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Que ninguém seja surpreendido

aureliano, 01.12.23

1º Domingo do Advento - 1º de dezembro - A.jpg

1º Domingo do Advento [03 de dezembro de 2023]

[Mc 13,33-37]

DEUS ENTRA EM NOSSA HISTÓRIA

O tempo litúrgico do Advento celebra a entrada de Nosso Senhor Jesus Cristo no mundo. É Deus entrando em nossa história para salvá-la, dar-lhe um sentido novo. O cristão é chamado a renovar em seu coração a esperança da salvação que nunca falha. A Igreja aproveita a oportunidade para ajudar seus fiéis a renovar as atitudes interiores de vigilância, de expectativa, de oração fervorosa e contínua, de abertura ao Senhor que quer “armar sua tenda no meio de nós” (cf. Jo 1,14). Ele quer continuar conosco (Emanuel), quer que lhe abramos o coração, quer que nos convertamos ao seu amor, quer que nossas atitudes sejam inspiradas nas palavras e ações de Jesus e de Maria de Nazaré.

Com o Advento, iniciamos o Ano Litúrgico. É tempo de renovar a esperança no Deus que virá, mas que já está no meio de nós: “já e ainda não – jam et nondum”. A vigilância recomendada por Jesus, hoje, é o modo como o reconhecemos no meio de nós. Aliás, o evangelho do domingo passado (Mt 25, 31-46) nos indicou o caminho por onde devemos trilhar para uma constante vigilância: o serviço generoso aos pequeninos do Reino.

O mercado se vale desta ocasião para vender, comprar, consumir produto, ganhar dinheiro. É preciso, porém, ter cuidado para não fazermos deste tempo uma ocasião somente para fazer festas, deixando em segundo plano aquela preocupação basilar de que falam as leituras da liturgia deste domingo: “É ele também que vos dará a perseverança em vosso procedimento irrepreensível, até ao fim, até ao dia de Nosso Senhor, Jesus Cristo” (1Cor 1,8). E ainda: “Vigiai, portanto, porque não sabeis quando o dono da casa vem... Para que não vos suceda que, vindo de repente, ele vos encontre dormindo” (Mc 13,35-36).

Não quero, com isso, negar a importância da festa, do encontro familiar, do descanso, da dança, da música, das alegrias ao redor da mesa. O que deve, porém, caracterizar nossas festas é a dimensão cristã destas festividades. Não perder o sentimento de solidariedade: não esbanjar, desperdiçar; não fechar o coração ao pobre e necessitado; buscar a reconciliação, o perdão, a celebração. Uma excelente oportunidade para reconciliar-se com um vizinho ou um familiar com quem se está brigado. São elementos que podem tornar mais cristãs as festas natalinas.

EVANGELHO DO DIA: “VIGIAR”

O acontecimento histórico, pano de fundo desse relato de Marcos, é a destruição de Jerusalém, nos anos 70, pelo exército romano. Foi um acontecimento terrível que provocou muito sofrimento, morte, destruição, sobretudo, do maior símbolo da fé judaica, o Templo. A comunidade de Marcos procurou tirar destes acontecimentos importante lição para a vida cristã: é preciso vigiar.

Ademais, havia no coração dos primeiros cristãos a convicção de que a parusia, isto é, a Segunda Vinda do Senhor, estava perto. Então conduziam a vida com este pensamento. E como a “volta” não acontecia, demorava, começaram a esmorecer na fidelidade ao Evangelho. Daí a ordem insistente: “Vigiai”. Ou seja, o cristão precisa viver em permanente estado de alerta para não se deixar perverter pelo mal que campeia no mundo.

Ainda mais: a vinda do Senhor não deve ser para o cristão motivo de medo, mas de alegre e confiante esperança. Essa expectativa da vinda gloriosa do Senhor, muito presente nas primeiras comunidades cristãs, deve nos levar a pensar no Cristo que inaugurou a presença do Reino no nosso meio, e que, uma vez concluída sua missão neste mundo, entregou-nos a tarefa de continuar (com ele) o que ele começou. Portanto é um trabalho, uma tarefa na qual devemos estar sempre acordados, atentos, vigilantes. É assumir como nossa a causa de Deus. Nossa ocupação neste mundo é trabalhar para que o Reino de Deus se estabeleça no mundo e nos corações. Não podemos dar tréguas, dar-nos por satisfeitos, acomodar-nos.

três situações que ameaçam a vigilância do cristão: a superficialidade da vida: falta de profundidade nas palavras e ações; a sensualidade: busca do prazer carnal com prejuízo da vida espiritual; a necessidade de bem-estar: preocupação excessiva com posses e poder.

Superficialidade: As relações tendem a ser inconsistentes; há muito jogo de interesse nas ditas ‘amizades’; mesmo as práticas religiosas estão marcadas pela superficialidade: diante de um desagrado, abandona-se ou troca-se de credo. Falta raiz, profundidade, falta convicção. Muitas relações se sustentam na base da troca, do dinheiro, do patrimônio material. Uma vez que alguma situação dessas começa a ruir, está desfeita a amizade, a parceria, o companheirismo. Isso sem falar daquelas pessoas de duas caras... É muito triste!

Sensualidade: Realidade humana interessante e, por vezes, necessária, marcada, no entanto, por um caráter ardiloso que transvia os corações vigilantes, pervertendo relações esponsais, familiares e comunitárias, trazendo grande prejuízo para a sociedade. É uma armadilha que prende a pessoa aos instintos egoístas. Um grau de sensualidade faz parte das relações, sobretudo das relações amorosas conjugais. Mas se a pessoa apostar nos jogos sensuais como substância da vida, vai se desviar do caminho da vida, do caminho de Jesus. Ela não é a única realidade que constitui o ser humano. Nem é o único meio de se estabelecer relação saudável.

Necessidades de bem-estar: Outra armadilha do mal que nos prende é o consumismo: compramos coisas de que não precisamos; gastamos o que não temos; fechamos os olhos às necessidades de nossos irmãos que vivem realidades miseráveis. O autocentramento fecha o ser humano em seu próprio mundo, tornando-o incapaz de abrir-se aos demais. Aos eternos insatisfeitos com a vida, é bom lembrar Santo Agostinho: “Fizeste-nos, Senhor, para ti. E o nosso coração andará inquieto enquanto não descansar em ti”.

A recomendação de Jesus para que estas armadilhas não nos surpreendam é o estado permanente de vigilância: estarmos acordados e atentos à vivência de nossa fé. Buscar o “único necessário” (cf. Lc 10,42).

A única forma de entregarmos a Ele um “relatório” completo de tudo o que fizemos é nunca faltarmos ao “serviço”. Viver cada dia como se fosse o último. Não adiar comprometimento com a comunidade e com a causa dos pobres. Não omitir. Não mentir. Não enganar.

A obra de Deus é resultado de mão dupla: Ele vem ao nosso encontro e nós vamos ao encontro d’Ele. A parte de Deus ele já a realizou em seu Filho Jesus. A nossa parte é a disposição diária de realizar a vontade d’Ele, cultivando o amor que ele veio nos ensinar. Procurando expressar em nossa atitude as atitudes de Jesus.

Vigiar é o contrário de adormecer, de desligar-se. Hoje em dia estamos plugados, conectados dia e noite nas redes sociais, mas, com muita frequência, totalmente desligados uns dos outros e de nossa relação com Deus, realidade última que nos constitui. Jesus quer dizer que vigiar é não se deixar seduzir pelas propostas de um mundo afastado de Deus, capitalista, consumista, hedonista, neoliberal. Não se pode desanimar diante dos desafios e dificuldades. Ligar-se a Deus, confiar n’Ele, acreditar no projeto de Jesus e tocar em frente. Assim, ninguém será surpreendido.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Viver é arriscar-se pela vida

aureliano, 17.11.23

33º Domingo do TC - A - 15 de novembro.jpg

33º Domingo do Tempo Comum [19 de novembro de 2023]

[Mt 25,14-30]

Estamos diante de uma parábola que causa estranheza à primeira vista. Um patrão ambicioso que vai viajar e entrega uma quantia de dinheiro a alguns de seus empregados para que eles façam esse dinheiro multiplicar. A atitude com o terceiro empregado revela que esse patrão ambicioso que se enriquece às custas dos empregados: “Tu sabias que colho onde não plantei e ceifo onde não semeei”. E sua atitude violenta com o empregado “medroso”, denominado por ele de “mau e preguiçoso” produz uma impressão ruim dentro da gente.

Em primeiro lugar é preciso considerar que é uma parábola, com os limites das comparações. Depois, uma parábola que tem como pano de fundo os escribas e fariseus e a comunidade de Mateus proveniente do judaísmo. Mateus pretende mostrar aos escribas e fariseus que não basta o cumprimento da Lei, mas é preciso viver de modo vigilante e criativo, correndo risco de “perder a vida” para ganhá-la. Aos judeu-cristãos que, certamente, começaram a se acomodar, esperando para breve a vinda do Senhor Jesus, com dificuldade em viver a proposta do Evangelho, permanecendo fechados num sistema religioso legalista e excludente, Mateus está lembrando a necessidade da vigilância produtiva: é preciso colocar os dons a serviço da comunidade, assumindo assim a grande causa de Jesus que foi a vida fraterna, o lava-pés “para que todos tenham vida” (Jo 10,10).

A parábola não pode ser interpretada na lógica capitalista como se estivesse legitimando produção econômica. Ela quer ajudar a comunidade a sair da “zona de conforto”, de uma vida fechada, egoísta, comodista para atitudes de serviço e generosidade a fim de que aqueles que não contam na sociedade sejam incluídos. Jesus não quer ninguém de fora.

Para isso ele quer contar com nossa participação na obra da “salvação” da humanidade. Quando ‘arriscamos’ nossa vida, à semelhança de Jesus, estamos vivendo a Eucaristia que celebramos: “Isto é o meu corpo que é dado por vós”. Deus não tem o hábito de transtornar as leis da natureza, fazendo ‘milagres’ a toda hora. Ele quer agir no mundo através de nós pela força do Espírito Santo.

Deixemos Deus agir em nós e empreguemos nossa diligência em fazer multiplicar os dons que Ele nos deu, como a mulher virtuosa (sabedoria) da primeira leitura: “Abre suas mãos ao necessitado e estende suas mãos ao pobre” (Pr 3, 20). Assumir a causa de Deus é torná-la nossa. Então nossa vida será uma constante preparação para a “prestação de contas” que o Pai pedirá de nós um dia. Julgamento que terá como critério absoluto a misericórdia. 

Ademais, podemos concluir da parábola que, ao elogiar os dois primeiros servos que arriscaram a sorte para fazer o talento multiplicar-se, e ao reprovar o terceiro que teve medo e enterrou o talento, Jesus se opõe à postura de escravo que faz somente o que foi estabelecido (a mentalidade rabínica em relação à Lei). O discípulo de Jesus deve assumir uma postura de risco, de liberdade, de sair de suas próprias seguranças, fazendo valer os seus dons como presente de Deus e se esforça para fazê-los multiplicarem-se. O Reino de Deus pressupõe iniciativa, criatividade, saída de si, risco. Somente assim ele é capaz de crescer e produzir frutos.

Assumir a obra de Cristo é a única preparação válida para sua nova vinda, vivendo cada dia como se fosse o último.

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“TIVE MEDO E ESCONDI TEU TALENTO”

Esse terceiro empregado a quem foi confiada menor quantia e que reagiu de modo diferente dos outros dois, merece mais algumas considerações. A pergunta que se coloca é: “Por que ele não fez render o talento recebido, à semelhança dos outros?” – Ele mesmo responde: “Sabia que tu és um homem duro, que colhes onde não semeaste e recolhes onde não plantaste. Por isso tive medo e fui esconder teu talento na terra. Eis aqui, toma o que te pertence” (Mt 25,24-25). Esse relato faz lembrar Adão depois do pecado: “Ouvi teu passo no jardim, tive medo porque estou nu e me escondi” (Gn 3,10).

Quero me ater àquela palavra do empregado: “Tive medo”. À primeira vista parece que Jesus está ameaçando seus discípulos com essa parábola. Quase metade do texto se destina a narrar o ocorrido com esse empregado. Por isso vale a pena nos debruçarmos um pouco sobre a atitude do patrão e do empregado.

Olhando mais de perto, notamos o medo muito presente no coração humano diante daquelas situações que o ultrapassam. Vejamos: medo de adoecer, medo de sofrer, medo de morrer, medo de ir para o inferno, medo de perder o céu, medo de ser castigado, medo de mau-olhado, medo de feitiço, medo de “encosto”, medo de macumba, medo de... São realidades referentes à sua relação com um poder que o ultrapassa.

Claro que precisamos distinguir uma relação de medo doentio com o sagrado e o “Timor Dei” (Temor de Deus) (Sl 111,10; Pr 1,7) que denota profundo respeito e reconhecimento de Deus como Senhor, Criador e Pai a quem devemos amar e servir de todo coração.

O fato é que o servo da parábola agiu movido pelo medo. Faltou-lhe atitude de amor, de gratuidade, de arriscar-se. Demonstra que não amava o seu senhor. Não teve coragem de correr o risco. Não se empenhou em nada. Na verdade, aquele medo parece mais preguiça e comodismo. Para não sair de si, para não trabalhar, “enterra o talento”. Recebe por isso a repreensão do patrão: “Servo mau e preguiçoso” (Mt 25,26).

Uma religião vivida na base do medo, de proselitismo, numa relação de “toma lá, dá cá” parece não corresponder à proposta do Reino de Deus trazido por Jesus. Pois a entrada de Deus em nossa história foi exatamente para estabelecermos com Ele uma nova relação, uma relação filial, de gratuidade, de generosidade, de serviço amoroso a exemplo de Jesus: “Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, vós o façais” (Jo 13,15).

A Escritura nos exorta: “Deus não nos deu um espírito de medo, mas um espírito de força, de amor e de sobriedade” (2Tm 1,7). E quantas vezes o Divino Mestre proclamou: “Não tenhais medo!” (Mt 14,27 e correlatos).

A afirmação de um historiador social contemporâneo faz a gente pensar: “O medo enche muito mais as igrejas do que o amor”. Certamente isso não significa que, necessariamente, nossas igrejas se enchem de pessoas movidas pelo medo. Penso que não. Mas há muita gente que frequenta cultos e orações à cata de milagres, de proteção contra isso ou aquilo, ou com medo de algum castigo ou punição divina. Há muita superstição nas rezas e cultos, e muitos charlatães aproveitando-se do medo ou da boa-fé das pessoas simples.

A participação na vida da comunidade de fé deve ir se depurando, amadurecendo de tal maneira que nossa participação tenha como motivação a bondade de Deus, seu amor por nós, a entrega de seu Filho pela nossa salvação. Ainda que Ele não tivesse nada a nos oferecer, queremos amá-Lo e servi-Lo. E, consequentemente, colocarmos nosso “talento” a serviço da construção de um mundo mais irmão para a Glória do Pai e o bem de todas as pessoas.

Podemos concluir, portanto, que o grave problema daquele terceiro servo foi o fechamento, o medo de arriscar-se, o egoísmo que o levou a “enterrar” o dom que recebera: “Quem vive para si, empobrece o seu viver. / Quem doar a própria vida, vida nova há de colher”.

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19 DE NOVEMBRO: VII DIA MUNDIAL DOS POBRES

“Nunca afastes de algum pobre o teu olhar” (Tb 4,7)

“’Nunca afastes de algum pobre o teu olhar’ (Tb 4, 7). Esta recomendação ajuda-nos a compreender a essência do nosso testemunho. Deter-se no Livro de Tobite, um texto pouco conhecido do Antigo Testamento, eloquente e cheio de sabedoria, permitir-nos-á penetrar melhor no conteúdo que o autor sagrado deseja transmitir. Abre-se diante de nós uma cena de vida familiar: um pai, Tobite, despede-se do filho, Tobias, que está prestes a iniciar uma longa viagem. O velho Tobite teme não voltar a ver o filho e, por isso, deixa-lhe o seu ‘testamento espiritual’. Foi deportado para Nínive e agora está cego; é, por conseguinte, duplamente pobre, mas sempre viveu com a certeza que o próprio nome exprime: ‘O Senhor foi o meu bem’. Este homem que sempre confiou no Senhor, deseja, como um bom pai, deixar ao filho não tanto bens materiais, mas sobretudo o testemunho do caminho que há de seguir na vida. Por isso diz-lhe: ‘Lembra-te sempre, filho, do Senhor, nosso Deus, em todos os teus dias, evita o pecado e observa os seus mandamentos. Pratica a justiça em todos os dias da tua vida e não andes pelos caminhos da injustiça’ (Tb 4, 5)”.

(...) “Vivemos um momento histórico que não favorece a atenção aos mais pobres. O volume sonoro do apelo ao bem-estar é cada vez mais alto, enquanto se põe o silenciador relativamente às vozes de quem vive na pobreza. Tende-se a ignorar tudo o que não se enquadre nos modelos de vida pensados sobretudo para as gerações mais jovens, que são as mais frágeis perante a mudança cultural em curso. Coloca-se entre parênteses aquilo que é desagradável e causa sofrimento, enquanto se exaltam as qualidades físicas como se fossem a meta principal a alcançar. A realidade virtual sobrepõe-se à vida real, e acontece cada vez mais facilmente confundirem-se os dois mundos. Os pobres tornam-se imagens que até podem comover por alguns momentos, mas quando os encontramos em carne e osso pela estrada, sobrevêm o fastio e a marginalização. A pressa, companheira diária da vida, impede de parar, socorrer e cuidar do outro. A parábola do bom samaritano (cf. Lc 10, 25-37) não é história do passado; desafia o presente de cada um de nós. Delegar a outros é fácil; oferecer dinheiro para que outros pratiquem a caridade é um gesto generoso; envolver-se pessoalmente é a vocação de todo o cristão” (Papa Francisco).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

Vigilância: uma característica cristã

aureliano, 10.11.23

32º Domingo do TC - A - 08 de novembro.jpg

32º Domingo do Tempo Comum [12 de novembro de 2023]

[Mt 25,1-13]

Os capítulos 24 e 25 de Mateus estão inseridos no Discurso Escatológico de Jesus. Eles precedem imediatamente os relatos da Paixão do Senhor. Escatologia refere-se às realidades últimas, ao fim, às coisas pelas quais o ser humano deve passar no final de sua vida, às realidades que nos ultrapassam e nos inserem no Mistério de Deus.

O tema da vigilância cristã é recorrente nos escritos do Novo Testamento. Jesus convida à constante vigilância diante do fim iminente: “Aquele dia virá como um ladrão” (cf. Mt 24,42-44). Paulo se refere a ela diversas vezes: “Não durmamos, a exemplo dos outros, mas vigiemos e sejamos sóbrios” (1Ts 5,6). Parece que o desejo de Deus é que o cristão viva em estado permanente de atalaia. Pois a qualquer momento pode ser chamado para o “encontro com o Senhor”. As primeiras comunidades cristãs esperavam a vinda do Senhor como iminente. Alguns até começaram a parar de trabalhar; mas receberam a reprimenda de Paulo: “Quem não quer trabalhar também não há de comer” (2Ts 3,10).

O capitulo 25 de Mateus traz três relatos que sugerem o fim, a vigilância diante da vinda inesperada do Senhor. O relato de hoje, intitulado “Parábola das dez virgens”, nos remete ao rito das festas de casamento na tradição judaica. Trata-se de prover o azeite suficiente para manter a lâmpada acesa a noite toda. Que isso significa?

O óleo pode ser uma alegoria para falar do fervor espiritual, do serviço generoso ao próximo, da prática das Obras de Misericórdia: (corporais) dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, vestir os nus, dar pousada os peregrinos, assistir os enfermos, visitar os presos, enterrar os mortos; (espirituais) dar bom conselho, ensinar os ignorantes, corrigir os que erram, consolar os aflitos, perdoar as injúrias, sofrer com paciência as fraquezas do próximo, rogar a Deus pelos vivos e defuntos.

A parábola nos convida à adesão irrestrita ao Senhor enquanto peregrinamos neste mundo. Há necessidade de um esforço cotidiano de fidelidade, de vivência do evangelho, de seguimento a Jesus.

A sensatez ou insensatez, a prudência e a tolice são realidades que estão próximas de nós. É insensatez, é tolice ir à igreja, ouvir a Palavra, fazer oração, mas viver de tal maneira que essa realidade celebrada, cultuada não me diz nada, não me move à conversão, não me faz mais humano. Prudente e sensato é aquele que ouve a Palavra de Deus e procura colocá-la em sua vida: sendo mais proativo no trabalho procurando ganhar o dinheiro com honestidade, sendo verdadeiro e zeloso com a família e nos negócios, perdoando e compreendendo as fraquezas alheias, assumindo sua vida, seus atos com responsabilidade e verdade etc. Isso é esperar pelo Senhor com a lâmpada acesa, com provisão de óleo.

Note-se ainda que Jesus não faz juízo de valor, ou seja, ele não afirma ser pecado o fato de as virgens insensatas não se proverem de óleo suficiente. Ele fala de tolice, de imprudência, de insensatez. Interpretando a provisão de óleo como esperança, Jesus quer dizer que não ter óleo é não ter esperança. E isso é uma loucura, uma insensatez. Não é possível viver sem esperança. É a esperança que nos acalenta e sustenta nos embates e contradições da vida.

Não foi por causa de um cochilo que as “virgens insensatas” ficaram excluídas da festa. De jeito nenhum. Pois as prudentes também cochilaram. Mas ouviram aquele terrível “não vos conheço” por viverem distraídas, descomprometidas, despreocupadas com a “vinda do noivo”. O que está em jogo é a vigilância que faz com que se proveja o óleo. Não basta um mero “assistir ao culto”, cantar um hino religioso, acender uma vela, rezar um salmo, andar com a bíblia debaixo do braço ou tê-la sobre nossa mesa. A vida deve estar comprometida com a causa que Jesus defendia. A vida de Jesus deve ser o horizonte permanente inspirador de nossa vida.

Ainda um elemento desse relato que pode, a princípio, causar certa estranheza é o fato de as virgens prudentes não terem repartido o óleo com as insensatas. O evangelho não nos pede que repartamos o que temos com quem não tem? – Confrontando este texto com outros da Sagrada Escritura, podemos notar que a Graça de Deus, significada por esse óleo, ou mesmo as obras de caridade, são dons de Deus em caráter pessoal. Não nos pertencem.

Ilustram bem esse pensamento as palavras de Santo Agostinho a propósito do perdão das ofensas: “Donde vem aquilo que dás, não é dele? Se desses do que é teu, seria liberalidade; quando dás do que é dele, é devolução. ‘Que tens que não recebeste?’ (1Cor 4,7)” (Ofício das Leituras, 33º DTC). Tudo é dom do Pai!

 O Senhor distribui a cada um seus dons e graças. E cada pessoa, por sua vez, deve dar uma resposta livre, consciente, pessoal e generosa. Em outras palavras, não posso repartir aquilo que não é meu, não é minha propriedade. Em última instância, cada um é responsável em responder sim ou não ao amor de Deus. Viver vigilante deve ser decisão de cada um. A responsabilidade também é individual.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

 

O que dá sentido à nossa vida?

aureliano, 27.11.21

1º Domingo do Advento [28 de novembro de 2021]

[Lc 21,25-28.34-36]

Iniciamos o Ano Litúrgico da Igreja. Neste ano vamos caminhar com Lucas Evangelista. Esse evangelho se caracteriza pela alegria, pela presença das mulheres, pela revelação do rosto misericordioso do Pai, pela presença dos pobres. É o evangelho que mostra um Jesus orante: muitas vezes ele sobe a montanha para orar ao Pai. Os relatos da infância de Jesus lhe são também característicos. Lucas descreve os passos de Jesus perfazendo um longo Caminho cujo desfecho será Jerusalém. Ali ele entregará sua vida pela humanidade. E dali também enviará os discípulos em missão até os confins da terra.

O Ano Litúrgico tem início com o Advento. Esse tempo marca a celebração com uma liturgia que quer despertar o discípulo de Jesus para a espera confiante. É o tempo em que celebramos a vinda de Cristo na História e na Glória. Ele veio a primeira vez para nos libertar do pecado e da morte. Virá uma segunda vez para a manifestação definitiva do Reino de Deus: “Revestido da nossa fragilidade, ele veio a primeira vez para realizar seu eterno plano de amor e abrir-nos o caminho da salvação. Revestido de sua glória, ele virá uma segunda vez para conceder-nos em plenitude os bens prometidos que hoje, vigilantes, esperamos” (Prefácio da Missa).

O relato de hoje distingue dois momentos: o primeiro (Lc 21,25-28) fala do fim. O segundo (Lc 21,34-36) fala das atitudes que devemos cultivar em função do fim. É um relato de gênero literário apocalíptico. É bom termos diante dos olhos que esse modo de escrever do autor sagrado não tem como objetivo amedrontar, causar pânico, deixar o leitor em polvorosa. Apocalipse significa revelação. Como se algo estivesse oculto aos nossos olhos por causa de uma espécie de véu que nos cobre e impede de enxergar, devido às perseguições e dificuldades que levam ao desânimo. Esse véu é tirado e a gente começa a enxergar as coisas com um olhar de Deus. A revelação nos faz olhar para o mundo, para as pessoas numa perspectiva escatológica, de fim, das últimas coisas que irão acontecer conosco pela Palavra definitiva do Pai. Não se trata do fim de tudo, entendido como redução da criação ao nada. Mas no sentido de finalidade da vida: Deus nos criou com uma Finalidade, para um Fim: uma teleologia. E ele quer que nós vivamos de acordo com esse Fim. É a vida eterna, que já começa aqui: “A vida eterna é que eles te conheçam a ti, o único verdadeiro Deus, e àquele que enviaste, Jesus Cristo” (Jo 17,3).

Então, sem nos prendermos à ideia de catástrofes, de alarmismos, que só faz mal, vamos pensar um pouco em nossa vida, nesse Advento. Como estamos vivendo em vista do fim para o qual o Pai nos criou?

Prestemos um pouco mais de atenção nessas palavras de Jesus: “Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida”. Atentemos para o que torna o coração insensível: a gula, a embriaguez e as preocupações da vida! O nosso mundo é dominado por esse mal. A grande preocupação que invade nosso coração, geralmente, é se empanturrar de festa e comida, de gozar a vida (embriaguez/orgia) e ganhar dinheiro e poder a todo custo. Ainda que as vidas sejam sacrificadas (idolatria)!

Quem é que está preocupado com a defesa dos direitos dos pobres e oprimidos? Quem reserva um tempo precioso para fazer uma visita a um doente ou idoso? A que nos estimulam a televisão, os filmes e as redes sociais? Quais são as principais preocupações e ações de nossos governantes e empresários? Investimos nossas forças, energias em vista de que mesmo? Qual o objetivo principal de nossa vida?

Papa Francisco, em sua homilia no dia 27/11/2019, a propósito de Apocalipse 14,14-19, ensinava a importância de pensarmos no fim. "Como será o meu fim? Como eu gostaria que o Senhor me encontrasse quando me chamar? É sábio pensar no fim, nos ajuda a seguir em frente, a fazer um exame de consciência sobre que coisas eu deveria corrigir e quais levar em frente porque são boas".

Ainda mais. “Tomai cuidado... aquele dia cairá como uma armadilha”. Jesus nos alerta à contínua vigilância. Esse “estar de pé” é garantia de um novo jeito de ser e de viver. É a atitude do guarda noturno que está sempre de atalaia para não ser surpreendido. Isso nos possibilita não sermos enganados nem nos acomodarmos.

“Orai a todo momento, a fim de terdes força”. Essa palavra de Jesus é um convite a repensar nossa fragilidade e dependência da força do Alto. A intimidade com o Senhor é que nos garante a salvação diante das forças do mal. O Pai é o nosso garante. Sem Ele o mal nos domina e nos devora.

A propósito de uma vivida “em preparação”, deixo aqui mais uma palavra do Papa Francisco na mesma ocasião da citação anterior: “Nos fará bem nesta semana pensar no fim. Se o Senhor me chamasse hoje, o que eu faria? O que eu diria? Que trigo eu mostraria a ele? O pensamento do fim nos ajuda a seguir em frente; não é um pensamento estático: é um pensamento que avança porque é levado em frente pela virtude, pela esperança. Sim, haverá um fim, mas esse fim será um encontro: um encontro com o Senhor. É verdade, será uma prestação de contas daquilo que fiz, mas também será um encontro de misericórdia, de alegria, de felicidade. Pensar no fim, no final da criação, no fim da própria vida é sabedoria; os sábios fazem isso”.

Gostaria ainda de lembrar a palavra de Paulo para esse início do Advento: “Que assim ele confirme os vossos corações numa santidade sem defeito aos olhos de Deus, nosso Pai, no dia da vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, com todos os seus santos. (...) Fazei progressos ainda maiores! Conheceis, de fato, as instruções que temos dado em nome do Senhor Jesus” (1Ts3, 13. 4,1-2). Nossa vocação é para a santidade. Esta consiste em nos colocarmos diante de Deus em total dependência dEle e num esforço contínuo em viver as “instruções” que Jesus nos deixou.

Por vezes somos “instruídos” na família, na catequese inicial e depois nos esquecemos de tudo o que aprendemos. Tomamos um caminho que entra na contramão de tudo o que Jesus, a Igreja e a família nos ensinaram. Confirma isso o fato de sermos, no Brasil, uma população com cerca de 90% de batizados, porém somos campeões mundiais na violência e na corrupção. Que esquizofrenia é essa? Isso nos leva a concluir que ser batizado não é o mesmo que ser cristão. O batismo é um rito que infunde em nosso coração a Graça de Deus, a fé e nos introduz na comunidade cristã. Porém o processo de amadurecimento desta fé se dá pela vida afora. Vamos nos fazendo cristãos na medida que incorporamos o ensinamento de Jesus em nossa vida. O grande desejo de Jesus é que nos tornemos seus discípulos. Que façamos processo de conversão cotidiana. Que construamos um mundo de fraternidade e de paz para o bem de toda a humanidade. É o que enche nossa vida de sentido, da alegria que nada poderá tirar.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

A vigilância cristã

aureliano, 06.11.20

32º Domingo do TC - A - 08 de novembro.jpg

32º Domingo do Tempo Comum [08 de novembro de 2020]

[Mt 25,1-13]

Os capítulos 24 e 25 de Mateus estão inseridos no Discurso Escatológico de Jesus. Eles precedem imediatamente os relatos da Paixão do Senhor. Escatologia refere-se às realidades últimas, ao fim, às coisas pelas quais o ser humano deve passar no final de sua vida, às realidades que nos ultrapassam e nos inserem no Mistério de Deus.

O tema da vigilância cristã é recorrente nos escritos do Novo Testamento. Jesus convida à constante vigilância diante do fim iminente: “Aquele dia virá como um ladrão” (cf. Mt 24,42-44). Paulo se refere a ela diversas vezes: “Não durmamos, a exemplo dos outros, mas vigiemos e sejamos sóbrios” (1Ts 5,6). Parece que o desejo de Deus é que o cristão viva em estado permanente de atalaia. Pois a qualquer momento pode ser chamado para o “encontro com o Senhor”. As primeiras comunidades cristãs esperavam a vinda do Senhor como iminente. Alguns até começaram a parar de trabalhar; mas receberam a reprimenda de Paulo: “Quem não quer trabalhar também não há de comer” (2Ts 3,10).

O capitulo 25 de Mateus traz três relatos que sugerem o fim, a vigilância diante da vinda inesperada do Senhor. O relato de hoje, intitulado “Parábola das dez virgens”, nos remete ao rito das festas de casamentos na tradição judaica. Trata-se de prover o azeite suficiente para manter a lâmpada acesa a noite toda. Que isso significa?

O óleo pode ser uma alegoria para falar do fervor espiritual, do serviço generoso ao próximo, da prática das Obras de Misericórdia: (corporais) dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, vestir os nus, dar pousada os peregrinos, assistir os enfermos, visitar os presos, enterrar os mortos; (espirituais) dar bom conselho, ensinar os ignorantes, corrigir os que erram, consolar os aflitos, perdoar as injúrias, sofrer com paciência as fraquezas do próximo, rogar a Deus pelos vivos e defuntos.

A parábola nos convida à adesão irrestrita ao Senhor enquanto peregrinamos neste mundo. Há necessidade de um esforço cotidiano de fidelidade, de vivência do evangelho, de seguimento a Jesus.

A sensatez ou insensatez, a prudência e a tolice são realidades que estão próximas de nós. É insensatez, é tolice ir à igreja, ouvir a Palavra, fazer oração, mas viver de tal maneira que essa realidade celebrada, cultuada não me diz nada, não me move à conversão, não me faz mais humano. Prudente e sensato é aquele que ouve a Palavra de Deus e procura colocá-la em sua vida: sendo mais proativo no trabalho procurando ganhar o seu dinheiro com honestidade, sendo verdadeiro e zeloso com a família e nos negócios, perdoando e compreendendo as fraquezas alheias, assumindo sua vida, seus atos com responsabilidade e verdade etc. Isso é esperar pelo Senhor com a lâmpada acesa, com provisão de óleo.

Note-se ainda que Jesus não faz juízo de valor, ou seja, ele não afirma ser pecado o fato de as virgens insensatas não se proverem de óleo suficiente. Ele fala de tolice, de imprudência, de insensatez. Interpretando a provisão de óleo como esperança, Jesus quer dizer que não ter óleo é não ter esperança. E isso é uma loucura, uma insensatez. Não é possível viver sem esperança. É a esperança que nos acalenta e sustenta nos embates e contradições da vida.

Não foi por causa de um cochilo que as “virgens insensatas” ficaram excluídas da festa. De jeito nenhum. Pois as prudentes também cochilaram. Mas ouviram aquele terrível “não vos conheço” por viverem distraídas, descomprometidas, despreocupadas com a “vinda do noivo”. O que está em jogo é a vigilância que faz com que se proveja o óleo. Não basta um mero “assistir ao culto”, cantar um hino religioso, acender uma vela, rezar um salmo, andar com a bíblia debaixo do braço ou tê-la sobre nossa mesa. A vida deve estar comprometida com a causa que Jesus defendia. A vida de Jesus deve ser o horizonte permanente inspirador de nossa vida.

Ainda um elemento desse relato que pode, a princípio, causar certa estranheza é o fato de as virgens prudentes não terem repartido o óleo com as insensatas. O evangelho não nos pede que repartamos o que temos com quem não tem? – Confrontando este texto com outros da Sagrada Escritura, podemos notar que a Graça de Deus, significada por esse óleo, ou mesmo as obras de caridade, são dons de Deus em caráter pessoal. Não nos pertencem.

Ilustram bem esse pensamento as palavras de Santo Agostinho a propósito do perdão das ofensas: “Donde vem aquilo que dás, não é dele? Se desses do que é teu, seria liberalidade; quando dás do que é dele, é devolução. ‘Que tens que não recebeste?’ (1Cor 4,7)” (Ofício das Leituras, 33º DTC). Tudo é dom do Pai!

 O Senhor distribui a cada um seus dons e graças. E cada pessoa, por sua vez, deve dar uma resposta livre, consciente, pessoal e generosa. Em outras palavras, não posso repartir aquilo que não é meu, não é minha propriedade. Em última instância, cada um é responsável em responder sim ou não ao amor de Deus. Viver vigilante deve ser decisão de cada um. A responsabilidade também é individual.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

A vigilância cristã

aureliano, 10.11.17

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32º Domingo do Tempo Comum [12 de novembro de 2017]

[Mt 25,1-13]

Os capítulos 24 e 25 de Mateus estão inseridos no Discurso Escatológico de Jesus. Eles precedem imediatamente os relatos da Paixão do Senhor. Escatologia refere-se às realidades últimas, ao fim, às coisas pelas quais o ser humano deve passar no final de sua vida, às realidades que nos ultrapassam e nos inserem no Mistério de Deus.

O tema da vigilância cristã é recorrente nos escritos do Novo Testamento. Jesus convida à constante vigilância diante do fim iminente: “Aquele dia virá como um ladrão” (cf. Mt 24,42-44). Paulo se refere a ela diversas vezes: “Não durmamos, a exemplo dos outros, mas vigiemos e sejamos sóbrios” (1Ts 5,6). Parece que o desejo de Deus é que o cristão viva em estado permanente de atalaia. Pois a qualquer momento pode ser chamado para o “encontro com o Senhor”. As primeiras comunidades cristãs esperavam a vinda do Senhor como iminente. Alguns até começaram a parar de trabalhar; mas receberam a reprimenda de Paulo: “Quem não quer trabalhar também não há de comer” (2Ts 3,10).

O capitulo 25 de Mateus traz três relatos que sugerem o fim, a vigilância diante da vinda inesperada do Senhor. O relato de hoje, intitulado “Parábola das dez virgens”, nos remete ao rito das festas de casamentos na tradição judaica. Trata-se de prover o azeite suficiente para manter a lâmpada acesa a noite toda. Que isso significa?

O óleo pode ser uma alegoria para falar do fervor espiritual, do serviço generoso ao próximo, da prática das Obras de Misericórdia: (corporais) dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, vestir os nus, dar pousada os peregrinos, assistir os enfermos, visitar os presos, enterrar os mortos; (espirituais) dar bom conselho, ensinar os ignorantes, corrigir os que erram, consolar os aflitos, perdoar as injúrias, sofrer com paciência as fraquezas do próximo, rogar a Deus pelos vivos e defuntos.

A parábola nos convida à adesão irrestrita ao Senhor enquanto peregrinamos neste mundo. Há necessidade de um esforço cotidiano de fidelidade, de vivência do evangelho, de seguimento a Jesus.

A sensatez ou insensatez, a prudência e a tolice são realidades que estão próximas de nós. É insensatez, é tolice ir à igreja, ouvir a Palavra, fazer oração, mas viver de tal maneira que essa realidade celebrada, cultuada não me diz nada, não me move à conversão. Prudente e sensato é aquele que ouve a Palavra de Deus e procura colocá-la em sua vida: sendo mais proativo no trabalho, procurando ganhar o seu dinheiro com honestidade, sendo verdadeiro e zeloso com a família e nos negócios, perdoando e compreendendo as fraquezas alheias etc. Isso é esperar pelo Senhor com a lâmpada acesa, com provisão de óleo.

Note-se ainda que Jesus não faz juízo de valor, ou seja, ele não afirma ser pecado o fato de as virgens insensatas não se proverem de óleo suficiente. Ele fala de tolice, de imprudência, de insensatez. Interpretando a provisão de óleo como esperança, Jesus quer dizer que não ter óleo é não ter esperança. E isso é uma loucura, uma insensatez. Não é possível viver sem esperança. É a esperança que nos acalenta e sustenta nos embates e contradições da vida.

Não foi por causa de um cochilo que as “virgens insensatas” ficaram excluídas da festa. De jeito nenhum. Pois as prudentes também cochilaram. Mas ouviram aquele terrível “não vos conheço” por viverem distraídas, descomprometidas, despreocupadas com a “vinda do noivo”. O que está em jogo é a vigilância que faz com que se proveja o óleo. Por isso, insisto: não basta um mero “assistir ao culto”, cantar um hino religioso, acender uma vela, rezar um salmo, andar com a bíblia debaixo do braço ou tê-la sobre nossa mesa. É preciso de uma vida comprometida com a causa que Jesus defendia. A vida de Jesus deve ser o horizonte permanente no qual precisamos nos mirar.

Ainda um elemento desse relato que pode, a princípio, causar certa estranheza é o fato de as virgens prudentes não terem repartido o óleo com as insensatas. A gente não é instado pelo evangelho a repartir o que temos com quem não tem? – Confrontando este texto com outros da Sagrada Escritura, podemos notar que a Graça de Deus que esse óleo significa, ou mesmo as obras de caridade, são dons de Deus em caráter pessoal. Não nos pertencem. O Senhor distribui a cada um seus dons e graças. E cada pessoa, por sua vez, deve dar uma resposta livre, consciente, pessoal e generosa. Em outras palavras, não posso repartir aquilo que não é meu, não é minha propriedade. Em última instância, cada um é responsável em responder sim ou não ao amor de Deus. Viver vigilante deve ser decisão de cada um.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

“Por que está ela inutilizando a terra?”

aureliano, 27.02.16

3º Domingo da Quaresma [28 de fevereiro de 2016]

[Lc 13,1-9]

Nossa preparação para Páscoa continua. É um caminho de conversão. No batismo fomos purificados do mal, iluminados por Cristo, ressuscitados para uma vida nova. A caminhada neste mundo nos coloca em situação de risco permanente. As tentações nos convidam ao mal, ao egoísmo, ao rompimento da aliança com Deus. Daí a necessidade de um caminho cotidiano de conversão.

O evangelho deste domingo traz dois relatos distintos: a crueldade de Pilatos assassinando galileus que, provavelmente, se opuseram à invasão e assalto do cofre do Templo por parte do Governador e a catástrofe da torre de Siloé que, ao cair, mata 18 pessoas; o outro relato é a parábola da figueira estéril. No primeiro caso temos uma situação que mexe bastante com o imaginário popular: atribuir catástrofes e acidentes a castigo divino. Está em jogo a teologia da retribuição ou prosperidade, condenada por Jesus. Sua resposta é enfática: “Pensais que eram mais pecadores do que todos os outros?” Podemos dizer que as catástrofes são um recado de Deus para nós. Quando a gente menos espera nossa vida pode estar terminando. É preciso, pois, vigiar. Por isso a palavra de Jesus: “Se não vos converterdes ireis morrer todos do mesmo modo”. Jesus aproveita-se desses acontecimentos para dar um ensinamento sobre o juízo de Deus e a necessidade de permanente conversão.

Conversão: eis o conceito que a liturgia de hoje quer destacar. Todos os acontecimentos devem ser lidos à luz de Deus como um sinal indicador de um caminho sempre novo que precisamos assumir. Um retornar e renovar constantemente a aliança e consagração batismal.

A sociedade propõe vida fácil, consumismo, preocupação com o bem-estar pessoal acima do interesse coletivo, corrupção descarada, delação premiada, favorecimento do banditismo, sucesso financeiro, fama etc. E as atitudes verdadeiramente cristãs vão se perdendo pela vida afora. Se o cristão quiser se firmar no caminho da salvação precisa voltar seu olhar para Jesus Cristo. Seu parâmetro de ação deve ser sempre o Evangelho.

A parábola da figueira estéril provoca alguns questionamentos em nós: Para que serve uma religião sem conversão? Um culto sem mudança de atitudes? Um aparato religioso sem transformação social? Para que serve uma comunidade que vive de aparência? Para que um templo muito bonito e enfeitado, se a Igreja viva está abandonada, às traças?

Vale a pena cultivar a figueira. Ter um pouco de paciência. Mas se não se cavar e colocar adubo, ficará do mesmo jeito! Ou seja, é preciso instaurar um processo de transformação no terreno, ao redor do pé da figueira para que ela produza. É o processo que nos faz sair de nós mesmos. Quando gastamos a vida cuidando de uma pessoa pobre, ajudando a levar adiante um projeto social, visitando e cuidando de um doente, assumindo a responsabilidade familiar, vivendo e trabalhando de modo coerente, honesto e justo: esse empenho é que faz a diferença. São os frutos que o Agricultor quer encontrar. Do contrário, para que ficar ocupando a terra em vão? Que sentido tem ocupar um lugar na Criação se nossa vida não contribui para a construção de um mundo melhor? Que sentido faz ocupar um cargo de influência se o faço em benefício próprio? Para que assumir ministérios na comunidade se os assumo como cargos e funções que me dão reconhecimento social e não como serviço humilde aos irmãos?

É claro que a parábola nos convida à paciência! É preciso saber esperar. O tempo é de Deus. Mas não se pode deixar tudo para o final. E se não der mais tempo? O tempo de Deus é hoje. Não se pode contar com o amanhã. Não dizemos que o dia de amanhã pertence a Deus? Então! Não basta comer da “comida espiritual” nem beber da “bebida espiritual” (cf. 1Cor 10,2-3). Paulo emenda: “No entanto, a maioria deles não agradou a Deus” (1Cor 10,5). Por isso “Quem julga estar de pé tome cuidado para não cair” (1Cor 10,12).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN