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aurelius

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A identidade do cristão

aureliano, 22.04.16

5º Domingo da Páscoa [24 de abril de 2016]

[Jo 13,31-33a.34-35]

O contexto do evangelho de hoje é de despedida. Em breve os discípulos já não estarão mais com o Mestre. Acaba de lhes lavar os pés. Judas já tinha colocado no coração o propósito de entregá-lo. Mas Jesus não perde a serenidade e a ternura: “Meus filhinhos!”. Ele quer que fiquem gravados no coração dos discípulos seus últimos gestos e palavras.

Quando uma pessoa lúcida e serena sente chegar seu fim, costuma chamar os seus e fazer-lhes a recomendação final. Dá-lhes o testamento. Foi o que Jesus fez: deu aos discípulos “um mandamento novo: como eu vos amei, amai-vos uns aos outros”. Se os discípulos se amarem uns aos outros com aquele amor de Jesus, eles o sentirão sempre presente no meio deles.

Onde está a novidade do mandamento de amar o próximo, uma vez que já se encontrava na Escritura (Lv 19,18)? Também já se difundia a prática da filantropia entre os povos. O que há de novo no mandamento de Jesus? Certamente é aquele “como eu vos amei”. No início deste mesmo capítulo lemos: “Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que a sua hora tinha chegado, a hora de passar deste mundo para o Pai, ele, que amara os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). O amor de Jesus se estende até às últimas conseqüências. É um amor de oferenda, de ágape.

Esse jeito de amar começou a se difundir entre os seus discípulos. E contagiava os circunvizinhos. Por isso lemos nos Atos dos Apóstolos: “Foi em Antioquia que os discípulos foram designados pela primeira vez com o nome de cristãos” (At 11,26). Porque a comunidade reconheceu neles a mesma ação de Jesus: seguidores de Cristo. E lemos em outro lugar a admiração dos pagãos: “Vejam como eles se amam!”.

Este amor vivido e proposto por Jesus gera uma nova forma de vida. Não fecha a comunidade em si mesma. Ela se abre a novos horizontes de relação. Ninguém se coloca acima de ninguém. Há respeito mútuo, colaboração, fraternidade. Cria-se um clima de simplicidade, de pequenez, de igualdade. Na comunidade inspirada em Jesus não são os pequenos que atrapalham, mas os grandes.

Por isso Jesus vai indicar a carteira de identidade do cristão: “Nisto todos reconhecerão que sois meus discípulos: no amor que tiverdes uns para com os outros”. O que irá permitir reconhecer se uma comunidade é verdadeiramente cristã não será a confissão de uma doutrina, nem seus ritos e disciplinas, mas se ela vive o amor com o espírito de Jesus. É a carteira de identidade cristã.

É certo que vivemos numa sociedade avessa à prática do amor gratuito, generoso. Há trocas de sentimentos, de carícias, de presentes, de corpos, de amizade. Mas quando se exige doação, entrega, oferenda, dificilmente encontramos alguém que se disponha a fazê-lo. Uma coisa é certa: não é possível viver esse mandamento de Jesus sem rompimento com a sociedade egoísta e interesseira que nos cerca. O estilo de vida tem que mudar.

Quando olhamos para nossa Igreja em crise de identidade, com dificuldade de penetrar nas estruturas e culturas contemporâneas, podemos concluir que não se trata simplesmente de uma sociedade perversa, mas porque, por vezes nos falta a nós cristãos aquela atitude assumida e vivida por Jesus. Falta-nos o distintivo cristão.

Falamos muito de amor. Quando olhamos para Jesus e contemplamos suas atitudes, notamos que ele viveu o amor como algo incorporado em seu existir. Gestos de amor, brotados de um coração que ama, capaz de recriar as pessoas, de perdoar, de acolher, de lutar contra tudo o que desumanizava e fazia sofrer o ser humano. E nós...?

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN