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aurelius

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A família deve amparar, educar e iluminar

aureliano, 26.12.25

sagrada família.jpg

Sagrada Família de Nazaré [28 de dezembro de 2025]

[Mt 2, 13-15.19-23]

É muito comum ainda, ouvirmos nos rotineiros cumprimentos, essa pergunta: “E a família, vai bem?” A resposta normalmente é positiva: “Sim. Está tudo bem, com saúde, graças a Deus”. Mesmo que a situação não esteja lá essas coisas, não faz parte do protocolo contar os problemas e dificuldades que ocorrem entre “quatro paredes” para todo aquele que pergunta. Até porque essa pergunta já supõe uma resposta afirmativa. Ou mesmo, alguns fazem essa pergunta para “puxar” assunto.

Mas todos sabemos da profundidade e mesmo da complexidade que envolve falar sobre família. Hoje sabe-se que família não se resume àquela constituição familiar de 50 ou 60 anos atrás: papai, mamãe, filhinhos. Todos ali, bonitinhos, arranjadinhos, obedientes... Uma estrutura patriarcal em que o varão determinava, por vezes só com o olhar, o que ele queria ou o que deveria ser feito. E mesmo que a família não tivesse esse tipo de comportamento em seu interior, havia uma harmonia interna que não era ameaçada nem influenciada por fatores externos. Havia mesmo uma prevalência “religiosa” sobre os comportamentos de pais e filhos.

Hoje o mundo mudou muito. A sociedade (digam-se: mídias digitais) dita as normas econômicas, sociais, relacionais, educacionais, religiosas. Há uma espécie de ditadura de interesses econômicos que impõem aos grupos e pessoas o que eles devem fazer, o que comprar, o que usar, o que comer, como conviver, até mesmo que religião seguir ou como orar etc. E se a gente ousa entrar nos comportamentos afetivo-sexuais vigentes então, a discussão não tem fim.  Isso incide diretamente nas famílias, núcleo constituinte da sociedade, essa mesma que impõe seus ‘valores’. Isso tudo sem falar nas constituições e organizações familiares que andam em torno de pelo menos nove modalidades, segundo alguns estudiosos desse assunto. Há autores que já falam de doze!

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No evangelho de hoje Mateus nos mostra um pouquinho das agruras da Família de Nazaré. São os chamados Relatos da Infância de Jesus. Enquanto Lucas descreve Jesus e suas relações em Nazaré e cidades vizinhas, Mateus faz outro percurso: a fuga para o Egito e a volta a Nazaré. Escreve para outro público.

O evangelho de Mateus foi escrito para os cristãos provenientes do judaísmo. Por isso ele relata os acontecimentos e palavras de Jesus relacionando-as com o cumprimento das Sagradas Escrituras. Pretende mostrar para a comunidade que Jesus é realmente aquele que o Senhor prometera enviar como Salvador. Ele é o cumprimento das Escrituras. Por isso, o cerne do relato de hoje, no pensamento de Mateus, é o cumprimento da palavra de Os 1,11: “Do Egito chamei o meu filho”. A perseguição de Herodes e a fuga da Sagrada Família para o Egito colocam Jesus em relação com o Povo de Deus libertado do poder do Faraó. Jesus fugiu da perseguição de Herodes; Israel escapou das mãos do Faraó. Jesus foi salvo pelos seus pais; Moisés foi criado pela sua própria mãe (cf. Ex 2,7-9). Jesus atravessou o deserto fugindo da espada de Herodes; o povo de Israel atravessou o deserto rumo à Terra Prometida fugindo da opressão do Faraó. Para Mateus, Jesus é o novo Moisés que veio ensinar e libertar o seu povo.

Essa narrativa mostra Jesus entrando e assumindo plenamente o drama da história humana: a perseguição e a fuga, a disputa pelo poder, a fome e o frio, a vida de refugiado, a luta pela sobrevivência, as contradições humanas. Ele veio resgatar essa história, dar-lhe um rumo novo, mostrar um jeito novo de se viver e se relacionar.

O relato evangélico mostra também as atitudes de José e Maria. Os cuidados e as responsabilidades familiares. Não deixam o menino abandonado à própria sorte. Expõem suas vidas por ele. Inteiramente dedicados.

Não pode passar despercebida também a maldade de Herodes: não se constrange em tirar a vida brutalmente de todas as crianças da região de Belém desde que não haja ninguém que ameace seu trono (cf. Mt 2,16). Herodes representa aqui o poder político e econômico que quer se manter a todo custo. As pessoas podem ser assassinadas, podem morrer de fome, podem morrer envenenadas pelos agrotóxicos, podem morrer nas filas dos postos de saúde e hospitais, podem morrer vítimas da violência do feminicídio, pelo tráfico e uso de drogas, por balas perdidas, podem morrer analfabetas e sem a merenda escolar. Tudo isso não importa. O que importa é o crescimento econômico e a garantia do lucro dos bilionários. O jogo do mercado precisa dar certo. Quem é rico não pode perder nem deixar de ganhar mais. Os pobres podem morrer. Morra o ser humano, mas viva o mercado e acumule-se dinheiro. A pessoa só vale pelo que tem. Essa é a lógica dos “Herodes”.

E a situação dos migrantes? Jesus e sua família foram migrantes. Perseguidos, tiveram que buscar refúgio em terra estrangeira. Como os migrantes têm sido tratados entre nós? Que políticas públicas e que preocupações sociais têm sido desenvolvidas para acolher aqueles que chegam ao nosso País, à nossa cidade, ao nosso bairro, à nossa comunidade? É Jesus que está aí, fugindo de “Herodes” e tentando sobreviver.

A liturgia da festa de hoje nos ajuda a olhar mais de perto nossa vida cristã e familiar. Que sentido cristão tem tido nossa vida de família? Como tenho cuidado dos membros de minha família?  Sou capaz de me sacrificar, de me doar, de me empenhar para ver a pessoa feliz, bem cuidada, amparada?  E como lido com os “de fora”, os migrantes? Eu, ou alguém de minha família, certamente viveu ou vive experiência de migrante: tentando a vida fora, em outro lugar. Que sentimentos perpassam minha alma?

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Podemos concluir que, para a família caminhar bem (note-se que caminhar aqui remete às idas e vindas da Sagrada Família nas estradas da Judéia e da Galiléia), precisa alimentar-se de uma profunda experiência de Deus, de intimidade com o Pai, de busca da Sua vontade. Então poder-se-á tratar de qualquer modelo de organização familiar. O que importa, acima de tudo, é se essa família está buscando fazer a vontade do Pai manifestada na vida de Jesus de Nazaré; se está colocando em sua vida o Pai e seu projeto de vida como prioridade, como absoluto. Então muita coisa na sociedade também poderá melhorar. É um processo lento, de conversão cotidiana, de esperar contra toda esperança. É uma questão de fé. "Nós mudamos, a Igreja muda, a história muda, quando começamos a querer mudar — não os outros, mas a nós mesmos, fazendo da nossa vida um dom" (Papa Francisco, na missa de Natal de 2019).

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"A família é a primeira escola dos valores humanos, na qual se aprende o bom uso da liberdade. Há inclinações maturadas na infância, que impregnam o íntimo de uma pessoa e permanecem toda a vida como uma inclinação favorável a um valor ou como uma rejeição espontânea de certos comportamentos. Muitas pessoas atuam a vida inteira de uma determinada forma, porque consideram válida tal forma de agir, que assimilaram desde a infância, como que por osmose: "Fui ensinado assim"; "isto é o que me inculcaram". No âmbito familiar, pode-se aprender também a discernir, criticamente, as mensagens dos vários meios de comunicação. Muitas vezes, infelizmente, alguns programas televisivos ou algumas formas de publicidade incidem negativamente e enfraquecem valores recebidos na vida familiar" (Amoris Laetitia, 274).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

Inspirados na Família de Nazaré

aureliano, 29.12.23

sagrada família.jpg

Sagrada Família de Nazaré [31 de dezembro de 2024]

[Lc 2,22-40]; [2,40-52]

 PALAVRA DE DEUS: FONTE INSPIRADORA DAS FAMÍLIAS

A família não teve, desde sempre, a constituição pai, mãe e filhos, como conhecemos hoje. Os antropólogos dizem que a família se formou devido à necessidade de sobrevivência diante da escassez de alimentos e das ameaças vindas de fora.

Dessa constituição do grupo familiar para autodefesa surgiram as tribos ou clãs: grupos familiares constituídos de pai, mãe, avós, filhos, primos, tios etc. Assim viviam os israelitas. O que os diferenciava de outros clãs era a vida centrada na Palavra de Deus. Seus costumes e posturas eram orientados pelo ensinamento de Deus. Assim se entende Jesus: ele viveu dentro de um clã, e não somente com José e Maria, como pode ocorrer de imaginarmos a partir de nossa compreensão atual.

Fundante na vida de Jesus é que ele ampliou a compreensão de família. “’Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?’ E repassando com o olhar os que estavam sentados ao seu redor, disse: ‘Eis a minha mãe e os meus irmãos. Quem fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe’” (Mc 3,33-35). Família, portanto, não está mais no vínculo do sangue ou de religião. Família se constitui sobre o cumprimento da vontade de Deus que é empenho para que haja “vida em abundância para todos” (Jo 10,10). A base para a construção e constituição da vida familiar é própria vida de Jesus de Nazaré.

Daqui brota uma nova compreensão de família. Sabemos que as famílias, hoje, vivem outra realidade. Pais e filhos têm pouco contato. O trabalho absorve grande parte do tempo das pessoas. A mulher-mãe não fica mais em casa para cuidar dos filhos (nem o pai). De um modo geral, pela força das circunstâncias, esse ofício foi terceirizado para a babá ou a avó. Os filhos ficam quase o tempo todo na escola ou na rua. Além de outros aspectos como a droga, a violência, a internet ou a televisão que tomam o tempo e desvirtuam as relações porque transmitem outros valores, quase sempre à revelia daqueles que os pais ensinam.

E os idosos? Ou ficam sozinhos ou são deixados nos asilos. Antigamente eles ficavam em casa sob os cuidados de todos que, normalmente, estavam por ali. Além disso, de modo geral, os filhos e netos não querem o trabalho de cuidar dos idosos e doentes. Interessam a muitos a aposentadoria e a herança. Mas a gratuidade do trabalho permanece bem distante da maioria dos casos. É bom lembrar a palavra do Eclesiástico 3,12-14: “Filho, cuida de teu pai na velhice, não o desgostes em vida. Mesmo se a sua inteligência faltar, sê indulgente com ele, não o menosprezes, tu que estás em pleno vigor. Pois uma caridade feita a um pai não será esquecida, e no lugar dos teus pecados ela valerá como reparação”.

Celebrando a Sagrada Família de Nazaré, Jesus, Maria e José, vamos deixar de lado aquela ideia de “família perfeita”. O importante é termos aquele Espírito que animou a Sagrada Família, no cuidado uns para com os outros, no respeito, na doação para que nossas famílias sejam espaço em que todos possam se sentir seguros, acolhidos, respeitados, amados, educados, em condições de desenvolver suas potencialidades. Quanto mais assumirmos a Palavra de Deus como fonte inspiradora de nossas ações, e a Eucaristia como alimento cotidiano, mais compreenderemos o modo de constituir família segundo os critérios do Reino de Deus.

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E A FAMÍLIA, COMO VAI?

É muito comum ainda ouvirmos, nos rotineiros cumprimentos, essa pergunta: “E a família: vai bem?” A resposta normalmente é positiva: “Sim. Está tudo bem, com saúde, graças a Deus”. Mesmo que a situação não esteja lá essas coisas, não faz parte do protocolo contar os problemas e dificuldades que ocorrem entre “quatro paredes” para todo aquele que pergunta. Até porque essa pergunta já supõe uma resposta positiva. E alguns fazem essa pergunta para “puxar” assunto.

Mas todos sabemos da profundidade e complexidade que envolve falar sobre família. Hoje sabe-se que família não se resume àquela constituição familiar de 30 ou 40 anos atrás: papai, mamãe, filhinhos. Todos ali, bonitinhos, arranjadinhos, obedientes... Uma estrutura patriarcal em que o macho-varão determinava, por vezes só com o olhar, o que ele queria ou o que deveria ser feito. E mesmo que a família não tivesse esse tipo de comportamento em seu interior, havia uma harmonia interna que não era ameaçada nem influenciada por fatores externos. Havia mesmo uma prevalência “religiosa” sobre os comportamentos de pais e filhos.

Hoje o mundo mudou muito. A sociedade dita as normas econômicas, sociais, relacionais, educacionais, religiosas. Há uma espécie de ditadura de interesses econômicos que impõe aos grupos e pessoas o que eles devem fazer, o que comprar, o que usar, o que comer, como conviver, até mesmo que religião seguir ou como orar etc. E se a gente ousa entrar nos comportamentos afetivo-sexuais vigentes então, a discussão não tem fim.  Hoje precisamos entender um pouco mais a “questão de gênero”. Não adianta fugir ou evitar o assunto, pois ele está na pauta do dia: redes sociais, filmes, músicas, novelas e séries, escola e rua. Isso incide diretamente nas famílias, núcleo constituinte da sociedade. E esta quer sempre impor seus ‘valores’. Isso tudo sem falar nas constituições e organizações familiares que giram em torno de pelo menos nove modalidades, segundo alguns estudiosos desse assunto. Há autores que já falam em doze modelos de família!

Então, o que fazer? É preciso voltar à família de Nazaré. Parece não haver outro caminho. Lucas, nesse belíssimo relato de hoje, desvela uma faceta da família de Nazaré que precisa ser contemplada por todos nós. Um episódio que mostra a centralidade do Pai celeste na vida da família de Nazaré. A religião vivida, praticada por José, Maria e Jesus, ajuda a compreender e a aprofundar o projeto salvífico do Pai.

Uma família que observava ‘religiosamente’ a Lei do Senhor: “Iam todos os anos a Jerusalém, para a festa da Páscoa” (Lc 2, 41). Não é a mera observância religiosa que salva. O ritualismo é uma realidade que mata a pessoa e a comunidade. Jesus condenou inúmeras vezes uma prática religiosa desligada da vida. Mas, quando a religião é séria, ética, próxima da Verdade, do Bem e do Belo, ajuda a pessoa e a comunidade a realizar um encontro transformador e realizador com o Criador e Pai. Os pais de Jesus procuravam fazer o que ordenava a Lei. Aliás, Mateus diz que José “era um homem justo” (Mt 1,19). Isto significa que era fiel cumpridor dos Ensinamentos de Deus, a Torah. Maria, a “cheia de graça”, a “serva do Senhor”, a “bendita entre as mulheres”, ouvinte atenta da Palavra. Essas indicações dos evangelhos nos revelam o caminho que esses pais percorriam para deixar sua marca no coração do filho Jesus. Por isso ele os segue: tendo entrado na idade adulta, doze anos para a cultura judaica, também ele sobe ao Templo.

Na viagem de volta, notam algo estranho: Cadê o Menino? Ficara em Jerusalém. É interessante notar o cuidado prestimoso dos pais para com o Menino. Aquele cuidado humano. Aquela responsabilidade paterno-maternal em não desamparar o filho, não perdê-lo de vista. E a lição veio: “Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai” (Lc 2,49). Jesus quis lhes mostrar que o seu “Pai” é do céu. Seu pai terreno, legal não podia determinar sua vida. Ele veio para fazer a vontade do Pai do céu. Aqui aparece claramente que a missão dos pais é a de ser expressão do Pai celeste na vida dos filhos. Os pais não são donos dos filhos. Nem podem gerar filhos a seu bel-prazer. Filho é dom de Deus. Não pode ser fruto do querer egoísta dos pais. Não estou dizendo que se deva ter filho a torto e a direito. É preciso planejar a família. Mas o filho deve ser sempre acolhido como dom. Como tal, não pode brotar de mero bel-prazer dos pais. Por isso deve-se acolher com todo carinho o filho que não foi planejado, o filho que nasce doentinho ou com alguma deficiência. É sempre um dom do Pai. Nós somos todos do Pai!

Nem tudo na vida é compreendido perfeitamente por nós. A fé nos coloca dentro do Mistério de Deus. Muitos acontecimentos da vida não têm explicação. Têm significado, ou seja, Deus pode nos revelar algo a partir daqueles acontecimentos. Para isso precisamos acolhê-los no coração: “Eles não compreenderam as palavras que lhes dissera... Sua mãe, porém, conservava no coração todas estas coisas” (Lc 2,50-51). A meditação e contemplação do Mistério de Deus revelado em Jesus, Palavra do Pai, é que nos possibilita compreender o que o Pai quer de nós.

Escrevendo sobre os relatos da Infância de Jesus, exatamente no episódio do evangelho de hoje, o Papa Bento XVI faz um comentário interessante sobre a importância da vida de fé: “As palavras de Jesus não cessam jamais de serem maiores que a nossa razão; superam, sempre de novo, a nossa inteligência. A tentação de reduzir e manipular as palavras de Jesus, para fazê-las entrar na nossa medida, é compreensível; faz parte de uma reta exegese precisamente a humildade de respeitar essa grandeza, que muitas vezes nos supera com as suas exigências, e não reduzir as palavras de Jesus com a pergunta sobre aquilo de que podemos ‘crê-Lo capaz’. Ele considera-nos capazes de grandes coisas. Crer significa submeter-se a essa grandeza e pouco a pouco crescer rumo a ela. Nisso, Maria é apresentada por Lucas deliberadamente como aquela que crê de modo exemplar: “Feliz aquela que acreditou” (Lc 1,45) [A Infância de Jesus, Planeta, p. 105].

Podemos concluir que, para a família caminhar bem, (note que caminhar aqui remete às idas e vindas da Sagrada Família nas estradas da Judéia e da Galiléia) precisa alimentar-se de uma profunda experiência de Deus, de intimidade com o Pai, de busca da Sua vontade. Então poder-se-á tratar de qualquer modelo de organização familiar. O que importa, acima de tudo, é se essa família está buscando fazer a vontade do Pai; se está colocando em sua vida o Pai e seu projeto de vida como prioridade, como absoluto. Então muita coisa na sociedade também poderá melhorar. É um processo lento, de conversão cotidiana, de esperar contra toda esperança. É uma questão de fé.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

E a família, como vai?

aureliano, 28.12.17

sagrada família.jpg

Sagrada Família de Nazaré [31 de dezembro de 2017]

[Lc 2,40-52]

 PALAVRA DE DEUS: FONTE INSPIRADORA DAS FAMÍLIAS

A família não teve, desde sempre, a constituição pai, mãe e filhos, como conhecemos hoje. Os antropólogos dizem que a família se formou devido à necessidade de sobrevivência diante da escassez de alimentos e das ameaças vindas de fora.

Dessa constituição do grupo familiar para autodefesa surgiram as tribos ou clãs: grupos familiares constituídos de pai, mãe, avós, filhos, primos, tios etc. Assim viviam os israelitas. O que os diferenciava de outros clãs era a vida centrada na Palavra de Deus. Seus costumes e posturas eram orientados pelo ensinamento de Deus. Assim se entende Jesus: ele viveu dentro de um clã, e não somente com José e Maria, como pode ocorrer de imaginarmos a partir de nossa compreensão atual.

Fundante na vida de Jesus é que ele ampliou a compreensão de família. “’Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?’ E repassando com o olhar os que estavam sentados ao seu redor, disse: ‘Eis a minha mãe e os meus irmãos. Quem fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe’” (Mc 3,33-35). Família, portanto, não está mais no vínculo do sangue ou de religião. Família se constitui sobre o cumprimento da vontade de Deus que é empenho para que haja “vida em abundância para todos” (Jo 10,10).

Daqui brota uma nova compreensão de família, hoje. Sabemos que as famílias, hoje, vivem outra realidade. Pais e filhos têm pouco contato. O trabalho absorve grande parte do tempo das pessoas. A mulher-mãe não fica mais em casa para cuidar dos filhos (nem o pai). De um modo geral, pela força das circunstâncias, esse ofício foi terceirizado para a babá ou a avó. Os filhos ficam quase o tempo todo na escola ou na rua. Além de outros aspectos como a droga, a violência, a internet ou a televisão que tomam o tempo e desvirtuam as relações porque transmitem outros valores, quase sempre à revelia daqueles que os pais ensinam.

E os idosos? Ou ficam sozinhos ou são deixados nos asilos. Antigamente eles ficavam em casa sob os cuidados de todos que, normalmente, estavam por ali. Além disso, de modo geral, os filhos e netos não querem o trabalho de cuidar dos idosos e doentes. Interessam a muitos a aposentadoria e a herança. Mas a gratuidade do trabalho permanece bem distante da maioria dos casos. É bom lembrar a palavra do Eclesiástico 3,12-14: “Filho, cuida de teu pai na velhice, não o desgostes em vida. Mesmo se a sua inteligência faltar, sê indulgente com ele, não o menosprezes, tu que estás em pleno vigor. Pois uma caridade feita a um pai não será esquecida, e no lugar dos teus pecados ela valerá como reparação”.

Celebrando a Sagrada Família de Nazaré, Jesus, Maria e José, vamos deixar de lado aquela ideia de “família perfeita”. O importante é termos aquele Espírito que animou a Sagrada Família, no cuidado uns para com os outros, no respeito, na doação para que nossas famílias sejam espaço em que todos possam se sentir seguros, acolhidos, respeitados, amados, educados, em condições de desenvolver suas potencialidades. Quanto mais assumirmos a Palavra de Deus como fonte inspiradora de nossas ações e a Eucaristia como alimento cotidiano, mais compreenderemos o modo de constituir família segundo os critérios do Reino de Deus.

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E A FAMÍLIA, COMO VAI?

É muito comum ainda, ouvirmos nos rotineiros cumprimentos, essa pergunta: “E a família, vai bem?” A resposta normalmente é positiva: “Sim. Está tudo bem, com saúde, graças a Deus”. Mesmo que a situação não esteja lá essas coisas, não faz parte do protocolo contar os problemas e dificuldades que ocorrem entre “quatro paredes” para todo aquele que pergunta. Até porque essa pergunta já supõe uma resposta afirmativa. Ou mesmo, alguns fazem essa pergunta para “puxar” assunto.

Mas todos sabemos da profundidade e complexidade que envolve falar sobre família. Hoje sabe-se que família não se resume àquela constituição familiar de 30 ou 40 anos atrás: papai, mamãe, filhinhos. Todos ali, bonitinhos, arranjadinhos, obedientes... Uma estrutura patriarcal em que o macho determinava, por vezes só com o olhar, o que ele queria ou o que deveria ser feito. E mesmo que a família não tivesse esse tipo de comportamento em seu interior, havia uma harmonia interna que não era ameaçada nem influenciada por fatores externos. Havia mesmo uma prevalência “religiosa” sobre os comportamentos de pais e filhos.

Hoje o mundo mudou muito. A sociedade dita as normas econômicas, sociais, relacionais, educacionais, religiosas. Há uma espécie de ditadura de interesses econômicos que impõe aos grupos e pessoas o que eles devem fazer, o que comprar, o que usar, o que comer, como conviver, até mesmo que religião seguir ou como orar etc. E se a gente ousa entrar nos comportamentos afetivo-sexuais vigentes então, a discussão não tem fim.  Hoje precisamos entender um pouco mais a “questão de gênero”. Não adianta fugir ou evitar o assunto, pois ele está na pauta do dia: redes sociais, filmes, músicas e novelas, escola e rua. Isso incide diretamente nas famílias, núcleo constituinte da sociedade. E esta quer sempre impor seus ‘valores’. Isso tudo sem falar nas constituições e organizações familiares que giram em torno de pelo menos nove modalidades, segundo alguns entendidos desse assunto. Há autores que já falam de doze!

Então, o que fazer? É preciso voltar à família de Nazaré. Não vejo outro caminho. Lucas, nesse belíssimo relato de hoje, desvela uma faceta da família de Nazaré que precisa ser contemplada por todos nós. Um episódio que mostra a centralidade do Pai celeste na vida da família de Nazaré. A religião vivida, praticada por José, Maria e Jesus, ajuda a compreender e a aprofundar o projeto salvífico do Pai.

Uma família que observava ‘religiosamente’ a Lei do Senhor: “Iam todos os anos a Jerusalém, para a festa da Páscoa” (Lc 2, 41). Não é a mera observância religiosa que salva. O ritualismo é uma realidade que mata a pessoa e a comunidade. Jesus condenou inúmeras vezes uma prática religiosa desligada da vida. Mas, quando a religião é séria, ética, próxima da Verdade, do Bem e do Belo, ajuda a pessoa e a comunidade a realizar um encontro transformador e realizador com o Criador e Pai. Os pais de Jesus procuravam fazer o que ordenava a Lei. Aliás, Mateus diz que José “era um homem justo” (Mt 1,19). Isto significa que era fiel cumpridor dos Ensinamentos de Deus. Maria, a “cheia de graça”, a “serva do Senhor”, a “bendita entre as mulheres”, ouvinte atenta da Palavra. Essas indicações dos evangelhos nos revelam o caminho que esses pais percorriam para deixar sua marca no coração do filho Jesus. Por isso ele os segue: tendo entrado na idade adulta, doze anos para a cultura judaica, também ele sobe ao Templo.

Na viagem de volta, notam algo estranho: cadê o Menino? Ficara em Jerusalém. É interessante notar o cuidado prestimoso dos pais para com o Menino. Aquele cuidado humano. Aquela responsabilidade paterno-maternal em não desamparar o filho, não perdê-lo de vista. E a lição veio: “Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai” (Lc 2,49). Jesus quis lhes mostrar que o seu “Pai” é do céu. Seu pai terreno, jurídico não podia determinar sua vida. Ele veio para fazer a vontade do Pai do céu. Aqui aparece claramente que a missão dos pais é a de ser expressão do Pai celeste na vida dos filhos. Os pais não são donos dos filhos. Nem podem gerar filhos a seu bel-prazer. Filho é dom de Deus. Não pode ser fruto do querer egoísta dos pais. Não estou dizendo que se deva ter filho a torto e a direito. É preciso planejar a família. Mas o filho deve ser sempre acolhido como dom. Como tal, não pode brotar de mero bel-prazer dos pais. Por isso deve-se acolher com todo carinho o filho que não foi planejado, o filho que nasce doentinho ou com alguma deficiência. É sempre um dom do Pai. Nós somos todos do Pai!

Nem tudo na vida é compreendido perfeitamente por nós. A fé nos coloca dentro do Mistério de Deus. Muitos acontecimentos da vida não têm explicação. Têm significado, ou seja, Deus pode nos revelar algo a partir daqueles acontecimentos. Para isso precisamos acolhê-los no coração: “Eles não compreenderam as palavras que lhes dissera... Sua mãe, porém, conservava no coração todas estas coisas” (Lc 2,50-51). A meditação e contemplação do Mistério de Deus revelado em Jesus, Palavra do Pai, é que nos possibilita compreender o que o Pai quer de nós.

Escrevendo sobre os relatos da Infância de Jesus, exatamente no episódio do evangelho de hoje, o Papa Bento XVI faz um comentário interessante sobre a importância da vida de fé: “As palavras de Jesus não cessam jamais de serem maiores que a nossa razão; superam, sempre de novo, a nossa inteligência. A tentação de reduzir e manipular as palavras de Jesus, para fazê-las entrar na nossa medida, é compreensível; faz parte de uma reta exegese precisamente a humildade de respeitar essa grandeza, que muitas vezes nos supera com as suas exigências, e não reduzir as palavras de Jesus com a pergunta sobre aquilo de que podemos ‘crê-Lo capaz’. Ele considera-nos capazes de grandes coisas. Crer significa submeter-se a essa grandeza e pouco a pouco crescer rumo a ela. Nisso, Maria é apresentada por Lucas deliberadamente como aquela que crê de modo exemplar: “Feliz aquela que acreditou” (Lc 1,45) [A Infância de Jesus, Planeta, p. 105].

Podemos concluir que, para a família caminhar bem, (note que caminhar aqui remete às idas e vindas da Sagrada Família nas estradas da Judéia e da Galiléia) precisa alimentar-se de uma profunda experiência de Deus, de intimidade com o Pai, de busca da Sua vontade. Então poder-se-á tratar de qualquer modelo de organização familiar. O que importa, acima de tudo, é se essa família está buscando fazer a vontade do Pai; se está colocando em sua vida o Pai e seu projeto de vida como prioridade, como absoluto. Então muita coisa na sociedade também poderá melhorar. É um processo lento, de conversão cotidiana, de esperar contra toda esperança. É uma questão de fé.

"Sagrada Família de Nazaré, que nunca mais haja nas famílias episódios de violência, de fechamento e divisão; e quem tiver sido ferido ou escandalizado seja rapidamente consolado e curado" (Amoris Laetitia, 325).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN