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aurelius

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Deus se manifesta nos pequenos

aureliano, 15.10.21

29º Domingo do Tempo Comum [17 de outubro 2021]

   [Mc 10,35-45]

No domingo passado, Jesus exortava a renunciar às riquezas. O apego a elas é empecilho para o seguimento de Jesus, para a salvação. Jesus propõe um caminho novo: a partilha com os pobres. Para que não haja necessitados (cf. At 4, 32-35).

Neste domingo, continuando o caminho para Jerusalém, onde se dará o desfecho de sua entrega total ao Pai por nós, Jesus continua ensinando aos seus discípulos, a partir do caminho que eles mesmos vão fazendo em que aparecem seus defeitos e pecados. Eles precisam mudar a mentalidade. E como é difícil mudar a maneira de pensar! Sobretudo quando se trata de pensar à maneira de Jesus: sair de si mesmo.

Os filhos de Zebedeu, do grupo dos primeiros discípulos, já pensavam nos privilégios de terem sido os primeiros! Pensando que Jesus seria um grande líder político, que entraria triunfalmente em Jerusalém, dominando e desbaratando o poder opressor, querem garantir uma fatia no bolo do poder: “Deixa-nos sentar um à tua direita e outro à tua esquerda, quando estiveres na tua glória” (Mc 10,37).

Jesus se vale desse pedido para dar-lhes um ensinamento. É preciso “beber o cálice”. Ou seja, é preciso participar da mesma sorte de Jesus. É preciso “ser batizado” no mesmo batismo de Jesus. Isto é, terão que dar conta de experimentar, de imergir na paixão e sofrimento do Mestre. João e Tiago precisam estar dispostos a enfrentar a dor e o sofrimento, a percorrer o caminho da entrega da vida com o Mestre pela salvação da humanidade.

Na segunda parte do evangelho Jesus é bem claro no ensinamento a respeito do poder temporal buscado pelos filhos de Zebedeu: “Os chefes das nações as oprimem e os grandes as tiranizam. Mas, entre vós não deve ser assim: quem quiser ser grande, seja vosso servo; e quem quiser ser o primeiro, seja o escravo de todos” (Mc 10, 42-44). Os discípulos poderiam recordar a tirania do império romano e de outros malvados de seu tempo como Herodes Antipas e seus familiares. Jesus propõe uma interrelação totalmente diferente. Agora a relação deve ser de fraternidade e de serviço: “Porque o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate por muitos” (Mc 10, 45).

“Entre vós não deve ser assim”. Essa palavra de Jesus deve nos acompanhar. Penso que ela resume todo o ensinamento de Jesus nesse relato. Ele exige que sejamos diferentes, que tenhamos atitudes diferentes daquelas que o mundo propõe. Enquanto a sociedade do consumo propõe como caminho de felicidade o sucesso, o dinheiro, a aparência, os aplausos, o acúmulo, o poder, a capacidade de influenciar, o gozo a todo custo, Jesus propõe um caminho de doação, de respeito, de solidariedade, de saída de si, de partilha dos bens, do serviço generoso, da alegre convivência, de cuidado para com o mais fraco.

Essa é a “política” de Jesus. É o Reino de Deus que ele inaugurou. Enquanto no mundo da política rasteira muitos estão preocupados com seus cargos em perigo, com os altos salários, com os acordos espúrios para tirar vantagem, com os primeiros lugares, com os privilégios, Jesus vem propor uma atitude de serviço, de lava-pés, de fazer valer o poder-serviço.

Ministro vem de minus ou minor, menor. Quem tem algum ministério, seja na Igreja, seja na sociedade, deve entender-se como servidor de todos. Em face do pequeno o homem revela o que tem no coração: bondade ou sede de poder. O pequeno, o fraco, o necessitado de minha ajuda pode ser um objeto para meus caprichos, como pode ser alguém que me ajuda a expressar a bondade e a misericórdia.

Para refletir: Como exerço meu ministério na comunidade: busco servir ou me sirvo do ministério? Como tenho atuado na política: estou à cata de vantagens pessoais, ou estou empenhado nas necessidades da comunidade? Ainda mais: os outros discípulos começaram a brigar com João e Tiago por causa de seu pedido. Fico disputando, brigando, competindo com os outros? Ou valorizo, respeito, admiro e mesmo incentivo aqueles que exercem bem seu ministério?

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Certamente a palavra emblemática de Jesus: “Quem quiser ser o maior, se faça servidor de todos” encontre pouca repercussão em nossa sociedade atual. Hoje perdura a busca do triunfo. De modo geral, as pessoas querem vencer a todo custo. Além de medir força com os outros, há também a busca do bem-estar pessoal, social. Bom salário, conta corrente forte, aplicação financeira em paraísos fiscais, o máximo possível de passeios e curtição, livrar-se de qualquer situação ou pessoa que ‘pese’ a vida. Um modo de vida que traga o máximo de prazer e conforto e eliminação de toda pessoa ou situação que gere desconforto, mal-estar. Estabelecer poucas relações sociais para não ser incomodado: cada um cuide de si mesmo. Não complicar a vida. Quanto mais distante daqueles que me ‘incomodam’, melhor. Aproximações somente para tirar vantagens.

Bem. Diante de tal quadro é bem difícil fazer ecoar a palavra do Evangelho. Ser cristão, discípulo de Jesus, em meio a tanta indiferença humana talvez seja o grande desafio para nós, hoje.

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O relato de hoje acena para a necessidade se refletir sobre a religião. Pe. Pagola fala de “Religião da autoridade” e “Religião do chamado”. A ‘religião de autoridade’ busca impor normas e doutrinas, exigindo obediência à autoridade que se impõe pelo medo, pela ameaça, pela coação. Já a “religião do chamado” não impõe, mas propõe um caminho de salvação; não atua pelo poder, mas pelo serviço; não julga nem condena, mas acolhe, perdoa e incentiva a caminhar. A fé cristã deve colocar-se no caminho de um serviço humanizador aos homens e mulheres de nosso tempo se quiser perdurar e influenciar a história.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN