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Cuidado com o Dinheiro!

aureliano, 19.09.25

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25º Domingo do Tempo Comum [21 de setembro de 2025]

[Lc 16,1-13]

Certo dia alguém me abordou pedindo uma explicação para a seguinte passagem do evangelho: “Usai o dinheiro injusto para fazer amigos, pois, quando acabar, eles vos receberão nas moradas eternas” (Lc 16,9). O que significa “dinheiro injusto”? É, de fato, um texto que impõe uma reflexão maior.

No tempo de Jesus, os pobres que moravam nas cidades usavam moedas para compra e venda, mas de estanho e de cobre. Com Herodes, começaram a circular moedas de ouro e prata. Portanto tinham um valor maior. Davam mais segurança. Para entender, pois, o que o texto quer dizer, é preciso ir à raiz da palavra que foi traduzida como “dinheiro”. O termo usado no tempo de Jesus era mammona. Vem da raiz aman que significa, em aramaico, confiar, apoiar-se. Era algo em que o indivíduo colocava sua confiança.

Enfim, o que Jesus quis dizer com “dinheiro injusto”? Parece que Jesus não conheceu “dinheiro limpo”. Podemos concluir que Jesus considerava sempre o dinheiro como algo injusto. As relações comerciais de seu tempo eram profundamente injustas, sobretudo a partir do Império Romano e também das autoridades do Templo de Jerusalém. Então o “dinheiro” se tornara um ídolo, ocupando o lugar de Deus. Quanto mais moedas de ouro e prata tanto mais rico e autossuficiente.

Jesus então oferece uma saída: “Fazer amigos com o dinheiro injusto”. Ou seja, empenhar-se sempre na partilha, no não-acúmulo para não cair na idolatria. Se o dinheiro era “sujo”, recomenda “lavá-lo” na distribuição e cuidado com os pobres. O dinheiro é fonte de intriga e divisão. É preciso, pois, trabalhar para que favoreça a amizade e a comunhão, a igualdade e a fraternidade.

Vale deixar aqui a palavra de São Basílio, a respeito do uso do acúmulo e riqueza: “Não és acaso um ladrão, tu que te apossas das riquezas cuja gestão recebeste?... Ao faminto pertence o pão que conservas; ao homem nu, o manto que manténs guardado; ao descalço, os sapatos que estão se estragando em tua casa; ao necessitado, o dinheiro que escondeste. Cometes assim tantas injustiças quantos são aqueles a quem poderias dar”.

E o que dizer da “teologia da prosperidade” que assola nosso povo religioso? – Aquele “assalto” para vender ou comprar bênçãos e milagres! Uma verdadeira afronta ao evangelho! Um pecado que “brada aos céus e pede a Deus vingança”! Pergunto de novo: qual é a origem e qual é a destinação do dinheiro que entra no meu bolso?

Para continuar a reflexão nesses tempos sombrios e dolorosos de gente poderosa que optou pelo dinheiro injusto e pela maldade, vejamos: “Ouvi isto, vós que maltratais os humildes e causais a prostração dos pobres da terra; vós que andais dizendo: ‘Quando passará a lua nova, para vendermos bem a mercadoria? E o sábado, para darmos pronta saída ao trigo, para diminuir medidas, aumentar pesos, e adulterar balanças, dominar os pobres com dinheiro e os humildes com um par de sandálias, e para pôr à venda o refugo do trigo?’ Por causa da soberba de Jacó, jurou o Senhor: ‘Nunca mais esquecerei o que eles fizeram’” (Amós 8,4-7). - Você tem amigos pobres?

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O uso do dinheiro injusto

Em Lc 15, 1-32 (24º domingo do Tempo Comum) notamos dois filhos com perspectivas diferentes na administração dos bens. O filho mais novo pegou sua herança, antes de o pai morrer, e ‘queimou’ tudo. O filho mais velho não teve coragem de pedir um ‘cabrito’ para comer com seus amigos. Só trabalhava. O pai da parábola mostra que o ser humano está acima de qualquer valor monetário. O que importa mesmo é construir relações de perdão, de partilha, de fraternidade para que a vida possa brotar com mais exuberância.

No evangelho deste domingo, Jesus conta a parábola conhecida como do ‘administrador infiel’. Esse título, porém, pode prejudicar uma sadia interpretação da parábola. Jesus não quer acentuar a desonestidade da administração, mas a habilidade que o discípulo do Reino deve ter na administração do que lhe for confiado: tudo deve ser gerido e conduzido com vistas ao Reino de Deus.

É preciso notar que o administrador estava ‘dissipando os bens’ do patrão. Por isso ele foi demitido. Aquele fato de baixar a conta dos devedores está ligado ao costume daquele tempo de se permitir aos administradores emprestarem os bens do patrão e ganhar uma comissão com isso. Esse administrador do evangelho estava abrindo mão desse benefício com vistas a ser recebido nas casas daqueles beneficiados. Fez um jogo de favores. Por isso foi elogiado pelo patrão.

Tudo o que temos e somos são dons de Deus que devem ser administrados de acordo com o projeto do Pai. E a primeira tarefa é nos considerarmos administradores e não donos. Os bens não são nossos. Os filhos não são nossos. Os dons não são nossos. Tudo é do Pai! A consagração batismal nos remete a essa realidade: tudo que somos e temos foi consagrado ao Pai.

Tendemos a viver em função do ter e do poder. Pensamos valer pelo que temos. Há pessoas que buscam acumular cada vez mais dinheiro, vivendo, por vezes, uma vida miserável. Outras gastam demais. Gastam o que não têm. Vivem endividadas porque sentem necessidade de comprar e de exibir uma realidade que não são. Há ainda outras que passam a vida em função de acúmulo de poder e riqueza, em busca de fama e sucesso, reconhecimento social e aplausos. Quanto mais buscam essas coisas efêmeras, mais cresce o vazio interior.

Em relação aos bens públicos então, é uma lástima! Há pessoas que não sentem nenhum escrúpulo em esbanjar as coisas públicas: combustível, veículos, energia, água, aparelhos e outros mais. Desperdiçam, usam e abusam do erário público sem nenhum constrangimento.  Um absurdo de gastos desnecessários nos órgãos públicos! Como se desperdiça, como se gasta, como se desvia o dinheiro público! E as propinas e sonegações? Nem se fale! Cada um querendo tirar mais proveito do que o outro.

E quando se trata de funcionalismo público?! Resguardadas as honrosas exceções, há funcionários (parlamento e judiciário também são funcionalismo público) que não trabalham! Passam o tempo todo batendo papo, falando mal dos outros, articulando meios de tirar proveito de situação etc. Sem mencionar funcionários fantasmas. Uma tristeza! O relato do evangelho de hoje quer lembrar a todos que o salário deve ser justo, e conquistado com honestidade. E que os bens públicos devem ser geridos com honestidade em favor dos mais pobres.

Jesus nos ensina a pensar e a viver de modo mais solidário a administração dos bens públicos e privados. Eles devem ser colocados a serviço de todos. Eles são para todos. Inclusive para aqueles que virão depois de nós! A Amazônia não pertence aos ricos nem ao Estado. Ela é um bem para a humanidade. Precisa ser preservada, zelada, cuidada. As águas e as florestas não são patrimônio privado: são bens da natureza que precisam ser cuidados, resguardados e geridos com equidade para o bem de todos.

Ao invés de abraçarmos a lógica da desonestidade, da mentira, da hipocrisia, deveríamos hoje nos perguntar: como estamos administrando os recursos que Deus nos deu? Como lidamos com os bens públicos que não são ‘nossos’, mas de todos? Quem ocupa mesmo o centro de minha vida, que orienta minha história e decisões: o Deus de Jesus ou Dinheiro iníquo?

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

Contra a avareza e a cobiça: partilha

aureliano, 01.08.25

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18º Domingo do Tempo Comum [03 de agosto de 2025]

[Lc 12,13-21]

 “A vida do homem não consiste na abundância de bens”. Essa palavra de Jesus deve nos acompanhar sempre.

Alguém poderia perguntar: ‘Por que Jesus não resolveu aquela situação que lhe foi apresentada pelo irmão que se sentia lesado na herança?’ A resposta é que Jesus não veio resolver questões de poder pelo poder. Ele não veio para se meter em confusão de distribuição de herança. Jesus não é inventariante. Ele veio para mostrar que os bens precisam ser repartidos, distribuídos. A consciência moral é que precisa ser bem formada para que as pessoas e o Estado se sensibilizem diante do sofrimento alheio e reparta o pão com o necessitado. Para que ninguém passe necessidade (cf. At 4,34).

O relato do evangelho desse domingo nos convida a uma reflexão profunda, diria mesmo, a um exame de consciência sobre o modo como lidamos com os bens materiais; como lidamos com a “concupiscência dos olhos” (1Jo 2,16).

“Não cobiçarás...” (Ex 20,17). É o Décimo Mandamento da Lei de Deus. O Evangelho de hoje nos permite fazer uma visita aos Mandamentos da Lei de Deus, particularmente ao último. Eles andam tão esquecidos, ultimamente! Será que a Aliança de Deus é também temporária, descartável? Parece que não! Deus estabeleceu com seu Povo uma Aliança eterna, para sempre. E Ele permanece fiel!

O Catecismo da Igreja Católica nos lembra que “o apetite sensível nos faz desejar as coisas agradáveis que não temos”. Enquanto não nos conduzem à injustiça, tudo bem. O problema é quando esse desejo se converte em avareza que é o desejo de apropriação desmedida dos bens terrenos. Ou quando se converte em cupidez que é uma paixão imoderada pelas riquezas e pelo poder. Então o ser humano se desvia da relação filial com Deus.

Esse Mandamento quer ajudar a lidar com os bens e posses sem apegos desmedidos, sem acúmulos, sem idolatrar dinheiro e coisas. O sábio já dizia: “O avaro jamais se farta de dinheiro” (Eclo 5,9). E o Apóstolo exortava: “A raiz de todos os males é, de fato, o amor ao dinheiro” (1Tm 6,10).

O Congresso Nacional e o Governo Federal precisam implementar o chamado Imposto sobre Grandes Fortunas (IGF). Ou, como está proposto por último, Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Seria uma forma de arrecadar recursos que precisam ser devolvidos à Receita Federal. Com eles muitas situações de carência no País poderiam ser dirimidas. Mas parece que a preocupação dos parlamentares está voltada para as “emendas parlamentares” Com milionários recursos públicos eles mantêm seus currais eleitorais. Triste realidade em nosso País!

O que nos pode ajudar no caminho para não cairmos na idolatria do dinheiro é buscarmos uma vida de partilha. Enquanto não tivermos a coragem de “mexer no bolso” e doar aos outros, não entraremos num caminho de conversão. E a Igreja orienta: Todos os fiéis de Cristo “devem dirigir retamente seus afetos, para que, por causa do uso das coisas mundanas e do apego às riquezas contra o espírito da pobreza evangélica, não sejam impedidos na busca da caridade perfeita” (Lumen Gentium, 42).

É muito oportuno lembrar aquelas palavras de Jesus: “Onde está o teu tesouro, aí estará o teu coração” (Mt, 6, 21). Qual é mesmo o nosso verdadeiro tesouro? Que importância damos aos bens que contam realmente? Como temos administrado o dinheiro, os bens, o patrimônio que nos foi confiado? Como lidamos com o “bolsa-família”, com o “seguro-desemprego”, com o “auxílio emergencial”, com os cargos públicos e consequentes ordenados e privilégios, com o empréstimo de dinheiro, com a compra e venda de mercadoria, com o cumprimento dos horários de trabalho, com o cuidado com os bens que não são meus (privados ou públicos), com aqueles que também são meus, com relação à justiça para com funcionários/colaboradores etc, etc?

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“Não podeis servir a Deus e ao dinheiro”

Recorde um pouquinho a Campanha da Fraternidade de 2010: Economia e Vida, com o lema: Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro (Mt 6,24). O uso das coisas deste mundo deve ser de tal modo que nos torne “ricos para Deus”. O sentido da vida não está na posse de muitos bens, mas na administração deles de tal forma que sejam colocados a serviço de todos. Em outras palavras: os bens deste mundo foram criados para todos. É o princípio da “destinação universal dos bens”.

Vale a pena, nesta oportunidade, recordar o perigo da chamada ‘teologia da prosperidade’. O que é isso? Uma interpretação de textos aleatórios da Bíblia para defender a ideia de que Deus dá riqueza material a quem ele julga justo. E que a miséria é fruto da falta de fé e da consequente maldição da parte de Deus. A esse propósito trago uma palavra oportuna dos nossos Bispos ao tratar da realidade da cultura urbana: “Entristece ver que, em um mundo de individualismo consumista, até mesmo a religião é, às vezes, assumida sob a ótica comercial e da prosperidade financeira (Jo 12,2-17)” (Diretrizes Gerais 2019-2023, Nº 55).

Ora o que diz Jesus? “A vida do homem não é assegurada pela abundância de bens”. Não há dinheiro que garanta uma vida terrena imperecível, sem sofrimentos, sem morte. Jesus quer que vamos além. A vida que ele veio trazer é “plena”. É a vida junto dele que já tem começo aqui. Uma vida vivida no coração amoroso do Pai é a grande bênção que ninguém pode tirar.

O entendimento do progresso material, do enriquecimento como bênção e da pobreza como abandono da parte de Deus, leva a pessoa à prática da idolatria, assumindo os bens materiais como a coisa mais importante da vida, reduzindo sua relação com Deus a um nível puramente comercial e interesseiro. Afasta-se totalmente do ensinamento de Jesus que doou toda a sua vida e pediu que seguíssemos seu exemplo. Do contrário, do ponto de vista material, Jesus teria sido o homem mais rico e poderoso, que já existira, pois fora sempre fiel ao Pai. O erro aqui está na interpretação egoísta e interesseira da vida e dos textos bíblicos.

É fácil perceber o que é mesmo fundamental na vida humana quando nos deparamos com situações-limite. Aquela pessoa que está muito mal, prestes a morrer. O que parece mais importante para ela? O dinheiro? Seus bens materiais? Até mesmo a família e amigos entendem que há algo aí mais importante do que a dimensão econômica ou social. Percebe-se aí como é fundamental a dimensão espiritual, sua relação com Deus Pai Criador. Só essa realidade fundante é que lhe poderá dar sustento nesse momento. O que lhe dá conforto agora não são os bens que adquiriu, os negócios feitos com lucro, mas tudo o que ela fez e se tornou amor.

Um mal muito presente em nosso meio, fruto da cobiça, é a inveja. É um vício que dá origem a outros. “É a tristeza sentida diante do bem do outro e do desejo imoderado de sua apropriação” (Catecismo da Igreja Católica, 2539). Dela nascem o ódio, a maledicência, a calúnia, a alegria diante da desgraça do outro, o desprazer diante de sua prosperidade. Só uma vida vivida em Deus, num exercício de conversão cotidiana, de um esforço em viver na humildade, na simplicidade, no desapego é que possibilitará o combate a esse mal terrível.

“Insensato! Essa noite morrerás, e para quem ficará o que acumulaste?”A grande bênção de Deus é a nossa capacidade de compartilhar com os irmãos, de nos compadecermos, de doarmos um pouco de nós, de nos fazermos dom. O resto é idolatria e egoísmo geradores de infelicidade para si e para os outros.

*Estamos iniciando o mês vocacional. É tempo de retomar nossa caminhada cristã. Como estou vivendo a minha vida, dom de Deus? Tenho ofertado um pouco de mim para as causas humanitárias e sociais? Como tenho feito isso? - E como tenho vivido minha vida cristã? Participo da vida eclesial? Tenho me oferecido para os serviços da comunidade? Tenho acolhido os convites que me são feitos? Como tenho me colocado: no banco da igreja ou nos serviços de acolhida das pessoas e na evangelização? - Costumo rezar pelas vocações? Se alguém de minha casa disser que deseja se consagrar a Deus, como reajo? Apoio, colaboro? - Você é rico para Deus? Qual é sua riqueza? - Vamos rezar essas perguntas. Ver qual delas cala mais fundo dentro de mim...

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

Eucaristizar a vida

aureliano, 18.06.25

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Santíssimo Sacramento do Corpo e Sangue de Cristo [19 de junho de 2025]

[Lc 9,11-17]    

O relato da multiplicação dos pães está emoldurado pelo contexto de fim de missão dos discípulos e profissão de fé de Pedro seguida do anúncio da Paixão e condições para o seguimento. Parece que Lucas quer dizer que a Eucaristia refaz as forças do missionário e lhe dá condições de continuar seguindo o Mestre em meio às incompreensões e perseguições. O discípulo é chamado a reafirmar a fé: “Tu és o Cristo de Deus” (Lc 9,20). Ou como em João: “Senhor, a quem iremos? Tens palavras de vida eterna e nós cremos e reconhecemos que tu és o Santo de Deus” (Jo 6,68-69).

No livro dos Atos dos Apóstolos lemos que as primeiras comunidades cristãs tinham como distintivo a refeição comunitária: “Punham tudo em comum... Dividiam os bens entre todos segundo as necessidades de cada um... Partiam o pão pelas casas, tomando o alimento com alegria e simplicidade” (cf. At 2, 42ss).

O gesto de Jesus ao reunir o povo no deserto e repartir com eles o pão é uma imagem da Igreja. Ele quis que a Eucaristia fosse alimento para todos, representados nessa multidão. Não quis tomar como modelo as refeições que se faziam para alguns poucos, pessoas da mesma classe ou que podiam pagar pelo banquete.

A Eucaristia é sinal dos tempos novos e definitivos trazidos por Jesus. Neles as divisões e perseguições são superadas. O escândalo da desigualdade econômica e social, da fome crescente, da concentração de renda, da marginalização, da destruição do meio ambiente, das guerras e destruições das vidas é incompatível com a Eucaristia. Não é possível ter comunhão com Cristo entregue por nós e desprezarmos ou destruirmos os irmãos: “Quando, pois, vos reunis, o que fazeis não é comer a Ceia do Senhor; cada um se apressa por comer a sua própria ceia; e, enquanto um passa fome, o outro fica embriagado” (1Cor 11,20-21). Na Eucaristia Cristo identifica a comida partilhada com sua própria pessoa. Onde não se reparte o pão, onde há concentração de renda, Cristo não pode estar presente. Mas ele está presente onde o pão é partilhado, a fome saciada, a paz e reconciliação promovidas.

“Na multiplicação dos pães, Jesus não fez descer pão do céu, como o maná de Moisés. Nem transformou pedras em pão, como lhe sugerira o demônio quando das tentações no deserto. Mas ordenou aos discípulos: ‘Vós mesmos, dai-lhes de comer’... e o pão não faltou. Porém, se não observarmos esta ordem de Jesus e não dermos de comer aos nossos irmãos, ele também não poderá tornar-se presente em nosso dom. Então, não só o pão, mas Cristo mesmo faltará” (Pe. Johan Konings, in Liturgia Dominical, p. 397).

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A Eucaristia é o memorial da morte e ressurreição de Jesus. Fazer memória significa não somente lembrar, mas celebrar e mergulhar no mistério de Cristo. É nos colocarmos dentro de toda a vida de Jesus de Nazaré, o Filho de Deus que, vindo a esse mundo, entregou sua vida por nós. Por isso, na celebração da Eucaristia nós devemos nos empenhar para fazer com que “a mente, o coração concorde com a voz, com as palavras”, no dizer de São Gregório.

Se celebramos a entrega de Cristo, não estamos fazendo um show. Então a missa não é show, promoção pessoal do padre e seja lá de quem for. Nossa atitude deve ser de compenetração, de humildade, de escuta atenta, de acolhimento, de exame de consciência. Isso nos tem recomendado insistentemente o Papa Francisco: “A Missa não é um espetáculo: é ir ao encontro da paixão e ressurreição do Senhor” (08 de novembro de 2017).

No decorrer da História a missa teve várias conotações. Serviu para coroar papas e reis, para agradecer vitórias de guerra, para enfeitar festas e agradar monarcas e senhores poderosos. Os músicos transformaram partes da missa em concertos belíssimos. Outros faziam da missa sua devoção particular. Ainda hoje, em vários lugares, é quase uma “exigência” para falecidos: “missa de corpo presente”, “missa de sétimo dia” etc. É claro que tem sua importância, mas ocorre que muitos pedem esse tipo de celebração para “salvar o falecido”, sem se envolver pessoalmente com a comunidade de fé. Uma espécie de superstição.

O Concílio Vaticano II recuperou o sentido originário da Eucaristia: Memorial da Morte e Ressurreição do Senhor. Quando a comunidade se reúne para celebrar a Eucaristia, ela traz sua vida, suas dores e alegrias e coloca no Coração de Cristo, para que ele, verdadeiro Celebrante, pela oração da Igreja, ofereça ao Pai.

Ao participarmos da Eucaristia estamos nos comprometendo a ser “um só Corpo”. A comunhão no Corpo e Sangue de Cristo nos compromete com Ele. A entrega de Cristo que celebramos pede, exige de nós o gesto de entrega, de doação, de comprometimento com Cristo pela reconstrução da História segundo os critérios do Reino de Deus. Não pode ser verdadeira “comunhão” a busca de um intimismo egoísta que não abre nossos olhos para “ver as necessidades e os sofrimentos de nossos irmãos e irmãs”, e não nos inspira a termos “palavras e ações para confortar os desanimados e oprimidos, os doentes e marginalizados”.

Mais do que discutir sobre alguns aspectos periféricos da celebração tais como: se se deve rezar o Pai-nosso de braços estendidos ou de mãos postas; se se deve comungar ajoelhado e na boca, ou se de pé e na mão; se a hóstia consagrada pode ser mastigada ou se deve degluti-la sem mastigar. São elementos que muitas vezes distraem e afastam mais do mistério do que ajudam a celebrar. Vamos parar com essa mania de querer ser diferentes dos outros, esvaziando o Mistério celebrado. Vamos seguir a orientação da Igreja. Vamos nos concentrar na beleza e profundidade do Mistério Pascal que celebramos e que toca de perto nossa vida, nossas atitudes, nossa ética. “Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, também vós o façais” (Jo 13,15). Configurar nossa vida a Cristo-Servo.

Nesse dia que celebramos a solenidade do Santíssimo Sacramento do Corpo e Sangue do Senhor, somos instados a olhar para o Cristo que se doa, que se entrega, que salva, que enfrenta a morte para que tenhamos vida. Essa contemplação deve nos levar a dar mais um passo em direção a uma vida mais comprometida. Não adianta adorar o Cristo no altar e desprezá-lo no pobre. De pouco vale celebrar a Eucaristia, participar de uma adoração, e depois falar mal dos outros, negar o salário justo, sonegar os impostos e direitos sociais, enganar os outros, ser desonesto nos negócios e no trabalho, dar golpe nos aposentados e pensionistas, disseminar ódio e mentira, omitir-se diante das injustiças sociais, levantar bandeiras que defendem a discriminação, a violência, o armamento da população, o aborto, o preconceito, o desrespeito, a morte.

A Eucaristia, “fonte e ápice de toda a vida cristã”, deve ocupar o centro de nossa espiritualidade, de nossa oração, de nossas escolhas e decisões. Se Cristo decidiu firmemente enfrentar a morte pela nossa salvação, também nós, seus discípulos e discípulas, precisamos nos dispor a esse caminho. Pois “o discípulo não é maior do que o mestre”.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Pobres e ricos: que fim os aguarda?

aureliano, 14.02.25

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6º Domingo do Tempo Comum [16 de fevereiro de 2025]

[Lc 6,17.20-26]

No relato do evangelho do domingo passado (5º Domingo), vimos Jesus chamando os quatro primeiros discípulos. Quer que sejam “pescadores de homens”. E eles entendem que precisam se desapegar dos bens materiais para seguir a Jesus com liberdade e inteireza de coração (Lc 5,10-11). O relato transparece claramente que Jesus quer um novo modo de vida e de mentalidade para seus seguidores.

O relato do evangelho de hoje traz o “Sermão da Planície” em contraposição ao “Sermão da Montanha” de Mateus 5,1-12. Lucas tem perspectiva diferente de Mateus. Os destinatários são outros: comunidades provenientes da cultura grega, pagã. O conteúdo dos dois relatos é o mesmo. Mas aqui Jesus profere também uma maldição contra os ricos. Além disso, ao “descer a montanha”, Jesus quer mostrar a condescendência de Deus que vem até nós. Elemento fundante da nossa fé cristã é a revelação de um Deus que se faz um de nós (cf. Jo 1,14), que desceu e se tornou servo (cf. Fl 2,7). De rico que era, se fez pobre por nós (cf. 2Cor 8,9). Um Deus que “desce”.

A fé cristã provoca uma revolução no coração daquele que acredita. O encontro com Jesus Cristo transforma a pessoa, abre um horizonte novo, faz enxergar o mundo de modo diferente. Produz no coração do crente o desejo de Deus, o desapego, o espírito de partilha, de solidariedade, de cuidado com o outro e com a Casa Comum. Foi isso que aconteceu aos santos e santas: São Francisco de Assis, Beato Charles de Foucauld, Pe. Júlio Maria, Santa Teresa de Calcutá, Santa Dulce dos Pobres e tantos outros.

Mas convenhamos. Ouvir uma proclamação de felicidade para os pobres é muito bom! E todos gostam de ouvir e até de dizer. Mas ouvir que os ricos estão perdidos, não é coisa fácil: “Ai de vós, ricos, porque já tendes a vossa consolação”. O Profeta, na primeira leitura, visa a nos preparar para isso: “Maldito o homem que confia no homem e faz consistir sua força na carne humana” (Jr 17,5). Por outro lado, brota do coração de Deus uma palavra de consolo: “Bendito o homem que confia no Senhor, cuja esperança é o Senhor” (Jr 17,7).

Alguém poderia argumentar: “Deus criou os bens deste mundo para serem usufruídos”. É verdade! Porém há que se distinguir: uma coisa é possuir os bens e usufruí-los; outra coisa é ser possuído por eles, ser escravo dos bens materiais. E como se não bastasse, escravizar os outros para possuir sempre mais. Atentemos à advertência de São Paulo: “Eis o que digo, irmãos: o tempo se faz curto. Resta, pois, que aqueles que têm esposa, sejam como se não tivessem; aqueles que choram, como se não chorassem; aqueles que se regozijam, como se não regozijassem; aqueles que compram, como se não possuíssem; aqueles que usam deste mundo, como se não usassem plenamente. Pois passa a figura deste mundo” (1Cor 7,29-31). Os bens materiais não podem ocupar o primeiro lugar em nossa vida. Porque eles não trazem dentro de si a felicidade permanente, verdadeira, intransferível.

A Sagrada Escritura quer nos mostrar que nenhum bem material é definitivo. Na parábola do homem que construiu um grande armazém para guardar sua colheita e se locupletar sozinho, Jesus mostra que a vida e os bens só têm sentido na medida em que são vividos e empregados segundo os critérios do Reino de Deus: “Insensato, nessa mesma noite ser-te-á reclamada a alma. E as coisas que acumulaste, de quem serão?” (cf. Lc 12,16-21). A vida do ser humano não consiste em possuir muitos bens, em ter muito dinheiro, em ser reconhecido pelo que tem (cf. Lc 12,15). Há muita vaidade por aí. Há pessoas que pensam somente em trabalhar para ganhar dinheiro; ganhar dinheiro para comprar coisas; comprar coisas para se exibir. E por aí se vai. Depois vem a desavença, a rivalidade, a velhice, a doença, a morte. E Depois?...

O programa de vida de Jesus é “anunciar a boa nova aos pobres”. Deus ama o ser humano por si mesmo. Não faz parte de sua “agenda” admirar stutus quo, reconhecimento social, aparência, sucesso, títulos, diplonas e aplausos. Deus ama o ser humano de graça. E quer que ele se faça simples , pequeno, pobre.

Além disso, quando Jesus proclama “Bem-aventurados vós, os pobres” não quer dizer que o pobre seja mais virtuoso do que o rico. É que Deus quis fazer sua “opção preferencial” pelos pobres. Com isso entende-se que a graça vem de Deus e não de algum favor humano. Os pobres não são felizes por causa de sua pobreza. Eles são felizes por saber que Deus está com eles. Seu sofrimento não durará para sempre. O Senhor lhes fará justiça. Jesus deixa claro: os que não interessam a ninguém são os que mais interessam a Deus. Deus quer estar com eles. E, para nós que vivemos na abundância, quando voltamos nosso olhar e nossa presença junto aos pobres, podemos ter aí uma grande oportunidade de fazer um caminho de conversão.

É bom ressaltar que Jesus não é contra os ricos. Por isso os exorta a mudar de mentalidade, a se esvaziarem de si mesmos, a se desapegarem de seus bens fazendo com que todos possam também usufruí-los. Os bens da criação devem ser distribuídos a todas as pessoas. Deus criou a terra e a deu ao ser humano para que cuidasse dela: “O Senhor Deus tomou o homem e o colocou no jardim de Éden para o cultivar e o guardar” (Gn 2,15). Basta ler o episódio de Jesus e Zaqueu (Lc 19, 1-10). O coração de Zaqueu encheu-se da salvação de Deus quando ele decidiu devolver o que roubara, e distribuir com os pobres parte dos bens: “Zaqueu, de pé, disse ao Senhor: ‘Senhor, eis que dou a metade dos meus bens aos pobres, e se defraudei a alguém, restituo-lhe o quádruplo’. Jesus lhe disse: ‘Hoje a salvação entrou nesta casa’” (Lc 19,8-9).

Senhor Jesus, desperta nosso coração para maior sensibilidade e solidariedade com os mais pobres. Ajuda-nos a ter um coração de pobre, um coração que saiba consolar, que saiba cuidar, que saiba chorar com os choram aquela dor doída. Inspira-nos palavras e ações para confortar os desanimados e oprimidos. E não deixes que a preocupação e a busca desenfreada dos bens materiais, do sucesso a todo custo, do lucro a qualquer preço tomem conta de nosso coração. Dá-nos enfim aquela coragem suficiente para anunciar teu Reino de amor e denunciar as perversidades contra os pequenos e sofredores da terra.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

Como você se relaciona com o dinheiro?

aureliano, 12.10.24

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28º Domingo do Tempo Comum [13 de outubro 2024]

   [Mc 10,17-30]

No evangelho do domingo passado refletimos sobre Jesus orientando a vida familiar. A relação conjugal não se fundamenta numa relação de dominação, mas de respeito, de corresponsabilidade, de ajuda mútua. Em síntese, marido e mulher são co-criadores com o Pai.

Neste domingo, prosseguindo a leitura do evangelho de Marcos, Jesus continua a instruir seus discípulos para que a vida deles seja um marco diferencial na sociedade e na história. O cristão precisa fazer a diferença. Agora Jesus ensina a se relacionar com os bens. Realidade muito próxima do casamento. A gente sabe que muitas crises no relacionamento conjugal brotam da relação e gestão dos bens, da casa, do dinheiro. Quantas brigas por conta de dívidas, por conta de diferença de salários, por conta de compra e venda! Quanta confusão, depois da separação, por causa de bens e de pensão! Quanta confusão e, por vezes, morte por causa de herança! Então vamos acompanhar a orientação de Jesus a respeito desse caminho que o discípulo deve fazer.

Esse moço que recorre a Jesus se preocupa com a vida eterna. Não lhe interessa tanto a vida presente uma vez que os bens já lhe estão garantidos. Primeiramente Jesus faz com que sua atenção se volte para o Pai e não tanto para Jesus: “Só Deus é bom”. Os mandamentos da Lei relativos ao próximo ele os tem observado. Notamos, porém, que os Dez Mandamentos não foram citados. Apenas alguns e mesmo assim naquela conotação negativa: “não”. Então lhe faltava a dimensão positiva da vida. Ele observava a Lei, mas não sabia partilhar. Não tinha gratuidade. Não tinha plena consciência e conhecimento do que estava fazendo. Observava a lei por costume e tradição. Como aqueles casos muito comuns entre nós: “Por que você quer batizar seu filho?” Ou “Por que você é católico?” A resposta normalmente ecoa: “Porque todo mundo batiza” Ou “Porque meu pai é católico”. Ou simplesmente: “Por que nasci numa tradição católica”. E por aí se vai. Uma fé sem fundamento, sem gratuidade, sem generosidade, sem conhecimento, sem razão, sem convicção e decisão livre e consciente.

Jesus quis ajudar aquele homem a dar um passo decisivo na vida. É algo que faz parte integrante da fé cristã: o desapego dos bens e o espírito de partilha. “Vai, vende tudo o que tens. Dá o dinheiro aos pobres. Depois vem e segue-me”. Não basta, pois, dividir os bens com os pobres. É preciso seguir a Jesus. O seguimento de Jesus é que caracteriza o cristão. Poder-se-iam distribuir os bens por vaidade. E nesse aspecto Paulo já alertara: “Ainda que eu desse todos os meus bens aos pobres; se não tivesse amor, isso de nada valeria” (1Cor 13,3).

No desenrolar do texto Jesus percebe a dificuldade de o rico entrar no Reino. Jesus não está falando de vida depois da morte, não. Ele está falando do Reino de Deus. A vida eterna começa aqui, com a erupção do Reino de Deus. Quem não se desapega, como aquele moço que não teve coragem de se desvencilhar dos bens, não pode entrar na vida de Deus. A vida eterna é a vida em Deus.

A salvação é dom de Deus: “Para Deus tudo é possível”. Ninguém compra a vida de Deus, repartindo seus bens, fazendo caridade etc. Deus nos salva de graça. Porém nossos gestos de bondade, de generosidade, de partilha, de perdão, de tolerância, de respeito, de solidariedade são nossa resposta à bondade de Deus que nos salva. Quem vive preso às suas coisas, fechado em si mesmo, indiferente ao sofrimento alheio ou, pior ainda, buscando sempre oportunidades para aumentar suas posses, defraudando os outros, extorquindo, sonegando impostos, deixando de cumprir com as obrigações sociais de seus funcionários, está cada vez mais longe do Reino de Deus, da salvação. Sua vida está atravancando a ação salvadora de Deus. É uma pedra de tropeço, um escândalo, que impede a vida de florescer. Mata a alegria e as esperanças das pessoas.

Na prática, cada um de nós podia dar uma olhadinha no modo como lida com os bens e posses. O que fazemos com o dinheiro? Onde o guardamos? Em que o empregamos? Com que finalidade? O que estamos comprando? Para que compramos? Tem gente que renova as mobílias todos os anos. Compra sem necessidade nenhuma. Tem gente que está sempre na ponta da tecnologia. É necessário estar na “crista da onda”? Por outro lado, há pessoas que deixam de comprar coisas essenciais para a casa, que deixam de cuidar da saúde da família para guardar o dinheiro ou aumentar o patrimônio. E, muitas vezes, se endividando com prestações a perder de vista. Tem gente que nem consulta a família para fazer certos gastos. Tem gente que gasta o salário com jogos de azar, com prostituição e adultério, com bebedeira sem conta, com churrascada desmedida para amigos, com drogas de toda qualidade. Tem gente que vive uma vida miserável para aplicar o dinheiro em rendimentos bancários. Mas não é capaz de partilhar um centavo com os mais pobres!

Isso sem falar da agiotagem que assassina milhares de famílias. Um pecado que brada aos céus: o sujeito tem dinheiro; vê o irmão na pior; empresta-lhe a juros exorbitantes; escraviza o pobre coitado que nunca ou quase nunca consegue pagar (Cf. Sl 15,5). E o que dizer daqueles que transferem sua fortuna para os “paraísos fiscais”, deixando os pobres brasileiros a “ver navios”? Pior: muitos destes tais se dizem cristãos!

“A maneira sadia de lidar com o dinheiro é ganhá-lo de forma limpa, utilizá-lo com inteligência, fazê-lo frutificar com justiça e saber compartilhá-lo com os mais necessitados” (Pe. J. A. Pagola). O acúmulo de bens é idolatria. O reino pessoal, a busca de si mesmo não garante lugar no Reino de Deus.

Não está na hora de colocarmos a mão na consciência e rezarmos um pouco mais nosso ser cristão? Aquele homem do evangelho voltou triste porque possuía muitos bens. Conclui-se que a posse de muitos bens não traz alegria para ninguém. A verdadeira alegria está no bom uso dos bens, do dinheiro. Quando sabemos partilhar, distribuir, comprar ou vender dentro de critérios honestos e a partir de um diálogo respeitoso e cristão dentro de nossa casa, estamos no caminho do verdadeiro discipulado de Jesus. Então experimentaremos a verdadeira alegria que brota de uma vida vivida em Deus, na construção do Reino de partilha, de paz e de justiça.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Eucaristia: vida tomada, partida e doada

aureliano, 25.07.24

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17º Domingo do Tempo Comum [28 de julho de 2024]

[Jo 6,1-15]

Estávamos até então refletindo o evangelho de Marcos. Neste e nos próximos domingos vamos refletir o capítulo 6º de João. A Igreja pensou numa oportunidade de se considerar o evangelho de João tão rico, mas com pouco espaço no calendário litúrgico, a não ser no Tempo Pascal.

Marcos, o evangelho mais antigo, trata do sinal da multiplicação dos pães de modo a notar maior solidariedade entre os cristãos. Ele envolve os discípulos na cena: “Dai-lhes vós mesmos de comer”.

Mas o fato é que os discípulos não se preocupam com a fome das pessoas. Por isso eles recomendam a Jesus que os despeça para que comprem pão pelo caminho. Ou seja: deixe que eles se virem.

O problema é que, quem tem dinheiro vai se alimentar. Mas quem não o tem, vai continuar com fome. Notamos que a solução apresentada pelos discípulos foi extremamente egoísta. Cada um deve se virar! É a proposta da economia neoliberal: quem tem condições, capital, investe e cresce. Quem não tem, sobra. O caminho proposto por muitos de nossos legisladores e governantes é esse. Exatamente porque já estão com sua vida financeira resolvida.

No evangelho de João, Jesus age de modo soberano. Enquanto Marcos esconde o mistério e a missão de Jesus aos ouvintes, pois não eram capazes de compreender, João revela para o cristão a glória de Deus.

Interessante no texto de hoje é esse olhar misericordioso de Jesus. No evangelho do domingo passado vimos Jesus manifestando sua compaixão pelo povo, pois estava “como ovelhas sem pastor”. Então ele inventa um jeito de cuidar do rebanho.

Ninguém precisa ficar esperando milagre do céu. É só mudar a mente e o coração e começar a colocar em comum os bens e os dons. Aqueles pães e peixes, depois que estão nas mãos de Jesus, que dá graças sobre eles, não são mais do jovem nem dos apóstolos, mas de Deus para a multidão faminta. Isso mostra que os bens e dons que temos, vividos na dimensão da “ação de graças” não são mais nossos, mas “eucaristizados” para “eucaristizar”, ou seja, usados numa partilha alegre e comprometida.

A Eucaristia de que participamos semanalmente deve nos levar a essa “vida eucarística”, numa partilha generosa para que “todos tenham vida”.

Vimos, pelo evangelho de hoje, que o problema da fome no mundo não se resolve com dinheiro. Somente o espírito de partilha e de solidariedade é capaz de diminuir a fome nos países e regiões empobrecidos. Enquanto prevalecer desperdício, acúmulo, ganância, propina, desonestidade haverá famintos e necessitados no mundo.

A Igreja tem a missão de atuar profeticamente no mundo para que haja mais partilha e justa distribuição de renda. Para isso a Igreja precisa ser pobre. Somente uma Igreja pobre, no espírito de São Francisco de Assis, conforme tem preconizado tantas vezes o Papa Francisco, poderá ter credibilidade e influência na história. Tudo isso, porém a partir do encontro profundo com a pessoa de Jesus de Nazaré. Pois sem conversão do coração, atuada pela graça libertadora de Deus em nós, não se entende nem se exerce a partilha dos dons e dos bens.

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AS CONSEQUÊNCIAS DA CELEBRAÇÃO DA EUCARISTIA

Os exegetas interpretam Jo 6,1-15 como um relato eucarístico. Ou seja, ele quer significar o sentido da celebração da Eucaristia na Igreja. Sendo assim podemos afirmar que só faz sentido a celebração eucarística que compromete os participantes com os necessitados da comunidade. Aliás, há um belíssimo texto do século II, escrito por São Justino, que fornece as indicativas para a celebração da Eucaristia:

“No dia que se chama do Sol [domingo] celebra-se uma reunião dos que moram nas cidades e nos campos e ali se lêem, quanto o tempo permite, as Memórias dos Apóstolos ou os escritos dos profetas. Assim que o leitor termina, o presidente faz uma exortação e convite para imitarmos tão belos exemplos. Erguemo-nos, então, e elevamos em conjunto as nossas preces, após as quais se oferecem pão, vinho e água, como já dissemos. O presidente também, na medida de sua capacidade, faz elevar a Deus suas preces e ações de graças, respondendo todo o povo ‘Amém’. Segue-se a distribuição a cada um, dos alimentos consagrados pela ação de graças, e seu envio aos doentes, por meio dos diáconos. Os que têm, e querem, dão o que lhes parece, conforme sua livre determinação, sendo a coleta entregue ao presidente, que assim auxilia os órfãos e viúvas, os enfermos, os pobres, os encarcerados, os forasteiros, constituindo-se, numa palavra, o provedor de quantos se acham em necessidade.” (Apologias).

Esse último parágrafo nos remete ao texto do evangelho de hoje: a Eucaristia deve nos mover à partilha, à sensibilidade para com os necessitados. Os bens e os dons são oferecidos para o bem dos mais pobres e carentes.

Por vezes se levantam questões meramente rituais: se o ministro deixou de fazer isso ou aquilo dentro da celebração. Outros ficam implicados se a comunhão deve ser dada na mão ou na boca. Se o fulano pode ou não pode comungar etc. Com isso se esquece do essencial da Eucaristia que é o louvor ao Pai em Cristo e na força do Espírito que se concretiza na caridade fraterna.

Outro texto dos primeiros séculos do cristianismo também vai nessa mesma direção. São Cipriano (século III), bispo de Cartago, exortava a uma matrona rica da cidade: “De resto, tal como és, nem podes praticar a caridade na Igreja. Com efeito, teus olhos cobertos por espessas trevas e pela escuridão da pintura negra, não vêem o necessitado e o pobre. És abastada e rica e pensas que celebras o domingo. Tu, que nem sequer olhas para a caixa de esmolas, vens à celebração dominical sem oblação, e ainda participas da oblação que o pobre ofereceu?” (Patrística, Obras Completas I, Vol. 35,1).

A Eucaristia é o espaço e o ambiente cultual próprio que deve mover à partilha. Participar, comungar e voltar para casa como se nada acontecesse ao derredor é um descaso e uma ofensa ao Senhor que se oferece por nós. Pois ele lançou um olhar sobre a multidão faminta e providenciou-lhe o alimento (cf. Mc 6, 35-44).

Ainda insistindo na importância da Eucaristia na vida da Igreja chamada a ser Sinal de Cristo no mundo, tomo aqui uma catequese do Papa Francisco para nos ajudar a perceber o sentido e as consequências da celebração da Ceia do Senhor: “Ao primeiro gesto de Jesus, ‘tomou o pão e o cálice do vinho’, corresponde assim a preparação dos dons, é a primeira parte da preparação eucarística. É bom que sejam os fiéis a apresentar o pão e o vinho ao sacerdote, porque eles significam a oferta espiritual da Igreja ali recolhida para a Eucaristia. Ainda que hoje os fiéis já não levem, como antes, o seu próprio pão e vinho destinados à Liturgia, todavia o rito da apresentação destes dons conserva o seu valor e significado espiritual.

A propósito, é significativo que, na ordenação de um presbítero, o bispo, quando lhe entrega o pão e o vinho, diz: ‘Recebe as ofertas do povo santo para o sacrifício eucarístico’; é o povo de Deus que leva a oferta para a missa. Portanto, nos sinais do pão e do vinho o povo fiel coloca a própria oferta nas mãos do sacerdote, o qual a depõe sobre o altar ou mesa do Senhor, que é o centro de toda a Liturgia Eucarística. O centro da missa é o altar e o altar é Cristo. No ‘fruto da terra e do trabalho do homem’ é por isso oferecido o compromisso dos fiéis a fazer de si próprios, obedientes à Palavra divina, um ‘sacrifício agradável a Deus Pai todo-poderoso’, ‘para o bem de toda a sua santa Igreja’. Desta maneira a vida dos fiéis, o seu sofrimento, a sua oração, o seu trabalho são unidos aos de Cristo e à sua oferta total, e deste modo adquirem um valor novo.

É verdade que a nossa oferta é coisa pouca, mas Cristo precisa deste pouco – como acontece na multiplicação dos pães – para o transformar no dom eucarístico que a todos alimenta e irmana no seu Corpo que é a Igreja. Pede-nos pouco o Senhor e dá-nos tanto, boa vontade, coração aberto, sermos melhores, e na Eucaristia pede-nos estas ofertas simbólicas que se tornarão Corpo e Sangue. Uma imagem deste movimento oblativo de oração é representada pelo incenso que, consumido no fogo, liberta um fumo perfumado que sobe para o alto: incensar as ofertas, a cruz, o altar, o sacerdote e o povo sacerdotal manifesta visivelmente o vínculo do ofertório que une toda esta realidade ao sacrifício de Cristo. Recordemos que o primeiro altar é a Cruz.

É quanto exprime também a oração sobre as ofertas. Nela o sacerdote pede a Deus que aceite os dons que a Igreja lhe oferece, invocando o fruto do admirável intercâmbio entre a nossa pobreza e a sua riqueza. No pão e no vinho apresentamos-lhe a oferta da nossa vida, a fim de que seja transformada pelo Espírito Santo no sacrifício de Cristo e se torne com Ele uma única oferta espiritual agradável ao Pai. Enquanto se conclui assim a preparação dos dons, a assembleia dispõe-se para a Oração Eucarística.

A espiritualidade do dom de si, que este momento da missa nos ensina, possa iluminar os nossos dias, as relações com os outros, as coisas que fazemos, os sofrimentos que encontramos, ajudando-nos a construir a cidade terrena à luz do Evangelho” (fonte: www.snpcultura.org).

Não é o dinheiro que vai resolver o problema da fome no Brasil e no mundo. Resolve-se a fome com a partilha, com a generosidade, com a disponibilidade de não reter somente para si “os cinco pães e os dois peixes”. Quem tem muito dinheiro, ao invés de ajudar a diminuir a fome, aprofunda o fosso da miséria. A fome é debelada pelo espírito de partilha, de solidariedade, de cuidado, de justiça, de não deixar desperdiçar-se o alimento, de distribuir equitativamente o pão. E essa compreensão e atitude estão enraizadas na vida de Jesus de Nazaré cujo Memorial é a Eucaristia.

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DIA DOS AVÓS

Celebramos nesse final de semana o IV Dia Mundial dos  Avós e dos Idosos. O Papa Francisco nos convida a repensar nossas atitudes em relação às pessoas idosas. A propósito transcrevo um excerto da Mensagem que ele nos dirige esse ano. O exemplo de Rute que decide ficar com a sogra Noemi para ampará-la na velhice nos comove e encanta.

“Em muitos idosos, é possível notar aquele sentimento de resignação de que fala o livro de Rute quando narra como a anciã Noemi, após a morte do marido e dos filhos, convida as duas noras, Orpa e Rute, a regressarem ao seu país natal e à sua casa (cf. Rt 1, 8). Noemi – como muitos idosos de hoje – tem receio de ficar sozinha, mas não consegue imaginar nada diferente. Como viúva, tem consciência de valer pouco aos olhos da sociedade e está convencida de que é um peso para aquelas duas jovens que, ao contrário dela, têm toda a vida pela frente. Por isso, acha melhor afastar-se; e ela mesma convida as suas noras jovens a deixá-la para ir construir o futuro delas noutros lugares (cf. Rt 1, 11-13). As suas palavras são um concentrado de convenções sociais e religiosas que parecem imutáveis e que marcam o próprio destino.

Chegada aqui, a narração bíblica apresenta-nos duas opções diferentes face ao convite de Noemi e, consequentemente, face à velhice. Uma das duas noras, Orpa, que também ama Noemi, beija-a com um gesto carinhoso, mas aceita a solução que também lhe parece ser a única possível e segue o seu caminho. Rute, porém, não se separa de Noemi, dirigindo-se-lhe com palavras surpreendentes: «Não insistas para que te deixe» (Rt 1, 16). Não tem medo de desafiar os costumes e o sentimento comum; acha que aquela mulher idosa precisa dela e, com coragem, permanece ao seu lado naquela que será, para ambas, o início duma nova viagem. A todos nós – rendidos à ideia de que a solidão seja um destino inevitável –, Rute ensina que, à imploração «não me abandones», é possível responder «não te abandonarei!» Não hesita em subverter o que parece ser uma realidade imutável: viver sozinhos não pode ser a única alternativa. Não é por acaso que Rute – aquela que fica junto da idosa Noemi – foi uma antepassada do Messias (cf. Mt 1, 5), de Jesus, o Emanuel, Aquele que é «Deus conosco», Aquele que aconchega e aproxima a Deus todos os homens, de todas as condições, de todas as idades.

A liberdade e a coragem de Rute convidam-nos a percorrer uma nova estrada: sigamos os seus passos, ponhamo-nos a caminho com esta jovem mulher estrangeira e com a idosa Noemi, não tenhamos medo de mudar os nossos hábitos e imaginar um futuro diferente para os nossos anciãos. A nossa gratidão estende-se a todas as pessoas que, mesmo à custa de muitos sacrifícios, realmente seguiram o exemplo de Rute e estão a cuidar dum idoso ou simplesmente a demonstrar diariamente solidariedade a parentes ou conhecidos que não têm mais ninguém. Rute escolheu permanecer junto de Noemi e foi abençoada: com um casamento feliz, uma descendência, uma terra. Isto é válido sempre e para todos: mantendo-se junto dos idosos, reconhecendo o papel insubstituível que eles têm na família, na sociedade e na Igreja, também nós receberemos muitos dons, tantas graças, inúmeras bênçãos!” (Papa Francisco – Mensagem para o Dia Mundial dos Avós 2024).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

Um encontro que transforma

aureliano, 29.10.22

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31º Domingo do Tempo Comum [30 de outubro de 2022]

[Lc 19,1-10]

No evangelho do domingo passado ouvimos o relato do publicano fazendo oração no Tempo. Hoje temos outro publicano. Aqui, porém vemo-lo encontrando-se com Jesus, o Templo vivo do Pai.

“Deus não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e viva” (Ez 18,23). É por isso que vemos Jesus, caminhando para Jerusalém, realizando encontro com os pecadores, levando-os à conversão.

Note-se que esse relato de Lucas vem imediatamente depois da cura do cego na mesma cidade de Jericó que Jesus atravessa. O desejo do cego era poder ver, recuperar a vista (cf. Lc 18,41). E ao recuperá-la, “foi seguindo Jesus, dando glória a Deus” (Lc 18,43). O cego de Jericó quer ver. Zaqueu também “procurava ver quem era Jesus” (Lc 19,3). Portanto, o cego curado torna-se discípulo de Jesus. Zaqueu, convertido, também assume uma vida nova: “Pois bem, Senhor, eu reparto aos pobres a metade dos meus bens e, se prejudiquei alguém, restituo-lhe o quádruplo” (Lc 19,8).

Jesus caminha para Jerusalém, cidade que o rejeitará, o condenará, o matará. Jericó, ao contrário torna-se a cidade que o acolhe e lhe dá novos seguidores. Encontros transformadores de vida.

É muito interessante o relato de Lucas sobre o encontro de Jesus com Zaqueu. Este quer ver Jesus, mas esbarra em duas dificuldades: é baixinho e é publicano (chefe!): os vizinhos o detestavam. Por isso ele sobe numa árvore. Porém é um homem que busca: “procurava ver quem era Jesus”.

Jesus vale-se desta busca de Zaqueu e estabelece com ele um encontro. Não em cima da árvore, mas no “chão”. É preciso “descer”. Jesus não se relaciona conosco em situações distantes, nas nuvens, cheios de orgulho, arrogância e autossuficiência. Ele quer que desçamos para o chão de nossa história, de nosso cotidiano. É em nossa “casa” que ele quer entrar para nos transformar.

Jesus vai à casa de Zaqueu, homem rico, não para usufruir das benesses de sua riqueza, não para se aproveitar da oportunidade e ganhar alguma coisa. Não! Jesus não negocia sua hombridade. Ele vai à casa de Zaqueu para movê-lo à conversão. O convívio com os ricos pode nos levar a trair o evangelho de Jesus! O ambiente social marcado pelo luxo e pelo consumismo enfraquece da Palavra de Jesus: “Ai de vós, os ricos!” (Lc 6,24). Podemos desvirtuá-la, justificando nossas posturas incoerentes. Jesus veio para todos. Para os pobres, a fim de serem amparados; para os ricos a fim de que olhem para os pobres e repartam com eles os seus bens.

A verdadeira conversão, tanto do pobre como do rico, mexe com as estruturas do mal e torna o Reino mais próximo. A conversão da pessoa abala a estrutura da iniquidade. O episódio de Zaqueu, chefe dos publicanos, traz à baila a questão do poder: de modo geral, quando se chega ao poder, começa-se a se beneficiar dele, defraudando os outros. Por isso a necessidade da conversão verdadeira para se mudarem as estruturas de morte na sociedade a partir do encontro pessoal com Jesus de Nazaré. Ele é o modelo de homem acabado. Se nossos políticos entendessem isto, e fizessem mais encontros com Jesus de Nazaré, nosso mundo seria muito melhor. Vale o mesmo para as lideranças religiosas de nossas comunidades: a experiência do encontro verdadeiro e profundo com Jesus transforma nossa vida, nossas famílias e nossas comunidades. A isso se dá o nome de conversão.

A propósito, vem-me à memória um hino bastante cantado em alguns encontros por aí que pretende interpretar esse relato de Zaqueu. Mas esta música mutila e deturpa o evangelho que quer ressaltar o caminho da conversão. Ela é do jeitinho que os ricos gostam. Faz chorar de emoção os pobres e justifica a ganância dos ricos, pois não menciona o gesto concreto da conversão de Zaqueu: devolver o que roubou e partilhar com os pobres o que tem.

Sem um encontro verdadeiro com Jesus, num olhar que transforma por dentro, a salvação não entra na nossa casa. A iniciativa é de Deus, mas precisamos “procurar ver o Senhor”, como fizera Zaqueu. Oxalá pudéssemos dizer, depois da celebração eucarística, voltando para nossas casas: “Hoje a salvação entrou nesta casa!”. Deve ser uma experiência que nos encha de alegria: “Zaqueu desceu depressa e o acolheu com toda alegria” (Lc19,6).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Acúmulo de bens é idolatria

aureliano, 08.10.21

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28º Domingo do Tempo Comum [10 de outubro 2021]

   [Mc 10,17-30]

No evangelho do domingo passado refletimos sobre Jesus orientando a vida familiar. A relação conjugal não se fundamenta numa relação de dominação, mas de respeito, de corresponsabilidade, de ajuda mútua. Em síntese, marido e mulher são co-criadores com o Pai.

Neste domingo, continuando a leitura do evangelho de Marcos, Jesus continua a instruir seus discípulos para que a vida deles seja um marco diferencial na sociedade. O cristão precisa fazer a diferença. Agora Jesus ensina a se relacionar com os bens. Realidade muito próxima do casamento. A gente sabe que muitas crises no relacionamento conjugal brotam da relação com o dinheiro. Quantas brigas por conta de dívidas, por conta de diferença de salários, por conta de compra e venda! Quanta confusão, depois da separação, por causa de bens e de pensão! Quanta confusão e, por vezes, morte por causa de herança! Então vamos acompanhar a orientação de Jesus a respeito desse caminho que o discípulo deve fazer.

Esse moço que recorre a Jesus se preocupa com a vida eterna. Não lhe interessa tanto a vida presente uma vez que os bens já lhe estão garantidos. Primeiramente Jesus faz com que sua atenção se volte para o Pai e não tanto para Jesus: “Só Deus é bom”. Os mandamentos da Lei relativos ao próximo ele os tem observado. Notamos, porém, que os Dez Mandamentos não foram citados. Apenas alguns e mesmo assim naquela conotação negativa: “não”. Então lhe faltava a dimensão positiva da vida. Ele observava a Lei, mas não sabia partilhar. Não tinha gratuidade. Não sabia o que estava fazendo. Fazia por fazer. Como aqueles casos muito comuns entre nós: “Por que você quer batizar seu filho?” Ou “Por que você é católico?” A resposta normalmente ecoa: “Porque todo mundo batiza” Ou “Porque meu pai é católico”. Ou simplesmente: “Por que nasci numa tradição católica”. E por aí se vai. Uma fé sem fundamento, sem gratuidade, sem generosidade, sem conhecimento, sem razão.

Jesus quis ajudar aquele homem a dar um passo decisivo na vida. É algo que caracteriza a fé cristã: a partilha. “Vai, vende tudo o que tens. Dá o dinheiro aos pobres. Depois vem e segue-me”. Não basta dividir os bens com os pobres. É preciso seguir a Jesus. O seguimento de Jesus é que caracteriza o cristão. Poder-se-iam distribuir os bens por vaidade. E nesse aspecto Paulo já alertara: “Ainda que eu desse todos os meus bens aos pobres; se não tivesse amor, isso de nada valeria” (1Cor 13,3).

No desenrolar do texto Jesus percebe a dificuldade de o rico entrar no Reino. Jesus não está falando de vida depois da morte, não. Ele está falando do Reino de Deus. A vida eterna começa aqui, com a erupção do Reino de Deus. Quem não se desapega, como aquele moço que não teve coragem de se desvencilhar dos bens, não pode entrar na vida de Deus. A vida eterna é a vida em Deus.

A salvação é dom de Deus: “Para Deus tudo é possível”. Ninguém compra a vida de Deus, repartindo seus bens, fazendo caridade etc. Deus nos salva de graça. Porém nossos gestos de bondade, de generosidade, de partilha, de perdão, de tolerância, de respeito, de solidariedade são nossa resposta à bondade de Deus que nos salva. Quem vive preso às suas coisas, fechado em si mesmo, indiferente ao sofrimento alheio ou, pior ainda, buscando sempre oportunidades para aumentar suas posses, defraudando os outros, está cada vez mais longe da salvação. Sua vida está atravancando a ação salvadora de Deus. É uma pedra de tropeço, um escândalo, que impede a vida de florescer. Mata a alegria e as esperanças das pessoas.

Na prática, cada um de nós podia dar uma olhadinha no modo como lida com os bens e posses. O que fazemos com o dinheiro? Onde o guardamos? Com que finalidade? O que estamos comprando? Para que compramos? Tem gente que renova as mobílias todos os anos. Compra sem necessidade nenhuma. Tem gente que está sempre na ponta da tecnologia. É necessário estar na “crista da onda”? Por outro lado, há pessoas que deixam de comprar coisas essenciais para a casa, que deixam de cuidar da saúde da família para guardar o dinheiro ou aumentar o patrimônio. E, muitas vezes, se endividando com prestações a perder de vista. Tem gente que nem consulta a família para fazer certos gastos. Tem gente que gasta o salário com jogatina, com prostituição e adultério, com bebedeira sem conta, com churrascada desmedida para amigos, com drogas de toda qualidade. Tem gente que vive uma vida miserável para aplicar o dinheiro em rendimentos bancários. Mas não é capaz de partilhar um centavo com os mais pobres!

Isso sem falar da agiotagem que assassina milhares de famílias. Um pecado que brada aos céus: o sujeito tem dinheiro; vê o irmão na pior; empresta-lhe a juros exorbitantes; escraviza o pobre coitado que nunca ou quase nunca consegue pagar (Cf. Sl 15,5). E o que dizer daqueles que transferem sua fortuna para os “paraísos fiscais”, deixando os pobres brasileiros a “ver navios”? Pior: muitos destes tais se dizem cristãos!

“A maneira sadia de lidar com o dinheiro é ganhá-lo de forma limpa, utilizá-lo com inteligência, fazê-lo frutificar com justiça e saber compartilhá-lo com os mais necessitados” (Pe. J. A. Pagola). O acúmulo de bens é idolatria. O reino pessoal, a busca de si mesmo não dá lugar ao Reino de Deus.

Não está na hora de colocarmos a mão na consciência e rezarmos um pouco mais nosso ser cristão? Aquele homem do evangelho voltou triste porque possuía muitos bens. Conclui-se que a posse de muitos bens não traz alegria para ninguém. A verdadeira alegria está no bom uso dos bens, do dinheiro. Quando sabemos partilhar, distribuir, comprar ou vender dentro de critérios honestos e a partir de um diálogo respeitoso e cristão dentro de nossa casa, estamos no caminho do verdadeiro discipulado de Jesus. Então experimentaremos a verdadeira alegria que brota de uma vida vivida em Deus, na construção do Reino de partilha, de paz e de justiça.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Crer em Jesus significa comprometer-se com Ele

aureliano, 30.07.21

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18º Domingo do Tempo Comum [1º de agosto de 2021]

   [Jo 6,24-35]

Uma pergunta intrigante: Por que continua o interesse pela pessoa de Jesus mesmo depois de dois mil anos de sua vida em Nazaré? Por que seus ensinamentos continuam mexendo com os corações e as mentes de tanta gente?

Aproximando-nos do evangelho deste domingo (Jo 6, 24-35), quando Jesus, depois de alimentar uma multidão faminta, lhe diz: “Esforçai-vos pelo alimento que não se perde”, notamos aí que o pão material não preenche o vazio do coração humano. Este busca algo maior, mais consistente, permanente, que ultrapasse a fome de apenas consumir, de satisfação físico-psíquica.

Em primeiro lugar deve vir o pão material, é claro. Não é possível evangelizar alguém que passa fome, pois o primeiro sinal do evangelho é a promoção da vida: “Eu vim para que todos tenham vida” (Jo 10,10). Por isso Jesus multiplica os pães. Ou seja, move as pessoas a realizar a partilha daquilo que elas mesmas já têm: cinco pães e dois peixes. Nas mãos de um só, alimentava o individualismo humano. Nas mãos de Jesus, depois de dar graças, alimenta uma multidão. Tudo que é partilhado se multiplica. Tudo que é acumulado estraga e míngua (a vida própria e dos outros).

A resposta de Jesus a um povo que o procura por causa dos milagres, pode parecer, à primeira vista, um tanto dura e, até mesmo, sinal de desprezo pelos que saciara no dia anterior. Mas não se trata nem de menosprezo nem de indelicadeza nem de dureza. Jesus quis mostrar que o sinal realizado deveria servir de lição para os líderes do povo. Estes são os primeiros responsáveis por promover entre o povo a partilha e a solidariedade. Confiar em ‘salvador da pátria’ ou ‘herói nacional’ sempre foi desastroso. A História mostra isto. O líder deve ajudar o grupo a desenvolver suas próprias capacidades e seus próprios dons para que não falte a ninguém as condições necessárias à vida.

Porém, Jesus quer ajudar ainda o grupo a sair de uma dimensão materialista e mesquinha da vida. O relato mostra que o povo tem sede de algo mais. E que, além disso, não sabe caminhar sozinho. E pode, por conseguinte, entrar numa relação de dependência e comodismo.  Por isso Jesus recomenda realizar as obras de Deus que é “crer naquele que ele enviou”. E crer significa comprometer-se, acolher na esperança, investir todas as forças e energias na proposta do Reino que Jesus veio revelar, aderir à sua Pessoa. Significa assumir na própria vida as atitudes de Jesus. Ainda mais: fé cristã não é aderir ou cumprir uma série de regras e normas eclesiásticas e divinas.  Fé cristã é a busca permanente, cotidiana de conformar a própria vida com a vida de Jesus. É procurar ter as atitudes de Jesus: acolhida, perdão, compreensão, respeito, partilha, entrega.

Jesus percebe nossa fome e quer saciar-nos. Sabe que temos fome de justiça, de paz, de fraternidade, de perdão, de sentido de vida, de verdade. Jesus se apresenta como “o pão da vida”, aquele que alimenta, que “dá vida ao mundo”. É esse alimento que nos dá alento no sofrimento, nas tribulações, nas angústias, na hora da morte. É o pão que perdura para a vida eterna. Quem come deste pão, a vida de Jesus, nunca mais terá fome ou sede.

É por isso que a vida e a pessoa de Jesus, não obstante dois mil anos passados, continuam atraindo e provocando as pessoas. Ele é o pão verdadeiro. Há muitos alimentos por aí com aparência de ‘pão’, mas envenenados. Quanto mais a pessoa os consome, mais fome tem, mais vazia fica. Somente Jesus preenche o vazio do coração humano. Por isso aquela gente grita: “Senhor, dá-nos sempre deste pão”.

Com aquela multidão queremos também pedir ao Senhor que desperte em nós a preocupação com os que passam fome de pão e de paz, de alegria e de harmonia, de justiça e de fraternidade. Não pensemos apenas no nosso pão, na nossa mesa, na nossa casa, mas também nos que precisam de nossa colaboração para conseguir o pão. Esse é o sentido da Eucaristia que semanalmente celebramos: uma vez eucaristizados, nos tornamos eucaristia para os outros: pão tomado por Deus, partido e entregue para o povo: “Fazei isto em memória de mim”.

*Neste primeiro domingo de agosto celebramos o Dia do Padre. É oportunidade de agradecermos a Deus pelos padres que passaram por nossa vida, nos ajudaram, nos deram os sacramentos. Alguns já partiram desta vida. Outros continuam no meio de nós. É dia também de rezarmos e refletirmos sobre as vocações sacerdotais. O que você tem feito pelas vocações? Você ajuda, reza, apoia os vocacionados? Você ajuda a nós padres a sermos mais pastores, mais próximos, mais dedicados? Não trate o padre como ‘coitadinho’, não! Ele escolheu essa vocação atendendo ao chamado de Deus e da Igreja. Colocou-se livremente a serviço do evangelho. Precisa ser ajudado a viver com fidelidade e dedicação. E você, cristão leigo, deve ajudá-lo a ser um verdadeiro colaborador e servidor das comunidades, rezando por ele, fazendo a correção fraterna quando necessário, sendo colaborativo nos serviços e ministérios da comunidade! Ajude-nos a sermos mais pastores, mais misericordiosos, mais generosos, mais paternais. Ajude-nos a ser homens de Deus, santos.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

O sentido da Celebração Eucarística

aureliano, 23.07.21

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17º Domingo do Tempo Comum [25 de julho de 2021]

[Jo 6,1-15]

Estávamos até então refletindo o evangelho de Marcos. Neste e nos próximos domingos vamos refletir o capítulo 6º de João. A Igreja pensou numa oportunidade de se considerar o evangelho de João tão rico, mas com pouco espaço no calendário litúrgico.

Marcos, o evangelho mais antigo, trata do sinal da multiplicação dos pães de modo a notar maior solidariedade entre os cristãos. Ele envolve os discípulos na cena: “Dai-lhes vós mesmos de comer”.

Mas o fato é que os discípulos não se preocupam com a fome das pessoas. Por isso eles recomendam a Jesus que os despeça para que comprem pão pelo caminho. Ou seja: deixe que eles se virem.

O problema é que, quem tem dinheiro vai se alimentar. Mas quem não o tem, vai continuar com fome. Notamos que a solução apresentada pelos discípulos foi extremamente egoísta. Cada um deve se virar! É a proposta da economia neoliberal: quem tem condições, capital, investe e cresce. Quem não tem, sobra. O caminho do atual governo do nosso País é exatamente esse: preocupação absoluta com o mercado e abandono das políticas públicas e sociais.

No evangelho de João, Jesus age de modo soberano. Enquanto Marcos esconde o mistério e a missão de Jesus aos ouvintes, pois não eram capazes de compreender, João revela para o cristão a glória de Deus.

Interessante no texto de hoje é esse olhar misericordioso de Jesus. No evangelho do domingo passado vimos Jesus manifestando sua compaixão pelo povo, pois estava “como ovelhas sem pastor”. Então ele inventa um jeito de cuidar do rebanho.

Ninguém precisa ficar esperando milagre do céu. É só mudar a mente e o coração e começar a colocar em comum os bens e os dons. Aqueles pães e peixes, depois que estão nas mãos de Jesus, que dá graças sobre eles, não são mais do jovem nem dos apóstolos, mas de Deus para a multidão faminta. Isso mostra que os bens e dons que temos, vividos na dimensão da “ação de graças” não são mais nossos, mas “eucaristizados” para “eucaristizar”, ou seja, usados numa partilha alegre e comprometida.

A Eucaristia de que participamos semanalmente deve nos levar a essa “vida eucarística”, numa partilha generosa para que “todos tenham vida”.

Vimos, pelo evangelho de hoje, que o problema da fome no mundo não se resolve com dinheiro. Somente o espírito de partilha e de solidariedade é capaz de diminuir a fome nos países e regiões empobrecidos. Enquanto prevalecer desperdício, acúmulo, ganância, propina, desonestidade haverá famintos e necessitados no mundo.

A Igreja tem a missão de atuar profeticamente no mundo para que haja mais partilha e justa distribuição de renda. Para isso a Igreja precisa ser pobre. Somente uma Igreja pobre, no espírito de São Francisco de Assis, conforme tem preconizado tantas vezes o Papa Francisco, poderá ter credibilidade e influência na história. Tudo isso, porém a partir do encontro profundo com a pessoa de Jesus de Nazaré. Pois sem conversão do coração, atuada pela graça libertadora de Deus em nós, não se entende nem se exerce a partilha dos dons e dos bens.

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AS CONSEQUÊNCIAS DA CELEBRAÇÃO DA EUCARISTIA

Os exegetas interpretam Jo 6,1-15 como um relato eucarístico. Ou seja, ele quer significar o sentido da celebração da Eucaristia na Igreja. Sendo assim podemos afirmar que só faz sentido a celebração eucarística que compromete os participantes com os necessitados da comunidade. Aliás, há um belíssimo texto do século II, escrito por São Justino, que fornece as indicativas para a celebração da Eucaristia: “No dia que se chama do Sol [domingo] celebra-se uma reunião dos que moram nas cidades e nos campos e ali se lêem, quanto o tempo permite, as Memórias dos Apóstolos ou os escritos dos profetas. Assim que o leitor termina, o presidente faz uma exortação e convite para imitarmos tão belos exemplos. Erguemo-nos, então, e elevamos em conjunto as nossas preces, após as quais se oferecem pão, vinho e água, como já dissemos. O presidente também, na medida de sua capacidade, faz elevar a Deus suas preces e ações de graças, respondendo todo o povo ‘Amém’. Segue-se a distribuição a cada um, dos alimentos consagrados pela ação de graças, e seu envio aos doentes, por meio dos diáconos. Os que têm, e querem, dão o que lhes parece, conforme sua livre determinação, sendo a coleta entregue ao presidente, que assim auxilia os órfãos e viúvas, os enfermos, os pobres, os encarcerados, os forasteiros, constituindo-se, numa palavra, o provedor de quantos se acham em necessidade.” (Apologias).

Esse último parágrafo nos remete ao texto do evangelho de hoje: a Eucaristia deve nos mover à partilha, à sensibilidade para com os necessitados. Os bens e os dons são oferecidos para o bem dos mais pobres e carentes.

Por vezes se levantam questões meramente rituais: se o ministro deixou de fazer isso ou aquilo dentro da celebração. Outros ficam implicados se a comunhão deve ser dada na mão ou na boca. Se o fulano pode ou não pode comungar etc. Com isso se esquece do essencial da Eucaristia que é o louvor ao Pai em Cristo e na força do Espírito que se concretiza na caridade fraterna.

Outro texto dos primeiros séculos do cristianismo também vai nessa mesma direção. São Cipriano (século III), bispo de Cartago, exortava a uma matrona rica da cidade: “De resto, tal como és, nem podes praticar a caridade na Igreja. Com efeito, teus olhos cobertos por espessas trevas e pela escuridão da pintura negra, não vêem o necessitado e o pobre. És abastada e rica e pensas que celebras o domingo. Tu, que nem sequer olhas para a caixa de esmolas, vens à celebração dominical sem oblação, e ainda participas da oblação que o pobre ofereceu?” (Patrística, Obras Completas I, Vol. 35,1).

A Eucaristia é o espaço e o ambiente cultual próprio que deve mover à partilha. Participar, comungar e voltar para casa como se nada acontecesse ao derredor é um descaso e uma ofensa ao Senhor que se oferece por nós. Pois ele lançou um olhar sobre a multidão faminta e providenciou-lhe o alimento (cf. Mc 6, 35-44).

Ainda insistindo na importância da Eucaristia na vida da Igreja chamada a ser Sinal de Cristo no mundo, tomo aqui uma catequese do Papa Francisco para nos ajudar a perceber o sentido e as consequências da celebração da Ceia do Senhor: “Ao primeiro gesto de Jesus, ‘tomou o pão e o cálice do vinho’, corresponde assim a preparação dos dons, é a primeira parte da preparação eucarística. É bom que sejam os fiéis a apresentar o pão e o vinho ao sacerdote, porque eles significam a oferta espiritual da Igreja ali recolhida para a Eucaristia. Ainda que hoje os fiéis já não levem, como antes, o seu próprio pão e vinho destinados à Liturgia, todavia o rito da apresentação destes dons conserva o seu valor e significado espiritual.

A propósito, é significativo que, na ordenação de um presbítero, o bispo, quando lhe entrega o pão e o vinho, diz: ‘Recebe as ofertas do povo santo para o sacrifício eucarístico’; é o povo de Deus que leva a oferta para a missa. Portanto, nos sinais do pão e do vinho o povo fiel coloca a própria oferta nas mãos do sacerdote, o qual a depõe sobre o altar ou mesa do Senhor, que é o centro de toda a Liturgia Eucarística. O centro da missa é o altar e o altar é Cristo. No ‘fruto da terra e do trabalho do homem’ é por isso oferecido o compromisso dos fiéis a fazer de si próprios, obedientes à Palavra divina, um ‘sacrifício agradável a Deus Pai todo-poderoso’, ‘para o bem de toda a sua santa Igreja’. Desta maneira a vida dos fiéis, o seu sofrimento, a sua oração, o seu trabalho são unidos aos de Cristo e à sua oferta total, e deste modo adquirem um valor novo.

É verdade que a nossa oferta é coisa pouca, mas Cristo precisa deste pouco – como acontece na multiplicação dos pães – para o transformar no dom eucarístico que a todos alimenta e irmana no seu Corpo que é a Igreja. Pede-nos pouco o Senhor e dá-nos tanto, boa vontade, coração aberto, sermos melhores, e na Eucaristia pede-nos estas ofertas simbólicas que se tornarão Corpo e Sangue. Uma imagem deste movimento oblativo de oração é representada pelo incenso que, consumido no fogo, liberta um fumo perfumado que sobe para o alto: incensar as ofertas, a cruz, o altar, o sacerdote e o povo sacerdotal manifesta visivelmente o vínculo do ofertório que une toda esta realidade ao sacrifício de Cristo. Recordemos que o primeiro altar é a Cruz.

É quanto exprime também a oração sobre as ofertas. Nela o sacerdote pede a Deus que aceite os dons que a Igreja lhe oferece, invocando o fruto do admirável intercâmbio entre a nossa pobreza e a sua riqueza. No pão e no vinho apresentamos-lhe a oferta da nossa vida, a fim de que seja transformada pelo Espírito Santo no sacrifício de Cristo e se torne com Ele uma única oferta espiritual agradável ao Pai. Enquanto se conclui assim a preparação dos dons, a assembleia dispõe-se para a Oração Eucarística.

A espiritualidade do dom de si, que este momento da missa nos ensina, possa iluminar os nossos dias, as relações com os outros, as coisas que fazemos, os sofrimentos que encontramos, ajudando-nos a construir a cidade terrena à luz do Evangelho” (fonte: www.snpcultura.org).

Não é o dinheiro que vai resolver o problema da fome no Brasil e no mundo. Resolve-se a fome com a partilha, com a generosidade, com a disponibilidade de não reter somente para si “os cinco pães e os dois peixes”. Quem tem muito dinheiro, ao invés de ajudar a diminuir a fome, aprofunda o fosso da miséria. A fome é debelada pelo espírito de partilha, de solidariedade, de cuidado, de justiça, de não deixar desperdiçar-se o alimento, de distribuir equitativamente o pão. E essa compreensão e atitude estão enraizadas na vida de Jesus de Nazaré cujo Memorial é a Eucaristia.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN