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As obras que realizamos mostram nossa identidade

aureliano, 10.12.22

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3º Domingo do Advento [11 de dezembro de 2022]

[Mt 11,2-11]

Esse terceiro Domingo do Advento é cognominado pela tradição litúrgica como Dominica Gaudete (Domingo da Alegria). A proximidade da vinda do Senhor deve encher de santa alegria o coração do cristão. E só experimentará a alegria que brota do coração do Pai o cristão que busca assumir em sua vida o jeito de ser de Jesus de Nazaré. “Ide dizer a João o que ouvistes e vistes”. A plena vida e dignidade devolvida aos pobres e sofredores era a grande manifestação do Reino de Deus.

A ação evangelizadora de Jesus que curava os cegos, os coxos, os surdos no anúncio da Boa Nova aos pobres, revelava quem era Jesus. As obras e palavras revelam quem é uma pessoa. A celebração da ação litúrgica revela a vida de uma comunidade. As expressões, os gestos, as palavras, a homilia, o canto (conteúdo da letra), a acolhida etc são reveladores do lugar que a assembleia celebrante ocupa na vida da comunidade. Se há comprometimento ou não com a vida do povo, particularmente dos mais pobres. As realidades vividas no cotidiano devem estar presentes na celebração, bem como a celebração deve iluminar e inspirar as atividades cotidianas. Uma circularidade humano-divina.

Aliás, a propósito de um culto desligado da vida, o Papa Francisco alerta contra o “cuidado exibicionista da liturgia, da doutrina e do prestígio da Igreja, mas não se preocupam que o Evangelho adquira uma real inserção no povo fiel de Deus e nas necessidades concretas da história” (EG, 95). E emenda o Pontífice: “É uma tremenda corrupção, com aparências de bem. (...) Deus nos livre de uma Igreja mundana sob vestes espirituais ou pastorais!” (EG, 97).

A “cura” traz alegria para a pessoa e a família. Jesus curava os sofredores, alivia-lhes o sofrimento. Hoje, se queremos trazer alegria à vida das pessoas precisamos “curar suas feridas”. Papa Francisco tem alertado para essa atitude: “Vejo com clareza que o que a Igreja necessita hoje é a capacidade de curar feridas e dar calor, intimidade e proximidade aos corações... Isto é o primeiro: curar feridas, curar feridas”. Fala ainda de “tratarmos das pessoas, acompanhando-as como o bom samaritano que lava, limpa e consola; caminhar com as pessoas na noite, saber dialogar e inclusive descer à sua noite e obscuridade sem se perder”.

Segundo o evangelho deste domingo, a atuação de Jesus está orientada para curar e libertar, não para julgar e condenar. Os discípulos de João devem comunicar-lhe o que vêem: Jesus vive voltado para os que sofrem para libertá-los do sofrimento. Depois devem dizer a João o que ouvem: uma mensagem de esperança dirigida àqueles camponeses pobres, vítimas de injustiças sociais.

Também a nós, se alguém nos pergunta se somos seguidores do Messias Jesus, que obras lhes poderemos mostrar? Que mensagem podem escutar de nós? De quem nos aproximamos? Com que interesse? Trabalhamos pelo interesse de quem? “Vão dizer a João o que vocês viram e ouviram”. Eis o desafio!

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OS SINAIS DO REINO DE DEUS

Quando estamos dirigindo pela cidade, nos deparamos frequentemente com os sinais de trânsito. Para que servem? Para indicar o que devemos fazer: parar, prosseguir, diminuir a velocidade etc. Seria ridículo alguém parar o carro e ficar admirando o sinal verde ou vermelho etc.

Costumamos fazer isso com os milagres de Jesus. Somos levados a pensar que os milagres que Jesus realizou e mandou seus discípulos realizar eram demonstração de um sinal de força e poder. A mídia está cheia de “igrejas” que afirmam “curar”. Seria bom verificarmos com que interesse se propaga isso.

No tempo de Jesus havia grupos que idealizavam o seu messias. Assim, os fariseus, os zelotes, os essênios, os discípulos de João Batista e outros esperavam um messias que os libertasse do jugo romano e fosse fiel cumpridor da Lei e seus ritos. Havia também o grupo dos que não esperavam o messias: os saduceus e os herodianos. Esses últimos identificavam Herodes com o rei messiânico.

Havia um grupo, os “pobres de Javé”, que esperavam um messias que incluísse os pobres, os doentes, os estrangeiros, os pecadores. Jesus encarnou a esperança deste grupo. Ele é o “Servo do Senhor” (Is 42,1).

Contemplando as atitudes de Jesus notamos que as curas que ele realizava eram sinais indicadores de sua missão. O que interessa não é a placa, mas o que ela indica. Por isso Jesus manda dizer a João: “Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo”. Abrir os olhos aos cegos, soltar a língua dos mudos, abrir os ouvidos dos surdos, soltar os braços e as pernas dos entrevados, enfim, dar nova vida aos mortos é o núcleo da missão do Messias. Jesus não é um simples curandeiro, mas aquele que veio dar vida nova aos desafortunados da história.

Para João, que havia anunciado a presença de um messias forte, julgador severo, Jesus se comporta como um fraco. À dúvida honesta de João, Jesus responde com atitudes. Não aponta para sua pessoa, mas para suas ações. Enquanto João é severo exigindo arrependimento e mudança de vida, Jesus mostra-se manso, humilde, compadecido dos pobres e pecadores.

A pessoa de João Batista é elogiada por Jesus por causa de sua firmeza profética. “No entanto o menor no Reino dos céus é maior do que ele”. Reino dos céus aqui é a comunidade cristã que tem um caminho muito mais amplo, mais aberto, mais abrangente. Os tempos do Reino transcendem em muito àqueles que o prepararam.

O Reino sofre violência (cf. Mt 11,12). Na busca do Reino de Deus o mais difícil talvez seja desembaraçar-se do reinado do dinheiro, da fama, do sucesso e do poder para assumir a postura de “fraco” que se torna forte pela graça. Para entregar-se como Jesus precisa-se ser “violento”: ter coragem de doar-se generosamente, de sofrer perseguição por causa da justiça, de promover a paz e a concórdia, de perdoar àqueles que nos ofendem, de opor-se com firmeza às atitudes de fraudes, extorsão, roubo, rachadinhas, mentiras e violência. É na Eucaristia que celebramos a renovação do gesto de Jesus e nos fortalecemos para darmos continuidade à sua ação na história. Fomos salvos para sermos salvadores e libertadores com Cristo.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Cristo se oferece livremente e por amor

aureliano, 03.04.20

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Domingo de Ramos [05 de abril de 2020]

[Mt 21,1-11;26,14 – 27,66]

Estamos entrando na Semana Santa! Esta Semana passou a ser celebrada com a intenção de rememorar a Paixão do Senhor. Na Idade Média ela tomou corpo e fôlego, sobretudo pela tentativa de reviver o episódio da Paixão do Senhor descrito pelos evangelistas. Esta semana era até chamada de Semana Dolorosa, pelo fato de se dramatizarem os sofrimentos de Cristo.

Parece simples, mas o conhecimento desse dado histórico é interessante porque pode nos ajudar a entender o porquê das vias sacras e outras representações da Paixão do Senhor. Ficaremos então atentos para não nos perdermos nos folclores e dramatizações, mas adentrarmos mais profundamente no Mistério profundo da entrega de Jesus, manifestação do amor do Pai, e nos atermos ao Mistério fundante de nossa fé cristã, a Ressurreição do Senhor, vitorioso sobre o pecado e a morte.

Este domingo se chama, na verdade, Domingo da Paixão nos Ramos. Jesus entra triunfante em Jerusalém para sofrer a Paixão. Portanto celebramos dois acontecimentos: a aclamação de Jesus como o “Bendito que vem em nome do Senhor”, e a contemplação de sua Paixão. É o único domingo do ano em que a Igreja celebra a Paixão propriamente dita de Jesus, proclamando no Evangelho os relatos da Paixão.

Jesus pediu aos discípulos para buscar um jumentinho. Deviam dizer aos interrogantes: “O Senhor precisa dele”. O Senhor quer também precisar de nós. Somos os “jumentinhos” do Senhor. Nós temos nos colocado à disposição dele? Ou costumamos “empacar”, buscando nossos próprios interesses egoístas?

Ainda mais: as pessoas espalhavam roupas e ramos pelo caminho aclamando a Jesus. Poucos dias depois pediam sua crucifixão. E nós: estamos com Jesus somente no sucesso e na saúde? Ou também quando ele sofre rejeição, maus tratos, perseguições? Temos dado algo de nós para Jesus que passa diante de nós nos pobres e sofredores?

Algumas considerações:

No Crucificado vemos, não somente um inocente condenado, mas nele, nós cristãos, contemplamos todas as vítimas do preconceito, da maldade e da injustiça de todos os tempos. Na cruz com Jesus estão as vítimas da fome, as crianças abandonadas e exploradas, as mulheres vítimas de maus tratos e feminicídio, os explorados por nosso bem-estar, os quilombolas e indígenas invadidos e despejados, os esquecidos por nossa Igreja, os espoliados pela cultura da corrupção descarada e pela ganância do acúmulo, os enganados pelas mentiras e desonestidade.

Esse Deus crucificado não é o Deus controlador, que está em busca de honra e glória. Não! É o Deus paciente e humilde que respeita a liberdade de seus filhos e lhes quer sempre o bem, a felicidade e a alegria. Não é um Deus vingativo, justiceiro. Mas um Deus que manifesta sempre o perdão e a misericórdia.

Nós cristãos continuamos a celebrar o Deus crucificado porque vemos nele o Deus “louco” de amor por todos nós. Ele é a força que sustenta nossa esperança e nossa luta pela justiça e pela paz. Acreditamos que Deus não passa ao largo de nossas lágrimas, sofrimentos, lutas e fracassos. Ele está no calvário de nossa existência. A cruz erguida entre as nossas cruzes nos lembra que Deus sofre conosco.

Nesta semana a Igreja nos convida a contemplar Jesus que oferece sua vida como dom ao Pai. Ele não vai à cruz porque gosta de sofrer ou porque quer morrer. Jesus não é nenhum suicida! A paixão e sofrimento por que passa são consequências de sua fidelidade ao Pai. A contemplação de Cristo na cruz deveria nos levar a agradecer ao Pai por nos ter dado Jesus como Salvador. O Pai olha para seu Filho, vítima da maldade humana, como a olhar para todos aqueles que são injustiçados, vitimados por uma sociedade que sacrifica os que não dão lucro.

Jesus continua passando pelas nossas ruas e praças. Por vezes aplaudimos Jesus em uma celebração ou culto, depois o insultamos no rosto do desvalido! Isso é muito grave! Precisamos de um sério exame de consciência nesta Semana Santa.

Portanto, a celebração da entrada de Jesus em Jerusalém deve valorizar não tanto os ramos, mas o mistério expresso pela procissão que proclama a realeza messiânica de Cristo.

Campanha da Fraternidade: “Todos somos filhos do mesmo Deus que faz chover sobre maus e bons (Mt 5,45). Onde, portanto, está o erro quando o senhor da vinha paga por igual a trabalhadores que cumpriram jornadas diferentes (Mt 20,1-11)? Terá o Senhor Jesus errado na parábola, ou estaremos nós marcados por um conceito incompleto de justiça que não enxergamos a amplitude de um coração que é, ao mesmo tempo, justo e misericordioso? Em Jesus, justiça e misericórdia, não se contrapõem. Ao contrário, complementam-se, ampliam-se, levando-nos a tangenciar a eternidade. O Dono da vinha paga por igual, não porque os trabalhadores renderam por igual, mas porque todos são humanos e, por isso, são iguais. A justa misericórdia, ou a misericordiosa justiça de Deus, ultrapassa qualquer situação para ver a pessoa que ali está e  dela cuidar, principalmente quando não merece. “Dificilmente alguém morrerá por um justo; por uma pessoa boa, talvez alguém ouse morrer. Deus, contudo, prova o seu amor para conosco, pelo fato de que Cristo morreu por nós, quando ainda éramos pecadores” (Rm 5,7-8)" (Texto-Base, 104).

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JESUS SE ENTREGA POR NÓS

A Igreja é a comunidade pascal, nascida do “lado aberto” de Cristo, do Coração amoroso de Jesus que se entregou por nós. Ele passou da morte à vida e fundou a Igreja para que seja sempre arauto da vida nova que ele veio trazer.

A quaresma é um tempo marcadamente batismal. É um mergulho nas fontes batismais com tudo o que o batismo significa para o cristão. A espiritualidade quaresmal não se baseia somente numa postura interior e individual, mas também externa e comunitária em quatro aspectos: abominação do pecado como ofensa a Deus; conseqüências sociais do pecado; parte da Igreja na ação penitencial; oração pelos pecadores.

A Semana Santa, chamada também a “Grande Semana”, desenvolveu-se sobretudo a partir da historicização dos sofrimentos de Cristo em Jerusalém. Com isso entraram na prática celebrativa elementos devocionais que, de alguma forma, buscam reviver os acontecimentos da paixão descritos pelos evangelistas e pelos evangelhos apócrifos. Essas representações, por um lado permitem atentar para cada episódio da paixão do Senhor, por outro, pode prejudicar a unidade do mistério pascal. Em outras palavras: destacando os aspectos do sofrimento provocando certa emoção, pode-se afastar de seu aspecto salvífico na vitória sobre a morte com a ressurreição.

No intuito de enfatizar o aspecto salvífico da paixão do Senhor, queremos lembrar as principais celebrações desta semana, com destaque para o Tríduo Pascal, centro e cume da liturgia da Igreja.

Domingo de Ramos: Comemoração do Cristo Senhor que entra em Jerusalém para cumprir plenamente seu mistério pascal. A procissão dos ramos (memória da entrada de Jesus em Jerusalém) expressa a realeza messiânica de Cristo. É o único domingo do ano que celebra o mistério da morte do Senhor com a proclamação do relato da paixão. Jesus entra triunfalmente em Jerusalém para aí consumar sua páscoa de morte e ressurreição.

Quinta-feira Santa: É a conclusão da quaresma. Duas celebrações marcam esse dia: a missa do Crisma e a Instituição da Eucaristia (já no Tríduo Pascal). A missa do Crisma com a bênção do óleo dos enfermos, dos catecúmenos e, principalmente do sagrado crisma, é a oportunidade de reunir o presbitério em torno de seu Bispo e fazer da celebração uma festa do sacerdócio ministerial, através da renovação das promessas sacerdotais. O ministério presbiteral está intimamente ligado à eucaristia da qual o presbítero deve ser expressão.

Tríduo Pascal: Tem início com a missa da Ceia do Senhor, cujo ápice é a Vigília Pascal e cujo término se dá na tarde (Vésperas) do domingo da ressurreição.

Missa da Ceia do Senhor: É feita à noite com tom festivo. Os textos bíblicos realçam o fato de que Cristo nos deu sua páscoa no rito da ceia que exige, por parte da Igreja, o vínculo indissolúvel entre o serviço e a caridade fraterna: “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). O lava-pés deve ser visto neste contexto, e não como mera representação do gesto de Jesus. No fim da celebração eucarística, as Sagradas Espécies (as partículas consagradas para a distribuição aos fiéis na Sexta-feira Santa) são conduzidas para um lugar previamente preparado. Faz-se a adoração ao Santíssimo até por volta de meia-noite. Não se trata de sepulcro para Jesus, mas de solene exposição e adoração ao Senhor vencedor da morte.

Sexta-feira Santa: Incluindo a Quinta à noite, é o primeiro dia do Tríduo. Dia de jejum como sinal sacramental da participação no sacrifício de Cristo. Também é um gesto de solidariedade com as vítimas da fome e da miséria. Não se celebra a eucaristia nesse dia. Faz-se a celebração solene da Liturgia da Palavra, à tarde, com adoração do Cristo na cruz e distribuição da comunhão.  Não é o dia de luto da Igreja, mas de amorosa contemplação da oferta de Cristo na cruz pela humanidade. Essa contemplação tem um caráter de ressurreição, uma vez que a morte de Cristo é inseparável de sua ressurreição. Por isso chamada de beata passio, santa e feliz paixão.

Sábado santo (dia): Nesse dia a Igreja se coloca em silêncio orante. Celebra o repouso de Cristo no sepulcro, depois da vitória na cruz. É a experiência da morte humana pela qual Cristo passou. É a esperança da vitória de Cristo sobre a sombra da morte: “O Filho do homem... deve... ser levado à morte e ressurgir ao terceiro dia”(Lc 9,22).

Sábado santo (noite): Celebração da “Mãe de todas as noites”, na expressão de Agostinho. A Vigília Pascal se caracteriza pelo sentido batismal que desemboca na celebração eucarística. Temos nesta noite a bênção do fogo novo e do círio com o canto do precônio (louvação) pascal, a liturgia da Palavra (nove leituras), liturgia batismal e liturgia eucarística. É a celebração da “noite iluminada”, da “noite vencida pelo dia”, demonstrando que a graça brotou da morte de Cristo. A passagem das trevas para a luz exprime a realidade do mistério da páscoa em Cristo e em nós.

Nosso desejo é que cada um, nesta semana de graça e de vida para a Igreja, se coloque naquela postura do Servo Sofredor, aberto à graça do Pai para colaborar na construção de um mundo mais de Deus: “O Senhor Deus me deu uma língua de discípulo para que eu soubesse trazer ao cansado uma palavra de conforto. De manhã ele desperta o meu ouvido para que eu ouça como os discípulos” (Is 50,4).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Menos palavras e mais atitudes

aureliano, 13.12.19

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3º Domingo do Advento [15 de dezembro de 2019]

[Mt 11,2-11]

Esse terceiro Domingo do Advento é cognominado pela tradição litúrgica como Dominica Gaudete (Domingo da Alegria). A proximidade da vinda do Senhor deve encher de santa alegria o coração do cristão. E só experimentará a alegria que brota do coração do Pai o cristão que busca assumir em sua vida o jeito de ser de Jesus de Nazaré. “Ide dizer a João o que ouvistes e vistes”. A plena vida e dignidade devolvida aos pobres e sofredores era a grande manifestação do Reino de Deus.

A ação evangelizadora de Jesus que curava os cegos, os coxos, os surdos no anúncio da Boa Nova aos pobres, revelava quem era Jesus. As obras e palavras revelam quem é uma pessoa. A celebração da ação litúrgica revela a vida de uma comunidade. As expressões, os gestos, as palavras, a homilia, o canto (conteúdo da letra), a acolhida etc são reveladores do lugar que a assembleia celebrante ocupa na vida da comunidade. As realidades vividas no cotidiano devem estar presentes na celebração, bem como a celebração deve iluminar e inspirar as atividades cotidianas. Uma circularidade humano-divina.

Aliás, a propósito de um culto desligado da vida, o Papa Francisco alerta contra o “cuidado exibicionista da liturgia, da doutrina e do prestígio da Igreja, mas não se preocupam que o Evangelho adquira uma real inserção no povo fiel de Deus e nas necessidades concretas da história” (EG, 95). E emenda o Pontífice: “É uma tremenda corrupção, com aparências de bem. (...) Deus nos livre de uma Igreja mundana sob vestes espirituais ou pastorais!” (EG, 97).

A “cura” traz alegria para a pessoa e a família. Jesus curava os sofredores, alivia-lhes o sofrimento. Hoje, se queremos trazer alegria à vida das pessoas precisamos “curar suas feridas”. Papa Francisco tem alertado para essa atitude: “Vejo com clareza que o que a Igreja necessita hoje é a capacidade de curar feridas e dar calor, intimidade e proximidade aos corações... Isto é o primeiro: curar feridas, curar feridas”. Fala ainda de “tratarmos das pessoas, acompanhando-as como o bom samaritano que lava, limpa e consola; caminhar com as pessoas na noite, saber dialogar e inclusive descer à sua noite e obscuridade sem se perder”.

Segundo o evangelho deste domingo, a atuação de Jesus está orientada para curar e libertar, não para julgar e condenar. Os discípulos de João devem comunicar-lhe o que vêem: Jesus vive voltado para os que sofrem para libertá-los do sofrimento. Depois devem dizer a João o que ouvem: uma mensagem de esperança dirigida àqueles camponeses pobres, vítimas de injustiças sociais.

Também a nós, se alguém nos pergunta se somos seguidores do Messias Jesus, que obras lhes poderemos mostrar? Que mensagem podem escutar de nós? De quem nos aproximamos? Com que interesse? Trabalhamos pelo interesse de quem? “Vão dizer a João o que vocês viram e ouviram”. Eis o desafio!

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OS SINAIS DO REINO DE DEUS

Quando estamos dirigindo pela cidade, nos deparamos frequentemente com os sinais de trânsito. Para que servem? Para indicar o que devemos fazer: parar, prosseguir, diminuir a velocidade etc. Seria ridículo alguém parar o carro e ficar admirando o sinal verde ou vermelho etc.

Costumamos fazer isso com os milagres de Jesus. Somos levados a pensar que os milagres que Jesus realizou e mandou seus discípulos realizar eram demonstração de um sinal de força e poder. A mídia está cheia de “igrejas” que afirmam “curar”. Seria bom verificarmos com que interesse se propaga isso.

No tempo de Jesus havia grupos que idealizavam o seu messias. Assim, os fariseus, os zelotes, os essênios, os discípulos de João Batista e outros esperavam um messias que os libertasse do jugo romano e fosse fiel cumpridor da Lei e seus ritos. Havia também o grupo dos que não esperavam o messias: os saduceus e os herodianos. Esses últimos identificavam Herodes com o rei messiânico.

Havia um grupo, os “pobres de Javé”, que esperavam um messias que incluísse os pobres, os doentes, os estrangeiros, os pecadores. Jesus encarnou a esperança deste grupo. Ele é o “Servo de Javé” (Is 42,1).

Contemplando as atitudes de Jesus notamos que as curas que ele realizava eram sinais indicadores de sua missão. O que interessa não é a placa, mas o que ela indica. Por isso Jesus manda dizer a João: “Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo”. Abrir os olhos aos cegos, soltar a língua dos mudos, abrir os ouvidos dos surdos, soltar os braços e as pernas dos entrevados, enfim, dar nova vida aos mortos é o núcleo da missão do Messias. Jesus não é um simples curandeiro, mas aquele que veio dar vida nova aos desafortunados da história.

Para João, que havia anunciado a presença de um messias forte, julgador severo, Jesus se comporta como um fraco. À dúvida honesta de João, Jesus responde com atitudes. Não aponta para sua pessoa, mas para suas ações. Enquanto João é severo exigindo arrependimento e mudança de vida, Jesus mostra-se manso, humilde, compadecido dos pobres e pecadores.

A pessoa de João Batista é elogiada por Jesus por causa de sua firmeza profética. “No entanto o menor no Reino dos céus é maior do que ele”. Reino dos céus aqui é a comunidade cristã que tem um caminho muito mais amplo, mais aberto, mais abrangente. Os tempos do Reino transcendem em muito àqueles que o prepararam.

O Reino sofre violência (cf. Mt 11,12). Na busca do Reino de Deus o mais difícil talvez seja desembaraçar-se do reinado do dinheiro, da fama, do sucesso e do poder para assumir a postura de “fraco” que se torna forte pela graça. Para entregar-se como Jesus precisa-se ser “violento”: ter coragem de doar-se generosamente. É na Eucaristia que celebramos a renovação do gesto de Jesus e nos fortalecemos para darmos continuidade à sua ação na história.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN