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José Lopes: portas sempre abertas aos pobres

aureliano, 13.04.24

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Neste dia 13 de abril de 2024 celebramos o 2º ano de Páscoa definitiva de meu pai, José Lopes de Lima. Ele viveu uma vida configurada a Cristo crucificado e ressuscitado. Como registra seu primeiro livrinho que, aliás, lhe trouxe grande alegria: “Lutas e vitórias de uma vida”.

Ainda esses dias estava escutando meus irmãos, mais novos e mais velhos, relatando histórias do papai: estava sempre de portas abertas acolhendo visitas, andarilhos, pessoas pobres e sofredoras. Sempre com as portas da casa e do coração abertas para recebê-los, sem nenhum receio, preconceito ou constrangimento.

Nós mesmos ficávamos com medo das pessoas que chegavam, pois eram um tanto estranhas para nós. Mas ele não tinha receio. Acolhia, oferecia o que tinha para matar a fome, deixava que dormissem lá em casa. Sem receio nenhum.

Papai sempre confiou na Providência divina. Poderia afirmar que papai não era ingênuo, era confiante em Deus. Ele entregava tudo, absolutamente tudo nas mãos de Deus. Suas últimas palavras registradas por um irmão (Gabriel) foram: “Estamos todos juntos nas mãos de Deus”.

Ele nunca se preocupou com os filhos que o visitavam e partiam em viagem de retorno. Não procurava saber onde estavam, se tinham chegado bem etc. Certa vez, perguntado sobre isso, respondeu: “Meus filhos estão nas mãos de Deus. Mesmo se acontecer algum acidente ou tragédia, não me preocupo: estão nas mãos de Deus”.

Mas voltando ao assunto das “portas abertas”, lá em casa, para quem quer que chegasse, veio-me à memória, nesses dias de celebração pascal, a consideração das “portas fechadas” onde se encontravam os discípulos de Jesus. Eles estavam com as portas fechadas por medo. Jesus entra, mesmo estando as portas fechadas, e tira-lhes o medo com o dom da paz, do perdão e do Espírito Santo. Jesus ressuscitado lhes dá novo vigor, encoraja-lhes o coração, enche sua vida de alegria em meio às dores e angústias que experimentavam pela morte trágica de Jesus, o mestre em quem sempre confiaram.

Usando, pois, a metáfora da porta, estava me recordando que o papai nunca manteve nada trancado, escondido, fechado. Quarto, pastas e cadernos, lugar de guardar o dinheiro (o pouco que tinha), gavetas, guarda-roupas (celular e computador nos últimos anos de vida). Tudo lá em casa era aberto. Não havia segredo. Ainda me lembro que, quando era criança, havia uma latinha empretecida pelo tempo, sem tampa, sobre uma tábua/prateleira, acima do banco da cozinha, onde ele guardava o dinheiro (quando tinha).

A casa de meu pai tinha as portas abertas. Ele não tinha medo de nada nem de ninguém. Não era valente. Era confiante. Seu refúgio e rocha firme era o Senhor: “O Senhor é minha rocha e minha fortaleza, quem me liberta é o meu Deus. Nele me abrigo, meu rochedo, meu escudo e minha força salvadora, minha torre forte e meu refúgio” (Sl 18,3).

E a Mãe, Maria, sua companheira inseparável. Quando era criança, quantas vezes o ouvia rezar o “Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria”, de São Bernardo, enquanto fazia o café da manhã, no fogão a lenha. Quando não tinha pó de café, era água doce de rapadura. Não desesperava, não desanimava. Seguia seu caminho.

O pouco que possuía “não era seu”. Como nos lembra Atos dos Apóstolos: “Ninguém considerava exclusivamente seu o que possuía, mas tudo entre eles era comum” (At 4,32). Ficava zangado quando alguém tomava uma ferramenta emprestada e não devolvia ou devolvia quebrada. Mas não deixava de emprestar. E nunca deixou de ajudar com alimento a quem precisava.

Agora, um detalhe curioso é que as pessoas que às vezes pediam hospedagem lá em casa eram bem pobres e por vezes, com alguma deficiência mental. E o papai recebia esse povo como a qualquer outro. Sem cerimônia nem enfeite. A pessoa partilhava de nossa vida: da pobreza, das pulgas (que não faltavam), da comida (simples: abóbora, feijão, arroz, angu, ovo frito - quando tinha, pois carne era coisa raríssima nos tempos idos), das roupas de cama. Não tinha nada de especial senão aquele jeito de receber as pessoas com a porta aberta, o coração aberto e a casa aberta.

Quando dizemos que o papai fez a Páscoa definitiva significa que ele viveu uma vida pascal, como ressuscitado, de pé, com as portas abertas, sem medo de testemunhar o amor de Deus, cuidando dos pequenos e sofredores como Jesus ensinou. Não pode fazer páscoa definitiva quem não vive a vida de Jesus.

E a mamãe? Tadinha. Estava por ali. Nunca se opôs que papai realizasse o gesto samaritano. Como ela nunca foi proativa devido aos limites que lhe impunham a enfermidade, dava o apoio que lhe era possível. Quando estava de bom humor e “seu anjo da guarda combinava com o da visita”, “cerrava um papo”. Senão, ficava no quarto, quietinha.

Viver como ressuscitado é viver de portas abertas, em espírito de acolhida a pessoas que nem sempre correspondem ao nosso afeto. Viver como ressuscitado é viver a amizade social alargando nossa tenda a fim de que outros possam aí se abrigar da chuva e do sol, das intempéries da vida. É abrir o coração para doar um pouco de afeto, de atenção, de cuidados para com os pequenos e sofredores.

Papai foi um homem que nos ensinou com sua vida o desprendimento, a partilha, a solidariedade, o espírito de oração, a não discriminação, a não fazer distinção de pessoas. Qualquer um que chegasse lá em casa tinha o mesmo tratamento, a mesma acolhida.

Pe. Anchieta, o irmão mais velho, que fora adolescente para o seminário, sempre levava visitas lá em casa. As coisas que tinham na casa eram sempre as mesmas para todos. E cada um chegava e se ajeitava. Ninguém tinha privilégio. Nem os filhos. Papai estabeleceu um regime igualitário para os filhos e visitantes.

Papai foi um homem honesto. Viveu pobremente, morreu sem ter nada de próprio. O pouco que herdara de seus pais, distribuíra com os filhos. Tomou prejuízo em serviço e negócios. Mas nunca prejudicou a ninguém. E um pequeno recurso que deixou na poupança, já dissera à Maria Marta, irmã mais velha que zelava por e pela mamãe: “É para os cuidados para com a Juracy”. E assim foi feito. Deu para cuidar muito bem da mamãe durante os quase dois anos que ela sobrevivera a ele. Todas as despesas foram pagas, inclusive os funerais, com aquele dinheirinho abençoado. Graças a Deus.

E essa atitude de estar com as portas abertas aos sofredores que pediam comida ou hospedagem marcou nosso coração. Na ocasião a gente não entendia, mas hoje fazemos a leitura de como ele vivia o evangelho: “Cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25,40). Papai tinha um coração compadecido pelos pobres.

E assim o ele nos ensinava a viver. Seus exemplos ecoam em nossa vida, em nossos corações. Um adágio latino reza assim: “Verba volant. Exempla trahunt”. (As palavras voam. Os exemplos arrastam). Papai era de poucas palavras. Ia à nossa frente. E nós tentando ir atrás dele. E ele atrás de Jesus. Uma vida pascal na terra. Plenificada na eternidade.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Um ano depois: ressignificando memórias do papai

aureliano, 13.04.23

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Há exatamente um ano papai partia para a eternidade: 13/04/2022. Estava relativamente bem, sofrendo falta de ar com certa frequência. Internado, foi definhando progressivamente. Embora consciente, foi perdendo a capacidade de respirar sem auxílio de aparelho. Foram apenas 13 dias de hospital. Ficaram apenas as memórias inesquecíveis. Algumas histórias e fatos vão sendo relembrados, ressignificados.

Sou o sétimo filho, dividindo exatamente o meio da prole: seis acima de mim, dos quais dois morreram ainda criancinhas; e seis abaixo. Portanto não tenho tantas lembranças, mas trago algumas no coração. Como cada pessoa é única e experimenta a vida de modo peculiar, registro aqui alguns episódios que, para quem está fora do contexto, podem parecer pitorescos, para mim, porém, são altamente significativos.

Nos tempos passados papai era um homem sisudo. De pouco sorriso. Sobretudo com os filhos mantinha um ar de bravo, fechado, sério. Hoje releio essa postura a partir das dificuldades que ele vivia. Esposa doente, filhos aos montes, situação financeira difícil, precaríssima. Certamente acordava todos os dias pensando como iria garantir o alimento para a filharada. Nunca o ouvi se lamentar, comentar sobre as dificuldades econômicas. Sempre trabalhador. Sem desespero. Sem aflição. Notava que sempre confiou no Pai do céu. Sua devoção a Nossa Senhora parecia ser sua grande âncora da vida. Depois da aposentadoria, quando a vida lhe sorriu com leveza, seu ar de sisudez diminuiu. Tornou-se mais aberto, afável. Sobretudo com os netos: gostava de brincar, de jogar baralho, de se comunicar nas redes sociais, de contar histórias. Escreveu três livrinhos autobiográficos. Ficou tão feliz com a publicação! Então papai não era um homem infeliz, mas as intempéries da vida o faziam sisudo.

Naqueles tempos difíceis, a roupa era surrada, rasgada, às vezes remendada, escassa. Pés no chão. Parece que ele se sentia bem assim. Livre. Ia pra roça e pra cidade assim, pés descalço. Quando o serviço era mais longe de casa, costumava dormir por lá. Não tinha nenhum meio de transporte. Sempre a pé ou de carona. Quando era mais perto saía bem cedo, sem café, ou tendo tomado uma água doce de rapadura, e partia para o duro trabalho diário para salvar o pão das crianças. Voltava, às vezes, à noite, desfiando o rosário, seu fiel companheiro. Chegava, sentava no banco de tábua da cozinha: os menores disputavam seu colo. Nunca espaventou os pequenos! Mostrava-se afetuoso. Terço na mão, cansaço, sono nos olho; terço caía, e ele pegava de volta e retomava. Lamparina acesa, fogão a lenha normalmente apagado ou na cinza quente. Janta? Quando tinha, um feijão cozido...

E quando as crises da mamãe apertavam? Mal epilético repetitivo, um atrás do outro; ou a braveza quase enlouquecida; ou quando estava para dar à luz a mais um filho? Papai longe de casa... Os mais velhos, que ainda eram novos, por vezes saíam, altas horas da noite, para chamar o papai. Era o único “médico”, o recurso possível. Lamparina na mão ou mesmo na escuridão ou à luz da lua, lá iam, normalmente dois, um fazendo companhia ao outro, encorajando contra o medo de assombração. Meu Deus! Sem energia elétrica, sem água encanada, sem transporte, e o pior, comida pouca, pouquíssima! No máximo um almoço e uma jantinha mais ou menos. O resto era por conta de Deus e da natureza. Vida difícil! Mas o papai estava por ali, um baluarte, um esteio, uma segurança pra todos nós!

Gente, não tem outra explicação senão sua vida de oração, de comunhão com Deus, de fé inabalável, de confiança inquebrantável. Ele tinha uma experiência de Deus tão profunda que os “mistérios dolorosos” não suplantavam os “mistérios da glória” em sua vida. Pelo contrário, fortaleciam sua esperança: “Seja feita a vontade de Deus”, não se cansava de repetir. Sua vida foi cuidar da família, ajudar a quem precisava, trabalhar e participar das coisas da Igreja, na sua consciência possível de experiência de fé.

Não tinha vaidade de seus conhecimentos profissionais. Não se exibia. Não escolhia serviço. Plantava milho, feijão arroz. Roçava o pasto. Trabalhava de pedreiro, bombeiro, eletricista, carpinteiro, carapina. Administrava turmas de serviço em construção civil na condição de mestre de obras. Era craque também na gambiarra: recurso do pobre.

As memórias da vida do papai me revigoram nas lides da vida. A presença dele era discreta, porém marcante. Sobretudo para a mamãe, que tem reclamado solidão depois da morte dele. Embora não tenhamos dito a ela que o papai se foi, ela sempre reclama, não obstante sua demência: “Estou sozinha!”. “Não sei como é que vou arrumar!”. Mas parece que Deus tem confortado a ela de alguma forma, quando ela diz, vez por outra: “Ele (marido) estava aqui”. “Zé Lopes acabou de sair” etc. Papai foi o guardião da mamãe. Sempre zelou por ela. Quando a mamãe estava internada e ele também, exatamente há um ano atrás, perguntava por ela. Quando ela recebeu alta e foi pra casa, ficando ele internado em quadro mais agravado, perguntou por ela etc. E dizia em outros tempos: “Gostaria de morrer depois da Juracy, para ela não sofrer muito, pois eu compreendo ela”.

Sempre atento em ajudar os filhos. Nas minhas visitas à família, quando ia pedir a bênção para viajar, ele perguntava: “Está precisando de dinheiro? Não tenho muito, não, mas posso ajudar”. Normalmente pegava um valor e me dava. Ainda depois de padre, sempre ele oferecia alguma coisa. Eu dizia que não precisava, mas ele fazia questão de entregar e dizia que era para ajudar nas despesas do Seminário, da Congregação. Tinha sempre a consciência de colaboração, de partilha, de serviço.

Por falar em dinheiro, meus irmãos todos sabem disso: papai nunca escondeu dinheiro. Antigamente ele guardava os trocados numa latinha sobre a mesa do quarto ou numa prateleira etc. depois que teve condições de comprar uma cômoda, ele sempre guardava na gaveta da cômoda. Nunca, mas nunca, debaixo de chave. Que eu saiba, também nunca brigou por conta dinheiro nem por conta de herança. Por ocasião da divisão da herança da vovó Luzia, sua mãe, ele, primogênito, deixou os irmãos escolherem para anexarem o terreno que já tinham. O dele ficou totalmente fora de mão. Foi opção dele para o bem e a paz entre os irmãos. Homem desapegado. Prova disso é que, ainda em vida, doou aos filhos o cantinho de terra que herdara dos pais, fazendo ele mesmo a demarcação e todos os registros em cartório. Morreu sem ter nada. Um dinheirinho guardado para cuidar da mamãe, como ele mesmo havia asseverado à Maria Marta, filha mais velha, que esteve sempre ao lado dele e da mamãe.

São algumas memórias que faço esses dias ao celebrar o primeiro aniversário de sua Páscoa definitiva. Sei que ele está no Coração do Pai. Sei que ele pede a Deus e a Nossa Senhora por nós, particularmente pela mamãe. Sei que ele está ao lado dela, como sempre esteve. Ele vive envolvido pelo Amor Eterno. E nesse Amor, que é o próprio Deus, somos envolvidos e guardados até o dia em que também formos chamados. E a cada dia que passa, essa hora se aproxima.

Obrigado, papai, pela sua vida dedicada a nós, seus filhos! Obrigado por cada esforço, luta, renúncia, trabalho pelo nosso bem! Sua vida de entrega a Deus e de empenho para incutir em nós os princípios do Evangelho, tais como a concórdia, o perdão, a honestidade, a caridade, a justiça, a verdade, o respeito, a partilha, a serenidade, a busca da vontade de Deus, o espírito de fé e de confiança, a humildade, o desprendimento, é recompensada por Deus e guardada por nós!

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Pajuçara/Maracanaú, 13 de abril de 2023