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aurelius

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O que define o "vinde benditos" e o "ide malditos"

aureliano, 24.11.23

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Cristo Rei do Universo [26 de novembro de 2023]

[Mt 25,31-46]

O capítulo 25 de Mateus é constituído por três parábolas que evocam a vigilância em vista do fim: a das virgens, a dos talentos e a do julgamento final. Enquanto as duas primeiras mostram a insensatez daqueles que não vigiam como devem, esta última mostra qual será o critério de julgamento no fim da vida: o amor concreto às pessoas que sofrem: famintos, sedentos, migrantes, nus, doentes, presos.

Na cultura judaica (e talvez ainda hoje!) essas categorias de pessoas eram tidas como impuras, condenadas por Deus. Sofriam porque estavam pagando por algum pecado. Jesus veio dar uma guinada nessa compreensão, identificando-se com elas: “Todas as vezes que o fizestes a um destes mais pequeninos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25, 40). O rosto de Deus se manifesta no rosto do pobre, excluído dos bens da criação. Um rosto que nos interpela, que provoca nossa indiferença.

Para reconhecer a presença de Deus no pobre é necessário conversão! No tempo de Jesus, Deus era encontrado no Templo (quando o evangelho de Mateus foi escrito, o Templo já havia sido destruído), nas sinagogas, naqueles que cumpriam a Lei de Moisés. Eram os justos. Mas Jesus chama de justos aqueles que cumprem a lei do amor: cuidado para com os famintos, sedentos, presos, migrantes, doentes, nus. Os “pequeninos” do Reino constituem o lugar do encontro com Deus. Desse modo Jesus universaliza a possibilidade do encontro salvador com Deus. Todas as pessoas, de qualquer religião ou cultura, podem agora escolher o caminho da salvação ou da condenação. Ouvir “vinde benditos” ou “ide malditos” depende do caminho que cada um escolhe: amor-doação ou egoísmo-fechamanto.

É interessante notar que os justos do Evangelho da liturgia de hoje não sabem que os pobres, a quem serviram, representavam o Rei. Não praticaram a misericórdia para impressionar o Rei nem para “alcançar a salvação”. Mas foram misericordiosos e servidores dos pobres por pura bondade e compaixão para com os necessitados. Essa despretensiosa bondade é que conta para Deus: fazer o bem, praticar as obras de misericórdia sem desejar receber nada em troca, nem mesmo o céu. Este nos é dado como dom, como fruto da bondade do Pai, e não de nossa “compra” ou prática de atos bons. Se pudemos fazer alguma coisa boa pelos mais pobres, também essa possibilidade nos foi dada por Deus, por dom e graça d’Ele. Conclui-se que o critério último da salvação não é a fé pura e simplesmente, mas a “fé informada pela caridade” (cf. 1Cor 13,2; Gl, 5,6).

A Escritura diz que até os demônios crêem: “Tu crês que há um só Deus? Ótimo! Lembra-te, porém, que os demônios também crêem, mas estremecem” (Tg 2,19). Crer simplesmente que Deus existe não significa nada para nossa vida. É preciso ter uma fé comprometida: crer na existência de Deus e assumir na vida o jeito de ser de Deus revelado na pessoa de Jesus de Nazaré. Em outras palavras, a fé precisa incidir nas atitudes cotidianas de respeito, de cuidado, de compreensão, de justiça, de honestidade, de lealdade, de perdão, de sentimento de partilha e solidariedade etc. Sem o cultivo dessas atitudes, a fé termina por ser um vazio que não diz nada nem para si mesmo nem para os circundantes (cf. 1Cor 13,1-3). Aliás, o que tem de gente por aí explorando, dominando e extorquindo as pessoas em nome da fé religiosa, é um horror! A Polícia Federal, tão badalada ultimamente, precisaria dar uma vasculhada nisso.

A caridade dá corpo à nossa fé. “Se alguém, possuindo os bens deste mundo, vê o seu irmão na necessidade e lhe fecha o coração, como permanecerá nele o amor de Deus? Filhinhos, não amemos com palavras nem com a língua, mas com ações e em verdade” (1Jo 3,17-18).

Ilumina muito o que estamos querendo dizer a respeito da relação fé e caridade para a salvação, a palavra do Papa Francisco na mensagem para o IV Dia Mundial dos Pobres: “’Estende a mão ao pobre’ faz ressaltar, por contraste, a atitude de quantos conservam as mãos nos bolsos e não se deixam comover pela pobreza, da qual frequentemente são cúmplices também eles. A indiferença e o cinismo são o seu alimento diário. Que diferença relativamente às mãos generosas que acima descrevemos! Com efeito, existem mãos estendidas para premer rapidamente o teclado dum computador e deslocar somas de dinheiro duma parte do mundo para outra, decretando a riqueza de restritas oligarquias e a miséria de multidões ou a falência de nações inteiras. Há mãos estendidas a acumular dinheiro com a venda de armas que outras mãos, incluindo mãos de crianças, utilizarão para semear morte e pobreza. Existem mãos estendidas que, na sombra, trocam doses de morte para se enriquecer e viver no luxo e num efêmero desregramento. Existem mãos estendidas que às escondidas trocam favores ilegais para um lucro fácil e corrupto. E há também mãos estendidas que, numa hipócrita respeitabilidade, estabelecem leis que eles mesmos não observam”.

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Hoje celebramos o dia dedicado ao Cristão Leigo. O protagonismo do fiel leigo na Igreja tem sido incentivado aos quatro ventos pelo Papa Francisco. O Documento 105 da CNBB reitera a importância da vida e da missão dos cristãos leigos na Igreja e na sociedade: “A partir da sua vocação específica os cristãos leigos e leigas vivem o seguimento de Jesus na família, na comunidade eclesial, no trabalho profissional, na multiforme participação na sociedade justa, solidária e pacífica, que seja sinal do Reino de Deus inaugurado por Jesus de Nazaré” (n. 11).

Corremos o risco de clericalizarmos o leigo, “embatinando-o”. O cristão leigo tem seu lugar e missão na Igreja e no mundo a partir de seu batismo. Ouçamos o Papa Francisco: “Em virtude do Batismo recebido, os fiéis leigos são protagonistas na obra de evangelização e promoção humana. Incorporado à Igreja, cada membro do Povo de Deus é inseparavelmente discípulo e missionário. É preciso sempre reiniciar dessa raiz comum a todos nós, filhos da Mãe Igreja" (07-03-2014). E, na visita à Coréia, deixou essa belíssima palavra: “A Igreja na Coréia, como todos sabemos, herdou a fé de gerações de leigos que perseveraram no amor a Jesus Cristo e na comunhão com a Igreja, apesar da escassez de sacerdotes e da ameaça de graves perseguições” (16/08/2014).

Infelizmente, muitos leigos e leigas que se dizem cristãos e que ocupam postos de decisão da vida política e econômica de nosso País estão sendo uma decepção. A fé cristã não diz nada para a vida da maioria deles. É só acompanhar seus projetos, votações, discursos e posturas na gestão de seus patrimônios: propinas, disputas de cargos, troca de favores em defesa de interesses pessoais, corporativos e partidários.

Aos cristãos leigos e leigas que vivem com inteireza a sua fé batismal, procurando servir ao Reino e transformar a sociedade pelo testemunho de uma vida santa e servidora, com palavra e atitude proféticas de repúdio e contestação a esse estado de corrupção sistêmica que tomou conta de nosso País, nosso apoio e incentivo. O Senhor os confirme e encoraje sempre mais neste caminho.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

No rosto dos pobres, a imagem de Deus

aureliano, 21.10.23

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29º Domingo do Tempo Comum [22 de outubro de 2023]

[Mt 22,15-21]

Depois de percorrer a Galiléia e regiões pagãs circunvizinhas, Jesus vai a Jerusalém por ocasião da festa da Páscoa onde se dá o confronto com o sistema administrativo do Templo composto pelos sumos sacerdotes e anciãos, detentores do poder político, econômico e religioso do Estado. O desfecho foi a condenação de Jesus à morte.

Jesus é visto pelos chefes do judaísmo como um líder que ameaça seu poder e prestígio aos olhos do povo. Por isso precisam tramar uma armadilha para fazê-lo cair em contradição e encontrarem motivo para condená-lo à morte.

No relato de hoje Jesus é colocado numa ‘sinuca de bico’: se aprova o tributo estrangeiro, estaria negando a grandeza do povo messiânico. Se se declara contra, incitaria a rebeldia contra os chefes estrangeiros, dominadores do país.  A resposta de Jesus é célebre e cheia de significado: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.

Essa resposta de Jesus é política. Pode ser interpretada de modo a um ajeitamento político-partidário: “Não se pode misturar política e religião”. “Reza é reza, negócio é negócio”. Mas pode ser interpretada de modo a criar consciência cidadã: “Dai a César o que lhe pertence em justiça. Mas trabalhai para que César cumpra seu dever de cuidar dos cidadãos”. “Buscai primeiro o Reino de Deus e sua justiça”. Ou seja, as exigências do Reino de Deus devem se sobrepor a quaisquer exigências político-administrativas. Essa é a grande mensagem do relato de hoje.

Jesus quis dizer que as “questões de Deus” devem ocupar o primeiro lugar nas preocupações do ser humano enquanto cidadão. Não há nenhum poder político, econômico ou mesmo religioso que deva se sobrepor às exigências da justiça do Reino. O cristão não deve ser indiferente a César, ao Estado, mas, pelo contrário, deve se empenhar para que o Estado cumpra sua função de administrar bem os recursos advindos dos impostos e o patrimônio público em favor do povo, sobretudo dos mais pobres.

A Igreja tem a missão de ser uma presença e voz proféticas, incomodar os acomodados, despertar para o cuidado da vida ameaçada: “Ninguém pode exigir-nos que releguemos a religião para a intimidade secreta das pessoas, sem qualquer influência na vida social e nacional, sem nos preocuparmos com a saúde das instituições da sociedade civil, sem nos pronunciar sobre os acontecimentos que interessam aos cidadãos. (...) Uma fé autêntica – que nunca é cômoda nem individualista – comporta sempre um profundo desejo de mudar o mundo, transmitir valores, deixar a terra um pouco melhor depois da nossa passagem por ela. (...) A terra é a nossa casa comum, e todos somos irmãos. Embora ‘a justa ordem da sociedade e do Estado seja dever central da política’, a Igreja ‘não pode nem deve ficar à margem na luta pela justiça’. Todos os cristãos, incluindo os Pastores, são chamados a preocupar-se com a construção de um mundo melhor” (EG, 183).

Gerir de modo perverso e ganancioso o patrimônio e os recursos públicos é uma tremenda maldade contra os pobres, os doentes, as crianças, os idosos. Um sistema econômico perverso que aumenta a riqueza dos grandes e tira o pão, a educação e o remédio da mesa dos pequenos é um pecado que brada aos céus. Não se podem salvar compromissos de campanha política, distribuindo-se os recursos públicos aos latifundiários, empresários e banqueiros já milionários, travestidos de juízes, deputados e senadores. Uma maldade que não tem tamanho nem qualificação! Se a justiça humana também está pervertida e manipulada pelo poder e pelo dinheiro, a Justiça divina não falhará. Ninguém ficará sem sua paga: “Deus retribuirá a cada um segundo suas obras: a vida eterna para aqueles que pela constância no bem visam à glória, à honra e à incorruptibilidade; a ira e a indignação para os egoístas, rebeldes à verdade e submissos à injustiça” (Rm 2,6-8).

Em sua Carta às Igrejas e à sociedade, o Papa Francisco acena para a desumanidade dos avanços da ciência e da técnica, quase sempre inacessíveis aos mais pobres: “O Grande Imã Ahmad Al-Tayyeb e eu não ignoramos os avanços positivos que se verificaram na ciência, na tecnologia, na medicina, na indústria e no bem estar, sobretudo nos países desenvolvidos. Todavia ‘ressaltamos que, juntamente com tais progressos históricos, grandes e apreciados, se verifica uma deterioração da ética, que condiciona a atividade internacional, e um enfraquecimento dos valores espirituais e do sentido de responsabilidade. Tudo isto contribui para disseminar uma sensação geral de frustração, solidão e desespero, (…) nascem focos de tensão e se acumulam armas e munições, numa situação mundial dominada pela incerteza, pela decepção e pelo medo do futuro e controlada por míopes interesses econômicos’. Assinalamos também ‘as graves crises políticas, a injustiça e a falta duma distribuição equitativa dos recursos naturais (…). A respeito de tais crises que fazem morrer de fome milhões de crianças, já reduzidas a esqueletos humanos por causa da pobreza e da fome, reina um inaceitável silêncio internacional’. Perante tal panorama, embora nos fascinem os inúmeros avanços, não descortinamos um rumo verdadeiramente humano” (FT, 29).

“De quem é esta imagem e inscrição?” Aqui Jesus mostra que, se a moeda, símbolo do poder político-econômico, traz a imagem do imperador, esta lhe pertence; com muito mais razão o ser humano, que traz gravada indelevelmente em seu ser a imagem do Criador, deve ser respeitado, cuidado, amado. Pertence a Deus. Todas as forças políticas e sociais devem estar a serviço daquele que traz em si a imagem de Deus. E o empenho da Igreja em favor do ser humano deve ir ás últimas conseqüências, mesmo quando for preciso entrar em luta com o Estado (César) para que este realize as políticas públicas necessárias com os recursos de que dispõe para isto. O amor de Deus e do próximo é norma última que Deus nos deu e que deve ser respeitada acima de tudo.

Trazendo em si a imagem do Criador, o ser humano deve desenvolver sempre mais esta consciência para que sua vida seja oferecida ao Pai como um sacrifício vivo para Seu louvor e glória. Neste sentido a vida humana não pode ser posta em concorrência com as coisas deste mundo como o poder, o dinheiro, o prazer a qualquer custo. O ser humano pertence a Deus. “Dai a Deus o que é de Deus”.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

O amor do Coração de Jesus

aureliano, 16.06.23

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Sagrado Coração de Jesus [16 de junho de 2023]

[Mt 11,25-30]

“Desde a Patrística, a água e o sangue do Coração de Jesus são símbolos dos sacramentos do Batismo e da Eucaristia. A própria Igreja é vista como nascida do lado aberto de Cristo na Cruz. A contemplação do Coração de Jesus, jorrando sangue e água, sempre foi na Igreja fonte de piedade, oração, fé, graça.

No entanto, uma festa propriamente dita do Coração de Jesus foi celebrada pela primeira vez em 20 de outubro de 1672, pelo padre São João Eudes. Pouco tempo depois, as revelações de Santa Margarida Maria Alacoque (1675) contribuíram imensamente para a difusão dessa devoção.

A característica própria dessa solenidade é a ação de graças pela riqueza insondável de Cristo e a contemplação reparadora do Coração Transpassado. O Papa Pio IX, em 1856, estendeu a festa a toda a Igreja Latina. Em 1899, Leão XIII consagrou o mundo ao Sagrado Coração de Jesus” (fonte: CNBB)..

Na sequência da solenidade do Sagrado Coração de Jesus, é celebrada a memória do Imaculado Coração de Maria. Neste ano, amanhã, sábado, 17 de junho.

Um coração para amar

O coração, na cultura judaica, é a sede das decisões, do pensamento, da vontade. O coração era considerado a própria vida das pessoas. Seu movimento de contração e expansão (sístole e diástole) lembrava ao israelita o movimento da terra e dos astros. Sede da vida emotiva e intelectual, os poetas e o povo em geral têm no coração o símbolo do amor, das emoções, dos sentimentos mais profundos.

A bíblia cita o coração mais de mil vezes, mas pouquíssimas vezes no sentido fisiológico. Quase sempre no sentido figurado, simbólico. Como sede das faculdades intelectuais e sentimentais, é conhecido por Deus em suas dobras mais profundas. Ele penetra os “rins e corações”. As más ações que brotam do ser humano tem como fonte o coração. A boca fala daquilo que está cheio o coração.

Deus disse, pelo profeta Ezequiel, que trocaria o “coração de pedra em coração de carne”. A dureza de coração do ser humano sempre foi objeto de crítica e condenação por parte dos profetas.

Porém sabemos que o coração, do ponto de vista fisiológico, não é mais do que um órgão responsável por bombear o sangue no organismo, desprovido, portanto, de qualquer sentimento ou emoção.

Do ponto de vista simbólico, na Sagrada Escritura, ele representa a mente, o cérebro. Nesse sentido o coração termina por ser o responsável pelos sentimentos de medo, de ansiedade, de desejos variados, de ódio, de alegria, de entusiasmo, de raiva etc. Toda essa onda de sentimentos e emoções que passam pela nossa vida é atribuída ao coração  no sentido de mente, daquela parte do cérebro responsável por controlar e comandar nosso “sistema límbico” (saciedade, fome e memória).

Tudo isso para entendermos o sentido da celebração do Coração de Jesus. Para dizer que não se trata do órgão fisiológico, mas de uma expressão simbólica para dizer do pulsar amoroso do Coração de Deus por nós. Nesse sentido a celebração de hoje conduz à essência da fé cristã: o amor de Deus pela humanidade, manifestado em Jesus de Nazaré, que entregou sua vida por nós. No coração de Jesus nunca pulsou sentimentos de maldade, de ódio ou de destruição. O coração de Jesus foi sempre fonte de amor, de entrega, de generosidade, de perdão, de acolhida, de abertura, de salvação de todas as pessoas.

Amar é agir segundo Deus

Na primeira leitura de hoje temos o autor da primeira carta de João afirmando que o amor é a essência da vida cristã. É o amor que distingue quem é de Deus e quem não é de Deus. E o ponto de partida é o Deus-Amor. Deus se manifesta ao mundo como bondade, ternura, misericórdia. As palavras e ações de Jesus manifestam o ser de Deus. É a entrega total, o dom radical de Deus em seu Filho amado na cruz.

Se Deus nos amou então devemos amar-nos uns aos outros (1Jo 4,11). A vivência do amor de Deus não permite que assistamos de braços cruzados aos acontecimentos trágicos e dolorosos da história. É preciso agir. Esse amor coloca o ser humano numa dinâmica de entrega, de generosidade, de serviço, de saída de si, de querer bem aos outros. Essa é a dinâmica do “conhecer” Deus. Isto é, viver uma intimidade fecunda com Deus que nos coloca em movimento de fecundidade de mais vida.

Deus se revela aos pequenos

Nos versículos antecedentes ao relato do evangelho de hoje, Jesus diz palavras veementemente fortes contra as cidades de Cafarnaum, Corozaim e Betsaida que foram indiferentes aos sinais que ele aí realizara. Os habitantes destas cidades, fechados em si mesmos e autossuficientes, julgam não precisar da proposta de Jesus. O Homem de Nazaré então dirige-se aos excluídos e marginalizados na esperança de encontrar nestes acolhida de sua proposta do Reinado de Deus.

Jesus eleva um louvor ao Pai por ter escondido as “coisas” do Reino aos “sábios e entendidos”, compreendendo-se aqui, certamente, os fariseus e mestres da Lei, cheios de si, julgando agradarem a Deus com seus ritos externos de culto e cumprimento do que prescrevia a Lei. Jesus louva ao Pai por revelar essas “coisas” aos pequeninos, representados aqui nos seus discípulos que por primeiro acolheram seu chamado, e também por tantos outros homens, mulheres e crianças, marcados pelo preconceito, pela doença, considerados malditos pela Lei, pelos infortúnios da vida. Vêem em Jesus a cura de seus males e uma esperança para suas vidas.

Para se fazer a experiência de Deus, conhecer a Deus, é necessário levar uma vida de intimidade com o Pai, à semelhança de Jesus, o Filho amado. Essa intimidade é que garante a revelação de Deus, ou seja, a suspensão e abertura do véu que encobre o conhecimento de Deus. Entrando na intimidade do Pai, descobrimos o sentido da vida, enxergamos o mundo com os olhos de Deus, à semelhança de Jesus.

A vida em Deus, na pessoa de Jesus, libertava do jugo. Na época a Lei com seus 613 mandamentos era um peso enorme para os pobres judeus e prosélitos. Em lugar de conduzir, a Lei afastava as pessoas de Deus. Jesus vem libertar deste peso.

Na nova dinâmica de vida proposta por Jesus, o povo experimenta alegria de viver; sente no coração o Deus que os ama e os salva. Compreendem que a salvação não vem da prática externa da Lei, mas da bondade e graça de Deus. Todos se sentirão filhos e filhas de Deus.

Por detrás dessas palavras de Jesus está o amor de Deus. Ele ama a todos com amor eterno e gratuito. Ele veio trazer, em Jesus, a liberdade plena, o alívio nos sofrimentos, a comunhão com Deus que cuida de todos nós.

E só conhece a Deus aquele que se coloca no seguimento de Jesus, com humildade, com docilidade de coração, com espírito de abertura à novidade do Reino de Deus que Jesus veio inaugurar.

Ter o coração parecido com o de Jesus é a meta do cristão. Ser parecido com a criança que está sempre aberta, como uma tábula rasa, em disponibilidade para aprender e fazer como aprendeu.

Peçamos ao Senhor que tire do nosso coração todo sentimento de autossuficiência, de fechamento, de nos julgarmos sabedores de tudo, donos do dinheiro, do poder e das pessoas. Deus nos livre da arrogância, da soberba, do orgulho, da vaidade, da prepotência, da ganância e do egoísmo que arruína a nós e às pessoas ao nosso redor.

Os pobres que encontramos nas calçadas, nas nossas portas, nas portas de nossas igrejas têm de nossa parte um sorriso, um olhar de compaixão? Como tratamos o catador de reciclável, o enfermo de mente e de corpo, o gari, o flanelinha, o vendedor de bombom no semáfora etc?

Nossas atitudes para com os pequenos e pobres podem ser um bom “termômetro” para medir a “temperatura” de nosso amor a Deus. Nossos apegos a práticas externas de devoção podem revelar nossa distância do Deus de Jesus quando não nos convertem em pessoas mais humanizadas e misericordiosas.

Nossa meta como cristãos deve ser a de tornar o amor de Deus uma realidade viva no mundo lutando contra tudo o que gera ódio, injustiça, opressão, mentira, sofrimento…

Para refletir e rezar: Faço pacto (com o meu silêncio, indiferença, cumplicidade) com os sistemas que geram injustiça, ou esforço-me ativamente por destruir tudo o que é uma negação do amor de Deus? As nossas comunidades são espaços de acolhimento e de hospitalidade, oásis do amor de Deus, não só para os amigos, mas também para os pobres, os marginalizados, os sofredores que buscam em nós um sinal de amor, de ternura e de esperança?

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Uma vida que brilhe e clareie

aureliano, 04.02.23

5º Domingo do TC - A - 05 de fevereiro.jfif

5º Domingo do Tempo Comum [05 de fevereiro de 2023]

[Mt 5,13-16]

Hoje continuamos a rezar, na liturgia, o Sermão da Montanha. Jesus, o novo Moisés, quer mostrar a novidade do seu ensinamento em relação ao antigo. Com o projeto do Reino dos Céus (ou de Deus) anunciado por Jesus, Mateus procura mostrar às comunidades cristãs oriundas do judaísmo que precisavam assumir uma prática de vida nova, um novo modo de viver (cf. Mt 5,1-12: Bem-aventuranças) uma vez que a postura das autoridades judaicas de então não correspondia mais ao sonho de Deus para a humanidade.

Na confusão de propostas religiosas, de pregadores de todo canto, o discípulo de Jesus deveria assumir uma postura nova e decisiva: ser sal e ser luz. Em outras palavras: devia dar novo sabor e nova cor à vida das pessoas, ao mundo, a partir de uma vida de intimidade com Jesus. Participando da vida de Jesus, “Sol nascente que nos veio visitar”, o discípulo uma vez iluminado - tal qual a lua que recebe do sol a luz para iluminar a noite - ilumina a vida em torno de si, ilumina a vida do irmão, percebe e solidariza-se com sua necessidade: repartirá o pão com o faminto, hospedará o pobre sem destino (migrante), vestirá o nu, jamais se esconderá de seu irmão pobre, enfrentará o “dedo que acusa e a conversa maligna” (cf. Is 58, 7-10).

Um aspecto interessante de notarmos no evangelho de hoje é que Jesus não conclama seus discípulos a serem sal e luz porque eles são da Igreja nem porque crêem num conjunto de normas e doutrinas nem mesmo por serem homens de oração e fiéis ao culto mas, em primeiro lugar, porque são pobres, são mansos, pacíficos, são misericordiosos, são puros de coração. As bem-aventuranças foram proclamadas primeiramente para os que crêem, seus discípulos, que são pobres e mansos, que têm forme e sede justiça, que são misericordiosos e promotores da paz. Quem vive as bem-aventuranças é sal, é luz, é fermento.

Os cristãos são chamados a transformar um mundo sem sal, sem sabor (sabedoria), sem a luz da verdade, da justiça e da fidelidade, em Reino de Deus. Isso só será possível se o discípulo de Jesus procurar configurar sua vida à de Cristo. Se procurar viver os valores do Evangelho, se buscar reproduzir as atitudes de Jesus, sobretudo para com os pequeninos, os indefesos, os pecadores, os doentes, os sofredores.

“Se fizeres isto (repartindo o pão com o faminto, recolhendo em casa os pobres desabrigados, vestindo os que estão nus), a tua luz romperá como aurora. Então tua luz brilhará nas trevas e tua escuridão será iluminada” (cf. Is 58,7-10). É a participação na glória de Deus. Glória que se manifesta e se exercita na caridade para com os pobres. Santo Irineu dizia: “A Gloria de Deus é o homem vivo; e a vida do homem é a visão de Deus”.

Há um princípio latino que diz: Ubi charitas, ibi Deus (Onde há amor, aí está Deus). Por conseguinte, o contrário é também verdadeiro: onde não há caridade não está Deus. E onde Deus não se encontra, há trevas. Pois “Deus é luz e nele não treva alguma” (1Jo 1,5). E sem luz não se caminha seguro, corre-se sempre o risco de se cair no precipício ou de atropelar os outros.

O espírito mundano nos leva à competição, a abocanhar tudo, a fechar os olhos para a necessidade do miserável, a gastar tudo ou a acumular sem repartir, a pagar o mal com o mal, a valer-nos das oportunidades para tirar vantagens em prejuízo dos outros, a extorquir os desamparados e indefesos, a destruir o meio ambiente etc.

O espírito de Jesus nos convida a assumir uma postura de luz que brota do seu coração e chega aos pobrezinhos através de nós; uma postura de sal que dá um novo sabor à vida de tanta gente. Pois a sabedoria da vida, o prazer de viver não está no acúmulo de bens, nem em curtir todo o prazer do mundo, nem no luxo, nem na ostentação, mas em ocupar-se com aqueles que são mais fracos, impotentes, desprezados, invisíveis, que não são levados em conta na sociedade. A propriedade de conservar que o sal possui quer dizer que a prática da caridade em favor do irmão, sobretudo do indefeso, ajuda a conservar em nós a Aliança que o Senhor fez conosco em seu Filho Jesus.

Diante de milhões de pessoas que passam fome no mundo, que são vítimas da violência mordaz, da desigualdade social que se aprofunda ainda mais, de uma indiferença que cresce assustadoramente nos corações em relação aos pobres e sofredores, nossa consciência se abala, estremece? Os países tradicionalmente cristãos são detentores de muitas riquezas e vida próspera. Será que nós, cristãos, estamos apoiando um sistema injusto e opressor do pobre e do fraco? Será que, na condição de cristãos, estamos contribuindo para o aumento da dor e do sofrimento dos pequenos e sofredores, caminhando na contramão de Jesus? A situação é séria e merece ser pensada, refletida, rezada.

De nossa vida ficará aquilo que se tiver tornado amor: “No entardecer da vida seremos julgados sobre o amor” (S. João da Cruz). Se tiver ficado amor na vida que tivermos vivido; se tivermos deixado rastros de vida, de alegria, de generosidade, de justiça e de fidelidade não entraremos nas trevas (noite) da morte, pois a Luz amorosa mantida no coração e na vida não se apagará jamais. O resto irá para o túmulo. É preciso, pois, que nos convertamos a cada dia em amor. Então seremos sal, seremos luz!

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Felizes os pobres

aureliano, 28.01.23

4º Doningo do TC - A - 29 de janeiro.jpeg

4º Domingo do Tempo Comum [29 de janeiro de 2023]

[Mt 5,1-12]

Esse trecho do evangelho, início do Sermão da Montanha, é uma síntese do ensinamento de Jesus. E a primeira bem-aventurança sintetiza todas as outras: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5, 3).

Quando lançamos um olhar para nosso mundo, notamos que há muita gente vivendo na miséria: muitos buscam alimento no lixo; muitos morrem nas filas do SUS; muitos vivem em barracos que não protegem nem do sol nem da chuva. Será que Jesus está dizendo que essas pessoas são felizes porque vivem nessa miséria? Se Jesus estivesse querendo dizer isso estaríamos diante de um deus mau, que vive e se alegra com a desgraça humana. Esse não pode ser o Deus que Jesus revelou!

O termo “pobre” designa aquele que vive na miséria, desprovido dos recursos materiais imprescindíveis à sobrevivência, esquecido pelas classes ricas e dirigentes, abandonado à sua própria sorte. Porém Mateus qualifica: “pobres em espírito”. Esse qualificativo, segundo o entendimento mais comum, designa a pessoa que coloca sua vida nas mãos de Deus, “deposita sua confiança em Deus”. São felizes não por serem pobres, mas porque o Reino dos Céus lhes pertence.

E quando Jesus propõe esse estilo de vida, ele o faz para todas as pessoas. De modo que, se todos os cristãos vivessem dessa forma, a distância social entre ricos e pobres diminuiria. O grande diferencial aqui é o Reino dos Céus. Na perspectiva de Jesus, a chegada do Reino transforma as relações: Deus torna-se o centro da vida das pessoas e não o dinheiro e o poder. Os pequeninos têm prioridade no atendimento, nos cuidados, na dedicação. Aqui está a razão da felicidade.

Quando lançamos um olhar sobre nosso país notamos que o Reino de Deus está bem distante. Os jogos políticos que temos visto nas várias esferas do poder público mostram onde estamos. Se perguntarmos àqueles que vivem de jogos de poder se são cristãos, certamente a resposta será positiva, no sentido de pertencerem ou de terem pertencido a alguma Igreja. Mas se perguntarmos para qual reino trabalham, certamente dirão que trabalham pelo povo. Porém as atitudes mostram que visam, em primeiro lugar, ao próprio reino (bolso). Essas atitudes se reproduzem nas outras camadas sociais, pois o verme da ganância está no coração de ricos e pobres. É só aparecer uma oportunidade e já se manifesta esse câncer que transforma o irmão num objeto de lucro e de dominação.

Refletindo: procuro viver o ser pobre no sentido de que “estou nas mãos de Deus”? Como vejo e acolho aqueles que de mim se aproximam? Valorizo-os como iguais a mim ou me coloco acima deles? Estou convencido de que a felicidade não está no acúmulo de bens, mas na partilha, gratuidade e generosidade de coração?

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FELICIDADE EVANGÉLICA

Quem era feliz no tempo de Jesus? De acordo com a cultura religiosa da época, era feliz o homem (varão) que fosse casado com uma mulher que lhe correspondesse em tudo, tivesse muitos filhos (varões!), possuísse um pedaço de terra para cultivo e gado, gozasse de boa saúde para viver bem e longos anos, frequentasse o Templo ou a Sinagoga para os deveres religiosos. Esse era o entendimento de felicidade para os judeus em geral.

Jesus, porém, tinha outro ideal, outra compreensão de felicidade. Não tinha mulher nem filhos, não possuía terra nem bens, vivia peregrinando em busca do bem e da felicidade dos outros. Seu projeto de vida e de felicidade consistia em devolver a alegria, a saúde, a paz aos sofredores. Ver os outros felizes: homens e mulheres. Instaurar o Reino de Deus. Não disse: “Felizes os piedosos, os que pagam o dízimo, os ricos e saudáveis...”. Não! Mas proclamou felizes os pobres, os puros, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os promotores da paz, os puros, os que choram, os perseguidos.

O caminho da felicidade traçado por Jesus está na contramão da proposta mundana. Isso não significa que ele despreze as coisas boas desta vida, nem deseje que a pessoa viva triste, emburrada, mal amada, infeliz. De jeito nenhum. Não foi isto que ele fez. Mas ele veio dizer e mostrar com sua vida que a felicidade não se reduz a conforto e posse de bens e nem é privilégio para alguns. É um estado de alma que deve ser experimentado por todos, indistintamente. Enquanto houver alguém excluído do banquete da vida, dos frutos da Criação, da alegria de viver, o discípulo de Jesus não pode repousar em paz. Enquanto houver refugiados e migrantes desabrigados e perseguidos, crianças exploradas e violentadas, idosos abandonados, indígenas e quilombolas desamparados, doentes descuidados e jogados na periferia da vida, não podemos dormir em paz. Para Jesus, ser feliz é estar com o “coração no alto” e os pés no chão da vida dos irmãos que mais precisam. Foi assim que ele viveu. Está lançado o desafio!

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UMA PALAVRA DO PAPA FRANCISCO

“O Evangelho convida-nos a reconhecer a verdade do nosso coração, para ver onde colocamos a segurança da nossa vida. Normalmente, o rico sente-se seguro com as suas riquezas e, quando estas estão em risco, pensa que se desmorona todo o sentido da sua vida na terra. O próprio Jesus nos disse na parábola do rico insensato, falando daquele homem seguro de si, que – como um insensato – não pensava que poderia morrer naquele mesmo dia (Lc 12,16-21).

As riquezas não te dão segurança alguma. Mais ainda: quando o coração se sente rico, fica tão satisfeito de si mesmo que não tem espaço para a Palavra de Deus, para amar os irmãos, nem para gozar das coisas mais importantes da vida. Desse modo, priva-se dos bens maiores. Por isso, Jesus chama felizes os pobres em espírito, que têm o coração pobre, onde pode entrar o Senhor com a sua incessante novidade.

Esta pobreza de espírito está intimamente ligada à ‘santa indiferença’ proposta por Santo Inácio de Loyola, na qual alcançamos uma estupenda liberdade interior: ‘É necessário tornar-nos indiferentes face a todas as coisas criadas (em tudo aquilo que seja permitido à liberdade do nosso livre arbítrio, e não lhe esteja proibido), de tal modo que, por nós mesmos, não queiramos mais a saúde do que a doença, mais a riqueza do que a pobreza, mais a honra do que a desonra, mais uma vida longa do que curta, e assim em todo o resto’.

Lucas não fala de uma pobreza ‘em espírito’, mas simplesmente de ser ‘pobre’ (Lc 6,20), convidando-nos assim a uma vida também austera e essencial. Dessa forma, chama-nos a compartilhar a vida dos mais necessitados, a vida que levaram os Apóstolos e, em última análise, a configurar-nos a Jesus, que, ‘de rico que era, tornou-se pobre’ (2Cor 8,9).

Ser pobre de coração: isto é santidade” (Gaudete et Exsultate, 67-70)

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

A perseverança no bem garante vida plena

aureliano, 12.11.22

33º Domingo do TC - 17 de novembro - C.jpg

33º Domingo do Tempo Comum [13 de novembro de 2022]

[Lc 21,5-19]

O chamado “discurso escatológico” de Jesus não tem como propósito assustar os discípulos, fazer-lhes medo, mas infundir-lhes confiança nas outras palavras de Jesus. É como se dissessem: ‘O Senhor não os enganou. Aquilo que predissera, aconteceu’. A perseguição aos seus seguidores acontece: “O discípulo não é maior do que o mestre”.

A intervenção de Deus na história, na pessoa de Jesus de Nazaré, introduz a novidade de que a salvação é para todos. Jerusalém é condenada porque traiu sua missão. Em vez de ser sinal da salvação de Deus para todos os povos, fechou-se no seu particularismo, apodrecendo sem gerar vida. A fidelidade de Deus é traída pela infidelidade de um povo escolhido. Sendo a salvação o encontro de duas fidelidades, Jerusalém não corresponde. Jesus, o Filho Amado, permanece fiel e garante a salvação a todos.

Embora esteja garantida a salvação, permanece, porém a incompletude enquanto depende da resposta de cada ser humano. É uma promessa que espera ser completada. É um dom que supõe conquista. A fidelidade de cada um deve encontrar eco na fidelidade de Jesus ao Pai.

Deus salva o indivíduo na comunidade. A Igreja tem, pois, a missão de quebrar as barreiras que dividem a humanidade. A divisão, a ganância, o egoísmo, a mentira, o preconceito, o fechamento são atitudes pecaminosas que bloqueiam a salvação.

As obras suntuosas, as pessoas famosas, as beldades, a fama, o sucesso passarão. Só não passará o amor de Deus testemunhado pela firmeza e fidelidade daqueles que são apaixonados pelo Reino e têm a coragem de entregar a vida em defesa da vida. “Quem procurar ganhar sua vida, vai perdê-la, e quem a perder vai conservá-la” [Lc 17,33].

A propósito da segunda leitura de hoje: “Quem não quer trabalhar também não há de comer” [2Ts 3,10], é bom entender que Paulo diz para o cristão não ficar parado. É preciso agir, fazer alguma coisa, não esperar que as coisas caiam do céu. Um mundo novo é construído a partir do empenho de cada um. Quem pensa que basta ir à igreja para se salvar está traindo o projeto de Jesus. É preciso “trabalhar” a salvação e a libertação de si próprio, do mundo e da história (cf. Fl 2,12-16). Cada um dentro de suas possibilidades e dons. É preciso ser firme até o fim!

Gostaria ainda de chamar a atenção do leitor para duas realidades assinaladas pelo evangelho de hoje:

A primeira é a chamada de Jesus para que o discípulo não se deixe enganar. Já notaram que a enganação e a mentira correm soltas em nosso meio? É gente vendendo “gato por lebre”, é gente enganando o povo em nome de Deus, é gente prometendo mundos e fundos para ganhar um cargo no poder, é gente vendendo a pílula da felicidade; vendem até “terreno na lua”! Enfim, há quem venda e há quem compre; há quem engane e há os que se deixam enganar. Há carência de reflexão, de ponderação, de objetivos claros e definidos. Num momento de crise de sentido, há muita religiosidade: os espertalhões e charlatões se aproveitam das buscas e desesperos do ser humano para “vender seu peixe” e enganar os incautos e ingênuos. Cuidado!

A segunda realidade apontada por Jesus é a necessidade da perseverança: “É pela perseverança que mantereis vossas vidas”. O termo grego que traduz perseverança (hypomonê) pode traduzir também paciência. É imprescindível a paciência para se conseguir a preservação da vida e se alcançar a salvação. Paciência não é um mero gesto de suportar uma palavra que desagrade ou aguentar um desaforo. Mas é uma atitude de vida que nos coloca diante de Deus e da vida com serenidade, fidelidade, alegria mesmo em meio a sofrimentos, perseguição e incompreensão. Quero dizer que é uma virtude que precisamos cultivar, pois sem ela nossa salvação corre risco. Os encantos enganosos da vida, a fama, o sucesso, as honrarias, o dinheiro, nada disso nos poderá tirar do centro vital no qual o Senhor nos colocou com sua morte e ressurreição.

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CRISE: DECISÃO NUM JUÍZO

Vivemos tempos de crise. Crise econômica, crise política, crise religiosa, crise eclesiástica, crise familiar etc. A crise é uma oportunidade de crescimento. O termo crise significa encruzilhada. Mais precisamente, crise vem do grego krisis, krínein que significa a decisão num juízo. Assim, diante de uma situação que apresenta várias facetas e que pede que se escolha uma delas, há que se tomar a decisão. Então gera-se a crise que pede um critério de escolha ou julgamento para se decidir por isto ou por aquilo. Os termos crisol, critério, crítica tem sua raiz na palavra crise. É sempre algo que pede um desembaraço, um aprimoramento, um acrisolamento.

Pois bem. O evangelho deste domingo coloca uma situação de crise. Aliás, a vida e as palavras de Jesus (a fé cristã) colocam o discípulo em constante crise. Todos os dias o discípulo precisa decidir por sua continuidade ou não no seguimento a Jesus. Pode ser que em dado momento as condições sejam mais ou menos favoráveis. Mas nunca há “paz” para o cristão: é permanente “guerra” contra as forças do mal dentro e fora de si mesmo (cf. Mt 10,34). O autor de Jó já dizia: “A vida do homem sobre a terra é uma guerra” (Jó 7,1).

“Atenção para não serdes enganados, pois muitos virão em meu nome dizendo: ‘Sou eu!’ e ainda: ‘O tempo está próximo!’ Não os sigais!” (Lc 21,8). Uma clara situação de crise. Pois há propostas diferentes, encruzilhadas. Qual a atitude do cristão? “Não os sigais!”. Esta palavra de Jesus precisa estar sempre presente dentro de nós. Não seguir aquelas pessoas que nos separam de Jesus Cristo, único fundamento de nossa fé. Qualquer pessoa ou situação que nos afastam de Jesus precisam ser rechaçadas. As tentações são muitas. Por vezes se apresentam com aspecto encantador, até divinizado. Mas precisamos voltar ao evangelho. Como Jesus agia? Quais eram suas opções? A quem ele seguia e em quem confiava?

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AS LÁGRIMAS DO CRISTÃO

Outro elemento que precisa ser ressaltado: Jesus chorou sobre a cidade. Lucas relata o choro profético de Jesus: “E como estivesse perto, viu a cidade e chorou sobre ela” (Lc 19,41). Uma atitude de Jesus que deve ser contemplada. Não foi um choro de ira, de lamento vazio, mas um choro de profeta. Lamenta a cidade que não acolheu a visita de Deus. Lamenta um sistema político-religioso que explora os pobres. Solidariza-se com os explorados por um sistema que deveria estar a serviço da vida, mas que optou por sacrificar os pobres.

Por que Jesus chora sobre uma cidade? Chorar pela morte do amigo Lázaro é compreensível. Mas chorar sobre uma cidade é algo inusitado. Jerusalém, porém, não chora. Por quê? A cidade vai bem. Os negócios vão bem. Tudo estava bem harmonizado com a presença dos soldados romanos mantendo a “Paz” e a ordem. O Templo, espaço religioso que constituía o centro dos interesses na cidade era frequentado e cercado de cuidados. Porém não se prestava mais para o seu objetivo primeiro: o encontro com Deus. Era mantido para manutenção do status quo da aristocracia sacerdotal judaica. Não era mais Casa de Oração.

E Jerusalém não era mais a cidade da Paz. Tem a paz romana imposta pela espada. Tem a paz dos comerciantes que precisam de paz para fazer bons negócios. Tem a paz religiosa imposta pelos sacerdotes do templo. Por isso Jesus chora. Aquele que veio trazer a paz foi rejeitado. A cidade vivia uma paz mascarada. Jesus veio trazer uma paz/shalom, um estado de vida, de bem-estar e de prosperidade que engloba toda a comunidade. Os poderosos não choram. Os fracos choram. O Profeta da compaixão chora!

O Papa Francisco, em diversas ocasiões, fala da importância das lágrimas nos olhos do cristão: 

  1. “Também nos fará bem pedir a graça das lágrimas, para este mundo que não reconhece o caminho da paz. Peçamos a conversão do coração“.
  2. “Certas realidades da vida só podem ser vistas com os olhos limpos pelas lágrimas“.
  3. “Quantas lágrimas são derramadas a cada instante no mundo; uma diferente da outra; e, juntas, elas formam como um oceano de desolação, que invoca piedade, compaixão, consolação“.
  4. “Se Deus chorou, eu também posso chorar, sabendo que sou compreendido. O pranto de Jesus é o antídoto contra a indiferença pelo sofrimento dos meus irmãos. Aquele choro ensina a tornar minha a dor dos outros, a ser participante do infortúnio e do sofrimento de todos os que vivem nas situações mais dolorosas“.
  5. “Se vocês não aprenderem a chorar, vocês não poderão ser bons cristãos. E isto é um desafio“.

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No dia 20 de novembro celebramos o dia da Consciência Negra. A data homenageia Zumbi dos Palmares, um líder que defendeu a raça negra contra a escravatura e que morreu no dia 20 de novembro de 1695 enquanto defendia sua comunidade que lutava pelos direitos de seu povo. Seria muito importante que trabalhássemos em nosso coração, com nossos filhos e netos o respeito, amabilidade, a quebra do preconceito. Este se manifesta em piadas, brincadeiras, discriminações. As estatísticas mostram que o negro é ainda altamente discriminado. Que o racismo está muito vivo em nosso meio. E, ultimamente, parece ter crescido em forma de violência e morte. A fé cristã não admite distinção de pessoas: “Todos vós que fostes batizados em Cristo, vos vestistes de Cristo. Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não homem nem mulher, pois todos vós sois um só em Cristo Jesus” (Gl 3,27-28).

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VI DIA MUNDIAL DOS POBRES

Celebramos, neste dia 13 de novembro, o Dia Mundial dos Pobres. É uma excelente oportunidade que nos deu o Papa Francisco, ao instituir esse dia, para repensarmos nossas relações com bens e com os pobres.

Para esse ano, Francisco escolheu o texto bíblico: “Jesus Cristo fez-se pobre por vós” (cf. 2 Cor 8, 9) com a intenção de convidar os fiéis cristãos a manter o olhar fixo em Jesus, que, “sendo rico, se fez pobre por vós, para vos enriquecer com a sua pobreza”. Já o tema escolhido pela Igreja do Brasil para animar esta VI Jornada é: “Dai-lhes vós mesmos de comer!”, em consonância com a Campanha da Fraternidade 2023, que traz o tema “Fraternidade e fome”, e o lema “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt 14,16).

Em junho deste ano, a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan) revelou que 33,1 milhões de pessoas no Brasil não têm o que comer. Isso significa que, seguindo os dados coletados, 15,5% da população brasileira sente fome e não come por falta de dinheiro para comprar alimentos.

Além do mais, seis em cada dez famílias estão em situação de insegurança alimentar, isso significa que estão na condição de não ter acesso pleno e permanente a alimentar-se. Esses dados foram colhidos em 12.745 domicílios brasileiros entre dezembro de 2021 e abril de 2022. Diante isso, somos interpelados/as a voltar o olhar e à escuta atenta para a provocação de Jesus Cristo “Dai-lhes vós mesmos de comer!”.

“Na realidade, os pobres, antes de ser objeto da nossa esmola, são sujeitos que ajudam a libertar-nos das armadilhas da inquietação e da superficialidade [..] A pobreza que mata é a miséria, filha da injustiça, da exploração, da violência e da iníqua distribuição dos recursos.”, denuncia o Papa Francisco na sua mensagem para este ano” (cf. cnbb.org.br).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Felizes os pobres! Ai dos ricos!

aureliano, 12.02.22

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6º Domingo do Tempo Comum [13 de fevereiro de 2022]

[Lc 6,17.20-26]

No relato do evangelho do domingo passado (5º Domingo), vimos Jesus chamando os quatro primeiros discípulos. Quer que sejam “pescadores de homens”. E eles entendem que precisam se desapegar dos bens materiais para seguir a Jesus com liberdade e inteireza de coração (Lc 5,10-11). O relato transparece claramente que Jesus quer um novo modo de vida e de mentalidade para seus seguidores.

O relato do evangelho de hoje traz o “Sermão da Planície” em contraposição ao “Sermão da Montanha” de Mateus 5,1-12. Lucas tem perspectiva diferente de Mateus. Os destinatários são outros: comunidades provenientes da cultura grega, pagã. O conteúdo dos dois relatos é o mesmo. Mas aqui Jesus profere também uma maldição contra os ricos. Além disso, ao “descer a montanha”, Jesus quer mostrar a condescendência de Deus que vem até nós. Elemento fundante da nossa fé cristã é a revelação de um Deus que se faz um de nós (cf. Jo 1,14), que desceu e se tornou servo (cf. Fl 2,7). De rico que era, se fez pobre por nós (cf. 2Cor 8,9). Um Deus que “desce”.

A fé cristã provoca uma revolução no coração daquele que acredita. O encontro com Jesus Cristo transforma a pessoa, abre um horizonte novo, faz enxergar o mundo de modo diferente. Produz no coração do crente o desejo de Deus, o desapego, o espírito de partilha, de solidariedade, de cuidado com o outro e com a Casa Comum. Foi isso que aconteceu aos santos e santas: São Francisco de Assis, Beato Charles de Foucauld, Pe. Júlio Maria, Santa Teresa de Calcutá, Santa Dulce dos Pobres e tantos outros.

Mas convenhamos. Ouvir uma proclamação de felicidade para os pobres é muito bom! E todos gostam de ouvir e até de dizer. Mas ouvir que os ricos estão perdidos, não é coisa fácil: “Ai de vós, ricos, porque já tendes a vossa consolação”. O Profeta, na primeira leitura, visa a nos preparar para isso: “Maldito o homem que confia no homem e faz consistir sua força na carne humana” (Jr 17,5). Por outro lado, brota do coração de Deus uma palavra de consolo: “Bendito o homem que confia no Senhor, cuja esperança é o Senhor” (Jr 17,7).

Alguém poderia argumentar: “Deus criou os bens deste mundo para serem usufruídos”. É verdade! Porém há que se distinguir: uma coisa é possuir os bens e usufruí-los; outra coisa é ser possuído por eles, ser escravo dos bens materiais. E como se não bastasse, escravizar os outros para possuir sempre mais. Atentemos à advertência de São Paulo: “Eis o que digo, irmãos: o tempo se faz curto. Resta, pois, que aqueles que têm esposa, sejam como se não tivessem; aqueles que choram, como se não chorassem; aqueles que se regozijam, como se não regozijassem; aqueles que compram, como se não possuíssem; aqueles que usam deste mundo, como se não usassem plenamente. Pois passa a figura deste mundo” (1Cor 7,29-31). Os bens materiais não podem ocupar o primeiro lugar em nossa vida. Porque eles não trazem dentro de si a felicidade permanente, verdadeira, intransferível.

A Sagrada Escritura quer nos mostrar que nenhum bem material é definitivo. Na parábola do homem que construiu um grande armazém para guardar sua colheita e se locupletar sozinho, Jesus mostra que a vida e os bens só têm sentido na medida em que são vividos e empregados segundo os critérios do Reino de Deus: “Insensato, nessa mesma noite ser-te-á reclamada a alma. E as coisas que acumulaste, de quem serão?” (cf. Lc 12,16-21). A vida do ser humano não consiste em possuir muitos bens, em ter muito dinheiro, em ser reconhecido pelo que tem (cf. Lc 12,15). Há muita vaidade por aí. Há pessoas que pensam somente em trabalhar para ganhar dinheiro; ganhar dinheiro para comprar coisas; comprar coisas para se exibir. E por aí se vai. Depois vem a desavença, a rivalidade, a velhice, a doença, a morte. E Depois?...

O programa de vida de Jesus é “anunciar a boa nova aos pobres”. Deus ama o ser humano por si mesmo. Não faz parte de sua “agenda” admirar stutus quo, reconhecimento social, aparência, sucesso e aplausos. Deus ama o ser humano de graça. E quer que ele se faça simples , pequeno, pobre.

Além disso, quando Jesus proclama “Bem-aventurados vós, os pobres” não quer dizer que o pobre seja mais virtuoso do que o rico. É que Deus quis fazer sua “opção preferencial” pelos pobres. Com isso entende-se que a graça vem de Deus e não de algum favor humano. Os pobres não são felizes por causa de sua pobreza. Eles são felizes por saber que Deus está com eles. Seu sofrimento não durará para sempre. O Senhor lhes fará justiça. Jesus deixa claro: os que não interessam a ninguém são os que mais interessam a Deus. Deus quer estar com eles. E, para nós que vivemos na abundância, quando voltamos nosso olhar e nossa presença junto aos pobres, podemos ter aí uma grande oportunidade de fazer um caminho de conversão.

É bom ressaltar que Jesus não é contra os ricos. Por isso os exorta a mudar de mentalidade, a se esvaziarem de si mesmos, a se desapegarem de seus bens fazendo com que todos possam também usufruí-los. Os bens da criação devem ser distribuídos a todas as pessoas. Deus criou a terra e a deu ao ser humano para que cuidasse dela: “O Senhor Deus tomou o homem e o colocou no jardim de Éden para o cultivar e o guardar” (Gn 2,15). Basta ler o episódio de Jesus e Zaqueu (Lc 19, 1-10). O coração de Zaqueu encheu-se da salvação de Deus quando ele decidiu devolver o que roubara, e distribuir com os pobres parte dos bens: “Zaqueu, de pé, disse ao Senhor: ‘Senhor, eis que dou a metade dos meus bens aos pobres, e se defraudei a alguém, restituo-lhe o quádruplo’. Jesus lhe disse: ‘Hoje a salvação entrou nesta casa’” (Lc 19,8-9).

Senhor Jesus, desperta nosso coração para maior sensibilidade e solidariedade com os mais pobres. Ajuda-nos a ter um coração de pobre, um coração que saiba consolar, que saiba cuidar, que saiba chorar com os choram aquela dor doída. Inspira-nos palavras e ações para confortar os desanimados e oprimidos. E não deixes que a preocupação e a busca desenfreada dos bens materiais, do sucesso a todo custo, do lucro a qualquer preço tomem conta de nosso coração. Dá-nos enfim aquela coragem suficiente para anunciar teu Reino de amor e denunciar as perversidades contra os pequenos e sofredores da terra.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Ungidos para evangelizar os pobres

aureliano, 21.01.22

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3º Domingo do Tempo Comum [23 de janeiro de 2022]

[Lc 1,1-4; 4,14-21]

A liturgia deste domingo convida a comunidade cristã à escuta atenta e fiel da Palavra de Deus. No evangelho, Lucas justifica a escrita que faz da narrativa dos ‘acontecimentos’ realizados por Jesus e transmitidos pelas ‘testemunhas oculares e ministros da palavra’. Em seguida, no capítulo 4º, Lucas narra que Jesus toma o texto de Isaías e encontra a passagem que lhe diz respeito. Ou seja, ungido com o Espírito do Senhor, deve anunciar a boa nova aos pobres.

Primeiramente é bom notarmos que Lucas fala de “acontecimentos”. É a narrativa dos atos e palavras de Jesus. Não u’a mera doutrina, mas um acontecimento. Como disse o Papa Bento XVI, a vida cristã é o ‘encontro com um acontecimento, com uma pessoa que dá um novo horizonte à vida’. Depois, esses “acontecimentos” tiveram “testemunhas”. Ou seja, algumas pessoas ouviram e viram e interpretaram, à luz da Ressurreição, aqueles acontecimentos. Ainda mais: aquelas ‘testemunhas oculares’ assumiram um novo horizonte de vida. Não viveram mais como dantes. Ficaram tão entusiasmadas por aquele homem que morreu na cruz e ressuscitou que começaram a viver de modo novo e a transmitir essa Boa Nova a todos que encontravam pelo caminho.

O encantamento despertado por Jesus nos seus seguidores é fruto de um programa de vida que veio realizar. Esse programa de vida está descrito no texto de hoje: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a boa nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e proclamar um ano da graça do Senhor”.

É preciso notar que Jesus lança um olhar de misericórdia sobre os pobres. Ele não vê primeiro o pecado, mas o sofrimento das pessoas. Talvez um dos equívocos de alguns setores da Igreja seja o de firmar-se sobre a doutrina moral fria e legalista sem levar em conta a pessoa nas suas circunstâncias. Em vista disso o teólogo Johann Metz dizia: “A doutrina cristã da salvação dramatizou demasiadamente o problema do pecado, enquanto relativizou o problema do sofrimento”. No programa de Jesus a dor humana sempre ocupou o primeiro lugar.

Alguém poderia argumentar: - “Mas Jesus, diante do paralítico, perdoou-lhe o pecado primeiro, depois o curou”. É certo, mas não deixou de aliviar seu sofrimento físico e moral dizendo-lhe: “Levanta-te, pega teu leito e vai para casa”. Em todas as circunstancias vemos Jesus lançando um olhar de misericórdia sobre o sofrimento humano. Essa atitude de Jesus nos ajuda a refletir sobre nosso modo de lidar na comunidade. Talvez nosso grande pecado seja o de condenar as atitudes dos outros enquanto nos fechamos em nosso bem-estar. Se o sofrimento humano não nos comove e desacomoda é sinal de que o programa de vida de Jesus não nos diz respeito. O mesmo se diga em relação à nossa presença nos espaços sociais, políticos, administrativos: seguindo o programa de vida de Jesus, não se pode ser conivente com falcatruas, com propineiros, com mentirosos e perversos, promotores da violência, da concentração de renda em prejuízo dos pobres da terra.

As tragédias múltiplas como pandemia, rompimento de barragens, fome e miséria pelas quais muitas comunidades e famílias têm passado devem servir de alerta a todos nós, particularmente aos governantes insensatos e insensíveis que protegem e defendem os poderosos e oprimem e destroem os pobres e humildes. Deus nos livre de gente perversa que visa ao seu próprio bolso e bem-estar mediante o sacrifício da vida dos pequenos, dos trabalhadores e dos pobres!

E note bem: ser cristão não é uma questão de escolha. Uma vez que conhecemos Jesus e seu ensinamento, não se pode mais escolher outro caminho. Ele é a única escolha que podemos fazer. Seu programa de vida deve ser nosso programa. Suas atitudes devem ser inspiração para as nossas. Ele é “o Caminho, a Verdade e a Vida”. E ainda: “Ninguém vai ao Pai a não ser por mim”. Não há outro caminho de salvação. – Ser cristão não é fruto de “decisão ética”. Também a “opção pelos pobres” não é fruto de uma ideologia, nem é descoberta da Teologia da Libertação. Ela é constitutiva do “conteúdo da fé cristológica” (Bento XVI). Ou seja, não é possível ser cristão e não viver a opção pelos pobres.

Quando lançamos um olhar para os santos da nossa Igreja, vemo-los totalmente dedicados aos mais pobres. Vejam o Servo de Deus Pe. Júlio Maria: sua primeira preocupação foi aliviar os sofrimentos dos pobres: abrigo, hospital, patronato, farmácia alternativa, educação, visita aos doentes. Gastou todas as suas forças, no Espírito de Jesus, para que os pobres fossem socorridos e aliviados. E assim temos Teresa de Calcutá, Dulce dos Pobres, Helder Câmara, Pedro Casaldáliga, Luciano Mendes, Dorothy Stang e outros milhares.

Qual está sendo a incidência da Palavra de Deus em nossa vida cristã? Nossa vida tem tido como ‘pano de fundo’ o programa de vida de Jesus de Nazaré? Que lugar ocupam os pobres em nossa vida? Como tratamos aqueles que batem à nossa porta? Nossos programas e planejamentos pastorais e comunitários levam em conta os mais pobres? Qual a porcentagem de nosso dízimo é destinada a projetos sociais e assistência aos pobres? Minha preocupação com o ser humano se concentra no seu pecado ou na sua dor? Que meios emprego para lutar contra os projetos causadores de dor e de sofrimento no povo? Que tipo de espiritualidade me anima e sustenta?

Fomos ungidos pelo Espírito Santo no batismo para anunciarmos a Boa Nova aos pobres. Que significado tem o batismo para mim, para nós?

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

O amor que salva

aureliano, 20.11.20

Cristo Rei do Universo [22 de novembro de 2020]

[Mt 25,31-46]

O capítulo 25 de Mateus é constituído por três parábolas que evocam a vigilância em vista do fim: a das virgens, a dos talentos e a do julgamento final. Enquanto as duas primeiras mostram a insensatez daqueles que não vigiam como devem, esta última mostra qual será o critério de julgamento no fim da vida: o amor concreto às pessoas que sofrem: famintos, sedentos, migrantes, nus, doentes, presos.

Na cultura judaica (e talvez ainda hoje!) essas categorias de pessoas eram tidas como impuras, condenadas por Deus. Sofriam porque estavam pagando por algum pecado. Jesus veio dar uma guinada nessa compreensão, identificando-se com elas: “Todas as vezes que o fizestes a um destes mais pequeninos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25, 40). O rosto de Deus se manifesta no rosto do pobre, excluído dos bens da criação. Um rosto que nos interpela, que provoca nossa indiferença.

Para reconhecer a presença de Deus no pobre é necessário conversão! No tempo de Jesus, Deus era encontrado no Templo (quando o evangelho de Mateus foi escrito, o Templo já havia sido destruído), nas sinagogas, naqueles que cumpriam a Lei de Moisés. Eram os justos. Mas Jesus chama de justos aqueles que cumprem a lei do amor: cuidado para com os famintos, sedentos, presos, migrantes, doentes, nus. Os “pequeninos” do Reino constituem o lugar do encontro com Deus. Desse modo Jesus universaliza a possibilidade do encontro salvador com Deus. Todas as pessoas, de qualquer religião ou cultura, podem agora escolher o caminho da salvação ou da condenação. Ouvir “vinde benditos” ou “ide malditos” depende do caminho que cada um escolhe: amor-doação ou egoísmo-fechamanto.

É interessante notar que os justos do Evangelho da liturgia de hoje não sabem que os pobres, a quem serviram, representavam o Rei. Não praticaram a misericórdia para impressionar o Rei nem para “alcançar a salvação”. Mas foram misericordiosos e servidores dos pobres por pura bondade e compaixão para com os necessitados. Essa despretensiosa bondade é que conta para Deus: fazer o bem, praticar as obras de misericórdia sem desejar receber nada em troca, nem mesmo o céu. Este nos é dado como dom, como fruto da bondade do Pai, e não de nossa “compra” ou prática de atos bons. Se pudemos fazer alguma coisa boa pelos mais pobres, também essa possibilidade nos foi dada por Deus, por dom e graça d’Ele. Conclui-se que o critério último da salvação não é a fé, mas a “fé informada pela caridade” (cf. 1Cor 13,2; Gl, 5,6).

A Escritura diz que até os demônios crêem: “Tu crês que há um só Deus? Ótimo! Lembra-te, porém, que os demônios também crêem, mas estremecem” (Tg 2,19). Crer simplesmente que Deus existe não significa nada para nossa vida. É preciso ter uma fé comprometida: crer na existência de Deus e assumir na vida o jeito de ser de Deus revelado na pessoa de Jesus de Nazaré. Em outras palavras, a fé precisa incidir nas atitudes cotidianas de respeito, de cuidado, de compreensão, de justiça, de honestidade, de lealdade, de perdão, de sentimento de partilha e solidariedade etc. Sem o cultivo dessas atitudes, a fé termina por ser um vazio que não diz nada nem para si mesmo nem para os circundantes (cf. 1Cor 13,1-3). Aliás, o que tem de gente por aí explorando, dominando e extorquindo as pessoas em nome da fé religiosa é um horror! A Polícia Federal, tão badalada ultimamente, precisaria dar uma vasculhada nisso.

A caridade dá corpo à nossa fé. “Se alguém, possuindo os bens deste mundo, vê o seu irmão na necessidade e lhe fecha o coração, como permanecerá nele o amor de Deus? Filhinhos, não amemos com palavras nem com a língua, mas com ações e em verdade” (1Jo 3,17-18).

Ilumina muito o que estamos querendo dizer a respeito da relação fé e caridade para a salvação, a palavra do Papa Francisco na mensagem para o IV Dia Mundial dos Pobres: “’Estende a mão ao pobre’ faz ressaltar, por contraste, a atitude de quantos conservam as mãos nos bolsos e não se deixam comover pela pobreza, da qual frequentemente são cúmplices também eles. A indiferença e o cinismo são o seu alimento diário. Que diferença relativamente às mãos generosas que acima descrevemos! Com efeito, existem mãos estendidas para premer rapidamente o teclado dum computador e deslocar somas de dinheiro duma parte do mundo para outra, decretando a riqueza de restritas oligarquias e a miséria de multidões ou a falência de nações inteiras. Há mãos estendidas a acumular dinheiro com a venda de armas que outras mãos, incluindo mãos de crianças, utilizarão para semear morte e pobreza. Existem mãos estendidas que, na sombra, trocam doses de morte para se enriquecer e viver no luxo e num efêmero desregramento. Existem mãos estendidas que às escondidas trocam favores ilegais para um lucro fácil e corrupto. E há também mãos estendidas que, numa hipócrita respeitabilidade, estabelecem leis que eles mesmos não observam”.

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Hoje celebramos o dia dedicado ao Cristão Leigo. O protagonismo do fiel leigo na Igreja tem sido incentivado aos quatro ventos pelo Papa Francisco. O Documento 105 da CNBB reitera a importância da vida e da missão dos cristãos leigos na Igreja e na sociedade: “A partir da sua vocação específica os cristãos leigos e leigas vivem o seguimento de Jesus na família, na comunidade eclesial, no trabalho profissional, na multiforme participação na sociedade justa, solidária e pacífica, que seja sinal do Reino de Deus inaugurado por Jesus de Nazaré” (n. 11).

Corremos o risco de clericalizarmos o leigo, “embatinando-o”. O cristão leigo tem seu lugar e missão na Igreja e no mundo a partir de seu batismo. Ouçamos o Papa Francisco: “Em virtude do Batismo recebido, os fiéis leigos são protagonistas na obra de evangelização e promoção humana. Incorporado à Igreja, cada membro do Povo de Deus é inseparavelmente discípulo e missionário. É preciso sempre reiniciar dessa raiz comum a todos nós, filhos da Mãe Igreja" (07-03-2014). E, na visita à Coréia, deixou essa belíssima palavra: “A Igreja na Coréia, como todos sabemos, herdou a fé de gerações de leigos que perseveraram no amor a Jesus Cristo e na comunhão com a Igreja, apesar da escassez de sacerdotes e da ameaça de graves perseguições” (16/08/2014).

Infelizmente, muitos leigos e leigas que se dizem cristãos e que ocupam postos de decisão da vida política e econômica de nosso País estão sendo uma decepção. A fé cristã não diz nada para a vida da maioria deles. É só acompanhar seus projetos, votações, discursos e posturas na gestão de seus patrimônios: propinas, disputas de cargos, troca de favores em defesa de interesses pessoais, corporativos e partidários.

Aos cristãos leigos e leigas que vivem com inteireza a sua fé batismal, procurando servir ao Reino e transformar a sociedade pelo testemunho de uma vida santa e servidora, com palavra e atitude proféticas de repúdio e contestação a esse estado de corrupção sistêmica que tomou conta de nosso País, nosso apoio e incentivo. O Senhor os confirme e encoraje sempre mais neste caminho.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Eucaristia: um amor que se reparte

aureliano, 08.04.20

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Quinta-feira Santa [09 de abril de 2020]

[Jo 13,1-15]

Neste primeiro dia do Tríduo Pascal celebramos a instituição da Eucaristia, memorial da morte e ressurreição do Senhor, que se desdobra em dois aspectos: a instituição do Sacerdócio Ministerial e o Serviço Fraterno da Caridade.

Perpassando o evangelho de João, notamos que não há referências aos gestos rituais de Jesus sobre o pão e vinho como o fazem os outros evangelistas. O discurso de Jesus sobre a Eucaristia está no capítulo 6° de seu evangelho.

No discurso de despedida, João salienta o gesto de Jesus ao lavar os pés de seus discípulos. Não pede que seu gesto seja reproduzido ritualmente, mas que devemos “fazer como ele fez”. Ou seja, devemos refazer em nossas relações o que Jesus fez naquele gesto simbólico: amor gratuito que torna presente o “sacramento” do amor de Cristo por todos nós. O “lava-pés” deve ser o modo de proceder, o estilo de vida da comunidade dos seguidores de Jesus: “Dei-vos o exemplo para que façais a mesma coisa que eu fiz” (Jo 13,15).

O sacramento do amor

A Eucaristia, memorial do sacrifício de Jesus, é o sacramento do Corpo e Sangue de Cristo que nos é dado como alimento: “Todas as vezes, de fato, que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, estareis proclamando a morte do Senhor até que ele venha” (1Cor 11,26). Esta presença real-sacramental do Senhor ressuscitado no pão e no vinho se estende também, de algum modo, aos irmãos. Por isto não se pode conceber a comunhão eucarística sem referência aos irmãos. Particularmente aos mais pobres e necessitados. E Paulo alerta: “Quando, pois, vos reunis, o que fazeis não é comer a Ceia do Senhor; cada um se apressa em comer a sua própria ceia; e, enquanto um passa fome, o outro fica embriagado” (1Cor 11,20).

Enquanto a Igreja propõe reflexão e ação sobre Políticas Públicas, sobre o cuidado do ser humano: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele”, na busca de se efetivarem os direitos dos cidadãos, Executivo, Legislativo e Judiciário, por vezes “em nome de deus”, retiram os poucos direitos adquiridos. Assistimos recentemente à morte de vários conselhos de participação popular nas políticas de gestão do patrimônio público e de direitos do cidadão. Enquanto uns se locupletam, outros passam fome. Dizer-se crente em Jesus Cristo e decretar a morte dos indefesos é um pecado que “brada aos céus e pede a Deus vingança”.

Se a Eucaristia que celebramos não nos move a gestos eucarísticos de partilha, de respeito, de cuidados, de acolhida a cada irmão e irmã, não estamos celebrando a Memória de Jesus. A Eucaristia se efetiva em nossos gestos e atitudes de misericórdia para com nossos irmãos e irmãs.

SACERDÓCIO MINISTERIAL

Os gestos que Jesus realiza de “levantar-se”, “tirar o manto”, “vestir o avental”, “lavar os pés” revelam como devem ser as relações na comunidade: não de poder, mas de serviço. Portanto, o sacerdócio ministerial, para ser coerente com o dom recebido, deve ter como inspiração os gestos de Jesus no ‘Lava-pés’.

Quem preside à comunidade, preside também a Eucaristia. Reúne a comunidade para a oração, para a escuta da Palavra, para o serviço aos pobres, distribui as tarefas e partilha os bens ofertados. Assim proclama o Concílio Vaticano II sobre a missão do sacerdote: “De coração, feitos modelos para o rebanho, presidam e sirvam de tal modo sua comunidade local, que esta dignamente possa ser chamada com aquele nome pelo qual só e todo o Povo de Deus é distinguido, a saber: Igreja de Deus” (LG, 28).

Neste dia, na Missa Crismal (que esse ano será adiada pelo motivo do isolamento social), o presbitério renova as promessas sacerdotais diante do Bispo. Uma destas promessas revela claramente a missão do padre. Ela reza assim: “Quereis ser fiéis distribuidores dos mistérios de Deus pela missão de ensinar, pela sagrada Eucaristia e demais celebrações litúrgicas, seguindo o Cristo Cabeça e Pastor, não levados pela ambição dos bens materiais, mas apenas pelo amor aos seres humanos?”

CENA SIMBÓLICA

Vamos contemplar os gestos de Jesus e sua relação com nossa vida:

- vestir o avental: revestir-se de simplicidade, de ternura, de presença, de serviço desinteressado.

- tirar o manto: arrancar tudo que impede o serviço, a prontidão, a disponibilidade.

- levantar-se da mesa: estar à mesa é muito bom. Mas há sempre uma situação que nos espera, um ambiente carente, um serviço urgente. Levantar-se da mesa e sentar-se à mesa é uma dinâmica constante em nossa vida. Movimentos de partida e de chegada.

- levantou-se da mesa: não se pode servir permanecendo no comodismo. Algo precisa ser feito. O Senhor “precisa” de mim, como precisou do jumentinho: “O Senhor precisa dele”.

- ficar de pé: é a atitude que tomamos quando ouvimos o evangelho na celebração. Significa prontidão para deslocar-se, para sair em qualquer direção. Prontidão para viver a Boa Nova do Reino de Deus. Estar à mesa é sinal de fraternidade, mas é preciso saber a hora certa de se levantar e sair para servir.

- tirou o manto: é abrir mão do poder. Algo que brota de dentro. O manto impede a liberdade dos movimentos. Ele traz a aparência de poder. Há “mantos” que prendem e amarram. O Senhor trocou o manto pelo avental. Quais são meus “mantos”? Costumo colocar o avental?

- colocou água na bacia...: Jesus não faz serviço pela metade. Não tem receio de se inclinar até o chão para lavar os pés dos seus discípulos. Não faz distinção de ninguém. Lava os pés de todos.

- depois, voltou à mesa: retomou o manto, mas não tirou o avental. Ele quer mostrar que seu discípulo deve ser sempre servidor. Não se pode tirar o avental do serviço. Qualquer posto ou cargo ou ministério que se ocupar deve estar ali, sob o manto do poder, o avental do serviço. Então deve ser poder-serviço. Todo exercício de poder sem a dimensão do serviço (avental) está fadado a oprimir, a se corromper, a sacrificar vidas.

Vê-se, pois, que a Eucaristia foi instituída para formar um só Corpo. O corpo sacramental de Cristo no pão consagrado deve transformar o comungante no Corpo eclesial. O Espírito Santo transforma o pão e o vinho no Corpo e Sangue de Cristo, para que a assembléia celebrante e comungante se transforme no Corpo do Senhor, a Igreja. Provém daí a expressão clássica: a Eucaristia faz a Igreja e a Igreja faz a Eucaristia. Isto tem consequências profundas em nossa vida. A comunhão eucarística nos compromete com os membros (do corpo) que sofrem, que passam fome, que pecam, que estão afastados, que experimentam o abandono, que padecem por causa de nossas omissões e covardias. O senhor deu-nos o exemplo para que façamos o mesmo que ele fez: amou-nos até o fim!

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN