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Uma vida que fascina e atrai

aureliano, 12.04.24

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3º Domingo da Páscoa [14 de abril de 2024]

[Lc 24,35-48]

Crer na ressurreição de Jesus não é algo fácil, que acontece de um dia para outro. Quando se diz ‘crer na’, quer-se dizer “entregar-se confiante” a Cristo e assumir uma postura de vida cada vez mais parecida com a de Jesus. Isso é que é ‘ter fé’. Não é crer na narrativa do evangelho como um fato jornalístico, histórico, literário etc. Mas crer que esse acontecimento muda minha história, nossa história. Abre-nos um novo horizonte de vida e de compreensão da realidade. Um acontecimento que, vivido, constrói um mundo mais humano e justo.

A comunidade estava assustada, perdida, sem saber o que fazer. Dois discípulos chegam e começam a contar a experiência que tiveram: “O que tinha acontecido no caminho, e como tinham reconhecido Jesus ao partir o pão”.

O próprio Jesus se manifesta a eles com o dom da paz. Mas ainda pensavam que fosse um fantasma. Porém Jesus continua insistindo, comendo do peixe, mostrando-lhes as mãos e os pés. Ou seja, quer lhes dizer que é ele mesmo, o mesmo que havia caminhado com eles pela Palestina e que tinha sido pregado na cruz.

Somente depois de lhes explicar as Escrituras é que “abriu a inteligência deles” (Lc 24,45). As Escrituras aquecem o coração e iluminam a mente. No caminho de Emaús, Jesus explicava-lhes as Escrituras. Depois disseram: “Não ardia o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?” (Lc 24, 32). A tristeza não lhes fechou o coração, pois havia neles um sincero desejo de seguimento. É importante alimentar o bom desejo no coração: é porta de entrada para Deus.

Não podemos perder de vista aqui a menção ao “caminho”. É um conceito que lembra a itinerância durante a qual o ser humano vai aprendendo a caminhar, a entender o sentido da vida, vai amadurecendo sua experiência de fé. É lugar também de encruzilhadas, de curvas, de tropeços etc. É lugar de riscos, de ameaças, de tentações, de seduções, de decisões. A ‘Resposta’ (que é Jesus) se aproxima, entra na conversa, anima, ilumina a mente e ajuda a enxergar. É preciso estar atento aos ‘sinais’ de Deus no caminho.

Ninguém nasce pronto. Ninguém está acabado, mas faz processo de aprendizado, de discipulado, de experiência de Deus. Por isso os discípulos estavam ainda com medo e perturbados. Ainda estavam a caminho. Estavam na itinerância da fé.

Assim acontece conosco. No princípio nasce um desejo. Depois esse desejo começa a amadurecer na simplicidade e na humildade. E perguntamos com os discípulos: ‘Será verdade um mistério tão grande?’. É algo que está muito acima de nós, é infinitamente maior do que nós. Por isso mesmo nos toma, nos envolve, nos fascina, nos encanta, nos atrai.

Então nos tornamos discípulos missionários. É Jesus que nos faz “testemunhas de tudo isso”. A iniciativa é dele. A resposta é nossa. Se nos deixamos instruir por ele, se nos deixamos perdoar por ele, se nos deixamos converter, a força dele faz de nós discípulos missionários do Reino que ele deixou no meio de nós.

Nossa fraqueza não será mais obstáculo para a ação dele em nós. Ele fará de nós instrumentos de conversão e salvação da humanidade. Nosso povo não quer saber de mestres, de palavras, de ensinamentos vazios, mas de testemunho. É preciso mostrar ao mundo nossa alegria de crer em Jesus, nossa firmeza em seu ensinamento, nossa vida coerente com o que dizemos crer, nosso olhar de misericórdia sobre o pobre e indefeso. O mundo quer e precisa de testemunhas mais do que de mestres. Dizia o Papa São Paulo VI: “Por força deste testemunho sem palavras, estes cristãos fazem aflorar no coração daqueles que os vêem viver, perguntas indeclináveis: Por que é que eles são assim? Por que é que eles vivem daquela maneira? O que é – ou quem é – que os inspira? Por que é que eles estão conosco?  (EN, 21). Nosso modo de viver deve encantar e atrair as pessoas para Cristo.

Nota importante: A expressão “era preciso” do evangelho de hoje e presente em muitos outros textos evangélicos, precisa ser bem entendida. Muitos pensam tratar-se de um destino, uma predeterminação do Pai de que Jesus tinha de morrer violentamente. Um determinismo absoluto como se Deus fosse um masoquista que tem prazer em ver a pessoa sofrer. Isso dá margem a uma ideia errônea de Deus e negaria a liberdade em Jesus. Trata-se de um modo de compreender a história da salvação. Jesus compreende como um apelo à obediência ao plano de Deus ao qual ele quer manter-se fiel até o fim: “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). Essa fidelidade lhe acarretou o sofrimento, a perseguição, a morte.

A essa vontade salvífica de Deus está submetida também a comunidade dos discípulos. Eles também enfrentarão sofrimento e morte por causa da fé comprometida com o Reino inaugurado por Jesus. O que conta aqui é que o Pai é o garante da realização da salvação, por isso não abandona seu Filho na morte, mas o ressuscita. O mesmo faz com todos aqueles que vivem como ele viveu. Isso é ressurreição!

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NOSSAS EUCARISTIAS E SUAS CONSEQUÊNCIAS

Foi no “partir o pão” que eles reconheceram o Senhor. A esse propósito é oportuno recordar uma exortação de São João Crisóstomo a respeito das consequências da Eucaristia na vida do discípulo de Jesus:

“De que serve ornar de vasos de ouro a mesa do Cristo, se ele mesmo morre de fome? Começa por alimentá-lo quando está faminto, e então poderás decorar sua mesa com o supérfluo. Dize-me: se, vendo alguém privado do sustento indispensável, o deixasses em jejum e fosses enfeitar sua mesa com vasos de ouro, achas que ele te seria agradecido? Ou não ficaria indignado? Ou ainda, se vendo-o vestido de andrajos e trêmulo de frio, o deixasses sem roupa para erigir-lhe monumentos de ouro, pretendendo assim honrá-lo, não diria ele que estarias zombando dele com a mais refinada ironia?

Confessa a ti mesmo que ages assim com o Cristo, quando ele é peregrino, estrangeiro e está sem abrigo, e tu, em lugar de recebê-lo, decoras os pavimentos, as paredes e os capitéis das colunas. Suspendes candelabros com correntes de prata, e quando ele está acorrentado, não vais consolá-lo. Não digo isto para reprovar esses ornamentos, mas afirmo que é necessário fazer uma coisa sem omitir a outra; ou melhor, que se deve começar por esta, isto é, por socorrer o pobre”.

Esta exortação do “Boca de Ouro” do século IV em Antioquia/Constantinopla deveria retumbar naquelas realidades de nossas comunidades que promovem leilões, bingos, festas, quermesses e dízimo em função preponderantemente de construções, obras e reformas, ou mesmo para ornamentos e materiais litúrgicos de preços exorbitantes, reservando-se, por vezes, uma migalha para ações sociais e missionárias. A postura e as homilias de Crisóstomo deveriam ser retomadas em nossas paróquias e comunidades!

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

Missão a partir de Jesus

aureliano, 05.02.22

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5º Domingo do Tempo Comum [06 de fevereiro de 2022]

[Lc 5,1-11]

Nos últimos dois domingos rezamos e refletimos a pessoa de Jesus, o Ungido do Pai, enviado para evangelizar os pobres. Enfrenta rejeição em sua própria terra e entre seus parentes e familiares. “O profeta só não é bem aceito em sua própria terra”.  O ungido de Deus para evangelizar os pobres é desprezado e perseguido na sua missão entre os seus.

No relato deste domingo, Lucas coloca Jesus em outra terra: às margens do lago de Genezaré. Aqui é ouvido por uma multidão que se aperta ao seu redor. Um detalhe interessante que não pode passar despercebido: as pessoas estavam ali “para ouvir a palavra de Deus”. Ao passo que, na sinagoga de Nazaré, o pessoal estava à cata de milagres: “Faze em tua terra o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum”. – Uma pergunta desconcertante: “Você frequenta a igreja para ouvir a Palavra de Deus ou para receber milagres?”

No relato de hoje aparecem duas cenas: o anúncio da palavra de Deus às multidões e a pesca milagrosa. Dois acontecimentos que iluminam a caminhada e a missão da Igreja. A Palavra de Deus ilumina, aquece, inspira, fortalece, abre caminhos. Por isso Simão Pedro dirá: “Mestre, nós trabalhamos a noite inteira e nada pescamos. Mas, em atenção à tua palavra, vou lançar as redes”.

O trabalho sem a presença de Deus, sem a iluminação de sua Palavra, é inútil. Já rezava o salmista: “A salvação dos justos vem do Senhor, sua fortaleza no tempo da angústia. O Senhor os ajuda e liberta, ele vai libertá-los dos ímpios e salvá-los, porque neles se abrigaram” ”(Sl 37,39-40). E ainda: “Nosso refúgio e rocha firme é o Senhor” (Sl 62,8). E em outro lugar: “Se o Senhor não construir nossa cidade, em vão trabalharão os construtores” (Sl 127,1). Por isso Pedro e os demais pescadores, ainda que peritos no mar e na pesca, não conseguiram nada. – Outra pergunta: “Que lugar ocupa a Palavra de Deus na sua vida? Tem prioridade sobre trabalho, lazer e Redes Sociais?”

Esse relato quer mostrar à Igreja iniciante, representada na Barca de Simão, que a autossuficiência era a causa de prováveis desânimos na comunidade. Certamente a Palavra de Jesus, a confiança nele, a convicção de que os êxitos devem ser atribuídos a ele estavam meio distantes do horizonte da comunidade. O que os levava a voltar desanimados da “pesca”. A autossuficiência é uma praga que acaba com a comunidade, com a família, com a pessoa. Todo aquele que julga bastar-se a si mesmo, acha que não precisa de mais nada nem de ninguém, que tem todo conhecimento e dinheiro para sobreviver, que não aceita opinião nem sugestão de ninguém, está cavando seu próprio inferno e sendo um inferno para sua família e comunidade.

A abertura de Pedro, velho e experimentado pescador, em acolher a palavra de um “carpinteiro”, questiona nossos fechamentos e cabeça dura diante do novo que nos interpela. Uma mudança de época exige novos métodos de evangelização. Se as pessoas estão se afastando do evangelho, ou mesmo usando o evangelho para justificar suas falcatruas, é sinal de que precisamos rever nossa maneira de evangelizar. A “pesca” precisa ser diferente. A presença de Jesus deve ser mais concreta, real. Ele precisa “estar na barca”. A confiança nele precisa ser redobrada. O trabalho precisa ser feito em nome dele e para ele: “Em atenção à tua palavra vou lançar as redes”. Parece ser urgente retomar o lema de Carlos de Foucauld: “Gritar o evangelho com a vida”.

São Paulo VI, em 1975, ensinava: “E antes de mais nada, sem querermos estar a repetir tudo aquilo já recordado anteriormente, é conveniente realçar isto; para a Igreja, o testemunho de uma vida autenticamente cristã, entregue nas mãos de Deus, numa comunhão que nada deverá interromper, e dedicada ao próximo com um zelo sem limites, é o primeiro meio de evangelização. ‘O homem contemporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres, dizíamos ainda recentemente a um grupo de leigos, ou então se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas’. São Pedro exprimia isto mesmo muito bem, quando evocava o espetáculo de uma vida pura e respeitável, ‘para que, se alguns não obedecem à Palavra, venham a ser conquistados sem palavras, pelo procedimento’. Será pois, pelo seu comportamento, pela sua vida, que a Igreja há de, antes de mais nada, evangelizar este mundo; ou seja, pelo seu testemunho vivido com fidelidade ao Senhor Jesus, testemunho de pobreza, de desapego e de liberdade frente aos poderes deste mundo; numa palavra, testemunho de santidade” (Evangelii Nuntiandi, 41).

Diante do milagre operado pela palavra do “filho do carpinteiro”, Pedro se lança aos pés de Jesus e se reconhece frágil, pecador: “Senhor, afasta-te de mim porque sou um pecador”. Notem a atitude de Jesus: diante do pedido de Pedro para que Jesus se afaste, este se aproxima ainda mais: “Não tenhas medo! De hoje em diante tu serás pescador de homens”. Essa atitude de Jesus revela a bondade e a misericórdia do Pai. O Deus de Jesus não é o Deus terrível que espanta, que amedronta, que se mantém distante. Ele está perto e diz: “Não tenhas medo!”. E ainda lhe dá uma missão. Jesus quer que aqueles discípulos sejam continuadores de sua missão no mundo. É a missão da Igreja. Perdoar o pecado. Expulsar o fantasma do medo. Ajudar a pessoas a viverem com alegria, encanto e dignidade.

As “águas profundas” por vezes espantam. É preciso ser forte e confiante para entrar em ambientes e situações desconhecidas, ameaçadoras. Mas os “peixes” estão lá. A gente muitas vezes prefere ficar com aquelas mesmas pessoas de sempre, que frequentam nossa capela/comunidade. Residem no bairro ou córrego duas mil pessoas. Mas nos contentamos com as oitenta que frequentam nossa comunidade. Ao passo que Jesus diz: “Avancem para águas mais profundas”. Além disso, o Papa Francisco nos convida a irmos às “periferias existenciais”. Ou seja, há realidades difíceis, terríveis, destruidoras de vida, dolorosas que precisam da presença missionária: “águas profundas...”.

A atitude dos primeiros discípulos de Jesus nos convida a rever nossos apegos. “Levaram as barcas para a margem, deixaram tudo e seguiram a Jesus”. Quais são os apegos que não nos deixam avançar? A Sagrada Escritura diz: “Não seja o vosso proceder inspirado pelo amor ao dinheiro” (Hb 13,5). E em outro lugar: “Quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; mas quem perde sua vida por causa de mim, vai salvá-la” (Lc 9,24). Como está o nosso seguimento a Jesus? Que coisas precisamos abandonar?

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Pedro, a rocha; Paulo, a missão

aureliano, 02.07.21

São Pedro e São Paulo - 04 de julho.jpg

Solenidade de São Pedro e São Paulo [04 de julho de 2021]

[Mt 16,13-19]

Hoje se celebram na Igreja duas vocações distintas e complementares: Pedro governa as responsabilidades da evangelização. Alguns o identificam com o fundamento institucional da Igreja. Jesus lhe dá o nome de Pedro que significa “pedra”, “rocha”. Sobre sua profissão de fé a comunidade é edificada. Cefas, Kepha significa gruta escavada na rocha. Nessa gruta os pobres ou os animais se escondem e/ou moram. Aí é o lugar do cuidado, da proteção, da geração da vida. A Igreja torna-se, pois, o lugar privilegiado do cuidado da vida. É a caverna rochosa onde os pequeninos do Reino encontram abrigo e cuidado.

Pedro recebe o “poder das chaves”, isto é, o serviço de administrador da comunidade. Recebe também o poder de “ligar e desligar”, isto é, o poder da decisão, da responsabilidade pastoral para orientar os fiéis no caminho de Cristo. Esse ministério é confirmado por outros textos: “Confirma os teus irmãos” (Lc 22, 31). “Apascenta os meus cordeiros” (Jo 21, 15). É a intenção clara de Jesus em prover o futuro da Igreja.

Paulo é o fundador carismático da Igreja. Aquele que se preocupa com a ação missionária da Igreja. Tem a preocupação de anunciar além-mar. Por isso é cognominado “Apóstolo das Gentes”. Representa a criatividade missionária. Vai para além do institucionalizado. Rompe com normas e leis que prendem o evangelho: Verbum Dei non est alligatum – “A palavra de Deus não está algemada” (2 Tm 2,9).

A complementaridade desses dois carismas fundadores da Igreja continua atual: a responsabilidade institucional e a criatividade missionária. Alguém deve responder pela instituição, pois esta dá suporte ao missionário. Por outro lado, alguém tem que “pisar no acelerador” da missão, sem se prender muito, para que a missão não fique refém de normas rígidas e anacrônicas. O novo desafia o institucionalizado e o atualiza. A tensão entre ambos é que mantém acesa a chama da missão.

Nesse “Dia do Papa” seria bom reaquecermos nossa veneração e acolhida à pessoa e à palavra do Papa, sucessor de Pedro. Ele é o sinal da unidade e da caridade da Igreja. Com os limites que são próprios ao ser humano, ele continua sendo o sucessor de Pedro, o Bispo de Roma, reconhecido pela Igreja, desde a antiguidade, como aquele que “preside a assembléia universal da caridade” (Santo Inácio de Antioquia , século II).

O que importa nessas considerações é sermos pessoas que, como Pedro e Paulo, tenham a coragem de doar a vida pela causa do Reino de Deus. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas. Eles se doaram até ao sangue.  E nós? Onde estamos na doação, na entrega, na missão? Como zelamos pela nossa Igreja? Como anda nossa identidade cristã e católica frente às afrontas e desrespeito ao evangelho, à vida e à Igreja? Até que ponto sou comprometido com minha comunidade eclesial?

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Pedro e Paulo: coragem e fidelidade batismal

São Pedro e São Paulo coroam o mês de junho e as festas juninas. É interessante notar que não se trata somente de festas populares, mas há uma espiritualidade subjacente a esses momentos dentro de nossas comunidades. A alegria, o encontro, a dança, as manifestações da piedade popular, as celebrações... Claro que, em grande medida, as festas são mais pagãs do que cristãs. Muitos se valem destas festividades para lucrar muito dinheiro e garantir “curral eleitoral”. Outros se entregam à bebida e às drogas, desvirtuando o clima de alegria, confraternização e celebração da comunidade. Mas não podemos deixar morrer o sentido original e cultural destas festividades. Ainda mais: deve ficar a mensagem de que os santos mais populares deste mês: Santo Antônio, São João e São Pedro, são homens que viveram para Deus e testemunharam com sua vida a fé que professaram em Jesus Cristo.

Hoje, ao celebrarmos São Pedro e São Paulo, solenizamos as duas colunas da Igreja. "Pedro, o primeiro a proclamar a fé, fundou a Igreja primitiva sobre a herança de Israel. Paulo, mestre e doutor das nações, anunciou-lhes o Evangelho da Salvação. Por diferentes meios, os dois congregaram à única família de Cristo e, unidos pela coroa do martírio, recebem, por toda a terra, igual veneração" (Prefácio da missa). Pedro representa a Igreja institucional, é a "Pedra" que recebe a incumbência de "confirmar os irmãos", enquanto Paulo representa o carisma missionário, atravessa mares e desertos para anunciar a Boa Nova do Reino, formando novas comunidades cristãs.

A profissão de fé de Pedro é a base da comunidade cristã: "Tu és o Cristo, o filho de Deus vivo". É nessa fé que a Igreja se firma e caminha. É o Espírito que sustenta a caminhada da Igreja. Ela não se instituiu sobre "carne e sangue", mas no Amor gratuito do Pai revelado na entrega livre do Filho pela salvação da humanidade (cf. Jo 10,18).

As "chaves do Reino" que são confiadas a Pedro devem sempre abrir as cadeias e algemas daqueles que estão dominados pelo mal. Quanta gente presa nas amarras da mentira, da ambição, da corrupção, do ódio, do preconceito, do medo, da enganação! Nosso mundo precisa, cada vez mais,  das "chaves do Reino" para abrir-se a mais partilha, mais sentido de vida, mais perdão, mais fraternidade, mais respeito, mais equidade e compreensão.

Quando lançamos um olhar de fé sobre esses dois homens cuja solenidade celebramos hoje, percebemos quão distantes ainda estamos da vivência de uma fé autêntica, corajosa, testemunhal!

Pedro foi encarcerado por causa da fé! Levou às últimas consequências sua profissão de fé: "Tu és o Cristo". Paulo também foi preso, ameaçado e perseguido pelos de dentro e pelos de fora. Mas levou até ao fim sua missão: "Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. (...) O Senhor me assistiu e me revestiu de forças, a fim de que por mim a mensagem fosse plenamente proclamada e ouvida por todas as nações" (2Tm 4, 6-7.17).

Até que ponto damos conta de sustentar nossa fidelidade ao Evangelho, levando às últimas consequências nosso batismo? Quais são as ilusões ou dificuldades que nos fazem desanimar, abandonar a missão, a comunidade? O que constitui o "conteúdo" de nossa vida: Jesus Cristo ou as vaidades e posses da sociedade capitalista e consumista? O que preciso deixar e o que preciso abraçar com mais vigor para ser verdadeiro discípulo como Pedro e Paulo?

Nesse dia a Igreja nos pede orações pelo Papa. Ele é o sucessor de Pedro. É ele que “preside a assembleia universal da caridade” (Santo Inácio de Antioquia) e é o sinal visível da unidade da Igreja. Peçamos ao Senhor que lhe dê muita luz para conduzir a Igreja pelos caminhos de Jesus. E lhe dê muita força e coragem para enfrentar os obstáculos e as resistências que essa sociedade e as situações difíceis que os "de dentro" lhe oferecem. E que tenha a sabedoria necessária para ajudar a Igreja a se abrir ao diálogo com o novo que surge a cada dia na fidelidade a Jesus e à sua missão.

O Papa Francisco tem surpreendido o mundo com seus gestos de simplicidade, de humildade, de acolhida, de uma palavra profética. Precisamos prestar mais atenção a seus ensinamentos. Ele nos aponta o verdadeiro caminho pelo qual a Igreja deve passar. Ele pede uma Igreja em saída para as periferias geográficas e existenciais. Uma presença e defesa dos mais pobres. “Prefiro uma Igreja acidentada, a uma Igreja doente por fechar-se”.

“A defesa do inocente nascituro, por exemplo, deve ser clara, firme e apaixonada, porque nesse caso está em jogo a dignidade da vida humana, sempre sagrada, e exige-o o amor por toda a pessoa, independentemente do seu desenvolvimento. Mas igualmente sagrada é a vida dos pobres que já nasceram e se debatem na miséria, no abandona, na exclusão, no tráfico de pessoas, na eutanásia encoberta de doentes e idosos privados de cuidados, nas novas formas de escravatura, e em todas as formas de descarte. Não podemos propor-nos um ideal de santidade que ignore a injustiça deste mundo, onde alguns festejam, gastam folgadamente e reduzem a sua vida às novidades do consumo, ao mesmo tempo que outros se limitam a olhar de fora enquanto a sua vida passa e termina miseravelmente” (Gaudete et Exsultate, 101).

 Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Viver como ressuscitados

aureliano, 17.04.21

3º Domingo da Páscoa - A - 26 de abril.jpg

3º Domingo da Páscoa [18 de abril de 2021]

[Lc 24,35-48]

Crer na ressurreição de Jesus não é algo fácil, que acontece de um dia para outro. Quando falo de ‘crer na’, quero dizer entregar-se confiante a Cristo e assumir uma postura de vida cada vez mais parecida com a de Jesus. Isso é que é ‘ter fé’. Não é crer na narrativa do evangelho como um fato jornalístico, histórico, literário etc. Mas crer que esse acontecimento muda minha história, nossa história. Abre-nos um novo horizonte de vida e de compreensão da realidade. Um acontecimento que, vivido, constrói um mundo mais humano e justo.

A comunidade estava assustada, perdida, sem saber o que fazer. Dois discípulos chegam e começam a contar a experiência que tiveram: “O que tinha acontecido no caminho, e como tinham reconhecido Jesus ao partir o pão”.

O próprio Jesus se manifesta a eles com o dom da paz. Mas ainda pensavam que fosse um fantasma. Porém Jesus continua insistindo, comendo do peixe, mostrando-lhes as mãos e os pés. Ou seja, quer lhes dizer que é ele mesmo, o mesmo que havia caminhado com eles pela Palestina e que tinha sido pregado na cruz.

Somente depois de lhes explicar as Escrituras é que “abriu a inteligência deles” (Lc 24,45). As Escrituras aquecem o coração e iluminam a mente. No caminho de Emaús, Jesus explicava-lhes as Escrituras. Depois disseram: “Não ardia o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?” (Lc 24, 32). A tristeza não lhes fechou o coração, pois havia neles um sincero desejo de seguimento. É importante alimentar o bom desejo no coração: é porta de entrada para Deus.

Não podemos perder de vista aqui a menção ao “caminho”. É um conceito que lembra a itinerância durante a qual o ser humano vai aprendendo a caminhar, a entender o sentido da vida, vai amadurecendo sua experiência de fé. É lugar também de encruzilhadas, de curvas, de tropeços etc. É lugar de riscos, de ameaças, de tentações, de seduções, de decisões. A ‘Resposta’ (Jesus) se aproxima, entra na conversa, anima, ilumina a mente e ajuda a enxergar. É preciso estar atento aos ‘sinais’ de Deus no caminho.

Ninguém nasce pronto. Ninguém está acabado, mas faz processo de aprendizado, de discipulado, de experiência de Deus. Por isso os discípulos estavam ainda com medo e perturbados. Ainda estavam a caminho. Estavam na itinerância da fé.

Assim acontece conosco. No princípio nasce um desejo. Depois esse desejo começa a amadurecer na simplicidade e na humildade. E perguntamos com os discípulos: ‘Será verdade um mistério tão grande?’. É algo que está muito acima de nós, é muito maior do que nós. Por isso mesmo nos toma, nos envolve, nos fascina, nos encanta, nos atrai.

Então nos tornamos discípulos missionários. É Jesus que nos faz “testemunhas de tudo isso”. A iniciativa é dele. A resposta é nossa. Se nos deixamos instruir por ele, se nos deixamos perdoar por ele, se nos deixamos converter, a força dele nos faz seus discípulos missionários.

Nossa fraqueza não será mais obstáculo para a ação dele em nós. Ele fará de nós instrumentos de conversão e salvação da humanidade. Nosso povo não quer saber de mestres, de palavras, de ensinamentos vazios, mas de testemunho. É preciso mostrar ao mundo nossa alegria de crer em Jesus, nossa firmeza em seu ensinamento, nossa vida coerente com o que dizemos crer, nosso olhar de misericórdia sobre o pobre e indefeso. O mundo quer e precisa de testemunhas mais do que de mestres. Dizia o Papa São Paulo VI: “Por força deste testemunho sem palavras, estes cristãos fazem aflorar no coração daqueles que os vêem viver, perguntas indeclináveis: Por que é que eles são assim? Por que é que eles vivem daquela maneira? O que é – ou quem é – que os inspira? Por que é que eles estão conosco?  (EN, 21).

Nota importante: A expressão “era preciso” do evangelho de hoje e presente em muitos outros textos evangélicos, precisa ser bem entendida. Muitos pensam tratar-se de um destino, uma predeterminação do Pai de que Jesus tinha de morrer violentamente. Um determinismo absoluto como se Deus fosse um sado-masoquista que tem prazer em ver a pessoa sofrer. Isso dá margem a uma ideia errônea de Deus e negaria a liberdade em Jesus. Trata-se de um modo de compreender a história da salvação. Jesus compreende como um apelo à obediência ao plano de Deus ao qual ele quer manter-se fiel até o fim: “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). Essa fidelidade lhe acarretou o sofrimento, a perseguição, a morte.

A essa vontade salvífica de Deus está submetida também a comunidade dos discípulos. Eles também enfrentarão sofrimento e morte por causa da fé comprometida com o Reino inaugurado por Jesus. O que conta aqui é que o Pai é o garante da realização da salvação, por isso não abandona seu Filho na morte, mas o ressuscita. O mesmo faz com todos aqueles que vivem como ele viveu. Isso é ressurreição!

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Que significa “tomar a cruz”?

aureliano, 29.08.20

22º Domingo do TC - A - 30 de agosto.jpg

22º Domingo do Tempo Comum [30 de agosto de 2020]

[Mt 16,21-27]

Estamos no capítulo 16 de Mateus, exatamente no momento posterior à profissão de fé de Pedro: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Se antes era “bem-aventurado” (“Bem-aventurado és tu, Simão, filho de Jonas...”), agora Pedro é cognominado de “satanás”: “Afasta-te de mim, Satanás! Tu me serves de pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas as dos homens” (Mt 16,23). Essa contradição no texto de Mateus sugere algumas possíveis interpretações: revela que Pedro proclamava o Messias Salvador pela força do Espírito, sem compreender ainda o que dizia; também pode ser algo revelador da fragilidade de Pedro, que não conseguiu manter-se firme diante da cruz; pode ainda expressar uma exaltação da instituição eclesial pela comunidade, tardiamente; segundo alguns autores, parece demonstrar a dificuldade que a Igreja tinha, representada na pessoa de Pedro, em assumir a cruz, a perseguição por causa do Evangelho.

Bem. Para além das questões exegéticas, muito embora importantes para fiel interpretação do texto, queremos que o relato que proclamamos hoje seja uma luz para nossa vida cristã. E um fato, sem dúvida, norteador do episódio de hoje é a cruz.

A cruz era o instrumento de suplício que os romanos aplicavam aos revoltosos contra o regime imperial. Era o pior castigo que uma pessoa podia receber: afixados à cruz, nus, à beira do caminho para que todos pudessem ver e se intimidar, deixados por lá até à morte. Muitos eram devorados pelas aves de rapina. A crucifixão, segundo o historiador Flávio Josefo, era um horror.

Quando Jesus fala da cruz como projeto de vida, ele não quer dizer com isso que gosta de ver seu discípulo sofrer; muito menos que ele mesmo quer sofrer. Seria uma insanidade! Jesus não é sado-masoquista, nem paranoia. Quer apenas dizer que o projeto do Pai que ele veio anunciar e realizar não visa ao sucesso, à realização pessoal apenas, mas implica rejeição, perseguição, dor e morte produzidas pela ganância de poder e de ter que pervade a sociedade. Em outras palavras, o seguimento de Jesus implica cruz por ser um projeto de vida num mundo imbuído de um projeto de morte. “Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la, mas quem perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la”. Deus não quer ‘sacrificar’ as pessoas (isso já o faz a sociedade idolátrica), mas quer testemunhas de seu projeto: mostrar que Deus ama a humanidade e quer que todos vivam esse amor.

Por vezes confundimos a cruz com qualquer desgraça que acontece na vida ou mal-estar produzido pelo nosso próprio pecado. Jesus não está falando desse tipo de sofrimento. Tomar a cruz aqui significa assumir nossa profissão de fé, encarnar na vida as palavras e atitudes de Jesus. Seria um erro confessar a Jesus “Filho do Deus vivo” e negá-lo na vida cotidiana.

Tomar a cruz é assumir a atitude cristã de doar-se, de deixar-se seduzir pelo amor de Jesus (cf. Jr 20,7), assumindo uma atitude de combate ao consumismo, à ambição, à destruição da mãe Terra, à violência contra as crianças, adolescentes e jovens, à violência e desrespeito às mulheres, ao desprezo e desrespeito para com os idosos.

Tomar a cruz é assumir na própria vida os sentimentos de Jesus. Olhar as pessoas com o olhar de Jesus, acolhendo as diferenças, aceitando com serenidade as críticas, enfrentando e vencendo os preconceitos, tendo coragem de andar na contramão da história por causa de Jesus. É estar atento àqueles que passam por dificuldades e colocar-se ao lado deles. “Ele (Jesus) sempre se mostrou cheio de misericórdia pelos pequenos e pobres, pelos doentes e pecadores, colocando-se ao lado dos perseguidos e marginalizados” (Prefácio da Oração Eucarística VI - D).

Tomar a cruz é assumir posturas e projetos que defendem a vida contra os projetos de morte. É renovar nossa maneira de ver e de julgar; renovar nossa mentalidade, deixando de pensar e de viver a lógica do mundo enquanto é injusto, ganancioso, mentiroso, perverso e enganador, para fazer a vontade de Deus (cf. Rm 12,2).

Assumir a cruz de cada dia é o nosso culto espiritual (cf. Rm 12,1). Numa nova mentalidade, pensar como Deus e não como os homens (Mt 16,23).     Isso é tarefa para todos os dias da vida!

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

A missão de Jesus é nossa missão

aureliano, 22.05.20

Ascensção do Senhor - A - 24 de maio.jpg

Ascensão do Senhor [24 de maio de 2020]

[Mt 28,16-20]

Este relato do evangelho de Mateus aparece após a cena do túmulo vazio, as aparições às mulheres e a corrupção dos soldados que vigiavam o sepulcro de Jesus. A cena se situa na Galiléia dos gentios, fato de per si suficiente para apontar o caráter do mandato missionário de Jesus com dimensões universais.

Quarenta dias depois da Páscoa a Igreja celebra a Ascensão do Senhor. O relato de Mateus e o relato de Lucas (At 1, 1-11), referindo o mesmo acontecimento em locais diferentes – Galiléia dos gentios e Jerusalém – querem mostrar uma realidade que está muito além de uma aparição de Jesus e sua subida aos céus à vista dos discípulos. O sentido mesmo destes textos é expressar o que proclamamos ao longo dos séculos em nossa fé: “Está sentado à direita do Pai”. Em outras palavras, Jesus ressuscitado não veio retomar as suas atividades de antes, nem para implantar um reino político como alguns discípulos esperavam. Ele assume a vida na glória e entrega a missão aos seus discípulos, a nós: “Sede minhas testemunhas... até aos confins da terra” (At 1,8). Portanto, não se trata de uma despedida, mas de um novo modo de presença. Ele continua sendo o Emanuel, o Deus conosco, de modo novo.

Retorno à Galileia. Lugar onde Jesus iniciou seu ministério (Mt 4, 17). Regressar aí é retomar o começo para uma nova caminhada vocacional e missionária. Os discípulos missionários entenderam que o Ressuscitado é o mesmo que os chamou na beira do mar da Galiléia.

A montanha. Lugar de encontro com Deus. Crescer e aprofundar com Deus e em Deus a missão confiada por Jesus que o discípulo agora deve assumir. A partir do encontro com Deus o discípulo missionário se restabelece e continua animado pela força do alto: o Espírito Santo.

A primeira tarefa não é fazer alguma coisa, mas encontrar-se com o Ressuscitado. Missão não é convocação para realizar determinadas atividades, mas é, acima de tudo, fruto de uma experiência com o Ressuscitado. O conteúdo da missão brota da experiência com Ele. Daí a importância de não nos preocuparmos tanto com o resultado, com o “fazer” coisas, mas de nos deixarmos encharcar por Deus neste encontro com Jesus, para que outros experimentem essa ação divina em nós.

Ao prostrarem-se diante de Jesus os discípulos expressaram com esse gesto sua fé na pessoa de Jesus ressuscitado. Pois foram acometidos pela dúvida que revela a fraqueza deles diante das dificuldades da missão na comunidade. Sabemos, porém, que eles não se deixaram abater pela dúvida, isto é, pelas dificuldades, pois a história os mostra como verdadeiras testemunhas do Ressuscitado.

A autoridade conferida por Jesus aos discípulos é de serviço ao Reino e nunca em beneficio próprio. São servidores do Reino e participantes da mesma missão de Jesus. É bom trazer à memória o relato do Lava-pés. Aí Jesus se desveste do manto da autoridade e se reveste da toalha do serviço, lavando os pés dos discípulos: “Dei-vos o exemplo para que, assim como eu vos fiz, também vós o façais” (Jo 13,15). Autoridade, na dinâmica de Jesus, se dá no serviço fraterno aos pequeninos do Reino.

A missão de Jesus não conhece fronteiras. É serviço a todas as nações. E o principal objetivo da missão é promover a adesão à pessoa de Jesus. Não se trata de marketing da fé. É ser testemunha do Ressuscitado. Nem se trata tampouco de uma adesão etérea, desencarnada, mas de comprometimento com a causa de Jesus: “para que todos tenham vida plenamente” (Jo, 10,10).

Jesus está com os discípulos. É Deus morando no meio de nós. Jesus ressuscitado é uma presença viva e não mero personagem do passado.

Batizar é “mergulhar” a pessoa na dinâmica do evangelho e introduzi-la na comunidade dos seguidores de Jesus, a Igreja. Ao enviar seus discípulos para “fazer discípulos” mediante o batismo, Jesus manifesta seu desejo de ampliar a comunidade daqueles que acolhem sua mensagem e assumem o projeto do Reino.

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SURSUM CORDA! (CORAÇÕES AO ALTO)

As leituras da Festa de hoje convidam a deixarmos de olhar para cima. Ou seja, não ficarmos desligados da realidade. O olhar deve se voltar para a realidade na qual pisamos e o coração deve estar “no alto”, em Deus. Um ‘espiritualismo mundano’ de que fala o Papa Francisco pode nos alienar, bem como um olhar materialista e consumista para a vida nos afasta dos caminhos de Deus. O Senhor, na celebração de hoje, nos convida a ter o coração no alto e os pés no chão.

O que estamos assistindo em nosso País é um verdadeiro terror contra os direitos adquiridos, contra a democracia, contra as conquistas sociais dos mais pobres. As fraudes, as propinas, as mentiras, as extorsões, as negociatas a portas fechadas, os salários exorbitantes de juízes, deputados e senadores, os gastos públicos para manutenção dos privilégios, as obras e aquisições superfaturadas pelo Estado em tempos de calamidade pública devido à pandemia do covid-19, a insensibilidade por parte de governantes diante da morte de milhares de pessoas vítimas do covid-19, são alguns exemplos da desordem instalada em nosso País, geradora de fome e de miséria na mesa dos pobres. Executivo, Legislativo e Judiciário brasileiros, ressalvadas raríssimas exceções, visam somente ao próprio bolso. O excesso de dinheiro gasto nesses desmandos seria mais do que suficiente para sanar as necessidades básicas das famílias assoladas pela miséria e pela fome. O coração desses mandatários desordenados está no dinheiro e não “no alto”.

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Celebramos, neste domingo, o Dia Mundial das Comunicações Sociais. É oportuno refletir sobre o uso que fazemos desses meios para evangelizar e para nos formarmos e nos informarmos também. Como os utilizamos? Que canais buscamos? A que assistimos? Que sites acessamos? Como formamos nossos filhos para o uso da TV e da internet? As mídias estão aí! É preciso valorizá-las nos aspectos que ajudam, e ter discernimento no uso para não prejudicar os valores evangélicos já tão escassos em nosso meio.

O Papa Francisco, na mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, discorreu sobre a beleza e importância do discurso narrativo, muito presente nas Sagradas Escrituras. Desenvolver a arte de narrar histórias bonitas, edificantes: “Numa época em que se revela cada vez mais sofisticada a falsificação, atingindo níveis exponenciais (o deepfake), precisamos de sapiência para patrocinar e criar narrações belas, verdadeiras e boas. Necessitamos de coragem para rejeitar as falsas e depravadas. Precisamos de paciência e discernimento para descobrir histórias que nos ajudem a não perder o fio, no meio das inúmeras lacerações de hoje; histórias que tragam à luz a verdade daquilo que somos, mesmo na heroicidade oculta do dia a dia” (Papa Francisco na Mensagem para o 54º Dia Mundial das Comunicações Sociais).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Testemunhas do Cordeiro

aureliano, 18.01.20

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2º Domingo do Tempo Comum [19 de janeiro de 2020]

[Jo 1,29-34]

Vi o Espírito descer...; aquele sobre quem vires...; e eu vi e dou testemunho...” Essas expressões no relato do evangelho deste domingo nos remetem ao nosso ver e dar testemunho. João Batista não tem dúvida acerca de Jesus: “Ele é o Filho de Deus”.

Antes de tudo é preciso que o discípulo reconheça em Jesus o Cordeiro de Deus, o Servo do Senhor (em aramaico, cordeiro e servo correspondem à mesma palavra: talya), o Filho de Deus que “tira o pecado do mundo”. Sem esse reconhecimento de que Jesus, realização definitiva da Páscoa judaica, é aquele que se oferece ao Pai para salvar e libertar o mundo, não é possível fazer o caminho cristão. Não é possível fazer chegar a salvação “até os confins da terra”.

É preciso guardar também o ver de João Batista. Ele viu e deu testemunho. Vemos Jesus na comunidade, naqueles que vivem de acordo com o querer de Deus. A comunidade deve ser expressão do Cordeiro: deve estar disposta a enfrentar a morte para libertar aqueles que estão na escravidão dos “ídolos do poder, do ter e do prazer”. A comunidade cristã precisa viver de maneira tal que possa dizer àqueles que a buscam: “Vinde ver”.

Ser servo para levar, como Jesus, a salvação até os confins da terra. Ser apóstolo na busca de um caminho de santidade: “chamados a ser santos”, isto é, “ser todo de Deus” para ser todo dos irmãos.

Fomos batizados no Espírito Santo para que, assim como Jesus, o Cordeiro de Deus, libertemos o mundo do mal. Chamados a participar da mesma missão do Servo e Cordeiro: dar a nossa vida para que o pecado seja derrotado. Ser mártir é o mesmo que dar testemunho. O caminho da santidade passa pela coragem de dar a vida (cordeiro) para que muitas vidas sejam salvas. Isso é ser cristão, seguidor de Jesus, continuador de sua obra.

A Eucaristia que celebramos encontra seu sentido quando repercute em nossa vida cotidiana: o corpo do “Cordeiro que tira o pecado do mundo” que comungamos deve nos tornar pessoas eucaristizadas, capazes de empenhar nossa vida para, com ele, participarmos na libertação do pecado que se manifesta na opressão, na escravidão, na humilhação, na exclusão, na ganância, na inveja, na exploração, na busca do poder a qualquer custo, na preguiça e comodismo, na falta de responsabilidade, no abandono e desrespeito aos idosos e crianças etc. Esta é nossa vocação à santidade.

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A REALIDADE DO PECADO

O pecado é um ataque ao Criador, ao ser humano e ao cosmo. É uma tentativa de descriação, de destruir o mundo criado por Deus. É a busca de alterar o outro e desrespeitá-lo na sua dignidade. E é uma vontade de voltar ao estado, dito pela psicanálise, de indiferenciação: estado fusional com a mãe que traz conforto, despreocupação, irresponsabilidade. Por isso o pecado leva à morte. Ele é destruidor da vida. E Jesus veio “para que todos tenham vida”. Veio “tirar o pecado do mundo”.

No evangelho de hoje escutamos João Batista dizer: “Aquele que tira o pecado do mundo”. Então Jesus não só perdoa, mas tira o pecado. Parece significar que o pecado deve ser arrancado do mundo, não somente perdoado. Crer em Jesus significa também empenhar nossas forças para que o mal, o pecado, a injustiça, a iniquidade sejam arrancados do mundo.

Mas o que é mesmo o pecado? Uma realidade que afeta o mais profundo do ser humano e o desumaniza. Quase sempre definimos pecado como uma “ofensa” a Deus. Na verdade o pecado é a recusa em aceitar a Deus como Pai e, consequentemente, em ferir a fraternidade que o Pai tanto deseja de todos nós. É o nosso fechamento ao amor de Deus. O pecado é o egoísmo que nos faz pensar somente em nós mesmos, nos nossos interesses, em nosso bem-estar em detrimento dos outros. É autocentramento.

Pe. Antônio Pagola dá uma definição que ajuda a compreender bem o que é o pecado: “Na medida em que nos servimos de nosso pequeno poder físico, intelectual, econômico, sexual, político... não para servir ao irmão, mas para utilizá-lo, dominá-lo e conseguir nossa felicidade a suas expensas. Este pecado está presente no coração de cada ser humano e no interior das instituições, estruturas e mecanismos que funcionam em nossa economia, nossa política e nossa convivência social” (O Caminho aberto por Jesus: Evangelho de João, p. 38-39).

De modo geral há entre nós grande confusão entre pecado e fraqueza. O pecado ocorre quando delibera-se livremente em transgredir a Lei de Deus. É a opção livre e consciente pelo mal. É o desejo de onipotência, de “ser como deus”, de ser o centro da vida. A fraqueza é uma transgressão involuntária da Lei. Uma realidade que faz parte da finitude humana, que está para além de das próprias forças. A fraqueza se dá naquelas situações “mais fortes do que eu”. Pode ocorrer também que a pessoa escolha o pecado, mas para fugir da responsabilidade diz que aquela situação foi mais forte do que ela. Então já não se trata de fraqueza, mas de pecado.

O que importa de tudo o que foi dito é que Jesus veio “tirar o pecado do mundo” e quer que nos empenhemos para que o mal, a injustiça, a mentira, a desonestidade e todo tipo de perversidade não prevaleça no mundo. Para que o amor de Deus seja o vínculo que reúna as pessoas, que leve ao perdão mútuo e à compaixão para com os mais necessitados. Afinal de contas, “no entardecer da vida seremos julgados pelo amor” (São João da Cruz). O exame final se dará a partir do que fizemos ou deixamos de fazer aos mais pequeninos com quem o Senhor se identifica (cf. Mt 25,31-46). “Feliz quem pensa no fraco e no indigente, no dia da infelicidade o Senhor o salva; o Senhor o guarda, dá-lhe vida e felicidade na terra, e não o entrega à vontade de seus inimigos! O Senhor o sustenta no seu leito de dor, tu afofas a cama em que ele definha” (Sl 41,2-4).

*Para maior aprofundamento desse assunto, recomendo: Pecado: O que é? Como se faz?. XAVIER THEVENOT.  Loyola).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Crer no Ressuscitado

aureliano, 13.04.18

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3º Domingo da Páscoa [15 de abril de 2018]

[Lc 24,35-48]

Crer na ressurreição de Jesus não é algo fácil, que acontece de um dia para outro. Quando falo de ‘crer na’, quero dizer entregar-se confiante a Cristo e assumir uma postura de vida cada vez mais parecida com a de Jesus. Isso é que é ‘ter fé’. Não é crer na narrativa do evangelho como um fato jornalístico, histórico, literário etc. Mas crer que esse acontecimento muda minha história, nossa história. Abre-nos um novo horizonte de vida e de compreensão da realidade. Um acontecimento que, vivido, constrói um mundo mais humano e justo.

A comunidade estava assustada, perdida, sem saber o que fazer. Dois discípulos chegam e começam a contar a experiência que tiveram: “O que tinha acontecido no caminho, e como tinham reconhecido Jesus ao partir o pão”.

O próprio Jesus se manifesta a eles com o dom da paz. Mas ainda pensavam que fosse um fantasma. Porém Jesus continua insistindo, comendo do peixe, mostrando-lhes as mãos e os pés. Ou seja, quer lhes dizer que é ele mesmo, o mesmo que havia caminhado com eles pela Palestina e que tinha sido pregado na cruz.

Somente depois de lhes explicar as Escrituras é que “abriu a inteligência deles” (Lc 24,45). As Escrituras aquecem o coração e iluminam a mente. No caminho de Emaús, Jesus explicava-lhes as Escrituras. Depois disseram: “Não ardia o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?” (Lc 24, 32). A tristeza não lhes fechou o coração, pois havia neles um sincero desejo de seguimento. É importante alimentar o bom desejo no coração: é porta de entrada para Deus.

Não podemos perder de vista aqui a menção ao “caminho”. É um conceito que lembra a itinerância durante a qual o ser humano vai aprendendo a caminhar, a entender o sentido da vida, vai amadurecendo sua experiência de fé. É lugar também de encruzilhadas, de curvas, de tropeços etc. É lugar de riscos, de ameaças, de tentações, de seduções, de decisões. A ‘Resposta’ (Jesus) se aproxima, entra na conversa, anima, ilumina a mente e ajuda a enxergar. É preciso estar atento aos ‘sinais’ de Deus no caminho.

Ninguém nasce pronto. Ninguém está acabado, mas faz processo de aprendizado, de discipulado, de experiência de Deus. Por isso os discípulos estavam ainda com medo e perturbados. Ainda estavam a caminho. Estavam na itinerância da fé.

Assim acontece conosco. No princípio nasce um desejo. Depois esse desejo começa a amadurecer na simplicidade e na humildade. E perguntamos com os discípulos: ‘Será verdade um mistério tão grande?’. É algo que está muito acima de nós, é muito maior do que nós. Por isso mesmo nos toma, nos envolve, nos fascina, nos encanta, nos atrai.

Então nos tornamos discípulos missionários. É Jesus que nos faz “testemunhas de tudo isso”. A iniciativa é dele. A resposta é nossa. Se nos deixamos instruir por ele, se nos deixamos perdoar por ele, se nos deixamos converter, a força dele nos faz seus discípulos missionários.

Nossa fraqueza não será mais obstáculo para a ação dele em nós. Ele fará de nós instrumentos de conversão e salvação da humanidade. Nosso povo não quer saber de mestres, de palavras, de ensinamentos vazios, mas de testemunho. É preciso mostrar ao mundo nossa alegria de crer em Jesus, nossa firmeza em seu ensinamento, nossa vida coerente com o que dizemos crer, nosso olhar de misericórdia sobre o pobre e indefeso. O mundo quer e precisa de testemunhas mais do que de mestres. Dizia Paulo VI: “Por força deste testemunho sem palavras, estes cristãos fazem aflorar no coração daqueles que os vêem viver, perguntas indeclináveis: Por que é que eles são assim? Por que é que eles vivem daquela maneira? O que é – ou quem é – que os inspira? Por que é que eles estão conosco?  (EN, 21).

Nota importante: A expressão “era preciso” do evangelho de hoje e presente em muitos outros textos evangélicos, precisa ser bem entendida. Muitos pensam tratar-se de um destino, uma predeterminação do Pai de que Jesus tinha de morrer violentamente. Um determinismo absoluto como se Deus fosse um masoquista que tem prazer em ver a pessoa sofrer. Isso dá margem a uma ideia errônea de Deus e negaria a liberdade em Jesus. Trata-se de um modo de compreender a história da salvação. Jesus compreende como um apelo à obediência ao plano de Deus ao qual ele quer manter-se fiel até o fim: “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). Essa fidelidade lhe acarretou o sofrimento, a perseguição, a morte.

A essa vontade salvífica de Deus está submetida também a comunidade dos discípulos. Eles também enfrentarão sofrimento e morte por causa da fé comprometida com o Reino inaugurado por Jesus. O que conta aqui é que o Pai é o garante da realização da salvação, por isso não abandona seu Filho na morte, mas o ressuscita. O mesmo faz com todos aqueles que vivem como ele viveu. Isso é ressurreição!

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN