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aurelius

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Viver é arriscar-se pela vida

aureliano, 17.11.23

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33º Domingo do Tempo Comum [19 de novembro de 2023]

[Mt 25,14-30]

Estamos diante de uma parábola que causa estranheza à primeira vista. Um patrão ambicioso que vai viajar e entrega uma quantia de dinheiro a alguns de seus empregados para que eles façam esse dinheiro multiplicar. A atitude com o terceiro empregado revela que esse patrão ambicioso que se enriquece às custas dos empregados: “Tu sabias que colho onde não plantei e ceifo onde não semeei”. E sua atitude violenta com o empregado “medroso”, denominado por ele de “mau e preguiçoso” produz uma impressão ruim dentro da gente.

Em primeiro lugar é preciso considerar que é uma parábola, com os limites das comparações. Depois, uma parábola que tem como pano de fundo os escribas e fariseus e a comunidade de Mateus proveniente do judaísmo. Mateus pretende mostrar aos escribas e fariseus que não basta o cumprimento da Lei, mas é preciso viver de modo vigilante e criativo, correndo risco de “perder a vida” para ganhá-la. Aos judeu-cristãos que, certamente, começaram a se acomodar, esperando para breve a vinda do Senhor Jesus, com dificuldade em viver a proposta do Evangelho, permanecendo fechados num sistema religioso legalista e excludente, Mateus está lembrando a necessidade da vigilância produtiva: é preciso colocar os dons a serviço da comunidade, assumindo assim a grande causa de Jesus que foi a vida fraterna, o lava-pés “para que todos tenham vida” (Jo 10,10).

A parábola não pode ser interpretada na lógica capitalista como se estivesse legitimando produção econômica. Ela quer ajudar a comunidade a sair da “zona de conforto”, de uma vida fechada, egoísta, comodista para atitudes de serviço e generosidade a fim de que aqueles que não contam na sociedade sejam incluídos. Jesus não quer ninguém de fora.

Para isso ele quer contar com nossa participação na obra da “salvação” da humanidade. Quando ‘arriscamos’ nossa vida, à semelhança de Jesus, estamos vivendo a Eucaristia que celebramos: “Isto é o meu corpo que é dado por vós”. Deus não tem o hábito de transtornar as leis da natureza, fazendo ‘milagres’ a toda hora. Ele quer agir no mundo através de nós pela força do Espírito Santo.

Deixemos Deus agir em nós e empreguemos nossa diligência em fazer multiplicar os dons que Ele nos deu, como a mulher virtuosa (sabedoria) da primeira leitura: “Abre suas mãos ao necessitado e estende suas mãos ao pobre” (Pr 3, 20). Assumir a causa de Deus é torná-la nossa. Então nossa vida será uma constante preparação para a “prestação de contas” que o Pai pedirá de nós um dia. Julgamento que terá como critério absoluto a misericórdia. 

Ademais, podemos concluir da parábola que, ao elogiar os dois primeiros servos que arriscaram a sorte para fazer o talento multiplicar-se, e ao reprovar o terceiro que teve medo e enterrou o talento, Jesus se opõe à postura de escravo que faz somente o que foi estabelecido (a mentalidade rabínica em relação à Lei). O discípulo de Jesus deve assumir uma postura de risco, de liberdade, de sair de suas próprias seguranças, fazendo valer os seus dons como presente de Deus e se esforça para fazê-los multiplicarem-se. O Reino de Deus pressupõe iniciativa, criatividade, saída de si, risco. Somente assim ele é capaz de crescer e produzir frutos.

Assumir a obra de Cristo é a única preparação válida para sua nova vinda, vivendo cada dia como se fosse o último.

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“TIVE MEDO E ESCONDI TEU TALENTO”

Esse terceiro empregado a quem foi confiada menor quantia e que reagiu de modo diferente dos outros dois, merece mais algumas considerações. A pergunta que se coloca é: “Por que ele não fez render o talento recebido, à semelhança dos outros?” – Ele mesmo responde: “Sabia que tu és um homem duro, que colhes onde não semeaste e recolhes onde não plantaste. Por isso tive medo e fui esconder teu talento na terra. Eis aqui, toma o que te pertence” (Mt 25,24-25). Esse relato faz lembrar Adão depois do pecado: “Ouvi teu passo no jardim, tive medo porque estou nu e me escondi” (Gn 3,10).

Quero me ater àquela palavra do empregado: “Tive medo”. À primeira vista parece que Jesus está ameaçando seus discípulos com essa parábola. Quase metade do texto se destina a narrar o ocorrido com esse empregado. Por isso vale a pena nos debruçarmos um pouco sobre a atitude do patrão e do empregado.

Olhando mais de perto, notamos o medo muito presente no coração humano diante daquelas situações que o ultrapassam. Vejamos: medo de adoecer, medo de sofrer, medo de morrer, medo de ir para o inferno, medo de perder o céu, medo de ser castigado, medo de mau-olhado, medo de feitiço, medo de “encosto”, medo de macumba, medo de... São realidades referentes à sua relação com um poder que o ultrapassa.

Claro que precisamos distinguir uma relação de medo doentio com o sagrado e o “Timor Dei” (Temor de Deus) (Sl 111,10; Pr 1,7) que denota profundo respeito e reconhecimento de Deus como Senhor, Criador e Pai a quem devemos amar e servir de todo coração.

O fato é que o servo da parábola agiu movido pelo medo. Faltou-lhe atitude de amor, de gratuidade, de arriscar-se. Demonstra que não amava o seu senhor. Não teve coragem de correr o risco. Não se empenhou em nada. Na verdade, aquele medo parece mais preguiça e comodismo. Para não sair de si, para não trabalhar, “enterra o talento”. Recebe por isso a repreensão do patrão: “Servo mau e preguiçoso” (Mt 25,26).

Uma religião vivida na base do medo, de proselitismo, numa relação de “toma lá, dá cá” parece não corresponder à proposta do Reino de Deus trazido por Jesus. Pois a entrada de Deus em nossa história foi exatamente para estabelecermos com Ele uma nova relação, uma relação filial, de gratuidade, de generosidade, de serviço amoroso a exemplo de Jesus: “Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, vós o façais” (Jo 13,15).

A Escritura nos exorta: “Deus não nos deu um espírito de medo, mas um espírito de força, de amor e de sobriedade” (2Tm 1,7). E quantas vezes o Divino Mestre proclamou: “Não tenhais medo!” (Mt 14,27 e correlatos).

A afirmação de um historiador social contemporâneo faz a gente pensar: “O medo enche muito mais as igrejas do que o amor”. Certamente isso não significa que, necessariamente, nossas igrejas se enchem de pessoas movidas pelo medo. Penso que não. Mas há muita gente que frequenta cultos e orações à cata de milagres, de proteção contra isso ou aquilo, ou com medo de algum castigo ou punição divina. Há muita superstição nas rezas e cultos, e muitos charlatães aproveitando-se do medo ou da boa-fé das pessoas simples.

A participação na vida da comunidade de fé deve ir se depurando, amadurecendo de tal maneira que nossa participação tenha como motivação a bondade de Deus, seu amor por nós, a entrega de seu Filho pela nossa salvação. Ainda que Ele não tivesse nada a nos oferecer, queremos amá-Lo e servi-Lo. E, consequentemente, colocarmos nosso “talento” a serviço da construção de um mundo mais irmão para a Glória do Pai e o bem de todas as pessoas.

Podemos concluir, portanto, que o grave problema daquele terceiro servo foi o fechamento, o medo de arriscar-se, o egoísmo que o levou a “enterrar” o dom que recebera: “Quem vive para si, empobrece o seu viver. / Quem doar a própria vida, vida nova há de colher”.

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19 DE NOVEMBRO: VII DIA MUNDIAL DOS POBRES

“Nunca afastes de algum pobre o teu olhar” (Tb 4,7)

“’Nunca afastes de algum pobre o teu olhar’ (Tb 4, 7). Esta recomendação ajuda-nos a compreender a essência do nosso testemunho. Deter-se no Livro de Tobite, um texto pouco conhecido do Antigo Testamento, eloquente e cheio de sabedoria, permitir-nos-á penetrar melhor no conteúdo que o autor sagrado deseja transmitir. Abre-se diante de nós uma cena de vida familiar: um pai, Tobite, despede-se do filho, Tobias, que está prestes a iniciar uma longa viagem. O velho Tobite teme não voltar a ver o filho e, por isso, deixa-lhe o seu ‘testamento espiritual’. Foi deportado para Nínive e agora está cego; é, por conseguinte, duplamente pobre, mas sempre viveu com a certeza que o próprio nome exprime: ‘O Senhor foi o meu bem’. Este homem que sempre confiou no Senhor, deseja, como um bom pai, deixar ao filho não tanto bens materiais, mas sobretudo o testemunho do caminho que há de seguir na vida. Por isso diz-lhe: ‘Lembra-te sempre, filho, do Senhor, nosso Deus, em todos os teus dias, evita o pecado e observa os seus mandamentos. Pratica a justiça em todos os dias da tua vida e não andes pelos caminhos da injustiça’ (Tb 4, 5)”.

(...) “Vivemos um momento histórico que não favorece a atenção aos mais pobres. O volume sonoro do apelo ao bem-estar é cada vez mais alto, enquanto se põe o silenciador relativamente às vozes de quem vive na pobreza. Tende-se a ignorar tudo o que não se enquadre nos modelos de vida pensados sobretudo para as gerações mais jovens, que são as mais frágeis perante a mudança cultural em curso. Coloca-se entre parênteses aquilo que é desagradável e causa sofrimento, enquanto se exaltam as qualidades físicas como se fossem a meta principal a alcançar. A realidade virtual sobrepõe-se à vida real, e acontece cada vez mais facilmente confundirem-se os dois mundos. Os pobres tornam-se imagens que até podem comover por alguns momentos, mas quando os encontramos em carne e osso pela estrada, sobrevêm o fastio e a marginalização. A pressa, companheira diária da vida, impede de parar, socorrer e cuidar do outro. A parábola do bom samaritano (cf. Lc 10, 25-37) não é história do passado; desafia o presente de cada um de nós. Delegar a outros é fácil; oferecer dinheiro para que outros pratiquem a caridade é um gesto generoso; envolver-se pessoalmente é a vocação de todo o cristão” (Papa Francisco).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Repartir o pão de Deus

aureliano, 01.08.20

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18º Domingo do Tempo Comum [02 de agosto de 2020]

[Mt 14,13-21]

Mateus retrata dois relatos da multiplicação dos pães, a saber, o relato de hoje e também Mt 15, 32-39. O mesmo ocorre com Marcos. Somente João e Lucas relatam uma única vez. Marcos e Mateus fazem como que uma reprise da primeira, diferindo somente o lugar do acontecimento: a primeira, na Galiléia; a segunda, em território exclusivo dos gentios.

O discípulo está iniciado no Reino de Deus a partir do capítulo 13: as parábolas do Reino. O relato de hoje dá uma amostra para o discípulo de como deve ser o Reino de Deus: curar os doentes e dar pão aos famintos: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. A missão da Igreja deve ser a de tomar a defesa dos famintos, distribuindo o pão da Palavra que leva à partilha do pão material, ao cuidado com os mais necessitados. Não adianta a comunidade se reunir para o culto da Palavra, para a oração do Terço, para a Adoração se essa oração não leva a atitudes concretas de comprometimento com o Reino de Deus. O fruto da Palavra, e esta vem primeiro, deve ser a partilha que brota de um coração compadecido como o de Jesus.

É importante observar no relato do evangelho alguns símbolos que nos ajudam a perceber por onde o autor do evangelho nos quer conduzir. O texto fala de 5 pães, de 2 peixes, de 12 cestos e 5 mil homens. O número 5 nos remete à Torá, os cinco primeiros livros da Bíblia, que contêm os Ensinamentos de Deus para todo judeu. Os 5 mil homens podem corresponder àqueles que ouvem e seguem a Lei de Deus. O peixe lembra a presença salvadora de Jesus. Nos primeiros séculos tornou-se o símbolo dos cristãos diante da perseguição romana. Isso porque, em grego, a palavra peixe se escreve IXTUS, como um acróstico para a formulação da fé cristã: Iesùs Xristòs Theòu Uiòs Soteèr, que significa “Jesus Cristo Filho de Deus Salvador”. O número 12, símbolo da plenitude, lembra as 12 Tribos de Israel e os 12 Apóstolos.

Outro elemento como o deserto, lembra o lugar da peregrinação do Povo de Israel e sua organização quando se liberta da escravidão do Faraó; lugar da provação, do encontro com Deus. Aqueles que vêm ao encontro de Jesus querem se libertar do poder opressor de Herodes que, no relato anterior, mandara executar João Batista. O sentar-se na grama também tem seu sentido: sentar-se, na tradição judaica, é sinal de acolhida, de dignidade, de soberania. O pão distribuído recorda o maná que alimentou o povo no deserto. Aqui aponta para a Eucaristia, o Pão que nos alimenta e nos impulsiona à partilha.

Por esses elementos percebemos que esse relato quer nos indicar a pessoa de Jesus como aquele que veio dar um novo sentido à vida. O povo estava como “ovelha sem pastor”’, sequioso de uma palavra, um gesto que enchesse seu coração. E Jesus lhes dirige a Palavra e dá-lhes o pão. Indica o caminho que deve seguir: dar de comer a quem tem fome (cf. Mt 25,31-46).

Não adianta permanecer num ritualismo estéril: preocupação com o que pode e não pode dentro da celebração, mas trazer para a celebração a vida das pessoas, seus anseios, alegrias e dores. É preciso dar um novo sentido às nossas celebrações. Os dois gestos significativos de Jesus quando cura os doentes e alimenta os famintos nos impelem a continuar sua ação no mundo: “Dai-lhes vós mesmo de comer”. A Eucaristia urge consequência em nossa vida.

A propósito da celebração eucarística, os bispos advertem: “É necessário promover uma liturgia essencial, que não sucumba aos extremos do subjetivismo emotivo nem tampouco da frieza e da rigidez rubricista e ritualística, mas que conduza os fiéis a mergulhar no mistério de Deus, sem deixar o chão concreto da história de fora da oração comunitária” (Diretrizes Gerais, 2019-2023, 162). E mais adiante recomendam não desligar fé e vida, culto e misericórdia: “Em tempo de individualismo extremo, em que o eu parece ser o centro de tudo, é preciso dar o salto para uma espiritualidade comunitária, na qual a oração pessoal e comunitária sejam abertas ao coletivo, especialmente aos que estão nas periferias sociais, existenciais, geográficas e eclesiais” (Ibidem, 163).

A multiplicação do pão material mostra que Jesus nos alimenta com o pão que vem de Deus, sua palavra, a mensagem do Reino. É um gesto que inaugura o Reino de Deus. O pão material é o primeiro fruto do pão da Palavra. O pão material não é o último dom, mas é o aperitivo do Reino. Por isso mesmo precisamos cuidar que ele tenha gosto de Deus e não do materialismo. Para isso, antes de realizar o sinal da multiplicação, Jesus “ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção”. A propósito de remeter tudo o que temos a Deus, dizia um rabino dos primeiros séculos que ‘tomar o alimento sem dar graças é roubar o pão a Deus’. O reconhecimento de que o pão não é nosso, mas de Deus, portanto, para todos.

É missão da Igreja também denunciar toda forma de exploração e de usurpação dos direitos dos pequenos e pobres. A Igreja precisa dizer com Jesus: “Dai-lhes de comer”. Quando o Estado e/ou donos do poder exploram ou cometem qualquer tipo de injustiça que leve a faltar o pão na mesa dos pobres, a Igreja precisa levantar a voz profética, sob pena de ser perseguida e  seus líderes profetas serem assassinados.  “Na dúvida, fique do lado dos pobres” (Dom Pedro Casaldáliga).

É muito oportuno, quanto se trata do cuidado para com os pobres, lembrar algumas palavras do Papa Francisco por ocasião do Encontro Mundial dos Movimentos Populares em Roma (2014): “Terra, teto, trabalho. É estranho, mas quando falo sobre estas coisas, para alguns parece que o Papa é comunista. Não se entende que o amor pelos pobres está no centro do Evangelho.” E acrescenta Francisco que terra, casa e trabalho são “direitos sagrados”, “é a Doutrina social da Igreja”. E pronuncia esse apelo emblemático: “Nenhuma família sem casa. Nenhum camponês sem terra! Nenhum trabalhador sem direitos! Nenhuma pessoa sem a dignidade que o trabalho dá”.

*Neste primeiro domingo de agosto celebramos o Dia do Padre. É oportunidade de agradecermos a Deus pelos padres que passaram por nossa vida, nos ajudaram, nos deram os sacramentos. Alguns já partiram desta vida. Outros continuam no meio de nós. É dia também de rezarmos e refletirmos sobre as vocações sacerdotais. O que você tem feito pelas vocações? Você ajuda, reza, apoia os vocacionados? Você ajuda a nós padres a sermos mais pastores, mais próximos, mais dedicados? Não trate o padre como ‘coitadinho’, não! Ele escolheu essa vocação atendendo ao chamado de Deus e da Igreja. Colocou-se livremente a serviço do evangelho. Precisa ser ajudado a viver com fidelidade e dedicação. E você, cristão leigo/a, deve ajudá-lo a ser um verdadeiro colaborador e servidor das comunidades, rezando por ele, fazendo a correção fraterna quando necessário, sendo colaborativo nos serviços e ministérios da comunidade! Ajudem-nos a sermos mais pastores, mais misericordiosos, mais generosos, mais paternais.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Felizes os pobres

aureliano, 27.01.17

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4º Domingo do Tempo Comum [29 de janeiro de 2017]

[Mt 5,1-12]

Esse trecho do evangelho, início do Sermão da Montanha, é uma síntese do ensinamento de Jesus. E a primeira bem-aventurança sintetiza todas as outras: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5, 3).

Quando lançamos um olhar para nosso mundo, notamos que há muita gente vivendo na miséria: muitos buscam alimento no lixo; muitos morrem nas filas do SUS; muitos vivem em barracos que não protegem nem do sol nem da chuva. Será que Jesus está dizendo que essas pessoas são felizes porque vivem nessa miséria? Se Jesus estivesse querendo dizer isso estaríamos diante de um Deus mau, que vive e se alegra com a desgraça humana. Esse não pode ser o Deus que Jesus revelou!

O termo “pobre” designa aquele que vive na miséria, desprovido dos recursos materiais imprescindíveis à sobrevivência, esquecido pelas classes dirigentes, abandonado à sua própria sorte. Porém Mateus qualifica: “pobres em espírito”. Esse qualificativo, segundo o entendimento mais comum, designa a pessoa que coloca sua vida nas mãos de Deus, “deposita sua confiança em Deus”. São felizes não por serem pobres, mas porque o Reino dos Céus lhes pertence.

E quando Jesus propõe esse estilo de vida, ele o faz para todas as pessoas. De modo que, se todos os cristãos vivessem dessa forma, a distância social entre ricos e pobres diminuiria. O grande diferencial aqui é o Reino dos Céus. Na perspectiva de Jesus, a chegada do Reino transforma as relações: Deus torna-se o centro da vida das pessoas e não o dinheiro e o poder. Os pequeninos têm prioridade no atendimento, nos cuidados, na dedicação. Aqui está a razão da felicidade.

Quando lançamos um olhar sobre nosso país notamos que o Reino está bem distante. Os jogos políticos que temos visto nas várias esferas do poder público, mostram onde estamos. Ao perguntarmos se esses facínoras são cristãos, certamente a resposta será positiva, no sentido de pertencerem ou de terem pertencido a alguma Igreja. Mas se perguntarmos para qual reino trabalham, certamente dirão que trabalham pelo povo. Porém as atitudes mostram que visam, em primeiro lugar, ao próprio reino (bolso). Essas atitudes se reproduzem nas outras camadas sociais, pois o verme da ganância está no coração de ricos e pobres. É só aparecer uma oportunidade e já se manifesta esse câncer que transforma o irmão num objeto de lucro e de dominação.

Refletindo: procuro viver o ser pobre no sentido de que “estou nas mãos de Deus”? Como vejo e acolho aqueles que de mim se aproximam? Valorizo-os como iguais a mim ou me coloco acima deles? Estou convencido de que a felicidade não está no acúmulo de bens, mas na partilha, gratuidade e generosidade de coração?

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FELICIDADE EVANGÉLICA

Quem era feliz no tempo de Jesus? De acordo com a cultura religiosa da época, era feliz o homem (varão) que fosse casado com uma mulher que lhe correspondesse em tudo, tivesse muitos filhos (varões!), possuísse um pedaço de terra para cultivo e gado, gozasse de boa saúde para viver bem e longos anos, freqüentasse o Templo ou a Sinagoga para os deveres religiosos. Esse era o entendimento de felicidade para os judeus em geral.

Jesus, porém, tinha outro ideal, outra compreensão de felicidade. Não tinha mulher nem filhos, não possuía terra nem bens, vivia peregrinando em busca do bem e da felicidade dos outros. Seu projeto de vida e de felicidade consistia em devolver a alegria, a saúde, a paz aos sofredores. Ver os outros felizes: homens e mulheres. Instaurar o Reino de Deus. Não disse: “Felizes os piedosos, os que pagam o dízimo, os ricos e saudáveis...”. Não! Mas proclamou felizes os pobres, os puros, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os promotores da paz, os puros, os que choram, os perseguidos.

O caminho da felicidade traçado por Jesus está na contramão da proposta mundana. Isso não significa que ele despreze as coisas boas desta vida, nem deseje que a pessoa viva triste, emburrada, mal amada, infeliz. De jeito nenhum. Não foi isto que ele fez. Mas ele veio dizer e mostrar com sua vida que a felicidade não se reduz a conforto e posse de bens e nem é privilégio para alguns. É um estado de alma que deve ser experimentado por todos, indistintamente. Enquanto houver alguém excluído do banquete da vida, dos frutos da Criação, da alegria de viver, o discípulo de Jesus não pode repousar em paz. Enquanto houver refugiados e migrantes desabrigados e perseguidos, crianças exploradas e violentadas, idosos abandonados, doentes descuidados e jogados na periferia da vida, não podemos dormir em paz. Para Jesus, ser feliz é estar com o “coração no alto” e os pés no chão da vida dos irmãos que mais precisam. Foi assim que ele viveu. Está lançado o desafio!

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FÉ TESTEMUNHADA E VIVIDA

A seguir, julguei oportuno transcrever uma palavra do Papa Francisco, em visita a um colégio universitário, em junho de 2016.  Ilustra bem o relato do evangelho deste domingo.

“A tragédia das comunidades cristãs espalhadas pelo mundo: isto é verdade. Mas é o destino dos cristãos: o testemunho — retomo a palavra testemunho — até em situações difíceis. Eu não gosto, e pretendo dizê-lo claramente, de quando se fala de um genocídio dos cristãos, por exemplo no Médio Oriente: isto é reducionismo, é um reducionismo. A verdade é uma perseguição que leva os cristãos à fidelidade, à coerência na própria fé. Não façamos reducionismo sociológico daquilo que é um mistério da fé: o martírio. Os 13 creio que fossem egípcios cristãos coptas, hoje santos canonizados pela Igreja Copta — degolados no litoral da Líbia: todos morreram dizendo «Jesus, ajuda-me!». Jesus. Mas estou certo de que a maioria deles nem sequer sabia ler. Não eram doutores em teologia, não. Eram pessoas, como se diz, ignorantes, mas eram doutores de coerência cristã, isto é, eram testemunhas de fé. A fé faz-nos testemunhar muitas coisas difíceis na vida; também com a vida testemunhamos a fé. Mas não nos enganemos: o martírio cruel não é o único modo de testemunhar Jesus Cristo. É o máximo, digamos, heróico. É também verdade que hoje há mais mártires do que nos primeiros séculos da Igreja, é verdade. Mas há o martírio de todos os dias: o martírio da honestidade, o martírio da paciência, na educação dos filhos; o martírio da fidelidade ao amor, quando é mais fácil enveredar por outra estrada, mais escondida: o martírio da honestidade, neste mundo que se pode chamar também «o paraíso dos subornos», é tão fácil: «O senhor diga isto e terá isto», onde falta a coragem de lançar na cara o dinheiro sujo, num mundo onde muitos pais dão de comer aos filhos o pão manchado pelos subornos, aquele pão que eles compram com os subornos que ganham... Eis o testemunho cristão, eis o martírio: «Não, não quero isto!» — «Se tu não queres, não terás aquele trabalho, não poderás subir mais alto». O martírio do silêncio diante da tentação dos mexericos. Para um cristão — Jesus diz — não é lícito mexericar. Jesus diz que quem disser «estulto» ao irmão deve ir para o inferno. Sabeis que os mexericos são como a bomba dos terroristas, dos kamikazes — não de um kamikaze, de um terrorista, pelo menos o kamikaze tem a coragem de morrer também ele — não, os mexericos são quando eu lanço a «bomba», destruo alguém, e fico feliz. Mas o testemunho cristão é o martírio de cada dia, o martírio silencioso, e devemos falar assim. «Mas somos homens e mulheres martirizados, devemos ter o semblante triste, uma cara amuada». Não! Há a alegria da palavra de Jesus, como aqueles da praia da Líbia.

E é necessário coragem, e a coragem é um dom do Espírito Santo. O martírio, a vida cristã martirial, o testemunho cristão não se pode viver sem a coragem da vida cristã. São Paulo usa duas palavras para indicar a vida martirial cristã, a vida de todos os dias: coragem e paciência. Duas palavras. A coragem de ir em frente e não ter vergonha de ser cristãos e mostrar-se como cristãos, e a paciência de carregar nos ombros o peso diário, até as dores, os próprios pecados e as incoerências. «Mas, podemos ser cristãos com os pecados?». Sim. Somos todos pecadores, todos. O cristão não é um homem ou uma mulher com a assepsia dos laboratórios, não é como a água destilada! O cristão é um homem, uma mulher, capaz de trair o próprio ideal com o pecado, é um homem ou uma mulher frágil. Mas devemos reconciliar-nos com a nossa debilidade. E assim o nariz [o aspeto] torna-se um pouco mais humilde. Mais humilde”.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN