Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

aurelius

aurelius

A mesa da misericórdia. O olhar de Jesus

aureliano, 10.06.23

10º Domingo do TC - A - 11 de junho.jpeg

10º Domingo do Tempo Comum [11 de junho de 2023]

[Mt 9,9-13]

Acompanhando os passos de Jesus no evangelho percebemos que havia uma categoria de pessoas pelas quais ele tinha verdadeira aversão: aqueles que se consideravam justos. Carregam o pecado da autossuficiência: não tem necessidade de conversão nem de perdão nem de salvação. Percorrendo o evangelho de Lucas, marcado pela misericórdia, vemos o pai acolhendo com bondade o filho mais novo esbanjador dos bens e que volta arrependido (Lc 15,11-32). E, em outro lugar, enquanto o fariseu se apresenta na oração como justo, o publicano invoca a misericórdia de Deus (Lc 18,9-14).

Jesus manifesta no evangelho de hoje sua simpatia pelos pecadores, desprezados e excomungados de seu tempo. Quando acusado de amigo dos pecadores ele responde que os publicanos e as prostitutas os precederão no Reino dos céus (cf. Mt 21,31). Quer mostrar-lhes que ele veio para salvar e não para condenar. E que a justiça de Deus não se compara com a justiça dos homens, pois a justiça de Deus é misericordiosa, transbordante.

O OLHAR DE JESUS

O evangelho diz que “Jesus viu um homem chamado Mateus”. O olhar é uma realidade que tem uma força sobre as pessoas. Tem gente que acredita e tem medo de “mau-olhado”. O olhar pode ser de julgamento ou de acolhida; de condenação ou de perdão; o olhar pode ser sensual ou inocente; de cobiça ou de bendição; de inveja ou de alegria; pode ser fulminante ou de soerguimento. O olhar de uma criança, de um pedinte, de um enfermo tem teor diferente do olhar de um adulto, de um cobiçoso, de alguém dominador e prepotente. Corações petrificados, imersos no mal têm olhar que fulmina, que mata. Corações cheios de bondade e de amor têm um olhar que cura, perdoa e conforta.

O olhar de Jesus atingiu Mateus antes que este o visse. É o olhar do Senhor que nos alcança primeiro. Mateus estava parado, na mesa, desprezado e condenado pelos olhares de seus correligionários. O olhar de Jesus não condena nem julga, mas acolhe e perdoa. Mais do que isso: convida a segui-lo.

Jesus lhe oferece outra mesa. Uma mesa de perdão, de misericórdia, de acolhida, de iguais.  Uma mesa onde todos têm lugar. É a mesa da misericórdia que inclui, que comporta as diferenças, que enche o coração dos convivas de amor, de entusiasmo, de alegria. É assim a mesa de Jesus. É assim o olhar de Jesus. E nosso olhar? E nossas mesas? E nossas celebrações?

VEIO PARA OS PECADORES

Mateus é o cobrador de impostos em Cafarnaum. Odiado pelos seus correligionários por ser colaboracionista do Império Romano que dominava a Palestina naqueles tempos. Também por não observar os rigores da Lei ao manter contato com os pagãos. Portanto, era um homem considerado impuro e traidor.

Jesus, no entanto, o convida a segui-lo. E ele deixa a coletoria de impostos e segue a Jesus. Ainda mais, oferece-lhe uma refeição como gesto de gratidão e reconhecimento ao mestre que o viu e o chamou. A comunhão de mesa era algo que tinha um peso muito grande naqueles tempos culturas. Trouxe até controvérsia nas comunidades cristãs (cf. Gl 2,11-13). Tomar refeição juntos significava estar em comunhão de vida com aqueles que partilhavam o mesmo pão. E quando Jesus recebe os pecadores à mesa era como se ele estivesse comungando daquele estilo de vida levado pelos publicanos e pecadores.

Jesus, no entanto, tem uma intencionalidade muito mais profunda: quer ajudar aquelas pessoas marginalizadas a fazer uma experiência profunda de Deus, um caminho diferente. Quer mostrar-lhes que não são os ritos e práticas externas que salvam, mas uma vida de conversão para Deus. Um coração que seja capaz de amar. Aliás, quando Jesus chamou Mateus não fez apelo à conversão, mas pediu que o seguisse. A convivência com Jesus é que transforma a pessoa. Um encontra que transforma, converte e salva.

Aos fariseus, que murmuram diante da atitude de Jesus, ele lhes diz: “eu não vim chamar os justos, mas os pecadores”. E ainda lembra o profeta Oséias: “Aprendei o que significa: quero misericórdia e não sacrifício”. Com essas sentenças Jesus dá uma guinada na compreensão que os fariseus e mestres da lei tinham de Deus.  Jesus quer que mudemos nosso modo de pensar  a fé, a religião, a relação com Deus.

A atitude de abertura de Jesus à humanidade pecadora com o desejo de salvá-la encontra ainda resistência em nossas comunidades. Tendemos a nos fechar em pequenos guetos ou  oásis religioso, composto de pessoas puras. Dividimos o mundo em “justos” e “ injustos”, “puros” e impuros”, “santos” e “pecadores”. Com essa mentalidade dualista e farisaica terminamos por afastar as pessoas dos sacramentos e celebrações da Igreja. A consequência é impedir a ação salvadora e libertadora de Cristo no coração dos fiéis.

Jesus à mesa com publicanos e pecadores nos remete à mesa eucarística, sacramento do Corpo e Sangue de Cristo, que nos dá também o perdão, convida à reconciliação, formando o Corpo de Cristo que é sua Igreja.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Senhor, abri nossos olhos, curai nossa cegueira!

aureliano, 20.03.20

4º Domingo da Quaresma - A - 22 de março.jpg

4º Domingo da Quaresma [22 de março de 2020]

[Jo 9,1-41]

João escreve com uma linguagem própria, em relação aos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas): longos diálogos cujas cenas são carregadas de simbolismo, provocando realismo e suspense no leitor. A principal mensagem do relato de hoje é a acolhida da revelação de Jesus enfatizada no contraste entre o “ver” e o “cego”. No texto encontramos 14 vezes a palavra “cego” e 18 referências ao “ver”. Os fariseus julgam ver tudo a partir da Lei e expulsam da sinagoga aquele que passou a ver depois do encontro transformador com Jesus.

Não podemos perder de vista que, desde os inícios do cristianismo, a quaresma é o tempo de preparação para o batismo dos catecúmenos (aqueles que se preparam para o batismo). Por isso os textos bíblicos e litúrgicos são escolhidos de forma a levar aquele que será batizado a entender e a assumir a fé que irá professar e a mergulhar cada vez mais no mistério do Cristo, luz do mundo. Nas Igrejas Orientais o batismo é chamado de “iluminação”.

A liturgia continua convocando o batizado à conversão do coração. É preciso afastar a ideia de que somente se deve preparar e pensar no batismo quem ainda não foi batizado. A realidade batismal deve acompanhar toda a vida do cristão. É uma vida nova. É um jeito novo de viver: “Outrora éreis trevas, mas agora sois luz o Senhor: andai como filhos da luz, pois o fruto da luz consiste em toda bondade, justiça e verdade” (Ef 5, 8-9).

Aquele cego de nascença representa cada pessoa chamada a fazer caminho de seguimento de Jesus. Nascer cego lembra a realidade de pecado (original) em que toda pessoa nasce. É preciso ser “ungido” no encontro com Jesus e “lavar-se” nas fontes batismais para enxergar o mundo com o olhar de Jesus. “O pior cego é aquele que não quer ver”, proclama o ditado popular. Cegos eram os fariseus e mestres da lei que não queriam enxergar a grande novidade enviada por Deus ao mundo na pessoa de Jesus. Continuavam cegos, embora acreditassem enxergar.

O encontro com Jesus nos abre os olhos e o coração e passamos a enxergar o mundo de modo novo, sem aquela cobiça que faz tanto mal, sem inveja e ciúme. Sem a sede do poder e do dinheiro que provoca tantas desavenças. Passamos a ver o outro não mais como ameaça ao nosso bem-estar ou como objeto de exploração e lucro, mas como irmão que precisa de nós, que pode somar conosco na construção de um mundo melhor.

Enquanto nosso olhar para o mundo for a partir de nossos interesses egoístas, seremos cegos conduzindo cegos. Se, porém, adotarmos a ótica de Jesus, que nos foi dada no batismo, seremos uma possibilidade para construir família, comunidade, sociedade, relações mais humanizadas. Despertaremos nos outros sua capacidade de enxergar melhor. Seremos reflexos da luz de Jesus: “Vós sois a luz do mundo. Brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vendo as vossas boas obras, eles glorifiquem vosso Pai que está nos céus (Mt 5,14.1).

Outro elemento importante do evangelho de hoje é não atribuir o sofrimento humano a uma punição de Deus pelo próprio pecado ou de antepassados. É uma compreensão por demais mesquinha e medíocre sobre Deus. Essa idéia está muito disseminada em nosso meio. Precisa ser erradicada, pois faz muito mal às pessoas e emperra a transformação da história. É uma idéia que nega a liberdade da pessoa, o mistério de Deus e do sofrimento humano. Jesus corta esse mal pela raiz: “Nem ele nem seus pais pecaram, mas é para que nele sejam manifestadas as obras de Deus” (Jo 9, 3).

------------xxxxx-------------

UM OLHAR PARA A REALIDADE A PARTIR DE JESUS

A Campanha da Fraternidade 2020 propõe um olhar solidário para os sofredores: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10,34-35). Esse “ver” sugere um olhar diferenciado. Diante da realidade que enfrentamos, percebemos várias formas de se olhar. Costuma prevalecer um olhar que abandona a vida. “A desigualdade é um triste distintivo da sociedade brasileira. Em 2017, o Brasil era o 9º país mais desigual do planeta em distribuição de renda” (Texto-Base, 31). O aborto, o feminicídio, a automutilação, a violência contra os povos indígenas e quilombolas, os conflitos no campo e na cidade, o desaparecimento de pessoas e venda de órgãos, a violência e acidentes no trânsito etc. “A incapacidade do Estado de frear a violência contribui para a banalização do mal, na medida em que grupos de extermínio determinam os que devem viver e os que devem morre. Os poderes paralelos são fortalecidos por um Estado distante e acuado. Com isso eles impõem a violência e a morte. Como se este fato já não fosse grave em si, ainda mais grave é a concepção daqueles que nutrem uma visão na qual o extermínio do outro soa como alívio” (Texto-Base, 57).

Some-se a isso um olhar que destrói a natureza. “O domínio da economia, que retira o olhar para a pessoa do centro, orientando-se por outros interesses, é o motor da desigualdade social que agride a vida, não só do ser humano, mas de todo o planeta, modificando nossa Casa Comum” (Texto-Base, 61). “O olhar que destrói a natureza nasce da incapacidade de percebê-la em sua singularidade. A natureza requer paciência para oferecer a nós o melhor ar para respirarmos; a melhor água para nos saciar; o melhor frescor da brisa suave em tempos cálidos;  a chuva mansa que traz vida à terra” (Texto-Base, 66).

Cresce em nosso meio o olhar de ódio e de indiferença. Não há futuro para a humanidade se seu combustível for o ódio e a indiferença. “Para superar o vírus da indiferença, é urgente educar as jovens gerações para que participem ativamente na luta contra os ódios e as discriminações, e também na superação das oposições do passado, e para que nunca se cansem de ir ao encontro do outro. Com efeito, para preparar um futuro verdadeiramente humano, não é suficiente rejeitar o mal, mas é preciso construir juntos o bem (Texto-Base, 71).

Como está sendo nosso olhar? Um olhar de fé, com a lente de Jesus, pode perceber luzes e beleza na vida de muitas pessoas e comunidades que realizam o bem e defendem a vida. Leigos, consagrados e consagradas que empenham sua vida em ambientes e situações de risco, de dor, de violência, de morte, devolvendo ao coração das pessoas a alegria de viver, a esperança benfazeja, a coragem de continuar a lutar pela coletividade. “O cuidado reinstaura o espaço da graça e da leveza diante do mundo e de todas as formas de vida, gerando um novo laço de amor entre nós. Essa imagem nos remete ao belo poema ‘Não sei’ de Cora Carolina:

Não sei se a vida é curta

ou longa demais para nós,

mas, sei que nada

do que vivemos tem sentido,

se não tocamos o coração das pessoas” (Texto-Base, 81).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN