perdê-la, e quem a perder vai conservá-la” [Lc 17,33].
A propósito da segunda leitura de hoje: “Quem não quer trabalhar também não há de comer” [2Ts 3,10], é bom entender que Paulo diz para o cristão não ficar parado. É preciso agir, fazer alguma coisa, não esperar que as coisas caiam do céu. Um mundo novo é construído a partir do empenho de cada um. Quem pensa que basta ir à igreja para se salvar está traindo o projeto de Jesus. É preciso “trabalhar” a salvação e a libertação de si próprio, do mundo e da história (cf. Fl 2,12-16). Cada um dentro de suas possibilidades e dons. É preciso ser firme até o fim!
Gostaria ainda de chamar a atenção do leitor para duas realidades assinaladas pelo evangelho de hoje:
A primeira é a chamada de Jesus para que o discípulo não se deixe enganar. Já notaram que a enganação e a mentira correm soltas em nosso meio? É gente vendendo “gato por lebre”, é gente enganando o povo em nome de Deus, é gente prometendo mundos e fundos para ganhar um cargo no poder, é gente vendendo a pílula da felicidade; vendem até “terreno na lua”! Enfim, há quem venda e há quem compre; há quem engane e há os que se deixam enganar. Há carência de reflexão, de ponderação, de objetivos claros e definidos. Num momento de crise de sentido, há muita religiosidade: os espertalhões e charlatões se aproveitam das buscas e desesperos do ser humano para “vender seu peixe” e enganar os incautos e ingênuos. Cuidado!
A segunda realidade apontada por Jesus é a necessidade da perseverança: “É pela perseverança que mantereis vossas vidas”. O termo grego que traduz perseverança (hypomonê) pode traduzir também paciência. É imprescindível a paciência para se conseguir a preservação da vida e se alcançar a salvação. Paciência não é um mero gesto de suportar uma palavra que desagrade ou aguentar um desaforo. Mas é uma atitude de vida que nos coloca diante de Deus e da vida com serenidade, fidelidade, alegria mesmo em meio a sofrimentos, perseguição e incompreensão. Quero dizer que é uma virtude que precisamos cultivar, pois sem ela nossa salvação corre risco. Os encantos enganosos da vida, a fama, o sucesso, as honrarias, o dinheiro, nada disso nos poderá tirar do centro vital no qual o Senhor nos colocou com sua morte e ressurreição.
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CRISE: DECISÃO NUM JUÍZO
Vivemos tempos de crise. Crise econômica, crise política, crise religiosa, crise eclesiástica, crise familiar, crise existencial etc. A crise é uma oportunidade de crescimento. O termo crise significa encruzilhada. Mais precisamente, crise vem do grego krisis, krínein que significa a decisão num juízo. Assim, diante de uma situação que apresenta várias facetas e que pede que se escolha uma delas, há que se tomar a decisão. Então gera-se a crise que pede um critério de escolha ou julgamento para se decidir por isto ou por aquilo. Os termos crisol, critério, crítica tem sua raiz na palavra crise. É sempre algo que pede um desembaraço, um aprimoramento, um acrisolamento.
Pois bem. O evangelho deste domingo coloca uma situação de crise. Aliás, a vida e as palavras de Jesus (a fé cristã) colocam o discípulo em constante crise. Todos os dias o discípulo precisa decidir por sua continuidade ou não no seguimento a Jesus. Pode ser que em dado momento as condições sejam mais ou menos favoráveis. Mas nunca há “paz” para o cristão: é permanente “guerra” contra as forças do mal dentro e fora de si mesmo (cf. Mt 10,34). O autor de Jó já dizia: “A vida do homem sobre a terra é uma guerra” (Jó 7,1).
“Atenção para não serdes enganados, pois muitos virão em meu nome dizendo: ‘Sou eu!’ e ainda: ‘O tempo está próximo!’ Não os sigais!” (Lc 21,8). Uma clara situação de crise. Pois há propostas diferentes, encruzilhadas. Qual a atitude do cristão? “Não os sigais!”. Esta palavra de Jesus precisa estar sempre presente dentro de nós. Não seguir aquelas pessoas que nos separam de Jesus Cristo, único fundamento de nossa fé. Qualquer pessoa ou situação que nos afasta de Jesus precisa ser rechaçada. As tentações são muitas. Por vezes se apresentam com aspecto encantador, até divinizado. Mas precisamos voltar ao evangelho. Como Jesus agia? Quais eram suas opções? A quem ele seguia e em quem confiava?
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AS LÁGRIMAS DO CRISTÃO
Outro elemento que precisa ser ressaltado: Jesus chorou sobre a cidade. Lucas relata o choro profético de Jesus: “E como estivesse perto, viu a cidade e chorou sobre ela” (Lc 19,41). Uma atitude de Jesus que deve ser contemplada. Não foi um choro de ira, de lamento vazio, mas um choro de profeta. Lamenta a cidade que não acolheu a visita de Deus. Lamenta um sistema político-religioso que explora os pobres. Solidariza-se com os explorados por um sistema que deveria estar a serviço da vida, mas que optou por sacrificar os pobres.
Por que Jesus chora sobre uma cidade? Chorar pela morte do amigo Lázaro é compreensível. Mas chorar sobre uma cidade é algo inusitado. Jerusalém, porém, não chora. Por quê? A cidade vai bem. Os negócios vão bem. Tudo estava bem harmonizado com a presença dos soldados romanos mantendo a “Paz” e a ordem. O Templo, espaço religioso que constituía o centro dos interesses na cidade era frequentado e cercado de cuidados. Porém não se prestava mais para o seu objetivo primeiro: o encontro com Deus. Era mantido para manutenção do status quo da aristocracia sacerdotal judaica. Não era mais Casa de Oração.
E Jerusalém não era mais a cidade da Paz. Tem a paz romana imposta pela espada. Tem a paz dos comerciantes que precisam de paz para fazer bons negócios. Tem a paz religiosa imposta pelos sacerdotes do templo. Por isso Jesus chora. Aquele que veio trazer a paz foi rejeitado. A cidade vivia uma paz mascarada. Jesus veio trazer uma paz/shalom, um estado de vida, de bem-estar e de prosperidade que engloba toda a comunidade. Os poderosos não choram. Os fracos choram. O Profeta da compaixão chora!
O saudoso Papa Francisco, em diversas ocasiões, falava da importância das lágrimas nos olhos do cristão:
- “Também nos fará bem pedir a graça das lágrimas, para este mundo que não reconhece o caminho da paz. Peçamos a conversão do coração“.
- “Certas realidades da vida só podem ser vistas com os olhos limpos pelas lágrimas“.
- “Quantas lágrimas são derramadas a cada instante no mundo; uma diferente da outra; e, juntas, elas formam como um oceano de desolação, que invoca piedade, compaixão, consolação“.
- “Se Deus chorou, eu também posso chorar, sabendo que sou compreendido. O pranto de Jesus é o antídoto contra a indiferença pelo sofrimento dos meus irmãos. Aquele choro ensina a tornar minha a dor dos outros, a ser participante do infortúnio e do sofrimento de todos os que vivem nas situações mais dolorosas“.
- “Se vocês não aprenderem a chorar, vocês não poderão ser bons cristãos. E isto é um desafio“.
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No dia 20 de novembro celebramos o dia da Consciência Negra. A data homenageia Zumbi dos Palmares, um líder que defendeu a raça negra contra a escravatura e que morreu no dia 20 de novembro de 1695 enquanto defendia sua comunidade que lutava pelos direitos de seu povo. Seria muito importante que trabalhássemos em nosso coração, com nossos filhos e netos o respeito, amabilidade, a quebra do preconceito. Este se manifesta em piadas, brincadeiras, discriminações. As estatísticas mostram que o negro é ainda altamente discriminado. Que o racismo está muito vivo em nosso meio. E, ultimamente, parece ter crescido em forma de violência e morte. A fé cristã não admite distinção de pessoas: “Todos vós que fostes batizados em Cristo, vos vestistes de Cristo. Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não homem nem mulher, pois todos vós sois um só em Cristo Jesus” (Gl 3,27-28).
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IX DIA MUNDIAL DOS POBRES
Celebramos, neste dia 16 de novembro, o Dia Mundial dos Pobres. É uma excelente oportunidade que nos deu o Papa Francisco, ao instituir esse dia, para repensarmos nossas relações com bens e com os pobres.
“Tu és a minha esperança, ó Senhor Deus” (Sl 71,5). Com estas palavras, o Papa Leão convida a Igreja a celebrar a IX Jornada Mundial dos Pobres de 2025. Sem a virtude da esperança certamente nossas palavras e ações poderão cair no vazio. E diante das dificuldades poderemos desanimar de prosseguir o caminha da cruz no encalço de Jesus. O Papa nos convida a olhar com a lente do Evangelho para os pobres e estender-lhes a mão. É missão da Igreja.
“Os pobres não são um passatempo para a Igreja, mas sim os irmãos e irmãs mais amados, porque cada um deles, com a sua existência e também com as palavras e a sabedoria que trazem consigo, levam-nos a tocar com as mãos a verdade do Evangelho. Por isso, o Dia Mundial dos Pobres pretende recordar às nossas comunidades que os pobres estão no centro de toda a ação pastoral. Não só na sua dimensão caritativa, mas igualmente naquilo que a Igreja celebra e anuncia. Através das suas vozes, das suas histórias, dos seus rostos, Deus assumiu a sua pobreza para nos tornar ricos. Todas as formas de pobreza, sem excluir nenhuma, são um apelo a viver concretamente o Evangelho e a oferecer sinais eficazes de esperança” (Mensagem para a IX Jornada Mundial dos Pobres).
Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

