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aurelius

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Quem vive na luz não teme as trevas

aureliano, 08.03.24

4º Domingo da Quaresma [10 de março de 2024]

4º Domingo da Quaresma B.JPG

 [Jo 3,14-21]

O contexto do evangelho de hoje é a conversa de Jesus com Nicodemos, um homem estranho, embora notável entre os judeus, que entra em cena de repente, e desaparece de repente. A resposta de Jesus a ele e o contexto da liturgia quaresmal – preparação para o batismo e vida batismal – nos ajuda a entender o que significa o batismo: “Ninguém, a não ser que nasça da água e do Espírito, pode entrar no Reino de Deus” (Jo 3,5).

É interessante notar, em primeiro lugar, o fato de Nicodemos ter procurado Jesus “de noite”.  Nicodemos representa o discípulo que começa a sair das trevas para entrar na luz, por isso procura Jesus “de noite”, isto é, nas trevas dos conflitos e desafios da vida. E Nicodemos realiza o encontro desejado. Por isso não entra mais em cena, pois encontrou aquele a quem buscava. E Jesus continua seu discurso mostrando que é preciso deixar as trevas e se aproximar da luz.

Crer num homem crucificado, abandonado, considerado maldito por Deus não é algo simples. Nós estamos acostumados com cruzes por todo canto. Inclusive nas salas de órgãos públicos brasileiros vemos o crucificado presenciando cada atitude que traz pavor e vergonha aos cristãos e não-cristãos honestos e sérios. Porém raramente paramos para refletir sobre o significado deste objeto sagrado. Referindo-se à cruz, diz o Papa Francisco: “A cruz não é um ornamento, que nós devemos meter sempre nas igrejas sobre o altar. Não é um símbolo que nos distingue dos outros. A Cruz é o mistério, o mistério do amor de Deus, que se humilha a si próprio, faz-se um nada, faz-se pecado. O perdão que nos dá Deus são as chagas do seu Filho na Cruz, erguido na Cruz. Que Ele nos atraia para Si e que nós nos deixemos curar”.

“... Assim, é necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna” (Jo 3, 15). Aquele que veio “como Luz” está crucificado! Suas mãos não podem mais tocar os leprosos. Seus braços não podem abraçar as crianças. Seus olhos estão impedidos de olhar, com ternura, para os pecadores e as prostitutas. Seus ouvidos não ouvem mais o grito do cego de Jericó ou clamor da Cananéia. Um homem de dores, pendurado num madeiro, vítima da maldade, para eliminar, para sempre, do coração humano, toda maldade e violência.

Jesus mostra, no relato de hoje, a face amorosa do Pai que “não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e viva”. Não veio para condenar, mas para salvar. Corremos o risco de anunciar Deus como um juiz implacável, irado contra a humanidade. Por vezes assumimos o posto de juiz de vivos e de mortos. Sentamos na cadeira de juiz enquanto Jesus deitou-se numa cruz. Colocou-se do lado dos injustiçados e condenados, desde o seu nascimento, quando não encontrou lugar na hospedaria.

 “Quem nele crê não é condenado”. Crer em Jesus é assumir seu modo de viver. É arcar com as consequências da fé cristã. Fé é dom de Deus. Salvação é graça. “É pela graça que fostes salvos mediante a fé. E isso não vem de vós; é dom de Deus! Não vem das obras para que ninguém se orgulhe” (Ef 2,8). Pe. Konings diz que “não fomos salvos pelas obras, mas para as obras”. Ou seja, as obras encarnam nossa fé. Tiago diz que “a fé sem obras é morta” (Tg 2,26). Nosso relacionamento com Deus não é comercial (nem doutrinal, como querem alguns), mas vivencial, experiencial. Nossa relação com Deus se deve dar na gratuidade e não como compra e venda dos dons de Deus, ou na mera observância formal de uma lei ou doutrina.

A salvação depende também da acolhida que lhe faz o ser humano. Deus não salva ninguém à força. Nesse sentido a salvação é dom e tarefa, graça e liberdade. Há pessoas que rejeitam a salvação, que se recusam a aproximar-se da luz, exatamente para que suas ações más não sejam conhecidas. “Quem pratica o mal odeia a luz e não se aproxima da luz, para que suas ações não sejam denunciadas” (Jo 3,20). A vida de Jesus, que é luz, mostra por onde anda aquele que dele se aproxima.  Quem “pratica a verdade”, ou seja, quem procura viver como Jesus, na justiça, na honestidade, na solidariedade, no serviço generoso aos irmãos, “aproxima-se da luz para que se manifeste que suas ações são realizadas em Deus” (Jo 3,21).

Um respeitado teólogo jesuíta, Mário de França Miranda, diz o seguinte a propósito da inculturação da fé: “A iniciativa salvífica de Deus só chega à sua meta quando é livremente acolhida pelo ser humano na fé. Só temos propriamente revelação ou Palavra de Deus no interior de uma resposta de fé, ela mesma fruto da ação de Deus em nós. Portanto, o acolhimento na fé é parte constitutiva da revelação; sem ela os eventos salvíficos seriam meros fatos históricos, a Palavra de Deus seria palavra humana e a pessoa de Jesus Cristo nos seria desconhecida, como o foi para os fariseus de seu tempo” (A reforma de Francisco, p. 64).

Aproximando-nos da Luz, que é Jesus, somos aquecidos, iluminados, transformados por ele. Tornamo-nos mais parecidos com ele. Então nossa presença junto à família, à comunidade, àqueles que Deus colocou no nosso caminho será uma presença de luz. “Brilhe vossa luz diante dos homens para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a Deus Pai” (cf Mt 5,16). Essa luz não é autógena, fruto de esforço pessoal, mas luz que foi infundida por Deus em nós no batismo e, uma vez acolhida, deve ser levada aos outros.

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A Campanha da Fraternidade desse ano quer nos ajudar a desenvolver a arte do diálogo como instrumento de paz e de unidade na Igreja e na sociedade. A segunda leitura deste domingo nos recorda que fomos salvos pela Graça do Pai (Ef 2,5). Portanto, a salvação é dom de Deus (Ef 2,8). Esse dom não é somente nosso, mas deve se multiplicar na vida da humanidade pela nossa ação missionária, construindo fraternidade. Amizade social é alargar nossa tenda para abrigar aqueles que talvez sejam desafetos nossos, mas precisam de u’a mão que os ampare, de uma luz que os ilumine, de um ombro que acolha seus soluços, de um ouvido que os escute com respeito sem julgamento e condenação, de um coração que saiba compreendê-los e amá-los. Amizade social não é compactuar com o malvado, mas dar-lhe oportunidade de deixar o caminho do mal e aprender a fazer o bem. Amizade social é abrir nossos horizontes para compreender e acolher quem pensa diferente de nós, quem professa uma fé diferente da nossa, quem faz opções diferentes das nossas. Amizade social é ser resiliente, é ser tolerante, é ter identidade de fé e de vida que possibilita diálogo e acolhida. Amizade social é deixar que o outro seja, é dar-lhe espaço, é deixá-lo falar, se manifestar, dizer o que pensa e deseja, tudo dentro do respeito, da compreensão e do perdão. Nosso empenho deve ser sempre construir pontes à semelhança de Jesus. Ele que “sempre se mostrou cheio de misericórdia pelos pequenos e pobres, pelos doentes e pecadores, colocando-se ao lado dos perseguidos e marginalizados” (Prefácio da Oração Eucarística VI-D).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

Santos Reis: uma busca de novos caminhos

aureliano, 06.01.24

Epifania 2018.jpg

Epifania do Senhor [07 de janeiro de 2024]

[Mt 2,1-12]

A solenidade que celebramos hoje é uma festa popularmente chamada de “Santos Reis”. Caiu bem no imaginário popular a cena pintada por Mateus sobre a visita que os Magos fizeram a Jesus por ocasião do seu nascimento. O quadro é deveras bonito. Mas é bom lançarmos um olhar com mais profundidade, pois aí se esconde um grande Mistério.

Primeiro não podemos ler a cena do evangelho de hoje como um relato jornalístico. Os fatos certamente não se deram historicamente tais como estão narrados. A leitura deve ser feita numa ótica de fatos interpretados teologicamente. Mateus pretende dar uma catequese para a comunidade. Vamos então tomar os pontos essenciais e tentar descobrir o que Deus nos está revelando de novo nesta Palavra da festa de hoje.

O fato de relatar Belém como local do nascimento de Jesus parece mostrar que Mateus quer convencer alguns que não podiam acreditar que o Messias pudesse nascer em Nazaré pelo fato de as Escrituras prometerem que sairia de Belém, a cidade de Davi. Belém é “casa do pão”. O Pão da vida que veio alimentar a humanidade dá-se em alimento num coxo onde os animais comiam. O alimento, o pão que ali se encontra, veio para saciar a fome da humanidade.

Os magos não eram necessariamente adivinhos, mas estudiosos dos astros. Dizem os entendidos da cultura e história daquela época que, por ocasião do nascimento de pessoas importantes, uma estrela avisava. Mateus vale-se da crença para mostrar que Alguém nasceu e foi visto através de uma estrela.

A visita e adoração dos magos contrapõem-se ao orgulho de Herodes e de todo o Israel que se recusou a dobrar a cerviz à Palavra que se fez carne no seio de Maria. Considerava inadmissível que Deus pudesse nascer tão pobre e simples. Ademais se sentia ameaçado pelo “rei dos judeus” que acabara de nascer. Uma vez que aqueles para quem ele veio não o reconheceram (cf. Jo 1,11), manifesta-se aos pagãos, representados pelos magos. Veio para todos. É o universalismo da salvação de Deus manifestado em Jesus de Nazaré.

A estrela de que fala o texto simboliza os sinais pelos quais Deus nos fala. Ele se manifesta de muitas formas. É preciso estar com o “coração no alto”. Esse olhar para cima, para o céu quer indicar a vida de oração, de intimidade com o Pai que nos ajuda a perceber os caminhos pelos quais devemos caminhar. Herodes e os habitantes de Jerusalém, levando uma vida perversa e ambiciosa, criaram em torno de si uma nuvem tão espessa que ofuscou o brilho da estrela sobre a cidade. Somente depois que saíram da cidade é que a estrela foi novamente vista pelos magos. O que lhes causou grande alegria. A alegria da luz de Deus que ilumina e fortalece o coração do justo.

Quando o relato diz que os magos tomaram outro caminho de volta para sua pátria, o texto nos quer dizer que é preciso ter coragem de assumir um caminho novo. Trata-se da conversão. Converter-se é mudar de trajetória, de rota. É ter coragem de assumir um novo modo de viver. E isso se dá a partir do encontro com o Senhor. Foi o que aconteceu aos magos. Aquele encontro com o Senhor da vida, reclinado na manjedoura, foi tão decisivo e envolvente que os levou a assumir um caminho novo em defesa da vida ameaçada por Herodes. O caminho de conversão nos faz contrapor-nos aos ameaçadores da vida. É preciso ter coragem de enfrentar aqueles que buscam “matar o menino”. Aqueles que querem tirar a vida a todo custo. Aqueles para quem o dinheiro vale mais do que a vida. Aqueles para quem o crescimento econômico tem prioridade sobre a saúde da população.

Que a Luz resplandecente que brota do presépio nos envolva e nos faça missionários transformados por esse Mistério que nos arrebata e nos faz pessoas renovadas para a missão. Que o Senhor nos dê a graça da coragem de assumirmos caminhos novos de uma verdadeira conversão.

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NÃO TER MEDO DA LUZ

Esta festa, outrora celebrada no dia 06 de janeiro, dia dos Santos Reis (Natal das Igrejas Orientais), quer nos ajudar a entender que Aquele cujo nascimento celebramos no Natal veio para todos os povos. É a Luz que ilumina as nações. Deus não veio salvar um só povo, mas todas as pessoas de todos os tempos e lugares.

O evangelho de Mateus termina com o envio dos discípulos para evangelizar “todas as nações” (Mt 28, 19). E no início ele traz o relato da visita dos Reis Magos, prefigurando exatamente isso. Os doutores de Jerusalém sabiam onde devia nascer o Messias, mas a estrela da fé não os conduzia até lá. Daqui se depreende que não basta conhecer com a cabeça. O coração precisa crer e se inclinar para os sinais dos tempos. Herodes e os doutores não viram a estrela porque estavam ofuscados pelo próprio brilho. Uma vaidade tal que escondia os sinais reveladores de Deus que oculta estas coisas aos sábios e entendidos e as revela aos pequeninos (cf. Mt 11, 25). Junte-se a isso a sede de poder de Herodes, que vê na indicação da profecia, uma ameaça à sua condição de rei e senhor.

É bom ainda observarmos o medo que toma conta de Herodes: manda matar as crianças da redondeza de Belém. O medo de perder o poder, o sucesso, o dinheiro faz-nos matar aqueles pelos quais nos sentimos ameaçados: uma palavra difamatória e arrogante, um gesto ofensivo, uma atitude de indiferença, fuga de responsabilidades, decisões políticas visando a vantagens pessoais com grave prejuízo para os pobres etc.

Além disso, quantas crianças vítimas da fome, dos maus-tratos, da exploração, de abusos sexuais! Investe-se pesado em armamento, em reformas de apartamentos públicos luxuosos que atendem aos interesses mercadológicos e vaidosos de seus moradores, enquanto que a educação, a saúde e o cuidado com os pequenos ficam relegados a segundo plano. Mesmo dentro de nossas comunidades: investimos muito recurso econômico em obras, reformas, objetos litúrgicos caríssimos ou em atividades que são vistosas, e investimos pouco em atividades sociais e missionárias que atendem às reais necessidades das crianças, dos idosos, doentes ou dos pobres e sofredores.

Peçamos ao Senhor que nos ajude a nos comprometermos na construção de um mundo mais humanizado, mais solidário, mais comprometido com os pequeninos do Reino. Todos aqueles que se empenham pela vida cabem dentro do projeto salvador de Deus. Precisamos nos unir mais em parcerias, a partir de nossas próprias comunidades e pastorais, e também com outras entidades que lutam pela vida do ser humano e do planeta, para que a luz brilhe para todos trazendo a esperança que supera o medo, o amor que supera o ódio, o serviço que vence a sede de poder e a ganância de ter sempre mais.

As pessoas de boa vontade encontram Jesus, mas os que vivem em função de seu próprio interesse (Herodes e companhia) têm medo de encontrá-lo: “Quem faz o mal odeia luz e não vem para a luz, para que suas obras não sejam demonstradas como culpáveis. Mas quem pratica a verdade vem para a luz, para que se manifeste que suas obras são feitas em Deus” (Jo 3, 20-21).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

João Batista: uma voz que ilumina

aureliano, 15.12.23

3º Domingo do Advento - B - 13 de dezembro.jpg

3º Domingo do Advento [17 de dezembro de 2023]

[Jo 1,6-8.19-28]

No domingo passado, Marcos mostrava João Batista convidando à conversão. Proclama a chegada do Reino de Deus. Para isso é preciso assumir um caminho novo, pelo batismo de conversão. Já o evangelho de João, neste domingo, mostra João Batista dando testemunho. Este evangelista evita a categoria ‘Reino’; prefere ‘vida eterna’. Deus não se manifesta naquilo que o mundo chama reino no sentido de poder dominador e opressor, mas em Jesus mesmo: “Quem me viu, viu o Pai” (Jo 14,9). Quando Jesus perdoa, acolhe, cura, senta-se à mesa com os pecadores, ensina, liberta, toca os doentes, passa a noite em oração, ensina a rezar etc. ele irrompe o Reinado de Deus.

João Batista se coloca como o que veio dar testemunho. “Ele veio como testemunha, para dar testemunho da luz, para que todos chegassem à fé por meio dele” (Jo 1,7). Ele não é a luz do mundo, mas apenas uma lâmpada provisória, uma voz que clama no deserto. E faz uma provocação: “No meio de vós está quem vós não conheceis” (Jo 1,26).

Essa palavra do Batista nos provoca a pensar em nossa vida cristã. Será que Jesus continua entre nós como um ‘ilustre desconhecido’? Somos convidados a redescobri-lo. É interessante notar que João Batista fala de luz: ele veio dar testemunho da luz. E a luz brilhou nas trevas, mas as trevas não o reconheceram (cf. Jo 1,5). Estamos com o sol brilhando no meio de nós, mas continuamos sem enxergar. Há alguma ‘catarata’ impedindo nossa visão. Precisaríamos identificar, dar nome a esse mal na vista que não nos deixa ‘conhecer’, isto é, entrar em intimidade com aquele que está no meio de nós como luz.

A cobiça de ter sempre mais, de dominar os outros, de ganhar de todos, de ser sempre o primeiro, de ter sucesso a qualquer custo; o ciúme, a inveja, a ganância, a insensibilidade, a fofoca, o preconceito, a indiferença diante de quem sofre, a mentira, a preguiça, o comodismo são males que não nos deixam ‘conhecer’ Aquele que está no meio de nós. Obscurecem nossa vontade e inteligência.

A conseqüência de tudo isso é a ausência da alegria que o Senhor veio nos trazer com sua vinda ao mundo. A Boa Nova traz a alegria por si mesma, pois anuncia a libertação dos oprimidos, a cura dos enfermos, a recuperação da vista aos cegos. É o “Ano da graça do Senhor” (cf Is 61,1; Lc 4,18). Um Deus que nos ama tanto que dá sua vida para que tenhamos mais vida.

Enquanto pensarmos que alegria consiste em passar o réveillon na praia de Copacabana ou de Iracema ou do Futuro, ou num hotel cinco estrelas ou coisa do tipo, estaremos distantes de ‘conhecer’ aquele que está no meio de nós, no pobre que estende a mão, que clama por socorro, que pede um pedaço de pão; de crianças e idosos ameaçados pela fome, pela violência, pelo abandono. Certa ocasião, visitando um Lar de Idosos, perguntei a um senhor: “A família tem vindo visitá-lo?”. Ele respondeu de pronto: “Não. Eles estão bem de vida. Têm carro, apartamento, bom emprego. Estão bem. Não vêm me visitar, não!”. E não disse mais nada. E nem carecia dizê-lo.

Em um dos prefácios do Advento a Igreja reza assim: “Agora e em todos os tempos, ele vem ao nosso encontro, presente em cada pessoa humana, para que o acolhamos na fé e o testemunhemos na caridade, enquanto esperamos a feliz realização de seu Reino”. Uma amostra de que a Igreja sempre acreditou que o Senhor vem ao nosso encontro na pessoa dos pequenos e sofredores. Se não o reconhecermos aí, certamente não seremos reconhecidos quando Ele vier em sua glória: “Cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 24,40)

‘Conhecer’ Aquele que está no meio de nós é decisivo para a celebração de um Natal que faça jus a esse nome. É viver a palavra de Paulo: “Estai alegres! Rezai sem cessar. Dai graças em todas as circunstâncias, porque essa é a vosso respeito a vontade de Deus em Jesus Cristo” (1Ts 5,17-18).

Não se trata de “conhecer” racionalmente. Trata-se de conhecer com o coração. Em outras palavras, ter convicção, acreditar (credere=cor dare) em Jesus, entregar o coração. Posso saber tudo a respeito de Jesus e da Sagrada Escritura. Mas se esse conhecimento não se torna convicção de fé dentro de mim, não me transforma por dentro, não me faz ser melhor, então, do ponto de vista da fé, é um conhecimento vazio, pois não tem incidência sobre meu cotidiano, minhas escolhas e decisões. Esse tipo de conhecimento é o que o Papa Francisco chama de “tentação do gnosticismo: uma série de conhecimentos e raciocínios que supostamente confortam e iluminam, mas, em última instância, a pessoa fica enclausurada na imanência da sua própria razão e dos seus sentimentos” (GE, 36). É medir a elevação espiritual e avanço no caminho da fé pela quantidade de dados e conhecimentos que se consegue acumular. Seu perigo mortal é o afastamento da Encarnação (1Jo 4,2-3), mistério que celebramos no Natal do Senhor. Como se quiséssemos nos salvar pelo conhecimento, pela razão, pela doutrina, descartando a Graça salvadora que se manifestou em Jesus de Nazaré.

O testemunho de João é verdadeiro porque não é dado por algum interesse pessoal, mas pelo cumprimento de uma missão divina. “Eu não sou o Messias. Sou a voz que clama no deserto: aplainai o caminho do Senhor” (cf. Jo 1,19.23). Sua pregação fala alto porque sai da boca de alguém que vive o que fala. Por isso penetra o coração das pessoas e incomoda até mesmo as autoridades do templo.

Ainda mais. João Batista se coloca como servidor de Deus. Ele se define simplesmente como uma “voz”. Algo passageiro, invisível. Conclama à conversão, mas não aparece. Esse espírito de humildade de João Batista que jamais pretendeu assumir um lugar que seus admiradores sugeriam que assumisse, nos ajuda a rever nossa postura diante da fama, do sucesso, das oportunidades de ocuparmos lugar de honra social. Na perspectiva cristã, não pode existir lugar e posto de honra, de poder pelo poder: qualquer cargo ou posto deve ser ocupado na dimensão do serviço.

Nossa preparação para o Natal está levando em conta o testemunho de João Batista? Estamos nos abrindo para ‘conhecer’ melhor Aquele que já está no meio de nós? Nossa vida é um facho de luz a iluminar aqueles que vivem na escuridão? Buscamos a alegria verdadeira brotada do coração de Deus no serviço aos pequeninos? Com que objetivo ocupamos ou buscamos cargos e encargos sociais, políticos e religiosos?

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Senhor, sede a luz dos olhos meus!

aureliano, 18.03.23

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4º Domingo da Quaresma [19 de março de 2023]

[Jo 9,1-41]

João escreve com uma linguagem própria, em relação aos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas): longos diálogos cujas cenas são carregadas de simbolismo, provocando realismo e suspense no leitor. A principal mensagem do relato de hoje é a acolhida da revelação de Jesus enfatizada no contraste entre o “ver” e o “cego”. No texto encontramos 14 vezes a palavra “cego” e 18 referências ao “ver”. Os fariseus julgam ver tudo a partir da Lei e expulsam da sinagoga aquele que passou a ver depois do encontro transformador com Jesus.

Não podemos perder de vista que, desde os inícios do cristianismo, a quaresma é o tempo de preparação para o batismo dos catecúmenos (aqueles que se preparam para o batismo). Por isso os textos bíblicos e litúrgicos são escolhidos de forma a levar aquele que será batizado a entender e a assumir a fé que irá professar e a mergulhar cada vez mais no mistério do Cristo, luz do mundo. Nas Igrejas Orientais o batismo é chamado de “iluminação”.

A liturgia continua convocando o batizado à conversão do coração. É preciso afastar a ideia de que somente se deve preparar e pensar no batismo quem ainda não foi batizado. O batismo é uma semente de fé que precisa cultivada cotidianamente. A realidade batismal deve acompanhar toda a vida do cristão. É uma vida nova. É um jeito novo de viver: “Outrora éreis trevas, mas agora sois luz o Senhor: andai como filhos da luz, pois o fruto da luz consiste em toda bondade, justiça e verdade” (Ef 5, 8-9). Se faltar cultivo, cuidado, zelo a luz se apaga, a fé morre, a graça se esvai. Por isso participamos, rezamos, refletimos a Palavra de Deus, amamos os irmãos, repartimos o pão, trabalhamos a solidariedade entre nós. Sem esse óleo da caridade, a fé não se sustenta.

Aquele cego de nascença representa cada pessoa chamada a fazer caminho de seguimento a Jesus. Nascer cego lembra a realidade de pecado (original) em que toda pessoa nasce. É preciso ser “ungido” no encontro com Jesus e “lavar-se” nas fontes batismais para enxergar o mundo com o olhar de Jesus. “O pior cego é aquele que não quer ver”, proclama o ditado popular. Cegos eram os fariseus e mestres da lei que não queriam enxergar a grande novidade enviada por Deus ao mundo na pessoa de Jesus. Continuavam cegos, embora acreditassem enxergar.

O encontro com Jesus nos abre os olhos e o coração e passamos a enxergar o mundo de modo novo, sem aquela cobiça que faz tanto mal, sem inveja e ciúme. Sem a sede do poder e do dinheiro que provoca tantas desavenças. Passamos a ver o outro não mais como ameaça ao nosso bem-estar ou como objeto de exploração e lucro, mas como irmão que precisa de nós, que pode somar conosco na construção de um mundo melhor.

Enquanto nosso olhar para o mundo for a partir de nossos interesses egoístas, seremos cegos conduzindo cegos. Se, porém, adotarmos a ótica de Jesus, que nos foi dada no batismo, seremos uma possibilidade para construir família, comunidade, sociedade, relações mais humanizadas. Despertaremos nos outros sua capacidade de enxergar melhor. Seremos reflexos da luz de Jesus: “Vós sois a luz do mundo... Brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vendo as vossas boas obras, eles glorifiquem vosso Pai que está nos céus” (Mt 5,14.16).

Outro elemento importante do evangelho de hoje é não atribuir o sofrimento humano a uma punição de Deus pelo próprio pecado ou pelos pecados de antepassados. É uma compreensão por demais medíocre sobre Deus. Essa idéia está muito disseminada em nosso meio. Precisa ser erradicada, pois faz muito mal às pessoas e emperra a transformação da história, pois gera conformismo e indiferença. É uma idéia que nega a liberdade da pessoa, o mistério de Deus e do sofrimento humano. Jesus corta esse mal pela raiz: “Nem ele nem seus pais pecaram, mas é para que nele sejam manifestadas as obras de Deus” (Jo 9, 3).

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OLHANDO A REALIDADE A PARTIR DE JESUS

A Campanha da Fraternidade deste ano nos convida a tomar algumas atitudes diante da vida de pessoas sofridas que passam pela nossa vista, pelos nossos olhos. Que podemos fazer diante do flagelo da fome que ameaça a vida de tantas pessoas?

“O Texto Base da CF 2023 indica algumas Propostas de AÇÃO PESSOAL, indicando o que cada um pode fazer diante do drama da fome: partilhar algo com aque­les que mais necessitam; jejuar e doar a quem precisa; questionar o próprio estilo de vida e de alimentação; ser solidário(a) com os que passam fome; colaborar nas cam­panhas de arrecadação de alimentos; abolir o desperdício de alimentos e buscar reaproveitamento saudável; realizar uma doação significativa para a Coleta Nacional da Solida­riedade; participar dos Conselhos de Direitos (humanos, da criança e do adolescente, da juventude, da pessoa idosa, de saúde...); praticar o voluntariado; envolver-se nos trabalhos que já existem: Sociedade São Vicente de Paulo (SSVP), Pas­torais Sociais, Caritas etc.; participar das discussões sociais de políticas públicas; envolver-se na política com espírito crítico e nas iniciativas públicas (governamentais ou não) de combate à fome e pobreza em seu município (TB 166)” (Livrinho do MOBON CF/2023, p. 28).

Para refletir um pouco mais, concluo com esse belo poema de Cora Carolina:

"Não sei se a vida é curta ou longa demais para nós,

mas, sei que nada do que vivemos tem sentido,

se não tocamos o coração das pessoas” .

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

Uma vida que brilhe e clareie

aureliano, 04.02.23

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5º Domingo do Tempo Comum [05 de fevereiro de 2023]

[Mt 5,13-16]

Hoje continuamos a rezar, na liturgia, o Sermão da Montanha. Jesus, o novo Moisés, quer mostrar a novidade do seu ensinamento em relação ao antigo. Com o projeto do Reino dos Céus (ou de Deus) anunciado por Jesus, Mateus procura mostrar às comunidades cristãs oriundas do judaísmo que precisavam assumir uma prática de vida nova, um novo modo de viver (cf. Mt 5,1-12: Bem-aventuranças) uma vez que a postura das autoridades judaicas de então não correspondia mais ao sonho de Deus para a humanidade.

Na confusão de propostas religiosas, de pregadores de todo canto, o discípulo de Jesus deveria assumir uma postura nova e decisiva: ser sal e ser luz. Em outras palavras: devia dar novo sabor e nova cor à vida das pessoas, ao mundo, a partir de uma vida de intimidade com Jesus. Participando da vida de Jesus, “Sol nascente que nos veio visitar”, o discípulo uma vez iluminado - tal qual a lua que recebe do sol a luz para iluminar a noite - ilumina a vida em torno de si, ilumina a vida do irmão, percebe e solidariza-se com sua necessidade: repartirá o pão com o faminto, hospedará o pobre sem destino (migrante), vestirá o nu, jamais se esconderá de seu irmão pobre, enfrentará o “dedo que acusa e a conversa maligna” (cf. Is 58, 7-10).

Um aspecto interessante de notarmos no evangelho de hoje é que Jesus não conclama seus discípulos a serem sal e luz porque eles são da Igreja nem porque crêem num conjunto de normas e doutrinas nem mesmo por serem homens de oração e fiéis ao culto mas, em primeiro lugar, porque são pobres, são mansos, pacíficos, são misericordiosos, são puros de coração. As bem-aventuranças foram proclamadas primeiramente para os que crêem, seus discípulos, que são pobres e mansos, que têm forme e sede justiça, que são misericordiosos e promotores da paz. Quem vive as bem-aventuranças é sal, é luz, é fermento.

Os cristãos são chamados a transformar um mundo sem sal, sem sabor (sabedoria), sem a luz da verdade, da justiça e da fidelidade, em Reino de Deus. Isso só será possível se o discípulo de Jesus procurar configurar sua vida à de Cristo. Se procurar viver os valores do Evangelho, se buscar reproduzir as atitudes de Jesus, sobretudo para com os pequeninos, os indefesos, os pecadores, os doentes, os sofredores.

“Se fizeres isto (repartindo o pão com o faminto, recolhendo em casa os pobres desabrigados, vestindo os que estão nus), a tua luz romperá como aurora. Então tua luz brilhará nas trevas e tua escuridão será iluminada” (cf. Is 58,7-10). É a participação na glória de Deus. Glória que se manifesta e se exercita na caridade para com os pobres. Santo Irineu dizia: “A Gloria de Deus é o homem vivo; e a vida do homem é a visão de Deus”.

Há um princípio latino que diz: Ubi charitas, ibi Deus (Onde há amor, aí está Deus). Por conseguinte, o contrário é também verdadeiro: onde não há caridade não está Deus. E onde Deus não se encontra, há trevas. Pois “Deus é luz e nele não treva alguma” (1Jo 1,5). E sem luz não se caminha seguro, corre-se sempre o risco de se cair no precipício ou de atropelar os outros.

O espírito mundano nos leva à competição, a abocanhar tudo, a fechar os olhos para a necessidade do miserável, a gastar tudo ou a acumular sem repartir, a pagar o mal com o mal, a valer-nos das oportunidades para tirar vantagens em prejuízo dos outros, a extorquir os desamparados e indefesos, a destruir o meio ambiente etc.

O espírito de Jesus nos convida a assumir uma postura de luz que brota do seu coração e chega aos pobrezinhos através de nós; uma postura de sal que dá um novo sabor à vida de tanta gente. Pois a sabedoria da vida, o prazer de viver não está no acúmulo de bens, nem em curtir todo o prazer do mundo, nem no luxo, nem na ostentação, mas em ocupar-se com aqueles que são mais fracos, impotentes, desprezados, invisíveis, que não são levados em conta na sociedade. A propriedade de conservar que o sal possui quer dizer que a prática da caridade em favor do irmão, sobretudo do indefeso, ajuda a conservar em nós a Aliança que o Senhor fez conosco em seu Filho Jesus.

Diante de milhões de pessoas que passam fome no mundo, que são vítimas da violência mordaz, da desigualdade social que se aprofunda ainda mais, de uma indiferença que cresce assustadoramente nos corações em relação aos pobres e sofredores, nossa consciência se abala, estremece? Os países tradicionalmente cristãos são detentores de muitas riquezas e vida próspera. Será que nós, cristãos, estamos apoiando um sistema injusto e opressor do pobre e do fraco? Será que, na condição de cristãos, estamos contribuindo para o aumento da dor e do sofrimento dos pequenos e sofredores, caminhando na contramão de Jesus? A situação é séria e merece ser pensada, refletida, rezada.

De nossa vida ficará aquilo que se tiver tornado amor: “No entardecer da vida seremos julgados sobre o amor” (S. João da Cruz). Se tiver ficado amor na vida que tivermos vivido; se tivermos deixado rastros de vida, de alegria, de generosidade, de justiça e de fidelidade não entraremos nas trevas (noite) da morte, pois a Luz amorosa mantida no coração e na vida não se apagará jamais. O resto irá para o túmulo. É preciso, pois, que nos convertamos a cada dia em amor. Então seremos sal, seremos luz!

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Evangelho, a boa notícia de Deus

aureliano, 20.01.23

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3º Domingo do Tempo Comum [22 de janeiro de 2023]

[Mt 4,12-23]

O primeiro escritor que recolheu a atuação e a mensagem de Jesus nas palavras “boa notícia de Deus” foi Mateus. É o Evangelho (euanggelion), a boa notícia que deve ser lida em meio a essa sociedade indiferente e desacreditada, mostrando que Jesus veio trazer algo bom, novo. Significa que não estamos perdidos, mas que temos Alguém a quem podemos agradecer e que é o “Garante” do sentido de nossa vida.

No Evangelho de Jesus nos encontramos com um Deus que, apesar de nossas fraquezas e pecados, nos dá força para defender nossa liberdade sem nos tornarmos escravos dos ídolos. Esse Deus desperta nossa responsabilidade para com os outros, mesmo que não façamos grandes coisas podemos colaborar com uma vida mais digna e alegre para os necessitados e indefesos.

Certamente, cada um de nós tem que decidir como quer viver e como quer morrer. Cada um há de escutar sua própria verdade e assumir pessoalmente sua vida. Crer em Deus não é a mesma coisa que não crer. Numa expressão brilhante do Papa Francisco: “Não se pode perseverar numa evangelização cheia de ardor, se não se está convencido, por experiência própria, que não é a mesma coisa ter conhecido Jesus ou não O conhecer, não é a mesma coisa caminhar com Ele ou caminhar tateando, não é a mesma coisa poder escutá-Lo ou ignorar a sua Palavra, não é a mesma coisa poder contemplá-Lo, adorá-Lo, descansar n’Ele ou não o poder fazer” (EG, n. 266).

Ou ainda, para encher o coração de entusiasmo, nessa expressão bonita dos Bispos Latinoamericanos: “Conhecer Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber: tê-lo encontrado foi o melhor que ocorreu em nossas vidas, e fazê-lo conhecido com nossa palavra e obras é nossa alegria” (Documento de Aparecida, n. 29).  

A pessoa de fé sente-se bem pelo fato de andar por esse caminho que a faz sentir-se acolhida, perdoada e amada pelo Deus revelado em Jesus. Encontra sentido para sua vida e para sua morte.

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ILUMINADOS PARA ILUMINAR

O tema da luz é marcante na liturgia da Palavra de hoje. A luz é uma necessidade básica do ser humano. Aliás, a expressão que se utiliza para se referir ao nascimento de uma pessoa é “dar à luz”. E quando alguém morre costuma-se dizer: “apagou”. Esta expressão, porém, a partir da fé cristã, é sem sentido. Pois a pessoa que morre, termina sua peregrinação neste mundo e entra na Luz de Deus. Por isso a Igreja reza: “Lux aeterna luceat eis”: “Brilhe para eles a vossa luz”.

O salmista canta na liturgia: “O Senhor é minha luz e salvação” (Sl 26). Há poucos dias, celebrando o Natal do Senhor, proclamamos: “Veio ao mundo a luz verdadeira que ilumina todo homem” (Jo 1,9). Deste modo, o ser humano é chamado a viver sempre na luz. As trevas, símbolo do pecado, se opõem à luz e tentam, embora em vão, lhe fazer sombra. Quando o dia amanhece, vê-se que o sol vai dissipando as trevas da noite. Assim, Jesus Ressuscitado, brilha em meio às trevas, enchendo de luz o coração do ser humano: “A noite escura se afasta, as trevas fogem da luz. A estrela d’alva fulgura, sinal de Cristo Jesus.” “Ao clarão desta luz que renasce, fuja a treva e se apague a ilusão. A discórdia não trema nos lábios, a maldade não turve a razão” (Hinos de Laudes).

A entrada de Deus em nossa história humana na pessoa de Jesus de Nazaré trouxe uma grande luz de sentido, de novo horizonte para a vida de todo aquele que nele crê. “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz (...) Fizeste crescer a alegria, e aumentaste a felicidade” (Is 9,1-2). A felicidade do ser humano está intimamente associada à vida na luz: “Quem faz o mal odeia a luz e não vem para a luz, para que suas obras não sejam demonstradas como culpáveis. Mas quem pratica a verdade vem para a luz, para que se manifeste que suas obras são feitas em Deus” (Jo 3,20-21). Quem vive na luz não experimenta o medo doentio. Confia, espera, entrega-se. Experimenta a liberdade dos filhos de Deus (cf. Gl 5,1).

É muito importante notarmos que Jesus inicie seu ministério anunciando o Reino de Deus e convidando à conversão: “Convertei-vos porque o Reino de Deus está próximo” (Mt 4,17). Sua palavra e suas ações demonstram sua presença de luz. Veio para transmitir a luz que faz ver o pecado presente no coração humano e na sociedade a fim de que, pela conversão, se supere o mal que destrói a vida na face da terra.

Passar das trevas à luz é fazer um caminho de conversão para se entrar no Reino de Deus. Converter-se é mudar de vida, é inverter a escala de valores que o mundo propõe para assumir os valores do Reino instaurado por Jesus.

Há grande número de cristãos que, à semelhança de alguns mestres do tempo de Jesus, julgam que não precisam de conversão. Pensam que basta fazer uma “rezazinha”, acender uma vela, dar uma esmola para desencargo de consciência ou carregar a bíblia debaixo do braço e dizer que “aceitou Jesus” etc. Não! A conversão é um caminho cotidiano. O ser humano é um misto de luz e trevas. Há muitas realidades de nossa vida pessoal e da vida social que precisam ser evangelizadas.

No passado pensava-se – e ainda esta mentalidade persiste – que evangelização consistia em frequentar a catequese para os sacramentos de iniciação cristã, e pronto. Mas hoje, graças a Deus, a Igreja percebe que é preciso trabalhar a evangelização permanentemente. É preciso voltar ao evangelho. O Papa Francisco tem insistido que não adianta ir à Igreja, comungar, rezar e não mudar de vida. “Você pode ir à missa aos domingos, mas se não tem coração solidário, se não sabe o que acontece na sua cidade, (a fé) ou está doente ou está morta. (...) A fé nos faz próximos, aproxima-nos da vida dos outros. A fé desperta o nosso compromisso com os outros, desperta nossa solidariedade” (15/07/16). O importante na vida do cristão é insistir no caminho de conformar a própria vida à vida de Jesus. Tentarmos, cotidianamente, reproduzir em nossa vida os gestos de Jesus.

Todas as vezes que perdoamos, que nos solidarizamos, que evitamos dizer uma palavra que destrói e machuca, que saímos de nossa casa para socorrer alguém, que nos esforçamos para ser fiéis e respeitosos para com nossa família, que trabalhamos com honestidade, que manifestamos nossa opinião reta e verdadeira diante de atitudes desonestas e mentirosas; todas as vezes que nos organizamos para trabalhar em favor da vida, contra a corrupção e a maldade, que aliviamos o sofrimento de alguém, que colaboramos para que as pessoas sofridas e angustiadas vivam mais alegres, estamos espargindo um pouco da Luz que brota do coração do Pai, pois estamos reproduzindo os gestos de Jesus. Isto é caminho de conversão.

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O REINADO DE DEUS

O anúncio do Reino de Deus (ou dos Céus, conforme Mateus) foi o centro da vida de Jesus. Todas as suas palavras e ações foram em vista de estabelecer o Reinado de Deus no mundo.

João Batista também pregava a conversão em vista da proximidade do Reino. Porém o Reino anunciado por Jesus tem um sentido novo. É um Reino que se realiza no amor, na misericórdia, no acolhimento, na busca da justiça e da verdade. Se o reino das trevas favorece os poderosos, aumentando-lhes os privilégios, o Reino de Deus proclamado por Jesus se dá na partilha dos bens da criação, na libertação dos oprimidos, resgatando e levantando a pessoa para a dignidade de filho de Deus.

Esse Reino se concretiza pelo caminho da conversão. Sem mudar a ”maneira de pensar” (cf. Rm 12, 2), não se constrói o Reinado de Deus. A transformação social e comunitária passa necessariamente pela conversão pessoal. O Documento de Aparecida fala da necessidade da conversão pessoal para a transformação da paróquia e da comunidade. E a conversão se faz quando se olha para Jesus, se convive com ele, se deixa modelar por ele, por seu amor misericordioso.

Para a construção do Reino, o Pai conta com colaboradores. Por isso Jesus os chama para “estar com ele e enviá-los em missão” (cf Mc 3, 14). O processo de conversão no discipulado nos leva a colocar Jesus como o centro de nossa vida. Nossas decisões são movidas e iluminadas por ele, pela postura dele, pelas palavras dele. Aquilo que nos impede de ser melhores precisa ser abandonado. É assim que se vai consolidando o Reinado de Deus na história. Os discípulos que ele chama serão formados em sua escola, a comunidade. É na comunidade que vamos aprendendo a ser mais de Jesus: pelo amor fraterno, pela escuta atenta à Palavra de Deus, pela Eucaristia celebrada, pelo engajamento nas pastorais. Enfim, cada um deve encontrar seu lugar na comunidade servindo a Deus nos irmãos mais necessitados.

“Eis que estou à porta e bato”. Como reajo ao convite do Senhor? Estou disposto a trabalhar pela extensão o Reino de Deus? Há muita gente esperando pela minha resposta generosa ao chamado de Deus. Preciso dizer: “Eis-me aqui, envia-me”.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Santos Reis: um encontro que transforma

aureliano, 06.01.23

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Epifania do Senhor [08 de janeiro de 2023]

[Mt 2,1-12]

A solenidade que celebramos hoje é uma festa popularmente chamada de “Santos Reis”. Caiu bem no imaginário popular a cena pintada por Mateus sobre a visita que os Magos fizeram a Jesus por ocasião do seu nascimento. O quadro é deveras bonito. Mas é bom lançarmos um olhar com mais profundidade, pois aí se esconde um grande Mistério.

Primeiro não podemos ler a cena do evangelho de hoje como um relato jornalístico. Os fatos certamente não se deram historicamente tais como estão narrados. A leitura deve ser feita numa ótica de fatos interpretados teologicamente. Mateus pretende dar uma catequese para a comunidade. Vamos então tomar os pontos essenciais e tentar descobrir o que Deus nos está revelando de novo nesta Palavra da festa de hoje.

O fato de relatar Belém como local do nascimento de Jesus parece mostrar que Mateus quer convencer alguns que não podiam acreditar que o Messias pudesse nascer em Nazaré pelo fato de as Escrituras prometerem que sairia de Belém, a cidade de Davi. Belém é “casa do pão”. O Pão da vida que veio alimentar a humanidade dá-se em alimento num coxo onde os animais comiam. O alimento, o pão que ali se encontra, veio para saciar a fome da humanidade.

Os magos não eram necessariamente adivinhos, mas estudiosos dos astros. Dizem os entendidos da cultura e história daquela época que, por ocasião do nascimento de pessoas importantes, uma estrela avisava. Mateus vale-se da crença para mostrar que Alguém nasceu e foi visto através de uma estrela.

A visita e adoração dos magos contrapõem-se ao orgulho de Herodes e de todo o Israel que se recusou a dobrar a cerviz à Palavra que se fez carne no seio de Maria. Considerava inadmissível que Deus pudesse nascer tão pobre e simples. Ademais se sentia ameaçado pelo “rei dos judeus” que acabara de nascer. Uma vez que aqueles para quem ele veio não o reconheceram (cf. Jo 1,11), manifesta-se aos pagãos, representados pelos magos. Veio para todos. É o universalismo da salvação de Deus manifestado em Jesus de Nazaré.

A estrela de que fala o texto simboliza os sinais pelos quais Deus nos fala. Ele se manifesta de muitas formas. É preciso estar com o “coração no alto”. Esse olhar para cima, para o céu quer indicar a vida de oração, de intimidade com o Pai que nos ajuda a perceber os caminhos pelos quais devemos caminhar. Herodes e os habitantes de Jerusalém, levando uma vida perversa e ambiciosa, criaram em torno de si uma nuvem tão espessa que impediu o brilho da estrela sobre a cidade. Somente depois que saíram da cidade é que a estrela foi novamente vista pelos magos. O que lhes causou grande alegria. A alegria da luz de Deus que ilumina e fortalece o coração do justo.

Quando o relato diz que os magos tomaram outro caminho de volta para sua pátria, o texto nos quer dizer que é preciso ter coragem de assumir um caminho novo. Trata-se da conversão. Converter-se é mudar de trajetória, de rota. É ter coragem de assumir um novo modo de viver. E isso se dá a partir do encontro com o Senhor. Foi o que aconteceu aos magos. Aquele encontro com o Senhor da vida, reclinado na manjedoura foi tão decisivo e envolvente que os levou a assumir um caminho novo em defesa da vida ameaçada por Herodes. O caminho de conversão nos faz contrapor-nos aos ameaçadores da vida. É preciso ter coragem de enfrentar aqueles que buscam “matar o menino”. Aqueles que querem tirar a vida a todo custo. Aqueles para quem o dinheiro vale mais do que a vida. Aqueles para quem o crescimento econômico tem prioridade sobre a saúde da população.

Talvez fosse oportuno perguntar-nos: minha postura é de defesa de Jesus que sofre e morre nos acometidos pela covid-19 ou por Herodes cujo espírito de morte está presente em várias autoridades de nosso País? Estou com Herodes ou estou com Jesus?

Que a Luz resplandecente que brota do presépio nos envolva e nos faça missionários transformados por esse Mistério que nos arrebata e nos faz pessoas renovadas para a missão.

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NÃO TER MEDO DA LUZ

Esta festa, outrora celebrada no dia 06 de janeiro, dia dos Santos Reis (Natal das Igrejas Orientais), quer nos ajudar a entender que Aquele cujo nascimento celebramos no Natal veio para todos os povos. É a Luz que ilumina as nações. Deus não veio salvar um só povo, mas todas as pessoas de todos os tempos e lugares.

O evangelho de Mateus termina com o envio dos discípulos para evangelizar “todas as nações” (Mt 28, 19). E no início ele traz o relato da visita dos Reis Magos, prefigurando exatamente isso. Os doutores de Jerusalém sabiam onde devia nascer o Messias, mas a estrela da fé não os conduzia até lá. Daqui se depreende que não basta conhecer com a cabeça. O coração precisa crer e se inclinar para os sinais dos tempos. Herodes e os doutores não viram a estrela porque estavam ofuscados pelo próprio brilho. Uma vaidade tal que escondia os sinais reveladores de Deus que oculta estas coisas aos sábios e entendidos e as revela aos pequeninos (cf. Mt 11, 25). Junte-se a isso a sede de poder de Herodes, que vê na indicação da profecia, uma ameaça à sua condição de rei e senhor.

É bom ainda observarmos o medo que toma conta de Herodes: manda matar as crianças da redondeza de Belém. O medo de perder o poder faz-nos matar aqueles pelos quais nos sentimos ameaçados: uma palavra difamatória e arrogante, um gesto ofensivo, uma atitude de indiferença, fuga de responsabilidades, decisões políticas visando a vantagens pessoais etc.

Além disso, quantas crianças vítimas da fome, dos maus-tratos, da exploração. Investe-se pesado em armamento, em reformas de apartamentos públicos luxuosos que atendem aos interesses mercadológicos e vaidosos de seus moradores, enquanto que a educação, a saúde e o cuidado com os pequenos ficam relegados a segundo plano. Mesmo dentro de nossas comunidades: investimos muito recurso econômico em obras, reformas, objetos litúrgicos caríssimos ou em atividades que são vistosas, e investimos pouco em atividades sociais e missionárias que atendem às reais necessidades das crianças, dos idosos ou dos pobres e sofredores.

Peçamos ao Senhor que nos ajude a nos comprometermos na construção de um mundo mais humanizado, mais solidário, mais comprometido com os pequeninos do Reino. Todos aqueles que se empenham pela vida cabem dentro do projeto salvador de Deus. Precisamos nos unir mais em parcerias, a partir de nossas próprias comunidades e pastorais, e também com outras entidades que lutam pela vida do ser humano e do planeta, para que a luz brilhe para todos trazendo a esperança que supera o medo, o amor que supera o ódio, o serviço que vence a sede de poder e a ganância de ter sempre mais.

As pessoas de boa vontade encontram Jesus, mas os que vivem em função de seu próprio interesse (Herodes e companhia) têm medo de encontrá-lo: “Quem faz o mal odeia luz e não vem para a luz, para que suas obras não sejam demonstradas como culpáveis. Mas quem pratica a verdade vem para a luz, para que se manifeste que suas obras são feitas em Deus” (Jo 3, 20-21).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Acender nossa luz na cruz de Jesus

aureliano, 12.08.22

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20º Domingo do Tempo Comum [14 de agosto de 2022]

[Lc 12,49-53]

No evangelho do domingo passado acompanhamos Jesus que nos falava da importância de cultivar e guardar o tesouro mais precioso que é a relação de intimidade com o Senhor: “Onde está o teu tesouro, aí estará o teu coração”. Para isto é preciso “manter a lâmpada acesa e os rins cingidos”: estar desperto. E o destino dos bens deve ser sempre a partilha generosa. Jesus insiste que o discípulo deve viver desapegado dos bens e das pessoas, possuindo como único tesouro o próprio Jesus, Princípio e Fim de sua vida.

No evangelho da liturgia deste domingo notamos que Jesus continua insistindo na opção decisiva e comprometida por ele. Quero, brevemente, tentar ajudar a compreender algumas palavras de Jesus neste evangelho. “Vim trazer fogo...”. “Não vim trazer a paz, mas a divisão...”. Como entender este fogo que Jesus veio trazer? E esta divisão/espada de que fala Jesus?

Fogo: um dos quatro elementos clássicos da natureza. Mas Jesus não se refere, naturalmente, ao fogo material. Aqui é uma expressão significativa: uma imagem usada por Jesus para falar do amor.

Muito embora a palavra amor esteja passando por uma banalização muito grande, contudo, é preciso ajudar a voltar ao que ela realmente significa.

As Escrituras dizem que Deus é Amor (1Jo 4,8). O Espírito Santo é o amor do Pai e do Filho. Ainda mais: “Deus amou tanto o mundo que entregou seu Filho único...” (Jo 3,16).

Além de amor, o fogo lembra também a Luz. Deus é luz e nele não há sombra alguma (cf. 1Jo 1,5). “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8,12; 12,46) proclamou Jesus. Também fogo lembra purificação, destruição, transformação etc.

Depois destes breves fundamentos podemos entender de que fogo trata Jesus. Parece que ele deseja ardentemente que sejamos um reflexo de sua luz, de seu amor. Mas, curioso e desconcertante: nossa luzinha é acesa na sua Cruz! Isto por vezes apavora e faz tremer. Faz também fugir, reinterpretar, desconversar. Mas o contexto deste relato do evangelho nos remete, inconteste, a essa interpretação. “Devo receber um batismo, e como me angustio até que esteja consumado!” (Mc 10,38). E quando Jesus fala da divisão familiar que veio trazer, mostra claramente que a opção decisiva por ele, tem consequências de cruz.

Paz, na Sagrada Escritura, é Shalom, ou seja, um modo de vida em abundância para todos. Não significa aquele sentimento desligado da vida e das pessoas, ausência de briga ou de guerra. É um modo de ser que nos leva à abertura a Deus e aos irmãos. É a vivência da justiça do Reino, pois não há paz sem justiça. E por vezes é necessário ir à “guerra”, ou seja, lutar para que as pessoas não vivam uma paz encoberta pela maldade e repressão de poderosos.

Deste modo podemos concluir que o discípulo de Jesus deve viver de tal maneira que sua vida espalhe aquele fogo que arde no Coração de Jesus: o amor. Deve passar pelo batismo pelo qual o Mestre passou: a cruz, a incompreensão, a rejeição. E ainda precisa ter a coragem de romper com relações familiares que o impedem de levar adiante uma vida coerente com o ser cristão.

O que vale em tudo isto é a busca de uma vida coerente com a fé professada. Todo cristão que opta pela verdade, pela justiça, pela fidelidade, pela paz, passará pelo “batismo” pelo qual Jesus passou.

*Neste domingo em que comemoramos o Dia dos Pais, queremos lembrar essa figura representativa do Pai do céu. Oxalá os pais assumissem, de verdade, sua missão para além da manutenção de casa e comida. Pai é aquele que educa, que forma, que se faz presente, que ampara, que dá carinho, que oferece segurança, que aponta e ajuda a trilhar caminhos de vida. Penso que nem todo homem, embora casado, tenha vocação para ser pai. Não adianta ter filhos, mas não ser referência de vida, de honestidade, de cuidado, de paternidade responsável. Parabéns papais! Dêem uma olhadinha no modo como São José assumiu a paternidade para com seu filho Jesus: presença, cuidados, zelo, dedicação, exemplo de homem justo e trabalhador, aberto a Deus, humilde, comprometido, perseverante.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Uma grande alegria: Deus está no meio de nós

aureliano, 24.12.21

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Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo [25 de dezembro de 2021]

[Lc 2,1-14]

Durante quatro semanas viemos nos preparando para a celebração do Natal. A cada domingo uma vela era acesa na Coroa do Advento. O acender progressivo das velas – uma por semana – quis significar a Luz que brilhou progressivamente nas trevas. A expectativa dessa Luz vem de longa data. No século VIII a. C., o Primeiro Isaías já a anunciava: “O povo que andava na escuridão viu uma grande luz; para os que habitavam as sombras da morte uma luz resplandeceu” (Is 9,10).

As trevas são o egoísmo que insiste em impedir a entrada da Luz de Deus na história, no coração humano. A força da luz, porém, é maior do que as trevas do pecado. Embora este insista em prevalecer através da ganância, do consumismo, da competição desleal, da exploração, do desrespeito, da corrupção, do preconceito, da indiferença. Porém, “A graça de Deus se manifestou trazendo salvação para todos os homens” (Tt 2,11). Para que a luz vença as trevas é preciso, porém, que o ser humano abandone a “impiedade e as paixões mundanas” vivendo “neste mundo com equilíbrio, justiça e piedade” (Tt 2,12).

A sociedade pós-moderna e neoliberal sufoca o sentido do Natal. E os cristãos vão perdendo de vista seu sentido verdadeiro. As compras de presentes e mais presentes, despesas inúteis, gastos e festas com verniz de generosidade, bondade e emoção. Ações de momento que não trazem a libertação verdadeira do ser humano. Pelo contrário, costuma aprisioná-lo ainda mais nas malhas de uma ideologia assistencialista, por vezes marcada por um espiritualismo alienante ou uma fé emocionalista que proclama: “Deus mandou isso para você!”. “Tenha fé que você vai conseguir!”. “Levante a mão quem aceita a salvação”. “Tive uma revelação: você está sendo curado nesse momento”. Fica parecendo que as dificuldades da vida se resolvem como num passe de mágica! Vamos sair dessa fé infantil e artificial e viver uma fé mais madura, mais consistente! Chega de enganar as pessoas ou de iludir-se a si mesmo! Há programas religiosos de rádio e televisão que se dizem cristãos, mas que não têm nada a ver com o Evangelho, com Jesus de Nazaré! Insistem em mensagens que alimentam uma fé infantil, uma fé com capa cristã, mas com miolo pagão.

O Jesus que celebramos neste Natal é gente de verdade. Um menino pobre, filho de um casal de trabalhadores anônimos da Galiléia. Experimenta a condição dos excluídos: nasce entre os pastores – pois não havia lugar na hospedaria da cidade – excluídos e odiados pelos citadinos porque o rebanho era ameaça às lavouras dos proprietários de terra residentes na cidade. Não veio justificar a exclusão e a miséria que atingia (e atinge ainda hoje) a maior parte da humanidade. Nem muito menos endossar o assassinato de pequenos indefesos. – Isso foi atitude de Herodes, perseguidor de Jesus por medo de perder o poder –. Jesus, pelo contrário, veio para anunciar que o Reino de Deus é partilha, é respeito, é acolhida das diferenças, é vida em abundância para todos. E que todos nós que nos dizemos cristãos, só o seremos de fato quando nos comprometermos com o Evangelho que ele veio anunciar.

O “Filho de Davi” nasce entre os pastores na cidade de Belém, a cidade de Davi. Este rei, quando menino, era pastor. Foi consagrado para ser o pastor de Israel. Porém, assediado pelo poder, assumiu uma postura de rei poderoso. E perpetrou muitos atos de maldade e de infidelidade, muito embora tenha pedido perdão. Porém, aquele que devia ser a salvação de Israel descenderia de Davi. Ao nascer, o faz em meio aos pastores para lembrar que veio para ser pastor do rebanho, e não para se servir das ovelhas (cf. Ez 34). – Quando olhamos para os dirigentes e legisladores de nosso País (e quase todos se dizem cristãos!), que metem a mão no dinheiro público para fazerem lobby (influência) junto ao grande capital e aos eleitores, somos acometidos por uma grande decepção e indignação: as ovelhas estão sendo devoradas e/ou abandonadas pelos lobos travestidos de pastores!

O sinal para identificar o menino é também interessante: “Um recém-nascido envolto em faixas e deitado numa manjedoura”. É o sinal da mudança de valores: aqueles que esperavam um Messias poderoso não poderão encontrá-lo. A salvação brota do meio dos marginalizados, dos simples, dos pequeninos. Os sinais para encontrá-lo não são luzes brilhantes, nem milagres estupendos, nem roupas de grife. Mas “um recém-nascido envolto em faixas”. Ademais os primeiros a visitá-lo não são os dignitários da cidade, mas os simples pastores. Sua presença como primeiras testemunhas do nascimento do Salvador evidencia a gratuidade e simplicidade de Deus, que dispensa aparatos oficiais.

Eis, pois, a grande Luz que nos enche de alegria. Experimentar e contemplar a salvação de Deus, em Jesus, deve ser motivo de profunda alegria para todos nós: “Eis que eu vos anuncio uma grande alegria”. Renunciando às trevas do egoísmo, colocamo-nos na grande Luz de Deus. Nesse encontro amoroso e gratuito com o Senhor, somos fortalecidos para continuar trabalhando em favor dos excluídos, dissipando as trevas com a luz que recebemos de Deus na participação da vida divina que nos mereceu Jesus pela sua morte e ressurreição. Então não precisamos temer as trevas, pois em Jesus recebemos “graça sobre graça” (Jo 1,16).

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POR QUE 25 DE DEZEMBRO?

Muita gente pensa que o dia 25 de dezembro é a data do aniversário de Jesus. Porém é preciso esclarecer que não se tem nenhum registro do dia nem do mês em que Jesus nasceu. O que se sabe com bastante certeza é que terá nascido entre os anos 04 e 06 antes da Era Cristã.

E como se estabeleceu o dia 25 de dezembro para celebrar o Natal do Senhor? É que em Roma, nesta data, se celebrava o “Nascimento do Sol Invicto”. Ou seja, na noite mais longa e no dia mais curto, devido à distância entre o sol e a linha do equador, acreditava-se que o sol “renascia”. Era o solstício do inverno, ou seja, a volta do sol que marcava o fim do inverno e início do verão. Como o sol representava uma divindade pagã, 25 de dezembro era dia de festa religiosa. Ora, a Igreja, com a sabedoria que lhe é própria, valeu-se deste fato para introduzir os cristãos na celebração daquele que é o Sol que não tem ocaso, a Luz definitiva da vida do fiel, o “Sol Invicto”. Assim, os pagãos que se convertiam à fé eram introduzidos na celebração de Jesus Cristo, a “Sol nascente que brilha nas trevas” (cf. Lc 1, 78-79). A festa pagã foi cristianizada.

Se na Igreja Romana se celebra o Natal no dia 25 de dezembro pelas razões aludidas, a Igreja Oriental celebra esta mesma solenidade no dia 06 de janeiro, denominando-a Epifania, Manifestação do Senhor. Neste dia os cristãos de rito oriental celebram numa mesma liturgia o nascimento do Salvador e a visita dos Reis Magos (Dia de Reis).

O que tudo isso importa para nós? Que a liturgia da Igreja é sempre uma busca de inculturar a fé na realidade que vivemos. Símbolos e celebrações pagãs foram cristianizados e introduzidos na liturgia cristã para que o ensinamento e a vida de Jesus encontrem ressonância dentro de nós e nos ajudem a transparecer na vida cotidiana as realidades que celebramos na liturgia.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Quem vive na luz não teme as trevas

aureliano, 13.03.21

4º Domingo da Quaresma [14 de março de 2021]

 [Jo 3,14-21]

O contexto do evangelho de hoje é a conversa de Jesus com Nicodemos, um homem estranho, embora notável entre os judeus, que entra em cena de repente, e desaparece de repente. A resposta de Jesus a ele e o contexto da liturgia quaresmal – preparação para o batismo e vida batismal – nos ajuda a entender o que significa o batismo: “Ninguém, a não ser que nasça da água e do Espírito, pode entrar no Reino de Deus” (Jo 3,5).

É interessante notar, em primeiro lugar, o fato de Nicodemos ter procurado Jesus “de noite”.  Nicodemos representa o discípulo que começa a sair das trevas para entrar na luz, por isso procura Jesus “de noite”, isto é, nas trevas dos conflitos e desafios da vida. E Nicodemos realiza o encontro desejado. Por isso não entra mais em cena, pois encontrou aquele a quem buscava. E Jesus continua seu discurso mostrando que é preciso deixar as trevas e se aproximar da luz.

Crer num homem crucificado, abandonado, considerado maldito por Deus não é algo simples. Nós estamos acostumados com cruzes por todo canto. Inclusive nas salas de órgãos públicos brasileiros vemos o crucificado presenciando cada atitude que traz pavor e vergonha aos cristãos e não-cristãos honestos e sérios. Porém raramente paramos para refletir sobre o significado deste objeto sagrado. Referindo-se à cruz, diz o Papa Francisco: “A cruz não é um ornamento, que nós devemos meter sempre nas igrejas sobre o altar. Não é um símbolo que nos distingue dos outros. A Cruz é o mistério, o mistério do amor de Deus, que se humilha a si próprio, faz-se um nada, faz-se pecado. O perdão que nos dá Deus são as chagas do seu Filho na Cruz, erguido na Cruz. Que Ele nos atraia para Si e que nós nos deixemos curar”.

“... Assim, é necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna” (Jo 3, 15). Aquele que veio “como Luz” está crucificado! Suas mãos não podem mais tocar os leprosos. Seus braços não podem abraçar as crianças. Seus olhos estão impedidos de olhar, com ternura, para os pecadores e as prostitutas. Seus ouvidos não ouvem mais o grito do cego de Jericó ou clamor da Cananéia. Um homem de dores, pendurado num madeiro, vítima da maldade, para eliminar, para sempre, do coração humano, toda maldade e violência.

Jesus mostra, no relato de hoje, a face amorosa do Pai que “não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e viva”. Não veio para condenar, mas para salvar. Corremos o risco de anunciar Deus como um juiz implacável, irado contra a humanidade. Por vezes assumimos o posto de juiz de vivos e de mortos. Sentamos na cadeira de juiz enquanto Jesus deitou-se numa cruz. Colocou-se do lado dos injustiçados e condenados, desde o seu nascimento, quando não encontrou lugar na hospedaria.

 “Quem nele crê não é condenado”. Crer em Jesus é assumir seu modo de viver. É arcar com as conseqüências da fé cristã. Fé é dom de Deus. Salvação é graça. “É pela graça que fostes salvos mediante a fé. E isso não vem de vós; é dom de Deus! Não vem das obras para que ninguém se orgulhe” (Ef 2,8). Pe. Konings diz que “não fomos salvos pelas obras, mas para as obras”. Ou seja, as obras encarnam nossa fé. Tiago diz que “a fé sem obras é morta” (Tg 2,26). Nosso relacionamento com Deus não é comercial (nem doutrinal, como querem alguns), mas vivencial, experiencial. Nossa relação com Deus se deve dar na gratuidade e não como compra e venda dos dons de Deus, ou na mera observância formal de uma lei ou doutrina.

A salvação depende também da acolhida que lhe faz o ser humano. Deus não salva ninguém à força. Nesse sentido a salvação é dom e tarefa, graça e liberdade. Há pessoas que rejeitam a salvação, que se recusam a aproximar-se da luz, exatamente para que suas ações más não sejam conhecidas. “Quem pratica o mal odeia a luz e não se aproxima da luz, para que suas ações não sejam denunciadas” (Jo 3,20). A vida de Jesus, que é luz, mostra por onde anda aquele que dele se aproxima.  Quem “pratica a verdade”, ou seja, quem procura viver como Jesus, na justiça, na honestidade, na solidariedade, no serviço generoso aos irmãos, “aproxima-se da luz para que se manifeste que suas ações são realizadas em Deus” (Jo 3,21).

Um respeitado teólogo jesuíta, Mário de França Miranda, diz o seguinte a propósito da inculturação da fé: “A iniciativa salvífica de Deus só chega à sua meta quando é livremente acolhida pelo ser humano na fé. Só temos propriamente revelação ou Palavra de Deus no interior de uma resposta de fé, ela mesma fruto da ação de Deus em nós. Portanto, o acolhimento na fé é parte constitutiva da revelação; sem ela os eventos salvíficos seriam meros fatos históricos, a Palavra de Deus seria palavra humana e a pessoa de Jesus Cristo nos seria desconhecida, como o foi para os fariseus de seu tempo” (A reforma de Francisco, p. 64).

Aproximando-nos da Luz, que é Jesus, somos aquecidos, iluminados, transformados por ele. Tornamo-nos mais parecidos com ele. Então nossa presença junto à família, à comunidade, àqueles que Deus colocou no nosso caminho será uma presença de luz. “Brilhe vossa luz diante dos homens para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a Deus Pai” (cf Mt 5,16). Essa luz não é autógena, fruto de esforço pessoal, mas luz que foi infundida por Deus em nós no batismo e, uma vez acolhida, deve ser levada aos outros.

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A Campanha da Fraternidade desse ano quer nos ajudar a desenvolver a arte do diálogo como instrumento de paz e de unidade na Igreja e na sociedade. A segunda leitura deste domingo nos recorda que fomos salvos pela Graça do Pai (Ef 2,5). Portanto, a salvação é dom de Deus (Ef 2,8). Esse dom não é somente nosso, mas deve se multiplicar na vida da humanidade pela nossa ação missionária, construindo fraternidade. Assim reza a Campanha da Fraternidade: “Efésios (2,1-10) chama a atenção dos gentios, que assumiram a fé em Jesus Cristo, para que não repitam o mesmo erro da comunidade dos judeus que, mesmo vivendo sob a graça da Boa Nova, ainda se orientavam pela Lei excludente. O autor da Carta aos Efésios ensina que orgulho religioso é contrário ao Evangelho, porque gera sectarismo e não a unidade. O autor relembra a rejeição que as comunidades de não judeus, seguidoras de Jesus,  sofreram por parte dos judeus (Ef 2,8-13). A todo o momento que fala aos gentios, o escritor usa a expressão “vocês”, mas sabiamente, ao se referir a Cristo, inclui-os no grupo, e fala de “nós”. O alerta para o orgulho, que produz divisões, pode ser percebido em afirmações como “com efeito, é pela graça que vós sois salvos por meio da fé; e isso não depende de vós, é dom de Deus” (2,8). Esse alerta é perfeitamente justificado com a afirmação “pois é ele quem nos fez; nos fomos criados em Jesus Cristo para as boas obras, que Deus preparou de antemão, a fim de que nelas nos empenhemos” (2,10)” (Texto-Base, 133). Nosso empenho deve ser sempre construir pontes à semelhança de Jesus. Ele que “sempre se mostrou cheio de misericórdia pelos pequenos e pobres, pelos doentes e pecadores, colocando-se ao lado dos perseguidos e marginalizados” (Prefácio da Oração Eucarística VI-D).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN