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Fazer caminhos de conversão

aureliano, 23.01.26

3º Domingo do TC - A - 26 de janeiro.jpg

3º Domingo do Tempo Comum [25 de janeiro de 2026]

[Mt 4,12-23]

O primeiro escritor que recolheu a atuação e a mensagem de Jesus nas palavras “boa notícia de Deus” foi Mateus. É o Evangelho (euanggelion), a boa notícia que deve ser lida em meio a essa sociedade indiferente e desacreditada, mostrando que Jesus veio trazer algo bom, novo. Significa que não estamos perdidos, mas que temos Alguém a quem podemos agradecer e que é o “Garante” do sentido de nossa vida.

No Evangelho de Jesus nos encontramos com um Deus que, apesar de nossas fraquezas e pecados, nos dá força para defender nossa liberdade sem nos tornarmos escravos dos ídolos. Esse Deus desperta nossa responsabilidade para com os outros, mesmo que não façamos grandes coisas podemos colaborar com uma vida mais digna e alegre para os necessitados e indefesos.

Certamente, cada um de nós tem que decidir como quer viver e como quer morrer. Cada um há de escutar sua própria verdade e assumir pessoalmente sua vida. Crer em Deus não é a mesma coisa que não crer. Numa expressão brilhante do Papa Francisco: “Não se pode perseverar numa evangelização cheia de ardor, se não se está convencido, por experiência própria, que não é a mesma coisa ter conhecido Jesus ou não O conhecer, não é a mesma coisa caminhar com Ele ou caminhar tateando, não é a mesma coisa poder escutá-Lo ou ignorar a sua Palavra, não é a mesma coisa poder contemplá-Lo, adorá-Lo, descansar n’Ele ou não o poder fazer” (EG, n. 266).

Ou ainda, para encher o coração de entusiasmo, nessa expressão bonita dos Bispos Latinoamericanos: “Conhecer Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber: tê-lo encontrado foi o melhor que ocorreu em nossas vidas, e fazê-lo conhecido com nossa palavra e obras é nossa alegria” (Documento de Aparecida, n. 29). 

A pessoa de fé sente-se bem pelo fato de andar por esse caminho que a faz sentir-se acolhida, perdoada e amada pelo Deus revelado em Jesus. Encontra sentido para sua vida e para sua morte.

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ILUMINADOS PARA ILUMINAR

O tema da luz é marcante na liturgia da Palavra de hoje. A luz é uma necessidade básica do ser humano. Aliás, a expressão que se utiliza para se referir ao nascimento de uma pessoa é “dar à luz”. E quando alguém morre costuma-se dizer: fulano se “apagou”. Esta expressão, porém, a partir da fé cristã, é sem sentido. Pois a pessoa que morre, termina sua peregrinação neste mundo e entra na Luz de Deus. Por isso a Igreja reza: “Lux aeterna luceat eis”: “Brilhe para eles a vossa luz”.

O salmista canta na liturgia: “O Senhor é minha luz e salvação” (Sl 26). Há poucos dias, celebrando o Natal do Senhor, proclamamos: “Veio ao mundo a luz verdadeira que ilumina todo homem” (Jo 1,9). Deste modo, o ser humano é chamado a viver sempre na luz. As trevas, símbolo do pecado, se opõem à luz e tentam, embora em vão, lhe fazer sombra. Quando o dia amanhece, vê-se que o sol vai dissipando as trevas da noite. Assim, Jesus Ressuscitado, brilha em meio às trevas, enchendo de luz o coração do ser humano: “A noite escura se afasta, as trevas fogem da luz. A estrela d’alva fulgura, sinal de Cristo Jesus.” “Ao clarão desta luz que renasce, fuja a treva e se apague a ilusão. A discórdia não trema nos lábios, a maldade não turve a razão” (Hinos de Laudes).

A entrada de Deus em nossa história humana na pessoa de Jesus de Nazaré trouxe uma grande luz de sentido, de novo horizonte para a vida de todo aquele que nele crê. “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz (...) Fizeste crescer a alegria, e aumentaste a felicidade” (Is 9,1-2). A felicidade do ser humano está intimamente associada à vida na luz: “Quem faz o mal odeia a luz e não vem para a luz, para que suas obras não sejam demonstradas como culpáveis. Mas quem pratica a verdade vem para a luz, para que se manifeste que suas obras são feitas em Deus” (Jo 3,20-21). Quem vive na luz não experimenta o medo doentio. Confia, espera, entrega-se. Experimenta a liberdade dos filhos de Deus (cf. Gl 5,1).

É muito importante notarmos que Jesus inicie seu ministério anunciando o Reino de Deus e convidando à conversão: “Convertei-vos porque o Reino de Deus está próximo” (Mt 4,17). Sua palavra e suas ações demonstram sua presença de luz. Veio para transmitir a luz que faz ver o pecado presente no coração humano e na sociedade a fim de que, pela conversão, se supere o mal que destrói a vida na face da terra.

Passar das trevas à luz é fazer um caminho de conversão para se entrar no Reino de Deus. Converter-se é mudar de vida, é inverter a escala de valores que o mundo propõe para assumir os valores do Reino instaurado por Jesus.

Há grande número de cristãos que, à semelhança de alguns mestres do tempo de Jesus, julgam que não precisam de conversão. Pensam que basta fazer uma “rezazinha”, acender uma vela, dar uma esmola para desencargo de consciência ou carregar a bíblia debaixo do braço e dizer que “aceitou Jesus” etc. Não! A conversão é um caminho cotidiano. O ser humano é um misto de luz e trevas. Há muitas realidades de nossa vida pessoal e da vida social que precisam ser evangelizadas.

No passado pensava-se – e ainda esta mentalidade persiste – que evangelização consistia em frequentar a catequese para os sacramentos de iniciação cristã, e pronto. Mas hoje, graças a Deus, a Igreja percebe que é preciso trabalhar a evangelização permanentemente. É preciso voltar ao evangelho. O Papa Francisco insistiu que não adianta ir à Igreja, comungar, rezar e não mudar de vida. “Você pode ir à missa aos domingos, mas se não tem coração solidário, se não sabe o que acontece na sua cidade, (a fé) ou está doente ou está morta. (...) A fé nos faz próximos, aproxima-nos da vida dos outros. A fé desperta o nosso compromisso com os outros, desperta nossa solidariedade” (15/07/16). O importante na vida do cristão é insistir no caminho de conformar a própria vida à vida de Jesus. Tentarmos, cotidianamente, reproduzir em nossa vida os gestos de Jesus.

Todas as vezes que perdoamos, que nos solidarizamos, que evitamos dizer uma palavra que destrói e machuca, que saímos de nossa casa para socorrer alguém, que nos esforçamos para ser fiéis e respeitosos para com nossa família, que trabalhamos com honestidade, que manifestamos nossa opinião reta e verdadeira diante de atitudes desonestas e mentirosas; todas as vezes que nos organizamos para trabalhar em favor da vida, contra a corrupção e a maldade, que aliviamos o sofrimento de alguém, que colaboramos para que as pessoas sofridas e angustiadas vivam mais alegres, estamos espargindo um pouco da Luz que brota do coração do Pai, pois estamos reproduzindo os gestos de Jesus. Isto é caminho de conversão.

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O REINADO DE DEUS

O anúncio do Reino de Deus (ou dos Céus, conforme Mateus) foi o centro da vida de Jesus. Todas as suas palavras e ações foram em vista de estabelecer o Reinado de Deus no mundo.

João Batista também pregava a conversão em vista da proximidade do Reino. Porém o Reino anunciado por Jesus tem um sentido novo. É um Reino que se realiza no amor, na misericórdia, no acolhimento, na busca da justiça e da verdade. Se o reino das trevas favorece os poderosos, aumentando-lhes os privilégios, o Reino de Deus proclamado por Jesus se dá na partilha dos bens da criação, na libertação dos oprimidos, resgatando e levantando a pessoa para a dignidade de filho de Deus.

Esse Reino se concretiza pelo caminho da conversão. Sem mudar a ”maneira de pensar” (cf. Rm 12, 2), não se constrói o Reinado de Deus. A transformação social e comunitária passa necessariamente pela conversão pessoal. O Documento de Aparecida fala da necessidade da conversão pessoal para a transformação da paróquia e da comunidade. E a conversão se faz quando se olha para Jesus, se convive com ele, se deixa modelar por ele, por seu amor misericordioso.

Para a construção do Reino, o Pai conta com colaboradores. Por isso Jesus os chama para “estar com ele e enviá-los em missão” (cf Mc 3, 14). O processo de conversão no discipulado nos leva a colocar Jesus como o centro de nossa vida. Nossas decisões são movidas e iluminadas por ele, pela postura dele, pelas palavras dele. Aquilo que nos impede de ser melhores precisa ser abandonado. É assim que se vai consolidando o Reinado de Deus na história. Os discípulos que ele chama serão formados em sua escola, a comunidade. É na comunidade que vamos aprendendo a ser mais de Jesus: pelo amor fraterno, pela escuta atenta à Palavra de Deus, pela Eucaristia celebrada, pelo engajamento nas pastorais. Enfim, cada um deve encontrar seu lugar na comunidade servindo a Deus nos irmãos mais necessitados.

“Eis que estou à porta e bato”. Como reajo ao convite do Senhor? Estou disposto a trabalhar pela extensão o Reino de Deus? Há muita gente esperando pela minha resposta generosa ao chamado de Deus. Preciso dizer: “Eis-me aqui, envia-me”.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

Uma vida que revele Jesus

aureliano, 18.01.26

2º Domingo do Tempo Comum [18 de janeiro de 2026]

[Jo 1,29-34]

Vi o Espírito descer...; aquele sobre quem vires...; e eu vi e dou testemunho...” Essas expressões com o verbo ver no relato do evangelho deste domingo nos remetem ao nosso ver e dar testemunho. João Batista não tem dúvida acerca de Jesus: “Ele é o Filho de Deus”.

Antes de tudo é preciso que o discípulo reconheça em Jesus o Cordeiro de Deus, o Servo do Senhor (em aramaico, cordeiro e servo correspondem à mesma palavra: talya), o Filho de Deus que “tira o pecado do mundo”. Sem esse reconhecimento de que Jesus, realização definitiva da Páscoa judaica, é aquele que se oferece ao Pai para salvar e libertar o mundo, não é possível fazer o caminho cristão. Não é possível fazer chegar a salvação “até os confins da terra”.

É preciso guardar também o ver de João Batista. Ele viu e deu testemunho. Vemos Jesus na comunidade, naqueles que vivem de acordo com o querer de Deus. A comunidade deve ser expressão do Cordeiro: deve estar disposta a enfrentar a morte para libertar aqueles que estão na escravidão dos “ídolos do poder, do ter e do prazer”. A comunidade cristã precisa viver de maneira tal que possa dizer àqueles que a buscam: “Vinde ver”.

Ser servo para levar, como Jesus, a salvação até os confins da terra. Ser apóstolo na busca de um caminho de santidade: “chamados a ser santos”, isto é, “ser todo de Deus” para ser todo dos irmãos.

Fomos batizados no Espírito Santo para que, assim como Jesus, o Cordeiro de Deus, libertemos o mundo do mal. Chamados a participar da mesma missão do Servo e Cordeiro: dar a nossa vida para que o pecado seja derrotado. Ser mártir é o mesmo que dar testemunho. O caminho da santidade passa pela coragem de dar a vida (cordeiro) para que muitas vidas sejam salvas. Isso é ser cristão, seguidor de Jesus, continuador de sua obra.

A Eucaristia que celebramos encontra seu sentido quando repercute em nossa vida cotidiana: o corpo do “Cordeiro que tira o pecado do mundo” que comungamos deve nos tornar pessoas eucaristizadas, capazes de empenhar nossa vida para, com ele, participarmos na libertação do pecado que se manifesta na opressão, na escravidão, na humilhação, na exclusão, na ganância, na inveja, na exploração, na busca do poder a qualquer custo, na preguiça e comodismo, na falta de responsabilidade, no abandono e desrespeito aos idosos e crianças etc. Esta é nossa vocação à santidade.

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O PECADO DO MUNDO

O pecado é um ato de rebeldia contra o Criador e uma ação agressiva contra o ser humano e o cosmo. É uma tentativa de “descriação”, de destruir o mundo criado por Deus. É uma tentativa de alterar o outro e desrespeitá-lo na sua dignidade. E é um desejo de voltar ao estado, dito pela psicanálise, de “indiferenciação”: estado fusional com a mãe que traz conforto, despreocupação, irresponsabilidade. É o narcisismo, a autorreferencialidade, a busca desordenada de si mesmo. Por isso o pecado leva à morte. Ele é destruidor da vida. E Jesus veio “para que todos tenham vida”. Veio “tirar o pecado do mundo” para que a vida possa reluzir, brotar, respirar, sonhar, desabrochar em plena liberdade.

No evangelho de hoje escutamos João Batista dizer: “Aquele que tira o pecado do mundo”. Então Jesus não só perdoa, mas tira o pecado. Parece significar que o pecado deve ser arrancado do mundo, não somente perdoado. Crer em Jesus significa também empenhar nossas forças para que o mal, o pecado, a injustiça, a iniquidade, a violência sejam arrancados do mundo.

Mas o que é mesmo o pecado? Uma realidade que afeta o mais profundo do ser humano e o desumaniza. Quase sempre definimos pecado como uma “ofensa” a Deus. Na verdade o pecado é a recusa em aceitar a Deus como Pai e, consequentemente, ferir a fraternidade que o Pai tanto deseja de todos nós. É o nosso fechamento ao amor de Deus. O pecado é o egoísmo que nos faz pensar somente em nós mesmos, nos nossos interesses, em nosso bem estar em detrimento dos outros. Pecado é entrar no esquema da difamação e perseguição daqueles que se colocam em defesa de um mundo mais justo e fraterno, que se colocam a serviço dos pobres invisíveis de uma sociedade intolerante e indiferente.

Pe. Antônio Pagola dá uma definição que ajuda a compreender bem o que é o pecado: “Na medida em que nos servimos de nosso pequeno poder físico, intelectual, econômico, sexual, político... não para servir ao irmão, mas para utilizá-lo, dominá-lo e conseguir nossa felicidade às suas expensas. Este pecado está presente no coração de cada ser humano e no interior das instituições, estruturas e mecanismos que funcionam em nossa economia, nossa política e nossa convivência social” (O Caminho aberto por Jesus: Evangelho de João, p. 38-39).

De modo geral há entre nós grande confusão entre pecado e fraqueza. O pecado ocorre quando delibera-se conscientemente em transgredir a Lei de Deus. É a livre e consciente opção pelo mal. É o desejo de onipotência, de “ser como deus”. A fraqueza, porém, é uma transgressão involuntária da Lei. Uma realidade que faz parte da finitude humana, que está para além de das próprias forças. A fraqueza é “mais forte do que eu”. Pode ocorrer também que a pessoa escolha o pecado, mas para fugir da responsabilidade diz que aquela situação foi mais forte do que ela. Então já não se trata de fraqueza, mas de pecado.

O que importa de tudo o que foi dito é que Jesus veio “tirar o pecado do mundo” e quer que nos empenhemos para que o mal, a injustiça, a mentira, a desonestidade e todo tipo de perversidade não prevaleça no mundo. Para que o amor de Deus seja o vínculo que reúna as pessoas, que leve ao perdão mútuo e à compaixão para com os mais necessitados. Afinal de contas, “no entardecer da vida seremos julgados pelo amor” (São João da Cruz). O exame final se dará a partir do que fizemos ou deixamos de fazer aos mais pequeninos com quem o Senhor se identifica (cf. Mt 25,31-46).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Uma luz, um encontro, um caminho novo

aureliano, 02.01.26

Epifania 2021.jpg

Epifania do Senhor [04 de janeiro de 2026]

[Mt 2,1-12]

A solenidade que celebramos hoje é uma festa popularmente chamada de “Santos Reis”. Caiu bem no imaginário popular a cena pintada por Mateus sobre a visita que os Magos fizeram a Jesus por ocasião do seu nascimento. O quadro é deveras bonito. Mas é bom lançarmos um olhar com mais profundidade, pois aí se esconde um grande Mistério.

Primeiro não podemos ler a cena do evangelho de hoje como um relato jornalístico. Os fatos certamente não se deram historicamente tais como estão narrados. A leitura deve ser feita numa ótica de fatos interpretados teologicamente. Mateus pretende dar uma catequese para a comunidade. Vamos então tomar os pontos essenciais e tentar descobrir o que Deus nos está revelando de novo nesta Palavra da festa de hoje.

O fato de relatar Belém como local do nascimento de Jesus parece mostrar que Mateus quer convencer alguns que não podiam acreditar que o Messias pudesse nascer em Nazaré pelo fato de as Escrituras prometerem que sairia de Belém, a cidade de Davi. Belém é “casa do pão”. O Pão da vida que veio alimentar a humanidade dá-se em alimento num coxo onde os animais comiam. O alimento, o pão que ali se encontra, veio para saciar a fome da humanidade.

Os magos não eram necessariamente adivinhos, mas estudiosos dos astros. Dizem os estudiosos da cultura e da história daquela época que, por ocasião do nascimento de pessoas importantes, uma estrela avisava. Mateus vale-se da crença para mostrar que Alguém nasceu e foi visto através de uma estrela.

A visita e adoração dos magos contrapõem-se ao orgulho de Herodes e das autoridades de Israel que se recusaram a dobrar a cerviz à Palavra que se fez carne no seio de Maria. Consideravam inadmissível que Deus pudesse nascer tão pobre e simples. Ademais se sentiam ameaçado pelo “rei dos judeus” que acabara de nascer. Uma vez que aqueles para quem ele veio não o reconheceram (cf. Jo 1,11), manifesta-se aos pagãos, representados pelos magos. Veio para todos. É o universalismo da salvação de Deus manifestado em Jesus de Nazaré.

A estrela de que fala o texto simboliza os sinais pelos quais Deus nos fala. Ele se manifesta de muitas formas. É preciso estar com o “coração no alto”. Esse olhar para cima, para o céu quer indicar a vida de oração, de intimidade com o Pai que nos ajuda a perceber os caminhos pelos quais devemos caminhar. Herodes e os habitantes de Jerusalém, levando uma vida perversa e ambiciosa, criaram em torno de si uma nuvem tão espessa que impediu o brilho da estrela sobre a cidade. Somente depois que saíram da cidade é que a estrela foi novamente vista pelos magos. O que lhes causou grande alegria. A alegria da luz de Deus que ilumina e fortalece o coração do justo.

Quando o relato diz que os magos tomaram outro caminho de volta para sua pátria, o texto nos quer dizer que é preciso ter coragem de assumir um caminho novo. Trata-se da conversão. Converter-se é mudar de trajetória, de rota. É ter coragem de assumir um novo modo de viver. E isso se dá a partir do encontro com o Senhor. Foi o que aconteceu aos magos. Aquele encontro com o Senhor da vida, reclinado na manjedoura foi tão decisivo e envolvente que os levou a assumir um caminho novo em defesa da vida ameaçada por Herodes. O caminho de conversão nos faz contrapor-nos aos ameaçadores da vida. É preciso ter coragem de enfrentar aqueles que buscam “matar o menino”. Aqueles que querem tirar a vida a todo custo. Aqueles para quem o dinheiro vale mais do que a vida. Aqueles para quem o crescimento econômico e o poder político valem mais do que o bem da população, particularmente dos mais pobres.

Que a Luz resplandecente que brota do presépio nos envolva e nos faça missionários transformados por esse Mistério que nos arrebata e nos faz pessoas renovadas para a missão.

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NÃO TER MEDO DA LUZ

Esta festa, outrora celebrada no dia 06 de janeiro, dia dos Santos Reis (Natal das Igrejas Orientais), quer nos ajudar a entender que Aquele cujo nascimento celebramos no Natal veio para todos os povos. É a Luz que ilumina as nações. Deus não veio salvar um só povo, mas todas as pessoas de todos os tempos e lugares.

O evangelho de Mateus termina com o envio dos discípulos para evangelizar “todas as nações” (Mt 28, 19). E no início ele traz o relato da visita dos Reis Magos, prefigurando exatamente isso. Os doutores de Jerusalém sabiam onde devia nascer o Messias, mas a estrela da fé não os conduzia até lá. Daqui se depreende que não basta conhecer com a cabeça, intelectualmente. O coração precisa crer e se inclinar para os sinais dos tempos. Herodes e os doutores não viram a estrela porque estavam ofuscados pelo próprio brilho. Uma vaidade tal que escondia os sinais reveladores de Deus que oculta estas coisas aos sábios e entendidos e as revela aos pequeninos (cf. Mt 11, 25). Junte-se a isso a sede de poder de Herodes, que vê na indicação da profecia, uma ameaça à sua condição de rei e senhor.

É bom ainda observarmos o medo que toma conta de Herodes: manda matar as crianças da redondeza de Belém. O medo de perder o poder faz-nos matar aqueles pelos quais nos sentimos ameaçados: uma palavra difamatória e arrogante, um gesto ofensivo, uma atitude de indiferença, fuga de responsabilidades, decisões políticas visando a vantagens pessoais etc.

Além disso, quantas crianças vítimas da fome, dos maus-tratos, da exploração, de abusos sexuais. Investe-se pesado em armamento, em reformas de apartamentos públicos luxuosos que atendem aos interesses mercadológicos e vaidosos de seus moradores, enquanto que a educação, a saúde e o cuidado com os pequenos ficam relegados a segundo plano. Mesmo dentro de nossas comunidades: investimos muito recurso econômico em obras, reformas, objetos litúrgicos caríssimos ou em atividades que são vistosas, e investimos pouco em atividades sociais e missionárias que atendem às reais necessidades das crianças, dos idosos ou dos pobres e sofredores.

Peçamos ao Senhor que nos ajude a nos comprometermos na construção de um mundo mais humanizado, mais solidário, mais comprometido com os pequeninos do Reino. Todos aqueles que se empenham pela vida cabem dentro do projeto salvador de Deus. Precisamos nos unir mais em parcerias, a partir de nossas próprias comunidades e pastorais, e também com outras entidades que lutam pela vida do ser humano e do planeta, para que a luz brilhe para todos trazendo a esperança que supera o medo, o amor que supera o ódio, o serviço que vence a sede de poder e a ganância de ter sempre mais.

As pessoas de boa vontade encontram Jesus, mas os que vivem em função de seu próprio interesse (Herodes e companhia) têm medo de encontrá-lo: “Quem faz o mal odeia luz e não vem para a luz, para que suas obras não sejam demonstradas como culpáveis. Mas quem pratica a verdade vem para a luz, para que se manifeste que suas obras são feitas em Deus” (Jo 3, 20-21).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

Vistamos a armadura da luz

aureliano, 28.11.25

1º Domingo do Advento [30 de novembro de 2025]

[Mt 24,37-44]

Estamos no Advento! Tempo litúrgico conhecido como preparação para o Natal. Mas na verdade é um tempo de celebrar a vinda do Senhor. Ele veio uma primeira vez historicamente, na Palestina. Ele virá uma segunda vez em sua glória para “julgar os vivos e os mortos”. E ele continua vindo no presente da Igreja, que deve se empenhar para ser sinal de sua presença no mundo.

O comércio se vale deste momento para vender, comprar, ganhar dinheiro. É preciso, porém, ter cuidado para não fazer deste tempo uma ocasião de festas sem aquela preocupação basilar de que falam as leituras da liturgia deste domingo: “Deixemos as obras das trevas e vistamos a armadura da luz... andemos decentemente; não em orgias e bebedeiras, nem em devassidão e libertinagem, nem em rixas e ciúmes” (Rm 13,12-13). E ainda: “Ficai preparados, porque o Filho do Homem virá numa hora que não pensais” (Mt 24,44).

Não quero, com isso, negar a importância da festa, do encontro familiar, do descanso, da dança, da música, das alegrias ao redor da mesa. O que deve, porém, caracterizar nossas festas é a dimensão cristã destas festividades. Não perder o sentimento de solidariedade: não esbanjar, desperdiçar; não fechar o coração ao pobre e necessitado; buscar a reconciliação, o perdão, a celebração, a partilha. São elementos que cristianizam nossas festas natalinas.

O Evangelho fala de três situações que mostram a importância de estarmos preparados. No episódio bíblico do dilúvio ninguém se interessou pela arca que Noé preparava. É uma advertência para estarmos conscientes de que o fim é inevitável. É preciso ouvir e ver os sinais de Deus manifestos nos gestos das pessoas. Sobre a narrativa em que as mulheres e os homens estão trabalhando (cf. Mt 24,40-41), é interessante notar que as pessoas estavam fazendo as mesmas atividades, no entanto “uma será tirada e outra será deixada”. Jesus quer dizer que o importante não é o que se está fazendo, mas o modo como cada um age no seu cotidiano. O cristão faz o mesmo que todos fazem, mas com o diferencial de fazê-lo à maneira de Jesus. Não há necessidade de ações heróicas, mirabolantes, de propósitos impossíveis de serem cumpridos. O que o Senhor quer é que nossas atitudes sejam regadas de fraternidade, de sinceridade, de compreensão, de perdão, de ajuda mútua, de solidariedade, de verdade.

Finalmente o ladrão, que sempre surpreende. Para não ser pego de surpresa é preciso vigiar, estar acordado, atento, alerta. Não podemos estar dormindo, mas viver em estado desperto à luz do Dia de Cristo, para que ele nos possa encontrar dispostos para a vida de incansável caridade que ele nos ensinou: “Tudo o que fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25, 40).

Esta vigilância de que fala o evangelho deve ser carregada de esperança. Então não se pode compreender uma espera vigilante que descarta aqueles que estão ao meu lado precisando de minha colaboração. O Papa Francisco chama-nos a atenção: "Não podemos dormir tranquilos enquanto houver crianças que morrem de fome e idosos que não têm assistência médica" (17/08/2013). Então a vigilância que Jesus pede deve ser inquieta. Não basta rezar, ir à Igreja, pedir isso ou aquilo a Deus. É preciso assumir uma atitude de fiel discípulo de Jesus.

Meu pensamento e minhas ações estão voltados para Deus e seu projeto ou voltados para meus projetos egoístas? Isso é que decide a sorte de cada um no juízo de Deus.

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“NÃO PEGARÃO EM ARMAS”

“Ele há de julgar as nações e arguir numerosos povos; estes transformarão suas espadas em arados e suas lanças em foices: não pegarão em armas contra os outros e não mais travarão combate. Vinde, todos da casa de Jacó, e deixemo-nos guiar pela luz do Senhor” (Is 2,4-5).

O texto está tratando de uma situação vivida por Israel e provocada por governantes que fazem alianças perigosas com reis de nações vizinhas. Depositam assim a confiança nas forças humanas e não em Deus. O abandono de Deus e a confiança nas próprias forças colocam em risco toda a comunidade israelita.

O profeta intervém alertando sobre a necessidade de se voltar para Deus e depositar nele a confiança e a esperança. Sobretudo de não pensar que vencerão pela força do exército e das armas. O capítulo VII de Isaías aprofunda essa temática: “Se não o crerdes não vos mantereis firmes” (Is 7,9).

Quero aqui, mais uma vez, chamar a atenção a respeito de projetos propulsores de violência como o da posse e porte de armas de fogo e de outras ações violentas defendidas por pessoas que se dizem cristãs. Esse relato da Escritura convida a transformar as armas de guerra em instrumento de produção de alimento: espadas em arados e lanças em foices. “A guerra é sempre uma derrota - Nada se perde com a paz” (Papa Leão XIV).

Como é que alguém que se diz temente a Deus e que cita a Sagrada Escritura como verdade revelada por Deus, pode defender a matança, a eliminação do ser humano? Está faltando em nossa Igreja e nos cristãos de modo geral, uma volta para Deus, um processo de conversão do coração. O caminho do combate à violência deve passar pelos valores do Evangelho. Jesus deve ser a meta, o horizonte, o foco, a mira do cristão.

“A essas palavras, um dos guardas, que ali se achavam, deu uma bofetada em Jesus, dizendo: ‘Assim respondes ao Sumo Sacerdote?’. Respondeu Jesus: ‘Se falei mal, testemunha sobre o mal; mas, se falei bem, por que me bates?’”(Jo 18, 22-23). A contemplação dessa cena da Paixão do Senhor pode nos ajudar a aprender do Mestre de Nazaré a atitude de reconciliação e de paz já recomendada pelo profeta: “Eles não pegarão mais em armas uns contra os outros” (Is 2,4).

Como estamos nos preparando para celebrar o Natal do Senhor, o Príncipe da Paz? Com pensamentos de paz, de reconciliação, de perdão? Ou de guerra, de ódio, de vingança, de destruição?

Deixo com o Papa Francisco a palavra final:

“Com a convicção de que é possível e necessário um mundo sem armas nucleares, peço aos líderes políticos para não se esquecerem de que as mesmas não nos defendem das ameaças à segurança nacional e internacional do nosso tempo.

Um dos anseios mais profundos do coração humano é o desejo de paz e estabilidade. A posse de armas nucleares e outras armas de destruição de massa não é a melhor resposta a este desejo; antes, parecem pô-lo continuamente à prova. O nosso mundo vive a dicotomia perversa de querer defender e garantir a estabilidade e a paz com base numa falsa segurança sustentada por uma mentalidade de medo e desconfiança, que acaba por envenenar as relações entre os povos e impedir a possibilidade de qualquer diálogo.

No mundo atual, onde milhões de crianças e famílias vivem em condições desumanas, o dinheiro gasto e as fortunas obtidas no fabrico, modernização, manutenção e venda de armas, cada vez mais destrutivas, são um atentado contínuo que brada ao céu.

Em 1963, o Papa São João XXIII, na Encíclica Pacem in terris, solicitando também a proibição das armas atômicas (cf. n. 112), afirmou que «a verdadeira paz entre os povos não se baseia em tal equilíbrio [em armamentos], mas sim e exclusivamente na confiança mútua» (n. 113).

Oxalá a oração, a busca incansável de promover acordos, a insistência no diálogo sejam as «armas» em que deponhamos a nossa confiança e também a fonte de inspiração dos esforços para construir um mundo de justiça e solidariedade que forneça reais garantias para a paz.

Peço-vos para nos unirmos em oração diária pela conversão das consciências e pelo triunfo duma cultura da vida, da reconciliação e da fraternidade; uma fraternidade que saiba reconhecer e garantir as diferenças na busca dum destino comum” (Excertos do discurso do Papa Francisco no Japão, em 24 de novembro de 2019).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Espírito Santo: Luz que dissipa as trevas

aureliano, 06.06.25

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Solenidade de Pentecostes [08 de junho de 2025]

[Jo 20,19-23 ou Jo 14,15-16.23-26]

UM POUCO DE HISTÓRIA

Inicialmente celebrada pelos israelitas, Pentecostes era a comemoração da colheita dos primeiros frutos do trigo. Porque marcava o 50º dia depois do início da colheita, era, por esse motivo, chamada de Pentecostes. (Confira Ex 23, 14-17; 34, 22; Lv 23,15-21; Dt 16, 9-12). É a festa da colheita. Portanto, tempo de muita alegria e fartura.       

A narrativa de At 2, 1-11 mostra a importância que ganhou na Igreja esta festa. Fazendo uso de um recurso literário, Lucas faz o Pentecostes cristão coincidir com o Pentecostes judaico. O Espírito se manifesta confirmando a missão que os discípulos haviam recebido do Mestre. Pentecostes marca o nascimento da Igreja. É a celebração dos frutos do Ressuscitado: o perdão e a paz que brotam de seu Coração bondoso, superando o egoísmo e a maldade do coração humano.

A MENSAGEM DO EVANGELHO

No próprio dia da Páscoa Jesus vem entregar o Dom do Espírito Santo aos seus discípulos. Este Dom garante a continuação da missão de Jesus no mundo. A missão de dar a paz e de tirar o pecado do mundo: “A paz esteja convosco” (Jo 20, 19); “Aqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados” (Jo 20, 23). É o próprio Jesus agindo por meio de sua Igreja.

“As portas estavam fechadas por medo dos judeus”: Esse relato nos faz pensar no medo que tomava conta dos discípulos antes de serem revestidos do Dom do Pai. Como o medo nos paralisa, nos fecha em nós mesmos, nos impede de servir! O medo é um sentimento que precisa ser assumido e trabalhado em nós. Quando agimos movidos pelo medo fazemos muito mal a nós e aos outros. Medo de assumir um trabalho na comunidade; medo de arriscar; medo de assumir a própria vida; medo de romper com relações que escravizam e destroem a própria vida e a vida dos outros; medo de falar e de viver a verdade; medo movido pela preocupação excessiva com a própria imagem: o que vão pensar ou dizer? Medo de chamar para conversar a fim de resolver mal entendido ou para “botar os pingos nos is”. Medo do inferno, medo de Deus, medo da condenação. Medo da doença, medo da morte, medo de ser abandonado, desprezado, ridicularizado. É preciso vencer o medo! O medo fecha a porta para Deus e para os irmãos! “No mundo tereis tribulações, mas tende coragem: eu venci o mundo!” (Jo 16,33).

Mas há o outro lado da moeda: aqueles que querem amedrontar, causar pânico, intimidar os outros, gritar, esbravejar, fazer calar a boca. Quantas pessoas se satisfazem provocando medo para dominar! Querem se impor pela força física, pela pressão psicológica, pelo cargo que exercem, pelas ameaças que fazem, pelo poder econômico ou político. Há muitas pessoas que sofrem terrivelmente debaixo de gente perversa, dominadora, satânica. Há gente que domina os outros até mesmo servindo-se da religião ou da boa-fé. Crianças, mulheres, idosos, pobres, pessoas vulneráveis e indefesas são as principais vítimas dos dominadores e manipuladores inescrupulosos. Um pecado que brada aos céus e pede a Deus vingança! Jesus nunca se impôs aos outros, nunca amedrontou ninguém. Pelo contrário, sempre mostrou-se afável, acolhedor, doador do perdão e da paz.

“Como o Pai me enviou também eu vos envio”. Palavra de Jesus aos discípulos antes de comunicar-lhes do Dom do Espírito Santo. É um elemento essencial na missão. O Pai enviou o Filho para comunicar seu amor ao mundo. Agora o Filho envia aqueles que ele escolheu e consagrou com essa mesma missão: o Pai nos ama e quer salvar a todos. Quer comunicar-nos o perdão e a paz. A Igreja é a mensageira e portadora dessa Boa Nova.

ABRIR O CORAÇÃO PARA A MISSÃO

Ao longo de seu ministério Jesus havia prometido o Espírito Santo aos seus discípulos para auxiliá-los na tarefa que lhes confiaria. Ele teria a missão de inspirá-los, fortalecê-los, lembrar-lhes o que lhes havia ensinado. Desde então lhes restava plantar, pois o Pai garantiria a colheita.

Compete a nós abrir o coração para a ação do Espírito Santo em nós a fim de que nossa vida e nossas comunidades se renovem. Aquele vigor concedido aos primeiros discípulos continua sendo dado a quem se abre à sua ação libertadora. Deixemos o Espírito agir em nós, pois sem a sua força a Igreja fica estéril e confusa, sem ternura e sem missão.

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A FORÇA DO ALTO PERDOA E ANIMA

A festa de Pentecostes tem sua história na comunidade israelita. Inicialmente era o agradecimento a Deus pelos frutos da terra. Uma festa agrícola. Posteriormente foi associada à entrega da Lei no Sinai, tornado-se assim a festa da Aliança de Deus com seu povo.

No cristianismo, Pentecostes celebra a manifestação pública da Igreja. Embora, segundo João, o Espírito Santo seja dado no dia da Páscoa, na Ressurreição, a comunidade lucana a coloca cinquenta dias depois da Páscoa, para evocar e celebrar a manifestação pública da Igreja. Em forma de “línguas de fogo” para dizer do testemunho e da palavra dos discípulos de Jesus manifestando a ação de Deus na pessoa de Jesus de Nazaré. No Sinai foi entregue a Lei a Moisés, escrita em tábuas de pedra. Aqui celebramos a Lei derramada nos nossos corações.

 O evangelho deste domingo mostra a comunidade dos discípulos acuada, medrosa. Os discípulos não tinham iniciativa nem coragem de anunciar a experiência que haviam feito de Jesus. Aquele em quem haviam depositado a esperança frustrou-lhes as expectativas: morrera na cruz como um malfeitor. Porém, a divina “Ruah” do alto, aquele Sopro vital os encheu de novo ânimo, de coragem. Começam então a anunciar, com todo ardor e entusiasmo, aquela realidade que haviam experimentado: a vida de Jesus e a vida em Jesus é o caminho para se viver de maneira justa, alegre e mais feliz.

Soprou sobre eles e disse...”. Esta passagem nos faz lembrar aquele sopro vital que o Criador fez penetrar no homem formado da argila: “Ele insuflou nas suas narinas o hálito da vida, e o homem se tornou um ser vivo” (Gn 2,7). Ou mesmo aquele Sopro de vida de que fala o profeta Ezequiel: “Porei meu sopro em vós para que vivais” (Ez 37,14). Somos cristãos leigos de barro, padres de barro, bispos de barro. É o Sopro Santo de Deus que nos comunica vida. Jesus comunica a nova vida que ele veio trazer do Pai: o Espírito Santificador que nos inspira, nos ilumina, nos fortalece para darmos testemunho da ressurreição do Senhor.

É interessante notar que o Espírito Santo não desceu somente sobre os “Onze”. Ele veio sobre todos que estavam no Cenáculo. Ali havia muitas outras pessoas além dos Apóstolos. O Espírito de Jesus penetra no coração daquelas pessoas e lhes dá novo vigor, novo sentido de vida. Sem o Espírito Santo a vida fica sem sentido, vazia, deslocada daquele centro vital para o qual o Pai nos criou. Desfocada, a vida começa a perder o sentido e o pecado encontra guarida dentro de nós. É a destruição da vida da pessoa. A alegria dá lugar à tristeza, a paz cede a brigas e intrigas, a partilha perde terreno para o egoísmo, o perdão é substituído pelo desejo de vingança, a fraternidade é suplantada pela dominação e coisificação das pessoas, a fé perde para a dúvida e o ceticismo.  Quando Jesus sopra sobre os discípulos e lhes dá o Espírito Santo com o poder de perdoar os pecados, ele quer mostrar que a missão da Igreja, pela força do Espírito Santo, deve ser a de tirar o pecado do mundo.

O pecado, segundo Pe. Antônio Pagola, é a “força de gravidade que nos impede de ir a Deus”. Muito mais do que culpa, é peso, escravidão. Mais do que falar de perdão, é preciso, pois, falar de libertação. Por isso chamamos a Jesus de Salvador. Nota-se, pois, uma vez mais, que o Evangelho não é um ligeiro verniz que se passa no ser humano, mas é tomá-lo a partir do seu ser mais profundo, assim como é, e tornar possível sua volta para Deus. Este é o primeiro fruto do Espírito de Jesus: a libertação. Este é o Espírito, o Espírito do Filho, o Espírito dos filhos, aquele que nos resgata da escravidão da terra e nos abre o horizonte luminoso de filhos.

Esse Espírito traz e atualiza a novidade de Cristo: “Sem o Espírito Santo, Deus está distante; o Cristo permanece no passado; o evangelho, uma letra morta; a Igreja, uma simples organização; a autoridade, um poder; a missão, uma propaganda; o culto, um arcaísmo; e a ação moral, uma ação de escravos. Mas no Espírito Santo o cosmos é enobrecido pela geração do Reino, o Cristo ressuscitado está presente, o evangelho se faz força do Reino, a Igreja realiza a comunhão trinitária, a autoridade se transforma em serviço, a liturgia é memorial e antecipação, a ação humana se deifica” (Atenágoras I, Patriarca de Constantinopla).

Todos nós sentimos dificuldades. Todos sentimos a fraqueza na fé, a fragilidade da existência, a força do pecado em nós. Por vezes o mal parece prevalecer. O bem fica apagado. Fazemos o bem, nos empenhamos na construção de um mundo melhor, mas parece que nossa luta é em vão. Então peçamos ao Espírito Santo que, como aos discípulos e discípulas no Cenáculo, nos encha de seu amor, de sua luz, de sua força:

Vem Espírito Santo e liberta-nos do pecado, sustenta nossa pequenez, dá-nos tua força contra o mal. Não nos deixes desanimar, desistir de caminhar na direção do bem. Mais do que fazer o bem, ajuda-nos a ser bons, justos, solidários, fraternos, promotores da paz. Enche-nos de tua bondade, de tua sabedoria para reproduzirmos em nossa vida as ações de Jesus que “passou pelo mundo fazendo o bem”. Amém.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Caminhar na presença de Deus

aureliano, 31.01.25

Apresentação do Senhor [02 de fevereiro de 2025]

[Lc 2,22-40]

Estamos a 40 dias do Natal. Jesus, “o sol nascente que nos veio visitar” para iluminar os que jazem nas trevas (cf. Lc 1,78-79), o Sol que não se apaga, nascido de Maria, é celebrado nesse dia como a Luz da humanidade, em “substituição” à divindade “sol invicto”, celebrada pelos romanos na antiguidade, por ocasião do Natal cristão.

Essa festa litúrgica nos remete também a 1Sm 1,28, quando Ana, esposa de Elcana, foi ao templo e ofereceu seu filho, Samuel: “De minha parte eu o dedico ao Senhor por todos os dias que viver, assim o dedico ao Senhor”. Um convite a consagrarmos nossos filhos ao Senhor. O que nossos filhos estão oferecendo ao Senhor e à vida? Que oferenda estamos sendo para Deus? Estou me apresentando a Deus todos os dias? – Na perspectiva de Miquéias 6,6-8: “Com que me apresentarei ao Senhor, e me inclinarei diante do Deus do céu? (...) Foi-te anunciado, ó homem, o que é bom e o que o Senhor exige de ti: nada mais do que praticar o direito, gostar do amor e caminhar humildemente com o teu Deus”. É assim que somos chamados a viver e a caminhar nesse mundo. Nada mais.

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A festa da Apresentação do Senhor remonta ao século V. Tem origem nos relatos do próprio evangelho de hoje. Quarenta dias depois de nascido o primogênito masculino, o judeu piedoso ia ao Templo apresentá-lo como sinal de gratidão, de consagração e também para oferecer o sacrifício prescrito para a purificação da mãe e do filho, conforme a Lei prescrevia (cf. Lv 12,3-4;  Êx 13,2.11).

A celebração litúrgica de hoje era marcada por uma procissão com velas acesas. Trazia o nome de Nossa Senhora das Candeias. Por quê? Exatamente por causa daquele Menino trazido nos braços de Maria e aclamado por Simeão: “Luz para iluminar as nações” (Lc 2,32).

Maria e José vão ao Templo apresentar o filho ao Senhor. Esse gesto é muito significativo, sobretudo, para nossos tempos em que predominam as preocupações mundanas em relação aos filhos. De modo geral qual é a primeira preocupação dos pais em relação aos seus filhos? Não parece ser a de dar uma boa condição de vida? Isso tem sua importância. Mas será que deve ocupar o primeiro lugar? E a vida de oração? E a relação com Deus? E a participação na vida da comunidade: uma boa catequese, o senso da partilha, do respeito ao meio ambiente, a honestidade, a justiça, a verdade? As crianças aprendem mais vendo do que ouvindo. As atitudes e gestos de respeito, de generosidade, de perdão, de honestidade dos pais marcam profundamente o coração dos filhos. Não adianta mandar fazer: é preciso fazer primeiro.

Oferecer uma boa escola, boa faculdade, plano de saúde, academia, roupa de marca, celular top, carro etc parece ocupar o centro de preocupação dos pais. Mas o evangelho de hoje diz outra coisa. Os pais de Jesus tiveram como preocupação primeira a consagração do filho ao Senhor. As coisas de Deus ocupam o primeiro lugar na formação do Menino de Nazaré. Precisamos pensar nisso.

Figura interessante é a do velho Simeão. Homem “justo e piedoso”. Por ter levado uma vida segundo o ‘Ensinamento do Senhor’, estava aberto ao Espírito Santo por quem deixava-se mover. Foi consolado por ver a libertação de Israel. E bendiz a Deus com confiança: “Agora podes deixar teu servo partir em paz” (Lc 2,29). Nossos idosos podem fazer essa oração? Vivem de tal modo que sentem o conforto do Pai? É de suma importância que a gente viva de tal forma que, no final da vida se possa colocar-se com confiança e alegria nas mãos do Pai. É triste ver idosos desgostosos da vida, ranzinzas, insatisfeitos, azedos, também abandonados à sua própria sorte. Há alguma coisa aí que precisa ser melhorada!

Simeão era um homem simples. Não era do grupo dos sumos sacerdotes do Templo. Não tinha nada a não ser uma fé confiante em Deus. Esperava! Podemos até traduzir por uma palavra mais significativa: esperançava. É um homem que se sente feliz. E num gesto paterno-maternal toma o menino nos braços e bendiz a Deus. Que liberdade e serenidade nesse homem de Deus! Lucas quer nos mostrar que devemos acolher Jesus como Simeão: com carinho, confiança, alegria e fé. Abraçá-lo. Aderir a Jesus como o centro absoluto de nossa vida. Aquele que ilumina nossas decisões e inspira nossas ações.

Ana, viúva de idade avançada, passou sua viuvez no serviço do Senhor. Não ficou ociosa, de casa em casa, nem de ‘caso em caso’. Mulher resolvida na vida, tinha consciência do modo como deveria viver. A idade não era impedimento para o exercício da missão: “Falava do menino a todos os que esperavam a libertação de Israel” (Lc 2,38). Inspira nossas ações missionárias. É preciso anunciar a Boa Nova.

Nesse dia dedicado à Vida Consagrada, renovemos nossa consagração. O Pai nos consagrou para a missão. Então olhemos para José, Maria, Simeão, Ana, Pe. Júlio Maria, e caminhemos com confiança à luz do Senhor. Fomos iluminados para iluminar: “Por onde formos também nós que brilhe a tua luz! Fala, Senhor, em nossa voz, em nossa vida! Nosso caminho, então, conduz: queremos ser assim. Que o pão da vida nos revigore no nosso sim”.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Ninguém é dono de Deus

aureliano, 03.01.25

Epifania 2020.jpg

Epifania do Senhor [05 de janeiro de 2025]

[Mt 2,1-12]

A solenidade que celebramos hoje é uma festa popularmente chamada de “Santos Reis”. Caiu bem no imaginário popular a cena pintada por Mateus sobre a visita que os Magos fizeram a Jesus por ocasião do seu nascimento. O quadro é deveras bonito. Mas é bom lançarmos um olhar com mais profundidade, pois aí se esconde um grande Mistério.

Primeiro não podemos ler a cena do evangelho de hoje como um relato jornalístico. Os fatos certamente não se deram historicamente tais como estão narrados. A leitura deve ser teológica. Mateus pretende dar uma catequese para a comunidade. Vamos então tomar os pontos essenciais e tentar descobrir o que Deus nos está revelando de novo nesta Palavra da festa de hoje.

O fato de relatar Belém como local do nascimento de Jesus parece mostrar que Mateus quer convencer alguns que não podiam acreditar que o Messias pudesse nascer em Nazaré pelo fato de as Escrituras prometerem que sairia de Belém, a cidade de Davi. Belém é “casa do pão”. O Pão da vida que veio alimentar a humanidade dá-se em alimento num coxo onde os animais comiam. O alimento, o pão que ali se encontra, veio para saciar a fome da humanidade.

Os magos não eram necessariamente adivinhos, mas estudiosos dos astros. Dizem os entendidos da cultura e história daquela época que, por ocasião do nascimento de pessoas importantes, uma estrela avisava. Mateus vale-se desta crença para mostrar que Alguém nasceu e foi visto através de uma estrela.

A visita e adoração dos magos contrapõem-se ao orgulho de Herodes e de todo o Israel que se recusou a dobrar a cerviz ao Deus que se fez Homem no seio de Maria. Considerava inadmissível que Deus pudesse nascer tão pobre e simples. Ademais se sentia ameaçado pelo “rei dos judeus” que acabara de nascer. Uma vez que aqueles para quem ele veio não o reconheceram (cf. Jo 1,11), manifesta-se aos pagãos, representados pelos magos. Veio para todos. É o universalismo da salvação de Deus manifestado em Jesus de Nazaré.

A estrela de que fala o texto simboliza os sinais pelos quais Deus nos fala. Ele se manifesta de muitas formas. É preciso estar com o “coração no alto”. Esse olhar para cima, para o céu quer indicar a vida de oração, de intimidade com o Pai que nos ajuda a perceber os caminhos pelos quais devemos caminhar. Herodes e os habitantes de Jerusalém, levando uma vida perversa e ambiciosa, criaram em torno de si uma nuvem tão espessa que impediu o brilho da estrela sobre a cidade. Somente depois que saíram da cidade é que a estrela foi novamente vista pelos magos. O que lhes causou grande alegria. A alegria da luz de Deus que ilumina e fortalece o coração do justo.

Quando o relato diz que os magos tomaram outro caminho de volta para sua pátria, o texto quer-nos dizer que é preciso ter coragem de assumir um caminho novo. Trata-se da conversão. Converter-se é mudar de trajetória, de rota. É ter coragem de assumir um novo modo de viver. E isso se dá a partir do encontro com o Senhor. Foi o que aconteceu aos magos. Aquele encontro com o Senhor da vida, reclinado na manjedoura, foi tão decisivo e envolvente que os levou a assumir um caminho novo em defesa da vida ameaçada por Herodes. O caminho de conversão nos faz contrapor-nos aos ameaçadores da vida. É preciso ter coragem de enfrentar aqueles que buscam “matar o menino”. Aqueles que querem tirar a vida a todo custo. Aqueles para quem o dinheiro vale mais do que a vida. Aqueles para quem o crescimento econômico tem prioridade sobre a saúde da população.

Talvez fosse oportuno perguntar-nos: minha postura é de defesa de Jesus que sofre e morre nas vítimas da violência, da fome e do descaso com saúde pública, ou por Herodes cujo espírito de morte está presente em várias autoridades de nosso País? Estou com Herodes ou estou com Jesus?

Que a Luz resplandecente que brota do presépio nos envolva e nos faça missionários transformados por esse Mistério que nos arrebata e faz de nós pessoas renovadas para a missão.

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NÃO TER MEDO DA LUZ

Esta festa, outrora celebrada no dia 06 de janeiro, dia dos Santos Reis (Natal das Igrejas Orientais), quer nos ajudar a entender que Aquele cujo nascimento celebramos no Natal veio para todos os povos. É a Luz que ilumina as nações. Deus não veio salvar um só povo, mas todas as pessoas de todos os tempos e lugares.

O evangelho de Mateus termina com o envio dos discípulos para evangelizar “todas as nações” (Mt 28, 19). E no início ele traz o relato da visita dos Reis Magos, prefigurando exatamente isso. Os doutores de Jerusalém sabiam onde devia nascer o Messias, mas a estrela da fé não os conduzia até lá. Daqui se depreende que não basta conhecer com a inteligência. O coração precisa crer e se inclinar para os sinais dos tempos. Herodes e os doutores não viram a estrela porque estavam ofuscados pelo brilho de sua vaidade. Um modo de vida no palácio que escondia os sinais reveladores de Deus que oculta estas coisas aos sábios e entendidos e as revela aos pequeninos (cf. Mt 11, 25). Junte-se a isso a sede de poder de Herodes, que vê na indicação da profecia, uma ameaça à sua condição de rei e senhor.

É bom ainda observarmos o medo que toma conta de Herodes: manda matar as crianças da redondeza de Belém. O medo de perder o poder faz-nos matar aqueles pelos quais nos sentimos ameaçados: uma palavra difamatória e arrogante, um gesto ofensivo, uma atitude de indiferença, fuga de responsabilidades, decisões políticas visando a vantagens pessoais etc.

Além disso, quantas crianças vítimas da fome, dos maus-tratos, da exploração. Investe-se pesado em armamento, em reformas de apartamentos públicos luxuosos que atendem aos interesses mercadológicos e vaidosos de seus moradores, enquanto que a educação, a saúde e o cuidado com os pequenos ficam relegados a segundo plano. Mesmo dentro de nossas comunidades: investimos muito recurso econômico em obras, reformas, objetos litúrgicos caríssimos ou em atividades que são vistosas, e investimos pouco em atividades sociais e missionárias que atendem às reais necessidades das crianças, dos idosos ou dos pobres e sofredores.

Peçamos ao Senhor que nos ajude a nos comprometermos na construção de um mundo mais humanizado, mais solidário, mais comprometido com os pequeninos do Reino. Todos aqueles que se empenham pela vida cabem dentro do projeto salvador de Deus. Precisamos nos unir mais em parcerias, a partir de nossas próprias comunidades e pastorais, e também com outras entidades que lutam pela vida do ser humano e do planeta, para que a luz brilhe para todos trazendo a esperança que supera o medo, o amor que supera o ódio, o serviço que vence a sede de poder e a partilha que supera a ganância de ter sempre mais.

As pessoas de boa vontade encontram Jesus, mas os que vivem em função de seu próprio interesse (Herodes e companhia) têm medo de encontrá-lo: “Quem faz o mal odeia luz e não vem para a luz, para que suas obras não sejam demonstradas como culpáveis. Mas quem pratica a verdade vem para a luz, para que se manifeste que suas obras são feitas em Deus” (Jo 3, 20-21).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

O salto confiante da fé

aureliano, 25.10.24

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30º Domingo do Tempo Comum [27 de outubro 2024]

   [Mc 10,46-52]

Entender o que Jesus queria ensinar não foi tarefa fácil para seus discípulos. Os evangelhos mostram a dificuldade de compreensão por parte daqueles que ele chamara a seu seguimento a respeito da dinâmica do Reino de Deus.

No último domingo vimos Tiago e João disputando os primeiros lugares. Jesus, por sua vez, lhes dá a lição: “Vós sabeis que os chefes das nações as oprimem e os grandes as tiranizam. Mas entre vós não deve ser assim” (Mc 10,42-43). Os discípulos mantinham uma incompreensão em relação à missão messiânica de Jesus. Estavam cegos. O relato de hoje vem mostrar, no cego Bartimeu, o estado de cegueira dos discípulos.

Jesus está a caminho de Jerusalém, onde deve entrar triunfalmente, antes de morrer. O caminho é para a morte, mas a entrada é triunfal. Um triunfo que por um lado revela a messianidade de Jesus, e, por outro, o equívoco da multidão em relação à missão do Filho de Deus. O relato de Marcos, colocando essa situação do cego Bartimeu exatamente nessa altura do evangelho, reveste-se de um significado profundo: aquele cego representa os discípulos de Jesus e o “salto” (“deixando sua capa, levantou-se = deu um salto”) que precisam ainda dar, bem como a cegueira de que precisam se curar.

Para aquele homem tudo ao seu redor era noite. Não vê nada! Mas ele ‘ouve’ uma luz. Surge uma possibilidade. E quanto mais o repreendiam, mais ele gritava! E Jesus, ouvindo seus clamores diz: “Chamai-o”. Esse chamado de Jesus remete a tantos chamados que o Senhor faz. Esse homem não via, mas ouvia. Estava atento aos sinais do Senhor. Por isso ouviu o ‘chamado’. Em meio a tantas “vozes” mundanas, não é fácil distinguir qual é a voz de Jesus!

Interessante notar que, enquanto alguns o repreendiam, outros o animavam: “Coragem, levanta-te, Jesus te chama!” Vejam a importância de se ter alguém que encoraje, que anime. Na comunidade é assim também: há pessoas que não querem o crescimento do irmão. Humilham, diminuem, marginalizam. Por outro lado, há também aqueles que transmitem esperança e coragem. É destes que precisamos nos aproximar. É nesses que devemos nos inspirar.

Os gestos realizados pelo cego revestem-se de uma riqueza maravilhosa! São três: “O cego jogou o manto, deu um pulo e foi até Jesus”. O que isso significa? Aquele manto era o lugar em que o mendigo dormia, se sentava, recolhia as esmolas etc. Era sua “casa”. Jogar o manto é romper com o passado, com o comodismo. É deixar aquela vida medíocre de esmoler, de dependência e assumir sua própria vida. Mais. Ser cego, na cultura daquele tempo, era ser castigado por Deus. O cara não podia ler as Sagradas Escrituras. Não podia caminhar até o Templo ou à sinagoga. Então era tido como uma escória social, totalmente discriminado, marginalizado. E “saltar” em direção a Jesus significa deixar este estado de ‘homem velho’, na expressão de São Paulo, e assumir uma vida nova.

Vejam que ele salta ainda cego, antes de receber a cura. É o salto da fé. Esta nos coloca num estado de esperança, de confiança. É um salto no escuro! Mas sabendo que não se há de ser desamparado. Há Alguém que nos acolhe, nos ampara, não nos deixa cair e nos dá a vida nova. Este homem encontra a salvação por causa de sua fé.

O terceiro gesto, também é muito significativo. Complementa o segundo. “Foi até Jesus”. É o gesto da confiança, da simplicidade, da humildade, do caminho percorrido. Ele sabe que Jesus poderá dar-lhe a visão. Jesus era a única pessoa que poderia fazê-lo enxergar. E a palavra de Jesus unida à sua fé, devolveu-lhe a visão. Quem se aproxima de Jesus, deixando de lado as coisas, o desejo de posse, o comodismo, buscando assumir um caminho novo, certamente enxergará o mundo de uma forma nova, como Deus o vê. Enxergará o irmão!

E, finalmente, o coroamento. Aonde o evangelho quer chegar: “... ele foi seguindo Jesus pelo caminho”. Aquilo que faltava aos discípulos se realizou no cego Bartimeu. Os discípulos estavam como que cegos. Não conseguiam enxergar quem era Jesus. Estavam na procissão, mas não sabiam para quê. Os interesses escusos dos discípulos os colocavam em situação de trevas. Ainda mais: o medo e a falta de compreensão do projeto do Pai levavam-nos a ter atitudes egoístas e infantis.

O cego Bartimeu nos dá também a grande lição de que não podemos deixar passar a oportunidade da “passagem de Deus” pela nossa vida. Nem os opositores, nem o manto, nem a própria cegueira o impediram de lançar-se à busca de uma nova vida. Por isso foi salvo. A presença graciosa de Jesus transformou seu comodismo e seus medos em coragem, ousadia e nova visão de mundo. É o que acontece com quem se aproxima de Jesus e se deixa transformar por ele.

“Senhor, tu tens palavra de vida e de amor! Tu és a luz dos olhos meus! Brilhe essa luz nos passos meus seguindo os teus! Ajuda-me a deixar para trás o fechamento, os preconceitos, a dureza de coração e de mente. Abre meus olhos e meu coração ao teu amor para ajudar a tantas pessoas que vivem na escuridão da ganância e da mentira, da sede do poder e do ter, do desejo de fazer do semelhante um objeto em suas mãos. Dá-me um pouco de tua luz a fim de que, iluminado, possa também iluminar as situações de morte, de violência, de miséria, de insensibilidade, de indiferença e de mesquinhez que assolam nosso mundo. Jesus, tu és a luz, tu és o caminho, tu és a água viva que preenche o vazio do meu coração e me coloca em movimento de misericórdia e de perdão, de acolhida e de construção de um mundo mais justo humano e fraterno, na paz e no bem”.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

Quem vive na luz não teme as trevas

aureliano, 08.03.24

4º Domingo da Quaresma [10 de março de 2024]

4º Domingo da Quaresma B.JPG

 [Jo 3,14-21]

O contexto do evangelho de hoje é a conversa de Jesus com Nicodemos, um homem estranho, embora notável entre os judeus, que entra em cena de repente, e desaparece de repente. A resposta de Jesus a ele e o contexto da liturgia quaresmal – preparação para o batismo e vida batismal – nos ajuda a entender o que significa o batismo: “Ninguém, a não ser que nasça da água e do Espírito, pode entrar no Reino de Deus” (Jo 3,5).

É interessante notar, em primeiro lugar, o fato de Nicodemos ter procurado Jesus “de noite”.  Nicodemos representa o discípulo que começa a sair das trevas para entrar na luz, por isso procura Jesus “de noite”, isto é, nas trevas dos conflitos e desafios da vida. E Nicodemos realiza o encontro desejado. Por isso não entra mais em cena, pois encontrou aquele a quem buscava. E Jesus continua seu discurso mostrando que é preciso deixar as trevas e se aproximar da luz.

Crer num homem crucificado, abandonado, considerado maldito por Deus não é algo simples. Nós estamos acostumados com cruzes por todo canto. Inclusive nas salas de órgãos públicos brasileiros vemos o crucificado presenciando cada atitude que traz pavor e vergonha aos cristãos e não-cristãos honestos e sérios. Porém raramente paramos para refletir sobre o significado deste objeto sagrado. Referindo-se à cruz, diz o Papa Francisco: “A cruz não é um ornamento, que nós devemos meter sempre nas igrejas sobre o altar. Não é um símbolo que nos distingue dos outros. A Cruz é o mistério, o mistério do amor de Deus, que se humilha a si próprio, faz-se um nada, faz-se pecado. O perdão que nos dá Deus são as chagas do seu Filho na Cruz, erguido na Cruz. Que Ele nos atraia para Si e que nós nos deixemos curar”.

“... Assim, é necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna” (Jo 3, 15). Aquele que veio “como Luz” está crucificado! Suas mãos não podem mais tocar os leprosos. Seus braços não podem abraçar as crianças. Seus olhos estão impedidos de olhar, com ternura, para os pecadores e as prostitutas. Seus ouvidos não ouvem mais o grito do cego de Jericó ou clamor da Cananéia. Um homem de dores, pendurado num madeiro, vítima da maldade, para eliminar, para sempre, do coração humano, toda maldade e violência.

Jesus mostra, no relato de hoje, a face amorosa do Pai que “não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e viva”. Não veio para condenar, mas para salvar. Corremos o risco de anunciar Deus como um juiz implacável, irado contra a humanidade. Por vezes assumimos o posto de juiz de vivos e de mortos. Sentamos na cadeira de juiz enquanto Jesus deitou-se numa cruz. Colocou-se do lado dos injustiçados e condenados, desde o seu nascimento, quando não encontrou lugar na hospedaria.

 “Quem nele crê não é condenado”. Crer em Jesus é assumir seu modo de viver. É arcar com as consequências da fé cristã. Fé é dom de Deus. Salvação é graça. “É pela graça que fostes salvos mediante a fé. E isso não vem de vós; é dom de Deus! Não vem das obras para que ninguém se orgulhe” (Ef 2,8). Pe. Konings diz que “não fomos salvos pelas obras, mas para as obras”. Ou seja, as obras encarnam nossa fé. Tiago diz que “a fé sem obras é morta” (Tg 2,26). Nosso relacionamento com Deus não é comercial (nem doutrinal, como querem alguns), mas vivencial, experiencial. Nossa relação com Deus se deve dar na gratuidade e não como compra e venda dos dons de Deus, ou na mera observância formal de uma lei ou doutrina.

A salvação depende também da acolhida que lhe faz o ser humano. Deus não salva ninguém à força. Nesse sentido a salvação é dom e tarefa, graça e liberdade. Há pessoas que rejeitam a salvação, que se recusam a aproximar-se da luz, exatamente para que suas ações más não sejam conhecidas. “Quem pratica o mal odeia a luz e não se aproxima da luz, para que suas ações não sejam denunciadas” (Jo 3,20). A vida de Jesus, que é luz, mostra por onde anda aquele que dele se aproxima.  Quem “pratica a verdade”, ou seja, quem procura viver como Jesus, na justiça, na honestidade, na solidariedade, no serviço generoso aos irmãos, “aproxima-se da luz para que se manifeste que suas ações são realizadas em Deus” (Jo 3,21).

Um respeitado teólogo jesuíta, Mário de França Miranda, diz o seguinte a propósito da inculturação da fé: “A iniciativa salvífica de Deus só chega à sua meta quando é livremente acolhida pelo ser humano na fé. Só temos propriamente revelação ou Palavra de Deus no interior de uma resposta de fé, ela mesma fruto da ação de Deus em nós. Portanto, o acolhimento na fé é parte constitutiva da revelação; sem ela os eventos salvíficos seriam meros fatos históricos, a Palavra de Deus seria palavra humana e a pessoa de Jesus Cristo nos seria desconhecida, como o foi para os fariseus de seu tempo” (A reforma de Francisco, p. 64).

Aproximando-nos da Luz, que é Jesus, somos aquecidos, iluminados, transformados por ele. Tornamo-nos mais parecidos com ele. Então nossa presença junto à família, à comunidade, àqueles que Deus colocou no nosso caminho será uma presença de luz. “Brilhe vossa luz diante dos homens para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a Deus Pai” (cf Mt 5,16). Essa luz não é autógena, fruto de esforço pessoal, mas luz que foi infundida por Deus em nós no batismo e, uma vez acolhida, deve ser levada aos outros.

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A Campanha da Fraternidade desse ano quer nos ajudar a desenvolver a arte do diálogo como instrumento de paz e de unidade na Igreja e na sociedade. A segunda leitura deste domingo nos recorda que fomos salvos pela Graça do Pai (Ef 2,5). Portanto, a salvação é dom de Deus (Ef 2,8). Esse dom não é somente nosso, mas deve se multiplicar na vida da humanidade pela nossa ação missionária, construindo fraternidade. Amizade social é alargar nossa tenda para abrigar aqueles que talvez sejam desafetos nossos, mas precisam de u’a mão que os ampare, de uma luz que os ilumine, de um ombro que acolha seus soluços, de um ouvido que os escute com respeito sem julgamento e condenação, de um coração que saiba compreendê-los e amá-los. Amizade social não é compactuar com o malvado, mas dar-lhe oportunidade de deixar o caminho do mal e aprender a fazer o bem. Amizade social é abrir nossos horizontes para compreender e acolher quem pensa diferente de nós, quem professa uma fé diferente da nossa, quem faz opções diferentes das nossas. Amizade social é ser resiliente, é ser tolerante, é ter identidade de fé e de vida que possibilita diálogo e acolhida. Amizade social é deixar que o outro seja, é dar-lhe espaço, é deixá-lo falar, se manifestar, dizer o que pensa e deseja, tudo dentro do respeito, da compreensão e do perdão. Nosso empenho deve ser sempre construir pontes à semelhança de Jesus. Ele que “sempre se mostrou cheio de misericórdia pelos pequenos e pobres, pelos doentes e pecadores, colocando-se ao lado dos perseguidos e marginalizados” (Prefácio da Oração Eucarística VI-D).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

Santos Reis: uma busca de novos caminhos

aureliano, 06.01.24

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Epifania do Senhor [07 de janeiro de 2024]

[Mt 2,1-12]

A solenidade que celebramos hoje é uma festa popularmente chamada de “Santos Reis”. Caiu bem no imaginário popular a cena pintada por Mateus sobre a visita que os Magos fizeram a Jesus por ocasião do seu nascimento. O quadro é deveras bonito. Mas é bom lançarmos um olhar com mais profundidade, pois aí se esconde um grande Mistério.

Primeiro não podemos ler a cena do evangelho de hoje como um relato jornalístico. Os fatos certamente não se deram historicamente tais como estão narrados. A leitura deve ser feita numa ótica de fatos interpretados teologicamente. Mateus pretende dar uma catequese para a comunidade. Vamos então tomar os pontos essenciais e tentar descobrir o que Deus nos está revelando de novo nesta Palavra da festa de hoje.

O fato de relatar Belém como local do nascimento de Jesus parece mostrar que Mateus quer convencer alguns que não podiam acreditar que o Messias pudesse nascer em Nazaré pelo fato de as Escrituras prometerem que sairia de Belém, a cidade de Davi. Belém é “casa do pão”. O Pão da vida que veio alimentar a humanidade dá-se em alimento num coxo onde os animais comiam. O alimento, o pão que ali se encontra, veio para saciar a fome da humanidade.

Os magos não eram necessariamente adivinhos, mas estudiosos dos astros. Dizem os entendidos da cultura e história daquela época que, por ocasião do nascimento de pessoas importantes, uma estrela avisava. Mateus vale-se da crença para mostrar que Alguém nasceu e foi visto através de uma estrela.

A visita e adoração dos magos contrapõem-se ao orgulho de Herodes e de todo o Israel que se recusou a dobrar a cerviz à Palavra que se fez carne no seio de Maria. Considerava inadmissível que Deus pudesse nascer tão pobre e simples. Ademais se sentia ameaçado pelo “rei dos judeus” que acabara de nascer. Uma vez que aqueles para quem ele veio não o reconheceram (cf. Jo 1,11), manifesta-se aos pagãos, representados pelos magos. Veio para todos. É o universalismo da salvação de Deus manifestado em Jesus de Nazaré.

A estrela de que fala o texto simboliza os sinais pelos quais Deus nos fala. Ele se manifesta de muitas formas. É preciso estar com o “coração no alto”. Esse olhar para cima, para o céu quer indicar a vida de oração, de intimidade com o Pai que nos ajuda a perceber os caminhos pelos quais devemos caminhar. Herodes e os habitantes de Jerusalém, levando uma vida perversa e ambiciosa, criaram em torno de si uma nuvem tão espessa que ofuscou o brilho da estrela sobre a cidade. Somente depois que saíram da cidade é que a estrela foi novamente vista pelos magos. O que lhes causou grande alegria. A alegria da luz de Deus que ilumina e fortalece o coração do justo.

Quando o relato diz que os magos tomaram outro caminho de volta para sua pátria, o texto nos quer dizer que é preciso ter coragem de assumir um caminho novo. Trata-se da conversão. Converter-se é mudar de trajetória, de rota. É ter coragem de assumir um novo modo de viver. E isso se dá a partir do encontro com o Senhor. Foi o que aconteceu aos magos. Aquele encontro com o Senhor da vida, reclinado na manjedoura, foi tão decisivo e envolvente que os levou a assumir um caminho novo em defesa da vida ameaçada por Herodes. O caminho de conversão nos faz contrapor-nos aos ameaçadores da vida. É preciso ter coragem de enfrentar aqueles que buscam “matar o menino”. Aqueles que querem tirar a vida a todo custo. Aqueles para quem o dinheiro vale mais do que a vida. Aqueles para quem o crescimento econômico tem prioridade sobre a saúde da população.

Que a Luz resplandecente que brota do presépio nos envolva e nos faça missionários transformados por esse Mistério que nos arrebata e nos faz pessoas renovadas para a missão. Que o Senhor nos dê a graça da coragem de assumirmos caminhos novos de uma verdadeira conversão.

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NÃO TER MEDO DA LUZ

Esta festa, outrora celebrada no dia 06 de janeiro, dia dos Santos Reis (Natal das Igrejas Orientais), quer nos ajudar a entender que Aquele cujo nascimento celebramos no Natal veio para todos os povos. É a Luz que ilumina as nações. Deus não veio salvar um só povo, mas todas as pessoas de todos os tempos e lugares.

O evangelho de Mateus termina com o envio dos discípulos para evangelizar “todas as nações” (Mt 28, 19). E no início ele traz o relato da visita dos Reis Magos, prefigurando exatamente isso. Os doutores de Jerusalém sabiam onde devia nascer o Messias, mas a estrela da fé não os conduzia até lá. Daqui se depreende que não basta conhecer com a cabeça. O coração precisa crer e se inclinar para os sinais dos tempos. Herodes e os doutores não viram a estrela porque estavam ofuscados pelo próprio brilho. Uma vaidade tal que escondia os sinais reveladores de Deus que oculta estas coisas aos sábios e entendidos e as revela aos pequeninos (cf. Mt 11, 25). Junte-se a isso a sede de poder de Herodes, que vê na indicação da profecia, uma ameaça à sua condição de rei e senhor.

É bom ainda observarmos o medo que toma conta de Herodes: manda matar as crianças da redondeza de Belém. O medo de perder o poder, o sucesso, o dinheiro faz-nos matar aqueles pelos quais nos sentimos ameaçados: uma palavra difamatória e arrogante, um gesto ofensivo, uma atitude de indiferença, fuga de responsabilidades, decisões políticas visando a vantagens pessoais com grave prejuízo para os pobres etc.

Além disso, quantas crianças vítimas da fome, dos maus-tratos, da exploração, de abusos sexuais! Investe-se pesado em armamento, em reformas de apartamentos públicos luxuosos que atendem aos interesses mercadológicos e vaidosos de seus moradores, enquanto que a educação, a saúde e o cuidado com os pequenos ficam relegados a segundo plano. Mesmo dentro de nossas comunidades: investimos muito recurso econômico em obras, reformas, objetos litúrgicos caríssimos ou em atividades que são vistosas, e investimos pouco em atividades sociais e missionárias que atendem às reais necessidades das crianças, dos idosos, doentes ou dos pobres e sofredores.

Peçamos ao Senhor que nos ajude a nos comprometermos na construção de um mundo mais humanizado, mais solidário, mais comprometido com os pequeninos do Reino. Todos aqueles que se empenham pela vida cabem dentro do projeto salvador de Deus. Precisamos nos unir mais em parcerias, a partir de nossas próprias comunidades e pastorais, e também com outras entidades que lutam pela vida do ser humano e do planeta, para que a luz brilhe para todos trazendo a esperança que supera o medo, o amor que supera o ódio, o serviço que vence a sede de poder e a ganância de ter sempre mais.

As pessoas de boa vontade encontram Jesus, mas os que vivem em função de seu próprio interesse (Herodes e companhia) têm medo de encontrá-lo: “Quem faz o mal odeia luz e não vem para a luz, para que suas obras não sejam demonstradas como culpáveis. Mas quem pratica a verdade vem para a luz, para que se manifeste que suas obras são feitas em Deus” (Jo 3, 20-21).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN