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Pedro, a rocha; Paulo, a missão: complementaridade

aureliano, 27.06.20

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Solenidade de São Pedro e São Paulo [28 de junho de 2020]

[Mt 16,13-19]

Hoje se celebram na Igreja duas vocações distintas e complementares: Pedro governa as responsabilidades da evangelização. Alguns o identificam com o fundamento institucional da Igreja. Jesus lhe dá o nome de Pedro que significa “pedra”, “rocha”. Sobre sua profissão de fé a comunidade é edificada. Cefas, Kepha significa gruta escavada na rocha. Nessa gruta os pobres ou os animais se escondem e/ou moram. Aí é o lugar do cuidado, da proteção, da geração da vida. A Igreja torna-se, pois, o lugar privilegiado do cuidado da vida. É a caverna rochosa onde os pequeninos do Reino encontram abrigo e cuidado.

Pedro recebe o “poder das chaves”, isto é, o serviço de administrador da comunidade. Recebe também o poder de “ligar e desligar”, isto é, o poder da decisão, da responsabilidade pastoral para orientar os fiéis no caminho de Cristo. Esse ministério é confirmado por outros textos: “Confirma os teus irmãos” (Lc 22, 31). “Apascenta os meus cordeiros” (Jo 21, 15). É a intenção clara de Jesus em prover o futuro da Igreja.

Paulo é o fundador carismático da Igreja. Aquele que se preocupa com a ação missionária da Igreja. Tem a preocupação de anunciar além-mar. Por isso é cognominado “Apóstolo das Gentes”. Representa a criatividade missionária. Vai para além do institucionalizado. Rompe com normas e leis que prendem o evangelho: Verbum Dei non est alligatum – “A palavra de Deus não está algemada” (2 Tm 2,9).

A complementaridade desses dois carismas fundadores da Igreja continua atual: a responsabilidade institucional e a criatividade missionária. Alguém deve responder pela instituição, pois esta dá suporte ao missionário. Por outro lado, alguém tem que “pisar no acelerador” da missão, sem se prender muito, para que a missão não fique refém de normas rígidas e anacrônicas. O novo desafia o institucionalizado e o atualiza. A tensão entre ambos é que mantém acesa a chama da missão.

Nesse “dia do Papa” seria bom reaquecermos nossa veneração à pessoa do Papa, sucessor de Pedro. Ele é o sinal da unidade e da caridade da Igreja. Com os limites que são próprios ao ser humano, ele continua sendo o sucessor de Pedro, o Bispo de Roma, reconhecido pela Igreja, desde a antiguidade, como aquele que “preside a assembléia universal da caridade” (Santo Inácio de Antioquia , século II).

O que importa nessas considerações é sermos pessoas que, como Pedro e Paulo, tenham a coragem de doar a vida pela causa do Reino de Deus. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas. Eles se doaram até ao sangue.  E nós? Onde estamos na doação, na entrega, na missão? Como zelamos pela nossa Igreja? Como anda nossa identidade cristã e católica frente às afrontas e desrespeito ao evangelho, à vida e à Igreja? Até que ponto sou comprometido com minha comunidade eclesial?

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Pedro e Paulo: coragem e fidelidade batismal

São Pedro e São Paulo coroam o mês de junho e as festas juninas. É interessante notar que não se trata somente de festas populares, mas há uma espiritualidade subjacente a esses momentos dentro de nossas comunidades. A alegria, o encontro, a dança, as manifestações da piedade popular, as celebrações... Claro que, em grande medida, as festas são mais pagãs do que cristãs. Muitos se valem destas festividades para lucrar muito dinheiro e garantir “curral eleitoral”. Outros se entregam à bebida e às drogas, desvirtuando o clima de alegria, confraternização e celebração da comunidade. Mas não podemos deixar morrer o sentido original e cultural destas festividades. Ainda mais: deve ficar a mensagem de que os santos mais populares deste mês: Santo Antônio, São João e São Pedro, são homens que viveram para Deus e testemunharam com sua vida a fé que professaram em Jesus Cristo.

Hoje, ao celebrarmos São Pedro e São Paulo, solenizamos as duas colunas da Igreja. "Pedro, o primeiro a proclamar a fé, fundou a Igreja primitiva sobre a herança de Israel. Paulo, mestre e doutor das nações, anunciou-lhes o Evangelho da Salvação. Por diferentes meios, os dois congregaram à única família de Cristo e, unidos pela coroa do martírio, recebem, por toda a terra, igual veneração" (Prefácio da missa). Pedro representa a Igreja institucional, é a "Pedra" que recebe a incumbência de "confirmar os irmãos", enquanto Paulo representa o carisma missionário, atravessa mares e desertos para anunciar a Boa Nova do Reino, formando novas comunidades cristãs.

A profissão de fé de Pedro é a base da comunidade cristã: "Tu és o Cristo, o filho de Deus vivo". É nessa fé que a Igreja se firma e caminha. É o Espírito que sustenta a caminhada da Igreja. Ela não se instituiu sobre "carne e sangue", mas no Amor gratuito do Pai revelado na entrega livre do Filho pela salvação da humanidade (cf. Jo 10,18).

As "chaves do Reino" que são confiadas a Pedro devem sempre abrir as cadeias e algemas daqueles que estão dominados pelo mal. Quanta gente presa nas amarras da mentira, da ambição, da corrupção, do ódio, do preconceito, do medo, da enganação! Nosso mundo precisa, cada vez mais,  das "chaves do Reino" para abrir-se a mais partilha, mais sentido de vida, mais perdão, mais fraternidade, mais respeito, mais equidade e compreensão.

Quando lançamos um olhar de fé sobre esses dois homens cuja solenidade celebramos hoje, percebemos quão distantes ainda estamos da vivência de uma fé autêntica, corajosa, testemunhal!

Pedro foi encarcerado por causa da fé! Levou às últimas consequências sua profissão de fé: "Tu és o Cristo". Paulo também foi preso, ameaçado e perseguido pelos de dentro e pelos de fora. Mas levou até ao fim sua missão: "Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. (...) O Senhor me assistiu e me revestiu de forças, a fim de que por mim a mensagem fosse plenamente proclamada e ouvida por todas as nações" (2Tm 4, 6-7.17).

Até que ponto damos conta de sustentar nossa fidelidade ao Evangelho, levando às últimas consequências nosso batismo? Quais são as ilusões ou dificuldades que nos fazem desanimar, abandonar a missão, a comunidade? O que constitui o "conteúdo" de nossa vida: Jesus Cristo ou as vaidades e posses da sociedade capitalista e consumista? O que preciso deixar e o que preciso abraçar com mais vigor para ser verdadeiro discípulo como Pedro e Paulo?

Nesse dia a Igreja nos pede orações pelo Papa. Ele é o sucessor de Pedro. É ele que “preside a assembleia universal da caridade” (Santo Inácio de Antioquia) e é o sinal visível da unidade da Igreja. Peçamos ao Senhor que lhe dê muita luz para conduzir a Igreja pelos caminhos de Jesus. E lhe dê muita força e coragem para enfrentar os obstáculos e as resistências que essa sociedade e as situações difíceis que os "de dentro" lhe oferecem. E que tenha a sabedoria necessária para ajudar a Igreja a se abrir ao diálogo com o novo que surge a cada dia na fidelidade a Jesus e à sua missão.

O Papa Francisco tem surpreendido o mundo com seus gestos de simplicidade, de humildade, de acolhida, de uma palavra profética. Precisamos prestar mais atenção a seus ensinamentos. Ele nos aponta o verdadeiro caminho pelo qual a Igreja deve passar. Ele pede uma Igreja em saída para as periferias geográficas e existenciais. Uma presença e defesa dos mais pobres. “Prefiro uma Igreja acidentada, a uma Igreja doente por fechar-se”.

“A defesa do inocente nascituro, por exemplo, deve ser clara, firme e apaixonada, porque nesse caso está em jogo a dignidade da vida humana, sempre sagrada, e exige-o o amor por toda a pessoa, independentemente do seu desenvolvimento. Mas igualmente sagrada é a vida dos pobres que já nasceram e se debatem na miséria, no abandona, na exclusão, no tráfico de pessoas, na eutanásia encoberta de doentes e idosos privados de cuidados, nas novas formas de escravatura, e em todas as formas de descarte. Não podemos propor-nos um ideal de santidade que ignore a injustiça deste mundo, onde alguns festejam, gastam folgadamente e reduzem a sua vida às novidades do consumo, ao mesmo tempo que outros se limitam a olhar de fora enquanto a sua vida passa e termina miseravelmente” (Gaudete et Exsultate, 101).

 Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Felizes os pobres

aureliano, 27.01.17

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4º Domingo do Tempo Comum [29 de janeiro de 2017]

[Mt 5,1-12]

Esse trecho do evangelho, início do Sermão da Montanha, é uma síntese do ensinamento de Jesus. E a primeira bem-aventurança sintetiza todas as outras: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5, 3).

Quando lançamos um olhar para nosso mundo, notamos que há muita gente vivendo na miséria: muitos buscam alimento no lixo; muitos morrem nas filas do SUS; muitos vivem em barracos que não protegem nem do sol nem da chuva. Será que Jesus está dizendo que essas pessoas são felizes porque vivem nessa miséria? Se Jesus estivesse querendo dizer isso estaríamos diante de um Deus mau, que vive e se alegra com a desgraça humana. Esse não pode ser o Deus que Jesus revelou!

O termo “pobre” designa aquele que vive na miséria, desprovido dos recursos materiais imprescindíveis à sobrevivência, esquecido pelas classes dirigentes, abandonado à sua própria sorte. Porém Mateus qualifica: “pobres em espírito”. Esse qualificativo, segundo o entendimento mais comum, designa a pessoa que coloca sua vida nas mãos de Deus, “deposita sua confiança em Deus”. São felizes não por serem pobres, mas porque o Reino dos Céus lhes pertence.

E quando Jesus propõe esse estilo de vida, ele o faz para todas as pessoas. De modo que, se todos os cristãos vivessem dessa forma, a distância social entre ricos e pobres diminuiria. O grande diferencial aqui é o Reino dos Céus. Na perspectiva de Jesus, a chegada do Reino transforma as relações: Deus torna-se o centro da vida das pessoas e não o dinheiro e o poder. Os pequeninos têm prioridade no atendimento, nos cuidados, na dedicação. Aqui está a razão da felicidade.

Quando lançamos um olhar sobre nosso país notamos que o Reino está bem distante. Os jogos políticos que temos visto nas várias esferas do poder público, mostram onde estamos. Ao perguntarmos se esses facínoras são cristãos, certamente a resposta será positiva, no sentido de pertencerem ou de terem pertencido a alguma Igreja. Mas se perguntarmos para qual reino trabalham, certamente dirão que trabalham pelo povo. Porém as atitudes mostram que visam, em primeiro lugar, ao próprio reino (bolso). Essas atitudes se reproduzem nas outras camadas sociais, pois o verme da ganância está no coração de ricos e pobres. É só aparecer uma oportunidade e já se manifesta esse câncer que transforma o irmão num objeto de lucro e de dominação.

Refletindo: procuro viver o ser pobre no sentido de que “estou nas mãos de Deus”? Como vejo e acolho aqueles que de mim se aproximam? Valorizo-os como iguais a mim ou me coloco acima deles? Estou convencido de que a felicidade não está no acúmulo de bens, mas na partilha, gratuidade e generosidade de coração?

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FELICIDADE EVANGÉLICA

Quem era feliz no tempo de Jesus? De acordo com a cultura religiosa da época, era feliz o homem (varão) que fosse casado com uma mulher que lhe correspondesse em tudo, tivesse muitos filhos (varões!), possuísse um pedaço de terra para cultivo e gado, gozasse de boa saúde para viver bem e longos anos, freqüentasse o Templo ou a Sinagoga para os deveres religiosos. Esse era o entendimento de felicidade para os judeus em geral.

Jesus, porém, tinha outro ideal, outra compreensão de felicidade. Não tinha mulher nem filhos, não possuía terra nem bens, vivia peregrinando em busca do bem e da felicidade dos outros. Seu projeto de vida e de felicidade consistia em devolver a alegria, a saúde, a paz aos sofredores. Ver os outros felizes: homens e mulheres. Instaurar o Reino de Deus. Não disse: “Felizes os piedosos, os que pagam o dízimo, os ricos e saudáveis...”. Não! Mas proclamou felizes os pobres, os puros, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os promotores da paz, os puros, os que choram, os perseguidos.

O caminho da felicidade traçado por Jesus está na contramão da proposta mundana. Isso não significa que ele despreze as coisas boas desta vida, nem deseje que a pessoa viva triste, emburrada, mal amada, infeliz. De jeito nenhum. Não foi isto que ele fez. Mas ele veio dizer e mostrar com sua vida que a felicidade não se reduz a conforto e posse de bens e nem é privilégio para alguns. É um estado de alma que deve ser experimentado por todos, indistintamente. Enquanto houver alguém excluído do banquete da vida, dos frutos da Criação, da alegria de viver, o discípulo de Jesus não pode repousar em paz. Enquanto houver refugiados e migrantes desabrigados e perseguidos, crianças exploradas e violentadas, idosos abandonados, doentes descuidados e jogados na periferia da vida, não podemos dormir em paz. Para Jesus, ser feliz é estar com o “coração no alto” e os pés no chão da vida dos irmãos que mais precisam. Foi assim que ele viveu. Está lançado o desafio!

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FÉ TESTEMUNHADA E VIVIDA

A seguir, julguei oportuno transcrever uma palavra do Papa Francisco, em visita a um colégio universitário, em junho de 2016.  Ilustra bem o relato do evangelho deste domingo.

“A tragédia das comunidades cristãs espalhadas pelo mundo: isto é verdade. Mas é o destino dos cristãos: o testemunho — retomo a palavra testemunho — até em situações difíceis. Eu não gosto, e pretendo dizê-lo claramente, de quando se fala de um genocídio dos cristãos, por exemplo no Médio Oriente: isto é reducionismo, é um reducionismo. A verdade é uma perseguição que leva os cristãos à fidelidade, à coerência na própria fé. Não façamos reducionismo sociológico daquilo que é um mistério da fé: o martírio. Os 13 creio que fossem egípcios cristãos coptas, hoje santos canonizados pela Igreja Copta — degolados no litoral da Líbia: todos morreram dizendo «Jesus, ajuda-me!». Jesus. Mas estou certo de que a maioria deles nem sequer sabia ler. Não eram doutores em teologia, não. Eram pessoas, como se diz, ignorantes, mas eram doutores de coerência cristã, isto é, eram testemunhas de fé. A fé faz-nos testemunhar muitas coisas difíceis na vida; também com a vida testemunhamos a fé. Mas não nos enganemos: o martírio cruel não é o único modo de testemunhar Jesus Cristo. É o máximo, digamos, heróico. É também verdade que hoje há mais mártires do que nos primeiros séculos da Igreja, é verdade. Mas há o martírio de todos os dias: o martírio da honestidade, o martírio da paciência, na educação dos filhos; o martírio da fidelidade ao amor, quando é mais fácil enveredar por outra estrada, mais escondida: o martírio da honestidade, neste mundo que se pode chamar também «o paraíso dos subornos», é tão fácil: «O senhor diga isto e terá isto», onde falta a coragem de lançar na cara o dinheiro sujo, num mundo onde muitos pais dão de comer aos filhos o pão manchado pelos subornos, aquele pão que eles compram com os subornos que ganham... Eis o testemunho cristão, eis o martírio: «Não, não quero isto!» — «Se tu não queres, não terás aquele trabalho, não poderás subir mais alto». O martírio do silêncio diante da tentação dos mexericos. Para um cristão — Jesus diz — não é lícito mexericar. Jesus diz que quem disser «estulto» ao irmão deve ir para o inferno. Sabeis que os mexericos são como a bomba dos terroristas, dos kamikazes — não de um kamikaze, de um terrorista, pelo menos o kamikaze tem a coragem de morrer também ele — não, os mexericos são quando eu lanço a «bomba», destruo alguém, e fico feliz. Mas o testemunho cristão é o martírio de cada dia, o martírio silencioso, e devemos falar assim. «Mas somos homens e mulheres martirizados, devemos ter o semblante triste, uma cara amuada». Não! Há a alegria da palavra de Jesus, como aqueles da praia da Líbia.

E é necessário coragem, e a coragem é um dom do Espírito Santo. O martírio, a vida cristã martirial, o testemunho cristão não se pode viver sem a coragem da vida cristã. São Paulo usa duas palavras para indicar a vida martirial cristã, a vida de todos os dias: coragem e paciência. Duas palavras. A coragem de ir em frente e não ter vergonha de ser cristãos e mostrar-se como cristãos, e a paciência de carregar nos ombros o peso diário, até as dores, os próprios pecados e as incoerências. «Mas, podemos ser cristãos com os pecados?». Sim. Somos todos pecadores, todos. O cristão não é um homem ou uma mulher com a assepsia dos laboratórios, não é como a água destilada! O cristão é um homem, uma mulher, capaz de trair o próprio ideal com o pecado, é um homem ou uma mulher frágil. Mas devemos reconciliar-nos com a nossa debilidade. E assim o nariz [o aspeto] torna-se um pouco mais humilde. Mais humilde”.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN