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Mãe de Deus, ensina-nos a ouvir a Palavra!

aureliano, 30.12.25

Santa Maria Mãe de Deus - 2020.jpg

Santa Maria, Mãe de Deus [1º de janeiro de 2026]

[Lc 2,16-21]

“Quanto a Maria, guardava todos esses fatos e meditava sobre eles em seu coração” (Lc 2,19). Esse relato já bastaria para mostrar como Maria, mãe de Jesus, foi uma mulher profundamente de Deus. Essa frase bastaria para buscarmos em Maria um exemplo de verdadeira discípula, mãe, mulher, íntima do Pai.

Mulher contemplativa, via, ouvia e se admirava dos acontecimentos. Sabia que tudo provinha do Pai. Meditava tudo em seu coração. Os acontecimentos em torno do Menino não eram motivo de orgulho, de vaidade, de vanglória. Eram motivo para colocar-se ainda mais no coração do Pai. Sem compreender o que estava acontecendo, lança-se confiante e silente no Mistério de Deus.

Ao celebrarmos, hoje, Maria Mãe de Deus, valem aqui algumas considerações a respeito desse dogma da Igreja.

Dogmas são como que placas a indicar o caminho da nossa fé. Metaforicamente funcionam como balizas, olhos-de-gato, arrimos e proteção. Os meio-fios de uma via são balizas que não fecham o caminho, mas indicam por onde se deve caminhar. No passado havia um exagero em relação aos dogmas, criando-se uma espécie de dogmatismo: muitas placas e pouco caminho. Hoje, após o Vaticano II, a Igreja fez uma purificação da estrada, tirando muita coisa que atrapalha, valorizando mais a Palavra de Deus e a experiência de vida de cada um, dialogando de maneira mais aberta. Deste modo ela não abre mão das verdades que acredita, distinguindo o núcleo entre aquilo de que não pode abrir mão e aqueles elementos que evoluem com o tempo. Abre-se a possibilidade do diálogo que, ao contrário de negar os fundamentos da fé, favorece maior crescimento e amadurecimento da vida cristã e eclesial.

O dogma da Maternidade Divina de Maria foi definido pelo Concílio de Éfeso, no ano 431. A discussão era cristológica, isto é, girava em torno da divindade e humanidade de Jesus. Afirmando que Jesus é Deus e homem, concluiu o Concílio que Maria é Theotokos, ou seja, Genitora (Mãe) de Deus, porque é mãe de Jesus que é Deus.

Maria é mãe porque gerou e educou Jesus, o Filho de Deus. Em poucas cenas e palavras, mas profundamente significativas, os Evangelhos retratam Maria sempre atenta, fiel, humilde, generosa, acolhedora, solícita, aberta à vontade do Pai.

Ao confessar Maria Mãe de Deus, não estamos fazendo de Maria uma deusa, nem colocando-a como quarta Pessoa da Santíssima Trindade. Porém como Deus é comunidade de pessoas (Pai, Filho e Espírito Santo), Maria, mãe do Filho de Deus, toca cada pessoa da Trindade. É filha predileta e escolhida do Pai.  Como mãe, é figura do amor criador de Deus Pai. Em relação ao Filho, Maria é mãe, educadora, discípula e companheira. É também uma mulher cheia do Espírito do Senhor. Templo vivo de Deus. “Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança lhe estremeceu no ventre e Isabel ficou repleta do Espírito Santo” (Lc 1,41). Sua docilidade ao Espírito Santo explica sua maternidade biológica e seu coração aberto a Deus. “Feliz aquela que creu, pois o que lhe foi dito da parte do Senhor será cumprido” (Lc 1,45).

A comunidade-Igreja participa da maternidade de Maria. Ela gera novos filhos pela fé, pelo batismo, pelo testemunho do bem realizado em favor dos pequeninos do Reino. A comunidade é chamada a dar o aconchego de mãe àquele que sofre, que precisa de carinho, de educação, de cuidados, de pão. A ‘opção preferencial pelos pobres’ é uma das formas mais claras de a Igreja mostrar seu rosto materno: preocupando-se com aqueles que não têm moradia, que estão desempregados, que não têm pão, que estão doentes e sem cuidado, sem reconhecimento, cujos direitos essenciais lhes são negados, aqueles que estão na invisibilidade social e econômica. Coração de mãe não aguenta ver os filhos em condições desumanas.

Santo Ambrósio, no século IV, dizia que cada cristão é mãe como Maria, pois gera Cristo na sua alma, no seu coração. Quando cultivamos a ternura, a intuição, o cuidado, a acolhida, a capacidade de zelar pela vida ameaçada, estamos desenvolvendo nossa dimensão cristã de mãe. Uma espécie de maternagem.

*Nesse dia mundial de oração pela paz, queremos que nossas palavras encontrem ressonância em nossos gestos e atitudes. Sendo contra a violência, a vingança e o ódio; sendo mais ternos, evitando palavras que machucam e entristecem, a partir de nossos lares e ambiente que frequentamos e em que trabalhamos. Reafirmando nosso NÃO incondicional ao armamento da população, à fabricação e comercialização de armas, às guerras e milícias, à disseminação da mentira e do ódio que tanto mal fazem à humanidade. Levando-se em conta que a paz é fruto da justiça (cf. Is 32,17), enquanto nossas relações forem injustas, desrespeitosas, torna-se em vão falar de paz. Esta não se constrói com palavras, mas com atitudes.

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MARIA, MÃE DAQUELE QUE VEIO TRAZER A PAZ

Estamos começando o ano. “Feliz Ano Novo!” dizem todos. O que será mesmo um Ano Feliz? Seria importante refletirmos um pouco sobre o que queremos neste ano de 2026. Que propósitos de vida estou assumindo? De quem vou me aproximar neste ano? Com quem vou trabalhar? Como quero que seja minha relação com eles/elas? Com que lentes vou olhar as pessoas, a história, as lágrimas, a violência, o poder político e econômico? Que colaboração pretendo dar para que o mundo possa ser melhor? Que sentimento cultivarei em relação às eleições nacionais? Com que espírito assumirei meu trabalho profissional, meus compromissos familiares? Como será minha oração durante esse ano? Com que espírito participarei da comunidade? Mais do que pedir um ano melhor ou excelente, peçamos ao Pai que nos ajude a ser melhores, mais humanos, mais humildes, mais sensíveis às causas dos empobrecidos.

Neste dia em que celebramos o dia da Confraternização Universal ou Dia Internacional da Paz, é tempo também de pensar na paz. Que paz queremos? Uma paz psicológica que visa ao bem-estar pessoal? Uma paz que nos faz fugir dos conflitos e angústias sociais e humanas para um “oásis” distante dos problemas humanos? Essa não é a paz que Jesus trouxe e anunciou. O Shalom judaico é indicativo de um estado de ânimo, de bem-estar pessoal e comunitário. É saúde e qualidade de vida envolvendo a comunidade. Não há paz para o judeu piedoso enquanto seus irmãos estiverem sofrendo, vítimas da maldade humana. Então devemos nos perguntar: “Que paz estamos desejando e construindo?”. Pois a paz/shalon é dom de Deus, mas também constructo humano. A paz é fruto da justiça (cf. Is 9,1-6; 32,17).

O evangelho de hoje nos relata que “Maria guardava todos esses fatos e meditava sobre eles em seu coração”. Vê-se, por esse e outros textos, que Maria não ocupa o centro do evangelho. Tudo o que acontece nela é referido ao Pai, no Filho, pelo Espírito Santo. Ela foi uma mulher preparada por Deus para ser Sua Mãe. E correspondeu com uma vida de humildade, de serviço, de cuidado, de presença atenta, de fidelidade. É Mãe de Deus e nossa Mãe. A meditação sobre aqueles acontecimentos iam-lhe modelando a alma para que fosse sempre mais de Deus e da comunidade.

* “A colaboração de Maria na obra da Salvação tem uma estrutura trinitária, porque é fruto de uma iniciativa do Pai, que olhou a pequenez de sua Serva (cf. Lc 1, 48); brota da kenōsis do Filho, que se humilhou tomando a forma de Servo (cf. Fl 2, 7-8) e é efeito da graça do Espírito Santo (cf. Lc 1, 28.30) que dispôs o coração da jovem de Nazaré para responder na Anunciação e durante toda a vida de comunhão com seu Filho. São Paulo VI ensinava que ‘na Virgem Maria, de fato, tudo é relativo a Cristo e dependente d’Ele: foi em vista d’Ele que Deus Pai, desde toda a eternidade, a escolheu Mãe toda santa e a plenificou com dons do Espírito a ninguém mais concedidos’. O sim de Maria não é uma simples condição prévia a algo que poderia ter chegado ao fim sem o seu consentimento e colaboração. A sua maternidade não é simplesmente biológica e passiva,[28] mas é uma maternidade ‘plenamente ativa’ que se une ao mistério salvífico de Cristo como instrumento querido pelo Pai no seu projeto de salvação. Ela ‘é a garantia de que Ele, enquanto ‘nascido de mulher’ (Gl 4, 4), é autêntico homem, porém ela é também, desde a proclamação do dogma de Nicéia, a Theotokos, a que dá à luz a Deus’” (Mater Populi Fidelis, 15).

Obrigado, Maria, mãe de Jesus que é Deus. Nós te agradecemos por teres ensinado Jesus a andar, a falar, a caminhar e a amar. O teu olhar amoroso de mãe, o teu sorriso, o teu colo e a tua presença de qualidade marcaram a personalidade e a missão de Jesus. Obrigado porque também aprendeste a ser mãe, amando sem reter o teu Filho. Ensina-nos a viver os traços da maternidade: o afeto, a ternura, o silêncio fecundo, o cuidado e a intuição. Amem

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

Deus quis contar com Maria e José

aureliano, 16.12.22

4º Domingo do Advento - A - 18 de dezembro.jpg

4º Domingo do Advento [18 de dezembro de 2022]

[Mt 1,18-24]

Os Evangelhos foram escritos num contexto cultural de forte machismo e patriarcalismo. A mulher não era levada em conta. Sua principal função era a maternidade. O varão é que dava as cartas, dominava, decidia. No entanto, o relato do evangelho de hoje deixa entrever a dinâmica libertadora de Deus: a concepção virginal de Jesus. É Deus entrando na história através de uma mulher, sem o concurso direto do varão. Note-se uma curiosidade: todo filho traz à mãe a lembrança do pai. Com Maria, porém, o nascimento virginal de Jesus a faz lembrar, não de José, mas de Deus Pai.

A não participação do varão na gravidez de Maria vem nos mostrar que a salvação é dom de Deus. A virgindade de Maria não está na linha biológica, como por vezes se discute e se briga tanto. A virgindade de Maria é um dado teológico: a concepção virginal nos diz que Jesus é um ser verdadeiramente novo, dom gratuito e inesperado de Deus, nova criação no Espírito.

A maternidade virginal de Maria pode ajudar a superar preconceitos machistas e moralistas que consideram o corpo como fonte de pecado, e a mulher como lugar de tentação e desvio. Em Maria, o corpo humano se tornou o espaço onde o Espírito faz sua morada. Todo ser humano, independente de sua condição ou orientação sexual, tem algo de virgem. Pode se tornar templo de Deus e espaço aberto para multiplicação das sementes do Reino.

Para nos salvar Deus conta com nossa participação. “Aquele que te criou sem ti não te salvará sem ti”, dizia Santo Agostinho. A concepção virginal de Maria fala da salvação como dom. A participação de José, representando a linhagem davídica, e o sim generoso de Maria falam da resposta humana ao dom oferecido.

A atitude de José também diz muito para a fé cristã. Era um homem justo. Sua justiça não se deve ao fato de não ter denunciado Maria, grávida antes de coabitarem, mas por ver em todos os acontecimentos a mão de Deus. Era um homem que se deixava conduzir por Deus. José descobre a ação de Deus onde, conforme a opinião da época, só se via pecado. Não ocorre por vezes de querermos fugir de Deus quando Ele age em nossa vida, entra em nossa história de modo inesperado? Isso mostra quanto o desconhecemos!

Interessante notar também que Maria, figura importante da história da salvação, passa quase despercebida nos relatos evangélicos. Não pretende aparecer. Não busca holofotes nem câmeras. Aplausos, fama, sucesso não fazem parte de seu horizonte. Foi na sua humildade que Deus quis se fazer presente à humanidade. A fecundidade de Maria é grande porque é pura, não tem ambição, não tem segundas intenções. U’a mulher que se coloca inteiramente ao dispor do Pai.

Celebrar o maior acontecimento da História – a Encarnação e o Nascimento do Filho de Deus – deve nos levar a pensar seriamente que sentido tem essa solenidade para nós cristãos. Ao criar o enunciado da “morte de Deus”, Nietsche despertou enormes discussões dentro e fora do pensamento cristão. Hoje, que sentido faz para a maioria das pessoas ouvir dizer que “Deus nasceu” ou “Deus morreu”? Mais: em que nos toca ver notícias de mortes de tantos seres humanos vitimados por uma política suja, corrupta, egoísta que atua em prol de troca de favores e em função de alimentar a ganância de ricaços em detrimento dos pobres da terra? A “morte de Deus” no coração humano parece levá-lo a assassinar seu semelhante. O “nascimento de Deus” parece não lhe dizer nada. Não o desperta para a defesa da vida.

No Natal não celebramos somente o nascimento de Jesus, mas também nossa humanidade pecadora tocada e santificada pela divindade do Pai Criador. Ele veio nos libertar do pecado e da morte. Que a violência, a ganância, o preconceito, a dominação e a desigualdade social não mais prevaleçam entre nós.

Os relatos do Evangelho sobre a encarnação e nascimento de Jesus mostram sua descida ao lugar mais baixo da história humana. Aqui reside um grande ensinamento: que ninguém esteja em situação inferior àquela assumida pelo Salvador. Que todos sejam abraçados, alcançados por ele, recuperados e salvos por ele. Que todos recuperem sua dignidade de seres humanos feitos à imagem e semelhança de Deus. Quem ninguém seja discriminado, marginalizado, escravizado, torturado, manipulado, dominado. Jesus ocupou o último lugar para que nenhuma pessoa humana seja invisível, inútil, sem valor na história. É para isso que Deus "se fez carne", gente, um de nós: "Conheceis a generosidade de noss Senhor Jesus Cristo que, por causa de vós se fez pobre, embora fosse rico, para vos enriquecer com a sua pobreza" (2Cor 8,9).

Aquele hino do grande maestro e compositor católico, José Acácio Santana, deve continuar ecoando dentro de nós: “Meu caro irmão, olha pra dentro do teu coração: vê se o Natal se tornou conversão e te ensinou a viver”. Deus contou com Maria, com José, com tantas pessoas de bom coração para que sua ação salvadora chegasse aos confins da terra. Ele quer contar também com você, comigo. Como está sendo a minha colaboração? O que ainda estou colocando como obstáculo a essa participação na obra salvadora de Deus?

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN.