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aurelius

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VALE A PENA IR AO VALE

aureliano, 18.04.17

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Leonardo Boff define ex-peri-ência como “a ciência ou o conhecimento (ciência) que o ser humano adquire quando sai de si mesmo (ex) e procura compreender um objeto por todos os lados (peri). A experiência não é um conhecimento teórico ou livresco. Mas é adquirido em contato com a realidade que não se deixa penetrar facilmente e que até se opõe e resiste ao ser humano. Por isso em toda a experiência há um quociente forte de sofrimento e de luta” (BOFF, Leonardo. Experimentar Deus, p. 31).

Pois bem, foi mais menos isto que acabei de fazer. Uma experiência marcante em minha vida: Semana Santa em São João do Vacaria, Virgem da Lapa, paróquia de São Domingos, diocese de Araçuaí/MG. O tempo certamente foi pequeno. Embora já tenha estado lá o ano passado nesta mesma ocasião. Mas pude aprofundar um pouco mais o contato, o conhecimento, a experiência.

Uma comunidade cujo modo de viver e de se relacionar, revela o rosto de Deus. As crianças, os jovens e os idosos: um modo de ser e de viver diferenciado. As famílias conservam costumes e práticas devocionais e relacionais que marcam os filhos.

Os idosos são uma bênção, um poço de sabedoria para a comunidade local. Muito religiosos, fiéis às tradições recebidas, participam o quanto podem e como podem das celebrações. Evoco aqui a figura sem par do Seu Cristiano: beirando os 104 anos, com a esposa, Dona Geralda, já na segunda casa dos noventa e com o mal de alzheimer. Seu Cristiano ali por perto, firme. Neste casal quero homenagear todos os idosos de São João.

“Como tem passado, Seu Cristiano? – Ah, moço, eu tô aqui: já quase não enxergo mais; tô escutando muito pouco; as pernas estão fracas; uma friagem nas costas que não passa. Esperando Deus me chamar”. Lá pelas tantas pergunto: “O senhor já ‘pegou o jabá’, hoje?” – “Não, moço – responde de imediato – Hoje não como jabá, não. Hoje é Sábado do Aleluia, e jabá tem carne. Hoje eu não como carne. Aprendi de minha mãe e dos antigos. Hoje eu vou ‘pegar o grude’”. Assim Seu Cristiano mostra a marca que ficou no seu coração daquilo que aprendeu dos pais. O casal tem em torno de 76 anos de casados. Dona Geraldo fraturou o fêmur às vésperas da Semana Santa. Está hospitalizada. E Seu Cristiano por ali, agoniado e saudoso da prestimosa esposa.

Não dá para enumerar todos os idosos: são muitos, e muito sábios! E muito participativos. Acolhem a gente com uma alegria que só pode brotar do coração do Pai.

Como esta comunidade acolhe bem, meu Deus! Todos querem nossa visita. Aonde a gente passa precisa tomar um cafezinho, comer um biscoitinho de polvilho assado (normalmente no forno a lenha), quitanda peculiar da região! O almoço, o jantar, tudo farto. Sem mesquinhez. Partilham o que são e o que têm com a gente. Oferecem sempre o melhor. Não medem esforços, sacrifícios.

Fiquei ainda mais encantado com cada família. Durante oito dias, almoçando aqui, jantando acolá, numa escala já de antemão preparada. Mas houve gente que reclamou porque ficou de fora. Gostaria também de oferecer a refeição aos missionários. Sem contar o que enviavam à nossa casa para o café. Foi preciso de pedir que parassem de enviar para que não se estragasse.

Mas vejam bem: as famílias são pobres. Sobrevivem com dificuldade, a duras penas, com muito trabalho e economia. Mas porque são pobres sabem partilhar com tanta generosidade! Dificilmente a gente vê um rico generoso. Quando começa a oferecer muita coisa costuma ser em busca de alguma troca de benefício. Por isso Jesus disse que “um rico dificilmente entrará no Reino dos Céus” (Mt 19,23).

A solidariedade na comunidade é notável. Há grande preocupação de uns para com os outros. Se alguém adoece todos ficam sabendo e perguntam e providenciam o que for preciso e buscam alternativas. José Nilson e Helena são agentes de saúde da comunidade há 27 anos. Fazem do trabalho uma missão. Vão muito além do salário, que, aliás, é bastante minguado. São uma espécie de “anjos da guarda” da comunidade.

As pessoas que sofrem deficiência mental são tratadas com carinho e respeito. Todos as conhecem e se solidarizam com elas. Cuidam delas com carinho e respeito.

Um detalhe interessante: ao se referir à morte de alguém, eles não dizem que morreu, mas que “Deus levou” ou “Deus chamou”. Uma compreensão intuitiva e na fé de que a morte não põe fim à vida da pessoa. Ela continua vivendo junto de Deus.

Há, na minha opinião, dois grandes males na comunidade: a violência por parte de uma “meia dúzia” de pessoas perversas que praticam crimes (impunes) contra os moradores, levando medo e causando insegurança na população. A administração pública precisa olhar com mais carinho a dimensão da segurança pública para a comunidade de São João.

O outro mal é a falta de perspectiva de vida para os jovens: concluído o Ensino Médio, partem para outras cidades em busca de estudo e trabalho. Junte-se a isto a situação das estradas de acesso à cidade do município e a política do abastecimento de água.

Se o poder público tiver a sensibilidade de olhar com mais carinho para a comunidade de São João do Vacaria, certamente a comunidade se firmará ainda mais na dinâmica de uma espécie de “plano piloto” para outras comunidades. Vamos esperar e acreditar.

Em tempos de Reformas (previdência, política, trabalhista) vou entrar aqui numa espécie de delírio e convidar o “presidente” Temer e sua turma para visitar São João do Vacaria. Também os Congressistas do Planalto, sobretudo os parlamentares mineiros. Deveriam passar pelo menos cinco dias na comunidade, mas sem os privilégios da corte palaciana! Podem ficar tranqüilos: não vão passar fome, não: a comunidade é generosa. Não vão sobrar, não: a comunidade é acolhedora. Vocês verão como a comunidade faz milagre com o salário mínimo que alguns ganham e sustentam a todos, e que muitos de vocês, de Brasília, querem tirar através da proposta de Reforma da Previdência. Vão ver como o salário mínimo faz a diferença na vida daquele povo. Vão ver que a alegria verdadeira não está em ter muitos bens e altos salários. Não! A verdadeira alegria está em partilhar, em se solidarizar, em abrir-se ao outro.

Senhor Michel Temer, não é o salário mínimo do aposentado que está quebrando a Previdência, não! Não é o pobre trabalhador rural ou a pessoa com deficiência (BPC) que provocam rombo na Previdência, não! Vá visitar o pessoal do Vale do Jequitinhonha e veja como vive. Desça às bases, às famílias carentes. Sinta como vive aquele povo. Com pouca coisa eles experimentam alegria na vida. Coloque a mão na consciência! Faça experiência de viver com um salário mínimo por um mês!

Senhor “presidente” Temer, senhores e senhoras congressistas, se não houver corte nos privilégios, não há dinheiro que baste em nosso país. Se não se cobrar das grandes empresas devedoras da Previdência, não será possível reaver recurso suficiente para minimizar a dor dos pobres.

São João do Vacaria, uma comunidade que mostra um jeito de viver que vale a pena no Vale do Jequitinhonha. E há numerosas comunidades daquela região que passam por muitas dificuldades nos elementos básicos como alimentação e saúde por faltarem políticas públicas que contemplem sua realidade.  

Agradeço a Deus por me ter dado a graça de poder, mais uma vez, fazer esta experiência de missão, organizada pela CRB/Minas, no convite e acolhida do Pe. Ederson Guedes. Uma graça. Um apelo. Um convite. Uma provocação. Uma experiência!

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

A luz de Cristo nos faz iluminados

aureliano, 24.03.17

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4º Domingo da Quaresma [26 de março de 2017]

[Jo 9,1-41]

João escreve com uma linguagem própria, em relação aos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas): longos diálogos cujas cenas são carregadas de simbolismo, provocando realismo e suspense no leitor. A principal mensagem do relato de hoje é a acolhida da revelação de Jesus enfatizada no contraste entre o “ver” e o “cego”. No texto encontramos 14 vezes a palavra “cego” e 18 referências ao “ver”. Os fariseus julgam ver tudo a partir da Lei e expulsam da sinagoga aquele que passou a ver depois do encontro transformador com Jesus.

Não podemos perder de vista que, desde os inícios do cristianismo, a quaresma é o tempo de preparação para o batismo dos catecúmenos. Por isso os textos bíblicos e litúrgicos são escolhidos de forma a levar aquele que será batizado a entender e a assumir a fé que irá professar e a mergulhar-se cada vez mais no mistério do Cristo, luz do mundo. Nas Igrejas Orientais o batismo era chamado de “iluminação”.

A liturgia continua convocando o batizado à conversão do coração. É preciso afastar a ideia de que somente se deve preparar e pensar no batismo quem ainda não foi batizado. A realidade batismal deve acompanhar toda a vida do cristão. É uma vida nova. É um jeito novo de viver: “Outrora éreis trevas, mas agora sois luz o Senhor: andai como filhos da luz, pois o fruto da luz consiste em toda bondade, justiça e verdade” (Ef 5, 8-9).

Aquele cego de nascença representa cada pessoa chamada a fazer caminho de seguimento de Jesus. Nascer cego lembra a realidade de pecado (original) em que toda pessoa nasce. É preciso ser “ungido” no encontro com Jesus e “lavar-se” nas fontes batismais para enxergar o mundo com o olhar de Jesus. “O pior cego é aquele que não quer ver” exclama o ditado popular. Cegos eram os fariseus e mestres da lei que não queriam enxergar a grande novidade enviada por Deus ao mundo na pessoa de Jesus. Continuavam cegos, embora acreditassem enxergar.

O encontro com Jesus nos abre os olhos e o coração e passamos a enxergar o mundo de modo novo, sem aquela cobiça que faz tanto mal, sem inveja e ciúme. Sem a sede do poder e do dinheiro que provoca tantas desavenças. Passamos a ver o outro não mais como ameaça ao nosso bem-estar ou como objeto de exploração e lucro, mas como irmão que precisa de nós, que pode somar conosco na construção de um mundo melhor.

Enquanto nosso olhar para o mundo for a partir de nossos interesses egoístas, seremos cegos conduzindo cegos. Se, porém, adotarmos a ótica de Jesus, que nos foi dada no batismo, seremos uma possibilidade para construir família, comunidade, sociedade, relações mais humanizadas. Despertaremos nos outros sua capacidade de enxergar melhor. Seremos reflexos da luz de Jesus: “Vós sois a luz do mundo. Brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vendo as vossas boas obras, eles glorifiquem vosso Pai que está nos céus (Mt 5,14.1).

Outro elemento importante do evangelho de hoje é não atribuir o sofrimento humano a uma punição de Deus pelo próprio pecado ou de antepassados. É uma compreensão por demais mesquinha e medíocre sobre Deus. Essa idéia está muito disseminada em nosso meio. Precisa ser erradicada, pois faz muito mal às pessoas e emperra a transformação da história. É uma idéia que nega a liberdade da pessoa, o mistério de Deus e do sofrimento humano. Jesus corta esse mal pela raiz: “Nem ele nem seus pais pecaram, mas é para que nele sejam manifestadas as obras de Deus” (Jo 9, 3).

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A CEGUEIRA NA REFORMA PREVIDENCIÁRIA

Registro, a seguir, dois parágrafos da nota da CNBB sobre a proposta do atual governo para a Reforma da Previdência Social. Uma atitude de quem, à semelhança dos fariseus do evangelho de hoje, recusa-se a enxergar as pessoas e o mundo com o olhar e a luz de Jesus. No Congresso e no Planalto há muitos que se dizem cristãos, mas não guardam nenhum escrúpulo para usarem de perversidade quando seus interesses espúrios estão em jogo. Uma lástima!

... “Buscando diminuir gastos previdenciários, a PEC 287/2016 “soluciona o problema”, excluindo da proteção social os que têm direito a benefícios. Ao propor uma idade única de 65 anos para homens e mulheres, do campo ou da cidade; ao acabar com a aposentadoria especial para trabalhadores rurais; ao comprometer a assistência aos segurados especiais (indígenas, quilombolas, pescadores...); ao reduzir o valor da pensão para viúvas ou viúvos; ao desvincular o salário mínimo como referência para o pagamento do Benefício de Prestação Continuada (BPC), a PEC 287/2016 escolhe o caminho da exclusão social.

... Às senhoras e aos senhores parlamentares, fazemos nossas as palavras do Papa Francisco: ‘A vossa difícil tarefa é contribuir a fim de que não faltem as subvenções indispensáveis para a subsistência dos trabalhadores desempregados e das suas famílias. Não falte entre as vossas prioridades uma atenção privilegiada para com o trabalho feminino, assim como a assistência à maternidade que sempre deve tutelar a vida que nasce e quem a serve quotidianamente. Tutelai as mulheres, o trabalho das mulheres! Nunca falte a garantia para a velhice, a enfermidade, os acidentes relacionados com o trabalho. Não falte o direito à aposentadoria, e sublinho: o direito — a aposentadoria é um direito! — porque disto é que se trata’” (wwwcnbb.org.br).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN