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aurelius

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Deus quer contar conosco

aureliano, 16.12.16

São José.jpg

4º Domingo do Advento [18 de dezembro de 2016]  

[Mt 1,18-24]

            Os Evangelhos foram escritos num contexto de machismo e patriarcalismo muito grande. A mulher não era levada em conta. O homem é que dava as cartas, dominava. No entanto, o relato do evangelho de hoje deixa entrever a dinâmica de Deus: a concepção virginal de Jesus. É Deus entrando na história através de uma mulher, sem o concurso direto do varão. Com isso nota-se uma curiosidade: todo filho traz à mãe a lembrança do pai. Com Maria porém, o nascimento virginal de Jesus a faz lembrar, não de José, mas de Deus Pai.

            A não participação do varão na gravidez de Maria vem nos mostrar que a salvação é dom de Deus. A virgindade de Maria não está na linha biológica, como por vezes se discute e se briga tanto. A virgindade de Maria é um dado teológico: a concepção virginal nos diz que Jesus é um ser verdadeiramente novo, dom gratuito e inesperado de Deus, nova criação no Espírito.

            A maternidade virginal de Maria pode ajudar a superar preconceitos machistas e moralistas que consideram o corpo como pecaminoso, e a mulher como lugar de tentação e desvio. Em Maria, o corpo humano se tornou o espaço onde o Espírito faz sua morada. Todo ser humano, independente de sua condição sexual, tem algo de virgem. Pode se tornar templo de Deus e espaço aberto para multiplicação das sementes do Reino.

            Para nos salvar Deus conta com nossa participação. “Aquele que te criou sem ti não te salvará sem ti”, dizia Santo Agostinho. A concepção virginal de Maria fala da salvação como dom. A participação de José, representando a linhagem davídica, e o sim generoso de Maria falam da resposta humana ao dom oferecido.

            A atitude de José também diz muito para a fé cristã. Era um homem justo. Sua justiça não se deve ao fato de não ter denunciado Maria, grávida antes de coabitarem, mas por ver em todos os acontecimentos a mão de Deus. Era um homem que se deixava conduzir por Deus. José descobre a ação de Deus onde, conforme a opinião da época, só se via pecado. Não ocorre por vezes de querermos fugir de Deus quando Ele age em nossa vida, entra em nossa história de modo inesperado? Isso mostra quanto o desconhecemos!

            Interessante notar também que Maria, figura importante da história da salvação, passa quase despercebida. Não pretende aparecer. Não busca holofotes nem câmeras. Foi na sua humildade que Deus quis se fazer presente à humanidade. A fecundidade de Maria é grande porque é pura, não tem ambição, não tem segundas intenções.

            Celebrar o maior acontecimento da História – o nascimento do Filho de Deus – deve nos levar a pensar seriamente que sentido tem essa solenidade para nós cristãos. Ao criar o enunciado da “morte de Deus”, Nietsche despertou enormes discussões dentro e fora do pensamento cristão. Hoje, que sentido faz para a maioria das pessoas ouvir dizer que “Deus nasceu” ou “Deus morreu”? Mais: em que nos toca ver notícias de mortes de tantos seres humanos vitimados por uma política suja, corrupta, egoísta que atua em prol de troca de favores e em função de alimentar a ganância de ricaços em detrimento dos pobres da terra? A “morte de Deus” no coração humano parece levá-lo a assassinar seu semelhante.

                 No Natal não celebramos somente o nascimento de Jesus, mas também nossa humanidade pecadora tocada pela divindade do Pai Criador.

            Aquele hino do grande maestro e compositor católico, José Acácio Santana, deve continuar ecoando dentro de nós: “Meu caro irmão, olha pra dentro do teu coração: vê se o Natal se tornou conversão e te ensinou a viver”. Deus contou com Maria, com José, com tantas pessoas de bem para que sua ação salvadora chegasse aos confins da terra. Ele quer contar também com você, comigo. Como está sendo a minha colaboração? O que ainda estou colocando como obstáculo a essa participação na obra de Deus?

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN.