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Amou-nos até o fim

aureliano, 14.04.25

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Quinta-feira Santa [17 de abril de 2025]

[Jo 13,1-15]

Neste primeiro dia do Tríduo Pascal celebramos a instituição da Eucaristia, memorial da morte e ressurreição do Senhor, que se desdobra em dois aspectos: a instituição do Sacerdócio Ministerial e o Serviço Fraterno da Caridade.

Perpassando o evangelho de João, notamos que não há referências aos gestos rituais de Jesus sobre o pão e o vinho como o fazem os outros evangelistas. O discurso de Jesus sobre a Eucaristia está no capítulo 6° de seu evangelho.

No discurso de despedida, João salienta o gesto de Jesus ao lavar os pés de seus discípulos. Não pede que seu gesto seja reproduzido ritualmente, mas que devemos “fazer como ele fez”. Ou seja, devemos refazer em nossas relações o que Jesus fez naquele gesto simbólico: amor gratuito que torna presente o “sacramento” do amor de Cristo por todos nós. O “lava-pés” deve ser o modo de proceder, o estilo de vida da comunidade dos seguidores de Jesus: “Dei-vos o exemplo para que façais a mesma coisa que eu fiz” (Jo 15,15).

O sacramento do amor

A Eucaristia, memorial do sacrifício de Jesus, é o sacramento do Corpo e Sangue de Cristo que nos é dado como alimento: “Todas as vezes, de fato, que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, estareis proclamando a morte do Senhor até que ele venha” (1Cor 11,26). Esta presença real-sacramental do Senhor ressuscitado no pão e no vinho se estende também, de algum modo, aos irmãos. Por isto não se pode conceber a comunhão eucarística sem referência aos irmãos. Particularmente aos mais pobres e necessitados. E Paulo alerta: “Quando, pois, vos reunis, o que fazeis não é comer a Ceia do Senhor; cada um se apressa em comer a sua própria ceia; e, enquanto um passa fome, o outro fica embriagado” (1Cor 11,20).

Não se pode celebrar bem a Eucaristia se se abandonam as pessoas que passam necessidade à sua própria sorte. “São João Crisóstomo, na sabedoria de quem escuta a Palavra de Deus e entende a coerência à qual ela convida, chamava a atenção: ‘Muitos cristãos saem da igreja e contemplam fileiras de pobres que formam como muralhas em ambos os lados e passam longe, sem se comover, como se vissem colunas e não corpos humanos. Apertam o passo como se vissem estátuas sem alma em lugar de homens que respiram. E, depois de tamanha desumanidade, se atrevem a levantar as mãos ao céu e pedir a Deus misericórdia e perdão pelos seus pecados’” (CF 2022, Texto-Base, n. 148).

Se a Eucaristia que celebramos não nos move a gestos eucarísticos de partilha, de respeito, de cuidados, de acolhida a cada irmão e irmã, não estamos celebrando a Memória de Jesus. A Eucaristia se efetiva em nossos gestos e atitudes de misericórdia para com nossos irmãos e irmãs. “Queres honrar o Corpo de Cristo? Então não o desprezes nos seus membros, isto é, nos pobres que não têm o que vestir, nem o honres no templo com vestes de seda, enquanto o abandonas lá fora ao frio e à nudez. Aquele que disse: ‘Isto é o meu corpo’ (Mt 26,26), e o realizou ao dizê-lo, é o mesmo que disse: ‘Porque tive fome não me destes de comer’(Mt 25,42); e também: ‘Sempre que deixastes de fazer isto a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer’ (Mt 25,45). (...) Que proveito resulta de a mesa de Cristo estar coberta de taças de ouro, se ele morre de fome na pessoa dos pobres? Sacia primeiro o faminto, e depois adornarás o seu altar com o que sobrar. Fazes um cálice de ouro e não dás ‘um copo de água fresca’? (Mt 10,42). (...) Por conseguinte, enquanto adornas a casa do Senhor, não deixes o teu irmão na miséria, pois ele é um templo e de todos  o mais precioso’” ( São João Crisóstomo, in CF 2022, Texto-Base, n. 149).

SACERDÓCIO MINISTERIAL

Os gestos que Jesus realiza de “levantar-se”, “tirar o manto”, “vestir o avental”, “lavar os pés” revelam como devem ser as relações na comunidade: não de poder, mas de serviço. Portanto, o sacerdócio ministerial, para ser coerente com o dom recebido, deve ter como inspiração os gestos de Jesus no ‘Lava-pés’.

Quem preside a comunidade, preside também a Eucaristia. Reúne a comunidade para a oração, para a escuta da Palavra, para o serviço aos pobres, distribui as tarefas e partilha os bens ofertados. Assim proclama o Concílio Vaticano II sobre a missão do sacerdote: “De coração, feitos modelos para o rebanho, presidam e sirvam de tal modo sua comunidade local, que esta dignamente possa ser chamada com aquele nome pelo qual só e todo o Povo de Deus é distinguido, a saber: Igreja de Deus” (LG, 28).

Neste dia, na Missa Crismal, o presbitério renova as promessas sacerdotais diante do Bispo. Uma destas promessas revela claramente a missão do padre. Ela reza assim: “Quereis ser fiéis distribuidores dos mistérios de Deus pela missão de ensinar, pela sagrada Eucaristia e demais celebrações litúrgicas, seguindo o Cristo Cabeça e Pastor, não levados pela ambição dos bens materiais, mas apenas pelo amor aos seres humanos?”

CENA SIMBÓLICA

Vamos contemplar os gestos de Jesus e sua relação com nossa vida:

- vestir o avental: revestir-se de simplicidade, de ternura, de presença, de serviço desinteressado.

- tirar o manto: arrancar tudo que impede o serviço; a prontidão, a disponibilidade.

- levantar-se da mesa: estar à mesa é muito bom. Mas há sempre uma situação que nos espera, um ambiente carente, um serviço urgente. Levantar-se da mesa e sentar-se à mesa é uma dinâmica constante em nossa vida. Movimentos de partida e de chegada.

- levantou-se da mesa: não se pode servir permanecendo no comodismo. Algo precisa ser feito. O Senhor “precisa” de mim, como precisou do jumentinho: “O Senhor precisa dele”.

- ficar de pé: é a atitude que tomamos quando ouvimos o evangelho na celebração. Significa prontidão para deslocar-se, para sair em qualquer direção. Prontidão para viver a Boa Nova do Reino de Deus. Estar à mesa é sinal de fraternidade, mas é preciso saber a hora certa de se levantar e sair para servir.

- tirou o manto: é abrir mão do poder-dominador para assumir o poder-serviço. Algo que brota de dentro. O manto impede a liberdade dos movimentos. Ele traz a aparência de poder. Há “mantos” que prendem e amarram. O Senhor trocou o manto pelo avental. Quais são meus “mantos”? Costumo colocar o avental?

- colocou água na bacia...: Jesus não faz serviço pela metade. Não tem receio de se inclinar até o chão para lavar os pés dos seus discípulos. Não faz distinção de ninguém. Lava os pés de todos.

- depois, voltou à mesa: retomou o manto, mas não tirou o avental. Ele quer mostrar que seu discípulo deve ser sempre servidor. Não se pode tirar o avental do serviço. Qualquer posto ou cargo ou ministério que se ocupar deve estar ali, sob o manto do poder, o avental do serviço. Então deve ser poder-serviço. Todo exercício de poder sem a dimensão do serviço (avental) está fadado a oprimir, a se corromper, a sacrificar vidas.

Vê-se, pois, que a Eucaristia foi instituída para formar um só Corpo. O corpo sacramental de Cristo no pão consagrado deve transformar o comungante no Corpo eclesial. O Espírito Santo transforma o pão e o vinho no Corpo e Sangue de Cristo, para que a assembleia celebrante e comungante se transforme no Corpo do Senhor, a Igreja. Provém daí a expressão clássica: a Eucaristia faz a Igreja e a Igreja faz a Eucaristia. Isto tem consequências profundas em nossa vida. A comunhão eucarística nos compromete com os membros (do corpo) que sofrem, que passam fome, que pecam, que estão afastados, que experimentam o abandono, que padecem por causa de nossas omissões e covardias. O senhor deu-nos o exemplo para que façamos o mesmo que ele fez: amou-nos até o fim!

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

Autoridade: ajudar a ser autor

aureliano, 21.09.24

25º Domingo do Tempo Comum [ 22 de setembro 2024]

   [Mc 9,30-37]

Pedro professou a fé dizendo: “Tu és o Messias”. Mas, em seguida não dá conta de viver o que professa. Busca uma saída, uma justificativa: repreender Jesus (cf. Mc 8, 32-33). Vê-se claramente que os discípulos têm muita dificuldade em viver a fé professada. Para nosso consolo não é dificuldade somente nossa!

Aliás, os discípulos – como nós, por vezes, – estão mesmo preocupados é com os primeiros lugares. Por isso têm medo de perguntar a Jesus o que significava aquele anúncio da paixão. Isso não coincide com suas buscas: quem será o primeiro? Se o ser humano não fizer caminhos de conversão, estará às voltas com a busca de si, de seus interesses pessoais em prejuízo da coletividade. Dêem uma olhadinha nas disputas eleitorais! A grande maioria está buscando seus próprios interesses. Projeção social, sucesso, dinheiro, garantia de altos salários, emprego e cargos para filhos e parentes. A proposta de Jesus é que seu discípulo se preocupe com o coletivo, com o bem comum, sobretudo com os mais pobres. Que todos estejam bem, sejam bem servidos, sejam bem cuidados. A religião que ensina ou insiste na busca de interesses privados não anuncia o Deus de Jesus de Nazaré, mas um ídolo.

Não são, muitas vezes, nossas também essas mesmas preocupações quando assumimos um encargo de liderança? As brigas e rixas nas comunidades provêm daí: “Das paixões que estão em conflito dentro de vós” (Tg 3,2). A inveja, a vaidade e a cobiça são males terríveis! Destroem qualquer comunidade. Elas só podem ser vencidas pela conversão do coração a partir do encontro e seguimento de Jesus. Quando nos empenhamos em tornar nossa vida semelhante à de Jesus.

Na verdade o que está em jogo aqui é agir ou ‘segundo a lógica do mundo’ ou ‘segundo a lógica de Deus’; incorporar a ‘sabedoria do mundo’ ou a ‘sabedoria de Deus’. Jesus não abandona o projeto do Pai. Permanece firme, não obstante a oposição e indiferença dos seus discípulos. Permanece firme, pois sabe que este é o caminho da vida. Ao passo que seus discípulos são fascinados pela lógica do mundo. Não admitem que uma vitória possa vir pela vida entregue, a morte. Esta, para eles, é fracasso total. Sobretudo porque tinham em vista a chegada a Jerusalém e a vitória total do mestre Jesus sobre os dominadores da Cidade Santa.

Abraçando e apresentando uma criança Jesus quis mostrar que a lógica de Deus passa pela acolhida aos mais frágeis, uma vez que as crianças naquele tempo não tinham nenhum prestígio ou reconhecimento. Representavam os indefesos, fracos, abandonados, marginalizados. Por isso, todas as vezes que abraçamos, acolhemos, ajudamos, colaboramos com a causa dos indefesos, representados pelas crianças do evangelho, estamos acolhendo Jesus e o seu Reino. Uma Igreja que acolhe os pequenos, que se compromete com os pobres, abandonados, migrantes, desempregados, pessoas em situação de rua está acolhendo o próprio Deus. Por outro lado, uma Igreja que se aproxima e se associa aos poderosos da terra, aos latifundiários e empresários gananciosos, aos detentores do poder político e econômico está traindo a Boa Nova de Jesus.

Algumas perguntas poderiam nos acompanhar ao longo desta semana: Qual é a lógica/sabedoria que nos orienta: a sabedoria do mundo ou a sabedoria de Deus? Deixo-me levar pela ganância do ter e do poder? Qual é minha maior preocupação: ocupar os primeiros lugares, incomodar-me com quem está nos primeiros lugares (porque penso que o lugar deveria ser meu)? Luto por um mundo mais igualitário, mais democrático, mais dialógico, começando por mim? Estou disposto a enfrentar desafios, desafetos, desprezos, humilhações, fracassos por causa de minha fidelidade ao evangelho?

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A PROPÓSITO DAS CRIANÇAS

Jesus “tomou uma criança, colocou-a no meio deles e, pegando-a nos braços, disse-lhes...” Essa atitude de Jesus pode nos ajudar a refletir sobre muitas situações por que passam as crianças na sociedade atual.

Uma delas é o abandono. Certamente são mais do que justas e necessárias as ausências dos pais que saem todos os dias em busca do pão de cada dia. As crianças ficam nas creches, com as avós ou em outras situações. Mas o fato é que a presença norteadora dos genitores deixa a desejar. Quem são mesmo os verdadeiros orientadores, educadores dos seus filhos? Muitas vezes se busca compensar a ausência com presentes. Uma espécie de compra do afeto. Isso mais tarde se transformará em ódio contra os pais. Nunca compre o amor de seu filho/a. Dê presença e carinho gratuitamente. Seja sempre verdadeiro, honesto, sincero!

Outra realidade é a da tecnologia da comunicação. Ocupados com as mídias e redes sociais, alguns pais deixam os filhos abandonados. Até costumam oferecer-lhes de presente um aparelho também. Assim fica ótimo! Cada um na sua. Ninguém incomoda a ninguém. Você sabe o que seu filho vê na internet? Sabe com quem ele faz contato? Sabe por onde navega? Há histórias terríveis em relação a isso. Pare, pense e confira!

Você que é cristão, católico, ensina as primeiras orações a seu filho/a? Ensina a ele/ela os valores do evangelho? Dá bom exemplo de partilha, de solidariedade, de respeito, de justiça, de verdade? – Outro dia ouvi uma história linda: Aproximava-se o aniversário do filho: 10 anos. O pai, professor e possuidor de uma condição econômica razoável, perguntou-lhe o que gostaria de ganhar como presente de aniversário. Para surpresa do pai, o filho pediu uma boa quantidade de pães a fim de fazer sanduíches e distribuir com os pobres da rua! Esse gesto brotado do coração de um menino de classe média diz muito pra nós!

Outro fato evidenciado pela mídia, e, infelizmente, muito praticado em nosso meio, é o abuso sexual de crianças e adolescentes. Uma situação terrivelmente dolorosa e danosa para a criança, vítima indefesa e inocente, e para a família. E, no caso da Igreja, enquanto continuadora da missão de Jesus, uma mancha terrível. Leva a uma espécie de apagão de todo o trabalho e doação de milhares de padres e religiosos que entregam sua vida, sua força, suas energias para cuidar, educar, salvar as crianças nas famílias e comunidades. Quero reafirmar que os pais precisam acompanhar com muita solicitude seus filhos e filhas pequenos para que não sejam vítimas dessa perversão/perversidade de muitos adultos e que prejudica terrivelmente milhares de crianças. Com muita frequência as crianças são abusadas pelos de casa, mas a mãe ou quem tem conhecimento, ou não se importa ou não tem coragem de denunciar ou se deixa levar pelo medo. Enfim, é uma situação terrível. O melhor remédio é prevenir.

Alem disso há crianças espancadas, violentadas, maltratadas, passando fome, exploradas em trabalhos pesados nos semáforos e nos lixões, exploradas sexualmente nas ruas e rodovias...

Essa canção do Pe. Zezinho precisaria perder a vigência: Menores abandonados, / Alguém os abandonou. / Pequenos e mal amados / o progresso não os adotou.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Jesus, a Igreja e a “lepra” de hoje

aureliano, 10.02.24

6º Domingo do TC - B.jpg

6º Domingo do Tempo Comum [11 de fevereiro de 2024]

[Mc 1,40-45]

O evangelho de Marcos é um livrinho de catequese escrito para as primeiras comunidades cristãs, principalmente provenientes do paganismo, para mostrar quem é Jesus: o Filho de Deus que veio a este mundo para libertar o homem do mal. Jesus tem poder sobre o mal e o pecado. A comunidade pode crer, confiar nele. Ele está acima de qualquer lei tanto imperial como mosaica. Ele é a Lei. Sua vida é a norma de vida para todos, judeus ou pagãos.

O relato do evangelho deste domingo mostra o encontro de Jesus com um leproso. É preciso notar o que significava a lepra para a comunidade judaica. De todas as doenças era a que os judeus consideravam mais impura, pois  destruía a integridade e a vitalidade física do ser humano. Por isso se previa a exclusão da pessoa do convívio social. Na opinião popular essa doença devia ser obra de um espírito muito ruim.

Jesus quebra todas as leis e normas que excluíam o leproso. Jesus é um judeu diferente: ele se torna participante da situação do leproso. É movido de profunda compaixão (termo que não aparece no relato de Lucas e Mateus) por aquele homem que lhe implora a cura, confiando em seu poder: “Se queres podes curar-me”. E Jesus estende a mão e toca aquele homem. O leproso, segundo a Lei, não podia ser tocado por ninguém, não somente pela contaminação da doença, que poderia se proliferar e colocar em risco a comunidade, mas também porque colocava o judeu piedoso fora da comunhão com Deus. A doença era considerada consequência do pecado, sobretudo a lepra, pois destruía a integridade física do ser humano. Mas Jesus tem outra interpretação. Mostra que o culto a Deus passa pela misericórdia para com os sofredores: “Quero misericórdia e não sacrifício”. Esse sinal realizado em favor daquele homem indica que Jesus veio tirar do mundo e do ser humano a “lepra” do pecado que destrói a humanidade, carregando em si mesmo nossas enfermidades (cf. Is 53,3-12).

O relato de hoje nos ajuda a pensar na conciliação de duas realidades na vida de Jesus que precisam ser olhadas por nós com muito carinho: poder e compaixão. A Lei simboliza aqui o poder. Ela existe para o bem da pessoa. Quando unida à misericórdia pode salvar a muitos. Mas sem essa qualidade divina, torna-se excludente e perversa. Jesus não vai consultar os sacerdotes, guardiães da lei daquele tempo, mas restabelece aquele homem na sua necessidade imediata. Depois de beneficiado, então ele vai agradecer e oferecer o sacrifício prescrito. Jesus não se opõe à Lei, mas dá-lhe um novo sentido. Ela deve ser cumprida para o bem de todas as pessoas e não para oferecer privilégios a uns e descarte de outros. O auxílio moradia e os altos salários dos juízes, senadores, deputados, vereadores e executivos, mostram bem como a lei pode ser perversa. Pode estar a serviço de privilégios. Podem dizer que é legal, que está de acordo com a legislação vigente, mas é injusta, iníqua, perversa. Nem tudo que é legal é justo. “O sábado foi feito para o ser humano, e não o ser humano para o sábado” (Mc 2,27). As leis que regem a sociedade são justas enquanto estão a serviço de todos, especialmente dos mais frágeis, desprotegidos, desamparados. Quando elas defendem e fortalecem privilégios e oprimem os pobres, não podem ser executadas.

As consequências para nossa vida de fé indicadas no relato de hoje são bem evidentes. É uma catequese sobre a reintegração dos marginalizados de hoje. Podemos nomear alguns banidos de nossa sociedade: os que vivem nos barracos das favelas e periferias das grandes cidades, os fracassados, os desempregados, os dependentes de droga, as vítimas de uma sociedade do consumismo e do sucesso a qualquer custo, as pessoas com deficiência física ou mental, os idosos e doentes que não mais produzem nem dão lucro, os encarcerados, os aidéticos, os maltrapilhos etc. Enfim, vivemos numa sociedade marcada pela lepra do preconceito e da discriminação.  

Jesus vem nos mostrar um jeito novo, diferente de agir. Ninguém pode ficar ‘de fora’, banido. Nosso coração precisa ser tomado desse poder compassivo que habitava o coração de Jesus para construirmos relações verdadeiramente fraternas e libertadoras. O poder de Jesus foi transmitido a nós. A missão agora é nossa. Muitos ‘leprosos’ estão suplicando pela cura, pela inclusão, pelo reconhecimento, pela acolhida em nosso meio. O que temos feito? Como nos relacionamos com eles? Temos tido coragem de sair de nós mesmos? Ou estamos também acometidos pela ‘lepra’ do comodismo, do egoísmo, do fechamento, da ganância, da sede do poder e do ter que mata em nós todo sentimento de compaixão, de desejo de salvação de todos?

Onde quer que falte alimento, água potável, saneamento básico, casa, medicamento, trabalho, educação, meios necessários para levar uma vida verdadeiramente humana; onde estiver um aflito ou sem saúde, um presidiário ou maltratado, aí deve estar a caridade cristã para consolá-los e reerguê-los oferecendo-lhes auxílio. É essa a missão da Igreja e é isso que o mundo de hoje espera dela. Porque é chamada a ser continuadora da missão de Jesus.

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Estamos em dias de Carnaval. Outrora esse tempo era oportunidade de alegria, de extravasamento sadio. Hoje, de modo geral, tornou-se tempo de preocupação, de violência, de morte. Cada um escolha uma forma de descansar, de rezar, de se preparar para viver com intensidade o tempo litúrgico da quaresma.

E não se esqueçam de que na Quarta-feira de Cinzas, dia de jejum e abstinência, iniciamos a Quaresma, tempo de preparação para celebrarmos a Páscoa da Ressurreição do Senhor. Tempo de conversão para uma vida mais fraterna. Guardemos no coração a palavra do Papa Francisco: “O jejum não é somente privar-se do pão. É também dividir o pão com o faminto”.

Você já sabe qual é o tema da Campanha da Fraternidade desse ano? Pois fique sabendo: “Fraternidade e amizade social”. Com o lema: “Vós sois todos irmãos e irmãs” (Mt 23,8). Não se deixe levar pelo discurso daqueles que se colocam contra a Campanha da Fraternidade, pois estão contra o Evangelho e a Igreja. Cuidado com os falsos profetas e falsos pastores travestidos de ovelhas, mas são lobos devoradores. Coloquemo-nos no seguimento a Jesus que enfrentou a cruz e a morte para nos dar mais vida.

Pai, derrama sobre nós o Espírito Santo, para que, com o coração convertido, acolhamos o projeto de Jesus e sejamos construtores de uma sociedade justa e sem violência, para que, no mundo inteiro, cresça o vosso Reino de liberdade, verdade e paz.

*Dia mundial dos enfermos: não deixar o enfermo na solidão

"Irmãos e irmãs, o primeiro cuidado de que necessitamos na doença é uma proximidade cheia de compaixão e ternura. Por isso, cuidar do doente significa, antes de mais nada, cuidar das suas relações, de todas as suas relações: com Deus, com os outros – familiares, amigos, profissionais de saúde –, com a criação, consigo mesmo. É possível? Sim, é possível; e todos somos chamados a empenhar-nos para que tal aconteça. Olhemos para o ícone do Bom Samaritano (cf. Lc 10, 25-37), contemplemos a sua capacidade de parar e aproximar-se, a ternura com que trata as feridas do irmão que sofre.

Recordemos esta verdade central da nossa vida: viemos ao mundo porque alguém nos acolheu, somos feitos para o amor, somos chamados à comunhão e à fraternidade. Esta dimensão do nosso ser sustém-nos sobretudo no tempo da doença e da fragilidade, e é a primeira terapia que todos, juntos, devemos adotar para curar as doenças da sociedade em que vivemos.

(...) Nesta mudança de época que vivemos, especialmente nós, cristãos, somos chamados a adotar o olhar compassivo de Jesus. Cuidemos de quem sofre e está sozinho, porventura marginalizado e descartado. Com o amor mútuo que Cristo Senhor nos oferece na oração, especialmente na Eucaristia, tratemos das feridas da solidão e do isolamento. E deste modo cooperamos para contrastar a cultura do individualismo, da indiferença, do descarte e fazer crescer a cultura da ternura e da compaixão.

Os doentes, os frágeis, os pobres estão no coração da Igreja e devem estar também no centro das nossas solicitudes humanas e cuidados pastorais. Não o esqueçamos! E confiemo-nos a Maria Santíssima, Saúde dos Enfermos, pedindo-Lhe que interceda por nós e nos ajude a ser artífices de proximidade e de relações fraternas” (Papa Francisco in Mensagem para o dia mundial dos enfermos 2024).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

As tentações do caminho

aureliano, 12.02.16

1º Domingo da Quaresma [14 de fevereiro de 2016]

 

A tentação para desviar-se do Caminho

[Lc 4,1-13]

Estamos vivendo esse tempo rico de bênçãos e graças na Igreja. Tempo de revisão de vida, de exame de consciência, de retomada dos compromissos batismais. Quaresma lembra os quarenta anos de caminhada do Povo de Deus no deserto rumo à Terra Prometida. Lembra também os quarenta dias de jejum e oração vividos por Jesus no deserto.

O evangelho de hoje nos remete à situação de tentação vivida por Jesus. No final de um tempo profundamente marcado por Deus ele é tentado pelo diabo. No início parece até contraditório. Como é que a tentação pode ocorrer logo após um tempo forte de oração e jejum? O diabo não deveria estar bem longe? Pois é! A vida de Jesus vem nos mostrar que nunca estamos livres das tentações do maligno. Quanto mais próximos de Deus, mais tentados pelo diabo. A vida de oração não nos garante a isenção de tentações. Garante, sim, a força de Deus para enfrentarmos e vencermos o mal, como aconteceu com Jesus.

O relato das tentações de Jesus não é um relato jornalístico, como se alguém estivesse filmando ou descrevendo tudo o que estava acontecendo a Jesus. Não. É relato de um episódio que visa à catequese da comunidade. A experiência de Jesus é a experiência do discípulo que se compromete a seguir a Jesus, mas enfrenta muitas tentações. Partindo deste princípio, podemos afirmar que, na verdade, Jesus não foi tentado somente em um dado momento, mas durante toda a sua vida o diabo buscou desviá-lo do querer do Pai. O que importa é que ele sempre foi vencedor: nunca se deixou levar pelo diabo.

Primeira tentação: Quando Jesus sente fome o diabo se apresenta para que Jesus “mude a pedra em pão”. O diabo nos quer pegar em nosso ponto fraco. Jesus recorre sempre à Palavra de Deus. Esta é o remédio eficaz contra as tentações. O pão é a necessidade primeira, básica. Mas comida não preenche o mais profundo do ser humano. A vida em Deus é alimento imprescindível. Ademais, Jesus não veio para atender a ordens do diabo nem a interesses próprios, mas para fazer a vontade do Pai. Mais tarde multiplicará os pães para saciar a fome de uma multidão. - Como temos alimentado nosso espírito? Que temos lido? A que programas de televisão assistimos? Que sites acessamos? Como anda a ganância dentro de nós? Que ambientes temos frequentado em nosso lazer?

A segunda tentação é a do “poder e glória”. Essa tentação é terrível. Há muita gente ‘ajoelhada’ diante do diabo para conseguir “poder e glória”. Tem gente que ‘vende a alma para o diabo’ para conseguir sucesso, poder e dinheiro. É uma das grandes tentações de nossos tempos. É a manipulação da religião para dominar, para enriquecer-se, para se ter sucesso. É servir-se da religião para conquistar bem-estar, prestígio, fama. Nestes tempos em que a Igreja tem perdido prestígio e influência social, sofre fortemente a tentação de se aproximar do poder podre e corrupto dos grandes deste mundo. Jesus responde que somente a Deus devemos servir e adorar.

Essa tentação se vence com a busca de um olhar compassivo e misericordioso sobre os irmãos mais necessitados. O serviço a Deus se dá nos ‘pequeninos’ do Reino. Todo cuidado é pouco, pois o diabo se veste de ‘deus’ para enganar os dominados pela cobiça. Ou melhor, os cobiçosos colocam no diabo uma capa ‘divina’ para ‘subirem na vida’.

A terceira tentação se dá no pináculo do templo de Jerusalém. É a tentação da vanglória, da ostentação, do desejo de aparecer, de jogar nossas responsabilidades nas mãos de Deus, do uso da religião para manipular as pessoas. Nessa tentação, a última cartada, o diabo busca desviar Jesus de sua missão com uma capa de cumprimento das Escrituras. Deus o ampararia e todo mundo iria acreditar nele. Jesus, porém, não se deixa levar por essa proposta. Mostra que a Deus não se deve tentar. Ou seja, não se pode jogar para Deus aquilo que é responsabilidade do ser humano. Essa tentação mostra explicitamente o uso da religião para busca de sucesso. Quanta gente anda atrás de promessa, de milagres, de adivinhações etc. Na verdade, cada um deveria assumir seu papel na sociedade. Nesta tentação Jesus mostra que nunca colocará o Pai a serviço de si, mas se colocará sempre a serviço dos pequenos, lavando-lhes os pés, como realização do desejo do Pai.

 Como cristãos o Senhor nos chama a lançar sobre o mundo um olhar de misericórdia. Ele nos convida a deixarmos de buscar a nós mesmos, nosso bem-estar, nossos desejos realizados, nosso sucesso e voltarmos nosso olhar para fora, para o outro. O rosto do outro precisa me interpelar, me incomodar e me desacomodar. Essa foi a atitude que Jesus assumiu diante do Pai. É diabólico organizar uma religião como um sistema de crenças e práticas para se conseguir segurança. Não se constrói um mundo mais humano refugiando-se cada um em sua religião. É preciso arriscar-se confiando em Deus, como Jesus.

As tentações pelas quais passou Jesus são também nossas. É a tessitura do dia-a-dia da vida cristã. O empenho pelo bem tem como desafio a luta contra o mal. É a tentativa do diabo em arrancar de nós a Palavra. Quando não consegue esmorecer a pessoa, tenta sufocar a Palavra em seu coração, alimentando preocupações com prazeres e riquezas (cf. Lc 8,4-15). Quer nos desviar do Caminho.

Alimentemos em nós o espírito que animava Jesus. Ele teve a coragem de “perder” a sua vida por causa de nós. “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará” (Lc 9,23-24). A Palavra de Deus guardada no coração e colocada em prática é a grande arma que o Pai nos deu para não nos deixarmos vencer pelas tentações do inimigo.

Você consegue identificar quais são as tentações que, na sua vida, buscam desviá-lo do cumprimento da vontade do Pai?

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN