Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

aurelius

aurelius

Quem faz a vontade de Deus não morre

aureliano, 15.08.25

IMG_20200720_104631856.jpg

Assunção de Nossa Senhora [17 de agosto de 2025]

 [Lc 1,39-56]

UM POUCO DE HISTÓRIA

A solenidade da Assunção de Maria, Mãe de Jesus, foi celebrada pela Igreja desde eras antigas. O nome da festa era Dormição de Maria. Isto é, Maria, depois de sua peregrinação neste mundo, ‘repousou no Senhor’. A celebração deste acontecimento está intimamente associada à ressurreição de Jesus. A Páscoa da Virgem traz no centro, não a Mãe, mas o Filho, para quem o olhar do fiel se deve voltar. Aquela que colaborou para a Encarnação do Filho de Deus deve participar da sua Ressurreição. Na festa da Assunção de Maria se revela aquilo que todo homem e mulher anseiam: ser acolhidos inteiramente no céu.

O dogma da Assunção da Bem Aventurada Virgem Maria, festejado a 15 de agosto, tem nomes diferentes, como Nossa Senhora da Boa Viagem, Nossa Senhora da Glória, Nossa Senhora dos Prazeres etc. Foi proclamado por Pio XII, em 1950, com a Bula ‘Munificentissimus Deus’, com o seguinte texto: Definimos ser dogma divinamente revelado: que a imaculada mãe de Deus, sempre virgem Maria, cumprindo o curso de sua vida terrena, foi assunta em corpo e alma à glória eterna”.

A bíblia não fala nada a respeito do final da vida de Maria. São João mostra que ela, aos pés da cruz, foi adotada pela comunidade como mãe (Jo 19, 27). Lucas nos diz que ela estava junto ao grupo que se preparava para a vinda do Espírito Santo, em Pentecostes (At 1,13s e 2,1). Então a bíblia não conta detalhes sobre o final da vida de Maria.

Nos primeiros séculos, os cristãos tinham o costume de guardar os restos mortais dos santos, especialmente dos apóstolos e mártires. Não há, porém, nenhuma notícia sobre o corpo de Maria. Alguns evangelhos chamados apócrifos, isto é, aqueles relatos sobre a vida de Jesus e dos atos apostólicos que não entraram na ‘lista’ (cânon) dos livros que a Igreja considerou inspirados por Deus, contam histórias da chamada Dormição de Maria. E assim, no século VIII, a devoção popular criou uma história para contar como se deu a morte e a ressurreição de Maria.

ASSUNÇÃO DE MARIA E RESSURREIÇÃO DE JESUS

O dogma da Assunção só pode ser compreendido em relação à Ressurreição de Jesus. Maria, diferente de nós, não precisou esperar o fim dos tempos para receber um corpo glorificado. Depois de sua vida terrena ela já está junto de Deus com o corpo transformado, cheio de graça e luz.

Ainda mais. Não podemos entender a Assunção como se Maria subisse ao céu com o corpo que ela possuía aqui na terra, com ossos, pele, carne, sangue. Não é assim que a Igreja interpreta a ressurreição dos mortos. O corpo de Jesus ressuscitado e o de Maria assunta foram transformados e assumidos por Deus. Paulo deixa bem claro: “... O mesmo se dá com a ressurreição dos mortos: semeado corruptível, o corpo ressuscita incorruptível; semeado desprezível, ressuscita reluzente de glória; semeado na fraqueza, ressuscita cheio de força; semeado corpo psíquico, ressuscita corpo espiritual” (1Cor 15,42-44a).  Por isso cremos que Maria já está glorificada junto de Deus, toda inteira. Ela antecipa o que está prometido para cada um de nós: participar do banquete da Vida que o Senhor preparou para “aqueles que o amam” (cf. 1Cor 2,9).

O cântico de Maria no evangelho de hoje diz que o Senhor “olhou para a humildade de sua serva. Doravante todas as gerações me chamarão de bem-aventurada, pois o Todo-Poderoso fez grandes coisas em meu favor... Agiu com a força de seu braço, dispersou os homens de coração orgulhoso. Depôs os poderosos de seus tronos, e a humildes exaltou”. Aí está a ação de Deus na vida de Maria, a humilde serva do Senhor, que decidiu responder sim ao chamado de Deus para participar na obra da salvação da humanidade. Sua humildade e fidelidade ao projeto do Reino de Deus lhe valeram a participação na glória de Deus, ao lado de seu Filho. Maria é aqui figura da Igreja, que deve levar adiante, não obstante as perseguições e sua pequenez, a missão de Jesus.

REFLETINDO SOBRE O EVANGELHO DE HOJE

O evangelho da liturgia de hoje traz dois relatos: a Visita de Maria a Isabel e o chamado ‘Cântico de Maria’. O primeiro mostra Maria como aquela que assumiu inteiramente o projeto do Pai na sua vida. Não mede esforços para prestar um serviço à sua parenta em necessidade. E no seu encontro com Isabel manifesta-se a sua fé profunda: “Feliz aquela que acreditou, pois o que lhe foi dito da parte do Senhor será cumprido”. Todo aquele que deposita sua confiança em Deus, colaborando na realização do sonho de Deus para a humanidade, é feliz. O relato manifesta também o reconhecimento por parte de Isabel de que aquele que Maria trazia no seio é o Senhor: “Donde me vem que a mãe do meu Senhor me visite?”. Maria é Mãe de Deus e bem-aventurada: “Bendita és tu entre as mulheres”.

O segundo relato é um hino inspirado no cântico de Ana (1Sm 2, 1-10) que canta a ação de Deus em favor da humanidade. É um hino jubiloso que proclama a derrubada dos poderosos e a elevação dos humildes pela ação de Deus em Jesus. É a oração dos pobres que confiam em Deus e no seu poder sobre o mal. Um hino que empenha o fiel nessa luta como Maria.

CONSEQUÊNCIAS PARA A VIDA CRISTÃ

Quando lemos o evangelho e vemos Maria assumindo como primeira atitude, depois de ter acolhido em seu seio o Filho de Deus, a de levar seus préstimos para a prima Isabel, somos levados a pensar em nossas atitudes. Nossa sociedade se deixa levar cada vez mais por uma atitude egoísta que leva a terceirizar a caridade e os cuidados para com aqueles que, por vezes, de dentro da nossa casa, são considerados peso e empecilho para passeios, curtição, jogos, prazeres, baladas...

Mas é preciso ressaltar, porém, que ainda nos deparamos com famílias que cuidam dos seus familiares com afeto, carinho, respeito e dedicação. Pessoas com necessidades especiais cuidadas com um zelo divinal, marial. Uma presença muito parecida com a de Maria: escuta da pessoa idosa que quer contar um caso, visita a um casal em dificuldade de relacionamento entre si ou com os filhos, presença nos abrigos, asilos, orfanatos e hospitais onde se encontram pessoas passando por sofrimento e dificuldades.

Para além dos gestos personalizados de caridade, faz-se necessário empenho na luta por políticas públicas que atendam às necessidades dos menos favorecidos. Refletir seriamente, iluminados pela Palavra de Deus e da Igreja, sobre em quem votar para o exercício de cargos públicos. Participação em conselhos comunitários e associações que se empenham pelos direitos do cidadão e da comunidade, sobretudo nestes últimos tempos em que houve grandes perdas de direitos adquiridos. São gestos simples que nos colocam em sintonia com o ensinamento de Jesus e com as atitudes de fidelidade de Maria, sua Mãe. Recordando a recomendação insistente do saudoso Papa Francisco: por uma “Igreja em saída”, como “hospital de campanha” que não pergunta pelos motivos das feridas, mas que se preocupa em cuidar, aliviar o sofrimento.

A glorificação de Maria foi o resultado do seu peregrinar à luz de Deus nesse mundo. Cada vez que ela dava novos passos para seguir a Jesus, para buscar a vontade de Deus, o Senhor assumia e transformava sua pessoa. Até que chegou o momento final. É o que está reservado para nós! Na vida de fé, cada passo novo que damos é uma resposta ao amor da parte de Deus a nos acolher, tomar pela mão, assumir e transformar. A nós resta-nos deixar que Deus nos tome pela mão e nos faça discípulos fiéis, dedicados, humildes e perseverantes como Maria, enquanto aguardamos a bendita esperança da ressurreição.

-----------xxxxx------------

*“É tempo de júbilo em nossa vida”. É o tema escolhido para ajudar as famílias a rezar suas realidades à luz de Deus e experimentar o júbilo, a alegria de pertencer a Deus. Dom José Gilson, bispo de Caxias do Sul/RS, deixa uma mensagem linda para as famílias: “É uma graça de Deus podermos a cada ano refletir sobre a realidade da família, a partir dos valores do Evangelho e dos ensinamentos da Igreja, tendo presente que a família marca profundamente a vida de todos nós, porque levamos para a vida os valores que nela recebemos. Nas últimas décadas a família passou por grandes transformações, algumas das quais fragilizaram profundamente a estrutura familiar. Mas nas famílias tem certas coisas que não deveriam mudar: o amor recíproco entre os pais, amor acompanhado de respeito mútuo, de diálogo, de perdão, de reconciliação; amor que expressa ternura dos pais em relação aos filhos; amor, gratidão e respeito dos filhos em relação aos pais”.

Envolvidos pela onda capitalista, relativista e neoliberal, por vezes, os pais se preocupam somente em proporcionar uma profissão rendosa, um futuro brilhante para os filhos. Isso é um golpe na proposta de Jesus que veio “para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Dinheiro, carreira profissional, poder, sucesso não preenchem o coração humano, não plenificam o sentido de vida. É só olhar a vida dos santos: São Francisco, Santo Inácio, Santa Dulce dos Pobres, Servo de Deus Pe. Júlio Maria etc. Deixaram um futuro cheio de sucesso e de brilho para assumir na vida os valores do evangelho que recomenda: “Não acumuleis para vós tesouros na terra, onde as traças e os vermes arruínam tudo, onde os ladrões arrombam as paredes para roubar” (Mt 6,19).

**Dia dos religiosos e religiosas: Nosso abraço carinhoso às pessoas consagradas nesse seu dia: deixaram tudo para viver mais radicalmente o evangelho, numa vida semelhante à do Filho de Deus: pobre, casto e obediente. Um serviço generoso ao Reino “para que todos tenham vida”. Uma vida pobre na solidariedade com os empobrecidos, ‘sobrantes’, ‘invisíveis’, ‘descartáveis’ e na busca da partilha dos bens e dos dons: mesa comum. Uma vida obediente na solidariedade com os que não são ouvidos nem levados em conta: ouvidos atentos ao Pai e aos sinais dos tempos. Anúncio do Reino de Deus e denúncia dos males perpetrados contra a humanidade. Uma vida celibatária consagrada em solidariedade com aqueles que sofrem por falta de amor, de afeto; com aqueles e aquelas que não podem experimentar a beleza e a alegria da acolhida afetuosa e gratuita: abandonados, deserdados, abusados, explorados afetiva e sexualmente; uma contestação de uma sociedade baseada na busca do prazer ao preço da dignidade da pessoa humana. Que Maria, nossa boa Mãe, nos ajude a viver com alegria nossa consagração para que seja um “sacrifício de louvor” (cf. Hb 13,15-16).

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

A alegria que brota de uma fé operante

aureliano, 17.12.21

4º Domingo do Advento [19 de dezembro de 2021]

[Lc 1,39-45]

Depois de celebrarmos o Domingo da Alegria, a proximidade da celebração do grande Dom de Deus para humanidade, a Igreja nos chama a dar mais uma olhadinha para dentro de nós. Se no domingo passado (Lc 3,10-18), João Batista nos chamava a uma mudança de atitude diante da vida, uma postura ética responsável: “que devemos fazer?”, hoje se nos é apresentada a figura de Maria, Mãe de Jesus, como modelo de mulher de fé consequente.

O evangelho relata o episódio do encontro de duas mulheres: Maria e Isabel. Os varões não aparecem - nem José! Duas mulheres de fé profunda, convicta. Uma, a Mãe do Senhor; outra, a mãe do Precursor. Em inteira disponibilidade nas mãos do Pai. Disseram com o Filho: “Eu vim, ó Deus, para fazer vossa vontade” (Hb 10,9). Não buscam a si mesmas. Colocam toda sua vida, na juventude ou na senectude, a serviço do Senhor. – Felizes dos filhos cujas mães são cheias de fé, plenas de Deus, cheias de alegria, tomadas pelo espírito de serviço!

O relato evangélico nos faz notar que a fé acolhida e vivida traz profunda alegria. Maria, ao aproximar-se e saudar Isabel grávida, faz a criança saltar de alegria no ventre da mãe. Não o faz pela própria força, mas pela ação do Redentor que ora traz em seu seio. Aquela Força do Alto trazida por Maria em seu ventre, provoca a alegria em João e enche Isabel do Espírito Santo. Então, quando Maria diz sim ao Pai e assume participar do projeto de salvação da humanidade, leva a alegria ao coração das pessoas, pois ela mesma já recebera a Alegria de Deus: “Alegra-te, cheia de graça”.

E Isabel exclama: “Feliz és tu que creste”. É o reconhecimento de que Maria era uma mulher plena da felicidade que brota de uma fé acolhida e vivida com intensidade. E vê em Maria aquela escolhida para trazer a Bênção de que a humanidade precisava para ser feliz: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre”.

Ouçamos ainda o que diz Santo Ambrósio:

Repara como cada palavra está escolhida com perfeita precisão e propriedade: Isabel foi a primeira a escutar a voz, mas João foi o primeiro a pressentir a graça. Aquela escutou segundo a ordem da natureza; este exultou em virtude do mistério. Ela apreendeu a chegada de Maria; este, a do Senhor. A mulher ouviu a voz da mulher; o menino sentiu a presença do Filho. Aquelas proclamam a graça de Deus, estes realizam-na interiormente, iniciando no seio de suas mães o mistério de piedade. E por um duplo milagre, as mães profetizam sob a inspiração de seus filhos.

   O filho exultou de alegria; a mãe ficou cheia do Espírito Santo. A mãe não se antecipou ao filho; foi este que, uma vez cheio do Espírito Santo, o comunicou a sua mãe. João exultou; igualmente exultou o espírito de Maria. A alegria de João comunica-se a Isabel; de Maria, porém, não se nos diz que recebesse então o Espírito, mas que o seu espírito exultou de alegria. – Aquele que é incompreensível atuava já em sua Mãe de maneira incompreensível –. Enfim, Isabel recebe o Espírito Santo depois de conceber, Maria recebera o Espírito Santo antes de conceber. Por isso, Isabel diz a Maria: “Feliz de ti, que acreditaste” (Ofício das Leituras do dia 21 de dezembro).

Outro elemento que brota de uma fé amadurecida é a capacidade de aproximação. Vejamos: logo que recebera o anúncio do anjo, “Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judéia”. O encontro com o Senhor, a acolhida generosa da missão que lhe fora confiada, a notícia de que sua parenta estava grávida em idade avançada despertaram na Jovem de Nazaré o sentimento de solidariedade, de presença, de aproximação.

Ao “por-se a caminho”, Maria nos ensina a necessidade da saída. Uma fé que não nos coloca a caminho, que não provoca em nós movimento de proximidade dos mais necessitados, é uma fé morta, no dizer da Carta de Tiago (Tg 2,14). Nossa sociedade está a caminho daquilo que Jürgen Moltmann chamava de “segregarismo social”. Ou seja, tendemos a criar espaços de ajuntamento das pessoas de acordo com sua classe e necessidades: ajuntar as crianças em situação de risco ou em outras necessidades, na creche; amontoar os idosos nos asilos; confinar os delinquentes na prisão; colocar dependentes de drogas em Casas de Recuperação. 

É claro que, em certa medida, estes espaços são necessários e extremamente úteis. Percorrendo a biografia dos Santos, sobretudo dos fundadores de ordens e congregações religiosas, vemo-los preocupados com essa situação e buscando meios de reunir essas categorias de pessoas em espaços apropriados para que tivessem qualidade de vida. O problema que coloco é a terceirização dos cuidados para se “livrar”’ da pessoa. Por exemplo: ao colocar no asilo o idoso da minha casa, me livro de um “peso” que me impedia de “gozar a vida”. Segrega enquanto se constitui em busca de acercar-se de pessoas saudáveis, sem problemas. É uma forma de eugenismo, de purificação social: é preciso “limpar” a área! Realidade triste! O mesmo se pode dizer em relação aos migrantes. Negar-lhes acolhida, deixá-los morrer à míngua ou submetê-los a trabalho escravo porque eles “incham” nosso País. Não nos esqueçamos de que somos todos caminheiros, peregrinos. Peregrinamos para o fim da vida e para o “outro lado” da História.

Bem. Se se compreende a vida a partir do imediatismo, do presentismo, do gozo em detrimento dos pobres, o batismo, que nos comunica a fé, ficará desprovido de sentido. Os gestos de Jesus e de Maria, indicativos de uma fé autêntica, não encontrarão eco em nossa vida. Por conseguinte, experimentaremos, ao invés da alegria, um vazio infernal.

E não há necessidade de se fazerem coisas extraordinárias. Basta aproximar-se do vizinho entristecido; visitar e ouvir um velhinho marcado pela solidão; dar uma palavra de conforto à mãe cujo filho está na prisão; alegrar o rosto de uma criança entristecida pela separação dos pais; fazer uma visitinha a alguém que perdeu um ente querido. Emprestar o ouvido a pessoas que não têm com quem falar de suas dores e angústias. Juntar-se às pessoas que pensam e planejam organizar a rua, o bairro, o córrego em prol das políticas públicas para toda a comunidade. Enfim, são pequenos gestos, mas que dão sentido à nossa vida porque nos colocam em sintonia com o evangelho. São expressões de fé autêntica, coerente. Foi isto que Maria fez. Por isto mereceu as palavras: “És feliz porque creste”.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN